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20 março 2026

A China e eu – Primeiro ato


O meu primeiro contacto com a China foi indireto. Corria o ano de 1996 e eu estava responsável pela realização de um projeto muito específico em Hong Kong, uma caixa-forte, a lembrar a do tio Patinhas, mas automatizada, destinada a armazenar e distribuir notas de banco. Apesar de HK estar ainda sob tutela britânica, o dono da obra era da China continental, concretamente o Bank of China (BOC), uma das três entidades emissoras da moeda local. A mistura de normas inglesas com práticas asiáticas proporcionava um ambiente muito particular.

Durante a fase de especificação funcional detalhada encontramos um problema. Para cada lista de questões enviadas por escrito, as respostas recebidas pouco esclareciam e, pelo contrário, acrescentavam novas dúvidas. A solução foi fazer as malas e apanhar um avião para lá, com o Pedro, que era o homem daquela especialidade.

A aterragem do 747 no antigo aeroporto de Kai Tak foi memorável. Aproxima-se e desce em curva. Vamos vendo os arranha-céus ao nível das asas. Quando desfaz a curva e endireita, as rodas estão a tocar a pista. Impressionante.

O fluxo de pessoas no metro é incrível. Não há espaço para gentilezas do tipo “depois de si”. Quem quiser ser gentil fica lá o dia inteiro a dar passagem aos outros. Gravou-se-me a imagem de uma porta de carruagem a abrir e ver uma muralha de troncos, ombro contra ombro, em força, a ver quem saia primeiro.

Na estação central é importante estar bem atento para usar a saída que nos serve. Depois de estar cá fora, ficamos afogados em gente e submergidos por arranha-céus, não sendo fácil (re)orientarmo-nos.

Logo no início das reuniões, o primeiro choque cultural. Nós estamos habituados a começar por um esboço das grandes linhas e depois ir descendo para detalhes, zona a zona. Não era o reflexo local, onde facilmente se dedicavam a começar por discutir pequenos detalhes. Um pouco como se se principiasse a conceber um automóvel pelo pormenor dos parafusos de fixação da placa de matrícula. Esta parte foi fácil de corrigir.

Começada a discussão, o trabalho parecia avançar rapidamente, face às expetativas iniciais. O problema surgiu umas horas mais tarde, quando, por acaso, uma afirmação veio contradizer uma resposta anterior, fundamental, e de forma completamente incompatível. Havia dois problemas. Um, a dúvida sobre o que realmente se pretendia, outro é que, conforme nos informaram previamente, os chineses não gostam de perder a face e daí ser delicado confrontá-los com um “erro”.

A solução passou por: dizem-nos que deve ser branco, ótimo, mas de manhã tinham dito preto. São duas excelentes cores, certo, mas nós temos dificuldade em fazer algo simultaneamente branco e preto! Podem ajudar-nos a ultrapassar este problema?

A partir desse momento, cada pergunta era seguida de contra pergunta, para validação e verificação da eventual necessidade de “ajuda”.

Numa fase posterior, durante os trabalhos, mais uma surpresa com a aparente ligeireza no planeamento e tolerância para descoordenações. Nos nossos hábitos tínhamos o cuidado de programar as tarefas na sequência necessária para otimizar a utilização de recursos. Ali era andar para a frente e, se um trabalho era feito cedo de mais, obrigando a refazê-lo mais tarde, paciência…

Fisicamente o meu contacto com a China propriamente dita, passou por introduzir uma mão entre as grades da porta do Cerco em Macau, que assim, solitariamente, “foi à China”.

No final deste processo fiquei com a convicção que, dadas as diferenças constatadas, apesar da abundância de recursos, os chineses andariam sempre um passo em atraso relativamente ao “nosso” mundo. Se calhar enganei-me… ou eles mudaram.

Nota de atualidade. O que mudou e muito significativamente em Hong Kong, após a transição da tutela para a China e contrariamente ao acordado, foi a liberdade.

19 março 2026

A vingança do grão


Ao receber o último número da revista de fotografia “Competence Photo”, deparei-me com um editorial, o título acima, e que assim começa (e que uma IA traduziu…):

Há algo de paradoxal no estado atual da fotografia. Nunca antes os sensores foram tão precisos, nunca antes a gestão de ruído digital foi tão impressionante, nunca antes o autofoco foi tão infalível. Os fabricantes competem entre si para produzir imagens cada vez mais nítidas, cada vez mais limpas, cada vez mais fiéis ao que o olho percebe — ou melhor, ao que deveria perceber, segundo uma certa ideia de perfeição óptica. E, no entanto, em todo o lado, observamos o mesmo movimento inverso: fotógrafos a adicionar grão, a procurar lentes vintage com as suas aberrações deliberadas, a desempoeirar os seus filmes Kodak Portra ou a usar presets para simular precisamente o que as suas câmaras se esforçam por eliminar.

Poderíamos ver isto como mera nostalgia, apenas mais uma tendência retro numa era que as adora. Mas isso seria demasiado simplista. O que está aqui em causa é mais profundo: uma resistência à perfeição fria, uma forma de reintroduzir um traço de fragilidade humana na imagem. Granulação, vinheta, ligeiro desfoque de movimento já não são defeitos a corrigir — tornaram-se assinaturas, prova de que por detrás da objectiva estava alguém, com as suas hesitações, as suas limitações, o seu ponto de vista.

É um excelente tema de reflexão. A partir de certo ponto, demasiado perfeito e esterilizado torna-se desumano (bem se costuma dizer que errar é humano). Uma imagem fortemente desfocada pode ser muito “característica”, denunciadora de uma assinatura forte, mas até que ponto funciona, isto é, é apreciada e desperta algo em quem a vê?

Se eu ao escrever um texto eu deixar uma virgula fora do sítio, isso será prova da minha falibilidade e de que o mesmo não é uma produção sintaticamente perfeita de um Chatgpt (já agora, não aproveitem para pedir ao mesmo, faz-me um texto com uns erritos ligeiros, para a coisa parecer humana).

A imagem acima é de 2013 e na altura a pequena Olympus ZX-1 de viagem, já incluía dentro dos filtros, a que em geral pouco ligava, esta opção de “grain film”, simulando fotos antigas analógicas, com resultado interessante.

Em resumo, a técnica resolve problemas técnicos, que são uma parte e uma ferramenta da criação. Se a técnica deixa de ser um desafio, mais espaço haverá para explorar o outro desafio, o da criatividade. Se essa criatividade passa pela imperfeição, certo, ma non troppo.

Já agora, para não haver confusões, falamos do registo de imagens existentes e não das inventadas (especuladas). A partir da imagem de alguém num funeral, fazê-la “evoluir” para colocar a pessoa a sorrir, pode ser divertido de ver, mas é outro contexto que, confesso, a mim, pouco me atrai.

15 dezembro 2025

Quanto o T perde o I

 

Iot significa “Internet of Things” e a designação aplica-se às coisas que se ligam à internet. Já aqui atrás falei de alguns casos em que coisas se ligam algures, mesmo sem os seus utilizadores saberem, podendo se tratar de automóveis, autocarros, pneus e outras que nem se imagina...

Outro campo é dos “gadgets” (propositadamente deixado em inglês) tecnológicos cuja conexão, controlo, atualização e respetiva app são apresentados como uma mais-valia apreciada pelos utilizadores. Podemos falar de bicicletas, sistemas de iluminação, de rega ou segurança, sensores e de todo o tipo de eletrodomésticos, como, por exemplo, aspiradores…

Recentemente a americana Roomba, criadora do popular aspirador IRobot entrou em processo de falência, submergido pela concorrência chinesa. Parece que vai ser salva pela empresa que lhe fabricava os aparelhos, a Picea Robotics, chinesa…

O drama potencial nestes processos surge quando o aparelho é tão dependente da app e dos serviços da empresa, que em caso de falência técnica e ou económica do fabricante fica órfão e inútil.

VanMoof é uma marca de bicicletas conectadas extremamente particulares, com design exclusivo e muitas particularidades tecnológicas. Chamavam-lhe a “Tesla das bicicletas”. A empresa faliu em 2023, entretanto foi retomada, mas no seu período de agonia foi um calvário para os proprietários dos brinquedos caros. As especificidades mecânicas e eletrônicas implicavam que os problemas apenas podiam ser respondidos pelo fabricante e este não conseguia dar resposta.

Em conclusão, para lá de todas as questões de privacidade e de se ter uma coisa com olhos e ouvidos em casa ou no bolso, procurem garantir que o fabricante irá sobreviver ao tempo de vida esperado do dispositivo. Se não for o caso, convém que este consiga resistir decentemente às exéquias do seu fundador.


06 setembro 2025

Onde a eletrónica não chega


Há umas boas dúzias de anos, alguém me explicava como tirar uma fotografia “a sério”. Vais com o fotómetro à cena e medes a luz. Arbitras a focal e considerando a sensibilidade do filme, consultas uma tabela para ver qual a abertura correspondente, para uma exposição correta e ajustas a máquina para esses valores. Olhas pelo visor e rodas o anel de focagem até teres a máxima nitidez onde a queres ter. Enquadras e disparas! Ufa..

Desde esses tempos, muita coisa evoluiu e se automatizou, tanto que para uma larga maioria das fotografias, basta a última frase: Enquadrar e disparar… Certo que em circunstâncias especificas dá jeito “ajudar” a máquina a entender o que pretendemos em termos de exposição ou focagem, mas elas estão cada vez mais inteligentes e até tentam adivinhar se queremos modo paisagem ou retrato, por exemplo.

Hoje, é bastante difícil não ter uma foto tecnicamente perfeita, dentro dos limites do equipamento, naturalmente. Focagem automática, equilíbrio de brancos (tirar a cor da iluminação, caso não branca, da cor das coisas) e gama dinâmica (quando uma imagem é demasiada contrastada para ter simultaneamente detalhe nos escuros e claros não queimados), são tudo coisas que deixaram de ter história e necessidade de intervenção manual

Até a redução de ruído, quando temos “grão” na imagem, porque o fraco sinal não é visto de forma homogénea por todo o sensor, e que começou por ser grosseiras pinceladas um pouco borratadas quando vistas de perto, passou a ser muito mais fino e eficaz. Dizem que com a ajuda da IA.

Há, no entanto, uma coisa física em que a eletrónica não resolve. A filtragem da polarização. A luz é uma onda que se propaga. Quando, analogamente, sacudimos uma corda, podemos gerar ondas horizontais ou verticais. Isso serão diferentes polarizações. Se fizermos essa corda passar por uma grelha vertical, por exemplo, as ondas verticais passam e as horizontais são bloqueadas e vêm para trás… entendido até aqui? (senão google 😊)

A luz do sol, que não tem polarização preferencial, em certas circunstâncias, ao ser refletida, a reflexão é polarizada (só com uma única direção de “oscilação”). Se fizemos passar essa luz por uma “grade ótica”, que corta uma dada direção, e rodarmos a grade até chegar à direção especifica em causa, essa luz não passa.

Um exemplo dessa reflexão é na água. Se colocar um “filtro polarizador circular” em frente da minha objetiva e o rodar corretamente, posso fotografar os peixinhos no fundo de uma poça de água, mesmo que os meus olhos ao olhar diretamente apenas vejam a luz espelhada à superfície. A imagem acima é um exemplo de duas fotos no mesmo local, com a polarização aberta e fechada.

Outro caso, muito interessante, tem a ver com o céu. O azul que vemos, não é a cor do mesmo, é o resultado da sua iluminação pela luz do Sol. Ao final do dia, noutras condições, até vai para os vermelhos. Há uma componente refletida, resultando num céu mais esbranquiçado … e que é polarizada! Se bloquearmos essa componente através do tal filtro, vamos ver um céu de um azul muito mais escuro e bonito…

Acho que os algoritmos ainda não conseguem fazer isto!


 

31 janeiro 2025

Deep "Sick"


Esta semana passou um furacão nos meios e empresas tecnológicas com a chegada da ferramenta de inteligência artificial chinesa, Deep Seek, mais barata e tão ou mais eficaz do que as congéneres americanas estabelecidas.

Quanto a eficácia, ela será um pouco questionável quanto a temas como “Tiananmen”, devendo-nos isto fazer refletir sobre os créditos que devemos dar à isenção destas máquinas sabichonas em geral.

Quanto a custos, sabemos que tudo o que vem da China é barato, nem se sabendo por vezes as razões de fundo da competitividade. De recordar que a Europa, ferida na indústria automóvel, quer travar o que nesse campo de lá chega, por supostas ajudas públicas ao setor.

Por último, mas não menos importante, estas ferramentas precisam de enormes infraestruturas tecnológicas e bons algoritmos, mas, sobretudo, de informação em quantidade brutal. Como uma simples “start-up” caída das nuvens conseguiu criar e ter acesso a essa biblioteca de dados colossal? Sabendo que ela depois se autoalimenta com os dados que lhes são colocados para analisar e rever, terão consciência os utilizadores que estão a engordar uma enorme base de dados chinesa?

Recordando as dúvidas e entraves colocados à utilização de equipamentos de telecomunicação chineses nas nossas redes, será que embarcar nesta IA “barata” não será potencialmente muito mais grave?

20 setembro 2024

Os cinzentos pagers haram


Como introdução, a expressão “haram” usa-se para caraterizar o que é inaceitável e contrário à lei islâmica, em oposição ao “halal”, o que é aceite e permitido.

Este título e introdução denunciam que o tema é o dos milhares de pagers Hezbollah, acrescentados depois os walkie talkies, que explodiram esta semana nas mãos dos membros, simpatizantes e próximos desse movimento terrorista, “satélite” do regime iraniano.

Aparentemente os pagers eram de conceção (antiga) de uma empresa taiwanesa, licenciados a uma empresa húngara que não tinham instalações industriais. Os rádios também antigos e descontinuados tinham origem original no Japão.

Pelo que vi, não se sabe ao certo onde os equipamentos efetivamente foram efetivamente produzidos, provavelmente numa “grey zone”, mais ou menos oficial, mais ou menos pirateados, mas, pelos vistos, a Mossad saberia.

Para lá das discussões sobre os méritos e oportunidade ou (des)propósito da operação, a mesma põe a nu uma grande fragilidade destes “ativistas”, que é um enorme défice de conhecimento e de tecnologia. De facto, eles apregoam o seu ódio e rejeição a tudo o que Ocidente cria, classificando-o como “haram”, mas, aparentemente, não existem fabricantes nem tecnologias, mesmo com um atraso de algumas décadas, “halal”.

Para lá dos estragos e impactos físicos e morais que a espetacular operação provocou, fica a frustração de não haver pagers “halal”, concebidos e criados conforme os princípios anacrónicos e desunhamos dos salafistas, que querem colocar o mundo a viver como há 14 séculos atrás. Efetivamente, nessa altura não havia pagers, nem outras coisas que, no entanto, eles não prescindem de utilizar nessa missão do “ò tempo volta para trás”. Tem lógica? Depende…

09 setembro 2018

Sigam o líder

Em 2013 a Sony lançou uma coisa nova e revolucionária, uma família de máquinas a sério, de sensor “full frame”, sem espelho: as famosas A7, declinadas em três versões e hoje na terceira geração.

Os Canikon, que já tinham dada pouca importância ao “sem espelho” para sensor intermédio APS-C (a Nikon ignorando-o mesmo de todo), continuaram a promover as vantagens do espelhinho, uma peça móvel, que ocupa espaço, que coloca problemas de calibração de focagem, mas que permite ver o cenário ao vivo, como muito gente não dispensa.

Respeitando gostos e opiniões, com os visores eletrónicos atuais e ultrapassadas algumas questões tecnológicas iniciais, preferir hoje o visor ótico, muito menos flexível e informativo, pela “sensação” de ver, para mim é como defender arrancar o motor de um automóvel com manivela em vez de motor de arranque, porque assim se sente melhor quando ele pega…

Estes dias, com um intervalo apenas de duas semanas, os Canikon apresentaram finalmente as suas famílias “espelholess”, apenas 5 anos depois do líder. Obviamente que as famílias anteriores, com manivela, não desaparecem, até porque é aí que eles têm o seu mercado consolidado e também ainda não se sabe quanto vale mesmo na prática o desempenho das recém-nascidas.

Após tantos a menosprezar e a ignorar a inovação finalmente reconheceram e assumiram que os automóveis já não usam manivela.

23 maio 2018

Olha o robot


Começo com uma declaração de interesse e de contextualização. Sou engenheiro eletrotécnico e trabalhei durante 14 anos numa empresa, praticamente desde o início da sua atividade, que tinha a palavra “Robótica” no nome e fazia coisas programáveis, capazes de realizar sequencias de operações complexas, autonomamente. A minha área técnica foi a da programação e os sistemas dessa empresa estão instalados e a funcionar um pouco por todo o mundo.

Passando ao concreto. Tenho pouca pachorra para ouvir especular sobre robots e o admirável mundo novo que geringonças e gingarelhos, tecno-sexies, anunciam. Se uma coisa chamada robot não precisa de ter aspeto humano (veja-se o de cozinha !?), o seu impacto mediático e sociológico aumenta exponencialmente quando ele se nos assemelha. Aquele pulso imita o meu… e se lhe puserem uma simples esfera a fazer de cabeça com dois círculos a imitar uns olhos, dá logo outro dramatismo.

Substituir o trabalho de um ser humano é pressentido como uma ameaça? Sim, mas…quantas pessoas seriam necessárias num banco para fazerem a manutenção das contas se não houvesse computadores? Está bem, mas estas máquinas não têm pulsos nem cotovelos e não mexem sequer coisa que se veja. E quantas pessoas e enxadas são substituídas por um trator com um arado? Está bem, mas ele não é antropomórfico, não emula o homem. Uma dúzia de maquinetas com 2 pernas, 2 braços e uma esfera na cabeça, a levantar e a espetar uma enxada na terra, teria muito mais impacto, mesmo sendo bastante mais caro e ineficiente do que o simples e clássico trator.

A substituição do trabalho humano por maquinas terá começado com a invenção da roda, ou perto, essa evolução dá-nos qualidade de vida de que disfrutamos e ninguém imagina banir os sistemas informáticos dos bancos para reduzir o desemprego. A evolução tecnológica, contínua, tem consequências sociais e culturais que podem ser dolorosas transitória ou estruturalmente. Não acredito, no entanto, que sejam os brinquedos que nos podem, eventualmente um dia, trazer um café ao sofá que farão a diferença. Isso dá apenas excitação e uns “papers” … sexies.


Fotos de uma espécie de robots na Tabaqueira, Sintra e Banco da China, Hong Kong realizados pela Efacec.

19 novembro 2015

Empresas, donos e histórias

Passou há pouco tempo na RTP2 uma série sobre a família Krupp, fundadora da empresa alemã com o mesmo nome, um dos maiores impérios industriais do século XX. A ação decorre fundamentalmente nos palácios da família, em torno dos seus conflitos, dramas e estoicidades, sem abordar as dificílimas condições de trabalho nas fábricas e referindo apenas muito ao de leve os registos esclavagistas e criminosos da fase do III Reich.

Manter uma dinastia viva e pujante não é tarefa fácil e uma boa parte do enredo estava construído precisamente em torno da forma(ta)ção muito exigente e tensa do herdeiro designado.

No final, há um acontecimento assinalável. A propriedade da empresa é transferida da família para uma fundação, um processo que merece alguma reflexão. Se tudo nasce, cresce e morre ou se transforma, a transformação de um grande património familiar numa fundação (falamos, obviamente, de fundações a sério) é admirável em significado e em potencial. Para lá do prescindir da propriedade de um bem, está em causa abandonar o objetivo básico de criar riqueza para si e colocar o património numa instituição sem fins lucrativos, incorporando uma função social relevante. Isto possibilita um campo de intervenção infinitamente mais amplo e potencialmente gerador de outras riquezas, noutros campos, que uma lógica de gestão de acionista/investidor dificilmente permitiria.

Voltando à série e aos Krupp, há uma conclusão muito clara. Uma empresa de corpo inteiro é uma entidade viva, gerida, liderada e sentida, não um simples título que voa de mão em mão, conforme o vento. Há donos das empresas que as vêm como algo criado, construído e com um valor para lá do contabilístico; há outros, para quem elas são apenas um ativo transacionável, que pode entrar ou sair a qualquer momento dos seus livros, conforme a oportunidade.

As primeiras fazem a história, as segundas vagueiam de estória em estória.

26 março 2015

German Wings GWI9525

Desceu durante 8 minutos de uma forma “suave”. Segundo os peritos pouco compatível com um modo de piloto automático, compatível com ser pilotado manualmente, mas quem faz descer um avião tranquilamente até bater numa montanha e sem responder às mensagens e avisos do controlo de tráfego?

O piloto ter-se-ia antes ausentado do cockpit e não conseguiu regressar. Estava cá fora aos murros à porta enquanto o avião descia. Poderia o co-piloto ter tido uma indisposição e não aberto a porta? Para isso há um código e dificilmente se explicaria que sem ninguém aos comandos o avião fizesse a trajectória que fez: controlada e inexplicável.

O co-piloto pode ter deliberadamente trancado a porta e conscientemente apontado o avião à montanha… para morrer?!

De recordar que o Airbus A320 é um avião relativamente pequeno, donde que provavelmente todos os passageiros assistiram horrorizados à cena: ver o avião aproximar-se do solo e o piloto aos murros à porta!!! Do ponto de vista estatístico, a probabilidade de algo idêntico voltar a acontecer a curto prazo é muito baixa.

20 janeiro 2015

Ao vivo é diferente

Tive um colega que quando em viagem, desde que o orçamento permitisse, fazia questão de preferir um restaurante com música ao vivo. Era outra coisa.

O aeroporto do Porto tem por vezes música ao vivo, nem sempre num local acusticamente ideal, como esta foto, tão pouco ideal, documenta. No entanto, é curioso como ainda lá ao fundo do corredor, se consegue entender que é ao vivo, antes sequer de avistar os músicos. Com as tecnologias todas de gravação e de reprodução existentes, acima de qualquer erro ou suspeita, como é possível que até para um “meio surdo” como eu, seja tão perceptível a diferença, mesmo sem ver… ?

Francamente não sei, mas é bom para os músicos!

26 outubro 2013

Medir sim, mas o quê?

Aqui atrás, eu falava da problemática e das implicações de ter ou não ter um GPS. Ainda não o comprei e não sei se comprarei. No entanto, como agora tenho um iCoiso, coloquei lá uma coisa que regista os percursos que faço. Já não é mau. Fico a saber as distâncias, as velocidades e os desníveis. Não a uso como guia mas apenas como gravador. De vez em quando, na dúvida, lá tiro o coiso do saco para saber mais ou menos onde estou, com maior ou menor precisão conforme a cobertura no local e a representação dos caminhos que percorro nos mapas básicos que lá estão.

No entanto há uma diferença. Embora não esteja a olhar para ele, sei que aquela coisa está lá atrás no saco a medir continuamente os minutos e os segundos. Cada vez que paro para entrar ou sair água, colocar ou tirar uma camisola não me esqueço disso. Suspendo a contagem do tempo do coiso, ou não? A paragem é feita com algum stress, que antes não existia.

Isto faz-me lembrar da questão de medir até onde e o quê. Há um princípio básico de que não se consegue gerir o que não se consegue medir e é difícil não concordar. A questão está antes em medir o quê e estou cá com um palpite que esta facilidade em medir o imediato, por vezes nos afasta do fundamental. Que também se poderá medir mas não é com/como uma coisa qualquer. Assunto a seguir…

22 setembro 2013

E vão três !

Num curto espaço de tempo ocorreram dois factos relevantes, pelo menos para mim. A Microsoft comprou a divisão de telemóveis da Nokia por “tuta e meia”, relativamente à valorização passada desta, e eu, relutantemente, tive o meu primeiro iCoiso.

Sobre o descalabro da grande referência da modelar Finlândia, uma das únicas marcas europeias de tecnologia de grande consumo, pode dizer-se que sofreu de fartura mal digerida. Quando para muitos, esta era a “sua” marca inquestionável de telemóvel, eles não viram chegar os “dual-sim” que atiraram muitos dos seus fiéis para os braços da Samsung, mesmo a contragosto. A investida da Apple, abrindo o mercado para cima, também lhes passou ao lado. Possivelmente os seus últimos gestores “nasceram” ricos e que não tiveram iniciativa nem visão suficientes para enfrentar com sucesso o desafio de existir – um problema muito frequente.

Quanto à Apple, confesso que até tenho alguma simpatia pelo seu histórico de teimosia e coragem, e que após quase desaparecer, acabou por proporcionar um sucesso estrondoso. No entanto, este novo iCoiso faz-me torcer um pouco o nariz – parece querer mandar em mim mais do que eu gostaria Porque não recebe um cartão normal, porquê o cabo é específico e não USB standard? Felizmente não precisei de apresentar numero de cartão de crédito para o activar como já vi no passado, mas o estar fechado sobre um “ecosistema” próprio, por muito excelente que esta seja, enfim… e, talvez um dia descubra que o fechado “facetime” é superior ao aberto “skype”. Para já, ainda não descobri. Ainda por cima, poucos dias depois de o ter já tinha actualizações de sistema e de aplicações “obrigatórias” a fazerem-me nervoso miudinho.

Da Microsoft tenho uma herança de anti-corpos. Tiveram um enorme sentido de oportunidade, aproveitaram bem, mas nunca foram uma empresa de inovação nem de despertar o mínimo entusiasmo. Limitaram-se a espremer os seus clientes cativos sem grandes contemplações. Lembram-se que quando faziam novas versões de aplicações, cujo principal efeito parecia ser obrigar a comprar uma máquina nova…?

Hoje a Micrsoft, em queda, desdobra-se em esforços, nem sempre conseguidos, de fazer coisas bem-feitas. Será que vou passar a ter mais simpatia por eles, do que pela Apple? Será que tenho uma propensão doentia para ficar do lado dos mais fracos? Não, acho que não, é apenas uma questão de lidar mal com arrogância e muitas vezes é necessário passar pela mó de baixo para mudar de atitude. Infelizmente, demasiadas vezes, é esse o caso…

05 agosto 2013

Ter ou não ter GPS: Eis a questão!

Em tempos idos, ao palmilhar caminhos, mais concretamente para os lados do Gerês Oriental, havia um colega do grupo que tinha uma mania terrível. Qualquer caminho que aparecesse, à direita ou à esquerda, largo ou estreito, com cara de uso ou nem por isso, ele sugeria: “E se fossemos por aqui?”. A resposta era invariavelmente a mesma, ou uma de várias: “Esse caminho não tem cara de ir dar a lado nenhum, vai-nos desviar do nosso objectivo, fazer-nos perder tempo, qual o interesse de ir por aí à toa?” Ele, invariavelmente, respondia: “É capaz de ir dar a um sítio giro!”

Recordo-me disso quando agora, ao circular de bicicleta pelo monte, em cada encruzilhada me questiono: “E se eu fosse por ali?” E tento “cheirar”, procurar adivinhar qual a dinâmica e o destino daquele caminho, pensando: “Se tivesse um GPS, seria mais fácil”. Poderia com mais segurança tentar novos caminhos, minimizando o risco de chegar a um local sem saída no fundo de um vale e que exigisse muita energia adicional para de lá sair. E é que com a bicicleta a energia disponível tem limites!

Assim, até já seleccionei o modelo que me parece mais adequado, e vou seguindo nos sites de compra o respectivo preço para ver quando me aparece com um bom desconto para o agarrar. Ainda não encomendei, e por três razões: em primeiro lugar ainda não me apareceu a tal proposta tentadora, em segundo lugar porque os tempos que correm e que aí vêm sugerem contenção máxima… e falta uma razão.

Uma coisa é andar de cabeça erguida, tentando adivinhar, cheirando, estudando o mapa antes e depois e ir descobrindo e interiorizando o espaço explorado. Outra coisa é descarregar tudo, mapas e caminhos, para a maquineta e olhar para o seu visor, apenas. Afinal o G. tinha alguma razão quando insistia no desafio de  “E se fossemos por aqui… ?”. Se na altura houvesse GPS era mais fácil responder-lhe, mas não era a mesma coisa!

05 agosto 2011

A nuvem informática e o efeito de estufa

Sou do tempo em que a transmissão de dados mais frequente era por linha telefónica com uns modems ranhosos e cantantes, que com sorte chegavam aí a uns 1200 baud, uns 120 bytes/seg (esqueçam lá os Kilos e os Megas). Passar o equivalente a uma musiquinha de 3 minutos em MP3 seriam umas 6 horas e tal. Para lá do custo de utilização da linha, manter o canal sem cair durante esse tempo todo era outra proeza.

Ainda, antes de começar a transmissão propriamente dita, era preciso que o computador se entendesse com o modem, com aqueles fantásticos sinais de controlo, RTS – CTS – CD, etc . Até que conseguisse ter canal aberto para iniciar a transmissão propriamente dita, era um cabo de trabalhos. De tal forma, que eu achava fantástico que num simples ciclo de levantamento de Multibanco, o terminal conseguisse consultar a minha a conta e informar-me sobre o meu saldo naquele momento!

Mais tarde tivemos, já em casa, umas ligações mais rápidas - 9600 baud – 4 x mais! A musiquinha chegaria em apenas uma hora e meia, mas ainda nos cobravam ao tempo de navegação/volume de tráfego e, por isso, tínhamos algum cuidado de gestão da utilização dos meios. Talvez pela memória destes antecedentes ainda franzo o sobrolho quando vejo emails com muitos megas anexados.

Hoje não nos cobram tempo de ligação e muitas vezes nem sequer o tráfego. Até podemos, por “facilidade” ter a nossa informação algures na “dataesfera”, numa nuvem qualquer, e acedê-la com a maior facilidade de qualquer ponto. Já não é o terminal MB que se esfola a pedalar para ter acesso ao simples saldo da conta bancária; somos todos nós que com um “coiso” qualquer na mão, em quase qualquer sítio, temos acesso a tudo, muito rapidamente e sem custo/custo adicional de utilização. Tão rapidamente que navegamos e cruzamos oceanos de informação para trás e para a frente com a maior facilidade e ligeireza. Da informação que se descarrega qual a percentagem que realmente se lê/utiliza? A olho, entre coisas que abrimos e fechamos no instante seguinte, coisas que saltamos e até a publicidade, acho que se a chegar 50% já não é mau. No entanto, os outros 50% (ou mais) que andam aí para trás e para a frente gastam recursos, não gastam? E com esta nova moda da nuvem (in english cloud) faz sentido que eu tenha sistematicamente os meus ficheiros textos, músicas, fotos ou filmes algures no planeta e gaste infra-estrutura e energia nessa transmissão, mesmo que não o pague directamente, em vez de os ter no disco duro aqui ao lado? Eu acho que há aqui uma pegada de carbono que é uma verdadeira patada de dinossauro…!