26 dezembro 2016

De líder para capataz

Quem manda nas empresas serão, obviamente, os seus donos (à exceção das empresas públicas onde os donos somos todos nós e mandam os políticos). Quem são os donos das empresas será teoricamente relativamente fácil de identificar, pelo menos formalmente. Há, no entanto, diferenças enormes entre o tipo de donos e o perfil de quem manda.

Há empresas com dono claro e próximo, com personificação da liderança, onde o líder faz parte da equipa que com ela se confunde, se necessário for. Ganhará certamente mais do que os demais, mas não será frequente esse fator chegar às centenas de vezes. Essas são as empresas familiares, seja no sentido da propriedade propriamente dita, seja pelo sentimento de todos pertencerem a uma família. Velhos tempos…

Depois há outras com dono volátil, eventualmente anónimo e/ou coletivo, onde cada um pode nem saber bem o que tem em cada momento. Os donos entram e saem individualmente ou em bloco. No fundo, muitos apenas entregaram as suas poupanças a uns profissionais que se encarregam de as rentabilizar, de fundo em fundo.

Os capatazes, nomeados pelos “financeiros”, não fazem parte da equipa, estão lá a cumprir uma missão, de “criar valor para o acionista” (e em caso de sucesso ficam com uma parte substancial desse valor no seu bolso). É de bom-tom dourar a receita com uma série de declarações de intenções e de princípios, evocar pomposamente teorias e princípios de gestão, devidamente decoradas com chavões e palavrões (in english please…), quando, no fundo, se está simplesmente a cortar a direito para os resultados do próximo trimestre. Se isso envolver comprar um pomar e for vantajoso cortar as árvores e vender a madeira, siga…! Os recursos humanos da empresa são apenas um dos ativos, a rentabilizar da melhor forma. Novos tempos?

Faz sentido? Se calhar fará, porque a tendência do mundo está mais neste sentido do que no outro e, reconheça-se, sem “valor criado para o acionista”, não há acionistas e as empresas não sobrevivem. No entanto, uma empresa sem líder efetivo, é um pomar que não sabe se amanhã produzirá cerejas ou se será vendido para uma serração e, com contas ao trimestre, dificilmente se plantará alguma vez um pomar.

8 comentários:

Jorge Neves disse...

Muito bem mas com uma nuance.Se fosse criar valor para o acionista não estaria mal, mas essa estratégia exige tempo. Para mim,actualmente,a frase correta é sacar o máximo para o acionista, mesmo que se comprometa o futuro. Haverá sempre alguém para apagar a luz.

Maria Joao Morgado disse...

Eu já não comento porque o Jorge Neves disse tudo!!! :)

Carlos Sampaio disse...

Jorge Neves,

Quando o valor se mede ao trimestre os conceitos de criar valor/sacar confundem-se, não...?

josedemelo disse...

Verifico que o Jorge está a ficar um perigoso esquerdelho.
À beira dele me sinto à direita do PSD

Jorge Neves disse...

O meu amigo Melo, pragmático como é, cataloga tudo em direita e esquerda que é a atual doença portuguesa.Que tal começar a usar palavras como, honestidade, competência, responsabilidade etc. Como sabemos todos, o apetite por dinheiro é universal.

josedemelo disse...

O Jorge eu não quiz catalogar nada
Se se sentiu catalogado peço desculpa

Por outras palavras eu só disse que o seu comentário seria subscrito pelo bloco de esquerda
Não acha?
Quanto às palavras que me pede para usar desculpe me mas o Jorge conhece me bem e acho que não tinha necessidade de as usar contra mim
Com MT respeito o seu amigo
Josedemelo

Jorge Neves disse...

Caro Melo, desculpe lá, mas não me senti atingido, nem minimamente melindrado, e muito menos quis usar palavras contra si. O que eu queria dizer em relação a muitos gestores e se calhar não fui claro, é que retiram das empresas todos os dividendos que podem,e os investimentos são com financiamentos bancários. Depois aparecem as chamadas imparidades e quem paga? Os do costume porque os bancos estão falidos.
E isto é transversal, acontece com gestores conotados com a esquerda, como com a direita. Veja o caso paradigmático da empresa que conhecíamos bem e diversas empresas publicas que nem vale a pena enunciar. Por isso disse que o importante é que os dirigentes sejam competentes,responsáveis e honestos. A cor da camisola fica na portaria.
Quanto a este paleio poder ser subscrito pelo BE é possível, isto é "La Palisse".
Estamos esclarecidos
Um abraço

josedemelo disse...

Sim
Estamos esclarecidos
Obrigado
Um abraço
Josedemelo