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05 abril 2017

E é sempre a primeira vez


Obrigado Rui Veloso e Carlos Tê pelo belo hino a esta “Porto Calle”, que tantos anos depois ainda e sempre nos emociona. Sim, “Porto Calle”, porque separar as duas, só por bacocada política, muito pequenina para a grandeza do local.

Onde praticamente não há palácios, porque de nobre só o atributo no mui claro lema. Preguiçosos, presunçosos e parasitas não são bem-vindos, contas pagas na hora e sem complicações e, mesmo no auge das trevas, a inquisição foi impedida de queimar gente nas ruas.

O milhafre ferido na asa, parece que voltou a voar, mas mais do que as distinções e as classificações e o ser o mais isto ou o mais aquilo, a primazia não está na beleza, que é como os chapéus, há muitas; o fundamental é saber ser livre, como tantas vezes o demonstrou.

12 julho 2006

Clero, Nobreza e Povo

A Nobreza medieval inculta, e até em parte analfabeta, apoiava-se no Clero letrado para consolidar o seu poder temporal. A Nobreza tinha a espada, o Clero os livros e o Povo era tudo o resto que deveria seguir a regra da espada de uns e a dos livros dos outros. Ao longo de vários séculos, este casamento funcionou em pleno, chegando mesmo a ter sido passado a lei escrita. A unidade da Igreja era considerada necessária para a unidade do Estado e este argumento justificou muita coisa.

Um exemplo eloquente pelo princípio e pela prática foi a Inquisição. Além da forte promiscuidade, em muitos processos, entre os argumentos espirituais e os interesses seculares, era curioso que a Inquisição não matava ninguém. Apenas julgava e, eventualmente, condenava. O “braço secular” é que se encarregava de usar a “espada”.

Evidentemente que esse tempo já passou. Apesar de todos os defeitos de quem nos governa, já não são nobres analfabetos que necessitam de quem lhes leia os livros. E, por isso, também já não legislam de acordo com as vontades da Igreja. Chama-se a isto separação entre Igreja e Estado.

O protesto público e veemente do Vaticano pela ausência do primeiro ministro espanhol da missa celebrada pelo Papa em Valência no passado fim de semana, parece um lamento de quem foi abandonado por um parceiro que não assumiu as suas obrigações. A atitude de Zapatero terá colocado mais alguma pressão nesta Espanha à beira da ebulição. No entanto, lembrou claramente que já não estamos nessa época do famoso e simplório triângulo Clero/Nobreza/Povo.

17 agosto 2005

“Narrativa fantástica” esclarecida

O texto a que chamei "Narrativa Fantástica" não é ficção. É um documento de um processo muito sério. Tão sério que conduziu à execução de 27 mulheres pelo fogo em 1559. É uma confissão de um processo da Inquisição. Foi extraído do livro “Feiticeiros, Profetas e Visionários”, selecção de Yvonne Cunha Rego, editado pela INCM em 1981. Esta publicação inclui sentenças e notícias provenientes de manuscritos da Biblioteca Nacional, relacionados com heterodoxia, como bruxarias, julgadas no Santo Ofício.

Muita coisa curiosa. Por um lado, o carácter reconhecidamente real e “palpável” do Demónio. No segundo extracto, abaixo incluído, a condenação da “Sarabanda” baseia-se na presunção de que só um pacto com o Demónio poderia explicar os poderes que lhe eram atribuídos.

Por outro lado, o que as pessoas “confessam”! Algumas depois de serem “caridosamente admoestadas”, as vezes necessárias, até reconhecerem os seus erros. E, ao lado, o rigor e o zelo com que nos autos se registam essas mirabolantes “confissões”, de uma forma aparentemente tão séria.

Acordam os Inquisidores, Ordinário e Deputados da Santa Inquisição que vistos estes Autos culpas e declarações de Leonor Francisca, a Sarabanda de alcunha [...]

Porque se mostra que sendo a Ré cristã baptizada, obrigada a ter e crer tudo o que tem, crê e ensina a Santa Madre Igreja de Roma, não usar superstições nem ter pacto com o Demónio, antes detestá-lo [...] fazia curas com bênçãos e palavras supersticiosas, adivinhava coisas ocultas que só com a intervenção do Demónio se podiam saber [...]

Chamada a curar certa pessoa, a benzeu e lhe aplicou certos unguentos e chupou pelos dedos dos pés com os quais remédios melhorou a dita pessoa [...]

E faltando duas bestas a certa pessoa e consultando esta a Ré para que lhe manifestasse onde estavam, a Ré, com efeito, lho disse e foram achadas e dita parte [...]

E, faltando, a certa pessoa, de sua casa uma certa quantidade de dinheiro, perguntou à Ré onde estaria e ela respondeu que em tal parte, menos tanto que tinha gasto a pessoa que o furtou e assim se achou menos a quantia que a Ré havia dito [...]

Pelas quais culpas sendo a Ré presa nos cárceres do Santo Ofício e na Mesa dele, com muita caridade admoestada, as quisesse confessar para descargo da sua consciência, salvação da sua alma [...] Respondeu que não tinha culpas a confessar [...]

E sendo a Ré no discurso da sua causa por muitas vezes admoestada, quisesse confessar toda a verdade das suas culpas e o pacto que se presumia haver feito com o Demónio [...]

E que tudo visto e o mais que dos autos consta, presunção que deles resulta de a Ré viver apartada da Nossa Santa Fé Católica e ter feito pacto com o Demónio [..]

Mandam que a Ré Leonor Francisca em pena e penitência de suas culpas vá ao Auto Público de Fé na forma costumada [...]



O resultado da tirania da razão é um grotesco trágico.

15 agosto 2005

Narrativa fantástica


[...]Os dias em que se ajuntam e ficam assinalados, são quartas e sextas-feiras, em as quais dando o relógio dez horas da noite, ou antes, as ditas Bruxas se untam com certos unguentos que elas fazem das confecções diabólicas que adiante se dirá, que o Demónio lhes faz crer, que sem ele não podem voar, nem ir a seus ajuntamentos, [...] e untadas, o Demónio as leva pelas janelas ou chaminés ou buraco por onde uma mulher possa caber corporalmente e em breve espaço e momento, levando-as pelos ares, as põem em certos campos. [...]

Estando nos ditos campos, disse que achava lá gente de muitas partes; a saber: Portugueses, de todo este Reino, Mouros, Judeus, Franceses e de outras muitas nações e diversas línguas [...] e tanto quanto que lá chegavam, os demónios, em pouco espaço de tempo, dormiam com elas muitas vezes carnalmente, quantas vezes elas queriam e pelo lugar que elas queriam ou traseira ou pela dianteira, e por sua confiança diz que o gosto que eles dão e causam às mulheres é mui grande, sem comparação com os homens. E que tem as suas naturas mui compridas [...]

depois de folgarem nos campos e ajuntamentos com eles, lhes põem uma mui comprida mesa de umas tábuas negras [...] e lhes trazem em uns pratos de pau-preto e deles nas mãos muita soma de carne de bode [...] a qual comida, disse e confessou, lhe fedia e enxofre e alcatrão; e nas mesas estavam por candeias umas tochas com cabos de cordas alcatroadas que davam um negro, escuro e fedorento lume. [...]

E confessou mais uma, e muitas vezes, que tendo o Demónio parte com ela por muitas vezes, o apalpava e achava corpo e carne, segundo apalpava com as mãos e que se lhe figurava ser carne pelosa com muita soma de cabelos, como de bode, mas o pêlo mais brando e macio.[...]

Pergunta: algum palpite para a origem desta narrativa antiga fantástica, fantástica no sentido literário da palavra? Uma sugestão: nada de brincadeiras porque, garanto, trata-se de coisa muita séria.

10 julho 2005

Querem apagar a luz


Tenho visto com alguma frequência notícias sobre umas investidas preocupantes no sistema de ensino nos USA. Alguns candidatos a herdeiro de Torquemada, acham que Darwin e a evolução são uma treta e que o mundo foi criado por um ente superior todo-poderoso. Aproveitando a onda beata Bushiana actual e a influência que as autarquias, naturalmente politizadas, têm sobre os conselhos de administração das escolas, os manuais de biologia recebem autocolantes avisando os alunos de que a evolução é apenas uma teoria entre várias outras.

Definitivamente a igreja não aprendeu que a sua intervenção na ciência esteve, está e estará sempre condenada ao fracasso. No início, quando o homem via os trovões, não encontrava explicação para os mesmos. Aqueles que tinham dificuldade em conviver com esse desconhecido, atribuíram o fenómeno ao deus do trovão. Quando se descobriu como se formam as cargas electrostáticas nas nuvens e como se descarregam, o deus do trovão ficou desempregado.

Não se sabia porque é que “o Sol girava em volta da Terra”. A igreja explicou que deus todo-poderoso assim o tinha entendido e assim tinha criado o mundo. Quando Galileu ilumina a questão, a descoberta é dramática para a igreja. Reacção: apagar a luz, queimar livros, matar pessoas.

Sempre que a religião for utilizada para “explicar” o desconhecido por quem convive mal com ele, o resultado é só um. Cada avanço da ciência que explica o até então desconhecido é um recuo correspondente da igreja. Por isso a igreja teve na história tantas tentações para manter a escuridão. A luz tira-lhe força e, por isso, é sua inimiga natural.

Estes desenvolvimentos nos USA são declaradamente uma manobra de reduzir a luz e de regredir para a escuridão e no local mais perigoso: nas escolas. Curiosamente, nalguns países, o fanatismo islâmico actual foi plantado nas escolas por professores fundamentalistas.