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19 setembro 2017

De spin a screwed


Não tenho nenhuma simpatia pelas máquinas de propaganda, que agora se chamam de “spin”. É um nome mais chique, mais “in”, usam ferramentas mais sofisticadas, mas os objetivos basicamente são os mesmos: influenciar e moldar a perceção da opinião pública. Podem argumentar tratar-se simplesmente de “realçar” uma perspetiva … mas a prática é muitas vezes pura e simplesmente enganar descaradamente. Enganar é feio e muito principalmente quando os mandantes são entidades públicas e governamentais, com responsabilidades éticas acrescidas face ao comum dos mortais. Por outro lado, em geral, há uma relação entre a necessidade de propaganda e o autoritarismo dos regimes. Quanto mais feios são, de mais maquilhagem necessitam.

Um destes dias a Bell Pottinger, multinacional de “Relações Públicas” e “Gestão da Reputação” baseada em Londres estourou e faliu. Criada em 1987 por Sir Bell, o spin doctor favorito de Margaret Thatcher, eram bons e especiais. Corriam o risco de atender clientes delicados, como a fundação Pinochet, a primeira dama da Síria, o ditador da Bielorrússia, os governos do Egito e do Bahrain, etc. Que fizeram eles, então? Aceitaram e executaram uma encomenda, com origem ligada ao poder na África do Sul, cujo objetivo era provocar agitação social, explorando as questões raciais. Isso mesmo... aumentar a tensão racial, na África do Sul e pago por próximos do poder em exercício. Mesmo isso!

Felizmente, isto passa-se no Reino Unido, onde a diferença entre os princípios e a prática não é tão grande como noutras paragens e a associação de empresas do sector baniu-os, provocando a sua queda, merecida. De tanto fazerem “spin”, acabaram “screwed”. In portuguese: de tanto enrolaram, acabaram enroscados (ou uma palavra mais feia).

Palpita-me que não será assim um caso tão único e dá para ter uma ideia do que (não) vai acontecendo por este mundo, graças à propaganda e à manipulação. A solução? Ser prudente, não acreditar em tudo à primeira e, sobretudo, diversificar as fontes (fica o problema de muitas vezes, sem saber, estarmos a ouvir apenas vários ecos da mesma fonte).

10 agosto 2017

Laicidade e laicofobia


Voltando à questão dos abusos, que começou aqui e depois divergiu para um “podemos não estar de acordo” aqui, achei por bem, eventualmente sendo de novo abusivo, transcrever um texto, algo provocador, de Amine Zaoui, jornalista argelino e muçulmano, publicado recentemente no jornal argelino “Liberté”. Certamente não faltará quem o insulte de várias formas e feitios. Não vou dizer que estou de acordo e tudo subscrevo, mas é assunto que vale a pena questionar e um ponto de vista que merece ser analisado/discutido.

O muçulmano, todo o muçulmano em qualquer parte do mundo, é alérgico ao conceito de "laicidade". A palavra "laicidade" assusta-os! Magoa. Angustia. Aos seus olhos, "laico" é equivalente a comunista. Semelhante a "ateu". Igual a "irreligioso". Sinónimo de imoral. Ou ainda, um laico é um judeu. Um judeu é um laico. Um laico é um cristão. Um cristão é um laico. Qualquer laico é um não-muçulmano. E todo muçulmano é um não-laico, um laicofóbico. Um muçulmano não pode imaginar outro muçulmano laico. Na ausência da laicidade como um estilo de vida social, como uma forma de pensar, como cultura política, o mundo muçulmano tornou-se um mundo islâmico. Consumido pelo fundamentalismo. Mesma a laicidade na Turquia é ameaçada pelo islamismo fanático apoiado pelo projeto político da Irmandade Muçulmana. A "laicidade" assusta os muçulmanos desde Meca até Nouakchott, assusta o político muçulmano tanto de direita como de esquerda, assusta os "doutores" das universidades e assusta o cidadão normal.

A laicidade é um monstro! Mas porquê essa "laicofobia" no muçulmano? A escola é a fonte fundamental dessa doença chamada laicofobia. A escola, qualquer escola no Magrebe e no mundo árabe-muçulmano, do jardim de infância à faculdade, ensina aos seus alunos que a laicidade é um perigo para a religião islâmica. Que "laicidade" é o inimigo número um do Islão. Ela é uma armadilha armada pelos judeus aos muçulmanos! Ela é o isco do anzol colonial. Depois, porque o cidadão se afoga num grande vazio intelectual, onde a história das ideias filosóficas universais é banida. Os muçulmanos vivem fora, sem História e fora da História. Ou fazem a História à sua maneira, para se vangloriarem! Porque não existe nenhum pensamento crítico. Porque o fanatismo se impõe nas escolas e nas universidades, o muçulmano é apanhado pela laicofobia. Porque o religioso é um destino comunitário imposto. Porque não há nenhum debate intelectual livre e racional, o muçulmano tem medo de laicidade. Porque não existem partidos políticos reais com programas da sociedade, todos eles são de criados ou alimentados por correntes nacionalistas de tempero islâmico ou pelas ideias da Irmandade Muçulmana.

A fobia islâmica face à laicidade criou uma cultura de ódio em toda a sociedade muçulmana. Esta fobia islâmica generalizada em direção à laicidade reforçou a mentalidade de rebanho, impediu o muçulmano de poder cultivar uma liberdade individual. Esta laicofobia criou um sentimento de medo do outro, de recusa de viver com os outros. Esta laicofobia ergueu barreiras face àquele que não é semelhante, na religião ou na forma de pensar. Esta doença que é a laicofoboa é a consequência de tudo o que o povo do Magrebe e do mundo árabe-muçulmano viveram em deceção política, social e cultural, e isto dura desde as independências desses países. Se um muçulmano não se liberta desta doença psico-intelectual que é laicofobia, ele permanecerá condenado a viver no medo, ódio e violência, contra si mesmo e contra o outro.

Nunca se explicou ao crente muçulmano simples, com clareza e coragem intelectual e política, o significado da laicidade. Nunca se ensinou às crianças das escolas muçulmanas que a laicidade é o único caminho que garante o respeito pelas religiões, por todas as religiões. Que só a laicidade garante o respeito do ser humano, com as suas convicções religiosas, filosóficas e políticas. Que o caminho da laicidade é o garante da possibilidade de convivência, entre o muçulmano e outras pessoas pertencentes a outras religiões ou outras não-religiões. Que a laicidade permitirá o florescimento em todo o respeito das diferentes culturas e línguas que vivem no Magreb ou neste mundo árabe-muçulmano. Todas as guerras declaradas no mundo muçulmano, ou noutro lugar, em nome do Islão contra outras religiões, contra outras culturas, outras línguas são resultado desta laicofobia, desta doença que corrói o muçulmano, onde quer que ele se encontre.

Sem respeito pela laicidade como cultura, pensamento e como modo de vida social e político, a própria existência do Islão permanecerá ameaçada no mundo. E a laicofobia gera a islamofobia.

23 junho 2016

Questões de saúde e de vergonha


Com o sol das praias ao virar da esquina, nova tinta volta a correr pelo país do nevoeiro sobre a publicidade aos corpos “perfeitos”. No ano passado fez furor um anúncio no metro de Londres com uma modelo algo magra e, em contestação, não faltaram algumas senhoras algo gordas a posarem junto ao cartaz, orgulhosas dos seus pneus.

Este ano, Sadiq Khan, recém-eleito mayor da cidade (e a sua religião deveria ser irrelevante), anuncia que irá proibir esse tipo de publicidade com “corpos irrealistas e não saudáveis” e que poderão “fazer as mulheres sentirem-se envergonhadas dos seus corpos”. Estamos todos de acordo contra a “promoção” da anorexia mas … a gordura que as contestatárias têm gosto em apresentar publicamente, além de inestética, de saudável também não tem muito.

Relativamente a as “mulheres se sentirem envergonhadas” dos seus corpos, há corpos perfeitamente equilibrados e saudáveis que podem provocar esse desconforto… vamos proibi-los? E vamos proibir as mentes brilhantes de falarem em público, para os cidadãos intelectualmente mais limitados não se “sentirem envergonhados” (curiosamente, um certo tipo de televisão já entendeu que dar palco a gente abaixo da média funciona bem termos de audiência…)?

E os atletas que correm a maratona, não irão fazer sentir frustrados quem não aguenta 100 metros? Vamos banir tudo o que é “acima da média” para não melindrar ninguém…? O melhor do que nós deve desafiar-nos e não frustra-nos. Não é ocultando-o nem, muito menos, banindo-o que teremos evolução.

Para não repetir a tal imagem polémica do biquíni amarelo, foi buscar a fotografia acima de uma publicidade a biquínis mais colorida. Esta foto pode ser exposta publicamente ou a elegância a alegria de viver incomodam alguns e, sendo assim, deverá ser censurada?

10 março 2016

Entre a ofensa e a censura…



Recordam-se do “Humor de Perdição” ter sido suspenso por um “sketch” envolvendo a Rainha Santa Isabel? E de “O Evangelho segundo Jesus Cristo” ter sido banido de uma lista de prémios por ofensa aos bons costumes? E de Salman Rushdie ter sido condenado à morte por “Os Versículos Satânicos”? E das graves consequências das caricaturas de Maomé, culminadas com o ataque ao jornal Charlie Hebdo de Janeiro 2015?

Há uma questão comum à partida, o limite da provocação em questões de fé, e um mundo de diferença quanto às consequências práticas. Saramago gostava de se considerar exilado, sendo isso um exagero e um despropósito desrespeitador da situação dos que realmente se viram obrigados a fugir do seu país.

A provocação pode servir para questionar temas dormentes e ajudar a sociedade a encontrar-se consigo própria. Pode também ser de muito mau gosto, mas o mau gosto não é proibido nem, muito menos, deverá dar prisão ou pior sorte. É também curioso como, nestas polémicas, frequentemente os “ofendidos” reagem e protestam veementemente, ignorando os detalhes do objeto, origem da ofensa.

O “O Evangelho segundo Jesus Cristo” é um excelente livro, lido com prazer por quem não se chocar com o tema, lido com tensão e interrogação por um crente que faça o exercício de o atravessar ou ignorado por quem abominar o fundo da narrativa. Entre uma potencial ofensa e a censura, será sempre preferível a primeira, passível de ser ignorada, desde que não caia no campo do apelo ao ódio.

Valerá a pena evocar: “Se amigos e inimigos não conseguem ofender-te, […] - O Mundo será teu, e tu serás um Homem!”(Rudyard Kipling)?

Dito isto, uma coisa é não proibir, outra coisa é apreciar. A provocação pela provocação, mal fundamentada e estéril é coisa de crianças ou de adultos mal crescidos. O cartaz do BE sobre os dois pais de Cristo, cai neste campo. Pragmaticamente alguns responsáveis lá vieram reconhecer não ser “eficaz”. Não é isto que se espera de um partido político adulto. Já imaginaram um partido de direita citando a Bíblia para argumentar em sentido contrário?

10 fevereiro 2016

E o Carnaval?

Pois é, já passou. Já estamos nas cinzas. Do Carnaval mesmo, genuíno, recordo-me de na infância sair pela rua com os meus primos a “correr o farrapão”, não esfarrapados mas pouco menos. Havia também uma tradição na grande família de organizar um “assalto” a casa de um feliz contemplado em cada ano… Entrava toda a gente mascarada e os anfitriões forçados lá tinham que se esforçar para identificar quem é quem. Mérito para os últimos a serem reconhecidos, já quase pelo princípio da exclusão de partes.

Mais tarde, foi uma data que, juntamente com o S. João e a Passagem de Ano, constituía a “troika” das festas de garagem. A data servia de motivo e de desculpa, sem uma entidade característica muito marcada.

Acredito existirem terras e pessoas para quem esta festa tem e terá um significado forte e profundamente enraizado na sua cultura e identidade coletiva. Assim seja… No entanto, há um carnaval que não me agrada: o do espetáculo pelo espetáculo, o dos corsos gelados e pingados pela inversão das estações do ano entre o local origem e a triste cópia. Tão pouco gosto da festa “obrigatória” nas escolas para os pequenos (a minha fantasia é mais chique do que a tua…), que até já importaram uma tal de “Halloween” que nunca conheci.

Como não crente, até estou muito à vontade para o dizer: sendo o Carnaval o adeus à carne antes da quaresma, acho que quem não a faz, também não o devia celebrar…

PS: E não é que em 54 000 fotografias arquivadas, aparentemente não encontro nenhuma que de carnaval? A semana santa de Braga, também serve…

19 janeiro 2015

Contas certas?

Surpreendeu-me o resultado do estudo do professor da FEP, Óscar Afonso, sobre a economia não registada (paralela), quantificada a 26,81% do PIB.

Mais curioso fiquei ao ouvir declarar terem sido usadas “metodologias científicas, testadas, validadas, certificadas e a primeira versão do índice foi submetida à publicação de um artigo numa revista científica internacional e foi aceite”.

A quantificação da macroeconomia é algo que me intriga e arrisquei tentar ler e entender o trabalho académico… que, até invoca dois métodos! Um diz simplesmente que a economia não registada é a soma de várias parcelas, indicador x ponderação, tão simples quanto isso. De acordo, mas… estarão lá todos os indicadores relevantes, sem omissões nem redundâncias, e qual a ponderação certa para cada um? Como arbitrar as ponderações, fruto de um contexto cultural, naturalmente evolutivo? Ainda, se, por exemplo, o “factor” “factura da sorte” não for incluído na série, pode concluir-se legitimamente que esta iniciativa teve efeito nulo!?

O outro método, monetário, pareceu-me inicialmente ter uma base menos arbitrária. Se eu levantar 100 euros no multibanco, gastar 80 euros a atestar o depósito e 20 num restaurante sem factura, há aqui 20% não registados – bingo! Mas, se com os meus 20 Euros, o dono do restaurante for ao mercado comprar batatas, o lavrador pagar com eles a quem lhe cavou a terra e este depois os entregar ao electricista, já são 4 transações de 20 Euros não registadas e não vejo forma de “ver” e medir quantas vezes isso ocorre …

As curvas obtidas serão provavelmente publicáveis em revistas internacionais, mas, pelo menos, o destaque mediático dado a estes 28,61% parece-me claramente inflacionado.

26 outubro 2013

Medir sim, mas o quê?

Aqui atrás, eu falava da problemática e das implicações de ter ou não ter um GPS. Ainda não o comprei e não sei se comprarei. No entanto, como agora tenho um iCoiso, coloquei lá uma coisa que regista os percursos que faço. Já não é mau. Fico a saber as distâncias, as velocidades e os desníveis. Não a uso como guia mas apenas como gravador. De vez em quando, na dúvida, lá tiro o coiso do saco para saber mais ou menos onde estou, com maior ou menor precisão conforme a cobertura no local e a representação dos caminhos que percorro nos mapas básicos que lá estão.

No entanto há uma diferença. Embora não esteja a olhar para ele, sei que aquela coisa está lá atrás no saco a medir continuamente os minutos e os segundos. Cada vez que paro para entrar ou sair água, colocar ou tirar uma camisola não me esqueço disso. Suspendo a contagem do tempo do coiso, ou não? A paragem é feita com algum stress, que antes não existia.

Isto faz-me lembrar da questão de medir até onde e o quê. Há um princípio básico de que não se consegue gerir o que não se consegue medir e é difícil não concordar. A questão está antes em medir o quê e estou cá com um palpite que esta facilidade em medir o imediato, por vezes nos afasta do fundamental. Que também se poderá medir mas não é com/como uma coisa qualquer. Assunto a seguir…

17 setembro 2012

Pode-se falar?

A “Inocência dos Muçulmanos” é um filme provocador, talvez ao nível das “Je vous salue Marie” de Godard, que, apesar da enorme polémica, não deu mortos.

Será uma iniciativa infeliz e em cuja realização e divulgação há zonas de sombra que talvez um dia se clarifiquem, quando a poeira assentar. Pode ser difícil controlar a exaltação de muitos muçulmanos quanto ao assunto, mas quando partidos com responsabilidade governativa apelam a manifestações “contra os americanos” , estão a deduzir e a induzir que o facto de um ou vários americanos terem realizado o filme, torna responsável todo o país.

Por outro lado, esses e outros, pedem para não se generalizar e não se classificar todos os muçulmanos como terroristas apenas porque há alguns terroristas muçulmanos. Não haverá aqui alguma incoerência?

É que não estou mesmo a imaginar B. Obama a discursar ao país e a condenar todo o Afeganistão por causa dos talibãs que lá há, que até são muitos e que fazem muito pior do que simples filmes.

26 novembro 2010

Oportunismo ?

Ontem, 25 de Novembro, assisti à primeira sessão da segunda série dos “Encontros com a Ciência”, organizados pela Universidade do Porto, sob o tema “Sociedade e Valores”, com dois eminentes convidados, Dom José Policarpo e António Barreto.

O cardeal-patriarca fez uma comunicação brilhante e incisiva, que não quero nem consigo resumir. Um dos pontos referidos foi a relação/interdependência/ identificação do individuo com a comunidade através dos valores, e, por muito que se diga e conteste, a Igreja tem uma marca fortíssima nesse capítulo.

No período das interpelações resolvi questioná-lo sobre a forma como a igreja encarava e assumia a influência dos seus valores, sob a comunidade em geral, não crente. Apontei concretamente o Natal aí a chegar, que constitui uma marca social fortíssima, e como a Igreja via e assumia essa universalidade versus aquelas posturas de restringir o Natal à sua componente religiosa básica e criticar todas visões mais abertas do acontecimento. Como introdução referi que eu próprio me definia simplesmente como agnóstico até ter uma experiência de vida noutra cultura, após a qual me passei a considerar agnóstico de matriz cultural cristã.

O microfone funcionava mal e o cardeal também não estava a ouvir muito bem. Não me pediu para repetir o que tinha perguntado. Apenas pegou no “agnóstico de matriz cultural cristã” para dizer que:
  • Eu era um dos muitos que sem esforço e sem compromisso se aproveitavam do trabalho de poucos
  • Se eu sabia o que era ser agnóstico que, ao contrário do ateu que nega, não se manifesta declaradamente num sentido ou noutro e ...
  • Com o tempo o agnóstico, indeciso, tende a “cair” para um lado ou para outro
De facto, não respondeu directamente à questão colocada, mas acabei por ter a resposta de forma indirecta. Curiosamente surpreendeu-me o seu esforço de considerar um agnóstico um “ser menor”, incompleto, indefinido. Como se um crente aceitasse mais facilmente um “crente negativo” e lidasse mal com quem não ache importante tomar partido. Nunca tive grande simpatia por aquelas posturas anarco-carbonárias-sindicalistas que rosnam às sotainas mas ontem mudei um pouco essa leitura. Creio que Jesus Cristo tal como foi descrito veria as coisas doutra forma.

15 julho 2010

23 março 2010

A origem do drama

Não sei se haverá proporcionalmente mais padres pedófilos do que na população em geral, mas se o problema nasce apenas nas “hormonas” e na “fraqueza da carne” a provocarem a quebra do voto de castidade, porque é que esse desvio não acontece com um parceiro natural, uma mulher adulta, em vez de rapazes menores, tão condenável e repugnante sob todos os pontos de vista? Simplesmente por estarem mais acessíveis e ser mais facilmente disfarçável ?

Das duas uma: ou a pedofilia é excepção minoritária e a quebra de castidade também ocorre frequentemente com mulheres adultas e nesse caso por simples projecção a proporção de padres não castos será enorme, ou efectivamente a pedofilia é predominante no desvio e, neste caso, coloca-se a questão do porquê dessa preferência. Ambas as situações são embaraçosas para a igreja católica e cabe-lhe fazer o respectivo trabalho de casa de investigação, sem enterrar a cabeça na areia.

A castidade imposta na juventude não representará, em muitos casos, unicamente a simples privação do outro sexo, abrindo derivas para escapes homossexuais, com sequelas para a vida adulta? Um tema também merecedor de investigação séria: quais as práticas reais nos seminários neste capítulo.

Com o espírito e a força de S. Francisco de Assis haverá muito poucos e a igreja não se dignifica exigindo comportamentos que estão para lá da resistência de tantos dos seus membros. E, de novo, das duas uma: ou a igreja mantém as regras e castiga exemplarmente os seus elementos “podres” ou muda as regras. Compreensão e condescendência, e aqui recordo a posição do bispo do Funchal a propósito do padre Frederico, irão corromper a instituição no seu todo.

02 fevereiro 2010

Monárquico para quê ?

No centenário da implantação da República é estranho como tanta gente continua ainda a questionar e a recusar este modelo, preferindo a monarquia. Se a repulsa é consequência dos tempos pouco abonatórios para a República que se seguiram ao 5 de Outubro, o período monárquico que o precedeu também não foi nenhum exemplo. Só que uma coisa é o contexto transitório e outra coisa é o modelo. A revolução francesa teve um pós-parto terrífico, mas não é por isso que são postos em causa os seus princípios.

Penso que hoje já ninguém defende a monarquia com poder executivo. A história demonstrou cabalmente que a hereditariedade nem sempre funciona, obrigando a rupturas muitas vezes violentas. Como vêem os monárquicos a ruptura da 1ª para a 2ª dinastia: justificável ou condenável? Ambas as respostas são desconfortáveis. Deve ser possível substituir legitimamente a incompetência sem revolução, sangue e guerra.

A monarquia é então apenas representativa? A representação de um país pela esfinge de um monarca em selos, moedas e capas das revistas sociais é razoável? Acho que não. A representação e a identidade de um país devem ter sólidas raízes de índole cultural e não serem fruto do acaso no cruzamento mais ou menos feliz de ADN’s, ainda por cima tantas vezes atormentados com toques de consanguinidade. Portugal é representado dignamente pela obra de Camões e da demais gente brilhante que por cá passou, que por mérito próprio da lei da morte se libertou e não por uma sucessão de primogénitos descendentes da casa de Bragança, ou outra qualquer.

Existem muitos países recomendáveis que mantêm a monarquia? Sim, mas é um pouco como guardar na sala um móvel antigo que na prática não serve para nada. Habituamo-nos a vê-lo no canto da sala e temos pena de o deitar fora, apesar de tantas vezes atrapalhar e provocar trapalhadas, ficando limitado a uma função decorativa. Nós, com mais ou menos clarividência e justiça, deitamos ao lixo o móvel bolorento há 100 anos. Há alguma razão ou vantagem em pôr de novo na sala um restauro foleiro? Eu não vejo a mínima utilidade...

22 novembro 2008

Ainda a essência da avaliação

Quando aqui atrás referi parecer existir algo de errado na contestação dos professores e que o importante era encontrar-se a humildade necessária, dos dois lados evidentemente, para ultrapassar a questão, o desenvolvimento recente só o confirma.

A ministra deu um passo e recuou nalguns pontos. Para não perder a cara disse que se mantinha o essencial. Obviamente que os sindicatos poderiam ironizar e passar por cima dessa “opinião” paliativa. Que diz o Sr. Mário Nogueira, que está prestes a substituir o Sr. Picanço no topo dos meus sindicalistas mais queridos? Que, como a próprio Ministra reconhece que a essência não mudou, a luta continua. Não vi em lado nenhum nada de concreto e objectivo do tipo: “estamos de acordo com estas alterações mas deve-se acrescentar ainda esta, aquela e a outra!”. Não! É uma questão de essência e começa a cheirar que a essência é mesmo o princípio da avaliação em si.

Ou seja, os professores querem e aceitam serem avaliados, mas apenas pelo modelo que eles próprios definirem. O próximo passo neste processo será os alunos exigirem, e obterem, que eles também apenas sejam avaliados pelo processo que eles próprios definirem… Será isto a essência da democracia?

18 agosto 2008

Ó da guarda!!!

Mais um morto em Loures em confusões em que a maioria da população não se reconhece. Mais polícia? Um polícia em cada esquina? Acho que não. Acho que a omnipresença das forças de segurança pode dar um aumento de segurança percepcionada ao “comum dos inocentes”, mas não é a vista de um “sinaleiro” que trava os marginais, até eventualmente, os espicaça.

E depois, quando não houver mais polícias para todas as esquinas? Trazemos o exército para a rua como fez o Sr. Berlusconi recentemente em Itália? Sentir-nos-emos mais seguros assim?

E depois? Fazemos como no Texas em que os professores serão autorizados a levar as armas para a escola? (estou a tentar imaginar a evolução do caso do Carolina Michaelis e outros idênticos com gente armada…).

Não. Definitivamente a guarda é outra e, desculpem a heresia, um bocadinho de “social” a menos. A ociosidade é mãe de todos os vícios e se todo aquele pessoal tivesse que se levantar cedo para “vergar a mola” e chegasse ao final do dia cansadito, talvez se dispensasse a guarda…

24 outubro 2006

E se estivesse vazio???

Neste ambiente de festa aqui, do final do Ramadão, estas palavras do A. Souchon ecoaram-me e deixo-as em tradução livre:

Abderhamane, Martim, David
E se o céu estivesse vazio ?
Tantas procissões, tantas cabeças inclinadas,
Tantas carapuças, tantos medos desejados
Tantos demagogos de templos e sinagogas
Tantas mãos juntas em preces apressadas
E se o céu estivesse vazio ?

Tantos “angelus”,
Ding
Que ressoam
E se ainda por cima
Ding
Estivesse vazio ?

Abderhamane, Martim, David
E se o céu estivesse vazio ?
Há tantos torpores
De músicas anódinas
Tanto analgésico nesses cânticos bonitos
Tantas perguntas e tantos mistérios
Tanta compaixão e tantos revólveres

Tantos “angelus”,
Ding
Que ressoam
E se ainda por cima
Ding
Estivesse vazio ?

Arour hachem, Inch Allah, Are Krishhna, Aleluia

Abderhamane, Martin, David
E se o céu estivesse vazio ?
Se todas as balas tracejantes
Todas as armas brancas
Todas as mulheres ignorantes
Essas crianças órfãs
Se essas vidas que soçobram
Esses olhos molhados
Não fossem senão o velho prazer
De trucidar ?

19 junho 2006

O Jogo das Contas de Vidro



Em homenagem a um dos mais profundos, densos e assombrosos romances que já li, deixo aqui um dos poemas de Josef Knecht, protagonista de “O Jogo das Contas de Vidro” de Hermann Hesse. Uma obra nem sempre fácil de ler mas verdadeiramente genial.


Degraus

Assim como as flores murcham e a juventude
Cede à velhice, também os degraus da vida,
A sabedoria e a virtude, a seu tempo,
Florescem e não duram eternamente.
A cada apelo da vida deve o coração estar pronto
A despedir-se e a começar de novo
Para, com coragem e lágrimas, se dar
A outras novas ligações.
Em todo o começo reside um encanto
Que nos protege e ajuda a viver.
Serenos transponhamos espaço após espaço,
Não nos prendendo a nenhum como a um lar;
Ser-nos corrente ou parada não quer o espírito do mundo
Mas de degrau em degrau elevar-nos e aumentar-nos.
Mal nos habituamos a um círculo de vida,
Íntimos ameaça-nos o torpor;
Só aquele que está pronto a partir e parte
Se furtará à paralisia dos hábitos.

Talvez também na hora da morte
Nos lance, jovens, para novos espaços,
O apelo da vida nunca tem fim…
Vamos, coração, despede-te e cura-te.



Nota: A imagem incluída é uma fotografia “normal”. Num cenário nocturno e com um longo tempo de exposição, a câmara foi deslocada propositadamente, criando este efeito dinâmico.

27 julho 2005

Física nas férias


Depois da Filosofia de férias , chegou a vez da física. “A Aventura da Física – A demanda da unidade” de Éthienne Klein e Marc Lachièze-Rey. Comparar a evolução da física, e das ciências em geral, com a da filosofia, na busca de um entendimento global e uno para o que nos rodeia, é assaz diferente.

Consegue encontrar-se alguma sobreposição na fase inicial (?) dos gregos clássicos, nomeadamente Sócrates e Aristóteles. A partir do momento em que a ciência abandona a especulação pura para se basear no rigor da observação e no método científico, ela dispara. Passa a existir efectivamente evolução em que tese mais antítese, dão síntese, que vai receber nova antítese... e por aí fora num processo sólido e construtivo de conhecimento.

A filosofia mantém-se sempre no seu estilo revolucionário. Revolucionário no sentido geométrico da palavra, equivalente a rotação. Rodando, mudando a direcção para onde olha, mudando o lado exposto a um observador externo estático... mas revolução completa é rodar 360º e voltar à posição inicial.

É surpreendente para mim como, na física, a simples busca de simetrias e a utilização de ferramentas matemáticas, permite atingir conclusões complexas que, por vezes, só muito mais tarde a experiência consegue evidenciar.

Fascinantes são conceitos como a quantificação, valores preferenciais mais prováveis do que outros, evoluindo com saltos e não continuamente; a relatividade e outras coisas mais da física quântica que não se podem enunciar assim só de passagem.

No topo, no topo, coloco o princípio da incerteza de Heinsenberg que demonstra matematicamente que não podemos saber tudo. Que quando queremos saber com muita precisão uma coisa, por exemplo a posição, alteramos outra, a energia.

Para concluir, cito um filósofo, em pele de engenheiro:

“O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.”

Álvaro de Campos

10 julho 2005

Querem apagar a luz


Tenho visto com alguma frequência notícias sobre umas investidas preocupantes no sistema de ensino nos USA. Alguns candidatos a herdeiro de Torquemada, acham que Darwin e a evolução são uma treta e que o mundo foi criado por um ente superior todo-poderoso. Aproveitando a onda beata Bushiana actual e a influência que as autarquias, naturalmente politizadas, têm sobre os conselhos de administração das escolas, os manuais de biologia recebem autocolantes avisando os alunos de que a evolução é apenas uma teoria entre várias outras.

Definitivamente a igreja não aprendeu que a sua intervenção na ciência esteve, está e estará sempre condenada ao fracasso. No início, quando o homem via os trovões, não encontrava explicação para os mesmos. Aqueles que tinham dificuldade em conviver com esse desconhecido, atribuíram o fenómeno ao deus do trovão. Quando se descobriu como se formam as cargas electrostáticas nas nuvens e como se descarregam, o deus do trovão ficou desempregado.

Não se sabia porque é que “o Sol girava em volta da Terra”. A igreja explicou que deus todo-poderoso assim o tinha entendido e assim tinha criado o mundo. Quando Galileu ilumina a questão, a descoberta é dramática para a igreja. Reacção: apagar a luz, queimar livros, matar pessoas.

Sempre que a religião for utilizada para “explicar” o desconhecido por quem convive mal com ele, o resultado é só um. Cada avanço da ciência que explica o até então desconhecido é um recuo correspondente da igreja. Por isso a igreja teve na história tantas tentações para manter a escuridão. A luz tira-lhe força e, por isso, é sua inimiga natural.

Estes desenvolvimentos nos USA são declaradamente uma manobra de reduzir a luz e de regredir para a escuridão e no local mais perigoso: nas escolas. Curiosamente, nalguns países, o fanatismo islâmico actual foi plantado nas escolas por professores fundamentalistas.