30 setembro 2016

Segredo desvendado

O processo de escolha do novo secretário-geral da ONU estava a correr bem e muito sério. O nosso sério e boa pessoa António Guterres parecia estar bem lançado e com um favoritismo indiscutível.

Mas, eis que de repente, tudo se baralha. Para evitar a nomeação de A Guterres vai aparecer uma búlgara apoiada em força pela direita europeia, parece que também pela Rússia, e subvertendo todo o processo e descredibilizando o mesmo e até colocando sérias questões de legitimidade ao eventual futuro mandato da senhora. Porquê?

Ora bem, eu estou em condições de revelar (o Marques Mendes que se cuide com a concorrência) qual a razão para tanta agitação e excitação. Ao que parece, Angela Merkel teve um grande pesadelo. Sonhou ouvir a Mariana Mortágua a anunciar as linhas diretrizes do orçamento da Onu e, ao acordar, disse: Isto não pode acontecer!

28 setembro 2016

PS, PS, onde estás tu PS…?

Já existe um imposto sobre o património imobiliário, chama-se IMI e pode-se questionar se as avaliações estão corretas, as taxas são justas ou se os beneficiários são os adequados. No entanto, um imposto sobre um património, que eventualmente nem gera rendimento é delicado. É como eu ter um jardim e todos os anos me viram retirar uns metros quadrados do mesmo.

Não posso, por isso, concordar com a ideia de ser justo ir buscar dinheiro a quem o tem. Praticamente todas as formas de acumular dinheiro já têm um imposto em cima do rendimento original. Há demasiada evasão fiscal? Se sim, ataque-se o problema na fonte e não cegamente nos resultados. O simples facto de se ter dinheiro pode resultar de muito trabalho, de muito empenho, de ter assumido grandes riscos ou de ter ganho o totoloto.

O que me preocupa fundamentalmente no entusiasmo e excitação de uma certa esquerda em torno deste direito de saque, é a visão de que riqueza será sempre um pecado a merecer castigo. Esquecem-se que para comermos e vivermos é necessário atividade económica, na agricultura, na indústria e nos serviços e que sem “riqueza” nalgum sítio não há investimentos, não há máquinas para dar trabalho, nem desenvolvimento de conhecimento sequer.

É importante os partidos da esquerda esclarecerem qual o modelo económico que defendem e pelo qual lutam. Se se trata de um baseado na livre iniciativa, de regras bem definidas e garantindo justiça social ou uma solução estatizada até não poder mais e onde é pecado ser rico. Em paralelo, por curiosidade, para os defensores da segunda alternativa, apontem um exemplo (basta um) em que este cenário conduziu a uma situação de liberdade, dignidade e qualidade de vida para as respetivas populações.

PS, PS, onde estás tu PS…?

27 setembro 2016

Que mania é esta de divagar sobre o que dizem os títulos?


Aparentemente, e como em quase tudo, haverá regras e princípios quanto a títulos para livros. Aparentemente, uma delas é não incluir conjugações verbais. Como com quase tudo, as regras podem ser quebradas, especialmente num domínio criativo. Por exemplo: “Que cavalos são estes que fazem sombra no mar” será um título muito pouco ortodoxo, mas ninguém crucificou António Lobo Antunes por isso. Falando em crucificações, “O Evangelho segundo Jesus Cristo” é formalmente irrepreensível, como título.

Os títulos podem e devem ser visitados e interrogados antes, durante e depois da leitura da obra. Há quem ironize com o facto de alguns títulos, excessivamente pretensiosos, quererem, por eles próprios, serem uma segunda história, uma espécie antítese. Modéstia à parte, eu, quase sempre, apenas dou o título a um texto depois de ele estar concluído ou muito adiantado.

Gosto de passear o olhar pelas bancadas e estantes das livrarias a ler títulos e noto existirem muitos/demasiados do tipo “O fulano que sabia…”, “A sicrana que fazia…, “O beltrano que tinha…””. Estes títulos têm dois problemas. O primeiro é a coisa do verbo obrigatório ali a seguir ao “que” e nem toda a gente tem a tolerância e o talento do Lobo Antunes, que até se pode permitir dois “ques” mais verbo no mesmo título. O outro é o “que” em si… embirro com ele. Quando escrevo algo, cada “que” que debito aparece-me a vermelho grosso nas minhas lentes. Acho sempre que uso “ques” a mais… Uma parte obrigatória da revisão que faço é a tentativa de redução do número de “ques” (frase não revista).

Que mania é esta de divagar os títulos? Haverá títulos que sabem demais? Haverá títulos que valem de menos? De qualquer forma, na minha biblioteca, o melhor título até tem duas conjugações verbais e um “que”.


21 setembro 2016

Zé Povinho? Não, obrigado!

Acho triste que o povo português se identifique e acarinhe tanto a figura do Zé Povinho. Obviamente, não está aqui em causa nenhuma crítica ao genial Rafael Bordalo Pinheiro, mas sim à aceitação da figura por ele criada.

Contava-me em tempos um transmontano que quando se mudou para a grande cidade, estes pensavam que ele, por ser pobre, era burro. Mas ele não era burro. Aliás, pobre já seria desgraça suficiente, donde que ser pobre e burro era desgraça a mais. “Pobre não pode ser burro”, dizia ele alto e bom som, para quem o quisesse ouvir.

O Zé Povinho é pobre, mal vestido, mas não é burro e isso induz em erro os doutores da cidade. É este o seu charme. Mas, se por um lado, é resmungão e até insolente, ao mesmo tempo é também manso e submisso. O Zé Povinho será desconcertante para a elite, a sua franqueza desmascara e desarma, é certo, mas permanecer passivamente resignado e ostensivamente desaprumado tem um mérito muito duvidoso.

Não seria expectável que o povo português se identificasse com um Fradique Mendes queirosiano, mas poderia ser uma figura um pouco mais consequente e não apenas num “ ’tás a enganar-me, pensas que não noto, mas vejo tudo; podes continuar enganar-me, eu rio-me, mando umas bojardas e assim ficamos”.

É para isto que queres a esperteza ò Zé? Assim, quem se fica mesmo a rir, e com boas razões para isso, são os trapaceiros aprumados.

19 setembro 2016

O orçamento dos impostos

Nos preparativos, aperitivos e antevisões para o próximo orçamento de Estado, a palavra-chave parece ser “impostos”. Feitas as reversões e virada a página da austeridade (de certa forma), o crescimento económico lá foi fazer companhia a D. Sebastião: há-de aparecer numa manhã de nevoeiro.

A agenda da atualidade é completada com umas bocas e piadas sobre jogos de caçar bichinhos virtuais e anda também a corte muito indignada com a publicação de um livro proibido. Tudo coisas fundamentais para os amanhãs cantarem.

Como o tal dito crescimento não dá sinais de aparecer, a alternativa é colocar a imaginação a trabalhar em termos de receita fiscal, que parece ser um inquestionável e ilimitado direito de saque do Estado sobre tudo o que mexe e mesmo sobre o que está parado. Eu sugiro acrescentar impostos sobre pianos de cauda e portões de garagem elétricos.

Entretanto, para haver crescimento, criação de mais riqueza, é necessário haver confiança e investimento. Quem confia e investe num país onde todos os anos o governo sai à rua para sacar mais e novos impostos?

18 setembro 2016

Casa comum e falta de vergonha


Uma casa comum necessita de um mínimo de regras comunitárias. Esta Europa, de costas tão largas quando se trata de apontar razões e desculpas para as inépcias e incompetências das governações nacionais, não tem assim tantas regras quanto à forma como os Estados gerem as suas contas. Para os que estão no Euro, apenas lhes dizem: não gastem muito mais do que o que recebem, concretamente 3%. Como se forma a receita e como se distribuem as despesas são opções relativamente livres de cada um.

As receitas dos Estados vêm fundamentalmente de impostos e se não há liberdade total, pouco menos. Por várias razões a harmonização fiscal não será para amanhã. Por exemplo, a taxa base do imposto sobre os rendimentos das empresas é, salvo erro, de 10% na Irlanda, 21% em Portugal e 33,33% em França, já sem considerar as infinitas situações particulares e exceções. Faz sentido? Se a Irlanda se governa com os 10% e se isto é conhecido e transparente, melhor para ela. No entanto, há nas instituições europeias quem questione esta discrepância.

Coisa diferente é um país negociar individual e secretamente com uma empresa condições fiscais especialíssimas. Foi o que fez o Sr Juncker no Luxemburgo, ao que se sabe chegando a acordar taxas da ordem de 1%, para entidades sem atividade real no país. Foi agora notícia o caso da “correção fiscal” à Apple, na Irlanda, onde pagava uma taxa “muito amiga” de 0,005%. De realçar que não está em causa apenas a atividade da Apple na Irlanda. Os lucros supostamente gerados pela Apple em Portugal, por exemplo, também para lá são aspirados. Em contas simplificadas, uma empresa que declare mil euros de resultados em Portugal pagará tanto de imposto quanto a Apple na Irlanda por cada 4,2 milhões de lucro. É ridículo e injusto.

Para lá do enquadramento legal, há aqui um fator moral brutal. A Apple e as outras empresas que tais, supostamente socialmente responsáveis, com toda a lista de princípios politicamente corretos transcritos nas suas paredes reais e virtuais, consideram que não devem contribuir para as infraestruturas, sistema de saúde, justiça e educação dos seus clientes? Tenham vergonha.

15 setembro 2016

Ainda Setembro, antes e depois


Setembro é um mês especial. Vejo o virar do ciclo anual muito mais neste mês do que naquele Dezembro, quando pouco muda.

Em Setembro acontecem coisas significativas. São as colheitas, o começo das aulas e o fim do verão e do querido mês de Agosto. Não aprecio grandemente o calor intenso e a exposição solar per si, mas há algo de catártico naquele peso quente, especialmente quando se atravessa, sem horas, o silêncio perfumado do interior seco.

O começo das aulas. Uma cançãozita antiga falava “dos estudantes que sonham terem terminado os estudos e dos professores que sonham recomeçá-los”. Hoje haverá talvez professores que apenas desejam que os alunos sejam como eram há 20 anos.

Há 30 anos, mais coisa menos coisa, fui selecionado para uma entrevista para “assistente convidado” na Feup e, reconsiderando a candidatura, disse que não. “Engenheiro” é fazer coisas e de salas de aulas já tinha acumulados 17 anos. Para lá de todas as tensões, dúvidas e inquietações, (re)começar as aulas é uma forma forte de acreditar. Haverá algum local com mais quantidade de esperanças e expetativas juntas do que numa escola num primeiro dia de aulas?

A temperatura vai descer, a luz do dia vai encurtar, especialmente depois daquela machadada brutal da mudança da hora. Haverá coisas que não se poderão fazer mais, até ao próximo ciclo. Porque, novo ciclo, haverá sempre, pelo menos enquanto eu por cá estiver.

14 setembro 2016

Entre a paz e o Islão

Quando em 622 Maomé e os seus companheiros fugiram de Meca para Medina, seguiu-se uma guerra aberta entre as duas cidades, liderado do lado de Medina por Maomé. Em 627 foi julgada e condenada uma família judaica de Medina, os Qurayza, por se ter recusado a participar na batalha de Kandaq ao lado dos muçulmanos. Os homens foram executados, as mulheres e crianças escravizadas. A afirmação recorrente de que a violência não tem nada a ver com o islão necessita, portanto, no mínimo, de alguma contextualização. No entanto, a tensão entre a (uma parte da) comunidade muçulmana e o resto do mundo não se limita aos casos de violência extrema.

O Islão é uma religião de um Deus único, omnisciente, omnipotente, criador do Céu e da Terra e senhor do juízo final. Inclui episódios como a expulsão do Paraíso de Adão e Eva, o diluvio e a arca de Noé, a destruição de Sodoma e Gomorra e a travessia do Mar Vermelho. Cita figuras como Abrão, Isaque, Jacó, José do Egito e Moisés. Parece familiar? Sim, a sua base é a mesma das outras duas religiões do livro. Até Cristo é referido no Corão, embora de forma superficial. O “Quem nunca pecou que atire a primeira pedra” não é citado.

Nos primeiros tempos de Meca, Maomé divide os homens em três grupos. Os muçulmanos que observam e cumprem os preceitos da religião, tendo no fim o Paraíso à sua espera; os ateus e pagãos que não escaparão ao Inferno e, finalmente, os cristãos e judeus. Para estes a mensagem é: vocês estão certos, estão no bom caminho, adorando o Deus de Abrão e Moisés; apenas vos falta reconhecerem-me a mim como o seu último profeta (atualizem-se…!).

Para muitos muçulmanos o cristianismo e o judaísmo não são religiões completas, de pleno direito, mas apenas versões deturpadas e imperfeitas da “única”. Daí o seu enorme esforço proselitista (se a palavra pode ser usada) nas comunidades judaico-cristãs e uma completa falta de sentido de reciprocidade. Protesta-se contra o facto de a Suíça proibir minaretes (nem são indispensáveis para a plena função de uma mesquita) ao mesmo tempo que se proíbe linearmente outras religiões no “outro lado” (ou são tão regulamentadas que a diferença prática é pequena).

Esta postura do direito à primazia e de muitos muçulmanos não se verem a partilhar um espaço e uma sociedade em equidade com outras crenças e descrenças, provoca tensões e frustrações, sendo as frustrações, em geral, muito más conselheiras. Enquanto houver pregadores muçulmanos a insistirem no objetivo hegemónico da sua religião, dificilmente haverá paz de espírito e a outra pode ser uma consequência.

13 setembro 2016

O fundamental e o acessório

Parafraseando uma expressão humorística de um personagem de Herman José, “não havia necessidade” da entrevista que o juiz Carlos Alexandre deu à SIC. No entanto, por inoportuna e infeliz que seja, deveria servir para ser explorada em favor da “narrativa” da perseguição a José Sócrates?

Independentemente do desenlace do processo, da personalidade do juiz e do tempo que demore, todos os portugueses sérios e com alguma vergonha na cara deveriam, no mínimo dos mínimos, guardar distância de um ex-primeiro ministro que, saído do cargo, assume um nível de vida incompatível com os seus rendimentos oficiais conhecidos e com uns circuitos financeiros muito típicos dos do dinheiro sujo.

Não importa qual o partido, não interessa quem é o juiz. José Sócrates é um personagem que envergonha o país e as suas instituições. Não será o único, certamente, no entanto qualquer tipo de defesa tribal ou relativização do escândalo em função de uma entrevista ou do restaurante onde almoça o juiz, é desonestidade e subdesenvolvimento social. Depois venham dizer que a culpa da “austeridade” é toda da troika e dos alemães. Que por cá, tirando uns ranhosos armados em justiceiros, os nossos são todos bons rapazes, a quem o país muito deve.

Rodopiar magistral nos limites do mistral




XX Festival de Folclore Internacional do Alto Minho - 2016
Escola de Música i Dances de Mallorca

11 setembro 2016

Princesas Misteriosas do Cáucaso




XX Festival de Folcore Internacional do Alto Minho - 2016
Tsu Folk Dance Ensemble “University 2”, Tibilisi, Geórgia

07 setembro 2016

Isto sim, é um golpe

O Gabão é um país na costa ocidental africana, ali logo acima de Angola, relativamente pequeno em população, menos de 2 milhões, e bastante rico em petróleo. Liderado desde 2009 por Ali Bongo, filho do presidente histórico Omar Bongo, ainda recentemente me parecia ser um dos poucos países na zona com alguma visão estratégica e vontade de a implementar, conforme o documento com a capa acima reproduzida expunha com alguma consistência e abrangência.

Houve eleições presidenciais em 27 de agosto passado. Quando faltava apenas escrutinar os votos da província do Alto Ogooué, o candidato da oposição, Jean Ping, tinha um avanço de 60 000 votos sobre o candidato presidente em exercício, Ali Bongo. Ora bem, os resultados dessa província foram uma taxa de participação de 99,93% e mais 95% dos votos a favor de Ali Bongo, que assim recupera e ultrapassa Jean Ping por cerca de 5500 votos.

Entretanto o país está a ferro e fogo, a comunidade internacional apela à calma, esta notícia do Le Monde aqui é de um cinismo “remarquable” e pode-se sempre comparar com esta aqui do Mondeafrique

06 setembro 2016

Proibir o quê e para quê?

De acordo com os princípios europeus de liberdade e diversidade cultural não deveria ser proibida a utilização do burkini nas praias. Há quem assim pense, como também há quem entenda que para salvaguardar esses mesmos princípios europeus de liberdade e de diversidade cultural é necessário travar este programa reivindicativo de algumas organizações muçulmanas.

É de realçar que alguns dos que hoje reivindicam a liberdade de usar o burkini, são os mesmíssimos que amanhã se (quando?) puderem irão exigir a proibição do biquíni. Não tenho a mínima dúvida de que logo que acharem existirem condições, irão pedir o “direito” a haver praias exclusivas para burkini. As mulheres que quiserem usar outra coisa, “indecente”, farão o favor de se deslocarem para outras paragens.

A noção de que “é preciso travar” já não é uma bandeira fantasma da extrema-direita. É uma convicção cada vez mais alargada, dada a forma constante, paulatina e firme como essas organizações nunca estão satisfeitas e pedem sempre mais um degrau. Dado que o Islão se autodefine como a “religião superior” e “o modelo de sociedade ideal”, não os vejo com vontade de parar antes de obterem uma efetiva hegemonia, sendo de recordar que vivermos num regime democrático.

Ironicamente, é como se a liberdade, a democracia e o espirito de tolerância europeus, não perfeitos mas largamente acima do existente na generalidade dos países muçulmanos, fossem utilizados como um meio para … tornar a nossa sociedade mais fechada e menos tolerante. Como travar, não sei…

03 setembro 2016

O “golpe”

Dilma Roussef foi destituída por votação num Congresso legítimo. Os argumentos formais eram frágeis? Há quem tenha pior registo? A solução transitória atual carece de legitimidade? Talvez tudo isso seja verdade, mas a que propósito uma votação deste tipo é um golpe? Golpe seria uma destituição decretada por um juiz à porta fechada sem escrutínio nem recurso ou por um general de arma em punho.

Quando o último governo de Passos Coelho foi derrubado no nosso Parlamento alguns também invocaram a palavra “golpe”, não os mesmos que a usam agora para o Brasil. Esses, na altura, invocaram a absoluta soberania do órgão legitimamente eleito.

Se o árbitro marca um penalti duvidoso podemos encolher os ombros caso seja a favor da nossa equipa e gritar “bandido” (ou pior) ser for contra. A isso chama-se facciosismo e no futebol é relativamente inócuo, para lá da poluição provocada nos órgãos de comunicação que a isso se dedicam.

Em assuntos mais sérios, o facciosismo é muito perigoso porque provoca uma destruição de valores. Uma sociedade sã precisa de estar alicerçada em princípios imunes a simpatias e alinhamentos tribais. Se isso falha, abre-se a porta ao discricionário e ao injusto.

Citando um grande: “A liberdade consiste, antes de mais, em não mentir. Onde a mentira prolifera a tirania anuncia-se ou perpetua-se.”, Albert Camus.

Tirania é tirania e independentemente da cor das suas bandeiras.

01 setembro 2016

Natascha Kampusch


Há cerca de 10 anos, em 23 de Agosto de 2006, a jovem austríaca Natascha Kampusch fugia de um cativeiro monstruoso de 3096 dias, passados numa cave de 6 m2. Uma daquelas notícias que emociona a opinião e pública e dá a muitos a grande satisfação de se sentirem deveras bonzinhos, face às barbaridades como estas que ocorrem pelo mundo.

Houve quem não gostasse de ela não ter divulgado todos os detalhes do cativeiro, nem de não ter linearmente condenado o raptor. Não lhe perdoaram ter chorado quando soube da morte do seu carcereiro, o único ser humano com quem contactou durante mais de 8 anos. Será possível odiar continuamente durante tantos anos? Um monstro será monstro da cabeça aos pés durante 24 horas por dia, 365 dias por ano?

A realidade não é a preto e branco, preto de um lado e branco do outro. Quem não consegue entender isso e critica a jovem austríaca ex-refém por recusar a monocromia, só deve conhecer a “vida” das telenovelas.



Mais detalhe na notícia do I aqui, de onde extraí a fotografia