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08 outubro 2025

Inspirados por Sadat


A famosa flotilha de Gaza parece ter ajustado e apontado o calendário para chegar ao real destino, ponto de interseção, na data do Yom Kippur, o dia mais sagrado do judaísmo, algo equivalente ao Natal dos cristãos. Há um precedente. Em 1973 Anwar Al Sadat, presidente do Egito, lançou a última guerra do seu país contra Israel nesta data e estes, mal informados ou com excesso de confiança, decidiram não “estragar” os festejos dos seus soldados em larga escala e sofreram um rude golpe inicial.

No final o Egito perdeu a guerra, mas de forma mais honrada do que a da humilhação da anterior guerra dos seis dias. Na altura era uma guerra de soldados e de tanques. Não de bombardeamentos a civis nem de pseudo-hospitais como bases militares

Em 1977 Sadat visitava Israel, houve os acordos de Camp David em 1978 e finalmente o tratado de paz em 1979. Foi o primeiro passo para a pacificação entre as várias nações da região, chegando posteriormente mesmo à OLP de Arafat em Oslo, em 1993.

Em 1981 Sadat morre assassinado por jihadistas que não lhe perdoaram a paz. Yitzhak Rabin também pagaria com a vida a sua opção pela paz.

Se alguém pensou em Sadat e no Yom Kippur de 1973, será importante que pense também no que se seguiu. Os herdeiros dos assassinos de Sadat e de Rabin não devem ser desculpados, tolerados … nem financiados. 

27 outubro 2023

Estado palestiniano, onde se perdeu?


Dentro das reivindicações atuais de apoio ao povo palestiniano, está naturalmente a criação de um Estado autónomo. Convém descartar desde já aquela rimazinha do “From the river to the sea, Palestine will be free” porque, como é óbvio, o Estado de Israel não vai desaparecer dali, por muito que seja a vontade e atitude beligerante dos radicais.

Neste discurso aponta-se Israel (e o colonialismo, já agora) como o responsável da não existência de estado palestiniano, mas se calhar não é bem assim. Durante largos séculos aquela zona esteve integrada no Império Otomano, não sei se se pode chamar colonização, mas pelo menos não era a “maléfica”. No séc XX, entre as duas guerras, o território foi administrado pela Inglaterra, algumas décadas, mas nunca foi Estado.

Após a II Guerra a ONU decretou uma partilha entre árabes e judeus e… estes desataram imperial e arrogantemente a apropriarem-se do que não deviam? Não, ao contrário. Os palestinianos, ajudados pelos seus vizinhos egípcios, jordanos, sírios, libaneses não aceitaram o estado judeu e declaram-lhe guerra. Face à desproporção de recursos e população, parecia que os judeus acabariam mesmo atirados ao mar… mas não, Israel ganhou e ganhou algum território.

No final desta guerra os judeus instalaram-se na parte israelita da palestina e consolidaram o seu Estado. Ocorreu algo equivalente do lado árabe? Criaram e consolidaram um Estado na parte da Palestina que continuou árabe? Não. Os seus amigos jordanos ocuparam a Cisjordânia e os egípcios a faixa de Gaza, mantendo os palestinianos como uma espécie de refugiados na sua “terra”. Porquê? Para manter a pressão sobre Israel? Não sei. O que é certo é que durante duas décadas, até 1967, foram os países árabes que impediram a criação de um Estado Palestiniano e aquela parte do mundo teria sido muito diferente se a famosa solução dos dois Estados se tivesse consolidado naquele momento… !

Mais tarde, haverá outra nova tentativa de destruir Israel, em 1967. Israel ganhou, ocupou mais território e mais complicado ficou.

11 outubro 2023

Atirar o Hamas ao mar ?


No rescaldo da II Guerra e com a memória fresca das atrocidades sofridas pelos judeus na Europa, foi decido dar-lhes uma pátria. Curiosamente, Angola até já tinha sido equacionada anteriormente para esse objetivo, no início do século XX.

Historicamente a Palestina era o seu berço. David, Salomão, Herodes, só para referir alguns nomes históricos ali tinham reinado e deixado o seu legado. A região, durante longo tempo integrada no império Otomano, ficara sob administração britânica depois do desmembramento daquele, no final da I Guerra, e consequente partilha do Médio Oriente.

Em 1947 a ONU decidiu a divisão da Palestina entre judeus que chegavam e árabes que já lá estavam. Obviamente que implicava um rearranjo, questionável, mas nada de enorme nem brutal comparado com o que se viu, por exemplo, na Polónia que se deslocou uns bons kms para oeste no final da II Guerra ou com outros pós-guerras.

O que se passou a seguir foi que os árabes, palestinos e dos países vizinhos, não aceitaram de todo a instalação de Israel e declararam-lhes guerra com o objetivo de “atirar os judeus ao mar”. Estes conseguiram resistir, ganharam essa guerra e ainda infligiriam uma humilhante derrota em 6 dias, em 1967. Como é das “leis e das práticas”, quem ganha a guerra, ganha e Israel foi ganhando território, Sinai, Montes Golan e Cisjordânia. Após a guerra do Yom Kippur de 1973, também ganha por Israel, mas de forma mais honrada para os árabes, veio a paz com o Egito, a grande potencia regional e líder do movimento árabe.

Saltando detalhes, as relações com os países vizinhos normalizaram-se e mesmo com a OLP/Fatah iniciou-se um diálogo, … mas nasceu um confronto entre palestinianos. A partir de 2007 há uma divisão clara entre a Cisjordânia governada pela Fatah e a faixa de Gaza controlada pelo Hamas, dois mundos muito diferentes.

As barbaridades realizadas no passado dia 6/10, foram feitas pelo Hamas e o curioso é que a Cisjordânia, mesmo tendo mais capital de queixa contra Israel pelos polémicos colonatos, não aderiu. Se esta população se tivesse levantado em massa, em solidariedade, teria sido muito, muito complicado.

Agora Israel quer atirar o Hamas ao mar e face às barbaridades feitas eles não merecem a mínima compreensão ou tolerância (só mesmo doentes cegados pelo ódio anti-ocidental/anti-americano podem evocar um rasto de justificação). O problema é que física e mentalmente uma boa parte dos 2 milhões dos habitantes de Gaza estão fundidos com esse movimento. Não é possível atirá-los todos ao mar…

Duas sugestões:

  1. Face à penúria de bens essenciais que afeta o território, os seus “responsáveis” podiam trocar a compra dos rockets por alimentos e medicamentos de que a sua população tanto necessita.

  2. Os financiadores do Hamas, provocadores indiretos, mas fortemente responsáveis por estas atrocidades, mostrarem solidariedade para lá da financeira (a tal que vai para os rockets). Abram os seus países para receberem uma boa parte dos palestinianos desesperados. Seria bonito...

18 junho 2018

Essa coisa do árabe


Por um lado, a utilização da palavra “árabe” é frequentemente imprecisa e, por outro lado, a evocação da “presença árabe” na Ibéria é muito fantasiada.

Arábia é a península entre o mar vermelho e o golfo pérsico. Tendo o Islão e o seu profeta aí nascido e a religião daí se expandido, generalizou-se uma equivalência forçada entre muçulmano e árabe. Os povos conquistados e colonizados sofreram uma enorme influência, mas isso não significou assimilação completa com anulação de especificidades e culturas, havendo também, evidentemente, diferenciações nas evoluções posteriores. Por esse princípio nós, e muitos mais, seriamos hoje simplesmente “romanos”.

A generalização é ajudada pelo facto de que para um muçulmano ser “árabe” é partilhar a etnia do seu profeta principal. Esta tendência é reforçada ainda pelo conceito da nação global e única, seja a histórica Umma (comunidade de todos os crentes), sejam os mais recentes projetos pan-arabizantes como o de Nasser, a partir do Egito. Por falar neste país, como explicar que um egípcio se assuma principalmente como “árabe”, quando a cultura e a história do seu país dão vinte a zero à das tribos nómadas vizinhas? O mesmo se pode dizer dos naturais do Mashrek (Levante) berço da civilização e até da escrita e do Magreb (Poente) muito mais próximos culturalmente da Europa do Sul do que dos nómadas do Hejaz (interior da tal península).

Do lado de cá, até os mais preocupados com o “outro”, apelando ao respeito pela sua identidade e cultura, não hesitam em correr toda a gente com a etiqueta de “árabe”, desde Casablanca até Damasco. Errado, muito errado. Uma generalização pouco esclarecida e desrespeitadora da diversidade cultural existente.

Sobre a presença na Ibéria dos “árabes”, cruzam-se dois romantismos. Há o dos invasores, usurpadores, que entraram por aqui à má-fila, sem terem direito para tal, obrigando a malta séria a refugiar-se num sótão, lá nas Astúrias, para depois heroicamente repor a normalidade.

O outro romantismo é o da nostalgia da herança perdida. Como se com a conquista dos castelos, todo o conhecimento que chegou e se criou naquele tempo tivesse sido embalado e viajado para fora da península, perdendo-se irremediavelmente essa herança exótica. A sério…?!

Duas visões grosseiramente simplificadas. Não foi assim tão simples, nem tão compartimentado, nem tão rápido. Tarik atravessou o estreito em 711 e a reconquista definitiva das principais cidades ocorreu nos 1240s, excluindo Granada que aguentou mais dois séculos. Fazendo as contas, são cerca de 530 anos. Recuando esse intervalo de tempo a partir de hoje, Vasco da Gama ainda não teria chegado à Índia. Esses séculos não foram sequer um período homogéneo, mas uma sequência de vários distintos: dependência dos Omíadas de Damasco, califado autónomo, taifas, califado Almorávida, de novo taifas e, por fim, o califado Almóada.

E se se falasse e estudasse isto, colocando no devido lugar a Arábia e os seus camelos?

02 março 2018

Entre assédio e sedução

Não tinha planeado voltar a este assunto tão cedo, mas o que é importante, é prioritário. Começando como acabarei: os abusos de poder são condenáveis e degradantes da condição humana, independentemente da origem e destino, mas recuso-me a ver aqui uma coisa típica e generalizada de homens contra mulheres.

É sobretudo a generalização que me irrita, na medida em que a banalização retira importância ao que realmente é importante. Custa-me a acreditar nas estatísticas de que “todas” as mulheres já sofreram assédio, uma em cada duas ou três, agressão, donde que um em cada dois ou três homens são agressores efetivos… !?

Sendo consensual que assédio é condenável e tentativa de sedução não, há aqui potencialmente um desalinhamento quanto à interpretação destes conceitos. Questões culturais! Num metro de Londres pode ser ofensivo fixar olhos nos olhos, numa rua do Cairo há quem ache normal agarrar a nádega da mulher que passa sozinha na rua.

Como estas coisas das diferenças culturais não são sempre fáceis de identificar, ainda por cima em sociedades cada vez mais multiculturais, acho que de devia criar um código, não necessariamente com identificação na lapela, que definisse essa fronteira para cada um(a). Haveria pessoas para quem um olhar de mais de dois segundos de duração é intolerável, outras para quem olhar, sorrir e chamar bonita será aceitável e até simpático.

Para concluir: abusos de poder são degradantes da condição humana, independentemente da origem e destino. Historica e estatisticamente as mulheres sofreram mais, sim. No entanto, sem rigor e seriedade, não se corrige, pelo contrário: desvaloriza-se ao equiparar coisas que não são comparáveis.

01 março 2018

Os “Irmãos”


Se houvesse um programa obrigatório para quem pretendesse falar publicamente sobre a questão do Islão político e do que ele arrasta, este livro deveria constar do mesmo. Um registo claro, objetivo e elucidativo, apesar dum toque de emoção excessiva no tratamento dos tempos mais recentes do Egito, pós 2011, as tais primaveras que toda a gente imagina conhecer com mais ou menos lirismo, com mais ou menos “conspiracionismo”. O problema está em que nestas e em muitas coisas raramente a realidade coincide com aquilo que a ignorância imagina.

É de uma simplificação enorme resumir as tensões no último século no Médio Oriente a uma história entre árabes, supostamente culturalmente homogéneos e alinhados, como Nasser gostaria, e intervencionismo desestabilizador localmente instalado, Israel, ou de braço longo, o ocidente colonizador que nunca desiste de interferir. Ao longo de todo este percurso, de alianças feitas e desfeitas, assumidas ou dissimuladas, eles estão lá, sempre à espreita, sempre ativos, sem desarmarem nunca: a Irmandade Muçulmana.

Nascida no trauma pós queda do império Otomano, advogando um regresso à “pureza original”, o salafismo, invocando um modelo de organização de sociedade fechado e anacrónico, negando toda e qualquer evolução, já está tudo escrito no livro, a Irmandade é um projeto sem futuro racional. A realização da Oumma, a grande comunidade muçulmana, o califado, de governo único, sem países, é também tão viável quanto a terra vir a ser plana. No entanto, cem anos depois, estão vivos e ativos, adaptando-se continuamento ao contexto. Se os petrodólares apoiaram, se as desilusões pós-independências ajudaram, há mais do que isso. Há uma mensagem que encontra aderência nas populações, década após década.

A herança não é bonita. O discurso hegemónico e intolerante fez muitos estragos, desde os simples crimes contra a comunidade copta no Egito, à inspiração dos movimentos jihadistas, até à preocupante reversão do sistema politico nalguns países, incluindo a Turquia. Sim, o Sr. Erdogan é da “família”.

Curiosamente se a religião é fácil e frequentemente manipulada como ferramenta de acesso e consolidação do poder, esta missão dos “irmãos” viveu e sobreviveu décadas sem atingir esse objetivo, excluindo os casos “especiais” do Sudão e da faixa de Gaza. As suas experiências de poder democrático, pós primaveras, foram tudo menos consolidadas, especialmente nos casos mais emblemáticos da Tunísia e do Egito. Por falta de jeito, de quadros, ou deficiência de princípios e sistema, não souberam governar, mesmo. O que acontecerá a seguir na Turquia é hoje a grande questão.

02 agosto 2017

Um gosto

Já contei aí para trás como conheci a escrita de Amin Maalouf e o prazer que ela me dá. Desta vez foi o “Rochedo de Tanios”, que estava numa lista de espera com mais dois do mesmo autor.

De novo no Levante (Mashrek), apenas com um pequeno desvio por Chipre, não é um livro de grandes viagens como “O Leão Africano” e muitos outros do escritor. Situado na primeira metade do século XIX, está focado na terra de Maalouf, nas montanhas do Líbano, disputado entre Otomanos e Egípcios, com as potencias europeias numa “espreita” ativa. E com homens e mulheres, ricos de fraquezas, perdidos nas suas grandezas e suficientemente imprevisíveis para serem humanos.

Uma terra, ontem e sempre, charneira entre o Norte e o Sul do Médio Oriente, demasiado fraca para se impor e demasiado forte para sucumbir.

Por estes lados, ao olhar por binóculos para lá, é comum generalizar aqueles outros como árabes e muçulmanos, mas a realidade é muito mais rica. Os livros de Amin Mallouf ajudam bastante a entender essa riqueza, para lá da religião e dessa suposta monto-etnia derivada da pretensa superioridade e obrigatoriedade de se ser descendente do profeta.

Cá para mim, acho que um dia tenho que ir ao Líbano. Não que por lá exista um rochedo de Tanios, de onde se possa ver uma apelativa nesga de mar, mas porque ir conhecendo uma nesga da cultura daquele Levante, é apelo que chegue e:

“O destino passa e repassa por nós, como a agulha do sapateiro passa através do couro que ele trabalha”.

Derivando um pouco: há sempre (temos que ter sempre) lugares especiais onde se “decanta a alma”. Os rochedos (penedos) prestam-se bem a essa função. Por acaso, há umas dúzias anos que “tenho” um, nas montanhas, o da Lapa.

05 junho 2017

Isto é novidade e das gordas!


A Arábia Saudita, os Emiratos Árabes, seu aliado próximo, o Bahrein, seu satélite e o Egipto, à rasca, resolveram cortar drasticamente as relações diplomáticas e mesmo físicas com o Qatar, expulsando dos seus países os respetivos nacionais.

Razão anunciada: o apoio do Qatar a organizações terroristas, incluindo a famosa Irmandade Muçulmana e um certo apoio/condescendência para com o satânico Irão. Tentando traduzir… É de estranhar que a AS assuma assim uma posição tão radical quanto ao suposto apoio ao terrorismo (dizem que até precisaria de varrer dentro de casa antes). É possível que o grande protagonismo internacional do Qatar incomode os sauditas. É plausível que esta tensão beneficie o preço do petróleo. É provável que algum tipo de ligação/cumplicidade do Qatar com o Irão seja absolutamente insuportável para a AS e, cheira-me, ser esta a única razão que justificaria uma medida tão imediata e radical.

Mesmo que a questão do apoio aos grupos terroristas possa ser coisa do roto para o rasgado, sabemos que é das zangas das comadres que se descobrem as verdades. E como reagirá a França, que tem tantas ligações de várias naturezas com o Qatar e onde existe uma presença fortíssima da Irmandade Muçulmana através da UOIF? E o chamado mundo ocidental, razoavelmente alinhado até agora nas suas relações com aquela parte do mundo, irá desdobrar-se em dois blocos: USA + AS versus Europa/França + Qatar? E a Turquia, claramente inimiga do Irão e governada por um ramo da Irmandade, ir-se-á zangar com a AS, um parceiro regional fundamental na Síria? E será que isto é uma decisão fria e minimamente tranquila da AS ou é uma perigosa reação a quente?

E para perguntas, por hoje, já chega!


Imagem Stringer/AFP

18 julho 2016

Onde parará o comboio?


Por algumas horas questionamo-nos se a Turquia estaria a seguir um caminho “egípcio”, com os militares a travarem um poder islâmico democraticamente eleito. Erdogan tem a legitimidade democrática das urnas, mas não é um democrata. Uma vez disse em público, desconheço o que poderá acrescentar em privado, que a democracia é um comboio de onde se sai quando se chega ao destino e um poder que ataca jornalistas e juízes não é certamente democrático.

Independentemente das especulações sobre a real natureza e a origem da iniciativa do golpe, Erdogan chamou-lhe uma dádiva divina que permitirá limpar o exército. A suspensão imediata de 2745 juízes, mostra que a limpeza não se limita ao exército e coloca muitas dúvidas sobre a real razão desses afastamentos.

Mas há fraquezas de Erdogan que permanecem. A gestão da questão síria, com prioridade na oposição ao regime de Al Assad, consequente falta de eficácia no controlo da fronteira e a hostilidade contra os curdos, trouxe-lhe uma instabilidade para dentro de portas, que talvez pudesse ter sido evitada. A fraqueza maior pode estar ainda na forma como Erdogan está a gerir o pós-golpe, em força e com recorrentes mensagens islâmicas “eles têm os tanques, nós temos a fé”. Poderá dar-lhe impunidade formal e um reforço de popularidade junto dos seus eleitores fiéis. No entanto, duvido que reforce a base eleitoral do seu partido que, recordamos, “apenas” conseguiu 50% dos votos e em eleições repetidas, na “primeira volta” ficara pelos 41%.

Se o comboio conseguir circular e aguentar até às próximas eleições, parece-me provável que os turcos consigam limpar democraticamente este ditador. Até lá, irão sofrer.


Foto de prisioneiros extraída da CNN

27 setembro 2015

Para lá da Síria


Quando se ouve falar na questão dos refugiados Sírios, parece que apenas existe guerra nesse país, mas não é o caso. Olhando unicamente para as proximidades da bacia mediterrânica, há guerra mais ou menos convencional na Síria, Iraque, Iémen, Sudão Norte x Sul, Israel x Palestina. Há golpes de estado violentos não estabilizados na República Centro Africana e Burkina Fasso (por agora). Há guerrilhas muito ativas e violentas na Somália, já passando ao Quénia, na Nigéria, já passando aos Camarões e ao Chad, na Líbia, no Sinai, no Mali, no Niger, Afeganistão e Paquistão. Regimes particularmente violentos e desrespeitadores dos direitos humanos na Eritreia, Burundi… e fico por aqui, dado que já estou a sair do mapa. Será mais curto, e mais difícil, enumerar os países em que existe segurança e um mínimo de condições de vida para a generalidade da população.

Vamos trazer os habitantes destes países problemáticos para a Europa? Só na Nigéria são 170 milhões. Sem desenvolver a ironia de serem necessários muitos monovolumes para ir buscar essa gente toda, é obvio que não!

12 novembro 2014

Torre de Ucanha para Lisboa



Sobre o rio Varosa, em Ucanha, no concelho de Tarouca, existe uma ponte fortificada que simboliza, entre outras coisas, o tempo em que os senhores da terra podiam livremente arbitrar um valor a cobrar a quem entrasse nos seus domínios. Lembrei-me deste monumento a propósito das taxas “turísticas”, anunciadas para Lisboa.

Vamos por partes…

É um valor pequeno? O valor pedido pelos arrumadores também é pequeno, mas é irritante ter de o pagar quando não achamos justo nem devido. O objectivo é taxar todos os turistas que entram em Lisboa? E os turistas que chegam ao aeroporto de Lisboa para outros concelhos limítrofes e até outros pontos do país, pagam por igual? Quantas pessoas vão a Lisboa sem serem turistas, muitas vezes em consequência directa e indirecta de aí estar instalada a capital do país? Não será isto por si só já uma grande fonte de rendimentos para o município? Os turistas que entram por estrada ou comboio estão dispensados? Não se aplica a quem chegar ao aeroporto de Lisboa em trânsito, mas não há apenas ligações ar-ar. Será justo cobrá-lo a quem desembarca em Lisboa para seguir viagem em comboio ou em estrada e da cidade apenas ver uns escassos quilómetros?

Sobre a aplicação prática. Nalguns países, os estrangeiros à chegada são obrigados a comprarem um selo-taxa para colar no passaporte. É esse o nosso modelo? Teremos funcionários com caixas-mealheiro ao pescoço no aeroporto, controlando a residência dos viajantes? Seria relativamente simples aumentar em 1 euro as taxas de aeroporto existentes. Infelizmente até nem se notaria muito, mas como gerir a excepção dos residentes de Lisboa é que complica. Será que para um valor pequeno e alguma complexidade de aplicação iremos ter custos administrativos a absorver uma boa parte do montante recebido? Provavelmente nada de muito chocante para uma burocrática capital.

Sugestões. Para obter receita dos verdadeiros turistas, criem e vendam produtos a explorar a imagem da cidade. Eles comprarão e até ficarão contentes. Para equilibrar as contas do município dispensem metade, para começar apenas metade, de todas as pessoas que por lá andam sem nada fazer.

14 julho 2013

A História não se repete

Era uma vez um país em que após décadas de regime fechado a pressão popular o obriga a abrir-se e que realiza eleições abertas, multi-partidárias. As eleições são ganhas por islamitas mas os militares impedem-nos de governar. Será o Egipto de hoje? Pode ser, mas eu estava a pensar na Argélia de 1992 e onde o resultado dessa exclusão foi uma década negra com cerca de 200 000 mortes. Para lá da guerrilha tradicional e atentados cegos em zonas urbanas como mercados e transportes públicos, houve listas de gente das letras e das ciências eliminados um a um, houve aldeias inteiras isoladas e os seus habitantes degolados e um sem número de outras atrocidades. Irá o Egipto cair num caminho idêntico? Esperemos que não, até porque o contexto é diferente. Na Argélia a segunda volta das eleições legislativas foi suspensa pelos militares e os islamitas nunca chegaram a governar, tendo saltado para a clandestinidade com toda a força e “legitimidade”. No Egipto eles fizeram a experiência do governo e parece haver uma parte importante da população que apoia a recente acção do exército.  

Num país árabe que se abre ao multi-partidarismo, é previsível serem os islamitas a ganharem as primeiras eleições – eles conseguem apresentar uma proposta concreta e diferente com a qual uma grande parte da população se identifica: “a nossa religião, os nossos valores”. No entanto, para muitos, o objectivo principal não é a democracia em si, mas simplesmente viverem melhor. Se o novo governo não conseguir responder a esse anseio com brevidade, rapidamente se desencanta. Terá ainda que procurar um compromisso dificilmente praticável entre a facção islâmica mais conservadora para quem a Sharia pode e deve servir de Constituição e uma parte da sociedade, mais moderna, que até participou na revolução buscando um país mais moderno, e que se assusta enormemente com alguns (des)propósitos como, por exemplo, no que diz respeito à condição feminina.

O primeiro-ministro turco, islamista, Recep Erdogan, disse uma vez, distraído ou não, que a democracia é como um comboio que se apanha e donde se sai quando se chega ao destino pretendido. Morsi no Egipto estaria a tentar por em prática o mesmo princípio. Como se ironizava na Argélia na altura, democracia seria um homem, um voto… uma vez! Sendo o Egipto um país fulcral no mundo árabe pelo seu peso demográfico e localização, o que lá acontecer é de extraordinária importância para meio mundo.

Numa grande encruzilhada está também a Tunísia, que apesar de uma dimensão muito inferior ao Egipto tem um peso não negligenciável. Foi lá que tudo começou em Janeiro 2011. Esta semana iniciou-se o Ramadão. São 30 dias em que entre o nascer e o pôr-do-sol, para lá de outras restrições, não se come e não se bebe. Em 1964, há quase 50 anos, Bourgibga, o líder forte e pai da Tunísia moderna, na altura pouco democrática, bebeu um sumo de laranja em directo na Televisão, em pleno dia durante o Ramadão, argumentando que o jejum podia ser quebrado em caso de guerra e que na Tunísia estava em curso uma batalha pelo desenvolvimento. Por muito menos há hoje gente levada a tribunal, acusada do crime de muito largo espectro de “atentado ao sagrado”.

Presumir como muitos o fizeram há dois anos, que bastava registar partidos, organizar eleições e contar votos para ter um país firme no caminho do desenvolvimento é obviamente uma enorme ingenuidade. Esperemos, e se possível ajudemos, que corra bem. Por meio mundo, que é também o nosso, e muito especialmente pelos seus homens e mulheres, muito principalmente estas, que merecem viver em dignidade com paz, respeito e com oportunidades.

28 maio 2013

Primavera ou isso

Quando o processo começou na Tunísia, todos assobiaram para o lado assumindo que com mais ou menos esforço Ben Ali colocaria ordem na casa. E Ben Ali caiu. Quando começou no Egipto as reacções já foram mais ambivalentes: é importante a democracia, é importante a legitimidade… E o regime caiu. Quando começou na Líbia, já ninguém teve dúvidas Khadafi vai pelo mesmo caminho e vamo-nos colocar do lado certo do vento da história. Enganaram-se de novo. Khadafi só caiu pela preciosa ajuda dos que quiserem activamente estar do lado “certo”.

Temos agora a Síria. Há quem ache que está em causa a simples luta entre um mau ditador e uns bons rebeldes, mas devido à má experiência da Líbia, tem havido muito mais prudência na entrada/ajuda ao conflito. No entanto, e acrescentados os ingredientes da situação geopolítica actual na zona, não é difícil concluir que o que está em confronto na Síria não é certamente a democracia contra a ditadura. É muito simplesmente uma nova declinação do histórico conflito entre sunitas e shiitas que tem quase tanto tempo quanto a religião muçulmana.

Qual o propósito de o Ocidente apoiar declaradamente uma das partes quando o registo das acções e barbaridades cometidas parece ser relativamente bem distribuído? Porque é que quando se fala do eventual uso de gás sarin pelo governo sírio é um escândalo que justifica sair a terreiro e quando parece que é antes/também usado pelos rebeldes, se assobia para o lado? Se o popular canal de televisão Al-Jazira (Qatar – Sunita) trata de uma forma diferenciada os conflitos nos diferentes países conforme o seu alinhamento com a península arábica, sede do sunismo, porque é que temos que os acompanhar nessa discriminação?

Enfim haverá interesses e razões que justificam tudo isto, como também há gente inocente que sofre e que morre, mas por favor não pintem o cenário com as cores da liberdade e da democracia. Estas merecem muito mais respeito.

01 agosto 2012

Mais uma estação...

Quando começou na Tunísia, toda a gente assobiou para o lado, é um acesso de febre que passará rapidamente. Enganaram-se todos e, imodéstia à parte, até eu… e Ben Ali caiu mesmo. Apesar da generosa exposição mediática proporcionada pela Al-Jazira, a causa principal foi mesmo a pressão popular interna.

Quando começou no Egipto, todos foram mais prudentes e, face à incerteza sobre o desfecho, apareceram os discursos públicos ambivalentes. E Moubarak caiu.

Quando começou na Líbia, já ninguém teve dúvidas, Khadafi iria seguir o mesmo caminho. No entanto a mobilização popular não foi suficiente para levar o processo até ao fim, mesmo com a fortíssima pressão mediática da Al Jazira, do Qatar. E então, Onus, Natos, States, Franças e Qataris tiveram mão pesada, teoricamente a proteger civis e na prática a garantir que Khadafi caía mesmo.

Hoje a Síria parece ir pelo mesmo caminho da Líbia e já se fala na necessidade de “proteger os civis”. Independentemente de todo mal que se pode dizer e constatar sobre o regime de El Assad, o que se passa na Síria não é certamente uma luta de “bons rebeldes” pela democracia e pela liberdade do povo. É a continuação da luta que dura há séculos entre os sunitas da península arábica e os xiitas que actualmente gravitam em torno do Irão. Se o Ocidente acha que o enfraquecimento do Irão é um efeito colateral positivo e desejável desta guerra, eu não estou assim tão convencido.

Que o Qatar e Arábia Saudita sejam uns paladinos e uns patrocinadores da liberdade e da democracia é, no mínimo, irónico. Que busquem aumentar a sua influência e a islamização sunita do Médio Oriente e Magreb, está na lógica das coisas. No entanto, não lhe chamem democratização nem presumam assim tão rapidamente que esses povos irão viver melhor no novo regime.

No norte do Mali, onde foi implantado uma espécie de estado islâmico radical graças às armas que sobraram do dilúvio que caiu na Líbia para “proteger os civis”, foi esta semana morto por delapidação (isto é: à pedrada mesmo) um casal, acusados e condenados pelo crime de viverem juntos e terem filhos sem serem casados.

28 setembro 2010

Descubra as diferenças


Em ambas as imagens desfilam os participantes nas conversações de paz para o Médio Oriente que decorrem nos EUA.

Na fotografia de cima, atrás de Barack Obama, o anfitrião, vêm Benjamin Netanyahou, Mahmoud Abbas, o Rei Abdallah II da Jordânia e, arrastando-se lá atrás à esquerda, o presidente egípcio Hosni Moubarak. Aliás as especulações sobre o seu estado de saúde colocam-na na ordem do dia uma grande polémica sobre a sua sucessão. Sucessão no sentido literal e dinástico da palavra em que se procura que seja o seu filho Gamal o herdeiro.

A segunda imagem foi publica num jornal Egípcio onde se vê Moubarak em grande forma a marcar o ritmo à frente do próprio Obama. Motivo para orgulho, naturalmente.
Imagem extraída do “Le Jeune Afrique”

02 dezembro 2008

Bibliotheca Alexandrina

Alexandria é um daqueles nomes “clássicos” que ecoa muito forte: o meridiano centro do mundo, dividindo a Europa da Ásia, o farol e juntando a palavra biblioteca fica a magia completa.

Uma recente viagem para aqueles lados deu direito a uma breve passagem pela nova “Bibliotheca Alexandrina”, pelo simples preço de adiar o almoço das 16 para as 17 horas. O edifício é simplesmente fabuloso. Aliás, um pouco à imagem do Guggenheim de Bilbao, corre-se o risco de se gastar a atenção toda na construção e esquecer o conteúdo.

Bom, no que diz respeito ao conteúdo recomendo um passeio por http://www.bibalex.org/, uma vez que eles apostam fortemente no conteúdo electrónico e na disponibilização on-line.

Uma nota … de sei lá o quê… Numa das zonas de PC’s algumas manchas negras, aparentemente jovens, daquelas que nem sequer a pele das mãos pode ser vista, tudo devidamente coberto por pano preto, consultavam afincadamente o que o visor lhes contava e tomavam nota num papel branco contrastando com as luvas negras. Que buscavam? Que saber? Poderiam buscar todo o saber que quisessem? Poderiam interrogar o mundo em toda a sua latitude? E, se o pudessem, continuariam por sua vontade sendo “manchas negras? Uma figura daquelas circulando limitadamente pela rua, bem guardada pelo marido e envolvida na creche própria é “normal”. Ali, na Biblioteca Alexandrina, afincadamente procurando sei lá o quê, parece estranho. Talvez por isso de todas as fotos que intimidado tirei, nenhuma teve a serenidade para obter uma imagem clara. Todas ficaram pouco nítidas!