04 outubro 2026

Narcos (2ª edição)


Muitos terão visto aquelas produções, meio históricas, meio romanceadas, sobre a vida e obra dos narcotraficantes da Colômbia ou do México. É extremamente chocante o nível de violência, opulência, falência das instituições e, sobretudo, desumanidade.

Essas coisas passavam-se muito longe, do outro lado do Atlântico, geográfica e culturalmente demasiado afastadas para as imaginarmos parte do nosso quotidiano. Será que esse nível de violência e marginalidade é e continuará a ser uma realidade longínqua?

Em cidades como Marselha ou Bruxelas soam pistolas metralhadores e corpos jazem no solo em poças de sangue, consequência de ajustes de contas e disputas territoriais associadas ao tráfego de droga. Nas nossas costas as lanchas rápidas desafiam quase impunemente as forças policiais. Na Suécia há menores contratados como sicários.

Dizer que o dinheiro compra tudo pode não ser absoluto, mas muito dinheiro compra muita coisa e ao dinheiro “ilimitado” quase nada resiste, seja pela aliciação, seja pela coação.

Esta guerra contra os narcotraficantes parece não ter vitória para as forças da lei. Com tantos recursos financeiros disponíveis, os narcos encontrarão sempre buraco por onde furar e chegar aos seus clientes, muitos deles socialmente respeitáveis, deixando pelo caminho as vítimas e os cadáveres que for necessário.

Podem-se encontrar fortes semelhanças com a lei seca de há um século atrás, sabemos como foi e como terminou. Por mais chocante e perigoso para a saúde pública possa parecer liberalizar a cocaína, não estará na altura de aplicar remédio análogo? Provavelmente um mal menor.

03 outubro 2026

Judaicofobia


Um destes dias tropecei neste delicioso texto de José Diogo Quintela (ex Gato Fedorento) sobre o inefável engenheiro Guterres e as suas curiosas capacidades matemáticas.

O cessante SG da ONU declarou que o conflito em Gaza teve “uma escala de morte e destruição sem paralelo com o que testemunhei em todos os meus anos como Secretário-Geral”. É só alguém fazer as contas e o colunista deu-se ao trabalho de as fazer. Assim podem-se listar alguns dos conflitos mais mortíferos presenciados pelo engenheiro.

  1. Na Ucrânia mais de meio milhão.
  2. Na região do Tigré, na Etiópia, idem
  3. No Sudão, entre 140 e 400 mil mortos.
  4. No Afeganistão perto de 200 mil,
  5. Em Myanmar 104 mil,
  6. Na Síria 78 mil,
  7. No Iémen 75 mil.
  8. Em Gaza, 74 mil pessoas

(para mais detalhes, ver o texto completo)

Cada morto em guerra, especialmente entre civis, é um morto a mais e sem desvalorizar as barbaridades ocorridas em Gaza, as declarações de Guterres são de um ridículo absoluto e de uma falsidade indesculpável.

Quando alguém generaliza a violência associada a alguns movimentos islâmicos para todos os muçulmanos do mundo, chamamos-lhe, negativamente, islamofobia. O atual SG da ONU não sofrerá de uma espécie de judaicofobia?

Condenar Netanyahu é uma coisa, generalizar para todos os israelitas é outra, avançar para todos os judeus do mundo é antissemitismo básico, de má memória. Culpar Israel por todos os males que por aqueles lados ocorrem é ignorância e/ou manipulação potenciado por gente pouca séria. Talvez se lhe possa chamar Ocidentofobia, algo análogo às doenças autoimunes, em que o organismo se baralha e se ataca a si próprio…

Vamos recuar um pouco no tempo e recordar a situação de um país governado em ditadura, sem liberdade nem respeito pelos direitos humanos, envolvido numa guerra colonial. Deveria ser expulso de todos os eventos culturais e desportivos? Simone e Tonicha fora da Eurovisão, Amália e Carlos do Carmo cancelados das grandes salas, Eusébio, António Livramento e respetivas equipas excluídos de competições internacionais. Numa perspetiva de coerência, seria assim que os atuais severos juízes de Israel veriam Portugal pelo mundo antes de 1974.

02 outubro 2026

Quando a tecnologia surpreende e nos interroga (V)


5) Outros perigos

Mesmo sem IA já haverá por aí gente com dificuldade em encontrar o caminho para casa sem internet…com o tempo passará a haver quem, em “offline”, não saiba que fazer para a ceia…?

Uma coisa é contar com ela para obter informação: que pressão devo colocar nos pneus? Qual a diferença entre a clara e a gema? Outra coisa é, para lá informação fatual, o “aconselhamento”. A que restaurante devo ir; que prato devo pedir. Acreditando que a senhora IA vai seriamente pesquisar todas as críticas publicadas e tentar ser isenta ao sugerir a tasca do Joaquim à do António... há aqui algum perigo de “afunilamento” injusto. Quanto mais sugerir com sucesso o Joaquim, mais afundado fica o António. Coisas do algoritmo que só o algoritmo conhece.

Onde a IA pode ter certamente efeitos devastadores é na criatividade. Certo que plágios são coisas que não faltam, certo que hoje será mais fácil detetá-los e também certíssimo que ficou assustadoramente fácil pseudo-criar qualquer coisa, com muito bom aspeto.

Não prevejo por aí um fim do mundo, mas gostaria de ver uma contra-IA, alguma coisa que olhando para uma “criação” possa dizer rapidamente: Batota !!!

Ou seja, basicamente usar a IA, mas não lhe deixar a última palavra, talvez valha a pena testar a tasca do António, mesmo contra a vontade do algoritmo.

01 outubro 2026

Quando a tecnologia surpreende e nos interroga (IV)

 

4) O perigo, onde está o perigo?

Como perigo existencial para a humanidade, continuo a preocupar-me mais com as armas nucleares do que com a IA, esperando que os seus sistemas de controlo não estejam ligados à internet, nem potencialmente acionáveis por agentes imprevisíveis (para não ver atual outro filme do genial Kubrick: Dr Estranhoamor).

A IA é e pode ser uma ferramenta fantástica, que ultrapassa o simples acesso à informação. Para lá de encontrar respostas, ela compara e digamos que “cria” (ou copia) textos, músicas, imagens e “tudo” o que se quiser. É absolutamente espantoso como o consegue fazer e em escasso tempo.

Há aqui um problema: se as dificuldades aguçam o engenho, as facilidades embotam-no.

Com as máquinas de calcular eletrónicas e folhas de cálculo deixamos de precisar de saber fazer contas; com os corretores ortográficos já não nos preocupamos com como se escrevem as palavras e respetiva acentuação: com a IA deixaremos de precisar conhecer a gramática para escrever um belo texto. Certo que não vejo grande valor em memorizarmos simplesmente montes de coisas, mas inferir e raciocinar são uma forma de ginástica mental cuja falta pode ter efeitos idênticos à inatividade física.  Estaremos a ir longe de mais neste delegar na máquina capacidades cognitivas?

Podemos fazer um paralelo. Da mesma forma como as facilidades motoras nos retiraram atividade física das necessidades quotidianas e devemos/podemos compensá-lo com práticas desportivas e de lazer, também devemos procurar uma forma de compensação para não acumular gordura nos neurónios. É uma questão de disciplina, muito semelhante ao necessário exercício físico.

Assim sendo, onde fica o perigo… ?


26 setembro 2026

Quando a tecnologia surpreende e nos interroga (III)


3) O fim de qualquer coisa

Anunciar apocalipses face a disrupções não é uma reação inédita, nem nova. Já Camões nos Lusíadas nos apresentava um velho do Restelo que, face à inovação e à ousadia dos navegadores, daí previa que a consequência não seria menos do que o fim do mundo.

Voltando à tecnologia, recordo-me da febre da “robotização” dos anos 80. Em termos de substituição de mão de obra um robot era proporcionalmente bastante mais caro do que um trator, mas o fato de ser antropomórfico dava-lhe um simbolismo muito mais intenso. Hoje os robots e a automatização estão por todo o lado; não olhamos para eles como quem olha para tratores, mas quase… (e já nem falo da polemicazinha com a 5G)

O curioso aqui é os inovadores, os líderes das grandes empresas de IA, se apresentarem preocupados com a inovação. Como se Vasco da Gama falasse em sintonia com o velho do Restelo.  

Como se Henry Ford defendesse a limitação da indústria automóvel por um modelo T ter atropelado umas pessoas ou os promotores do caminho de ferro no século XIX, propusessem o abrandamento dos projetos por uma locomotiva ter abalroado uma vaca. Na altura havia até quem defendesse que o corpo humano não estava preparado para suportar velocidades superiores a 40 km/h.             

Fico com o palpite de que a preocupação destes homens de negócios será talvez mais o seu negócio do propriamente o fim da humanidade. A IA envolve investimentos colossais. O modelo atual permite retorno satisfatório ou será melhor alto e parar o baile por uns tempos?

25 setembro 2026

Quando a tecnologia surpreende e nos interroga (II)


2) A culpa é do sistema

 Não foi ontem, nem neste século. Em 1968, há 58 anos, o genial Stanley Kubrick realizou o espantoso filme “2001 Odisseia no Espaço”. Nesse filme um computador inteligente, HAL 9000 (uma letra antes de IBM e melhor teria sido, talvez, JCN, uma letra à frente), ganha vontade própria e passa a ser ele a mandar, ignorando e contrariando as ordens da tripulação da nave. A máquina desrespeita e ameaça o homem, o seu criador!

Este enredo hoje seria de uma atualidade espantosa, quando sobre a Inteligência Artificial correm visões apocalíticas, anunciando como sua possível consequência o fim da humanidade.

Sobre a imprevisibilidade da IA os informáticos sabem bem que quando um computador diz que o resultado de 2+2 é 22, não será por ter vontade própria, mas por existir uma falha na programação, um erro, na gíria um “bug”, desculpa inventada no tempo em que um inseto introduzido nos enormes armários dos computadores antigos seria razão suficiente para explicar o “despiste”.

Com a complexidade atual dos sistemas informáticos não será tão fácil “debuggar” e extrair o inseto. Hoje os sistemas informáticos são cebolas com tantas e tantas camadas, que dificilmente se saberá por andam os “program counter” lá no fundo…mas a culpa do despiste não deve ser atribuída ao silício, elemento químico na base dos circuitos integrado

24 setembro 2026

Quando a tecnologia surpreende e nos interroga (I)


 

1)   1- Até parece mentira

Há 40 anos, mais dia, menos dia, sentava-me para o meu primeiro dia de trabalho, após sair da universidade. O professor Marques dos Santos, por quem tinha e tenho muito apreço, lançara-me o desafio. Depois de 17 anos em salas de aula, entendi que não faria muito sentido por continuar esses locais, mesmo mudando de posição relativa, e aceitei ir viver o “mundo real”.

Sentei-me, pensei e disse: - Então como é que se começa a trabalhar? Puseram à minha frente um manual do microcontrolador (microprocessador com algum recheio adicional) Hitachi 6303, baseado na família Motorola 6800. Vou deixando algumas referências técnicas para enquadrar melhor o tema a quem conhece, mas não demasiadas, a ponto de tornar o texto intragável aos não iniciados.

Tratava-se de um bicho com 64 patas, em torno do qual eu desenhei um circuito e que após uma industrialização básica, me regressava como uma placa eletrónica. Do ponto de vista da arquitetura era um pequeno computador, com tudo o que deveria ter, só que completamente virgem de software. Comecei por mapear a memória, definir os interrupts, configurar a stack (… e já chega de palavrões). Sendo a primeira utilização daquele processador na empresa, não havia biblioteca de nada e tudo devia ser programado em linguagem máquina, passado para uma Eprom, ficando-se a ver até onde corria como previsto.

Por essa altura, quando coçava a cabeça com uns 5C teclados por C5 e alguns FFs à mistura, li algo a primeira vez sobre os vírus informáticos. Uma “coisa” que se incrustava, se escondia por uns tempos, depois se propagava sem controlo, parecia-me do domínio da ficção. Convém recordar que nessa altura não havia internet e um PC comunicar com um vizinho era algo muito árduo.

Tive sensação análoga agora ao ler notícias sobre agentes de IA que escapam ao controlo dos seus criadores e ganham vontade própria. Sabendo que no fundo, lá no fundo da programação está sempre um “Se isto, faz aquilo”, estas liberdades cibernéticas parecem-me algo incongruentes.

Mas esta IA tem mais que se lhe diga…

22 setembro 2026

A gente vai continuar


Das primeiras vezes que ouvi Jorge Palma, achei algo estranho nas suas letras. Ao contrário daquelas redondinhas que quando começam já se sabe onde e como acabam, ele parecia esticar as frases, como se tivesse sempre e ainda algo mais dizer, para lembrar, para gostar.

Jorge Palma é um daqueles criadores intemporais que quando o ouvimos contar a vida dele, ouvimos também a nossa.

Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo 

Enquanto houver estrada para andar; a gente vai continuar.

17 setembro 2026

Narcos


Muitos terão visto aquelas produções, meio históricas, meio romanceadas, sobre a vida e obra dos narcotraficantes da Colômbia ou do México. É extremamente chocante o nível de violência, opulência, falência das instituições e, sobretudo, desumanidade.

Essas coisas passavam-se muito longe, do outro lado do Atlântico, geográfica e culturalmente demasiado afastadas para as imaginarmos parte do nosso quotidiano.

Por cá vemos principalmente noticias de apreensões e escaramuças com as assombrosas lanchas rápidas dos traficantes. Apenas isso? Não.

Em cidades como Marselha e Bruxelas soam pistolas metralhadores e corpos jazem no solo em poças de sangue, consequência de ajustes de contas e disputas territoriais associadas ao tráfego de droga. Na capital belga não é um problema das periferias degradadas; é mesmo no centro da cidade que as armas falam.

Recolhi a imagem acima de uma reportagem do El País sobre Marselha. Trata-se de um “drive-truh” de droga com clara indicação dos produtos – e aproveitam porque há promoção!

Dizer que o dinheiro compra tudo pode não ser absoluto, mas muito dinheiro compra muita coisa e ao dinheiro “ilimitado” quase nada resiste, seja pela convicção, seja pela coação.

Penso que esta guerra contra os narcotraficantes não tem vitória para as forças da lei. Especialmente enquanto continuar a existir gente rica e gira pagando e sugando cocaína, achando isso “cool”, financiando alegremente estas redes criminosas. Com tantos recursos financeiros disponíveis, os narcos encontrarão sempre buraco por onde furar e chegar aos seus clientes, deixando pelo caminho as vítimas e os cadáveres que for necessário.

Podem-se encontrar fortes semelhanças com a lei seca de há um século atrás, sabemos como foi e como terminou. Não estará na altura de aplicar remédio análogo?

Pode parecer chocante e perigoso para a saúde pública liberalizar a cocaína, mas talvez seja a única forma de secar e apagar uma rede brutal que brutaliza uma boa parte do universo. Provavelmente um mal menor.

O travão policial já demonstrou a sua ineficácia e, repito, recordemo-nos da lei seca.

16 setembro 2026

Se isto é um drama


Já aqui atrás falei do “Volta” e da minha surpresa quanto à sua contestação.

Agora foi o Presidente da Câmara de Lisboa a pedir o seu cancelamento, dado estar a criar um “drama social sem precedentes”. Bom, se os problemas provocados com a aplicação da Volta podem constituir um drama social sem precedentes, não devem existir grandes problemas na sociedade, tais como gente malnutrida, mal alojada, sem acesso a cuidados médicos dignos e por aí fora.

Certo que não é bonito ver gente a remexer no lixo e para uma cidade que se quer catita, para inglês ver, e se isso acontece é porque alguém lá colocou valor.  Certamente que na origem do drama está o comodismo de quem não se importa em deitar uns cêntimos ao lixo.

Pessoalmente, apesar de utilizar poucas embalagens das tratadas pelo Volta, nunca tive o mínimo problema em as devolver e obter o crédito.

Os desafios da reciclagem passam em muito pela separação e valorizar os resíduos para o proporcionar é um caminho. Será que 10 cêntimos é pouco?

Cancelar o sistema por questões estéticas será um drama, a prazo e... tenham a noção do ridículo.

10 setembro 2026

Coincidências…


Na Alemanha , um partido de ultradireita ganhou as eleições na Saxónia-Anhalt. Não estaremos na véspera de uma nova noite de cristal, mas este resultado, associado ao crescimento da extrema-esquerda, é alarmante. É inquietante vermos uma evolução do eleitorado para opções que não reconhecem os valores fundamentais da nossa sociedade, que, não sendo perfeita, é largamente superior em termos de prosperidade e bem-estar dos cidadãos a todas as outras alternativas. Nos próximos capítulos, poderemos muito provavelmente assistir a uma segunda volta das presidenciais francesas entre Le Pen e Melenchon!

Por cá, continuamos a ver o caso Luís Neves, onde a sua gravidade já ultrapassou há muito a dimensão das tropelias que lhe deram origem. O verdadeiro problema está no primeiro-ministro, que defende a sua permanência no Governo, e em toda uma elite com poder formal ou informal, que insiste em nos tentar impingir leituras ridículas, pressupondo que falam para diminuídos mentais.

Um destes dias iremos acordar com um resultado eleitoral preocupante e já estou mesmo a imaginar as pesarosas e alarmistas declarações sobre o leite derramado. Chama-se hipocrisia.

05 setembro 2026

As guardas pretorianas

Em termos quantitativos, entre as trapalhadas de Luís Neves e as operações Sócrates/Salgado, vai a distância de Harvard a um jardim escola. No entanto a forma como o ministro tem sido defendido levanta algumas interrogações.

Um pequeno exemplo. Ninguém é contra a aplicação do devido castigo a marginais, incluindo o eventual confisco de património, mas é a PJ que julga, condena e aplica a pena, confiscando discricionariamente bens e equipamentos, depois requisitados para fins operacionais pouco explícitos? Isto é compatível com um Estado de Direito?

Sócrates defendeu-se negando, ridicularizando-se e teve a sua guarda pretoriana próxima e restrita, bem identificável quanto a motivações e enquadramento. Rapidamente ninguém com imagem de intelectualmente honesto teve a coragem de relativizar os fatos ou de fazer campanha mediática em defesa do senhor.

Com Luís Neves há algo de especial. Muita gente que seria considerada inteligente e equilibrada está a sair à rua, denodadamente a pôr água na fervura, a reduzir a importância e dimensão dos factos. Para mim é um mistério. Qual o enquadramento e a motivação desta milícia pretoriana difícil de enquadrar?

Pode a dimensão puramente quantitativa em causa não ser enorme, mas este ambiente de impunidade, arrogância e descarada tolerância é um precursor de um mal muito maior que merece ser identificado e desmascarado.

 

01 setembro 2026

Estes eslavos do Sul


Uma comunidade é um conjunto de pessoas que em várias dimensões se exprime na primeira pessoa do plural. Nós somos assim, nós fazemos assado, nós gostamos de cozido. Dentro da ficha de identificação comunitária encontra-se muitas vezes a crença: Nós seguimos esta religião.

Por outras palavras, alguém partilhando o mesmo espaço e referencia sociais, só porque tem outra crença deixa de ser “um de nós”.

Muitas das mais violentas e bárbaras guerras civis da história foram consequência de processos de homogeneização religiosa de Estados. Sem querer ser muito exaustivo, três exemplos. As lutas e massacres entre católicos e protestantes na Europa dos séculos XVI e XVII; as inquisições ibéricas; o pós-colapso do império Otomano na Turquia, no século XX, especialmente para os arménios e gregos ortodoxos.

Se há local, relativamente próximo, onde esse violento processo se prolongou muitíssimo, foi nos Balcãs. A Jugoslávia, literalmente país dos eslavos do Sul, inicialmente criada no final da primeira grande guerra, após a derrocada dos impérios vizinhos, nunca se conseguiu cimentar como Estado e pacificar os diferentes grupos étnicos e religiosos,

Os terramotos decorrem do movimento e choque entre placas tectónicas e aquela zona está efetivamente na linha da frente de várias placas culturais/religiosas. Do Noroeste vem a Europa cristã/católica; do Nordeste os eslavos ortodoxos e do Sudoeste os otomanos muçulmanos. Para o Sudoeste sobra o mar adriático.

Perdendo a cola da bota comunista, “não-alinhada”, de Tito, é impressionante como se fragmenta e como gente vizinha por décadas se descobre diferente, inimiga e desata a chacinar-se mutuamente. Até que ponto a procura de posição dominante da Sérvia foi determinante nesse descolamento das regiões é uma questão pertinente, que não sei responder. Arrumadas as restantes províncias em países relativamente hegemónicos, ficou a sobrar no centro a Bósnia.

A Bósnia Herzegovina é talvez o maior símbolo e teatro de impossibilidade de integração de diversidades e, mesmo que se possa hoje chamar um país, na prática está retalhado.

Isto vem a propósito da forma como a Sérvia se prepara para organizar um funeral da Estado para Ratko Mladic, o bárbaro carniceiro de Sarajevo, condenado pelo TPI por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Como se o facto de ser um dos “nossos” ser mais relevante do que os milhares dos “outros” que ele chacinou. Estamos a ver algo de semelhante acontecer na “nossa” Europa? Por exemplo, o atual governo alemão homenagear Hitler, como um grande patriota?

Há aqui diferenças na dimensão humanitária que ultrapassam o simples credo religioso. Estes eslavos…


30 agosto 2026

Mulheres de Ceuta


A invasão de Ceuta e o seu posterior dia-a-dia estão a ser um laboratório, mostrando o que pode resultar de uma abertura descontrolada das fronteiras a uma população culturalmente diferente. Penso que, no que diz respeito a “politicas migratórias”, irá existir na Europa um antes e um depois destes acontecimentos.

Conheço relativamente bem o norte de África e, desculpem lá a franqueza e incorreção, mas não sou muito sensível àqueles cartazes de quem pede/exige vir para a Europa, para ter mais oportunidades. Com o devido respeito e reconhecimento pelos bons profissionais que conheci, a uma esmagadora maioria da população jovem, alguma até com formação superior, faltava-lhe atitude, compromisso e confiabilidade para assumirem responsabilidades profissionais. Mais importante do que deficiências de formação, que se resolvem com algum esforço, encontrei falta de vontade de se dedicarem seriamente aos desafios profissionais. Certo que viver num sistema em que o mérito não é necessariamente um critério de valorização não ajuda. Muitas vezes éramos obrigados a deslocar técnicos de Portugal, que devido à expatriação custavam muito mais, pela simples razão de que não se conseguia fazer trabalhar corretamente os locais.

Curiosamente a percentagem de mulheres com bom desempenho profissional era muitíssimo mais elevado do que a dos homens. Quando elas se apresentavam para trabalhar era porque o queriam fazer mesmo e encontrar realização e autonomia. Não procuravam emprego por pressão familiar ou social, muitas vezes estavam precisamente contrariando essa pressão.

Muito diferente me parece também ser o enquadramento de algumas mulheres que arriscaram a travessia para Ceuta, ato que lhes requereu uma enorme coragem. Ouvindo relatos, muitas buscam apenas segurança e tranquilidade contra situações de violência doméstica e ausência de respeito pelos direitos básicos. O ponto é o seguinte: ou ignoramos o que se passa do outro lado das fronteiras, evitando as tradições acusações de ingerência neocolonialista, ou nos preocupamos com a sorte dos seres humanos na sua universalidade.

Se entregadores de pizzas ao domicílio já devemos ter suficientes, as oportunidades deverão ser oferecidas a quem esteja pronto a assumir compromissos e procure valorização, com esforço. É mais difícil do que andar a correr pela rua e a gritar pela Europa, mas é isso que devem entender. Não é com condescendências paternalistas e prevalência de más consciências do passado colonialista, que já acabou há mais de 50 anos que, teremos bons resultados. Quanto às (muitas) mulheres, parece-me ser um caso diferente. A fragilidade e a injustiça são muito mais elevadas.

27 agosto 2026

Mentiras em S. Bento, verdades em Barcelos


Fundos soberanos são tipicamente coisas de países ricos que, em vez de deixarem o pé-de-meia debaixo do colchão, o investem aqui e acolá. No caso do nosso, que passa a vida de mão estendida, precisaria de estender as duas e, atendendo ao notório insucesso das suas investidas em empresas, as expetativas não são positivas.

Quando não se sabe justificar objetivamente uma decisão, é prática comum invocar um presumido e vago interesse estratégico. Quanto à entrada no capital da REN, o Primeiro-ministro ousou concretizar e anunciou que tal participação iria permitir aos portugueses virem a pagar menos pela eletricidade. Como explicaram vários conhecedores, alguns até da mesma cor política, isso é mentira. Face à regulação a que já está submetida e empresa, de forma nenhuma a presença de um ou dois administradores públicos no seu conselho de administração poderá ter impacto nas nossas faturas futuras.

Para não ficarmos pelas mentiras, evoco uma verdade. O hospital público de referência para o meu concelho é o de Santa Maria Maior, de Barcelos. Com todo o respeito e reconhecimento pelos profissionais de saúde que aí trabalham, aquilo não são instalações deste século, nem os meios disponíveis compatíveis com a dimensão da população atendida. Seria muito mais estratégico para mim, e para uns largos milhares de utentes, dispor de uma boa infraestrutura de saúde. Os potenciais futuros administradores públicos nomeados para a REN terão certamente outras prioridades, mas em contabilidade democrática a sua derrota seria esmagadora.

26 agosto 2026

Assim progredimos


Foi hoje anunciado o nascimento de um “think tank”, ou “do thank” ou sabe-se lá se não evoluirá para piscina. Pretende ser um laboratório de ideias de esquerda. Não entendi bem qual a alquimia prevista e o que falta inventar.

A coisa intitula-se Instituto Progresso, desculpem lá a imodéstia, e é liderado pelo senhor da fotografia, jovem senhor que aparentemente ainda não consegue uma barba adulta. Será certamente um excelente político dentro dos parâmetros habituais da classe nos dias de hoje. Para lá da aparelho partidário e cargos públicos políticos nada mais fez na vida e presume-se que nunca fará. Os restantes nomes que vejo citados e encherão o tanque são também gente de carreira política. Até Isaltino Morais lá dará uns mergulhos.

Fico certamente com muitas dúvidas do que nascerá desta salada e do brilhantismo e intelecto espetacular de gente como Pedro Costa. Se por lá está tanta gente com responsabilidades partidárias ao longo de muitos anos, o que faltou para pensarem antes, proporem em programa eleitoral e levarem à prática quando governo?

Quando leio que está previsto ““análise e implementação” de medidas concretas que propõe, através de parcerias com “empresas, municípios, escolas, academia e sociedade civil” fico com a nítida sensação de que alguém se prepara para ir ao nosso bolso.

Enfim, para progresso é necessário competência, liderança e integridade, coisas difíceis de descortinar no conjunto destas “personalidades”. Que raio de interesse os une afinal?

22 agosto 2026

As contas de Luís Neves


Não, não se trata de especular novos casos. Apenas recordar que para todos aqueles que são de palavra o prometido é devido.

Logo na fase inicial quando se questionou Luís Neves sobre o montante pago ao seu amigo empreiteiro pelas obras realizadas e face à estranheza quanto ao reduzido valor anunciado de cinco mil euros, o ministro declarou que as contas seriam fechadas no final.

Na conferência de imprensa de 29 de julho, ficamos a saber que a Construbarcelos já não estava a realizar obras no monte alentejano. Como quem trabalha quer ser pago e não há piscinas grátis, presumimos que já devem estar as contas fechadas e as faturas emitidas.

Podemos ver a lista de trabalhos e a respetiva valorização, para termos a certeza de que não houve tratamento de favor…? Se não há nada de errado, Luís Neves só tem a ganhar com esta transparência. Se esconde, não é bom sinal. Não é por o tempo passar em silencio que as dúvidas desaparecem.

19 agosto 2026

A humanidade de Fidel Castro


Não há maior cego do que aquele que não quer ver e a cegueira de uma certa esquerda sobre as experiências comunistas é um caso patológico.

Vimos recentemente passar o centenário sobre o nascimento de Fidel Castro e, fatalmente, não falaram esforços para encontrar méritos no senhor. Cheguei mesmo a ver realçado o seu carácter humano. Considerando que não teria sido um humanoide, do ponto de vista biológico está correto.

Mais difícil será enquadrá-lo numa humanidade que inclui respeito pelos outros seres humanos, empatia, solidariedade e altruísmo; olhar o outro e entender que há sempre algo de comum connosco. Recordando o muito oportuno e humanista Albert Camus

 Os homens são todos diferentes, é verdade, e eu sei das profundas tradições que me separam de um africano ou de um muçulmano. Mas sei também o que nos une, sei que há, em cada um deles, algo que não posso desdenhar sem me destruir a mim mesmo

Fidel Castro teria carisma e capacidade de sedução, especialmente para quem quisesse ser seduzido. Associar isso a humanidade, especialmente com toda a prática repressiva e feroz protagonizada pelo regime, é um abuso e uma estupidez.

Gostava de conhecer um exemplo, um único, de um regime comunista que tivesse tido uma prática humana e de respeito pelos direitos humanos. Penso que nem sequer se consegue encontrar a tal exceção que eventualmente confirma a regra.

Provocação final: que diriam estes admiradores de Fidel, se aparecesse alguém a invocar que, apesar de tudo o resto, Hitler tinha sido um patriota.

18 agosto 2026

Entre a pimenta e o refresco


Gostaria de saber o seguinte. Se a ministra da Saúde ou o primeiro-ministro tiverem, por exemplo, uma forte mal-estar abdominal, com fortes cólicas e acharem que necessitam de atenção médica, ligam para a linha SNS 24, ficando eventualmente uma hora à espera? Depois, apresentam-se na urgência referenciada, suplicando a todos anjinhos para serem contemplados com uma pulseira da cor mais quente possível e aguardam umas boas horas até finalmente verem um médico à sua frente?

Sendo consensual que todos os cidadãos têm os mesmos direitos, viva a igualdade, que neste nosso regime não há prerrogativas de casta, todos, e mesmo todos, os cidadãos deveriam seguir o mesmo processo, independentemente de serem ministros ou amigos dos mesmos, não?

Talvez que se isso ocorresse, se os responsáveis máximos fossem obrigados a provar o remédio que receitam, maior seria a motivação para mudar o estado das coisas. A diferença entre o refresco e a pimenta…!


17 agosto 2026

Deus quer?


As atrocidades cometidas pela inquisição e o seu carácter absolutamente incompatível com os princípios cristãos não são novidade para ninguém. Já em tempos tinha expressado umas reflexões aqui sobre a insanidade que se pode encontrar nos autos dos seus processos.

A obra agora lida de Alexandre Herculano, trouxe-me algo mais sobre a sua génese. Não foi caso de simplesmente um Rei sonhar, um Papa querer e a obra nascer. A realidade foi mais complexa e merece algumas reflexões. Quando Gregório IX estabelece o Santo Ofício inicialmente, no século XIII, a instituição igreja está ameaçada por heresias, muito especialmente os cátaros no sudoeste de França e estes tinham iniciativas proselitistas, buscando ativamente desviar ovelhas do rebanho romano. Sem menorizar a sua crueldade, pode entender-se que Roma tinha razões para se sentir ameaçada e reagir com brutalidade. A lógica era clara.

Em Portugal isto passa-se três séculos depois e bastante a reboque da vizinha Espanha (não foram bons ventos). As expulsões e conversões forçadas ocorreram em 1497, no âmbito do contrato de casamento de D. Manuel I com a filha dos reis católicos. Estes insistiam que deveria existir um Torquemada português. Em Espanha ela vem de 1478, instaurada pouco após a unificação de Castela e Aragão. Pode-se entender que o novo reino, sentisse necessidade de procurar uma entidade identificadora e agregadora na religião. Não parece ser de forma alguma uma situação análoga à de Portugal, onde a definição da identidade estava muito mais consolidada.

O estabelecimento do tribunal da Inquisição no nosso país vai ocorrer em 1536, no reinado de D. João III, cognominado “Piedoso”, apesar de piedade não ter demonstrado muita. O que nos conta Alexandre Herculano na sua obra é que mesmo após a sua criação ocorreu um longo processo negocial (e transacional) entre o Rei a reclamar uma inquisição com plenos poderes, sob a sua alçada e fora da jurisdição e controlo do Vaticano e um papa, Paulo III, muitíssimo renitente. Inúmeros braços de ferro, manobras e golpes de parte a parte. Em termos de “defesa da fé”, D. João III foi largamente mais papista do que o Papa.

Sobe a capa de discussões “teológicas”, existiria obviamente disputa de poder, não sendo de menor importância o destino a dar aos bens dos condenados. No entanto, face ao estado calamitoso do país, porque é que D João III se encarniçou tanto em ter a “sua” inquisição e fez disso uma prioridade? Até que ponto foi determinante a influencia da rainha, Catarina de Áustria, que, aparentemente, mais do que se ver como rainha dos portugueses, via-se como uma Habsburgo, irmã do Imperador Carlos V? Qual o interesse de Carlos V se empenhar tanto em advogar a causa do cunhado e se mostrar tão interessado em ver um Santo Ofício livremente ativo (e assassino) em Portugal? Alguma relação com o facto de a migração ibérica dos judeus de Espanha para Portugal enfraquecer relativamente o seu reino e a fuga dos judeus portugueses para os Países Baixos enriquecer esses territórios… governados também por Carlos V?

A inquisição é uma história de fanatismo e hipocrisia, mas também de brutal maldade e desumanidade desmedidas. A facilidade com que se manipulou e atiçou o “povo” e a forma como foram tratados inocentes cujo único pecado era serem diferentes (e terem sucesso) é algo que nos deve ainda hoje fazer refletir.

A desgraça que tocou o nosso país umas décadas mais tarde não nasceu em Alcácer Quibir.

13 agosto 2026

Em que país?


Todos os cidadãos que de uma forma ou de outra esperaram e desesperaram por um atendimento no SNS certamente se questionam em que país vivemos ou queremos viver. É fácil recordar que os recursos são limitados, porque isso é sempre verdade. No entanto, quando vemos o aumento do orçamento do SNS ao longo dos anos e algumas pontas de icebergue, como o caso do dermatologista do Santa Maria, a faturar dezenas de milhares de euros num único dia, não parece que tudo se resuma a limitações orçamentais. Não faltam vampiros que beneficiando da cumplicidade ou incompetência do pastoreio, chupam gulosamente os impostos da manada.

Há quem argumente que os governos querem destruir o SNS, entregar o negócio a privados e que a saúde não deve ser comércio. A medicina atual e respetiva economia é diferente da dos tempos de João Semana, felizmente. Continuam a existir muitos profissionais dedicados, altruístas e imbuídos de vontade de fazer o bem ao próximo, mas, se entrarmos num hospital público e virmos os equipamentos e os consumíveis presentes, eles foram comprados e pagos a empresas privadas.

Para um doente que necessita de extrair um tumor maligno, o fundamental é a operação ser realizada depressa e bem; para os governantes gestores dos nossos impostos o importante é haver racionalidade na utilização dos mesmos. A placa de identificação do edifício onde a intervenção é realizada será de importância secundária. Soluções extremas de tudo privatizar terão também potenciais efeitos secundários indesejáveis, mas o que não faz sentido é o doente esperar o dobro do tempo, com eventual fatalidade, e desperdiçar-se receita de impostos por posições “religiosas” e não racionais.

Voltando ao país onde queremos viver, e já sem falar em rotundas cibernéticas, festanças e fogos de artificio, precisamos mesmo de espetaculares novos aeroportos, linhas de alta velocidade e outros investimentos públicos vistosos? Talvez precisemos, mas a saúde dos cidadãos é e tem que ser uma prioridade máxima. Mais do que verbas é necessário liderança, competência e integridade. Enquanto lá não chegarmos, deixemos de armar aos ricos para “ingleses verem” e amigos faturarem.

08 agosto 2026

Não sei que lhe diga…

Depois de Camilo, Júlio Dinis e Alexandre Herculano, chegou naturalmente a vez de Almeida Garret. Ele foi um cidadão com uma enorme participação e contributo na vida política e cultural do país, mas esse não é o tema aqui. Apenas o que achei da sua produção literária que li. Pela introdução já dará talvez para entender que não me entusiasmou muito e que tenho alguma dificuldade em sintetizar num traço caraterístico. Pode ser da seleção de obras que fiz...

As duas peças de teatro são interessantes, mas não a ponto de deslumbrar. Talvez seja da escola da época, as personagens são estáticas, acabam como começaram, não se apercebem subtilezas nem evoluções. Custa-me a entender o carácter quase mítico atribuído ao “Ninguém” do Frei Luís de Sousa.

O Arco de Santana é um romance histórico que tem a particularidade notável de tudo acabar em bem. Até a velha judia se converte voluntariamente no final, para nada destoar. O prato principal, que ficou para o fim, foi o Viagens na Minha Terra, cujo saltar da leitura integral muito me tinha trocado as voltas no secundário.

A história entrelaçada é “mais” uma narrativa romântica em que como seria obrigatório, a donzela acaba em morte súbita, suicida, demente ou, no melhor dos casos, em clausura. Tem duas exceções, a inglesa Georgina tem mais força e determinação do que o habitual e Carlos acaba por não ser o garboso cavaleiro irrepreensível que a receita da época prescrevia.

Se já tinha achado que Camilo saltava demasiado da narrativa para se dirigir ao leitor, neste livro Garret ultrapassa-o de forma gigantesca. Os comentários e apartes não se ficam pelo enredo e personagens, mas vão sobre tudo. Algumas reflexões são certamente muito pertinentes, mas gostaria de as ver mais agrupadas e estruturadas e não despejadas a granel, sendo que por vezes parece ser alguém que faz mais garbo em expor da sua enorme cultura geral do que em desenvolver o que pensa.

Para não acabar em negativo, cá vai uma citação:

Fica, é verdade, o direito salvo para chorar depois o erro, lamentar a precipitação do momento e conspirar cada um contra a sua própria obra; mas é tudo o que fica.

 E não obstante isso, assim se fez sempre, assim se há-de sempre fazer, porque o povo nunca se excita fortemente pelo bom do que há-de vir, senão pelo mau e insuportável do que é. Por outras palavras: nenhum demagogo fez nunca uma revolução com os seus programas, por mais artigos que eles tenham; todas as fazem os governos, todas as concita o poder por seus abusos e insolências.

 

06 agosto 2026

A medida da imigração


Frequentemente discute-se a imigração em termos absolutos e redutores: é boa porque isto; é má porque aquilo. Como é óbvio, nem todos os emigrantes são iguais qualitativamente em potencial e cultura, nem todas as escalas são equivalentes.

Por estes dias, os acontecimentos de Ceuta vieram colocar em evidência a falta de consistência dessas abordagens simplistas. A chegada daquela quantidade de pessoas a um espaço como Ceuta em dois dias é obviamente incomportável; se fosse a toda a Espanha durante 10 anos, seria diferente. Onde está o limite?

O limite está certamente na capacidade de integração sem transfiguração social. Um quadro venezuelano irá integrar-se mais facilmente do que um jovem marroquino, que não fala espanhol, nem tem formação. Os países que se identificam como Estados têm uma identidade e costumes em que os seus cidadãos se reconhecem. Evoluem, certamente, mas essas mudanças não podem ser brutais, nem colocar em causa valores basilares da sociedade recetora, neste caso, principalmente, a liberdade, a tolerância e a igualdade de direitos, para lá de alguns códigos sociais básicos, que também definem o ecossistema social. Em Portugal é normal atravessar uma rua fora da passadeira, na Suíça não. Um suíço não apreciará ver imigrantes portugueses transporem para lá essas práticas (apenas um exemplo simples e pacífico).

Nas causas de Ceuta, acumulam-se vários fatores, catalisadores e responsabilidades dos dois lados da fronteira e não é objetivo aqui analisá-los.

Queria apenas realçar que a política do “venham todos”, somos bonzinhos e “recebemos todos, todos” estourou na cara de Pedro Sanchez e de quem o defende. Supostas boas intenções ingénuas ou demagógicas não são solução para nada. Veremos se aprenderam! Vai uma aposta?

04 agosto 2026

O Volta e a Revolta

Foi com bastante surpresa que constatei a existência dum encarniçado movimento contra o Volta, com petição pública e tudo.

Antes de mais, é de recordar uma evidência sobre tratamento de resíduos. É consensual que poupar o planeta e os seus recursos passa por reduzir e valorizar resíduos. Se não é, devia sê-lo. Tratar um monte de papel velho tem solução fácil, um monte de vidros também, idem para latas de alumínio, cascas de batata e pilhas gastas, sempre que os mesmos se apresentem separados. Se estiver tudo misturado a granel num contentor, torna-se muito difícil!

Eu separo o mais que posso e choca-me ver situações como às vezes encontro, especialmente em cafés ou restaurantes, onde tudo vai para o mesmo grande saco preto, atirado no contentor de resíduos indiferenciados da esquina.

Sobre o Volta, posso entender que se discutam sugestões de melhoria, se questionem os circuitos financeiros, mas pretender abolir o sistema de todo é violento. No meu caso, pouco muda, apenas tenho que ter um pouco mais de cuidado com as embalagens e levá-las ao supermercado em vez de ir ao ponto de reciclagem.

Logo numa das primeiras queixas da petição, invoca: “Impõe ao cidadão o trabalho de armazenar, transportar e entregar embalagens.”. Pois, quem queriam que o fizesse – o Pai Natal? Talvez não se lembrem, mas já chegou a existir um depósito de vasilhame generalizado para as bebidas no passado e ninguém morreu por isso.

Refletindo sobre quem pode ter ficado assim tão assanhado com o sistema, encontro um padrão possível. O dos preguiçosos que não estavam para se ralar com a reciclagem das embalagens e agora perdem uns trocos e no mesmo princípio, mas com outra dimensão, aqueles que no café punham tudo misturado no mesmo saco preto. Terão efetivamente mais trabalho, mas se queremos dar uma ajuda ao planeta, não dá para ser egoísta.

Sobre os caçadores de embalagens Volta nos contentores do lixo, isso merece atenção e busca de solução, mas obviamente que não é razão para abolir o Volta e encher aterros.

 

03 agosto 2026

Narrativas esfarrapadas


Um dos aspetos mais irritantes deste folhetim de Luís Neves e da PJ não é necessariamente a dimensão dos ilícitos, mas a forma como insistem (ele e uma certa legião de comentadores) em nos fazer passar por parvos e isso… chateia-me! Alguns exemplos.

Diz LN que o tanque foi passado a piscina sem ele saber. Por mais informal que seja a relação entre o dono da obra e o empreiteiro, se este tem uma sugestão de alteração significativa ao que estava planeado, o natural é que o sugira ao seu cliente. Este, e particularmente se não nadar em dinheiro, decidirá em função da resposta a uma pergunta fundamental: Isso quanto custa? Querem que acreditemos que o empreiteiro faz as melhorias que lhe pareceram bem, sem o dono da obra saber sequer quanto iriam custar?! A menos que tivessem sido gratuitas…

Diz o empreiteiro que o conteúdo do famoso atrelado foi descarregado nas suas instalações e este aí ficou parado sem se movimentar. Quando foi encontrado pelos jornalistas em Barcelos, ele estava acoplado a um camião trator do empreiteiro. Sendo que a galera pode perfeitamente ficar estacionada sem companhia, qual a razão desse casamento ainda em vigor há tão pouco tempo? Querem que acreditemos que esse camião ficou imobilizado, agarrado ao atrelado, desde algures em 2025 até julho de 2026?

Disse LS que apresentaria o detalhe dos trabalhos e pagamentos no final dos mesmos. Disse na conferência de imprensa que o empreiteiro amigo já lá não trabalhava. Então, por favor, o que falta para mostrar a totalidade do que foi feito, faturado e pago?

Chateia-me !

31 julho 2026

Um atrelado para ti, um Ferrari para mim


Não sei se uma CPI aos mandatos de Luís Neves na PJ será a ferramenta adequada, mas depois de tantas semanas a preparar esclarecimentos, a comunicação do ministro ficou longe de satisfazer as expetativas dos cidadãos deste país.

Há, por um lado, as práticas na organização, onde a utilização algo desregulada de bens apreendidos parece ser coisa habitual. É mesmo assim? Um bem apreendido fica ao belo dispor de quem na PJ lhe puder deitar a mão? Imaginem que era um avião particular!

Já agora, se a PJ apreender um Ferrari, não tiver onde o guardar e não quiser pagar a renda de uma garagem, eu fico com ele em minha casa gratuitamente! Uma poupança para o Estado!!! Precedente já existe!

Depois há o perfil e a ligeireza do grande polícia Luís Neves que parece não hesitar em assumir e desvalorizar o não cumprimento da lei, desde que depois, quando alertado, corrija. Posso um dia argumentar: senhor agente, eu desconhecia o limite de velocidade aqui, mas logo que vi a vossa viatura atrás de mim, mandando-me encostar, corrigi imediatamente e isso é o mais importante neste momento.

As relativizações e desvalorização destes episódios por parte de algumas personalidades, já não se suportam. Não têm pudor em fazer essas figuras?

30 julho 2026

Em busca das causas perdidas


Há uma certa esquerda que na sua ficha de autoidentificação garante serem os mais bonzinhos da praça, estarem sempre disponíveis para denunciarem e combaterem coisas más e quanto mais extremistas forem, maior a respetiva bondade. Sim, fazem bandeira de valores como a liberdade, a justiça social e a igualdade, mas nos dias que correm já se torna difícil fazer uma verdadeira diferenciação por esse caminho. Especialmente no mundo Ocidental, não estamos de todo em cenários de romance neorrealista do século XX.

A esquerda perde as classes operárias e quanto mais à esquerda, maior a perda. A teoria de Marx de que as injustiças do capitalismo levariam à revolução comunista e quanto mais capitalismo mais cedo ela chegaria, falharam completamente. O sucesso do capitalismo matou o comunismo. Sim, podemos criticar o sistema capitalista, mas é nesses países que melhor se vive neste mundo.

Se há locais no mundo em que essa militância tem muitas razões para intervir é no terceiro-mundo. Muito mais injustiça social existe em Angola do que em Portugal, por exemplo. No entanto, não parece ser cómodo ir aí pregar e até se invoca com um certo paternalismo que, coitados, “tudo” é ainda herança dos malefícios da colonização, cujos herdeiros devem assumir e pagar a culpa fundamental. Certo é que se esses países fossem governados por um sistema do tipo ocidental e capitalista o seu povo viveria muito melhor e é isso o que mais conta.

Perdidos os seus clientes proletários na Europa, curiosamente em grande parte recuperados pela extrema-direita demagógica, a esquerda boazinha precisou de encontrar novas causas de práticas ocidentais mazinhas, contra as quais hastear bandeira. O capitalismo é um mal e encontrar-se-ão sempre práticas nocivas a denunciar e a combater.

As novas causas passaram a ser as minorias, sejam elas étnicas, culturais, religiosas ou de qualquer outra natureza, supostamente injustiçadas. Mais uma vez, há aqui alguma incoerência e enviesamento. Alguns exemplos: os direitos das minorias muçulmanas na Europa são comparáveis com os dos cristãos no Médio Oriente? A situação dos LGBTs no Ocidente é equiparável com o que se passa em muitos países árabes ou africanos? Querem comparar a situação dos ciganos por cá com a dos uigures na China? Já vimos esses militantes das boas causas ativamente denunciando essas situações, muitíssimo mais graves? Claro que no Ocidente há liberdade para manifestar e criticar enquanto noutras partes do mundo é menos fácil…

Um dos mais caricatos e risíveis exemplos desta militância pelos direitos das minorias ocorreu há dias no Parlamento Europeu. Ao iniciar uma intervenção, a eurodeputada irlandesa do Sinn Féin, Lynn Boylan, lamentou-se de não ser possível expressar-se na sua língua materna, o gaélico. Mais um exemplo e uma denúncia da opressão cultural e de desrespeito para com as minorias. Quando lhe informaram de que sim, de que o podia utilizar, já que havia serviços de tradução disponíveis para a sua língua, ela ficou engasgada. Disse que não estava preparada e continuou em inglês. É um pequeno episódio, mas com um simbolismo enorme.

29 julho 2026

ONU 2672

Quem estiver atento à “decoração” dos camiões e respetivas atrelados já terá notado placas deste tipo nalguns. É uma sinalização de que o veículo transporta cargas perigosas, mostrando código do produto e o tipo de risco.

Isto acontece, e bem, porque não se anda por estradas e ruas carregando produtos perigosos como quem transporta sacos de cimento ou paletes de tijolo para o estaleiro.

Estes transportes são enquadrados por um acordo europeu denominado ADR, que regula o transporte rodoviário internacional de mercadorias perigosas. Não se fica apenas pela placa laranja. Se virem um camião de combustíveis podem identificar outras sinalizações sobre o tipo de risco, equipamentos de segurança, contactos de emergência, além de existirem outras obrigações menos visíveis. Os motoristas precisam de formação e certificação, deve haver documentação especifica relativa aos produtos e nalgumas situações mesmo o veículo precisa de ser certificado. Existem também regras de compatibilidade sobre produtos que podem partilhar o mesmo transporte ou não.

O número ONU 2672 corresponde ao amoníaco em solução, aparentemente um dos principais produtos carregados no famoso atrelado que foi do Seixal até Barcelos. Como presumo que originalmente os traficantes não lhe tenham colocado as placas laranja respetivas, fica a questão (só mais uma): quando ele se fez à estrada cumpria todos os requisitos ADR? Se sim, não deve ser difícil encontrar rasto dessa documentação obrigatória. Mostrem-na.

Se assim não ocorreu e foi basicamente dar à chave e fazer-se à estrada… quem anda à chuva pode molhar-se. Caso houvesse um acidente com sérias consequências, mesmo pessoais… quem responderia criminalmente? Saber-se-ia nesse tempo, presumo…

Estaremos mesmo perante este nível de ligeireza e irresponsabilidade?

 

28 julho 2026

A maçonaria frente ao juiz

Foi notícia recente que cinco membros da maçonaria expulsos da organização em 2023, contestaram internamente a decisão sem sucesso, acabaram por levar o caso a tribunal e o processo segue o seu caminho.

É um pouco insólito imaginar uma organização tradicionalmente tão discreta vir lavar a roupa suja em público e ser obrigada a mostrar os seus regulamentos e justificar decisões perante um juiz “profano”.

Coloca-se aqui uma questão sobre a natureza da organização. Vivemos em liberdade associativa e isso inclui direitos e deveres. Se eu quiser criar uma associação columbófila ou de amigos da sueca, estas deverão ter estatutos públicos, definindo objetivos, forma de governo, etc... Uma “associação” que evita esta transparência pública e respetivas obrigações é provavelmente ilegal. Daí ser lógico que as associações maçónicas, estando enquadradas na legislação existente, possam ser chamadas a tribunal quando as suas práticas são questionáveis face à lei.

A partir desta obrigação de transparência mínima, podemos procurar perceber quais os objetivos sociais atuais da organização. No século XIX era relativamente claro; hoje não sei. Quando por aí circulamos, por estradas, ruas e praças, é difícil descortinar a sua assinatura no que vemos. Se alguém me quiser informar em que medida a organização pode “contribuir para a minha felicidade” e do comum dos cidadãos, sou todo ouvidos.

Se estão em causa princípios universais e objetivos “altos, nobres e justos”, venham a terreiro assumi-lo e explicar o que fazem mesmo, mesmo, mesmo, para a sociedade, exterior à organização.

 

27 julho 2026

Mais histórico, menos romance

A minha relação com a obra de Alexandre Herculano não começou de forma muito feliz. No Português do 8ªano, ele foi precedido pelo Garret, não sei se por este ter nascido primeiro ou por ordenação alfabética. Andamos às voltas das “Viagens na Minha Terra”, que, por um motivo qualquer, eu tinha prescindido de ler na íntegra no início. À medida que o tempo passava, mais me convencia de que já não valia a pena o esforço, mas a análise do romance arrastou-se e eu andei umas boas semanas perdido pelo vale de Santarém.

Antes de irmos de férias da Páscoa, o professor apresentou-nos o “Eurico o Presbítero”, que seria o próximo objeto de análise. Aproveitei as férias para o ler de ponta a ponta e apresentei-me no recomeço das aulas tranquilo, seguro de que a Hermengarda não me iria trocar as voltas como a Joaninha tinha feito. Para meu espanto, comunica o professor que o “Eurico” estava dado e encerrado! Que injustiça!!

Na minha viagem pelos autores portugueses clássicos, depois de Camilo aqui e de Júlio Dinis aqui, chegou a vez do Herculano. O autor tem uma cultura enorme, é evidente. Não sei se ele escrevia com um dicionário ao lado, mas fez-me consultá-lo para descobrir o significado de palavras com uma frequência que quase me envergonha…

No registo do romance histórico, lendas e outras histórias, é muito interessante. São quadros ricos de um passado que dá gosto apreciar. Sou algo renitente quanto à credibilidade com que se põe figuras passadas a falar e a divagar, mas quero acreditar que o seu espírito científico e rigoroso e a sua bagagem cultural avalizam a obra.

Menos conseguido é o registo romântico dos corações. Já nem falo do choque de depois de ler Júlio Dinis onde tudo acaba bem e feliz, passar a desfechos dos mais dramáticos e infelizes que se pode imaginar. Há algo naqueles diálogos apaixonados a que não consegui aderir. Penso que intrinsecamente o intelectual Herculano não é um romântico, no sentido de um entusiasmado arauto de paixões.

Fica como sugestão as Lendas e Narrativas e o Bobo, descontando neste a tal vertente da paixão dramática.

Como cidadão, intelectual e político, Alexandre Herculano foi um enorme português.

 

26 julho 2026

O sistema Toufik

Durante algum tempo acompanhei de perto o que se passava na Argélia e até aí residi uma temporada. A sua vida política tinha a particularidade de ser duma misteriosa simplicidade. Simplicidade porque pouca coisa acontecia que mudasse algo de relevante e, ao mesmo tempo, quase nada se sabia do que acontecia nos bastidores do poder. De vez em quando transpirava alguma suposição, mas sempre coisa pouca e pouco documentada.

Uma figura representativa deste estado de coisas era o general Mohamed Mediène, de alcunha Toukif, que chefiou os serviços de informação do país durante 25 anos, de 1990 a 2015. Ele não se via em sítio nenhum, tampouco se expressava publicamente dalguma forma. As fotografias dele eram raríssimas. Qualquer noticia era frequentemente ilustrada sempre com a mesma, acima.

Num país em que as práticas dos agentes do poder não eram exemplares, os serviços de informação (DRS) tinham acumulado um álbum com registos comprometedores para todos, ou quase. Qualquer tentativa de abalar o senhor era travada pela ameaça da abertura do armário e exposição da gaveta correspondente.

As ações do DRS não se limitavam ao “soft-power”. Alguns opositores mais determinados foram vítimas de acidentes infelizes e muitos crimes imputados ao terrorismo islâmico levantam algumas dúvidas, já que beneficiaram mais o poder do que os islamitas.

A informação é uma arma terrível, sobretudo em meios pouco saudáveis. A suspeita de que uma polícia a utiliza em beneficio de interesses obscuros é fatal para a confiança dos cidadãos no regime e quanto mais alto for o nível, mais dramático será.

Isto vem a propósito do que se passa atualmente com Luís Neves. Certamente que a PJ portuguesa não tem paralelo com a DRS argelina, mas as contemporizações, as desculpas esfarrapadas, tudo isto transpira a manobras de bastidores e a guerras de influência. Uma polícia e a PJ em particular não pode ser arma de jogadas secretas.

PS: A teoria de que por trás disto existe uma “cabala” do Chega é só mais uma dessas tentativas de projetar cortinas de fumo. A haver cabala, ela estará noutro quadrante.


24 julho 2026

Parabéns aos USA

Os Estados Unidos da América celebraram este mês 250 anos e não é necessário ir a Teerão para os ver serem condenados como o grande Satã e o mais maléfico país da história da humanidade. Certamente que não têm currículo limpo, mas esses acusadores podem fazer o favor de apontar um, um único, exemplo de uma grande potência que possa atirar a primeira pedra…

São também tempos controversos. Por um lado, temos um Presidente que só lhe falta mudar o nome do país para TSA (Trump States of America) e com mais alguns detalhes de atitude e valores muito afastados dos princípios e práticas dos pais fundadores do país.

Outra figura, com bastante menos poder executivo, mas com grande exposição e apreciação mediática é o progressista Presidente da Câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani. Aparentemente sente-se algo desconfortável com a data e o contexto da fundação do país, provavelmente por ter sido pouco inclusivo. Esperemos que a moda não pegue, caso contrário ainda veremos alguns iluminados a condenarem a celebração da fundação de Portugal, pela intolerância de D. Afonso Henriques face aos mouros.

Apesar de todos os defeitos e pecadilhos, os USA são o país da liberdade e das oportunidades, num registo que não tem paralelo. O seu nascimento marca o nascimento irreversível de um sistema onde não há poderes sem escrutínio popular, não hã mandatos temporais de suposta origem divina e é o povo quem valida e sanciona o exercício do poder. O extrato a seguir da declaração de independência é extraordinariamente eloquente e forte:

“…todos os homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão Vida, Liberdade e a busca da Felicidade. — Que, para assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados. — Que sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva desses fins, é direito do povo alterá-la ou aboli-la, e instituir um novo governo, estabelecendo seus fundamentos sobre tais princípios e organizando seus poderes de forma que lhes pareça mais adequada para garantir sua segurança e felicidade”

É curiosa esta evocação do “direito à felicidade”. A felicidade é algo talvez difícil de definir juridicamente, mas com toda a subjetividade implícita, é dever dos governantes proporcionarem felicidade aos seus governados.

A implementação destes princípios após a independência não foi perfeita, certamente, sobretudo quando se pensa em negros e em índios. Mesmo hoje o valor de cada um não é exclusivamente função do seu mérito e do que ele faz. Continuam a existir alguns privilégios de casta, na prática.

Apesar de todas essas deficiências práticas não deve haver no mundo contemporâneo um país com um sistema mais são. Os resultados estão à vista em muito do que temos à nossa frente no nosso dia-a-dia e certamente que o seu sistema irá resistir a todas as Trumpices e Mamdanices que o ameaçam.

A fundação dos EUA marca a fundação de uma forma de governo que cortou com tudo o que então existia e, não sendo perfeita, é ainda hoje melhor do que todas as outras. 

 

23 julho 2026

Pela frente do palco

O Trovante foi um projeto fantástico na música portuguesa. Quantas das suas canções ficaram na memória de tantos, “Perdidamente”…

Se a criação artística esteve muito do lado do genial João Gil, juntando-se-lhes Manuel Faria e João Monge, este para os textos, o resultado não seria o mesmo sem as brilhantes interpretações vocais de Luís Represas, que agora nos deixou.

Tenho a discografia completa e dos concertos a que assisti, recordo especialmente a apresentação do “84” e do “Sepes”. Recentemente tive a oportunidade de assistir ao reencontro dos 50 anos, mas ao ouvir o desempenho vocal atual de Represas, desisti e decidi ficar com a memória da beleza e força de outros tempos.

Mais do que a memória dessas interpretações, ficam os registos e cito por exemplo, só como exemplo, “Memórias de um Beijo”.

Obrigado Trovante, Obrigado Luís Represas.

 

22 julho 2026

O motor do atrelado


Os primeiros episódios do folhetim com as obras no monte de Luís Neves parecem incluir irregularidades várias. Se bem que sendo transgressões habituais em muito cidadão comum não são aceitáveis no comportamento de um ministro.

O episódio do atrelado leva o caso para outra dimensão e até podemos nem dar relevo ao contexto da apreensão do veículo e ao fim a que se destinavam os produtos químicos.

A Marinha não queria continuar com a guarda dos mesmos pelo risco latente, a PJ não tinha verba (!?) para os neutralizar e o polivalente empresário de Barcelos apareceu e ofereceu-se para ajudar…

Em primeiro lugar, se os produtos eram potencialmente perigosos, que garantias de segurança foram precavidas para a sua armazenagem em Barcelos? Não é preciso ser muito instruído para saber que não se armazenam produtos químicos perigosos sem um estrito enquadramento de segurança, uma enorme panóplia de procedimentos obrigatórios e, dependendo das quantidades, respetivo licenciamento. De quem seria a responsabilidade caso um acidente grave tivesse ocorrido?

Depois, não existem almoços grátis. Qual a motivação do empresário para oferecer este serviço à PJ? Esta aceitou, um pouco como se aceita a ajuda de um amigo para guardar temporariamente na sua garagem alguns móveis, atravessando-se com enorme ligeireza a fronteira entre a esfera pública e a privada.

Uma coisa é certa. Se isto fosse o enredo de uma ficção, a mesma seria desacreditada por excesso de inverosimilhança. Qual o motor (e o combustível) que proporcionou ao atrelado e ao seu conteúdo tão singular viagem?

Como ainda há quem consiga alinhar umas palavras de tolerância e indulgencia para com Luís Neves, é outro mistério.

20 julho 2026

Crime e castigo

Luís Neves está para já inocente e ainda nem sequer de nada foi acusado. No entanto, para lá do óbvio conflito de interesses, ser amigo e receber favores de um empreiteiro com largo cadastro de calotes às finanças e à segurança social não lhe fica bem. Também ficam mal as trapalhadas quanto ao pagamento das faturas e à teoria absurda de que fatura emitida é sinónimo de fatura paga, assim como as especulações semânticas entre tanques e piscinas.

Certo que se fossemos julgar e condenar todos aqueles que, com maior ou menor consciência da transgressão, pagaram obras ou reparações “por fora” ou fizeram trabalhos sem autorização, no mínimo 3/4 do país ficaria com cadastro.

Daí a menorizar este caso pela banalidade das infrações vai um passo perigoso de transpor. Lembro-me de um ministro, Miguel Cadilhe, ter apresentado a sua demissão por fuga à sisa, o que, sendo frequente e comum, não deixa de ser uma fraude.

Há aqui uma questão de fundo que é o país em que queremos viver. Se é num reino dos “espertos” que aproveitam todos as oportunidades em benefício próprio, saltando por cima de regras e princípios, ou num Estado efetivo de direito, onde o expetável é os cidadãos serem íntegros e cumpridores. Obviamente que transgressores haverá sempre, mas essas práticas não deverão ser uma norma desculpável e o exemplo tem que vir de cima. Se se perdoa a um ministro que por função, experiência e formação não tem a mínima desculpa para ignorar o que anda a fazer, onde iremos acabar?

 Nota: Este texto foi escrito antes do episódio do atrelado, que levou o folhetim para outro nível, muito mais grave.