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03 fevereiro 2023

E as crianças, senhores?


A greve, no seu conceito geral, é feita por trabalhadores contra o seu empregador, provocando-lhe quebra de rendimentos. As fábricas e as atividades económicas param. Tem lógica esta causa-efeito quando o prejuízo fica em quem tem o poder de atender às revindicações.

Depois, há as greves dos serviços públicos, onde os principais prejudicados não são as entidades patronais, mas sim inocentes cidadãos, tomados como reféns numa disputa que não lhes diz respeito. Podem ter grande impacto mediático, pela desordem causada, mas há aqui alguma perversidade e o bom-senso devia limitar a sua frequência e duração.

Por estes dias assistimos a prolongadas greves no setor do ensino, em que os reféns não são cidadãos que podem perder um dia de trabalho por falta de transporte. São estudantes, com um currículo já fragilizado pelos efeitos da pandemia, e que podem perder algo dificilmente recuperável.

Não me cabe aqui desenvolver considerações sobre justezas e injustiças. Apenas referir que este extremar de posições e a falta de vontade/capacidade de encontrar uma solução razoável ou, pelo menos, decretar tréguas de negociação é uma pesada irresponsabilidade.

A migração, apenas de quem pode, para o sector privado, a fim de garantir formação de qualidade aos seus filhos, é uma consequência natural e uma brutal injustiça. Põe em causa o princípio da igualdade de oportunidades, algo que deveria ser garantido na teoria e na prática.

15 agosto 2022

Palpites e mais palpites


No passado mês de junho decorreram as eleições legislativas em França. Têm a particularidade de cada lugar ser conquistado individualmente, por maioria, a uma ou duas voltas, como nas nossas presidenciais. Existe uma prática de que um ministro em funções que falhe a eleição no seu círculo deve abandonar o governo, falta-lhe legitimidade. Em Portugal o sistema é diferente e a prática também. Não quiseram eleger Fernando Medina como presidente da câmara de Lisboa? Gramem-no agora como ministro!

Medina acabou de contratar um ponta de lança para a comunicação, um galáctico, com vencimento superior ao do ministro. Enfim, Sérgio Figueiredo pagou a Medina para dar palpites na TVI; agora este paga a Figueiredo para dar palpites no governo. Palpite com palpite se paga.

Para lá deste antecedente, é curioso como o ministério das finanças necessita assim dum craque em comunicação… Medina já demonstrou no passado ter problemas em geri-la, mas não seria preferível que este Governo privilegiasse a realização em detrimento da comunicação? Por exemplo, fazer chegar os fundos do PRR às empresas que deles necessitam, de preferência ainda antes da próxima pandemia?

09 junho 2021

Bolhas e pegadas


Ainda não sabemos ao certo todas as consequências da famosa final da “Champions” no Porto em termos diretos Covid e de imagem do país. Obviamente que se o objetivo era mesmo que os adeptos viessem em bolha, alguma proatividade teria sido necessária e não simplesmente esperar que eles se encapsulassem todos voluntariamente.

Para lá desta questão do âmbito da má gestão sanitária, vamos supor que era para ser e teria sido mesmo assim. 14000 espetadores, principalmente adeptos ingleses, em bolha, vindos para ver o jogo e a regressarem a casa no próprio dia. Nestes tempos em que, por razão ou religião, o ambiente é um tema quente, se mede a pegada de carbono de tudo e mais alguma coisa, quando até um tribunal nos Países Baixos condena a Shell a reduzir as suas emissões, qual o sentido de termos uns 100 aviões a virem da Inglaterra a Portugal para os passageiros simplesmente assistirem a uma partida de futebol e nada mais?

Obviamente que é um disparate completo. Quantos daqueles adeptos até defenderão a utilização de veículos elétricos, supostamente para proteção do ambiente, independentemente da origem da energia que lhes carrega as baterias? Um tema desta relevância deveria ser mais bom-senso, razão e coerência e menos radicalismo, religião e oportunismo.

Adicional em 13/06/2021 com a versão impressa (parcial).



22 abril 2021

Vacinação e opção


Penso que se fossem suspensos todos os fármacos que apresentem riscos de efeitos secundários ao nível dos das vacinas da Astrazeneca e da Janssen, as farmácias ficariam mais de metade vazias e a saúde pública iria ressentir-se fortemente.

Podemos entender que o governo não deva ter a arrogância de impor “Ou aceitas esta, apesar dos riscos, ou vais para o fim da fila”. O que é mais difícil de aceitar é que não se dê a opção a cidadãos adultos, conscientes e não vacinados de decidirem: entre correr esse risco ínfimo ou esperar vários meses pela minha vez, prefiro e aceito correr o risco.

Não faz sentido rejeitar vacinas disponíveis, até baratas (coincidência) e de logística facilitada, quando, eventualmente, há interessados nas mesmas. Não somos todos criancinhas, sob a tutela de um Governo paternalista e autoritário, que nem sequer se dá ao trabalho de ouvir os interessados.

 

13 abril 2021

O perigo e a perceção

Quando há cerca de 15 anos me instalei na Argélia, ainda por lá corria alguma atividade terrorista, embora em escala muito inferior à da década anterior. Ao tentar avaliar objetivamente o perigo em causa, podiam-se fazer as contas seguintes. Os terroristas matavam 2 a 3 pessoas por mês, principalmente militares ou policias e em zonas remotas; na estrada morriam em média 10 a 12  por dia e por todo o lado. Um risco realmente muito mais elevado.

Na mesma altura em Portugal, em 2006, morreram 850 pessoas em acidentes de viação (Pordata) durante o ano. Ou seja, o número de mortos na estrada em Portugal era mais ou menos equivalente ao das vítimas de terrorismo na Argélia, sendo que lá até era mais fácil evitar os locais de risco. A grande diferença, não quantitativa, estava na natureza do risco. O da estrada era-nos conhecido e familiar; o outro era novo e isso desestabiliza.

Isto vem a propósito do folhetim com os riscos da vacina da AstraZeneca. Talvez um dia venhamos a saber até que ponto o Brexit e a empresa ser um novo jogador no mercado das vacinas contou para tanto ruído. A questão é que ninguém olha (ou pouco) para as contraindicações e possíveis efeitos secundários de uma medicação, quando a tem que tomar. Entende-se frequentemente que há um risco, mas pode/deve ser corrido.

O Covid-19 assusta, é novidade e tudo o que a ele diz respeito desestabiliza-nos. Mas, das duas uma, ou corremos o risco da doença ou o da vacina. Não é possível esperar risco nulo e a razoabilidade é validada por procedimentos que não foram feitos ontem e por entidades supostamente informadas e competentes. As decisões políticas de põe e tira, tira e põe, quando objetivamente não há novos elementos relevantes, são uma fonte de desestabilização muito dispensável.


08 abril 2021

Vamos imaginar



Vamos imaginar que estava em funções um governo de Passos Coelho ou parecido e um Presidente da República Jorge Sampaio ou parecido. Vamos imaginar que nestes tempos de pandemia sanitária e social o Parlamento aprovava uma lei alargando apoios sociais temporários, aumentando a despesa pública, numa escala aparentemente gerível, e correspondendo a uma necessidade social efetiva e justa. O PR aprovava a lei e o Governo contestava, invocando a não constitucionalidade formal do processo. O mesmo governo que está a enterrar milhares de milhões numa TAP.

Vamos supor que o Governo era de direita e o PR de esquerda. Vai uma aposta em que os mesmos que hoje rasgam as vestes pelo cumprimento rigoroso da Constituição, estariam a rasgar as vestes contra a insensibilidade social dos “neo-liberais”? Vai uma aposta? Como, em vez de se julgar pelo fundamento, razoabilidade e justiça num sentido lato, tomam-se posições simplesmente pelo alinhamento tribal? Depois, estranhem que deixe de haver pachorra para aturar “os do costume”.


09 fevereiro 2021

As sobras, certo?


Acho particularmente irónica a justificação de que alguns “desvios” nas prioridades da vacinação foram feitos para “aproveitar as sobras”… Recorda-me uma história que me contaram de um empreiteiro “esperto” que tinha o hábito de propor partilhar com “oportunos terceiros” as “sobras previstas” das suas empreitadas. Estão a ver o nome correto, certo?

Se o número efetivo de doses disponíveis para cada conjunto de frascos abertos tem alguma variação, não será possível convocar um pouco por excesso, o chamado “overbooking” nas viagens aéreas? No caso de um voo confirmado, ter que esperar pelo próximo pode ser efetivamente um grande inconveniente, mas ser vacinado um dia ou no seguinte, não deve ser assim tão dramático. Questão de planificação, certo?

Obviamente que o problema de fundo não é a questão técnica da “gestão das sobras” e da sua deficiente planificação, mas sim de que serve de desculpa e justificação para uma coisa vergonhosa. Não é preciso mais acrescentar, certo?

01 fevereiro 2021

Vai ficar tudo bem?


 “Fia-te na virgem… e não corras!” Quando a primeira vaga da pandemia cá passou, ao de leve, todos se sentiram excelentes em sabedoria e competência, o povo que se assustou, teve medo e se auto confinou e o governo que concordou com o povo. Na prática não se sabia mesmo porque é que tinha corrido bem e adotou-se o autossatisfação do marinheiro que se julga o maior campeão do mar… quando ele está calmo e o vento de feição.

Mas o vento pode mudar e marinheiro que não se acautela … fia-se na virgem e não rema. Hoje é fácil apontar o que falhou em termos de preparação e atribuí-lo à impossibilidade de previsão, mas são coisas diferentes. A impossibilidade de prever não invalida a necessidade de preparar, pelo contrário.

O que estamos a assistir em termos de incapacidade de navegar num mar realmente agitado, não é novidade. O passado recente está pleno de exemplos de aselhice do Estado e, se não falarmos em coisas dramáticas como os incêndios e a proteção civil, podemos falar do caricato dos boletins de voto das últimas Presidenciais. Sobre o SNS e as suas limitações crónicas, só resta perguntar: resolveu-se esperar que o mar continuasse calmo e a tempestade milagrosamente ao largo?

Depois, temos as vacinas. Começou com a excessiva publicidade ao "irmos ficar bem". Depois, para lá da “esperteza” típica que não foi prevista, há detalhes como, por exemplo, não se ter planeado à cabeça o que fazer com as “sobras”, estranho nome  (e não falemos dos políticos prioritários porque isso alimenta o populismo!).

Acreditar que vai correr tudo bem, não preparar a sério e andar agora a pensar hoje o que se pode ainda proibir para amanhã, foi acreditar demais na virgem!

27 janeiro 2021

Direito à saúde, antes e depois?


Se ainda estamos longe de conhecer o desfecho e todos os efeitos da atual pandemia, questiono-me se esta brutalidade terá um efeito duradouro na forma como se encara o direito à saúde real dos cidadãos.

Na vertigem dos números e das solicitações a um SNS que antes já não tinha muita folga, instalou-se a perceção na opinião de pública de que ninguém deve ficar para trás e condenado por falta de meios. Ainda bem.

Curiosamente, no passado, morrer na lista de espera para uma intervenção ou sofrer um sério agravamento de saúde por falta de tratamento a tempo era considerado um “fatalismo”, que se lamentava, mas pouco escandalizava. Acrescente-se ainda que essas situações faziam parte de um quadro de solicitação regular. Não eram devidas a uma excecionalidade imprevista.

Durante muitos anos não chocou sobremaneira o SNS não conseguir atender razoavelmente a rotina. Hoje entende-se que mesmo para uma situação extraordinária e sem precedentes é dramático não poder tratar toda a gente. Como será para o futuro?

12 janeiro 2021

Não, esta culpa não é do Governo


Há uns dias atrás escrevi que as restrições drásticas impostas pelo Governo à circulação dos cidadãos equivaliam a desresponsabilizar e infantilizar o povo, tratando-o como pequenos “Vitinhos”, que é preciso alguém mandar para a caminha.  A evolução da pandemia, entretanto conhecida, e o novo confinamento mais severo anunciado parecem sugerir que eu estava errado e que se houve falha da parte do Governo foi por não ter imposto mais restrições no Natal.

Entendo que não, que a culpa da explosão dos números não é do governo, mas sim de comportamentos individuais. Estamos num terreno onde não podemos assumir ser aceitável tudo o que não for proibido e que, se alguém fez asneira, a culpa é do Governo, que não o proibiu.

Sim, há questões de saúde pública e de saturação das infraestruturas sanitárias, mas… Não falta quem tenha tido necessidade de tratamento por comportamentos evitáveis do próprio ou de terceiros. Vamos proibir o tabaco para limitar o cancro do pulmão, as bebidas alcoólicas pelo fígado e demais complicações, os rojões por causa do colesterol, caminhar na rua pelos atropelamentos, passear de bicicleta para não haver ossos partidos e ir à praia entre as 12 e as 15h para reduzir o cancro da pele... e poderíamos continuar com uma longa lista de proibições destinadas a aliviar o SNS.

Há uma diferença fundamental a ter em conta. É entre os riscos conhecidos, integrados cultural e quantitativamente, e o Covid-19 onde pisamos terreno ainda pouco conhecido. Estamos habituados a ser “normal” morrer por falta de meios atempados de tratamento para uma doença “clássica”; morrer de Covid-19 por saturação do SNS é que não se aceita.

A culpa do contágio só será do Governo num país de Vitinhos. A saturação do SNS é outra história. Seremos efetivamente Vitinhos que sem ordem para ir dormir não o fazem?

03 janeiro 2021

Somos todos Vitinho ?!




O Vitinho passava na televisão a uma hora certa com uma mensagem que dizia às criancinhas: “Está na hora da caminha, vamos lá dormir”. As recorrentes e abrangentes restrições decretadas nestes tempos parecem-me num nível de tratar o povo todo como “Vitinhos”. Em março de 2020, quando a pandemia disparava sem se saber onde iria parar, na surpresa e incerteza generalizadas pode-se aceitar um grandes/incertos males, grandes (tentativas de) remédio.

Hoje, continua a ser necessário regulamentar comportamentos e estabelecer restrições, mas já deveríamos estar num ponto mais afinado e seletivo, menos bruto. Certo para alterações de horários de funcionamento, certo para limitar reuniões, políticas e outras, certo para impor distanciamentos, desinfeções e máscaras, mas … impedir a circulação ou a travessia de fronteiras concelhias é abusivo quanto aos direitos e excessivo quanto aos efeitos. Se, por exemplo, um sábado à tarde me apetecer ir ao Gerês apanhar ar, apenas isto, não estou só por isso a potenciar o alastramento do Covid-19.

Alguém aceitaria ser linearmente proibido de conduzir ao fim de semana para limitar acidentes rodoviários? Há regras elaboradas com esse objetivo, mas não são de cortar o mal e a raiz. Existem vários exemplos de comportamentos individuais irresponsáveis que podem pôr em risco terceiros, mas mal estaríamos se o tratamento fosse a castração sistemática e um polícia em cada esquina! Não, não queremos ser Vitinhos!

Atualizado em 04 01 com imagem da publicação no "Público".

31 dezembro 2020

O Sol também nasce


Mesmo em tempos de noites longas, o Sol acaba por nascer. Mesmo no final de um ano que tantos espíritos escureceu, o Sol também nasce.

Mesmo depois de uma passagem de ano com festejos anulados, condicionados ou proibidos, o Ano Novo nascerá.

Em cada dia, em cada Ano, haverá cores vitais a cintilar, aquecendo ânimos e repondo energias.

Para todos aqueles para quem o 2020 foi duro, o Sol também nasce.

2020 era um número bonito. “Objetivos 20-20”; “Agendas 20-20” foram durante muito tempo chavões sonantes de estratégias e de ideias mais ou menos esclarecidas, mais ou menos consequentes, antecipando um ano especial. Ironicamente 20-20 acabou por ser um ano mesmo muito especial que rompeu previsões, desorganizou objetivos e baralhou todas agendas.

Mas o Sol também nasce. Cada qual no seu canto, escondido ou exposto, sobrevivente de uma travessia inesperada, procurará um local onde respirar a luz que virá, inspirara-la a fundo, perscrutar horizontes, arriscar caminhos e… acreditar que o Sol sempre nasce. Força nisso! 

30 dezembro 2020

Espetáculo

 

O início da campanha de vacinação contra o Covid-19 é efetivamente um momento marcante, que esperamos venha a marcar um antes e um depois nesta época estranha que estamos a viver. Compreende-se que o momento seja divulgado e mediatizado, mas o espetáculo tem limites. Para que serve aquele aparato policial, como se fossem transportadas barras de ouro? Se eventualmente alguém conseguisse roubá-las, que faria com elas, dadas as dificílimas condições de transporte e armazenagem?

Cereja em cima do ridículo o bloqueio da escolta da GNR em Évora, pela PSP, por disputa de jurisdição. Se um criminoso em fuga atravessar uma destas fronteiras, os seus perseguidores não continuam? Não sei, mas depois das desafinações entre a PJ e a sua congénere militar em Tancos, só faltava ver este belo espírito de colaboração em que a formalidade rígida supera o mínimo bom senso e perguntamos: Não têm mais com que se preocupar? Nos casos sérios em que é mesmo necessário diálogo e cooperação entre das duas forças policiais, é este o espírito que prevalece?


07 dezembro 2020

Função e estatuto

 Nos tempos que correm, de luta contra a propagação do Covid-19, as restrições de circulação visam obviamente forçar o pessoal a ficar em casa, a menos que haja algo mesmo essencial que obrigue a sair. O cidadão lambda está, portanto, confinado, a menos de necessidades bem caraterizadas.

Curiosamente, há exceções que não funcionam pela necessidade, mas pelo estatuto. Exemplo a Resolução do Conselho de Ministros n.º 89-A/2020 sobre a limitação de circulação entre concelhos, prevê nas isenções - c) Aos titulares de cargos políticos, magistrados e dirigentes dos parceiros sociais e dos partidos políticos representados na Assembleia da República;

Se eu bem entendo, aqui, um dirigente de um partido, mas apenas dos da primeira divisão, note-se, pode circular, independentemente da razão. Tem lógica? Não!

Entretanto, achamos muito divertido que o Presidente da República tenha um esquema para não deixar de dar o seu mergulho e anda meio país escandalizado por alguém ter oferecido umas garrafas de vinho a um polícia para furar o confinamento. Certo, não é comparável, já que o primeiro caso não sai da legalidade e o segundo sim, mas… num país em que esta corrupção é justamente considerada primeira página, seria eu muito feliz.

29 agosto 2020

“Reguengolaniar”


 

O triste relato e retrato dos acontecimentos em Reguengos de Monsaraz tem um significado que ultrapassa o lar de idosos da cidade alentejana e o contexto da atual pandemia. Tanta falha, desleixo, irresponsabilidade e inação são um sinal de um sistema disfuncional. E este problema não é certamente exclusivo de Reguengos. 

 Em quantas direções, administrações, regionais ou municipais e outras que tais estão nomeados/colocados dirigentes/responsáveis desprovidos de cartão partidário, simplesmente pela sua competência? Em quantas cidades e vilas o poder autárquico e autocrático sustenta e controla uma fatia excessiva da sociedade/economia local, asfixiando e condenando toda iniciativa ou critica que o possa questionar e fazer “avançar a terra”? 

 Qual é o contrapeso que trava estes pesos pesados? As eleições e a alternância democrática? Teoricamente sim, mas a prática prova que estes sistemas acabam por se enraizar de tal forma que sobrevivem com facilidade a esse escrutínio, amplificando até a cada mandato a sua pegada sufocadora. 

Falta contrapeso e esse escrutínio e freio são fundamentais ao saudável desenvolvimento do país, especialmente do interior. Depois, não vale a pena chorar… 

Infelizmente este flagelo acaba por ser vertical, atingindo vários níveis do poder, embora em níveis mais elevados a visibilidade seja maior e a vigilância potencial mais elevada. Ou, nem por isso… a nomeação de Vitor Escária como chefe de gabinete do nosso primeiro ministro (que tão bem se portou neste processo) poderia ter sido mais escrutinada.

05 maio 2020

Legitimidade


Independentemente de considerações técnicas linguísticas mais elaboradas, ser legítimo, na raiz, significa de acordo com a lei. Para lá da conformidade com a letra das normas formais, pode-se invocar legitimidade noutras situações. Por exemplo, é legitimo ter a expetativa de uma vida melhor e será tão mais formalmente legítimo quanto a lei não o proíbe.

Mas também há ruturas na legitimidade. Por exemplo, uma revolução nunca será legitima à luz do quadro vigente, pela simples razão de que certamente nenhum código prevê e enquadra uma transição de poder dessa forma. Aí teremos a chamada legitimidade revolucionária, indispensável, mas que se quer transitória. E não faltam revoluções em que os seus líderes se “legitimam” donos do poder ad eternum, mesmo à revelia do programa inicial. O "Ganhamos, é nosso!", foi um princípio infelizmente adotado em muitas independências pós-coloniais.

Depois, há as auto-legitimizações, em que se trata de reformatar, adaptar a lei com o único objetivo de servir um interesse particular e não o geral. Por exemplo, mudar uma Constituição para eliminar a limitação de mandatos, quando o Presidente em funções chega ao limite.

Tudo isto vem a propósito das comemorações do 1º de Maio pela CGTP em Lisboa. À luz das regras gerais em vigor no dia era ilegítima, iníqua e irresponsável. O fato de na regulamentação do estado de emergência, ter sido acrescentada uma alínea muito especifica a legitimar o evento, pode ter resolvido o problema formal, mas não resolve o problema de fundo, pelo contrário. Um xadrez que se dispensava ter sido jogado.

20 abril 2020

A OMS está doente?


Dentro da polémica levantada pela ameaça de D. Trump de cortar o financiamento dos USA à OMS, por esta supostamente estar demasiado alinhada com a China, e independentemente da razoabilidade e da justificação para tal medida, encontrei a referência a um tweet da organização, publicado em 14 janeiro, acima reproduzido e aqui referenciado.

O tweet informava que, à data, segundo as autoridades chinesas não havia evidencia clara que o Covid 19 fosse contagioso entre humanos! Portanto a China enganou a OMS, descaradamente, esta acreditou e reproduziu ingenuamente a patranha. Posteriormente, ao constatar que tinha sido aldrabada não a vi dar nenhum raspanete valente à China, pelo contrário, só me recordo de elogios à forma como o país estava a lidar com a epidemia.

Obviamente que o papel da OMS não termina aqui e enviablizá-la não é solução, mas que a gestão desta crise foi muito pouco saudável e a necessitar de algum tratamento, sem dúvida.

15 abril 2020

Sensações de segurança


Estou a considerar seriamente deixar de usar capacete de proteção ao andar de bicicleta. Dá-me uma falsa sensação de segurança. Se um automóvel desgovernado me abalroar, não garante que me safe. Ainda por cima, se não o souber utilizar, não o apertando, aí não servirá mesmo para nada. Não entendo sequer porque me obrigam a usar capacete de moto, não me salvará de tudo, tão-pouco.

Mesmo o ABS nos automóveis não é assim uma grande ideia. Dá uma falsa sensação de segurança. Mesmo fechar à chave a porte de casa… não garante que não seja assaltado.

Não faltam exemplos de coisas que contribuem positivamente, mas sem garantirem e parece-me que a questão da utilização de máscaras no contexto atual de pandemia entra nesse capítulo. Sendo que tanto protegem a entrada como a saída do bicho e considerando a existência de contaminados assintomáticos, é obviamente absurdo sugerir a sua utilização em função dos “sintomas”…

Obviamente que se não há máscaras suficientes para toda a gente, deve ser dada prioridade a quem delas mais precisa, mas se não há XPTOs, inventem, improvisem, XPTPs ou XPTQs, que não garantam mas contribuam. O que não faz sentido é eu ir ao supermercado e mais de metade do pessoal andar por ali sem máscara…

09 abril 2020

Depois


Wuhan, até há pouco tempo o nome de uma cidade chinesa que poucos reconheceriam ou conseguiriam apontar num mapa. Num daqueles horripilantes mercados de animais vivos, um vírus viajou e entrou na espécie humana. Depois, o regime chinês tentou abafar a divulgação da má noticia, atrasando dramaticamente a sua identificação e contenção inicial.

Já em 2002 o SARS, com algumas analogias, tinha posto o mundo de sobreaviso. Se este seguisse o mesmo caminho, os estragos seriam limitados e aceitáveis, pelo menos para o nosso mundo. Sobranceria? Depois, passou aos países vizinhos, de onde se acreditava que não sairia de forma significativa.

Seguia-se a evolução, em primeira mão, no Asiatimes e especulava-se, à distância, sobre o efeito da paragem chinesa na cadeia de fornecimento global. Apesar do tempo perdido pelo encobrimento inicial chines, ninguém viu vir o que estava para vir. Esperou-se calmamente com medidas prévias que provaram ser manifestamente inadequadas. Depois, passamos a ver as notícias principais nos jornais europeus.

O mundo descobriu que o bicho era simplesmente incontrolável, silenciosamente transmissível, com uma facilidade e uma eficiência alucinantes. Ninguém está a salvo, nem se sabe bem onde estarão exatamente os 4 a 5% dos casos complicados. Lentamente, o nosso mundo foi perdendo a descontração de que era apenas uma coisa longínqua, no limite uma gripe mais forte, para ser algo que nos poderia fazer despedir definitivamente de um próximo querido. Demasiado lentamente. Já com a noção clara de que o bicho era muito mais perigoso do que inicialmente se pensava, em 8 de março houve amplas manifestações em muitas capitais europeias e a 15 de março França foi a votos.

Vivemos a urgência sanitária, de ver a evolução diária das estatísticas, da emoção dos que sofrem sós e dos que partem desacompanhados. Quase que já há notícias de outra coisa nos média. Entretanto, apercebemo-nos de que a brutalidade das medidas de contenção e mitigação da epidemia provocarão feridas brutais ao tecido económico e social. Depois, o mundo sairá daqui diferente, atividades económicas desaparecerão e comportamentos sociais mudarão.

Para lá do que tudo o que cada um pode fazer por si e por todos, o Estado tem um papel fundamental neste momento, mais do que talvez nunca teve nas últimas décadas. Há uma fase transitória de responder ao problema sanitário e de atender às primeiras necessidades económicas e sociais. Mas ele próprio tem limites, como amargamente já descobrimos num passado recente. Não vai poder acudir a tudo para sempre.

Depois da estabilização sanitária, que nem sabemos quando virá nem como, há dois desafios cruciais para a sociedade. Sobriedade e seriedade no acesso e utilização das ajudas estatais transitórias e iniciativa e empreendedorismo para se reposicionar na nova realidade. Depois de contados os mortos e fechados os hospitais improvisados, o pior que poderá acontecer é vermos enraizada uma dependência permanente e insustentável das ajudas do(s) Estado(s), ainda pior com alguma inevitável desonestidade à mistura. Porque aí a tolerância será pequena e mudanças mais profundas serão possíveis, como o colapso e transfiguração radical do sistema social e político. Só com lideranças sérias e esclarecidas, apesar de o passado recente não ter sido bom exemplo, e sociedade civil responsável e exigente, podemos encarar um depois que não seja um final definitivamente dramático.

06 abril 2020

Depois da Primavera


A Primavera parecia vir adiantada. As amendoeiras floridas até coincidiram com o Carnaval. À data havia 80 mil casos a nível mundial, mas apenas 34 mortos fora da China e 7 na Europa (6 em Itália e 1 em França), dados da OMS. E foram as deslocações nas férias de Carnaval as principais responsáveis pelo grande espalhar do bicho na Europa.

Era antes do tempo, mas era uma Primavera pujante, confiante e festiva. Estavam longe as nuvens e acreditávamos que as condições e o sistema sanitário na Europa não eram iguais os da Ásia. Afinal, de falsos alarmes já estávamos cheios. O próprio Presidente da República vai a Podence para um banho de multidão. Imagens com pouco mais de um mês, mas que hoje parecem de há um século.


Na data oficial, a Primavera não chegou, foi suspensa. Podem ainda lá estar flores, mas não as vemos. Já não podemos atravessar rios nem cruzar cordilheiras. Não há pessoas em quem tocar. Desconfiamos do calor humano, fugimos, damos distancia. Os olhares cruzam-se receosos e apreensivos, sorrisos são apagados. Desaparecem os lugares onde se possa rir ou chorar, ou partir ou chegar, ou cantar ou amar.

A Primavera está suspensa, sim, mas um dia chegará. Como depois de um fogo devastador, de rescaldo delicado, sairemos de novo à rua e haverá cinzas. O bicho terá queimado vidas, sonhos, ganha pães, projetos e alentos. As cinzas serão varridas para dar lugar a um novo campo deserto, ou por lá ficarão fecundando o que irá renascer. Ou, quem sabe, nalguns lugares estarão intactos frutos sobreviventes, resistentes. Entre o que muda e o que fica, não sabemos como ficará, mas a Primavera chegará.