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14 outubro 2016

O que é a literatura?

Dizem os dicionários que a literatura é a arte da palavra, de compor obras em que a linguagem é usada esteticamente. Não me parece que obrigue à produção de tijolos de 500 páginas. Também não penso que as palavras deixam de ser arte quando manifestadas conjuntamente com a música. Aliás, há quem defenda que a poesia deve ser cantada.

O Prémio Nobel da literatura para Bob Dylan não premeia a música, premeia as palavras de um trovador e só por snobismo se pode pretender que essas e outras trovas não são arte de palavras. Dentro do género, é difícil dizer que Dylan será o mais merecedor. Eu, pessoalmente, veria com muito apreço e justiça um reconhecimento literário de Jacques Brel.

Descendo aqui ao nosso burgo. Alguém dúvida ou questiona a excelência literária de Sérgio Godinho ou Carlos Tê?

26 dezembro 2013

Descobri um tesouro

Há umas semanas atrás fui ver um espectáculo ao vivo do Carlos do Carmo… e não gostei muito. É uma história longa. Na infância eu detestava-o e/porque sucedia ele passar horas largas a fio, como protagonista único do leitor de cartuchos do carro do meu pai. Quando mais tarde o passei a apreciar, conhecia tudo de cor. Agora, quando o ouço cantar/dizer “Duas lágrimas de orvalho…” com um timbre algo oscilante, a fugir entre o cantar e o declamar, não deixo de recordar perfeitamente a forma cristalina e forte como aquilo saía nos cartuchos do meu pai… e a sensação de perda é enorme.

Lá no meio do espectáculo referiu os Açores, cantou “O Sol preguntou à Lua…” e soou-me muito pastoso, sem garra. Lembrei-me de que conhecia isso diferente, para muito melhor, pelo grande, de corpo e alma, Adriano Correia de Oliveira. Fui a correr ouvir para “desenjoar”!

Ao explorar um pouco mais a obra de Adriano descobri que esse tal “Sol…” além de fazer parte do álbum “Cantaremos”, que possuo, também estava integrado numa compilação/gravação que ele fez pouco antes de morrer, chamada “Cantigas Portuguesas”. Andei às voltas. Não é fácil encontrar hoje em dia produções de qualidade com alguma idade e acabei por comprar uma caixa com a obra completa, mesmo implicando alguma redundância com os 3 álbuns que eu já tinha. E, lá estavam as “Cantigas Portuguesas”, em que o Adriano, mais conhecido pelos fados e trovas, canta num registo popular extraordinário, belo e forte da Charamba dos Açores ao Vira do Minho! Aquele senhor cantava mesmo muito bem!

E isto deu-me vontade de contar a minha história com a música tradicional portuguesa. Vale o que vale, virá a seguir!

PS: E sobre Adriano, algo mais está aqui

24 maio 2008

Festival como este? Não, nunca mais….”



Os que estão abaixo dos “entas” não sabem nem imaginam o que era o Festival da Canção há 30 e tal anos atrás. Um verdadeiro acontecimento nacional com o país especado em frente ao televisor vendo passar basicamente os mesmos e esperando ansioso pelo fim da estrepitosa votação telefónica dos vários distritos: “Allo Viseu! Viseu? Viseu!!! Viseu, esperamos a sua votação! … estamos com problemas de ligação com Viseu… ”

Esse interesse seria provavelmente devido à escassez de espectáculos de entretenimento e de “palcos”. O que é certo é que o 25 de Abril mudou muita coisa e isso também. À procura de detalhes sobre um famoso concurso de um quente 1975, encontrei este sítio que tem lá tudo de tudo. Giro para os “entas”.

Voltando a esse concurso de 75, o júri era composto pelos autores das canções participantes. Não seria bem uma forma de juiz em causa própria, mas mais uma espécie de “auto-avaliação”, na altura em que estava na moda a “auto-gestão” e que poupou umas chamadas longas e complicadas para Viseu, Vila Real e Bragança.

Os participantes tinham mensagens curiosas. Estavam lá uns habituais Paco Bandeira dizendo que “sou o estandarte novo desta muralha, sou a batalha-povo que em mim se ganha” e um Paulo de Carvalho trazendo histórias de “Com um arma, com uma flor” em que “em Abril, Abril, […] nasceram bandeiras da cor deste sangue”.

Um tal Carlos Carvalheiro cantava um tema de Sérgio Godinho, anunciando que andava uma “boca de lobo a morder na nuca do povo”. Outro tal de Fernando Gaspar contava que "o leilão da lata vai terminar quando a barraca for pelo ar […] na terra vermelha nasce uma fonte”.

Jorge Palma, para lá de um tema “seu”, ao pianinho, vinha ainda com Fernando Girão informar que “diz o povo que o pecado essencial é o capital”. O registo mais assinalável pertencia, no entanto, a José Mário Branco e “pela terra que lhes rouba esse canalha dos monopólios e grandes proprietários, camponeses lutam pela reforma agrária p’ra dar a terra àquele que a trabalha”.

A coisa não correu muito bem porque, apesar de tanto fervor e tantos autores alinhados, quem ganhou foi Duarte Mendes com um "Madrugar" que era assim uma ligeira evocação dos amanhãs que cantam. Foi tamanha a decepção e a confusão, quase chegando a vias de facto, que José Mário Branco fez uma declaração histórica: A canção escolhida ira representar a burguesia na palhaçada de Estocolmo e que, para isso, o “Alerta” não servia. Só não explicou porque participou.

Enfim, um ano bem transitório, em que se cruzaram num palco a perder protagonismo, protagonistas a caminho de outros palcos.