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30 dezembro 2016

Melhor será sempre acreditar


Usei recentemente esta fotografia, tirada na casa museu Júlio Verne em Amiens, para ilustrar o texto abaixo copiado, de Fernando Pessoa.

Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão.

Invocar estes temas associando-lhes um barco na casa do grande sonhador das “viagens extraordinárias”, não é coisa vã. No entanto, o barco da imagem não é a representação de nenhuma criação fantástica do escritor. Trata-se do real transatlântico “Great Eastern”, um enorme navio da altura, no qual J. Vernes viajou até aos EUA e lhe inspirou o romance “Uma Cidade Flutuante”. Onde pretendo chegar, e a ambiguidade da imagem quanto à natureza da viagem evocada para isso contribui, é à reflexão de que o limite entre os sonhos possíveis e os impossíveis, pode não ser tão clara como o entre ter sido um imperador romano ou falar com a rapariga com quem nos cruzamos todos os dias na rua.

Aliás, uma vez que Álvaro de Campos declarava “tenho em mim todos os sonhos de mundo”, seria interessante assistir a uma discussão entre ele e o seu “companheiro de quarto”, Bernardo Soares, quanto à classificação, binária, de cada um desses sonhos. Mesmo que não tem todos, todos, os sonhos do mundo e simplesmente sonha alguma coisa nova para cada novo ano, terá problema idêntico.

E desistir da Lua, por a achar inalcançável quando, mais tarde, ela poder passar bem próxima à nossa frente? Na dúvida é sempre preferível em tudo acreditar, mesmo correndo o risco de nada entender… do que o inverso.

15 junho 2016

Estes dias de junho…


Estes dias de junho são um pouco particulares para mim. Em tempos idos, marcavam o fim do período letivo e a descompressão do início das férias, com um certo cheiro de festa. Em termos biológicos, os dias alongados e o golpe de calor pesam-me. Tenho sempre alguma dificuldade em habituar-me a aumentos de temperatura bruscos.

Por estes dias viajei de Paris a Constantine, Argélia, na Air Algérie, em período de Ramadão, que, nesta altura do ano, representa cerca de 17 horas de abstinência. A hora prevista de aterragem era às 19h15 e o fim do jejum estava previsto para pouco antes das 20h. Apesar de em circunstâncias normais uma hora de atraso ser norma, desta vez não havia tempo a perder. Chegado o autocarro ao avião antes dos passageiros com necessidade de assistência especial, o comandante anunciou: ou os “doentes” estão cá dentro de 5 minutos, ou já não entram. Felizmente chegaram e entraram. Ainda havia umas 9 pessoas de pé e com sacos no corredor e o avião já mexia e manobrava, para sair do ponto de estacionamento. Felizmente conseguiram sentar-se e arrumar os sacos antes da descolagem. 
Não me apercebi se a contagem de passageiros chegou a ser feita. A minha janela de emergência, a da fotografia, tinha aspeto de já ter sofrido alguma urgência. 

Chegamos a horas a Constantine. Fiquei bem instalado. Apesar de inicialmente de me enviarem para um quarto já ocupado, felizmente a chave não abriu, e depois para um piso supostamente fora de serviço, com os corredores sem iluminação. Felizmente os telemóveis servem de lanterna, No dia seguinte a temperatura andava pelos 40 graus, provocando-me o tal golpe de calor. No final do dia, sentia-me pesado e quebrado, apesar de ter comido e bebido…

26 maio 2016

Nomadismo laboral


Um destes dias, em Kenitra, Marrocos, depois de concluída a reunião do início da manhã e comprado o bilhete do comboio para Tanger das 11h25, sentei-me numa esplanada ao lado da estação. Abri o computador, liguei-me à internet, respondi às mensagens pendentes, fiz o relatório da reunião da manhã, acompanhei a evolução de umas encomendas e até fiz um desvio pessoal pelo banco.

Entretanto, o transito passava na rua à minha frente, dois engraxadores vieram oferecer os seus serviços e eu continuei, pouco menos do que imperturbável a bater nas teclas. Curiosamente, era o meu 6º local de trabalho improvisado em 24 horas e já sem contar as consultas apressadas ao telemóvel, com um olho a ler e outro a espreitar o próximo obstáculo do caminho. No início da manhã anterior tinha aberto praça na sala de espera de Campanhã, a seguir no comboio Porto – Lisboa, depois num cantinho estratégico do aeroporto de Lisboa que tem uma tomada elétrica ao lado, depois no comboio Casablanca – Kenitra e finalmente no hotel. Desses 6 locais, 5 eram públicos.

Numa reflexão, ao assistir ao à vontade com que abri o PC e me instalei na esplanada, questionei-me. Se estivesse a fazer isto no meu local de trabalho fixo, trabalharia de forma muito diferente? Tirando um certo stress de controlar o relógio para não perder o comboio, a resposta, curiosamente, é: não. Não seria muito diferente. Sem chegar ao ponto de dizer que ficaria perturbado com a tranquilidade, embora, no futuro, quem sabe…

PS. E logo a seguir voltei a montar tenda no comboio Kenitra – Tanger.
E o monitor está escurecido para poupar a bateria...

28 fevereiro 2016

Perímetro mágico (Sul)


Continuando...

Do lado Sul do rio mágico (poupando repetir o nome), a estrada foge descaradamente para sul. É um abuso! Rapidamente estamos fora do Douro e já a cheirar a Beiras.

Ao regressar para o norte, logo que possível, ir a correr rever e cumprimentar o rio. Ali para os lados de Almendra, há um desvio obrigatório: a estação, desativada, de CF do mesmo nome. Um anfiteatro abandonado, uma praia fluvial de barcos perdidos, o edifício cai em ruinas e os carris vão desaparecendo levados por outras ações, menos da natureza. Apenas lá chegar e parar para respirar o local vale a pena. Se possível acrescentar uma caminhada pela antiga linha.

Segue-se o arranjadinho Castelo Melhor, local de uma das saídas para as visitas das tais gravuras. Na descida, a vista sobre Erva Moira, do outro lado do rio, é de ficar calado. Antes de Foz Coa, subir à capela de S Gabriel e já começo a ficar sem adjetivos para caraterizar os locais. Se depois de ver o Museu de Foz Coa, que vale tanto o edifício/local como o recheio, mergulhar em ziguezague apertado até… ao rio. Que mais poderia ser… !

26 fevereiro 2016

Perímetro mágico (norte)


Grosso modo, saindo de Torre de Moncorvo até Freixo de Espada à Cinta, pelo largo, correndo a seguir o Douro internacional até Barca de Alva, avançando até Foz Coa, pelo largo, e regressando ao ponto de partida, fica definido um perímetro muito especial. É por lá que serpenteia o meu percurso das amendoeiras nesta altura do ano, mas também vale a pena na primavera, no verão, ou em qualquer altura. Como é habitual, quanto pior a estrada, mais interessante a paisagem.

Começando pelo lado norte do Douro, tanto estamos a beijar o rio junto ao cavalinho de Mazouco, como logo a seguir respiramos devagarinho no alto do assombroso Penedo Durão, guardado pelos seus grifos e demais passarada. É o limite leste dum acidente geológico que vai acabar a oeste na ribeira do Mosteiro. Se no penedo a coisa é simples, apenas uma parede vertical com cerca de 300 m de altura, na outra extremidade é mesmo um acidente. Precisava de lá ir com um geólogo para me traduzir o significado de tanta rocha subida, descida, curvada, aflorada, dificilmente entendida como resultado de um fenómeno natural. De um lado da ribeira corre uma estrada com uma vista única no país (que eu conheço). Não me lembro de ver em mais nenhum local uma garganta quadrada assim … do outro lado, a calçada de alpajares que, não sendo um fim do mundo, é do que mais parecido se pode encontrar.

Para acabar, sair de Barca de Alva na margem norte do rio, sim há lá uma estrada, subindo e respeitosamente abrindo a vista sobre o rio e as suas colinas a sul até terras de Castelo Rodrigo. A estrada e os viajantes podem perder-se pela serra de Moncorvo ou vir depois encostar ao rio e acompanhar carinhosamente a albufeira do pocinho até à barragem do mesmo nome.

Continua...


18 abril 2008

Hit the road – Go West!!! (5 e fim)

5. Oran
457 km depois de sair e após 6h47 minutos sem levantar o rabo do assento do automóvel, desligo o motor no parque de estacionamento do hotel em Oran. Conhecida por ser a cidade da folia, dos bares e do “rai”, da “boa vida”. Mas nada disso. O hotel está na periferia, junto ao aeroporto e dali já não mexo mais. Somente na manhã seguinte às 11h30 para novos 400 e tal km’s, somente um pouco mais moído.

Na saída uma imagem rápida dos novos complexos residenciais, feitos a todo o vapor. O objectivo é realizar um milhão até 2009 em todo o país. Parece que a velocidade actual não o vai permitir mas tenho a certeza de uma coisa. A velocidade de degradação não ficará muito longe da velocidade de construção, quiçá até um nada mais rápida.
Um apontamento final para um veículo de tracção animal atravessando a auto-estrada, que pelos vistos, quando abre é para todos.

13 abril 2008

Hit the road! Go West!!! (4)

4. O Mar
O mar adivinha-se. Há qualquer coisa que diz que ali atrás está o mar. E não é cheiro nem ruído, é uma influência que molda o ritmo das coisas.

A zona de alta de Mostaganem é bonita e poderíamos estar ali para trás de Silves, naquele mediterrâneo tranquilo recuado da linha de água. Até mesmo os cemitérios estão discretamente inseridos nos olivais.
E, de repente, aí está ele, o mar as dunas e tudo. A partir daqui é auto-estrada a correr a costa até Oran, passando por uma singela referência ao meridiano pai de todos os outros. Bom, há quem diga que não é bem assim. O meridiano pai, pai, era o de Alexandria que até marcou a divisão entre a Europa e a Ásia. Este foi escolhido posteriormente quando a civilização veio para Oeste e os Ingleses, espertos, lá puserem um Greenwich no sítio.

01 abril 2007

Memória de uma viagem



Era primeiro de Abril e não era engano. Pela primeira vez, em muitos anos, tinha o tempo todo à minha frente e não me apeteceu começá-lo parado em casa. Peguei nuns pontos da Portugália, que em circunstâncias normais tinham tendência a expirar por não utilização dentro do prazo de validade, e que também servem para pagar hotéis, nuns contactos dumas pensões alentejanas, embrulhei umas tralhas, pus a bicicleta, a máquina fotográfica e o tripé na mala do carro e parti.

Cruzei calmamente o país até Vila Real de Santo António e regressei. Fui andando e parando, arriscando quelhos e adivinhando caminhos. A cada paragem carreguei a máquina e o tripé, avancei e recuei, acertando o enquadramento sem pressas e, por vezes, esperando mesmo pela luz mais adequada.

Guardo a memória de um Alentejo deslumbrante, até emocionante de tanta cor e tanto espaço vibrante. Bem diferente daquele espaço queimado e cansado que se atravessa a correr no Verão de janelas fechadas e ar condicionado ligado, lembrando de como era duro fazê-lo no tempo em que este luxo ainda não existia.

Guardo a memória das pequenas estradas do Sotavento Algarvio e de palmilhar praias e dunas desertas.

Guardo a memória de uma viagem de sonho bastante barata, mas como nunca até então tinha feito e como provavelmente tão cedo não poderei voltar fazer, pelo menos no mesmo ritmo. E guardo também as 600 fotos.

08 janeiro 2006

Viagem só de quem erra



Enquanto avança, enquanto sobe, o viajante abraça a montanha.

Avalia a altura que sob os seus pés escoa. Aprecia os panoramas, que em ângulos secretos lhe chegam. Ziguezagueia em caprichos que tenta adivinhar. E por vezes desce para adiante recuperar. E suspende a subida, para mais à frente relançar.

Difícil imaginar melhor brinquedo, exercício mental mais salutar.

Mas o topo é terrível! A panorâmica de 360º é um vazio, uma intimidade violada. Já nada se espera, já nada se avalia. Todos os sentidos se congelam numa expectativa encerrada. O ar é tão opressivo, e tão só, que não se aguenta muito tempo. E, como não há outro sítio para onde ir, recua-se pela encosta.

A altura já não se mede, as vistas não se renovam. Ao que se junta um certo travo de marinheiro, que após um oceano atravessar, regressa pelo mesmo caminho porque não encontrou porto onde o barco arrimar.

No fim, o balanço incapaz: entre o gozo da subida, a crueza do topo e o amargo do regresso.

E há que recomeçar, nova montanha procurar. E inconsciente acreditar que esta terá no topo um lugar onde é bom estar. Porque a sua encosta será infinita!