23 dezembro 2016

Natal plural


É nesta mesma lareira, e aquecido ao mesmo lume, que confesso a minha inveja de mortal sem remissão por esse dom natural, ou divina condição, de renascer cada ano, nu, inocente e humano como a fé te imaginou, Menino Jesus igual ao do Natal que passou.
(Miguel Torga).

Entremos, apressados, friorentos, numa gruta, no bojo de um navio, num presépio, num prédio, num presídio, no prédio que amanhã for demolido... Entremos, inseguros, mas entremos. Entremos, e depressa, em qualquer sítio, porque esta noite chama-se Dezembro, porque sofremos, porque temos frio. Entremos, dois a dois: somos duzentos, duzentos mil, doze milhões de nada. Procuremos o rastro de uma casa, a cave, a gruta, o sulco de uma nave... Entremos, despojados, mas entremos. Das mãos dadas talvez o fogo nasça, talvez seja Natal e não Dezembro, talvez universal a consoada.
(David Mourão Ferreira).

Natal... Na província neva. Nos lares aconchegados, um sentimento conserva os sentimentos passados. Coração oposto ao mundo, como a família é verdade! Meu pensamento é profundo, estou só e sonho saudade. E como é branca de graça a paisagem que não sei, vista de trás da vidraça do lar que nunca terei!
(Fernando Pessoa).

Natal é sempre o fruto que há no ventre da mulher
(Ary dos Santos)

20 dezembro 2016

Quero ir a um mercado de Natal

Onde estava e onde soube dos acontecimentos de ontem não há mercados de Natal, mas, se os houvesse, garanto que iria a um. Ainda não sei quando, nem onde, mas hei-de sair à rua de novo, no âmbito da quadra natalícia. E voltarei a sair as vezes que me apetecer no Porto, em Braga, em Paris ou em Berlim. Ponto final, parágrafo.

O embaixador russo foi assassinado em Ancara por um individuo que teve tempo para ficar exposto no local, umas largas dezenas de segundos a explicar ao que vinha e a dar alguns tiros esporádicos. Desta vez não era curdo; tivesse sido abatido de imediato e ainda se podia ter colocado essa hipótese tradicional.

Alepo tornou-se um símbolo do horror da guerra e há motivos para isso. No entanto não será mais martirizada do que Áden. Para quem não sabe, fica no Iémen, país que está a ser bombardeado e dilacerado há mais de ano e meio. Porque é que agora Alepo é um símbolo? Devido à intervenção musculada da Rússia, às alterações potenciais dos equilíbrios geoestratégicos e, também, às paixões positivas e negativas que o tema arrasta.

Que me perdoem os habitantes de Alepo que sofrem e morrem, mas o seu mediatismo recente é excessivo face ao esquecimento a que estão votados os seus irmãos iemitas e outros que apenas têm o azar adicional de não serem bombardeados por alguém suficientemente exposto à opinião pública ocidental.

16 dezembro 2016

A culpa das intervenções imperialistas


É argumento habitual de alguns regimes tristes como os castristas, os chavistas e outros paralelos ou sucessores dizer que as coisas não correm bem fundamentalmente devido a intervenções e perturbações provocadas por inimigos imperialistas. A sua incapacidade, incompetência e até mesmo desonestidade supostamente não pesam nos destinos azarados do seu país. A culpa é sempre dos boicotes externos.

O que eu nunca imaginaria era um dia assistir a uma narrativa destas da parte do Partido Democrático americano. Pelos vistos, a eleição de Donald Trump foi devida/influenciada pela intervenção dos russos! É evidente que os russos tentam intervir nos EUA, estes na China e em todo o lado e a China só onde não puder. Não há aqui espaço para virgens ofendidas, dado que as mesmas não existem nestes círculos.

A ser verdade, a ter existido uma manipulação ou influencia decisiva da Rússia, pobre democracia americana que afinal, mais do que contaminada pelos milionários donativos, estará condicionada pelos imperialistas soviéticos. O ego do Putin deve ter crescido para o dobro com a notícia. De recordar que, supostamente, matéria-prima para manipulação mediática existiria dez vezes mais do lado de Trump, do que do Clinton, da qual apenas ouvimos falar de uma utilização imprudente e indevida de uma conta de email pessoal.

Seria melhor que os Democratas americanos e outros paralelos olhassem um pouco para dentro antes de embarcarem nestas argumentações terceiro-mundistas.

10 dezembro 2016

Ne me quittes, quoi?


Já tive oportunidade de expressar aí para trás a enorme admiração que tenho pela inteligência, sensibilidade, inspiração, humanidade, persistência e determinação do grande Jacques.

Um dos seus temas mais populares é o “Ne me quittes pas” e pode-se questionar se faz sentido alguém, por amor, dispor-se a ser “a sombra da tua sombra, a sombra da tua mão, a sombra do teu cão…”.

Acho que há duas leituras possíveis do poema. Essa, mais direta, com um suposto destinatário concreto, uma Marieke, Madeleine, Mathilde ou Isabelle, mesmo sem estar explicitamente nomeado. Outra, alternativa, não tem um nome próprio associado. Brel fala ao amor, à capacidade de se enamorar, à possibilidade de se apaixonar, coisa que, falhando, até os reis morrem.

E isso deverá será sempre possível, porque até do vulcão mais morto o fogo pode brotar de novo, porque mesmo nos campos mais áridos podem voltar a nascer pujantes searas.

Enfim, a poesia não tem que ter leitura única e redutora. Ao fim ao cabo, tantas vezes, são apenas palavras insensatas, mas que alguém entenderá, nem que seja invocando pérolas de chuva de terras onde nunca chove.

08 dezembro 2016

O significado do 1ª de Dezembro

Achei assaz caricatas as argumentações em torno da importância da re-celebração do feriado do 1º de dezembro, por parte de alguns cortesões e seus arautos. Não falhou a quase coincidência da visita dos reis de Espanha para dar mais enfase e dramatismo à “importância da coisa”. Não se defenestraram os Vasconcelos, responsáveis pela anterior supressão do feriado, mas vontade não te faltou.

Sejamos práticos. Antes, alguém achou que devíamos trabalhar mais e suprimiram-se alguns feriados, incluindo este; agora dizem que a coisa estará melhor, repõem-se e o pessoal gosta, independentemente de ser o dia da restauração da República, do gaspacho algarvio ou dos rojões à moda do Minho (esta última opção proporcionaria uns programas de comemoração interessantes…!).

Mais importante do que comemorar a restauração é trabalhar para manter essa tal independência. Aliás, não me parece fazer sentido comemorar a restauração e ignorar a proclamação inicial. A batalha de S. Mamede ou de Ourique, não merecem nada? E a de Aljubarrota? E o dobrar do cabo Bojador ou do da Boa Esperança? E o Eça e o Fernando Pessoa?

Não se enganem com estes auratos trauliteiros. Se para ganhar ou manter o poder, for necessário celebrar o nascimento de Madre Teresa de Calcutá, a morte Fidel Castro ou até mesmo todas as Luas Cheias… eles já lá estão!

06 dezembro 2016

Reduz as necessidades?


Os dias de reparação de uma avaria colocaram-me nas mãos um modelo de telemóvel duas gerações atrás do atual. Esta marca tem a facilidade de conseguirmos replicar a configuração de um aparelho e assim o substituto ficou quase igual ao original.

Dentro do quase que não era igual, estava o tamanho até para melhor, mais tamanho de telemóvel. A seguir, a velocidade, incrivelmente mais lenta. Quando o anterior seguia os meus toques a toque de caixa sem protestar, para este não valia a pena dar muitos toques seguidos, era um de cada vez e vamos com calma.

Ora bem, esta limitação tem algo de didático. Será que eu precisava mesmo de dar os outros toques seguidos e andar para trás e para a frente, tantas vezes sem acertar à primeira com o que realmente queria fazer? No caso do substituto diminuído, eu era obrigado a pensar mesmo no que queria fazer e a tentar ir direto ao objetivo, já que o andar para trás e para a frente era penoso.

Aos poucos ou aos muitos, perdemos a noção da limitação das capacidades neste campo dos bits e dos bytes, que agora até já só se medem dos giga para cima. Desdobramos e replicamos informação, sem conta nem medida. A facilidade de clique e desclique, para a frente e para trás, vista ao longe, sem som nem legendas, faz-nos parecer baratas tontas. Por um lado é ótimo não sentir limitações, por outro lado não o gerir é mau. Quando precisarmos, provavelmente não saberemos.

“Reduz as necessidades, se queres passar bem”. Jorge Palma

05 dezembro 2016

Inimigo do inimigo

O inimigo do nosso inimigo pode ser um aliado útil, especialmente num contexto de guerra, num dado momento, dentro de táticas de curto/médio prazo. Como o mundo não é a preto e branco, possui várias dimensões (nem se divide apenas entre direita e esquerda), essa solidariedade automática com o inimigo do inimigo, é muitas vezes uma simples manobra oportunista. Uma vez derrotado o inimigo, o casamento de conveniência corre o risco de não sobreviver à vitória, caso as diferenças de fundo permanecem e sejam significativas.

Estas considerações vêm a propósito do incensar da figura morta de Fidel Castro, a quem a esquerda reconhece o grande mérito de se ter oposto e desafiado um inimigo comum, o EUA. No entanto, a falta de liberdade no país, o subdesenvolvimento económico, as enormes desigualdades sociais entre as figuras do regime e o povo, as perseguições por delito de opinião, chegando às execuções, parecem ser irrelevantes para quem prefere destacar as cirurgias oftalmológicas oferecidas e o acolhimento de algumas crianças de Chernobyl. Evita Perón oferecia vestidos de noiva e máquinas de costura e o povo adorava-a; penso que a esquerda “engagée” nem tanto.

Esta brutal incoerência pode ter duas origens: ou uma espécie de cegueira, que perdoa tudo aos “nossos”; ou considerar que ainda estamos em guerra e, sendo assim, todos os inimigos do inimigo são para apoiar... até mesmo a Coreia do Norte ? Em ambos os casos, não falem em princípios, pode ser?

29 novembro 2016

Teslinhas

O Sr Elon Musk é um tipo incrível. Para convencer o mundo de que os inovadores carros elétricos não são do outro mundo para as suas capacidades tecnológicas, anuncia uma fasquia um bom pedaço mais para cima: quer colonizar e colocar pessoas a viver em Marte, já em 2022!! Para quem se propõe tamanho desafio, carritos elétricos são tremoços… É um pouco como a Amazon querer distribuir encomendas por drones, a agência publicitária Google desenvolver veículos autónomos ou … a Efacec, para quem sabia fazer AGV’s, transformadores seriam canja.

A Tesla, automóveis, é uma história de expetativas, consegue levantar fundos nos mercados, mantém uma cotação das ações interessante, mas continua a ter dificuldade em ganhar dinheiro, pelo menos que se veja. No entanto, é uma atividade muito sexy e o pessoal excita-se com aquilo.

Anuncia-se uma fábrica para Europa. Tenho algumas dúvidas se isso será mesmo para avançar a curto prazo, ou é mais uma forma de gerar expetativas e assim conseguir convencer os investidores a avançarem com mais uns cobres.

Tão sexy a coisa é que já anda meio país aqui excitado… com a expetativa. Qualquer presidente de camara, ou associação recreativa, vem à praça apregoar a adequação maravilhosa do seu terreiro ao projeto. Imaginem que o nosso país até tem a vantagem competitiva de possuir um grupo de apoio no facebook (leio isto na imprensa séria)! O sr Musk e os investidores potenciais devem ficar extraordinariamente sensibilizados e irrevogavelmente convencidos.

Dependendo muito, obviamente, dos detalhes (e nos detalhes é que aparece o diabo), à partida seria bom que a eventual fábrica viesse para Portugal. No entanto, em vez de andar meio país excitado a berrar “Eu quero a Tesla, eu quero a Tesla!”, porque não pensar em criar condições de sucesso para as pequenas teslinhas que por aí andam a penar? Não serão tão sexys, mas são mais certas.

21 novembro 2016

A responsabilidade dos políticos, revisitada

Este texto meu, de fevereiro de 2004, foi publicado no Público do dia 10 desse mês. Hoje, Alain Juppé, que afinal não morreu, é notícia por ter passado à segunda volta das primárias de direita para as presidenciais francesas.

Caso seja ele a ir a votos, é muito provável que se encontre face a face com Marine le Pen. Depois, o pessoal surpreende-se com as “Trumpices”.

A responsabilidade dos políticos.

A França está em “estado de choque”. O brilhante Alain Juppé, delfim e potencial sucessor de Chirac e presidente do partido no poder foi condenado a 18 meses de prisão com pena suspensa e 10 anos de inelegibilidade. As reacções são curiosas: 10 anos de inelegibilidade para um “eleito” são equivalentes a uma morte cívica e mesmo quase a uma morte civil. A sentença é desproporcionada. Os juízes têm demasiado poder; deveriam ser antes um “serviço público de justiça”. A juíza é de esquerda e é casada com um americano!

Os juízes foram pressionados. Os seus gabinetes foram visitados por empregados de limpeza super-diligentes que, face a uma porta fechada, entraram pelo tecto falso. Mas, se houve pressões, talvez seja motivo para anular o julgamento. É a estupefacção num país em que os políticos têm tradição de inimputabilidade. Que acusa Berlusconi de “fazer leis de auto-protecção” mas que se recusa o tocar no seu próprio presidente da república. O curioso é que por detrás dos comentários parecem não existir dúvidas sobre o facto de a lei ter sido efectivamente violada e que, aparentemente, a responsabilidade deveria chegar ao próprio Chirac. Ao mesmo tempo ignora-se que os juízes se limitaram a aplicaram uma lei votada quase sem discussão pela actual maioria para disciplinar o financiamento dos partidos. […]

Por trás de toda esta problemática, em França e não só, está e continuará a estar o cancro da democracia que é o financiamento dos partidos e o tráfico de influências associado. Que o estado nunca será pessoa de bem enquanto este assunto não for encarado, legislado com isenção, a lei aplicada com rigor e a justiça feita com objectividade. Até lá continuaremos a viver em estados podres.

18 novembro 2016

E não há tampa para o buraco

A CGD é um banco público e dizem que fundamental como instrumento para o desenvolvimento da economia nacional. A CGD tem um buraco que vai implicar altos custos para os contribuintes. Uma das parcelas principais vem de empréstimos feitos a empresas/entidades envolvidas na luta pelo controlo no BCP. Ou seja, o instrumento público fundamental envolveu-se numa luta de comadres, ficou a arder e agora pagamos nós.

Parece claro que tapando-se o buraco, de um forma ou de outra, será necessário mudar de vida, que é como quem diz, a CDG deixar de ser um instrumento de controlo e propaganda política, a origem da maioria das suas desgraças. Precisará de banqueiros a sério e não de comissários tipo Armando Vara. O seu vencimento é demasiado elevado? Provavelmente sim (não só o deles), mas é uma situação de mercado, que não muda de um dia para o outro e o mais caro é sempre a incompetência.

Para poder encaixar os profissionais da banca na CGD, foi necessário alterar a legislação do “gestor público”. Ao fazê-lo e ao aprová-lo os nossos políticos assumiram que o tal estatuto é incompatível com as necessidades da CGD, face ao mercado. No imbróglio atual, parece evidente que alguém terá assegurado à nova equipa que a exceção criada incluía a dispensa de apresentar publicamente as declarações de rendimentos. Como o assunto “empancou” na opinião pública, agora ninguém disse nada, ninguém sabe de nada e as leis são para cumprir… enquanto os novos gestores parecem querer insistir em ver mantido o acordado.

Mais dia, menos dia este assunto estará de uma forma ou de outra encerrado, mas, para o futuro, quem serão os profissionais, qualquer que seja o setor, que acreditarão na palavra dos políticos, prontos a recuar e a se desdizerem à mais simples berraria populista? Não precisamos de gestores assim…? Pelo menos não voltem com os “Armandos Vara”, eles não estão perdoados.

Neste embrulhada, digna dos famosos e épicos tempos de Santana Lopes, o nosso irritante PM afirma em Madrid, contentinho, que o sistema financeiro português saiu do impasse…

17 novembro 2016

Depois do dia seguinte

A vitória de Trump, improvável e até mesmo impossível na ótica de quem julga(va) saber o que vai ser este mundo, aconteceu. Numa primeira reação acreditei que o Trump Presidente seria bastante diferente do Trump candidato, como, de certa forma, a discurso da vitória pressagiava. Pensava eu que, face a um candidato manifestamente mal preparado, a diferença, positiva ou negativa, dependeria do aparelho que o viesse a rodear e a guiar… a quem ele delegasse a chatice de governar mesmo.

No entanto, o que se está a ver agora (não) acontecer aumenta a minha preocupação. Dentro dos potenciais nomeados para a sua equipa, há gente com ideias estranhas, mas, mais preocupante, são aqueles que tiveram ações perigosas, tais como John Bolton, um dos grandes responsáveis pelas manipulações feitas pela administração Bush e, nomeadamente, pela construção da fantasia das armas de destruição maciça no Iraque. Tem bastantes inimigos entre as pessoas sérias deste mundo.

Trump transmite a imagem de um candidato não preparado, mas inebriado pelo poder. Extramente preocupante é o grau de envolvimento da família. Que um Presidente apresente socialmente a primeira-dama, é uma coisa; que se rodeie de filhos e genros no melhor espírito tribal terceiro-mundista é muito inquietante. Ou é porque não encontra mais ninguém em quem confiar, o que é alarmante; ou por querer deliberadamente concentrar o poder (e os seus proveitos?) num círculo restrito, o que é assustador, especialmente para a escala e as responsabilidades mundiais do país em questão, que não se pode transformar numa United Trump States Corporation.

No fim, o problema principal do populismo não é a sua ação; é a sua herança.

11 novembro 2016

Nos campos das papoilas


Nos campos de papoilas, onde outrora se acharam as trincheiras, há campos que permanecem minados por projeteis não explodidos, ainda não achados. Há demasiadas lápides fúnebres e tantas delas tão simples como “A Soldier of the Great War – Known unto God”. No memorial de Thiepval estão os nomes de 72000 soldados desaparecidos na batalha do Somme de 1916, de destino desconhecido. 


Uma coisa é ler uma descrição de algo onde, somente no primeiro dia, houve mais de 20000 mortos. Outra coisa é ver o filme no museu de Albert onde desfilam as imagens dos locais: La Boisselle, Poizières, Thiepval, Beaumont-Hamel. Muito mais do que isso é atravessar a região e ver como tudo é tão perto, como logo a sair ao inferno dos australianos, foi um dos ingleses, depois o dos irlandeses e do outro lado do riacho está os da Terranova. Os cemitérios militares são a imagem de uma colheita sinistra. De uma colheita que não se renovou, morreram definitivamente, e que não queremos ver renovada. 

Todas as guerras são estúpidas e insensatas. A Grande Guerra talvez mais um pouco, por uma certa ligeireza nas suas causas diretas e pela brutalidade e insensibilidade da imagem dos soldados a saírem em massa das trincheiras, tantos deles para caírem escassos metros à frente. No mesmo museu acima referido, a estatística diz-nos: 8 milhões, 538 mil, 315 mortos em toda a guerra.

11 de Novembro, dia do armistício, dia da papoila ao peito. Um armistício que não evitou uma nova grande guerra, apenas 20 anos depois. Entretanto, já passaram mais de 70 anos sobre o final da última grande guerra na Europa. Foi a última? Acredito que sim, mas nunca facilitando.




10 novembro 2016

Trump, Bush, Lula e Sanders

Contra todas as previsões e racionalidades, Trump ganhou. Ou, talvez, tenha sido antes Hillary quem perdeu, por desgaste da imagem e descrédito nos simples eleitores, saturados do sistema vigente. Se do lado Democrata estivesse um antissistema como Sanders, o seu resultado teria sido melhor do que o de Clinton e eventualmente venceria? Um cenário não menos inquietante…

Como vai ser na prática a ação de um líder assustadoramente diferente do modelo e dos valores tradicionais, que estamos habituados a ver? Encontro algum paralelo, noutra latitude geográfica e politica, com a eleição de Lula da Silva no Brasil em 2003. Um sindicalista ex-operário que destronou as famílias tradicionais do sistema. Hoje, vendo à distância, e como as investigações em curso vão levantando, a rutura com o “sistema” não foi assim tão significativa como inicialmente previsível.

Trump está mal preparado, talvez não muito diferente de George W. Bush, apenas com a diferença de que esta pertencia a uma dinastia do sistema e tinha mais tento na língua. O problema principal com Bush veio dos seus conselheiros, decididamente maus conselheiros. A esperança é que a prática de Trump, e no discurso da vitória já mostrou mais tento na língua, seja suficientemente influenciada por conselheiros razoáveis, o que quer que isso seja exatamente, esperando bem que não venham da mesma cepa.

O problema maior é que, depois do populismo falhar, a fase seguinte é muito imprevisível e incontrolável.

07 novembro 2016

O orçamento e o real

De orçamentos de Estado entendo pouco, mas orçamentos em geral já me passaram muitos pelas mãos e o princípio é sempre o mesmo. Ao longo do ano compara-se o realizado no ano com o previsto em orçamento e com o realizado no ano anterior. Para o ano seguinte, é tudo igual, apenas avançando um ano.

Na preparação de um novo orçamento os valores previstos para o ano seguinte são comparados com a realização/previsão do ano em curso. Sendo conhecido um valor mais atual e fiável para o realizado, ninguém irá comparar as previsões com o orçamentado feito um ano antes e, eventualmente, não cumprido.

Havendo diferenças entre o orçamento inicial e o realizado final, alguém levará nas orelhas ou será agraciado, conforme a natureza do desvio, mas uma coisa é certa… no final de cada ano o orçamento, “previsão”, morreu, substituído pela “realidade“ constatada.

Isto vem a proposta da polémica com os aumentos e diminuições das verbas, por exemplo para o ensino no orçamento de Estado. Orçamentou-se 100 e gastaram-se 120. Para o ano seguinte orçamenta-se 110 e chama-se a isto um aumento. Aritmeticamente é efetivamente um aumento face aos 100 homólogos, mas as comparações devem ser feitas entre o que faz sentido. Entre um número inicial errado e um atual certo, é absurdo considerar como base o que já se sabe estar errado.

Cereja no topo do bolo foi o ministro dizer que “já se sabe”, que o real será sempre superior ao orçamentado e assim, na prática, sendo expetável que o valor final real atinja os 130, haverá um efetivo e real aumento. Pois... só que isso não se chama “orçamentar” – chama-se brincar com verbas. E parece que ninguém está a/vai levar nas orelhas por isso.

03 novembro 2016

Coisas dos gostos na rede

Há uns dias, e por exceção excecional, interpelei uma figura pública na sua página facebook, achando que ele estava a apresentar uma posição mal fundamentada. Questionei-o se conhecia a “organização X”, bastante relevante no contexto em causa. Tive direito a uma resposta relativamente rápida, do género de declaração de ignorância. Dizia não conhecer, mesmo apesar da sua vivência, e deixava-me em desafio, com uma ponta de ironia, um convite a explicar.

Lá me apliquei a responder com uma exposição relativamente detalhada, resultando que a declaração irónica de ignorância era efetivamente infeliz. O senhor não respondeu nem comentou mais. Pode ser normal devido à grande quantidade de interações e solicitações, apesar de ter posteriormente comentado outras linhas abertas no mesmo post, talvez porque nessas ele “tinha razão e argumentos”.

O que eu achei mesmo delicioso foi que, antes de eu responder, a declaração de ignorância tinha 2 ou 3 gostos. Já depois da minha resposta a contagem subiu até aos 17, sem uma única reação na minha explicação. Diz bastante do “ouço apenas o que quero ouvir”.

Radicalização não é só a da kalashnikov. A intelectual também faz muitos estragos.