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31 dezembro 2023

Um Bom Espinosa Ano


 Buscando acrescentar eliv fugir um pouco aos votos clássicos…

Ouvi um destes dias uma entrevista a J Rodrigues dos Santos, de promoção do seu novo livro sobre este filósofo neerlandês de origem portuguesa. O nome sonava-me, mas a dimensão menos. Devo dizer que li 3 livros de JRS, para testar…. Lêem-se bem, são didáticos, mas falta-lhes aquela coisinha que separa um relato descritivo de um romance literário. De todas as formas, tem muito mérito por escrever, ter sucesso e pôr muita gente a folhear páginas escritas.

Resolvi, portanto, ir visitar o personagem, começando de forma um pouco mais séria e menos romanceada, através da obra acima representada. Neste momento, longe de mim a pretensão de ter absorvido o seu pensamento nalgumas centenas de páginas, lidas uma vez, e muito menos de o vir aqui tentar resumir em meia dúzia de frases, mas algumas reflexões apetece-me desenvolver.

Espinosa é extraordinariamente inteligente, corajoso e clarividente. Deduzir e avançar com as suas ideias e formulações, especialmente naquela época, foi um exercício de liberdade e de promoção da dignidade humana fantástica. Pensar sem barreiras, deduzir sem preconceitos, assumir sem condicionalismos, ser livre e criativo de espírito, sem razões a castrar as emoções e sem limitações a travar a razão… que mais se pode desejar?

09 março 2015

Microcultura ou demasiada pouca coisa?

“Que ficará da microcultura?”. Era o título de um artigo que li há uns tempos e que me ficou a ecoar … falava de microteatro, microrelatos, micropoetas e outras formas de expressão minimalistas… As frases curtas, expressivas e significativas não são uma novidade. Há uma variedade enorme e interessantíssima de aforismos com várias origens, desde os simples ditados populares até às citações de Confúcio, passando pelas “frases célebres de pessoas famosas”… muito anteriores ao tempo do twitter.

O curto e conciso pode ser uma forma muito eficaz de transmitir uma ideia, expressar uma emoção… de criar. A interrogação que fica, e o problema que coloco, é se não estaremos a evoluir para um tempo em que não teremos paciência para ouvir uma sinfonia completa, assistir a mais de 15 minutos de teatro ou ler mais do que uns “tweets”. Vivemos assediados por informação, solicitações e ruidosas banalidades, num excesso difícil de gerir. Por vezes comportamo-nos como se, face a uma mesa farta, provássemos de um prato, mas, ao ver outro ao lado, cuspíssemos o que já tínhamos na boca, para passar ao seguinte e continuar... Tocando em tudo e não saboreando a sério nada. Quantos podemos ou conseguimos passar uma hora em concentração exclusiva num livro, por exemplo, sem interrupção, sem recebermos ou procurarmos uma interacção qualquer com o exterior?

A “cultura do rápido” como complementar é interessante, como exclusiva é perigosa. Porque há mais mundo para lá dos aforismos.

28 agosto 2014

Ideias com graça


A minha segunda participação na coluna do Centro Cultural do Alto Minho publicada na "A Aurora do Lima", Viana do Castelo.

20 março 2009

E o mal é ou não é banal?

A expressão “Banalização do mal”, “criada” por Hannah Arendt após assistir ao julgamento de Adolf Heichmann é muito facilmente citada. Eu mesmo não resisti a evocá-la no último texto a propósito do massacre de Winnenden. Coincide ainda com o julgamento do monstro de Amstetten, o tal que sequestrou e violou a filha durante 24 anos, e que também teve direito a esse carimbo.

Não me apercebi na altura em que li o trabalho da autora mas, ao olhar agora de novo para a expressão, parece-me algo infeliz ou imprecisa. Enquanto houver bem, haverá mal e o mal é muito frequentemente banal, no sentido de trivial; não é necessária ou habitualmente transcendente. Ou seja, a motivação para provocar mal raramente é excepcional ou grandiosa. Muitas vezes é até bem mesquinha e vulgar. E isso não é equivalente a banal? E é bem certo que a máquina nazi era tudo menos banal.

Hannah Arendt fica siderada porque esperava ver ódio na motivação dos assassinos e algum tipo de carga emocional. Quando um funcionário nazi diz friamente que executar uma ordem para carregar um comboio com judeus destinados a uma câmara de gás não é diferente de executar uma outra ordem qualquer, como mandar limpar a sala e parecendo acreditar no que diz, não podemos deixar de ficar estupefactos.

Este mal não é “quente”, mas sim “frio”. E aqui, sim, reside a particularidade e a monstruosidade. Por muito ou pouco condenável ou justificável que seja, fazer mal deve ser intencional. Assim, poderá ser avaliado, questionado e combatido. Provocar mal conscientemente mas sem intenção ou percepção de o fazer é… desumano ou demente.

Não presenciei, obviamente, esse nem a outros testumhos mas vi entrevistas gravadas a alguns indivíduos da mesma categoria. Não estou assim tão convencido dessa indiferença. A atitude de defesa de não pensar e de não questionar não é equivalente a pensar que não é nada.

No mal frio eu não acredito. Um malévolo frio ou é louco ou é desonesto, sendo ambas as posturas duas formas clássicas de reagir em tribunal perante uma acusação grave. No fim, pode-se especular eternamente sobre a motivação e a percepção do mal na perspectiva de quem o provoca, mas, no entanto, do lado de quem o sofre, a visão é bastante mais clara.
Correcção em 21.3.2009: O julgamente em causa não foi o de Nuremberga mas sim um especial em Israel para este senhor capturado posteriormente pelos israelitas. As minhas desculpas pela confusão...

11 fevereiro 2007

Filosofia e terrorismo

Durante a Guerra de Independência da Argélia (1954-1962), o movimento de libertação FLN entendeu que provocar atentados e atingir civis nas cidades, por ter mais impacto e visibilidade, era muito mais eficaz de que afrontar militares algures numa frente obscura no interior do país. A França reagiu de forma pouca bonita usando de todos os meios incluindo tortura e execuções sumárias para travar o que entendiam ser um flagelo que “quase tudo” justificava. Esta situação foi próxima da actual no Iraque e consta que o Sr G. Bush anda a ler livros sobre o assunto. Infelizmente o epílogo da guerra na antiga colónia Francesa foi tudo menos pacífico e civilizado, apesar de um controlo militar muito mais efectivo do que o actual no Iraque.

Que pensar sobre o assunto? Duas grandes referências intelectuais da época, filosoficamente muito próximas, escreveram sobre o assunto de forma diversa:

Vivemos no terror porque a persuasão deixou de ser possível, porque o homem se entregou inteiramente à história e já não se pode voltar para a parte de si mesmo, tão verdadeira quanto a parte histórica, e reencontrar face a ele a beleza do mundo e dos rostos, porque vivemos no mundo da abstracção, o dos escritórios e das máquinas, das ideias absolutas e do messianismo sem nuances. Asfixiamos entre aqueles que acreditam terem absolutamente razão, seja na sua máquina, seja nas suas ideais. E para todos os que não podem viver que não seja no diálogo e na amizade dos homens, este silêncio é o fim do mundo.
Albert Camus in “Reflexões sobre o Terrorismo”

Nestes primeiros tempos de revolta, é necessário matar. Abater um Europeu é matar dois coelhos de uma só cajadada, suprimir ao mesmo tempo um opressor e um oprimido: ficam um homem morto e um homem livre. O sobrevivente, pela primeira vez, sente um solo nacional sob a planta dos seus pés.

Jean-Paul Sartre – Prefácio ao " Damnés de la Terre”.

Já sabia há muito que ia um mundo de diferença em termos de grandeza humana entre estes dois vultos. Estes dois extractos citados num livro que acabei de ler sobre o assunto em questão, “Les souffrances secretes des français d’Algérie” de Raphael Delpard, somente o confirmam.

Dá para entender e sorrir ironicamente ao recordar que Camus foi acusado pelos canónicos existencialistas de ser demasiado humanista.

Quanto à profunda leitura que Sartre faz do significado dos atentados, ele que nunca tendo sequer posto os pés na Argélia não correu o risco de cair aos pedaços sob uma bomba libertadora, fica-me a questão: se a bomba explodisse numa esplanada de Montparnasse entre duas baforadas do seu belo cachimbo, lhe amputasse as pernas e matasse alguns próximos, incluindo crianças e familiares, seria que manteria inalteradas estas suas “teorias teóricas”?

27 julho 2005

Física nas férias


Depois da Filosofia de férias , chegou a vez da física. “A Aventura da Física – A demanda da unidade” de Éthienne Klein e Marc Lachièze-Rey. Comparar a evolução da física, e das ciências em geral, com a da filosofia, na busca de um entendimento global e uno para o que nos rodeia, é assaz diferente.

Consegue encontrar-se alguma sobreposição na fase inicial (?) dos gregos clássicos, nomeadamente Sócrates e Aristóteles. A partir do momento em que a ciência abandona a especulação pura para se basear no rigor da observação e no método científico, ela dispara. Passa a existir efectivamente evolução em que tese mais antítese, dão síntese, que vai receber nova antítese... e por aí fora num processo sólido e construtivo de conhecimento.

A filosofia mantém-se sempre no seu estilo revolucionário. Revolucionário no sentido geométrico da palavra, equivalente a rotação. Rodando, mudando a direcção para onde olha, mudando o lado exposto a um observador externo estático... mas revolução completa é rodar 360º e voltar à posição inicial.

É surpreendente para mim como, na física, a simples busca de simetrias e a utilização de ferramentas matemáticas, permite atingir conclusões complexas que, por vezes, só muito mais tarde a experiência consegue evidenciar.

Fascinantes são conceitos como a quantificação, valores preferenciais mais prováveis do que outros, evoluindo com saltos e não continuamente; a relatividade e outras coisas mais da física quântica que não se podem enunciar assim só de passagem.

No topo, no topo, coloco o princípio da incerteza de Heinsenberg que demonstra matematicamente que não podemos saber tudo. Que quando queremos saber com muita precisão uma coisa, por exemplo a posição, alteramos outra, a energia.

Para concluir, cito um filósofo, em pele de engenheiro:

“O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.”

Álvaro de Campos

20 julho 2005

Filosofia de férias

“A Anarquia dos Valores – Será o relativismo fatal?” de Paul Valadier veio ter às minhas mãos estas férias. Pareceu-me que poderia ser interessante, apesar da minha visceral incapacidade de digerir textos filosóficos. Qualquer afirmação fora de contexto muda de valor. É possível, esgrimindo contextos, fazer uma afirmação razoável, ridícula, estúpida, divinal e por aí fora. Acho que é isso que os filósofos fazem e os vários “ismos” não são mais do que várias modas em que se muda a vítima que é virada do avesso no momento.

Consegui ler o livro enquanto ele revisitava Sócrates, Kant, Nietzsche, existencialistas e por aí fora. Quando a autor embalou para as suas conclusões, eu desembraiei. Fiquei a cinco páginas do fim. Foi mesmo morrer na praia.

Acho que muita gente ainda não ultrapassou o trauma pós-Galileu. Se não estamos no centro do mundo, estamos no centro de quê? Um dia, quando se aplicar o princípio da incerteza de Heisenberg a todo o conhecimento, tudo ficará mais calmo.

O meu filósofo preferido continua a ser Fernando Pessoa. Gosto muito mais das análises dos artistas do que das dos filósofos convencionais. Os artistas usam o pincel, os filósofos usam o bisturi. Vão lá desvendar uma mulher bonita com um bisturi, e depois digam que, afinal, nem ficou lá muito bonita...

Talvez por tudo isto, Sartre, o filósofo, esteja datado e Camus, o romancista, fique intemporal. A propósito de Camus, transcrevo um excerto de um muito interessante prefácio a uma reedição de “O Avesso e o Direito”, que nenhum filósofo poderia escrever:

“A miséria impediu-me de crer que tudo está bem debaixo do sol e na história; o sol ensinou-me que a história não é tudo”.