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29 agosto 2025

Ser comunista (III)

 3)       Marxismo hoje

Quase dois séculos decorridos desde o estabelecimento das teorias de Karl Marx, os regimes políticos na Europa/Ocidente estabilizaram nos seus fundamentais e algumas experiências de marxismo foram realizadas por esse mundo fora, todas indiscutivelmente sem sucesso.

Deixando de lado as derivas criminosas como o estalinismo ou os khmers vermelhos, o certo é que a coletivização e estatização da economia não trouxeram prosperidade em nenhuma latitude onde foram testadas, pelos menos comparando com os países liberais e capitalistas. Funcionário dificilmente rima com inovador.

Alguns partidos socialistas europeus, que até incluíam o marxismo na sua certidão de nascimento, fatalmente colocaram-no na gaveta ao chegarem ao poder e ao serem confrontados com a realidade. Sim, falo da famosa frase de Mário Soares e também, por exemplo, da mais recente metamorfose do Syriza na Grécia.

Ninguém, no poder, defende largos programas de estatização da economia. As nacionalizações que vemos são boias de salvamento pontuais, lançadas a empresas “estratégicas” em dificuldade (por norma com sucesso muito questionável), mas não parte de uma política intervencionista geral.

Sem pôr em causa o modelo fundamental, os inquilinos do poder anunciam umas nuances publicitárias, a direita será mais amiga dos ricos e a esquerda dos pobres. A questão fundamental aqui é se o objetivo principal é acabar com os ricos ou acabar com os pobres.

As previsões de Marx de que quanto mais capitalismo, mais condições e probabilidades de uma revolução socialista também falharam redondamente. É a pobreza que cria instabilidade, não a riqueza. Apesar de algumas injustiças sociais que existem, as condições relativas da “classe operária” não têm comparação com as do século XIX e não faltam exemplos de operários que com capacidade e iniciativa se tornaram empresários, criando riqueza sem precisarem de lançar revoluções disruptivas.

O Estado tem um papel fundamental a desempenhar, certamente, mas de regulação e supervisão, não de propriedade e de gestão direta.

De um ponto de vista estritamente racional, continuar hoje a defender a viabilidade e a bondade do modelo marxista, não está ao mesmo nível de defender que a Terra é plana, mas pouco menos, tantas são as evidencias em sentido contrário.

Então, se não é por racionalidade, será por emotividade?

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19 dezembro 2024

A falta de um Olimpo


Em contexto cultural fortemente monoteísta, seja de base cristã, judaica ou muçulmana, algum tipo de invocação dos méritos do politeísmo é quase crime. No passado foi mesmo crime e objeto de pesadas penas.

Efetivamente, na construção da relação do ser humano com a transcendência, estamos habituados que o Deus único seja um dos pilares fundamentais e inquestionáveis (e não me confundam com a Santíssima Trindade).

Se a religião serve para dar uma visão alargada da existência, uma dimensão metafísica, elevar comportamentos e promover valores mais altos do que os dos instintos básicos, … será que o mais “eficaz” é acreditar e temer um Deus único, coisa simples de explicar e assimilar?

Sobre o deserto ser monoteísta e a floresta, eventualmente, politeísta, já especulei ali atrás e uma boa parte desse texto encaixaria neste, mas não o vou repetir.

A panóplia de Deuses Gregos (e posteriormente traduzidos pelos romanos), dá múltiplas dimensões e motivações. Mais ricas, menos castradoras…?

A função reguladora de instintos, que a religião promove, obriga a disciplina e, consequentemente apresenta a ameaça de castigos terrenos ou divinos. Mas não haverá algum exagero redutor e pobreza intelectual derivados de tanta simplicidade, rigor e severidade…?

Acredito que para muitos a religião e a fé têm uma dimensão dogmática que vai muito para lá destas especulações racionais e heréticas. Acredito também que outros se possam sentir perdidos e ter dificuldade em definir uma hierarquia entre Atena e Baco…

Mas também acredito que o esforço para conseguir um mundo melhor tem dimensões e fontes de inspiração múltiplas, divinais ou naturais, dogmáticas ou racionais que irão para lá do receio do castigo.

Será pecado às vezes visitar o Olimpo e valorizar o que por lá anda?

16 abril 2024

OLAG - Organização de Libertação da Anatólia Grega


 

Não há, mas podia ter havido.

Na sequência da queda dos impérios, especialmente no final da Grande Guerra, estes desmembraram-se em vários estados nação, que buscaram identidade e estabilidade pela homogeneidade étnica e religiosa. Dentro desse processo a vida não foi fácil para os arménios e gregos no novo país Turquia. E para muitos até nem foi longa…

Além dos que foram mortos, tema ainda hoje sensível, dezenas de milhares de gregos ortodoxos atravessaram o mar Egeu e instalaram-se na atual Grécia. Agora, vamos supor…

Foram colocados em campos de refugiados e três gerações depois ainda aí continuam, ostentando a chave da casa abandonada pelos avós e vivendo em condições degradadas, na dependência de uma agência da ONU.

Foi criado um movimento OLAG – Organização de Libertação da Anatólia Grega (em grego talvez fosse OEAA - Oργάνωση Ελληνική Απελευθέρωση της Ανατολίας), apoiada e financiada pela Rússia e outros países ortodoxos, que realiza ações terroristas contra interesses turcos, chegando mesmo a sequestrar e assassinar uma delegação de atletas turcos nuns jogos olímpicos. Lança ataques terroristas contra território turco e, em retaliação, a Turquia ameaçada invade a Grécia e anexa uma parte dela.

Nas escolas ortodoxas gregas é ensinado desde a primeira hora que um turco é um inimigo que merece castigo e ódios ilimitados. Os turcos vêm os gregos como gente que os odeia e um perigo permanente.

Quando décadas depois a OLAG se normaliza um pouco e assina um acordo de paz com a Turquia, nasce um novo movimento, Os Ortodoxos Radicais, que relançam as hostilidades.

Quando a Turquia está progressivamente a sair da Grécia ocupada e a permitir a autonomia aos ortodoxos gregos, estes aproveitam essa liberdade para organizar e lançar novo ataque terrorista brutal na Turquia.

A ferida continuaria aberta, e por aí fora seguimos…

Esta história não se passou assim, apesar de gregos e turcos não serem grandes amigos como a situação em Chipre o atesta, mas um pouco mais a sul, noutra zona do ex-império Otomano, por aí seguimos. Descubra as diferenças….

15 abril 2016

Bem prega Frei Yanis

A notícia original não é de hoje mas com os últimos desenvolvimentos ganhou mais visibilidade. Yanis Varoufakis faz-se cobrar generosamente pelas suas palestras (é o mercado a funcionar…) e, pelo menos algumas vezes, terá solicitado que o pagamento fosse realizado para uma conta em Oman.


Não sei se isto se pode chamar “off shore”, mas a responsabilidade social de pagar impostos no seu país pelos seus rendimentos não lhe parece ser relevante. A culpa da Grécia estar constantemente falida e andar de resgate em resgate, está claro, é da Sra Merkel, dos burocratas europeus, dos neoliberais e de outros malditos mais. E lá tivemos o nosso PM a dar um abraço solidário aos heróis da tragédia grega. Imagino que objetivo seria apenas acalmar o berloque, mas fica-lhe/nos mal…

Notícia original, de onde retirei a foto, do “Times” aqui.

14 fevereiro 2016

Tão bom ser pequenino

Há um ano atrás andava a Grécia desvairada e a malta toda excitada com o seu “bater o pé”, com o facto de um pequeno país poder ameaçar a estabilidade da zona euro. Acreditava-se, e principalmente o Syriza, na efetivadade desse risco e ameaça. Era David contra Golias!


Estes dias o senhor Schauble veio dizer que com a tormenta financeira que parece andar por aí, a situação em Portugal não ajuda (passo à frente os eventuais adjetivos adicionais). Sai um coro indignado. Portugal é muito pequenininho para influenciar o que quer que seja. Isto é mais uma manipulação e uma intimidação neoliberal.

Ora bem, de acordo com a Pordata o peso económico, medido pelo PIB, de Portugal e Grécia são praticamente iguais. Então como ficamos? A Grécia tinha peso para desestabilizar e nós não?

Enfim, uma espécie de irmão de David. Quando ele ataca Golias batem palmas excitados. Se o David sair da arena… somos muito pequeninhos… por favor !

04 novembro 2015

Esta quarta via…

Entre a saída da cena mediática de Varoufakis e a entrada fulgurante de A. Costa, poucos deram atenção à chegada do Sr. Corbyn à liderança do Partido Trabalhista Britânico, apesar de este anunciar a intenção de taxar pesadamente os bancos, renacionalizar os caminhos-de-ferro, sair da NATO e outras excentricidades. De realçar que isto não ocorre num país mediterrânico de calores e fulgores.

Quem alimenta e acredita mesmo nesta esquerda neomarxista, uma espécie de “quarta via”, que mais parece um baralhar e tornar a dar uma das antigas, já expirada? Estarão as classes trabalhadoras a pedir um ataque cerrado ao capital e renacionalizações? Não me parece. Uma boa parte sabe que o capital é necessário para criar riqueza e emprego e terão até mais aversão a políticos corruptos e incompetentes do que a patrões.

Afincadamente e assumidamente neste registo, vejo aqueles teóricos, que, do alto das suas torres de marfim, especulam sobre as dinâmicas sociais, sem nunca terem pisado as pedras da calçada. Pretendem tudo entender e assumem uma missão superior de mostrar o caminho ao povo, mas sem este chegar muito perto, pode cheirar mal…

Algum apoio de base irão busca-lo aos desiludidos, indignados, chocados com a falta de perspetivas e as enormes injustiças no mundo. É perfeitamente legítima e justificada essa vontade, pedindo-se novos políticos, mais do que novas políticas. No entanto, não é necessário, nem eficaz que os novos políticos (ou os antigos recauchutados) se queiram diferenciar pela radicalização. Faz-me lembrar aqueles que, quando são sabem bem o que fazer, desatam à patada. Este discurso não passa, pois, de uma perigosa deriva populista. A metamorfose do Syriza já veio provar os limites dessa suposta quarta via. As patadas deixam marcas e pobres daqueles que as acham virtuosas.

17 agosto 2015

FMI, FMI…

Desde o início que não entendo a participação do FMI nos resgates dentro da zona euro. É um pouco vergonhoso que a Europa e o Euro tenham tido necessidade de recorrer a essa instituição financeira. O argumento da sua experiência técnica vale pouco, dado os países em resgate não possuírem moeda própria. Um caso anterior, algo análogo, na Argentina, agarrando o peso ao dólar, foi um desastre. De uma coisa não tenho duvidas: se em 2010, em vez da Grécia, estivesse em causa, por exemplo, a França, mais depressa De Gaulle se levantaria do túmulo do que o FMI entrava lá…!

Agora, para a Grécia “take 3”, o FMI diz não entrar sem haver inicialmente uma restruturação da dívida, dado considerar que o país não tem capacidade para a reembolsar e, por isso, não pode emprestar ainda mais. Fico confuso. Então o FMI não é credor da Grécia? Só empresta mais se ele próprio aceitar um calote?!? Ou acha o FMI que que o calote deve ser apenas na parte dos outros credores? Espertos…! Por outro lado, se a função do FMI é precisamente intervir e tutelar os casos complicados, estará a Grécia assim tão mal, pior do que, por exemplo, o Mali?

Uma coisa eu entendo. Numa situação de crise alguém tem que liderar claramente e forte e feito, se necessário. Ou o FMI, ou a Europa. Este folhetim em que o menino doente se recusa a tomar medicação, face a uma troika de médicos, cada qual com o seu ponto de vista, em permanente negociação e busca de consensos, é imbróglio pela certa, como se constata.

13 julho 2015

Para variar, a Letónia


Ainda, por um momento, esqueçamos os malvados alemães e os assustados governos de direita do sul da Europa e pensemos nos países bálticos. Pode ser a Letónia, onde me desloquei algumas vezes em 2011. Tinha entrado em 2009 num programa de assistência e pagava a receita da chamada austeridade, com muito esforço e determinação. Dizem os meus interlocutores que não estava no espírito deles andarem a protestar pelas ruas, daí serem pouco noticiados.

Saídos da esfera soviética e deslumbrados pelas facilidades de um mundo novo, “cresceram” de forma não sustentada até o “estouro” de 2008. Nas viagens de comboio para Daugavpils, a segunda cidade do país, já quase na Bielorrússia, o abandono e as ruínas no interior eram um enorme contraste com os magníficos edifícios de vidro de Riga, construídos nos tempos supostamente áureos.

Ao contrário da previsão do nobel P. Krugmann, a Letónia não foi uma nova Argentina. Fechou o seu programa antecipadamente e voltou a crescer. O nível de desemprego ainda é relativamente elevado e as dificuldades são muitas. Segundo o Eurostat a pensão média na Letónia é de 293 Euros, na Grécia 833. Também não creio que na Letónia existissem 580 categorias profissionais com reformas antecipadas, 55 anos para homens e 50 para mulheres, incluindo cabeleireiros, pelo risco dos produtos químicos manipulados, e apresentadores de televisão, pelo risco dos germes nos microfones.

Qual será a opinião dos Letões sobre o fato de a Grécia a cada 3 anos pedir um novo programa e exigir um perdão da dívida, invocando a solidariedade europeia…?

06 julho 2015

Vitória, vitória!

Para os devidos efeitos, informo que realizei um referendo familiar e decidimos por unanimidade deixar de reembolsar o empréstimo da casa. Vou agora mesmo informar os credores desta decisão democrática.

Não é ao banco. Nós com os bancos já não nos entendemos há bastante tempo. É com uns primos ricos que assumiram essa responsabilidade, para a família não ficar mal na praça. Isso, no entanto, é pormenor. O fundamental é que não pagamos, queremos mais e em nossa casa mandamos nós!

02 julho 2015

Amplitude democrática

Continuam a surpreender-me a amplitude de alguns comentários sobre a legitimidade democrática das reivindicações gregas. Se um partido em Portugal propuser 2000 Euros de salário mínimo e reforma aos 55 anos, ganha as eleições. A seguir, podemos ir legitimamente pedir aos alemães que nos paguem?

Se a Alemanha convocar um referendo para saber se os seus contribuintes aceitam contribuir para um novo resgate à Grécia, que dirão os que estão hoje entusiasmados com a coragem de se convocar um referendo na Grécia? Já agora, convém recordar que segundo relatórios oficiais recentes, haverá cerca de 12.5 milhões de alemães a viver abaixo do limiar da pobreza, o número mais elevado após a reunificação.

A vida não é fácil e não se resolve berrando pelo dinheiro dos outros.

21 junho 2015

Uma nova esquerda

Há uma “nova esquerda” a nascer na Europa e a crescer no natural descontentamento do eleitorado com a degradação e a corrupção associadas aos partidos tradicionais. É “contra” os mercados e contra quem manda na Europa. Se bem que a Europa e a sua governação não sejam exemplares, fico a refletir no seguinte. Se todos os países Europeus, incluindo a Alemanha, fossem como a Grécia, governados por um Syriza com mãos largas a manter um brutal custo no Estado e de mãos rotas quanto a cobrança de impostos, com défices permanentes e a solicitar ajuda aos outros… como ficaria a Europa? Falida.

Ou seja, esta abordagem de sacar aos ricos, só funciona enquanto houver ricos. Tem alguma incoerência, não terá? É uma opção “marginal” e dificilmente um partido de poder consegue exercê-lo de forma sustentada, pedindo cheques ao inimigo, quanto mais não seja por uma guerra que acabou há 70 anos. Não é certamente “..mais um sinal da mudança da orientação política que está em curso na Europa, do esgotamento das políticas de austeridade e da necessidade de termos uma outra política …” Sic António Costa, Janeiro 2015.

Na encruzilhada em que a Europa está, globalmente mais pobre e a necessitar de encontrar novos equilíbrios, a esquerda precisa de procurar novos valores e rumos que certamente não passam por uma diabolização primária de quem é solvente.

19 maio 2015

Os economistas


Com o devido respeito, penso que aquilo a que se chama “economia” não “faz” a economia, apenas a estuda. Mais análise do que construção. Às vezes acertam, como é normal entre três apostadores, um deles acertar numa linha do totobola.

De vez em quando aparecem na arena uns génios dessa disciplina, supostamente salvadores do país, de um ministério, de um banco ou de outra coisa. Quase invariavelmente se constata que resistem muito pouco tempo no “fogo real”.

O diagrama acima reproduzido foi apresentado numa cimeira europeia pelo génio grego, sobre o potencial de crescimento da economia do seu país. No meu espírito de engenheiro uma seta num diagrama é um símbolo que representa algo de concreto. Aqui tenho alguma dificuldade em entender o que estas representam… Entende-se bem é porque os restantes ministros europeus já não têm pachorra para este Varoufakis!

25 fevereiro 2015

E eu devo ser cubano

Como já referi atrás, o novo primeiro-ministro grego começou por pedir que “os alemães pagassem a crise”. Uma postura próxima da de Alberto João Jardim, mais identificada com reivindicação oportunista, a roçar a chantagem, do que com uma ideologia. João Jardim fez a contabilidade dos recursos naturais que os “cubanos do continente” roubaram da ilha ao longo da história; a Grécia pede um cheque à Alemanha pela guerra de há 70 anos. Qualquer razão é boa para “sacar” dinheiro.

Por outro lado, não entendo as críticas ao alinhamento supostamente pecaminoso de Portugal com a Alemanha. Eu prefiro ver Portugal a funcionar como a Alemanha do que como a Grécia. Ironia à parte, nestes exercícios imaginativos de “deves e haveres”, não se fala muito das “pipas de massa” que nestes últimos 30 anos entraram aqui e na Grécia, em boa parte com origem na Alemanha. Poderão estes pedir a devolução da parte que foi mal empregue e/ou desviada?

Uma coisa é certa, tal como está, não dá! Ou vai cada qual para o seu lado, com as suas contas separadas e a sua soberania, ou, ao pedir cheque atrás de cheque, quem os assina terá uma palavra a dizer na sua utilização: seja a Alemanha ou a “Europa”. Alguma coisa precisa de mudar, mas não será com o descarado e hipócrita Sr Junckers que a tal Europa se afirmará.

09 fevereiro 2015

Os ricos que paguem a crise

Tempos houve em que esta frase típica da esquerda aparecia pintada pelas nossas paredes. Neste sentido, o novo primeiro-ministro grego, não será muito de esquerda. Com o Syriza os gregos ricos parecem estar tranquilos, inclusive os armadores absurdamente isentos de pagar impostos pela própria constituição do país. A mensagem de Tsipras é “os alemães que paguem a crise” e não hesita em pedir ajuste de contas pela guerra.

Em nome do enorme contributo da Grécia histórico para a nossa cultura e civilização, pedimos uma coisa ao Sr. Tsipras. Por favor deixe a guerra na história porque é aí que todos a queremos ver.

30 janeiro 2015

Tsipras vê curto (ou pior)

Na mesma altura em que apela à solidariedade da Europa e especialmente da Alemanha, o novo primeiro-ministro grego resolve recordar que estes foram uns assassinos e invocar dívidas de guerra por ajustar. Se o fizesse em campanha eleitoral seria simplesmente populismo; depois de ganhar as eleições é, no mínimo, estranho.

Pedir um cheque à Alemanha agora pela guerra de há 70 anos não é sério. Pode o Japão pedir aos USA por Hiroshima e Nagasaki, os ingleses pelos bombardeamentos de Londres e nós a França pelas invasões Napoleónicas?! A “reparação” da guerra tem um tempo e os seus custos não se contam nos tijolos destruídos, vão muito para lá disso. A pobreza e a desgraça humana associadas a uma guerra não têm preço. No final a prioridade deve ser a paz, evitar a sua repetição e o povo que a perdeu não é um simples gangue criminoso a castigar na globalidade. Quem decreta a guerra são os líderes, o povo é outra coisa.

Esta postura de acenar com “contas de guerra antigas não saldadas” é típica dos líderes belicosos e autoritários que procuram mobilizar os seus apontando/inventando um inimigo. Muitas vezes, é precisamente assim que se lançam novas guerras. Se se costuma recordar o enorme contributo da Grécia na nossa cultura, o Sr Tsipras está a denegri-lo. Faça o trabalho de casa, respeite os mortos e faça a guerra mas onde precisa de a fazer.

26 janeiro 2015

O fundo da irresponsabilidade

O Syriza ganhou as eleições na Grécia e decretou o fim da austeridade. Eu também não sou “pela” austeridade. Fico é com curiosidade em ver o que irá decretar em seguida para pagar médicos, professores, policia e juízes, mesmo até excluindo os jardineiros de hospitais sem jardins. Idem para as pensões e até excluindo o número recorde de cidadãos centenários que a Grécia possui/possuía ainda a receba-las. Normalmente esses fundos deveriam vir dos impostos, os tais que ninguém gosta de pagar e onde os gregos são campeões da fuga. Mesmo sendo a realidade mais complexa, não me parece que o Syriza possa decretar serem os contribuintes alemães a substituírem os gregos. Se o comportamento da Alemanha e da Europa não foram exemplares, sobretudo por falta de visão e de antecipação, uma grande parte do problema grego nasceu na Grécia.

Lá e cá, a causa de fundo não está na Sra Merkel, facilmente diabolizada. Está na incapacidade e falta de seriedade dos partidos “tradicionais”. Está na incoerência gritante de se clamarem defensores de “valores”, quando a sua prática… deixa tanto a desejar. Podem os processos prescrever e nada ficar provado, mas entre isso e ficar apagado da memória do eleitorado há uma diferença muito grande.

Sobre valores, que dirão os que hoje se congratulam com este resultado, inquestionavelmente democrático, se um dia a Sra Le Pen ganhar as presidenciais em França?

30 dezembro 2014

E se o Syriza ganhar?

A possibilidade do Syriza ganhar as próximas eleições gregas e ser governo está a provocar muita excitação, em várias frentes. Eu confesso ter alguma curiosidade em assistir aos efeitos práticos de uma mudança dessas. Em primeiro lugar, seria um teste necessário para o Euro. A nossa bela moeda única, criada com muito optimismo (ou ligeireza) prevendo apenas dias de sol, precisa de estar preparada para lidar com decisões soberanas e democráticas de um país membro, doa a quem doer, e até poderá doer mais ao rebelde do que ao sistema.

Todos sabemos ou imaginamos qual o resultado de falar grosso a quem devemos dinheiro: depende de quanto a nossa dívida pesa para esse credor. Se for pouco manda-nos passear; se for relevante irá aceitando o “diálogo”… até valer pouco. Daí, eu ter muita curiosidade em ver na prática os efeitos desse “Não pagamos!”. Muito provavelmente ninguém depois emprestará decentemente um euro (ou um dracma) à Grécia e não acredito que fique numa situação melhor do que a actual.

Ou será que o Syrisa no poder, tornar-se-á mais “pragmático” e menos “idealista”? Sendo muito provável que a aplicação duma política de ruptura terá consequências duras, principalmente para os gregos, acho ser uma experiencia a tentar. De uma forma ou de outra é necessário clarificar e concretizar as alternativas possíveis para estas dívidas insustentáveis (onde se inclui a nossa) e para a governação desta europa perigosamente dividida entre o norte supostamente rico, sério e implacável e o sul declarado pobre, trapalhão e corrupto. A realidade é mais complexa e pode ser mais rica.

23 janeiro 2013

Ignorar ou destestar?

Não sou muito adepto de sentimentos fortes negativos como odiar ou detestar. Desgastam e não acrescentam nada. O que não presta e não nos afecta deve ser simplesmente ignorado; contra aquilo que nos pode prejudicar efectivamente, devemos argumentar e actuar com discernimento, pragmatismo e firmeza.

Vem isto a propósito da visão dos “nossos irmãos” sobre o nosso país. Dentro da empresa estrangeira que “folheio” electronicamente com alguma regularidade está o El País, e uma coisa é certa: notícias de destaque sobre Portugal apenas as negativas ou caricatas. Ainda esta semana apareceu bem destacada na página principal a história do tal falso perito da ONU, com direito a foto e tudo. Não se pode dizer que seja muito actual, já passou um mês, mas entenderam que o ridículo merecia sempre divulgação em forma.

Hoje Portugal “regressou aos mercados”, tentando colar-se à Irlanda e ensaiando uma saída da tutela financeira externa. É um assunto sem dúvida de interesse e com forte correlação com a situação espanhola, que nos fundamentos não é tão diferente da nossa como eles gostariam. Não é notícia na página principal. Intrigado lancei uma pesquisa para averiguar se eles teriam realmente ignorado o tema. Encontrei-o algures numa página de economia. A ilustrar a noticia uma fotografia de 2 moedas de 1 euro: uma portuguesa e a outra não era irlandesa nem espanhola, mas sim …. grega! Que lata! 

03 novembro 2011

Mais um Outono do nosso descontentamento

Acto 1 – Outono de 2008. Por irresponsabilidade na gestão corrente da sua actividade, uma grande parte da banca europeia e ocidental ameaça entrar em colapso. Os governos saem em socorro com empréstimos, garantias e até mesmo nacionalizações.

Acto 2 – Outono 2009 – A crise bancária/financeira contamina toda a actividade económica. Os governos, fortes do sucesso da sua missão anterior de salvamento, acham que a solução passa por eles, chamando investir a tudo o que seja gastar e, pior, gastando o que não têm.

Acto 3 – Outono de 2010. Na ressaca da overdose de “investimento” e com o alarme disparado por uma Grécia especialmente indisciplinada e de contas assaz opacas, os governos descobrem que há limites para o endividamento. É a famosa crise da dívida soberana.

Acto 4 – Outono de 2011 – Para resolver o problema desta crise os governos vão recapitalizar os bancos…! Perdão, mas a origem do drama não foi precisamente terem gasto o que não tinham, uns mais do que outros, é certo? Se a história se repete, da segunda vez é certamente uma farsa. Há bancos e bancos, países e países, dívidas e dívidas. O “apoio” à Grécia não é pela Grécia, é claro. É pela exposição que os bancos dos países “A” têm nessa dívida. Em vez da chatice de ter que aturar e controlar os Gregos, perdoa-se uma parte da dívida e dá-se a massa directamente aos bancos credores. E os Gregos que não chateiem mais, que paguem os 50% que ainda devem e se não pagarem que se lixem porque já não doerá tanto aos nossos bancos. Os Gregos duros de roer e imprevisíveis anunciam um referendo, indiscutivelmente democrático, cujas consequências mais do que prováveis serão não receberão mais nada nem reembolsarão nada mais. Provavelmente sairão do Euro e seguramente sofrerão bastante. Não sei se será o fim do Euro mas certamente será o fim da “Europa”. Ficam mal os Gregos pela irresponsabilidade e ligeireza na gestão das suas finanças públicas “Europeias”, ficam mal as instituições europeias que carecas de saberem que as contas gregas estavam aldrabadas assobiaram para o lado durante anos e fica mal a Europa e a sua liderança cuja visão para a solução é reguadas nas palmas das mãos dos infractores e cuja acção na prática é correr atrás do prejuízo.