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21 maio 2018

O consenso que falta?


É consensual que a Líbia sem Khadafi ficou e permanecerá durante bastante tempo ingovernável. É consensual que o Iraque sem Saddam Hussei ficou ingovernável e veremos até quando. É consensual que Bachar Al Assad na Síria está muito longe de cumprir os mínimos em termos de respeito pelos direitos humanos e é também consensual que, caindo, iremos ter outro país ingovernável. Só para compor um pouco mais, e sem encerrar o tema, podemos acrescentar a este ramalhete Mohamed Abdelaziz da Mauritânia e Omar al-Bachir do Sudão.

Podemos recordar o consenso de que a colonização não é alternativa, não era justificável nem aceitável, apesar de… apesar do pequeno detalhe que as pessoas (não as ideias), as Pessoas, Homem, Mulheres e Crianças de muitos países viveriam hoje melhor, com mais qualidade de vida, edução e cuidados em geral sob um regime colonial do que no seu atual. Falo das Pessoas, não das Ideias.

No meio de tanto consenso fica, portanto, uma questão em aberto: como pode ser? Se decapitar o ditador não resolve, se não é aceitável deixá-lo ficar a praticar barbaridades, se a administração por terceiros não é correta, qual a solução que permita viver Dignamente as Pessoas?

Dizem que é a democracia. Pelo princípio sim, mas na prática não chega registar partidos e contar votos, enquanto não houver consistência cívica suficiente. Como se chega lá: com tempo, esforço, sensibilização, responsabilização, coisas que não estão ao alcance de um ditador nem de uma democracia imberbe. E mais não digo…

07 julho 2016

O depois da mentira


O relatório Chilcot, divulgado esta semana na Inglaterra (ou Grã-Bretanha ou Reino Unido...) veio comprovar aquilo de que já se suspeitava há muito tempo. Que a invasão do Iraque de 2003 foi uma birra, ou outra coisa, dispensável. Que não havia nenhuma ameaça séria naquele momento e que a via negocial não estava esgotada. Publicado em 2011, o livro “A Era da Mentira” de Mohamed Elbaradei, antigo Diretor da Agencia Internacional de Energia Atómica e Nobel da Paz em 2005, é também bastante elucidativo sobre esse embuste e outros assuntos contemporâneos da mesma temática.

Ficou também agora evidenciada a ausência de uma preparação séria para o “dia seguinte”. De recordar que o que se passa hoje no Iraque, nomeadamente as tensões sectárias que ajudaram à nascença do chamado estado islâmico são, em parte, ainda a consequência dessa falta de previsão.

A divulgação deste relatório, numa altura em que Donald Trump aparece como sério candidato à presidência dos EUA, deveria ser objeto de uma reflexão especial pelos eleitores americanos.

Ficamos à espera da publicação de algo análogo em França, se tal for possível, sobre o envolvimento desta no derrube de Khadafi. Enquanto o UK se deixou enganar ou foi enganado pelos EUA; na Líbia a França interesseiramente e falsamente foi atrás de outros, por acaso não europeus nem ocidentais.

É comum referir que o Iraque com Saddam e a Líbia com Khadafi estavam “melhor” do que ficaram depois das respetivas “libertações”. Isso é verdade, mas significa que essa parte do mundo só se controla e está estável debaixo de regimes ditatoriais e repressivos? Não deveria ser assim mas, pelo menos, poderíamos ter aprendido que a doença não se cura com envio de tropas e mísseis. Não aprenderam. Na Síria apenas só não estamos aí pelo apoio do Irão e da Russa ao regime, mas os danos já são irreversiveis.

27 junho 2015

Pobre Tunísia

Das poucas vezes que estive na Tunísia, ainda no tempo de Ben Ali, ficou-me a imagem de um país extremamente policiado. No rescaldo das “primaveras árabes”, parecia ser o único país onde um regime democrático se conseguiria consolidar, ultrapassando a radicalização e a confrontação pós-revolução e evitando também (re)cair no autoritarismo militar.

Se na nova Tunísia democrática, existia um reduto de militantes islâmicos radicais nos montes Chaambi, isso parecia ser apenas isso mesmo: um reduto confinado. Com a colaboração da Argélia fechando do outro lado, seria uma questão de tempo até neutralizar os guerrilheiros. O atentado no museu do Bardo de Março deste ano foi um golpe duro – no pleno centro da capital e num dos principais locais turísticos do país. Podia-se entender ser um caso isolado, uma infelicidade que não se repetiria.

O ataque desta semana na praia de Sousse parece ser agora um golpe fatal. Efetivamente, os serviços de segurança tunisinos demonstraram serem incapazes de acompanhar e controlar estes acontecimentos. Longe estão dos tempos de Ben Ali e existe também a novidade da Líbia ali ao lado, completamente descontrolada e infestada (já se lembraram de fazer o balanço da guerra patrocinada pelo exterior que derrubou Khadafi?).

Dificilmente o turismo no país, que tem um peso enorme na sua economia, retomará deste choque, pelo menos a curto prazo. A Tunísia ficará mais pobre e os tunisinos pior. Não o merecem. Numa guerra existem soldados, generais e banqueiros. Nos jornais estamos a ver apenas os soldados…

15 abril 2015

Os bons e os maus rebeldes

Há cerca de 4 anos um movimento de contestação e de revolta armada na Líbia foi abertamente apoiado, mesmo militarmente, pela chamada comunidade internacional. Para já, passemos ao lado das consequências da queda do regime de Khadafi e dos tempos sombrios que o país vive e viverá.

Hoje, um movimento de revolta na Iémen, sequência duma grande cisão comunitária do país, que inclui um histórico recente de guerra civil, está a ser bombardeado pelos vizinhos, acusado de desestabilizar o regime “em vigor”. Há, portanto, bons rebeldes que devem ser ajudados e maus rebeldes que devem ser combatidos.

Numa análise simplificada o regime de Khadafi era hostil ao sunismo waabita das monarquias do golfo; os rebeldes houthis do Iémen são xiitas e aparentemente apoiados pelo Irão, o grande inimigo das tais monarquias árabes. Portanto, o critério para a distinção entre o bom e o mau rebelde será muito claro, quando visto assim a partir de Riad ou Doha. Que o conselho de segurança da ONU tenha autorizado o uso da força em favor dos rebeldes líbios e agora vote um embargo de armas aos houthis, é que me faz alguma confusão. Não que eu tivesse/tenha alguma simpatia por Khadafi ou pelos houthis. Apenas não consigo entender a lógica subjacente… !

28 maio 2013

Primavera ou isso

Quando o processo começou na Tunísia, todos assobiaram para o lado assumindo que com mais ou menos esforço Ben Ali colocaria ordem na casa. E Ben Ali caiu. Quando começou no Egipto as reacções já foram mais ambivalentes: é importante a democracia, é importante a legitimidade… E o regime caiu. Quando começou na Líbia, já ninguém teve dúvidas Khadafi vai pelo mesmo caminho e vamo-nos colocar do lado certo do vento da história. Enganaram-se de novo. Khadafi só caiu pela preciosa ajuda dos que quiserem activamente estar do lado “certo”.

Temos agora a Síria. Há quem ache que está em causa a simples luta entre um mau ditador e uns bons rebeldes, mas devido à má experiência da Líbia, tem havido muito mais prudência na entrada/ajuda ao conflito. No entanto, e acrescentados os ingredientes da situação geopolítica actual na zona, não é difícil concluir que o que está em confronto na Síria não é certamente a democracia contra a ditadura. É muito simplesmente uma nova declinação do histórico conflito entre sunitas e shiitas que tem quase tanto tempo quanto a religião muçulmana.

Qual o propósito de o Ocidente apoiar declaradamente uma das partes quando o registo das acções e barbaridades cometidas parece ser relativamente bem distribuído? Porque é que quando se fala do eventual uso de gás sarin pelo governo sírio é um escândalo que justifica sair a terreiro e quando parece que é antes/também usado pelos rebeldes, se assobia para o lado? Se o popular canal de televisão Al-Jazira (Qatar – Sunita) trata de uma forma diferenciada os conflitos nos diferentes países conforme o seu alinhamento com a península arábica, sede do sunismo, porque é que temos que os acompanhar nessa discriminação?

Enfim haverá interesses e razões que justificam tudo isto, como também há gente inocente que sofre e que morre, mas por favor não pintem o cenário com as cores da liberdade e da democracia. Estas merecem muito mais respeito.

01 agosto 2012

Mais uma estação...

Quando começou na Tunísia, toda a gente assobiou para o lado, é um acesso de febre que passará rapidamente. Enganaram-se todos e, imodéstia à parte, até eu… e Ben Ali caiu mesmo. Apesar da generosa exposição mediática proporcionada pela Al-Jazira, a causa principal foi mesmo a pressão popular interna.

Quando começou no Egipto, todos foram mais prudentes e, face à incerteza sobre o desfecho, apareceram os discursos públicos ambivalentes. E Moubarak caiu.

Quando começou na Líbia, já ninguém teve dúvidas, Khadafi iria seguir o mesmo caminho. No entanto a mobilização popular não foi suficiente para levar o processo até ao fim, mesmo com a fortíssima pressão mediática da Al Jazira, do Qatar. E então, Onus, Natos, States, Franças e Qataris tiveram mão pesada, teoricamente a proteger civis e na prática a garantir que Khadafi caía mesmo.

Hoje a Síria parece ir pelo mesmo caminho da Líbia e já se fala na necessidade de “proteger os civis”. Independentemente de todo mal que se pode dizer e constatar sobre o regime de El Assad, o que se passa na Síria não é certamente uma luta de “bons rebeldes” pela democracia e pela liberdade do povo. É a continuação da luta que dura há séculos entre os sunitas da península arábica e os xiitas que actualmente gravitam em torno do Irão. Se o Ocidente acha que o enfraquecimento do Irão é um efeito colateral positivo e desejável desta guerra, eu não estou assim tão convencido.

Que o Qatar e Arábia Saudita sejam uns paladinos e uns patrocinadores da liberdade e da democracia é, no mínimo, irónico. Que busquem aumentar a sua influência e a islamização sunita do Médio Oriente e Magreb, está na lógica das coisas. No entanto, não lhe chamem democratização nem presumam assim tão rapidamente que esses povos irão viver melhor no novo regime.

No norte do Mali, onde foi implantado uma espécie de estado islâmico radical graças às armas que sobraram do dilúvio que caiu na Líbia para “proteger os civis”, foi esta semana morto por delapidação (isto é: à pedrada mesmo) um casal, acusados e condenados pelo crime de viverem juntos e terem filhos sem serem casados.

04 junho 2012

Tudo aqui tão perto

1- E a Espanha aqui tão perto - O que era impensável passou a ser provável – a Espanha pedir um resgate. Só que a acontecer será diferente, diz-se. Poderá ser uma ajuda directa à banca para não ficar o governo tutelado pela famosa troika. Que raio, porquê para eles e não para a Irlanda que tinha uma situação à partida tão idêntica? E se o Sr Hollande implementar as suas ideias voluntariosas e a França ficar enrascada, alguém está a ver uma troika com o FMI a entrar em França? Claro que não; o De Gaulle até ressuscitava com a raiva! Certamente que haverá outro modelo de ajuda. E isto é um dos problemas desta Europa – vai à toa arremendando soluções em função de cada caso concreto.
2 – E a Galiza aqui tão perto – Diziam-me lá este fim-de-semana que o sofrer a crise em Portugal será menos traumático do que em Espanha, porque Portugal no fundo nunca interiorizou a “nova riqueza” de uma forma tão assumida como Espanha. Ou seja, resignamo-nos mais facilmente a reencontrar as dificuldades. Será?
3 - E o Mali aqui tão perto – O norte do Mali decretou “independência”, num novo estado, islâmico a mais não poder ser, conquistado e controlado pelo Al Qaeda com as armas que sobraram da overdose bélica que choveu na Líbia nos últimos tempos. Novo Afeganistão à vista…. E aqui tão perto
4 – E o Afeganistão aqui tão perto – Multiplicam-se os casos que pareçam não deixar dúvidas sobre os autores e as intenções. Os alunos nas escolas sofrem intoxicações mais ou menos graves, por lá serem ensinadas coisas inadequadas e, sobretudo, por ensinarem raparigas que não têm nada que andar na escola. Os Américas e Cia vão desistir e abandonar o país.
5 – E a nova Primavera na Tunísia – Ghazi e Jabeur – dois jovens líbios de 28 anos diplomados e desempregados, enraivecidos e desesperados cometeram o crime que publicaram no facebook caricaturas obscenas do profeta e de se declararam ateus. Ambos julgados e condenados a 7 anos e meio de prisão efectiva. O primeiro fugiu, o segundo pode ter ainda mais problemas porque o Procurador recorreu da sentença e pede perpetuidade.

24 fevereiro 2011

Notícia do dia

Diz o El País que a situação na Líbia está muita confusa. Acrescenta que 17 pilotos da força aérea líbia foram executados por se terem negado a bombardear bairros em poder dos rebeldes na cidade vizinha de Zauia. Não vale a pena comentar, pois não? Apenas tirar o chapéu e desejar que este exemplo de dignidade ajude a reduzir a insanidade no mundo, porque: “ A vida humana é tão importante que não pode permitir que a nossa própria vida tenha primazia sobre tudo o resto”.
Depois há aquelas notícias que enjoam e enojam. Uns analistas, daqueles bons em dar palpites que não caem no próprio bolso, opinam que se a Líbia e a Argélia pararem a produção, o petróleo pode chegar aos 200 USD. Gostava de ver essas contas e como se chega aos 220 e gostava também de “discuter un peu” com o idiota que consegue pôr a Líbia no mesmo patamar da Argélia! Aliás também gostava de ver um gráfico temporal comparando a evolução do preço do crude com o dos combustíveis. Uma coisa me parece: estes palpites ajudam efectivamente a subida.,
Uns iluminados em Lisboa, olhando para o outro lado do Mediterrâneo, acham que Magreb é mais ou menos a mesma coisa do Nilo à Mauritânia, da mesma forma como a Europa seria igual da Grécia até à Irlanda!
Numa revista semanal um tal de filósofo Gil faz uma análise teórica da “revolução” Egípcia de que talvez o Sartre gostasse. Só que este está morto, arrefece e cheira mal. Terá o nosso filósofo alguma vez visto, falado e sentido o cheiro de gente com fome, gente oportunista, gente violenta, gente generosa, gente cega ? Seguramente que não, mas é toda essa gente que esteve na rua em Tunes e no Cairo.
Ontem de manhã, num “petit táxi” de Casabranca, o homem fazia questão de me convencer que o Cristiano Ronaldo não tinha técnica, que não chegava aos calcanhares do Messi (o Figo, esse sim!), e encostamos para dar passagem a uma caravana oficial escoltada: “É o rei, estás a ver? Ainda é cedo e lá vai ele a caminho de Marrakech! Não pára! Tem feito um trabalho extraordinário!”
No final, que toda a gente viva melhor e com dignidade, sabendo que nunca lá se chega facilmente nem com simplificações grosseiras - isso é estúpido.

10 dezembro 2007

A segunda descolonização ?

N. Sarkosy visitou recentemente a Argélia e o tema quente nos meios de comunicação social locais foi uma espécie de exigência: a França deveria apresentar um pedido de desculpas pelo seu passado colonial e pelos crimes cometidos nesse período. O presidende Francês ousou considerar publicamente o processo colonial injusto mas não apresentou desculpas. Em seguida, Khadafi diz em Lisboa que os colonizadores devem pagar pelo mal que fizeram. (Já não bastavam os pedidos de pedido de desculpa pela escravatura...)

Poder-se-ia procurar fazer um balanço do que a colonização trouxe de positivo e de negativo e da evolução pós-independência, mas acho que não é esse o objectivo. Uma boa parte dos actuais líderes africanos afirmou-se na luta contra os colonizadores. Aliás, muitos deles empoleiraram-se nessa altura e ainda não desceram. Hoje o que se constata, passados 30 ou 40 anos, é a falência do seu projecto e a sua incapacidade para tornarem os seus países minimamente justos e equilibrados. A maioria das belas promessas associadas à autodeterminação estão por cumprir e não se vê jeito de para lá caminhar.

Por curiosa coincidência, o disparar do preço do petróleo e de outros recursos naturais que abundam em África, tornou financeiramente ricos muitos desses países e esses já não podem argumentar que é a pobreza material que trava o desenvolvimento. Qual a resposta? Recuperar o capital histórico da campanha da autodeterminação e voltar a facturar aos colonizadores a origem de todos os males. Se quando a história se repete da segunda vez é uma farsa, este será seguramente um desses casos.

As novas gerações esclarecidas nesses países estão muito menos preocupadas com as desculpas do que se passou antes de eles terem nascido do que em exigir aos seus governantes que transformem os seus países em lugares bons para viver, o que é mais difícil do que ficar parado no tempo a olhar para trás e a solicitar pedidos de desculpa.