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10 dezembro 2024

Bem Bashar, Mal Bashar


Há cerca de 5 anos, o mundo celebrava o fim (estabilização?) da guerra na Síria, com a derrota dos abomináveis selvagens do “Estado Islâmico” e a manutenção do regime de Bashar al Assad. Certo que não era um santo, até se supunha que teria usado armas químicas contra o seu próprio povo, mas sempre parecia melhor do que os outros fundamentalistas bárbaros. Olhou-se com alguma complacência para os bombardeamentos a civis (não era Gaza) e dir-se-ia que o Hezbollah estava do lado certo da cena.

Hoje celebra-se a queda do ditador e a libertação do país por uns extremistas, bastante mais polidos nas intenções do que os anteriores, mas saídos do mesmo molde. A ver vamos, sendo que se isto se passa com o patrocínio da Turquia a situação não deve ficar fácil para os curdos instalados no nordeste do país.

A Rússia não veio ajudar, encravada na Ucrânia, e o Hezbollah está enfraquecido por ter provocado Israel e corrido mal. De recordar que esta frente foi aberta pelo Hezbollah, em solidariedade com os seus irmãos sunitas de Gaza. Correu mal, porque os sunitas aproveitaram para os correr da Síria, quebrando finalmente o eixo xiita horizontal Irão – Mediterrâneo, que desde sempre foi a questão fundamental na internacionalização do conflito sírio.

Estas celebrações recordam-me as da queda de outro ditador, Sadam Hussein no Iraque, com a diferença de aqui ainda havia forças estrangeiras a tentar forçar a construção de um Estado com instituições normais. Há cerca de um século especulava-se sobre os motivos do declínio e queda do Império Otomano. Cem anos depois, questionamo-nos porque é tão difícil conseguir Estados de Direito (mesmo mínimo) em torno das outrora poderosas e brilhantes Damasco e Bagdad. Algo a ver com a fácil manipulação religiosa das populações? Herança da cultura tribal e dificuldade em estabelecimento de princípios universais de cidadania? O certo é que enquanto uma parte do mundo celebrava e se encantava com a recuperação de uma catedral, aquela outra parte continua com muito dificuldade em ver a luz.

21 maio 2018

O consenso que falta?


É consensual que a Líbia sem Khadafi ficou e permanecerá durante bastante tempo ingovernável. É consensual que o Iraque sem Saddam Hussei ficou ingovernável e veremos até quando. É consensual que Bachar Al Assad na Síria está muito longe de cumprir os mínimos em termos de respeito pelos direitos humanos e é também consensual que, caindo, iremos ter outro país ingovernável. Só para compor um pouco mais, e sem encerrar o tema, podemos acrescentar a este ramalhete Mohamed Abdelaziz da Mauritânia e Omar al-Bachir do Sudão.

Podemos recordar o consenso de que a colonização não é alternativa, não era justificável nem aceitável, apesar de… apesar do pequeno detalhe que as pessoas (não as ideias), as Pessoas, Homem, Mulheres e Crianças de muitos países viveriam hoje melhor, com mais qualidade de vida, edução e cuidados em geral sob um regime colonial do que no seu atual. Falo das Pessoas, não das Ideias.

No meio de tanto consenso fica, portanto, uma questão em aberto: como pode ser? Se decapitar o ditador não resolve, se não é aceitável deixá-lo ficar a praticar barbaridades, se a administração por terceiros não é correta, qual a solução que permita viver Dignamente as Pessoas?

Dizem que é a democracia. Pelo princípio sim, mas na prática não chega registar partidos e contar votos, enquanto não houver consistência cívica suficiente. Como se chega lá: com tempo, esforço, sensibilização, responsabilização, coisas que não estão ao alcance de um ditador nem de uma democracia imberbe. E mais não digo…

16 agosto 2017

Maniqueísmo e Jardins da Luz



Quando hoje falamos em “maniqueísmo”, como uma visão redutora e simplicista, não sabemos (eu, pelo menos são sabia) a origem da palavra, de Mani, um Parta que viveu no século III, ali pela Mesopotâmia, na altura sob influência persa, a quem os chineses chamaram “o Buda da luz” e os egípcios “o apóstolo de Jesus”.

O seu “maniqueísmo” era entre as luzes e as trevas, mas, mais do que forçar uma opção, ao que a palavra atualmente se associa, ele defendia uma universalidade da espiritualidade, tolerante e humanista, e uma laicidade do poder temporal, a todos os títulos muito moderna. Acabou perseguido, odiado e condenado, naturalmente…


- Se dizes o mesmo que o Messias ou Buda, porque procuras construir uma nova religião?
- Àquele que nasceu no Ocidente, a sua esperança nunca floriu no Oriente, daquele que nasceu no Oriente, a sua voz nunca atingiu o Ocidente. É necessário que cada verdade carregue os trajes o a pronúncia dos que a receberam?
- Mestre, admito que certas crenças merecem ser respeitadas. Mas os idolatras, os adoradores do Sol?
- Acreditas que um rei terá inveja se alguém beijar a orla da sua capa? O Sol não é mais do que uma lantejoula da capa do Altíssimo, mas é através dessa lantejoula cintilante que os homens podem melhor contemplar a Sua Luz.
“Os homens acreditam adorar a divindade, quando apenas conheceram as suas representações, representações em madeira, em ouro, em alabastro, em pinturas, em palavras, em ideias”.
-E aqueles que não reconhecem nenhum Deus?
- Aquele que recusa ver Deus nas imagens que se lhes apresentam, estará por vezes, mais próximo do que qualquer outro da verdadeira imagem de Deus.

Excerto recolhido do romance sobre a vida de Mani – Les Jardins de Lumière – de Amin Maalouf.

07 julho 2016

O depois da mentira


O relatório Chilcot, divulgado esta semana na Inglaterra (ou Grã-Bretanha ou Reino Unido...) veio comprovar aquilo de que já se suspeitava há muito tempo. Que a invasão do Iraque de 2003 foi uma birra, ou outra coisa, dispensável. Que não havia nenhuma ameaça séria naquele momento e que a via negocial não estava esgotada. Publicado em 2011, o livro “A Era da Mentira” de Mohamed Elbaradei, antigo Diretor da Agencia Internacional de Energia Atómica e Nobel da Paz em 2005, é também bastante elucidativo sobre esse embuste e outros assuntos contemporâneos da mesma temática.

Ficou também agora evidenciada a ausência de uma preparação séria para o “dia seguinte”. De recordar que o que se passa hoje no Iraque, nomeadamente as tensões sectárias que ajudaram à nascença do chamado estado islâmico são, em parte, ainda a consequência dessa falta de previsão.

A divulgação deste relatório, numa altura em que Donald Trump aparece como sério candidato à presidência dos EUA, deveria ser objeto de uma reflexão especial pelos eleitores americanos.

Ficamos à espera da publicação de algo análogo em França, se tal for possível, sobre o envolvimento desta no derrube de Khadafi. Enquanto o UK se deixou enganar ou foi enganado pelos EUA; na Líbia a França interesseiramente e falsamente foi atrás de outros, por acaso não europeus nem ocidentais.

É comum referir que o Iraque com Saddam e a Líbia com Khadafi estavam “melhor” do que ficaram depois das respetivas “libertações”. Isso é verdade, mas significa que essa parte do mundo só se controla e está estável debaixo de regimes ditatoriais e repressivos? Não deveria ser assim mas, pelo menos, poderíamos ter aprendido que a doença não se cura com envio de tropas e mísseis. Não aprenderam. Na Síria apenas só não estamos aí pelo apoio do Irão e da Russa ao regime, mas os danos já são irreversiveis.

04 janeiro 2016

Todo o homem é meu irmão

Ainda não tinham arrefecido as iluminações da celebração da passagem de ano e o mundo ouvia a notícia da execução de 47 pessoas na Arábia Saudita, entre simples acusados de terrorismo e um alto dignatário xiita, que, aparentemente, se limitou a pedir direitos cívicos para a sua minoria. Isto é chocante, muito especialmente num país como o nosso, pioneiro na abolição da pena de morte, e atendendo até à forma pouco transparente como a justiça ali funciona. Convém recordar que supostamente a Arábia Saudita não é um país semi-pária, liderado por um ditador de opereta. É membro do G20 e com responsabilidades na ONU a nível de direitos humanos.

Este episódio vem confirmar ser o sectarismo a principal razão atual para os problemas que grassam naquela zona. Além deste sectarismo saudita sunita, é de recordar o sectarismo pró-xiita no Iraque pós queda de Saddam Hussein, que impediu a normalização do país e proporcionou a manutenção dos movimentos de protesto violento, antecessores do chamado Estado Islâmico.

Quando se fala na contestação na Europa à receção de migrantes (económicos e refugiados de guerra), estaremos também a praticar algum tipo de sectarismo? Antes de mais, convém contextualizar com algum rigor. Na Europa ninguém é preso por se manifestar em defesa de uma minoria e os vândalos que incendiaram a módica quantia de 804 automóveis na passagem de ano em França não estarão a ser acusados de terrorismo.

Se existe alguma xenofobia, a Europa sabe e defende, institucionalmente e numa grande franja da sua população, que “todo o homem é meu irmão”. Preocupante é o poder que agora cortou a cabeça a 47 pessoas ser o mesmo que financia a formação e a define as práticas religiosas de uma boa parte dos muçulmanos, inclusive na Europa. Acho isto perigoso!

27 setembro 2015

Para lá da Síria


Quando se ouve falar na questão dos refugiados Sírios, parece que apenas existe guerra nesse país, mas não é o caso. Olhando unicamente para as proximidades da bacia mediterrânica, há guerra mais ou menos convencional na Síria, Iraque, Iémen, Sudão Norte x Sul, Israel x Palestina. Há golpes de estado violentos não estabilizados na República Centro Africana e Burkina Fasso (por agora). Há guerrilhas muito ativas e violentas na Somália, já passando ao Quénia, na Nigéria, já passando aos Camarões e ao Chad, na Líbia, no Sinai, no Mali, no Niger, Afeganistão e Paquistão. Regimes particularmente violentos e desrespeitadores dos direitos humanos na Eritreia, Burundi… e fico por aqui, dado que já estou a sair do mapa. Será mais curto, e mais difícil, enumerar os países em que existe segurança e um mínimo de condições de vida para a generalidade da população.

Vamos trazer os habitantes destes países problemáticos para a Europa? Só na Nigéria são 170 milhões. Sem desenvolver a ironia de serem necessários muitos monovolumes para ir buscar essa gente toda, é obvio que não!

09 janeiro 2015

Podemos ser um pouco Samira?

Desculpem-me por destoar, mas já me está a custar ver tantos “Somos todos Charlie”. Não porque de forma alguma tolere ou relativize a importância da barbárie de Paris. Simplesmente porque morreram 12 pessoas, enquanto o mesmo mal mata dezenas ou centenas por dia no Médio Oriente, quase sem reacção da opinião pública.

Faz-me lembrar o ébola. Enquanto morriam, e continuam a morrer, apenas em África, não é notícia. Um ou dois casos próximos e não se fala de outra coisa.

Há menos de um mês, quem quisesse podia ler que 150 mulheres foram executadas em Fallujah, apenas por se recusarem a casar com combatentes do estado islâmico. É só estar atento ou procurar. São centenas de corpos encontrados em valas comuns “de vez em quando”, muitas vezes; são milhares de mortos acumulados e, para quem não reage muito a estatísticas, um nome e um rosto: Samira Saleh Al-Nuaimi.

Advogada em Mossul, defensora dos direitos humanos e em especial das mulheres. Foi presa em Setembro e condenada por apostasia, apenas por ter tido a coragem de continuar a agir na defesa dos seus princípios, que também são os da humanidade. Após ser torturada durante 5 dias foi executada publicamente. É apenas uma. Mas pouca gente ou ninguém “também é Samira”. Samira em árabe significa “boa companhia”, mas um nome, no fundo, pouco vale.

07 dezembro 2014

Alguém paga...


Quando a contestação popular começou na Síria xiita, aliada do Irão, os sunitas do golfo, a Turquia mais ou menos laica e os ocidentais atrás, entenderam ser uma oportunidade excelente para castigar e enfraquecer o Irão. Vai daí, ajudaram e financiaram todos que quisessem molhar a sopa, incluindo a Al Qaeda, curiosamente promovida a coisa menos má do que o maléfico Irão. O então EISL, agora pomposamente chamado “Estado Islâmico”, já dizia ao que ia e como. De tal forma que a própria Al Qaeda se afastou dele.

Hoje, estando como e onde queria, com a barbaridade conhecida, conseguiu a façanha de, aparentemente, alinhar contra ele, no sentido dos ponteiros do relógio: Síria, Ocidente, Turquia, Curdos, Irão, o que resta do Iraque e monarquias do golfo. É obra! No entanto, continuam pujantes e ricos. Dizem que os do Golfo já não lhes pagam mais. Está bem que se apropriaram do recheio de bancos iraquianos, receberam pagamento de resgates de reféns e também vendem petróleo dos campos que controlam. Curiosamente, o petróleo não se trafica como os diamantes num saquinho, que se esconde em qualquer lado!

O que me parece claramente é que algures no mostrador do relógio que atrás referi, há umas horas furadas. Se todos estivessem na prática firmemente determinados a acabar com aquela coisa monstruosa, pelo menos, pelo menos, petróleo eles não venderiam!

09 setembro 2014

O Islão em transição


Começo por referir que tenho vários amigos muçulmanos a quem muito respeito, desejo as maiores felicidades e que também não me querem nenhum mal. É necessário ser prudente e evitar embarcar em considerações generalizadoras e redutoras quando se fala do mundo islâmico. Separando as coisas, para lá do Islão espiritual e religioso no sentido estrito da palavra, há, no entanto, um Islão político, que usa a religião como estandarte de campo de batalha. Como exemplo simples e significativo, o conflito antigo e ainda actual entre sunitas e chiitas, com tanta desgraça e mortes na sua conta, tem muito mais a ver com uma luta pela influência temporal do que com concepções espirituais. E, aquilo que a Europa cristã fazia há uns séculos atrás, de alargar a sua marca religiosa pelo mundo fora, com uma promiscua aliança entre a cruz e a espada e um oportunista cruzamento de interesses, ainda está hoje nalgumas agendas, se bem que com meios diferentes.

Surpreende ser possível encontrar e recrutar no nosso mundo ocidental voluntários dispostos a partirem para o médio Oriente, para degolar infiéis. Penso que o campo de recrutamento terá duas vertentes. Por um lado estão aqueles radicais “desta sociedade”, que são simples e basicamente a favor de quem está contra ela, da mesma forma como no passado foram venerados Mao, Staline entre outros criminosos e terroristas. Doutro lado estarão os muçulmanos desenraizados. O primeiro caso parece-me ser um fenómeno transitório, muita gente com grandes responsabilidades actualmente andou por esses caminhos na sua juventude, enquanto o segundo é mais permanente. O que está por trás desta radicalização: raiva, frustração, sentimento de exclusão/humilhação? Contra aquele espírito de raiz cristã do “somos todos pecadores/a culpa também é nossa”, convém recordar que o esforço feito na Europa, hoje laica, para integrar e respeitar as várias religiões, e nomeadamente a muçulmana, é absolutamente incomparável a algum esquiço de reciprocidade que se possa encontrar do outro lado.

No tempo actual, ninguém deveria ter dúvidas de que uma religião se deve afirmar por si, pelos seus valores, por opção pessoal de cada individuo, num plano fundamentalmente espiritual e minimizando o seu impacto na “sociedade dos outros”. A luta em causa, qualquer que seja o idioma em que se conjugue, será uma luta interna de cada um pelos seus valores e princípios. No entanto, num país muçulmano de referência que é a Arábia Saudita, renegar a religião, apostasia, ainda é crime passível de pena de morte. Como isto não é certamente deste tempo, e dificilmente de tempo algum, há uma evolução pendente de uma parte do Islão, que se deve centrar nos princípios, apagar os “detalhes” anacrónicos e encontrar formas de afirmação mais sãs. O expansionismo forçado, musculado ou macio, tem efeitos nocivos. Usar e deturpar princípios espirituais para esse fim não é nada de novo, mas está a apresentar um efeito terrível que é um retrocesso brutal na humanidade e na irmandade entre os homens. Os muçulmanos sérios têm uma responsabilidade enorme em travar isto.

20 agosto 2014

Estratégia consistente

Quando um movimento de contestação começou na Síria, uns iluminados acharam que era muito interessante fazer cair o regime shiita de Damasco para isolar o Irão e cortar a ligação deste ao Hezbollah no Líbano. Lembram-se das notícias terríveis sobre o malvado El Hassad que era preciso depor urgentemente? Era preciso ajudar a oposição, “legitimada” por ser oposição à ditadura e o golfo e o ocidente não vacilaram. Só que se via logo que aquilo não era gente boa, mas enfim… o importante era fazer cair o regime.

O regime não caiu e a gente boa foi instalar-se onde queria. O seu nome original Estado Islâmico do Iraque e do Levante era claro quanto a intenções. Face às coisas horrorosas, horrendas e aterradores que aqueles combatentes contra a ditadura da Síria fizeram no Iraque foi preciso repensar estratégia: Síria, Iraque, Kurdos, Irão e EUA juntam-se no esforço de os controlar. É obra!

Hoje o mundo, e especialmente os states, acorda horrorizado, algo mais, pela divulgação do filme da decapitação de um jornalista americano…. Se calhar a camara com que o filmaram até foi oferecida pelos EUA… Que bem que discursas Obama!! (mas os amigos do golfo bem te levam)

16 agosto 2014

Assassinatos em curso

Em cerca de um mês de conflitos entre Israel e o Hamas, morreram cerca de 1900 palestinianos. Meio mundo, ou mais, protesta e com razão contra esta barbaridade. Por uma questão de coerência devia protestar também contra as acções terroristas indiscriminadas do Hamas e da forma como eles envolvem e desprezam a sua própria população civil. Israel tenta atingir alvos relevantes do ponto de vista operacional, com maior ou menor eficácia. O Hamas faz chover rockets em Israel assumidamente em alvos civis e morrerem palestinianos não faz mal. São mais uns mártires no bom espírito da sua cultura.

Num dia apenas, no Iraque, o ISIL, agora chamado IL, pode executar 2000 yasidis e parece que não foi aconteceu nada. São facilmente centenas por dia. As acções destes inqualificáveis contra todas as religiões que não a sua, e mesmo contra outras variantes do Islão, são um crime sem paralelo no presente, nem no passado recente. Porque não há manifestações a favor dos yaris, dos kurdos, dos cristãos ou dos xiitas que são barbaramente assinados em massa??!

É que se o ódio a Israel vem de eles serem apoiados pelos USA, estes filhos da …. também o foram (e por mais uns outros tantos patrocinadores), para levarem a cabo a missão muito humanitária de derrubarem o ditador de Damasco. Como este resistiu, eles foram pescar para águas mais tranquilas e com muito sucesso. De notar que se tivessem tido sucesso, o resultado seria provavelmente idêntico ao que se vê hoje na Líbia. Trocar um bandido que controla tudo por um conjunto de bandidos que ninguém controla…

18 junho 2014

Inimigo de meu inimigo

Quem tem grandes responsabilidades neste mundo devia saber, ou pelo menos aprender, que o mundo não é bipartido e o inimigo do inimigo não é automaticamente um amigo em quem confiar. É famosa a ajuda que os americanos deram aos combatentes islâmicos no Afeganistão, para estes lutarem contra os soviéticos nos anos 80, criando um problema que 30 anos depois ainda não está resolvido nem se vê como acabará.

Agora foi na Síria. Quem está atento sabe que o movimento interno de contestação foi rapidamente confiscado por fundamentalistas sunitas. No entanto, para o ocidente, El Assad continuava a ser o bandido hostil, que era necessário fazer cair a todo o custo e ajudando sem restrições quem estava disposto a combatê-lo. El Assad resistiu e essa boa gente, fortemente armada pelos inimigos do inimigo foi atrás, ganhar lanço, conquistando metade do Iraque.

É inacreditável como sendo o Iraque um terreno natural e assumido de expansão do sunitas fundamentalistas combatentes na Síria, estivesse toda a gente a dormir e permitir este descalabro, ainda por cima com as barbaridades e atrocidades cometidas por estes “amigos”, verdadeiramente horripilantes.

Uma outra lição que poderiam tirar é que esta coisa de decapitar à bruta, de um dia para o outro um país, sem tradição de partilha e alternativas de poder, conduz facilmente ao caos. Certamente que nos USA muita gente deve suspirar pelos velhos tempos do “good Saddam”… como certamente já faltará também pouco para suspirarem pelo “good Khadafi”.

Nota: foto de execução sumária de soldados iraquianos capturados pelos  "nossos amigos".

26 julho 2011

O século XIV no XXI

Na televisão iraquiana, dois cientistas discutem e argumentam sobre se a Terra é redonda ou plana, sobre se o Sol gira à volta da Terra ou vice-versa e outras coisas mais.

Se não tiverem paciência para verem tudo, concentrem-se nos últimos 30 segundos. São assustadoramente representativos.

29 maio 2011

Justiça cega para todos ?

Na minha pasta de viagem estava o último número da “The Economist” que tinha um artigo sobre as diligencias abertas pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) de Haia a mais dois dirigentes africanos: Laurent Ghagbo da Costa do Marfim e M. Khadafi da Líbia. Referia ainda uma possível aproximação do Egipto e da Tunísia ao TPI, o que daria alguns motivos mais de preocupação aos seus ex-líderes. Se juntarmos a condenação formal de Omar El Bashid do Sudão e a de Charles Taylor da Libéria que pode vir a seguir, vê-se que África está fortemente representada nos casos tratados por este TPI.

O artigo analisava o facto de os africanos se sentirem discriminados neste campo. Sem entrar muita na questão do continente estar efectivamente bem servida de déspotas criminosos, o artigo tentava concluir que não havia uma preferência especial por esse continente. No TPI existia muita África porque ele se substituía aos sistemas locais de justiça fracos.

Isto até terá alguma lógica, mas, por acaso, eu tinha na mesma pasta de viagem o livro “A era da mentira” de M. Elbaradei. Entre outras coisas ele descreve e pormenoriza o seguinte: a administração Bush tinha decidido a guerra no Iraque e estava disposta a todo o tipo de manipulação para ter as “provas” que sustentassem a sua legalidade. Não as teve antes, nem as conseguiu obter depois, apesar de muito terem procurado. Ou seja, o que ouvimos a administração americana dizer na altura não tinha por motivação esclarecer a verdade e eliminar um perigo mas sim “To get Saddam!”. No entretanto os milhares que sofreram e morreram são certamente humanidade e uma guerra com esta base parece realmente crime. Os USA não fazem parte do TPI, assim como não faz parte o Sudão, cujo caso foi aberto a pedido do conselho de segurança da ONU, onde por acaso os EUA estão representados permanentemente e com natural poder de veto… mas, a justiça para ser justiça deveria ser cega e não depender da nacionalidade nem da importância do criminoso.

26 setembro 2007

A causa oferecida - O puto sorridente


Israel achou que a Síria estava a avançar para onde não devia em termos de desenvolvimento nuclear e não teve contemplações. Sem ONU e sem discussões, no passado dia 6 de Setembro, realizou um raid que arrasou o local. Da mesma forma como, em 1981, também destruiu o reactor Tammuz que a França tinha vendido ao Iraque. Este episódio só vem comprovar, como se ainda fosse necessário, que o móbil da invasão do Iraque, as famosas armas de destruição maciça, não estavam lá e que isso era conhecido. Se lá existissem, seguramente se teriam encontrado forma de as neutralizar sem destruir o regime.

Para lá do atoleiro em que se tornou o Iraque, contrariando a visão dos estrategos da Casa Branca que achavam possível enxertar lá, de um dia para o outro, uma verdadeira democracia (?!) ou, talvez, instaurar uma república de bananas ao estilo latino americano, esta aventura tem um efeito negativo colateral terrível. Deu uma bandeira e uma causa “nobre” ao movimento islamita radical agressivo. É o combustível que alimenta o recrutamento dos dispostos a tudo pela sua fé atacada, na Europa, no Magreb e por aí fora.

É fácil, e relativamente inconsequente, especular sobre o que seria isto se não tivesse acontecido aquilo. Mas vale a pena colocar a questão. A causa tradicional do islamismo revolucionário, a Palestina, entrou num processo autofágico descredibilizador. Se não houvesse “Iraque”, que bandeira teriam hoje? A que quer que escolhessem, seria relativamente fraca.

O caso particular da Argélia é emblemático. Depois de uma década negra de terrorismo nos anos 90, as causas internas esmorecem e, quando se julgava que se estava a caminho de acabar com o problema, os resquícios dos movimentos terroristas, afiliam-se à Al Qaeda, entretanto tornada figura pública de primeira linha, recebendo uma lufada de ar fresco a vários níveis.

Obviamente que haveria terrorismo islâmico mesmo sem “Iraque”, como o 11 de Setembro de 2001 demonstra. No entanto, a dimensão seria muito diferente. O fervor religioso dos jovens é facilmente galvanizado e mobilizado para lutar nessa guerra. Um recente atentado suicida aqui, que causou 30 mortos, foi cometido por um jovem de 15 anos, na foto, com bom aspecto, bom comportamento e... bastante religioso. Um puto sorridente.