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05 junho 2017

Isto é novidade e das gordas!


A Arábia Saudita, os Emiratos Árabes, seu aliado próximo, o Bahrein, seu satélite e o Egipto, à rasca, resolveram cortar drasticamente as relações diplomáticas e mesmo físicas com o Qatar, expulsando dos seus países os respetivos nacionais.

Razão anunciada: o apoio do Qatar a organizações terroristas, incluindo a famosa Irmandade Muçulmana e um certo apoio/condescendência para com o satânico Irão. Tentando traduzir… É de estranhar que a AS assuma assim uma posição tão radical quanto ao suposto apoio ao terrorismo (dizem que até precisaria de varrer dentro de casa antes). É possível que o grande protagonismo internacional do Qatar incomode os sauditas. É plausível que esta tensão beneficie o preço do petróleo. É provável que algum tipo de ligação/cumplicidade do Qatar com o Irão seja absolutamente insuportável para a AS e, cheira-me, ser esta a única razão que justificaria uma medida tão imediata e radical.

Mesmo que a questão do apoio aos grupos terroristas possa ser coisa do roto para o rasgado, sabemos que é das zangas das comadres que se descobrem as verdades. E como reagirá a França, que tem tantas ligações de várias naturezas com o Qatar e onde existe uma presença fortíssima da Irmandade Muçulmana através da UOIF? E o chamado mundo ocidental, razoavelmente alinhado até agora nas suas relações com aquela parte do mundo, irá desdobrar-se em dois blocos: USA + AS versus Europa/França + Qatar? E a Turquia, claramente inimiga do Irão e governada por um ramo da Irmandade, ir-se-á zangar com a AS, um parceiro regional fundamental na Síria? E será que isto é uma decisão fria e minimamente tranquila da AS ou é uma perigosa reação a quente?

E para perguntas, por hoje, já chega!


Imagem Stringer/AFP

07 abril 2017

Assad é bruto, mas…


Assad usou armas químicas contra civis, ultrapassando uma linha vermelha e os EUA decidiram que a coisa não podia ficar impune.

Tão simples assim? Consciente de que o que sei será bastante menos do que o que não sei, não consigo deixar de colocar algumas questões. Assad é bruto, mas não estúpido. Qual a vantagem militar deste suposto ataque? Justificaria o risco, confirmado agora, de escalar a intervenção dos EUA, desequilibrando as forças em seu desfavor? Acharia ele que esta provocação seria ignorada pela nova administração americana, muito mais “pró sunita” do que a anterior?

A intervenção direta da Rússia, desde há uns meses, mudou o sentido da guerra. O enfraquecimento do antes poderoso e sempre ignóbil “Estado Islâmico” é consequência disso. Os sunitas do Golfo e da Turquia apreciariam muito uma participação mais ativa dos EUA e conseguiram-na. Será Assad assim tão estúpido, a ponto de ter dado este enorme tiro no seu próprio pé?

Mesmo sendo estúpido e criminoso, o seu enfraquecimento vai reforçar o “Estado Islâmico” e essa nublosa chamada “oposição síria”, que aplaude a intervenção americana com todas as mãos e pés, e que inclui Al-Qaedas e outros grupos radicais islâmicos, aparentemente financiados pelo Golfo. Eu, no lugar do Diabo, a ter que escolher entre os dois cenários maus, não duvidaria.

Não é muito claro o que será a Síria depois de uma derrota militar de Assad, mas coisa decente nunca será. Exemplos ilustrativos até já os há e aí ainda nem sequer se sabe como normaliza-los minimamente.

PS: E para o Iémen, nada …?

11 março 2016

Outras vítimas

Já aqui atrás contei a história da última vítima dos atentados de Madrid do 11 de Março de 2004. Não morreu pelas bombas terroristas. Morreu vítima da manipulação e da prepotência. Em resumo, e para quem não abriu o link acima, trata-se da mulher do comissário de polícia de Vallecas, local onde se encontrou a mochila-bomba não explodida, prova fundamental para identificar a origem muçulmana dos atentados e arrumar de vez com a fantasia da ETA que tanto jeito dava ao PP. Este nunca perdoou ao polícia ter sido o involuntário responsável pelo desmascarar da sua mentira.

Para lá do contexto específico, ser Espanha ou outro país, se quem manipula é um partido de direita ou de esquerda, é certamente muito grave alguém morrer devido não ao ato terrorista, claramente ilegal, com leis claras que o marginalizam e objeto de ação policial que o persegue, mas simplesmente sucumbindo ao assédio injustificável de quem tinha poder e aparelho mediático à disposição. É absolutamente repugnante que poderosos ressabiados, sejam capazes de atacar inocentes de forma tão despudorada, espezinhando-os sem piedade.

O PP perdeu as eleições três dias depois dos atentados, em grande parte, como castigo da sua atitude imoral, mas não aprendeu. O que falta a esta humanidade para ser consistentemente mais honesta, aceitando como únicas regras do jogo válidas as da verdade e as que começam e acabam no respeito pelos semelhantes.

Poder-se-á dizer resignadamente que “nunca”, que é uma utopia. No entanto, sem dúvida, a qualidade do quadro humano e social em que vivemos/viveremos é tanto maior quanto mais próximos estivermos da utopia, quanto menos traficarmos dolos e enganos. Num momento em que no nosso país, parece regredir para um “vale tudo” desde que no interesse próprio; do “manda quem pode” e “quem discorda que se cale” (mesmo tendo razão), não é inoportuna esta reflexão.

04 janeiro 2016

Todo o homem é meu irmão

Ainda não tinham arrefecido as iluminações da celebração da passagem de ano e o mundo ouvia a notícia da execução de 47 pessoas na Arábia Saudita, entre simples acusados de terrorismo e um alto dignatário xiita, que, aparentemente, se limitou a pedir direitos cívicos para a sua minoria. Isto é chocante, muito especialmente num país como o nosso, pioneiro na abolição da pena de morte, e atendendo até à forma pouco transparente como a justiça ali funciona. Convém recordar que supostamente a Arábia Saudita não é um país semi-pária, liderado por um ditador de opereta. É membro do G20 e com responsabilidades na ONU a nível de direitos humanos.

Este episódio vem confirmar ser o sectarismo a principal razão atual para os problemas que grassam naquela zona. Além deste sectarismo saudita sunita, é de recordar o sectarismo pró-xiita no Iraque pós queda de Saddam Hussein, que impediu a normalização do país e proporcionou a manutenção dos movimentos de protesto violento, antecessores do chamado Estado Islâmico.

Quando se fala na contestação na Europa à receção de migrantes (económicos e refugiados de guerra), estaremos também a praticar algum tipo de sectarismo? Antes de mais, convém contextualizar com algum rigor. Na Europa ninguém é preso por se manifestar em defesa de uma minoria e os vândalos que incendiaram a módica quantia de 804 automóveis na passagem de ano em França não estarão a ser acusados de terrorismo.

Se existe alguma xenofobia, a Europa sabe e defende, institucionalmente e numa grande franja da sua população, que “todo o homem é meu irmão”. Preocupante é o poder que agora cortou a cabeça a 47 pessoas ser o mesmo que financia a formação e a define as práticas religiosas de uma boa parte dos muçulmanos, inclusive na Europa. Acho isto perigoso!

19 outubro 2015

Por uma vez

O cenário atual na Síria é extraordinariamente confuso. Temos 4 fações principais no terreno (regime, Estado Islâmico, Curdos e outros rebeldes) e 5 frentes de influência externa (Turquia, Rússia, Irão, Monarquias do Golfo e Ocidente), sem estes atores estarem até agora claramente agregados (por simplificação, até nem separo Ocidente em EUA e Europa…).

A intervenção direta musculada da Rússia veio trazer mais bombas e mais mortes, certamente. Veio também baralhar a visão do conflito para aqueles que gostam de ver as coisas simplificadas, perdoando ou condenando os USA ou a Rússia, conforme a sua simpatia, mas acaba por forçar uma clarificação do que cada um quer mesmo ver no final, resultando dois blocos.

A Rússia e o Irão querem o regime atual e combatem o Estado Islâmico e os outros rebeldes; o Ocidente, Golfo e Turquia querem os outros rebeldes e combatem o Estado Islâmico e o regime.

Independentemente do vencedor final, provavelmente o Estado Islâmico recuará até ao Iraque, que continuará o caos que conhecemos desde há 12 anos, e os curdos poderão ter o mesmo destino de outros levantamentos. Vêm à luta com empenho e valor e, no fim, recuam escorraçados…

Como os outros rebeldes são Al-Qaedas e afins, tenho muitas dúvidas se uma Síria por eles “governada” venha a ser muito diferente da atual Líbia. Com todos os defeitos do regime de Bashar Al Assad é preferível deixá-lo a governar e ir pressionando a mudança do que desestruturar o/outro país.

01 setembro 2015

Conforme o dia da semana

Na guerra de Raúl Solnado, havia um único avião, partilhado com o inimigo. Uns bombardeavam às segundas, quartas e sextas e os outros às terças, quintas e sábados. O Médio Oriente é um pouco semelhante, mas em drama, não em comédia. Por exemplo, o Al-Qaeda na Península Arábica (AQPA) uns dias é atacado pelos Ocidente e Monarquias do Golfo, pela ameaça que representa; nos outros dias, a coligação sunita liderada pela Arábia Saudita e com o apoio tácito dos ocidentais bombardeia os houthis xiitas, deixando o AQPA ocupar o terreno completamente desestruturado (libertado?) no Iémen. A Turquia ataca o chamado estado Islâmico (EI) uns dias e, noutros dias ou no mesmo dia até, bombardeia os curdos no Iraque, principais opositores ao EI no terreno…

Como consequência destes jogos há gente que morre e gente que foge. Vemo-los tentar chegar à Europa por centenas de milhares. Toda a gente é sensível aos dramas diários e muitas vozes se levantam pedindo mais solidariedade e acolhimento sem restrições, principalmente enquanto o fenómeno não afetar o seu quintal. Receio bem que essas posições sejam alteradas se virem nascer uma nova Addis-Abeba nas traseiras das suas casas.

A Europa tem uma capacidade limitada de receber refugiados tanto do ponto de vista económico, visível a curto prazo, como cultural, com efeitos a mais longo prazo. Se esta pressão não for limitada à escala tolerada pelas populações, a consequência será o agravamento da xenofobia.

Continuar a permitir/tolerar e a participar direta ou indiretamente em guerras às segundas, quartas e sextas e lamentar a sorte dos refugiados às terças, quintas e sábados é comédia de mau gosto!

01 julho 2015

O dia de semear a bonança?


No mesmo dia do atentado na praia de Sousse, há outro menos mediatizado mas não de somenos importância, e não me refiro ao de França.

O atentado contra a mesquita xiita no Kuwait demonstra que mesmo as monarquias do Golfo Pérsico não estão a salvo. A ser verdade o que alguns dizem, que estes regimes apoiam de uma forma mais ou menos direta uma versão mais radical do islão, que com alguma facilidade degenera nestas catástrofes, estarão a sofrer um efeito boomerang. Não sei se é verdade, mas sendo indiscutível que quem semeia ventos, colhe tempestades, talvez este atentado venha evidenciar a necessidade de semear aquilo que há-de trazer a bonança.

Haja discernimento para o entender e determinação para o realizar.

22 janeiro 2015

Lutar por ou lutar contra

Quando se se luta, será sempre por algo e contra algo. Há, no entanto, uma diferença grande entre a motivação principal ser o “por” ou o “contra”. Quando se luta “por”, há objectivos e princípios claros na base da luta. Do outro lado estará tudo o que se lhes oponha. Quando se luta “contra”, está-se contra algo e alinhando esforços com outras oposições. É diferente lutar pela liberdade e contra a(s) ditadura(s) ou ser simplesmente contra uma ditadura. Neste último caso, corre-se o risco de alinhar esforços com… outra ditadura diferente. O inimigo do inimigo não é automaticamente amigo.

Os jovens burgueses portugueses da década de 70 que se diziam maoistas, não seriam necessariamente “pelo” maoísmo, mas principalmente “contra” a sua sociedade, alinhando-se com um inimigo comum. Manter-se-iam maoistas se fossem viver para a China? Tenho sérias dúvidas! Mesmo os activistas que chegaram a acções armadas sérias, como os alemães do Baader Meinhof ou as brigadas vermelhas italianas, manteriam as convicções se vivessem no mundo pelo qual supostamente lutavam?

É mais fácil lutar “contra” do que “por”; é mais fácil destruir, mas é mais gratificante construir. É mais exigente escolher um caminho do que renegar um existente. Num caso a cabeça está erguida; no outro está baixa.

Dentro dos europeus partidos para a Síria para “lutar”, quantos estarão verdadeiramente motivados “pelo” (suposto) Islão e quantos estarão simplesmente revoltados “contra” o mundo em que vivem. Será assim tão difícil fazê-los entender que os motivos para quererem regressar vão muito para lá do tablete ficar sem bateria…? E que se conseguirem regressar vivos encontrarão mais do que o respectivo carregador?

09 janeiro 2015

Podemos ser um pouco Samira?

Desculpem-me por destoar, mas já me está a custar ver tantos “Somos todos Charlie”. Não porque de forma alguma tolere ou relativize a importância da barbárie de Paris. Simplesmente porque morreram 12 pessoas, enquanto o mesmo mal mata dezenas ou centenas por dia no Médio Oriente, quase sem reacção da opinião pública.

Faz-me lembrar o ébola. Enquanto morriam, e continuam a morrer, apenas em África, não é notícia. Um ou dois casos próximos e não se fala de outra coisa.

Há menos de um mês, quem quisesse podia ler que 150 mulheres foram executadas em Fallujah, apenas por se recusarem a casar com combatentes do estado islâmico. É só estar atento ou procurar. São centenas de corpos encontrados em valas comuns “de vez em quando”, muitas vezes; são milhares de mortos acumulados e, para quem não reage muito a estatísticas, um nome e um rosto: Samira Saleh Al-Nuaimi.

Advogada em Mossul, defensora dos direitos humanos e em especial das mulheres. Foi presa em Setembro e condenada por apostasia, apenas por ter tido a coragem de continuar a agir na defesa dos seus princípios, que também são os da humanidade. Após ser torturada durante 5 dias foi executada publicamente. É apenas uma. Mas pouca gente ou ninguém “também é Samira”. Samira em árabe significa “boa companhia”, mas um nome, no fundo, pouco vale.

07 dezembro 2014

Alguém paga...


Quando a contestação popular começou na Síria xiita, aliada do Irão, os sunitas do golfo, a Turquia mais ou menos laica e os ocidentais atrás, entenderam ser uma oportunidade excelente para castigar e enfraquecer o Irão. Vai daí, ajudaram e financiaram todos que quisessem molhar a sopa, incluindo a Al Qaeda, curiosamente promovida a coisa menos má do que o maléfico Irão. O então EISL, agora pomposamente chamado “Estado Islâmico”, já dizia ao que ia e como. De tal forma que a própria Al Qaeda se afastou dele.

Hoje, estando como e onde queria, com a barbaridade conhecida, conseguiu a façanha de, aparentemente, alinhar contra ele, no sentido dos ponteiros do relógio: Síria, Ocidente, Turquia, Curdos, Irão, o que resta do Iraque e monarquias do golfo. É obra! No entanto, continuam pujantes e ricos. Dizem que os do Golfo já não lhes pagam mais. Está bem que se apropriaram do recheio de bancos iraquianos, receberam pagamento de resgates de reféns e também vendem petróleo dos campos que controlam. Curiosamente, o petróleo não se trafica como os diamantes num saquinho, que se esconde em qualquer lado!

O que me parece claramente é que algures no mostrador do relógio que atrás referi, há umas horas furadas. Se todos estivessem na prática firmemente determinados a acabar com aquela coisa monstruosa, pelo menos, pelo menos, petróleo eles não venderiam!

24 setembro 2014

Trapalhadas trágicas

Estou neste momento em Argel (não é muito meu hábito relatar assim em directo) a menos de 200 km do local onde foi raptado domingo um turista francês, na imagem acima, e supostamente hoje executado, por um ramo do tenebroso “Estado Islâmico” que controla barbaramente uma parte da Síria e do Iraque. Perigoso por aqui? Não especialmente.

Em primeiro lugar. Porque raio foi o malgrado senhor passear para uma zona de montanha inóspita, que toda a gente sabe infestada de terroristas e bandidos? Que até escassos dias antes se tinham “mostrado”? Onde o próprio exército tem todos os cuidados quando por lá circula?!

Em segundo lugar. O grupo em causa, de “Estado Islâmico” só tem o nome e emprestado. Explico. Dos conturbados anos 90 e particularmente do GIA - “Grupo Islâmico Armado”, que sucedeu militarmente ao partido banido, o “FIS”, subsistiu nos anos 2000 o GSPC. Quando a “Al Qaeda” ganhou notoriedade mudaram de nome para AQMI – Al Qaeda para o Magreb Islamico. Agora como o que está a dar nas notícias é o “Estado Islâmico”, estes resolveram trocar de bandeira. Enfim, uns vira-casacas!

18 junho 2014

Inimigo de meu inimigo

Quem tem grandes responsabilidades neste mundo devia saber, ou pelo menos aprender, que o mundo não é bipartido e o inimigo do inimigo não é automaticamente um amigo em quem confiar. É famosa a ajuda que os americanos deram aos combatentes islâmicos no Afeganistão, para estes lutarem contra os soviéticos nos anos 80, criando um problema que 30 anos depois ainda não está resolvido nem se vê como acabará.

Agora foi na Síria. Quem está atento sabe que o movimento interno de contestação foi rapidamente confiscado por fundamentalistas sunitas. No entanto, para o ocidente, El Assad continuava a ser o bandido hostil, que era necessário fazer cair a todo o custo e ajudando sem restrições quem estava disposto a combatê-lo. El Assad resistiu e essa boa gente, fortemente armada pelos inimigos do inimigo foi atrás, ganhar lanço, conquistando metade do Iraque.

É inacreditável como sendo o Iraque um terreno natural e assumido de expansão do sunitas fundamentalistas combatentes na Síria, estivesse toda a gente a dormir e permitir este descalabro, ainda por cima com as barbaridades e atrocidades cometidas por estes “amigos”, verdadeiramente horripilantes.

Uma outra lição que poderiam tirar é que esta coisa de decapitar à bruta, de um dia para o outro um país, sem tradição de partilha e alternativas de poder, conduz facilmente ao caos. Certamente que nos USA muita gente deve suspirar pelos velhos tempos do “good Saddam”… como certamente já faltará também pouco para suspirarem pelo “good Khadafi”.

Nota: foto de execução sumária de soldados iraquianos capturados pelos  "nossos amigos".

06 junho 2014

Nem tudo se compra

Anunciada em simultâneo com a atribuição do de 2018 à Rússia, para todos ficarem contentes, a escolha do Qatar para o mundial de Futebol de 2022 começou logo por ser atípica. A seguir, por acaso, descobriu-se que jogos no deserto em pleno verão não devem ser muito confortáveis. Para o anfitrião, este evento é uma oportunidade para ganhar (ainda) mais visibilidade internacional e infra-estruturar o país com visto a torna-lo um destino turístico importante e viabilizar o pós petróleo/gaz.

Mas, como aquela que veste um vestido caríssimo e sofisticado e depois arruína o conjunto com um acessório foleiro, o brilho começou a desbotar com a revelação das condições inumanas e quase esclavagistas dos trabalhadores utilizados na construção. Por um lado até pode ser bom, a visibilidade pode forçar alguma evolução.

O desconforto foi aumentando e até o inefável Sr Blatter da FIFA já assume esta escolha ter sido um erro. O nosso caro M Plattini da Uefa continua a achar bem. Assume ter votado no Qatar por “ O Golfo ser um belo local para organizar o campeonato e isso valorizará o desenvolvimento do futebol”. Gostava de ter a oportunidade de lhe poder pedir para desenvolver e concretizar um pouco mais as suas razões. Assegura que nada teve a ver com um jantar para o qual foi convidado pelo Presidente francês da altura e onde, por mero acaso, também estariam presentes uns altos dignatários qataris que muitos negócios cozinhavam ali. No contexto, e como exemplo, quem a seguir comprou e investiu fortemente no clube da capital francesa? O Qatar.

Recentemente há um novo desenvolvimento. Os ingleses, talvez stressados por não terem a certeza se poderão ter lá cerveja ou apenas Coca-Cola, atacam. O jornal “Sunday Times” publica uma série de provas de que a escolha do Qatar foi escandalosamente comprada e, sendo assim, deverá ser anulada. Provavelmente todos estes processos têm sempre associados algumas simpatias e prendinhas, mas parece que desta vez foi forte e feio. Se a anulação se concretizar será um enorme revés para o Qatar e para a sua estratégia.

No entanto, quanto ao potencial atractivo turístico, eu não tenha a mínima dúvida em preferir o vizinho do outro lado do Golfo, a Pérsia (Irão). Mesmo sem hotéis 10 estrelas e infra-estruturas faraminosas, será sempre mais interessante, simplesmente pela sua cultura, que, no fim, é sempre o fundamental. E não se compra cash. Cria-se com tempo e outros ingredientes, inteligentes.

14 março 2014

A última vítima do 11 de Março

Um amigo espanhol mais de esquerdas do que de direitas chamava ao jornal “El Mundo” o “Imundo”, tal era a falta de isenção e arrogância quando se tratava de defender a outra Espanha, a conservadora. Ao ler agora algumas notícias e análises evocativas dos 10 anos dos atentados de Madrid de 11 de Março, descobri algo pior do que imaginava.

Os atentados ocorreram 3 dias antes das eleições legislativas e ao PP no poder dava jeito que tivesse sido a ETA. Afirma o juiz Baltasar Garzon que La Moncloa (sede do governo) deu instruções para ser afirmado que a organização basca era a autora dos atentados. Numa altura em que ainda não se tinham contado as vítimas e em que a própria polícia não encontrava a assinatura da ETA nos indícios, já Aznar sabia e decretava quem era responsável.

A teoria da ETA não pegou e em grande parte devido a essa atitude vergonhosa o PP perdeu as eleições. Foi um choque brutal para o seu orgulho. Rodolfo Ruiz era comissário da polícia em Vallecas, um dos locais em que explodiram as bombas. Entre o material recolhido pela sua equipa estava uma mochila com uma bomba por explodir, cuja investigação foi determinante para chegar aos autores dos atentados e definitivamente excluir a ETA. Para o PP esta mochila foi fatal e melhor seria ela não ter aparecido… e… se tivesse sido uma manipulação? É uma mochila maldita e todas as suspeições e insinuações são possíveis e permitidas sobre o comportamento do polícia responsável pela sua existência.

Uns anos mais tarde, o mesmo polícia interpela dois militantes do PP que numa manifestação de direita tentam (aparentemente) agredir um ministro socialista. Não faltou mais nada para ser declarado inimigo mor do PP. É julgado por essa interpelação, é condenado e posteriormente absolvido pelo Supremo. Em paralelo é vítima de uma campanha violentíssima de insultos e difamação por parte do “Imundo” e da hierarquia religiosa, chegando a ser até acusado de ter colaborado com os terroristas.

Ele quebra psicologicamente e a mulher assume a defesa da honra e da imagem do marido e da família. É uma luta perdida. Os “conspiranóicos”, como ficaram conhecidos pelo outro lado, não têm nada a corrigir nem a desculpar. Ela fica arrasada também e acaba por se suicidar. Foi mais uma vítima do 11-M e, sobretudo, duma certa Espanha arrogante, facciosa e sem valores. Não é toda assim, evidentemente, mas penso que em poucos países do mundo civilizado isto poderia, a estes níveis, ter chegado a este ponto.

02 setembro 2013

Venha mais uma guerra?

O Presidente dos EUA decidiu intervir militarmente na Síria, na sequência da constatação da utilização de armas químicas pelo regime. Se não há dúvidas sobre terem sido realmente usadas, a respectiva responsabilidade pode não ser tão clara e não são certamente as certezas oficiais dos funcionários de Obama que me convencem. Por trás dos rebeldes está, entre outros, o Al-Qaeda. Imaginar que eles próprios possam ter recorrido a essas armas contras os “seus”, para obterem o efeito que se perspectiva não é nada de improvável, atendendo ao histórico e aos valores de tal organização.

Agora, se até for verdade que a responsabilidade foi do regime, qual a base legal para a tal intervenção? Não pode ser obviamente uma decisão do presidente dos EUA, eventualmente validada pelas suas câmaras de representantes. E não pode ser porque isso dará argumentos a qualquer país para intervir em qualquer sítio, bastando-lhe uma decisão interna. É certo que os EUA não são um país qualquer, mas isso só lhes traz responsabilidades acrescidas. Se a Síria ultrapassou uma linha vermelha em direito internacional, a resposta teria que vir por direito internacional e não por iniciativa de um justiceiro solitário…

Finalmente há a questão de para que serve e o que mudará com essa intervenção. Enviam-se uns mísseis, fazem-se uns estragos, assusta-se os maus da fita e depois…? Radicalizam-se os ódios ao Ocidente, eventualmente cai um regime para um novo Iraque ou uma nova Líbia… consegue-se imaginar um balanço final positivo?

14 junho 2013

Ainda a Síria

No Iraque descobriram armas de destruição maciça, aqui finalmente descobriram utilização de gás sarin pelo governo sírio, que era mesmo o que faltava para justificar uma ajuda aos “bons rebeldes”.

E recordei-me da ajuda aos talibans do Afeganistão quando eles combatiam os russos que deveria ter ensinado que nem sempre o inimigo do meu inimigo, meu amigo será.

30 janeiro 2013

Questão sobre In Amenas

Por acaso eu estava em Argel no dia da tomada de reféns nas instalações de produção de gás natural de In Amenas. Por acaso é no mesmo país, mas poderia não ser dada a distância de 1500 km e o mundo de diferença entre os dois lugares. No entanto, e apesar disso, segui o assunto com bastante atenção e agora a frio cá ficam-me umas dúvidas e interrogações.

Parece que o objectivo inicial do ataque era tomar o autocarro que saia da base e fazer reféns. Houve tiros, houve mortos, mas este seguiu viagem. Um comando tão fortemente armado que depois resistiu durante dias a um exército que actuou sem cerimónias não conseguiu bloquear um autocarro, se bem que este estivesse devidamente escoltado. O comando dirigiu-se em seguida para a base de vida, provavelmente para ir buscar outros reféns e lá ficou. Aparentemente não tentou sair imediatamente com alguns reféns enquanto havia confusão.

A partir de altura em que o exército cerca o local, o fim estava marcado. A missão torna-se suicida. Quando várias horas depois saem do aldeamento veículos com terroristas e reféns, o exército já em posição não tem contemplações e faz em pedaços os veículos e todos os ocupantes, podendo-se “entender” a brutalidade apenas pela enorme ameaça que seria essa presença nas instalações industriais, separadas da base de vida de algumas centenas de metros.

Mas, afinal, no fim havia terroristas e reféns nas instalações industriais. Não sei se lá entraram na primeira hora ou se se transferiram durante o cerco. Claramente derrotados executaram esses reféns e nada explodiu…! A fábrica que até representa quase 20% das exportações de gás do país, retomará a produção sem problemas de maior. Apesar da cobertura mediática e dos ocidentais mortos a acção não se salda por um grande sucesso para os terroristas. Como aquilo não explodiu é para mim um mistério …


PS em 4/2/2013 após mais informação recebida/lida - Afinal parece que eles queriam mesmo fazer explodir o complexo industrial e uma parte do grupo instalou-se logo lá na primeira hora, mas com o alarme dado a produção parou e isso foi suficiente para limitar os estragos potenciais. Eu não sabia, e pelos vistos eles também não, que não é assim tão fácil incendiar um complexo de produção de gás desligado!

11 setembro 2011

A amálgama do pós 11 de Setembro

Pois… eu não gosto de efemérides e até tinha planeado passar ao lado desta, mas não resisti. Sei bem onde estava na altura mas isso interessa pouco, como também sei que a 11/9/2006 estava a apanhar um avião para me instalar de armas e bagagens na Argélia.

Quanto ao de 2001, acho que ele criou/cria muitos equívocos quanto à relação do mundo ocidental com o Islão. Por um lado, uma negativa pela identificação dos atentados com os muçulmanos em geral e subsequente desconfiança e repulsa; por outro lado uma simpatia e compreensão de outra facção para com quem está a ser injustamente ostracizado. Vamos por partes … a Al Qaeda é uma organização que não se pode identificar com a globalidade do Islão. É terrorista como o foram as Brigadas Vermelhas e ainda o é a ETA. A grande maioria dos muçulmanos não se identifica com ela, apesar de não lhes ficar mal uma condenação mais clara e rotunda destes actos. Mas, por muito perigosa que seja a ameaça da Al Qaeda, existe um arsenal de legislação, polícia e tribunais para a combater. Com mais ou menos vítimas a lamentar o desfecho é claro como o foi para as Brigadas Vermelhas e é/será para a ETA.

No entanto, para o Sr Dupont e o Sr Smith o seu problema com o Islão não está nos potenciais atentados da Al Qaeda. Está em um dia, pela evolução demográfica e pelo princípio da democracia serem impedidos de tomar um pastis ou um pint à luz do dia, a menos de x metros da mesquita mais próxima. O Sr Silva ainda não imagina isso…

PS: E rever aqueles momentos com G.W. Bush bloqueado sem saber como reagir após receber a notícia é revelador da capacidade de discernir e agir do homem...

21 janeiro 2009

Antes do degelo

O futuro dos dinossauros

Ao procurar notícias sobre a evolução da contagem dos votos nos USA, deparei com a divulgação de um estudo, pelo Fundo Mundial para a Natureza, em que se previa que, devido às emissões de dióxido de carbono, todo o gelo do Árctico poderá derreter até o final deste século. As consequências seriam naturalmente catastróficas para uma boa parte da humanidade. Neste contexto, há um país que se recusa a ratificar o protocolo de Quioto porque, segundo o seu presidente, não pretendem mudar o seu “maravilhoso estilo de vida”.

Esta visão de curto prazo e de falta de preocupação com a sustentabilidade das políticas não é exclusiva deste campo. Há já alguns anos que os EUA vivem acima das suas possibilidades, suportados pelo sua máquina de imprimir notas verdes e pelos bancos centrais asiáticos que compram os dólares para evitarem a valorização das suas divisas e não perderem competitividade. Os défices comercial e orçamental dos EUA continuam alegremente a acumular até ao dia em que, por um lado ou por outro, mais rápido ou mais lento, se accionar um mecanismo qualquer de correcção que trará à economia mundial um efeito semelhante ao do degelo do Árctico para o meio ambiente.

Esse presidente foi reeleito e, desta vez, não se pode dizer como há quatro anos que foi uma vitória tangencial, de legitimidade suspeita, e que, embora não se esperando grande coisa, não se previa até que ponto chegaria. Agora ele e a sua política foram claramente sufragados pelos cidadãos americanos. “Eles” são mesmo assim!

Estes EUA mantêm dimensão mas, tornou-se mais evidente, que lhes falta, e intrinsecamente, uma série de coisas importantes como sensibilidade e visão estratégica de médio-longo prazo. Estão cada vez mais na cena internacional como um dinossauro (daí talvez, por identificação, o grande sucesso dos temas jurássicos!?!).

A personificação da luta contra o terrorismo em Bin Laden é também um sinónimo de um estilo de liderança frouxa e pela negativa. Quando Bin Laden desaparecer, desaparece o grande desígnio de G.W. Bush. Será por isso que ainda não foi capturado?

O discurso de vitória fez-me recordar os discursos do filme “About Schmidt”. Uma América hipócrita, sem rasgo com um assustadoramente vazio “politicamente correcto”.
Um dia, algo mudará e, confiemos que, antes do degelo do Árctico.
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Este meu texto, publicado no “Público” de 6.11.2004, faz-me lembrar como esse grande país, diferente de tudo o resto que há no mundo, tem uma capacidade impressionante para mudar e surpreender (nota: a “crise” actual já lá está anunciada!).

Realmente mudou e agora temos um novo presidente, “como deve ser”, felizmente antes do referido degelo…! Os EUA, ou pelo menos uma boa parte, estão felizes por exorcizarem a miserável herança que um tonto, talvez boa pessoa, mas tonto e muito mal aconselhado deixou.

Agora, uma coisa é ter uma excelente imagem, apresentar brilhantes discursos com uma mensagem cuidada e irrepreensível e outra coisa é fazer mesmo. Obama é um sedutor e isso ajuda muito. Se Obama parece ter tudo, e mesmo a imprensa mais crítica classifica o percurso dele como “perfeito”, é exagerado e ridículo falar já dos “anos Obama”.

Desejemos-lhe apenas boa sorte, sempre necessária, para lá do discernimento, capacidade de liderança e de decisão e, lá para a frente, poderemos então falar duns “anos Obama” à medida da enorme expectativa criada nos quatro cantos do mundo. A ver vamos…

10 janeiro 2008

Amanhã é dia...



11 de Setembro de 2001 – Nova Iorque, EUA
11 de Abril de 2002 – Djerba, Tunisia
11 de Março de 2004 – Madrid, Espanha
11 de Abril de 2006 – Karachi, Paquistão
11 de Julho de 2006 – Bombain, Índia
11 de Março de 2007 – Casablanca, Marrocos
11 de Abril de 2007 - Argel, Argélia
11 de Julho de 2007 – Lakhdaria, Argélia
11 de Dezembro de 2007 – Argel, Argélia

Para o terrorismo islâmico em geral e para o Al-Qaida em particular, o número 11 parece ter um simbolismo especial, ligado ao dogma da unicidade. O 1 dobrado que também é número primo e por aí fora ...

Já li algures que existe uma passagem do Corão referindo 11 estrelas no céu e que teria servido de inspiração a Bin Laden para escolher a data do 11 de Setembro.

Por tudo isto, os dias “11” começam a ser olhados com alguma apreensão e, por aqui, está-se com alguma expectativa para amanhã, depois do último 11 de Dezembro bastante violento.

Apesar disso irei, como de costume, nadar no clube do Sheraton, que constitui um potencial alvo privilegiado. Há coisas que não devem parar.

Mas, se o passado dia 9 de Janeiro foi o ano novo do calendário islâmico, então nesse calendário religioso amanhã é dia 3 e não 11. Numa linha pura e rigorosa, o dia de risco deverá ser então o 19 de Janeiro, não é? Mas... se a dúvida habitual com o início do ciclo lunar levou a que em Marrocos e noutros locais o ano novo tenha sido apenas hoje, então nesses países a data fatal deverá ser o 20 de Janeiro, não?

Que grande confusão. Assim, vou mesmo nadar mais sossegado...!