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06 fevereiro 2026

Fazer de conta (uma vez mais...)

Não foi a primeira vez, nem será certamente a última. Face a uma situação não rotineira, o aparelho do Estado entra em modo barata tonta, sem rumo nem determinação, como se tivesse aterrado num mundo alienígena, que é preciso “aprender”. Enquanto pessoas desesperadas e desalojadas caem dos telhados ao tentarem proteger o que lhes resta das suas casas semidestruídas, enquanto isso… um ministro produz vídeos de autopromoção, outro levanta uma barraca e leva uma dúzia de militares com motosserras a um beco, uma ministra penosamente luta por conseguir nos dizer algo com sentido e uma caravana ministerial de veículos negros vai lá ver…

Ao fim de vários dias, anunciam-se uns apoios… é tudo o que sabem fazer: oferecer dinheiro. Capacidade e estruturas efetivas e competentes de liderança e de realização não existem. Nem existirão. Quando a matéria-prima é fraca o resultado será sempre sofrível. 

No final, face ao mundo real, os alienígenas são os “responsáveis” políticos.

A imagem dos F16 danificados no hangar é também um bom exemplo de como, mesmo nas Forças Armadas, prevenção e antecipação não parecem ser conceitos familiares.

01 fevereiro 2026

Adamuz, a “Glória” espanhola


O recente descarrilamento e posterior choque de dois comboios de alta velocidade, em Adamuz, próximo de Córdova, provocou 45 vítimas mortais.

Irrita-me a imediata gestão política da desgraça. Os putativos responsáveis tentam logo “sacudir a água do capote” e lançar “narrativas” de abrigo, A oposição aproveita para clamar contra uma suposta incompetência generalizada. As vítimas mereceriam mais respeito.

Parece que uma fissura numa soldadura do carril terá sido a causa. Existem comboios laboratório que circulam regularmente pela rede, procurando detetar falhas como estas. Em situações análogas de alta velocidade, por exemplo em França, a periodicidade das passagens será de duas por mês. No caso de Espanha, o comboio antigo, o “Séneca”, está avariado e o novo, o “Doctor Avril”, ainda não está homologado. O carril em causa esteve 58 dias sem ser auscultado.

Aqui há algum perfume semelhante ao da tragédia do elevador da Glória, em Lisboa. Uma falha estrutural que “não podia” acontecer, práticas de manutenção aligeiradas e uma enorme distância entre os decisores de topo e a realidade do terreno. Quando falo em distância, não me refiro à sequência de níveis hierárquicos. É pior do que isso. É existir gente politicamente nomeada, cujo único mérito é terem bons padrinhos e que borboletam entre variadas entidades e empresas públicas, sem saberem muito bem o que andam a fazer ou o que deveriam assumir. Quando um desastre “fatalmente” acontece, lá correm a afirmar “Eu não fiz nada!”. Precisamente…

Quanto à eficácia sas entidades competentes na reação aos estragos da tempestade Kristin, esperamos para ver.

02 setembro 2025

Dust Bowl


O famoso romance de John Steinbeck, “As vinha da Ira”, começa com a partida de Tom Joad e família do Oklahoma pobre e arruinado, para a Califórnia, a suposta terra prometida.

O facto histórico por trás da ruína dos Joad e de muitos agricultores das planícies centrais dos USA, foi uma das maiores catástrofes ecológicas do século XX. A designação inglesa original é “Dust Bowl” e ocorreu nos anos 30 do século passado. Os detalhes do fenómeno podem ser facilmente encontrados na internet (sugiro aqui, donde retirei a ilustração acima).

Resumidamente, a sequencia começou com a instalação de colonos nessas planícies e a sua adaptação a terreno agrícola. Essa alteração arrancou a flora original, de raízes profundas, fundamental para a estabilização dos solos. De seguida vieram longas secas que transformaram o solo fragilizado em pó. Para acabar, ventos fortes arrastaram essa camada de poeira, empobrecendo ainda mais os terrenos e criando nuvens negras que duravam dias e percorriam enormes distâncias, uma catástrofe ecológica, económica e social enorme.

Como é evidente, a causa do problema e respetiva dimensão foi uma intervenção humana desastrada, que a natureza não perdoou… Certo que há 100 anos talvez não se soubesse tanto como hoje e a própria difusão da informação seria mais limitada.

A ocorrer hoje, vai uma aposta 1 x 1 milhão em como a “responsabilidade” seria atribuída às alterações climáticas provocadas pelo efeito de estufa…? Sim, que as há, mas usá-las para desresponsabilizar incompetências e ignorâncias não é bom serviço à causa…

21 novembro 2018

Fácil…?



Em julho de 2015 visitei as pedreiras de Borba, no âmbito de um programa específico organizado por uma pequena empresa promotora de turismo cultural.

Foi muito interessante, formativo… e impressionante. Estar ali junto aqueles cortes abismais foi uma experiência inesquecível. Agora, o que não podia e ainda hoje me custa a acreditar, é que tamanhos precipícios não fossem objeto de monitorização cuidada, a ponte de poder fazer ruir uma estrada e causar mortos, mesmo sem ser na ocorrência de um fenómeno natural extremo.

Somos uns otimistas! E alguém será irresponsável, eventualmente.

23 junho 2017

As falhas na informação sobre o SIRESP


Para lá dos contornos particulares da adjudicação e “readjudicação” do SIRESP, envolvendo os “suspeitos do costume”; para lá das fragilidades intrínsecas de conceção ou de manutenção, que não deviam constar num sistema de comunicações qualquer e muito menos desta natureza, estes dias evidenciaram uma nova falha.

Refiro-me à falha na informação oficial sobre o desempenho do sistema durante o incêndio de Pedrogão Grande. Face ao que aconteceu e particularmente às mortes na 236-1, a possibilidade de isso ter sido influenciado por uma deficiente comunicação entre comando, bombeiros e GNR, exigia, no mínimo, uma pronta informação objetiva e precisa sobre o desempenho e disponibilidade do sistema naquelas horas.

Minuto a minuto, o que esteve em cima e o que esteve em baixo, que módulos, que zonas, que funcionalidades, tudo com transparência total. As explicações, justificações e os remédios poderiam vir depois, mas os factos, o que realmente se passou deveria ter sido imediatamente tornado público.

Hoje, quase uma semana depois, continuamos com declarações subjetivas dos responsáveis, do tipo “acho que não falhou” ou “falhou só um bocadinho” e outros eufemismos e vemos serem os jornalistas a fazerem o trabalho de investigação, como se tratasse de um tema “classificado”. Acredito que um dia lá aparecerá um relatório, bem cozinhado, mas a responsabilidade dos responsáveis deveria tê-los obrigado a abrirem o livro imediatamente, no dia seguinte! Infelizmente, não parece fazer parte da cultura da classe…

06 julho 2015

Vitória, vitória!

Para os devidos efeitos, informo que realizei um referendo familiar e decidimos por unanimidade deixar de reembolsar o empréstimo da casa. Vou agora mesmo informar os credores desta decisão democrática.

Não é ao banco. Nós com os bancos já não nos entendemos há bastante tempo. É com uns primos ricos que assumiram essa responsabilidade, para a família não ficar mal na praça. Isso, no entanto, é pormenor. O fundamental é que não pagamos, queremos mais e em nossa casa mandamos nós!

16 agosto 2014

Assassinatos em curso

Em cerca de um mês de conflitos entre Israel e o Hamas, morreram cerca de 1900 palestinianos. Meio mundo, ou mais, protesta e com razão contra esta barbaridade. Por uma questão de coerência devia protestar também contra as acções terroristas indiscriminadas do Hamas e da forma como eles envolvem e desprezam a sua própria população civil. Israel tenta atingir alvos relevantes do ponto de vista operacional, com maior ou menor eficácia. O Hamas faz chover rockets em Israel assumidamente em alvos civis e morrerem palestinianos não faz mal. São mais uns mártires no bom espírito da sua cultura.

Num dia apenas, no Iraque, o ISIL, agora chamado IL, pode executar 2000 yasidis e parece que não foi aconteceu nada. São facilmente centenas por dia. As acções destes inqualificáveis contra todas as religiões que não a sua, e mesmo contra outras variantes do Islão, são um crime sem paralelo no presente, nem no passado recente. Porque não há manifestações a favor dos yaris, dos kurdos, dos cristãos ou dos xiitas que são barbaramente assinados em massa??!

É que se o ódio a Israel vem de eles serem apoiados pelos USA, estes filhos da …. também o foram (e por mais uns outros tantos patrocinadores), para levarem a cabo a missão muito humanitária de derrubarem o ditador de Damasco. Como este resistiu, eles foram pescar para águas mais tranquilas e com muito sucesso. De notar que se tivessem tido sucesso, o resultado seria provavelmente idêntico ao que se vê hoje na Líbia. Trocar um bandido que controla tudo por um conjunto de bandidos que ninguém controla…

16 março 2012

As causas

Fala-se em averiguar a causa do acidente do autocarro belga na Suiça, falha humana ou mecânica, não se sabe e talvez nunca se esclareça. O que se sabe é que o autocarro saiu da sua faixa de rodagem para a direita.

Agora, o que é bem claro, e talvez mais importante é o porquê da dimensão das consequências. O número de mortos é extraordinariamente elevado porque uma secção de paragem de emergência na berma terminava perpendicular à estrada. Depois de se despistar, por um motivo qualquer, em vez de encontrar um ângulo suave, o autocarro bateu de frente numa parede de betão!

Se fosse num país “atrasado e desorganizado”, dos que vêm estas questões da prevenção com ligeireza já estariam os “civilizados e organizados” a fustigar com tão clamoroso erro de concepção no túnel. Como foi na Suíça continuam a achar que o importante é descobrir porque é que o autocarro fugiu para a direita ….

15 março 2011

Japão



Entre os vários países que visitei e culturas com que contactei tenho um apreço especial pelo Japão. E não necessariamente pelo facto de qualquer um, mesmo o mais simples motorista de táxi, conhecer Portugal e português não ser sinónimo de padeiro, merceeiro, trolha, empregado de mesa ou afim. Para o Japão, os portugueses foram os primeiros ocidentais que ali chegaram e que lhes trouxeram, palavras, conceitos e mesmo algumas tecnologias. Respeitadores como são, não o esqueceram ao longo dos séculos e continuam a reconhecer esse contributo. Mas há mais do que isso. Há uma seriedade intrínseca e um respeito pelo semelhante enormes.
Agora, dentro da brutal desgraça que sobre eles se abateu, terramoto, maremoto e risco nuclear é impressionante a imagem que transparece de que, mesmo assim, existe organização e eficácia. E mais impressionante é: não há especulação nos preços dos bens de primeira necessidade escassos e não há pilhagens. Isto é Civilização com maiúscula e uma enorme homenagem ao “Homem” no que de mais digno tem.

28 outubro 2010

Aviões, politicas e crocodilos

No passado os aviões eram variados. Asa alta ou asa baixa; motores sob as asas, na cauda ou até mesmo inseridos na fuselagem; 2 motores, 3 ou 4; lemes da cauda em cruz ou em “T”, etc. Hoje, fruto do amadurecimento do seu desenvolvimento e respectiva optimização, são praticamente todos iguais. Entre um Airbus e um Boeing do mesmo segmento a diferença mais assinalável que encontro é no recorte da janela do cockpit.

Com os governos no nosso ocidental mundo estamos parecidos. No fundo, a politica é a mesma. Aliás, qualquer alternativa que proponha alterar radicalmente o nosso modelo de governo e de sociedade não passa. O poder fica unicamente entre os partidos que seguem o modelo consagrado. Sendo as máquinas idênticas, a diferença fica apenas na tripulação: em competência, seriedade e até, ou por vezes mesmo somente, em imagem.

Com todas as facilidades do modo habitual de piloto automático, nem é preciso pedir muita competência. Apenas quando se entra em zona de turbulência e com algum disfuncionamento na máquina, é que é necessário saber mesmo pilotar, é aí a coisa pode complicar-se. A imagem não chega.

Tudo isto para dizer que o desacordo sobre o orçamento entre o PS e o PSD não é, nem pode ter sido, por questões “Políticas” com “P” maiúsculo. Foi por politiquice e cálculo táctico, em função das próximas eleições. Penso que alguém anda a brincar e com coisas demasiado sérias.

No passado dia 25/8 despenhou-se um avião na RD do Congo, pouco antes de aterrar, matando 19 pessoas. Inicialmente parecia tratar-se de falta de combustível, mas posteriormente fez-se luz. Havia um clandestino a bordo. Um passageiro trazia dentro de um saco um crocodilo vivo. Pouco antes da aterragem, o animal libertou-se gerando o pânico, com toda a gente a procurar refúgio no cockpit. Na confusão e com o avião desequilibrado, este despenhou-se matando quase toda a gente. Após a queda apenas sobreviveram dois humanos. Mais resistente foi a outra espécie que teve uma taxa de sobrevivência de 100%. Não é por acaso que eles andam por aí há tanto tempo. São uns sobreviventes natos.

28 julho 2010

Enquanto o navio afunda


Conta-se que a orquestra do Titanic continuou a tocar enquanto o navio afundava. Se calhar até poderia fazer algum sentido para não agravar o pânico. Não sei. O que sei é que essa imagem ficou associada ao “The show must go on” e à insensatez e insensibilidade do primado do prazer, independentemente das condições, dos contratempos e até mesmo da proximidade de uma tragédia.

Vem isto a propósito do recente acidente no “Love Parade” em Duisburg na Alemanha, em que apesar da tragédia e do terror que se terá vivido, não houve coragem, nem respeito pelos mortos e feridos, nem sensibilidade para dizer: “Meninos e meninas, não deve e não vai haver show!” Justificações são a coisa mais fácil de arranjar. Podemos sempre justificar um sim e ao mesmo tempo o correspondente não. A dificuldade está em ponderar as razões e decidir qual a que vale mais em função da respectiva escala, sempre algo subjectiva.

Alguém acredita que cancelar o espectáculo poderia provocar ainda mais tumultos ? O que me cheira é que da mesma forma como a autorização para o espectáculo foi tardia porque havia muitas dúvidas... quanto à segurança.. mas foi dada porque tinha que ser, se entendeu que tinha que continuar e que há coisas que não podem ser postas em causa, nomeadamente a expectativa de festa criada.

Como se sentirá um participante que tenha andado lá entretido a “bombar” (é assim que se diz?) ao saber que alguém como ele morreu ali estupidamente e que o sangue está ainda fresco no chão a uns metros de distancia? É possível alguém saber e dizer alegremente “Que se lixe!” ? É ético esconder o facto da multidão, somente para não estragar a festa?

Apesar dos tempos notórios e inquestionáveis de crise, há algo que parece ter uma precedência indiscutível na escala de valores: a festa. Creio mesmo haver quem aceite subalimentar-se ou privar-se de cuidados de saúde, apenas para não deixar de poder ir às festas.

Quando a festa é um valor primário sobrepondo-se a tudo, inclusive ao respeito pela vida humana, não hesitando em ser feita saltando sobre a memória dos mortos frescos, temos realmente uma grande crise e muito pior do que a crise económica.
Nota: Fota extraída do Jornal Público

16 janeiro 2010

Pobreza e pobreza

Desta vez é o Haiti que está no foco mediático global. Este texto é politicamente incorrecto, mas quero começar por deixar claro que não estão em causa o pesar e a solidariedade que a dimensão humana da tragédia desperta, nem criticar a oportunidade ou a modalidade da ajuda humanitária global em curso. Longe disso.

A incorrecção vem de uma reflexão sobre um certo sentimento de culpa que se instala nestes momentos no primeiro mundo relativamente à pobreza e à fome no mundo. A fome e a pobreza não são relativas. Para cada ser humano por elas afectado as consequências são muito concretas. Agora, o que também é verdade é que uma boa parte dessa miséria tem factores endógenos. O caso concreto do próprio Haiti comparado com a Dominicana com quem partilha o mesmo meio natural é expressivo. Será o “primeiro mundo” responsável por essa diferença?

O Ruanda é um exemplo eloquente. Há menos de 20 foi arrasado por uma barbaridade que deixou profundas cicatrizes materiais e sociais. Sem recursos naturais significativos tinha todas as “condições e justificações” para continuar no caos mas hoje é um exemplo. Liderado por Paul Kamage conseguiu pacificar-se, estruturar-se, reconstruir-se e içar-se brilhantemente para os lugares cimeiros dos índices de desenvolvimento social em África!

Existem no mundo milhões de seres humanos impossibilitados de viverem com um mínimo de dignidade por razões que não são condições climatéricas adversas, meio ambiente hostil ou ingerências externas. Uma grande parte da pobreza no mundo é devida a má governação com os vários ingredientes que a mesma comporta.

Obviamente que o princípio da “soberania dos povos” limita a ingerência externa disciplinadora para os governantes incompetentes no sentido lato da palavra. No entanto, da mesma forma como há crimes contra a humanidade em cenários de guerra, não poderia haver lugar a uma figura penal para estes casos em que a paz é apenas formal?

Dentro do cenário da diferença entre o “dar um peixe ou ensinar a pescar”, a ajuda humanitária é apenas o dar o peixe para as necessidades imediatas. O resto passará por “ingerência externa” e responsabilização penal dos criminosos. A caridade não chega.

09 abril 2009

Nocera, Todi e Aquila


O centro de Itália não tem o esplendor da Toscana e da sua Florença, nem o charme histórico de Roma, nem o romantismo do norte dos lagos, de Verona e Veneza, mas é a minha zona preferida. Já passei várias vezes pela Umbria em férias e em trabalho e sempre com o mesmo prazer. Sendo Peruggia e Assis os locais mais conhecidos, não faltam outras belíssimas povoações encavalitadas no alto daquelas doces colinas, das quais destaco Gubio e Orvietto.

Mas é uma zona sísmica. A foto acima é de Todi, do verão passado, de que me recordei por semelhança ao ver imagens de Aquila, mais a sul no Abruzzo, agora sinistrada.

Em Setembro de 1997 um terramoto na mesma falha sísmica esvaziou a aldeia de Nocera Umbra, um pouco a leste de Assis. Passei lá em 2005, ou seja 8 anos depois e guardo uma impressão muito forte dessa visita. A povoação continuava em ruínas, vazia, como se os habitantes a tivessem abandonado na véspera, apenas com um pouco mais de pó, com as paredes das casas fendidas e as postas escancaradas para um interior caótico. 8 anos depois é assustador. Os habitantes continuavam em casas pré-fabricadas no fundo do vale, 8 anos depois.
Passados os focos mediáticos e enterrados os mortes, Nocera Umbra ficou ao tempo e ao pó e a sua gente em habitações provisórias. Esperemos que desta vez seja diferente.

17 março 2009

Síndroma de Columbine



Columbina está associado a pomba, símbolo da paz, mas este síndroma de Columbine, manifestado pela última vez há poucos dias no sul da Alemanha, não tem nada a ver com a paz e começa a ocorrer com uma frequência preocupante. Na minha opinião estes casos são “apenas” uma variante do suicídio arrogante. Um desistente resolve não partir sozinho e em fúria destrutiva arrasta com ele algo de simbólico e representativo. Há os que dizimam a família e há estes adolescentes que tentam levar uma parte da escola, ambos associados à sua falha e à sua exclusão.

Dito assim é simples e como haverá sempre falhados na escola e armas de fogo disponíveis, os Columbines são inevitáveis. Sim, mas pondo de lado a questão do suicídio em si, vejamos a forma.

As imagens finais do assassino/suiçida de Winnenden mostram uma pose estranhamente parecida com um daqueles personagens das consolas de jogos de que ele tanto gostava. Daqueles jogos em que é normal e até recompensada a violência gratuita e brutal; veja-se o GTA (Grand thief auto).

Não é por mostrar unicamente imagens de anjinhos cor-de-rosa que a violência desaparecerá. Ela sempre esteve presente: o que o desgraçado do Coiote não sofre ao tentar apanhar o Bip-bip! Mas, aí, há um certo “valor”: o Coiote é mau e sofre por isso. Nos jogos actuais basicamente luta-se e no conceito do RPG (role playing game) o jogador faz parte daquela intriga e mata e morre por pontos e por nada. E, quando morre, perde uma de várias vidas e, quando perde tudo, ou se chateia, tem um botão de reset para recomeçar; o único prejuízo é na auto-estima. Quando o personagem não encontra o seu papel “cá fora” e desiste, carrega o botão de reset e toca a acabar com aquele “jogo”.

A solução não será unicamente proibir e limitar as armas de fogo mas isso ajudará bastante; a solução não passará certamente por colocar detectores de metais em cada porta e esquina. É fundamental haver uma moral sólida que impeça alguém de olhar um inocente olhos nos olhos e decretar: vais morrer comigo! E desenvolver e consolidar uma moral é uma questão de exemplo, de empenho e de tempo. Os GTA’s e as crianças entregues a si próprias vivendo esse mundo sem uma tutela e uma referência familiar forte, ou social ou, no limite, confessional estão a caminho da famosa “banalização do mal”. Quando os pais pedem para as escolas ficarem abertas 12 horas, não estão a entender o jogo.
Nota: Foto extraída do site do Nytimes

07 setembro 2008

Um dia...



O vale do Douro entre Gaia e Porto é um cenário de características únicas. Ao mesmo tempo grandioso e de dimensão humana. É natural que em termos de espectacularidade para o "show da Red Bull” seja excelente.

Agora, imaginemos uma avaria num avião ou no coração de um dos pilotos. Que consequências poderá ter? Está bom de ver que muito provavelmente uma tragédia.

Pode proporcionar imagens sensacionais como a de cima, retirada do portal Sapo, mas que há aqui uma análise de risco que não foi feita, isso há. Se um dia acontecer uma desgraça, será um acidente imprevisível.

30 agosto 2008

Voar às cegas



Amanhã, apanharei um voo da Spanair de Barcelona para Argel. Nada de muito especial porque desde o dia 20 de Agosto até hoje já milhares de pessoas terão voado com eles.

Não se conhecem ainda as razões do acidente de Barajas, mas pequenas coisas fazem pensar que nem tudo estaria 100% no ponto como é exigido. Uma tentativa de descolagem foi abortada por uma sonda indicar temperatura excessiva. A solução dos mecânicos foi … desligar a sonda: matar o mensageiro. Um dos travões aerodinâmicos estava há uns dias desligado por avaria. Parece que o segundo seria suficiente, desde que, obviamente, não avariasse na altura em que fosse preciso travar. E, se é verdade que o problema não foi travar mas sim falta de força para levantar, isto é sinónimo de “simplicidade excessiva”.

A única companhia que “boicotei” até hoje foi a Regional Airlines de Marrocos por uma série de indícios de displicência na manutenção e operação dos aparelhos. Sabe-se há bastante tempo que as companhias de países pouco “controlados” e especialmente as privadas mais sujeitas a pressão de resultados são potencialmente muito perigosas. Agora que uma Spanair espanhola, filial da escandinava SAS, simplifique assim surpreende e preocupa.

A maior aventura que já tive foi numa pública … espanhola. Um 747 velhinho da Ibéria em que eu vinha de Buenos Aires para Madrid, com escala em Las Palmas. abortou a descolagem e o comandante disse abertamente: “Senhores passageiros, estamos com um problema no sistema hidráulico e não dispomos de toda a potência dos motores. Iremos descarregar uma parte de carga e tentaremos de novo”. Segui pela janela a descarga dos contentores para avaliar o valor total da redução de peso e palpitar se a minha bagagem ficava ou ia. Voltámos à pista e no meio de um forte cheiro a combustível mal queimado ele lá foi ganhando ou velocidade ou altura; nunca as duas coisas em simultâneo. Descansei quando o vi nos 2000 metros.

Apesar de tudo, estatisticamente falando, é menos perigoso do que a estrada. A chatice é que não temos a mínima ideia de quão perto andamos do perigo.

E nada disto justifica que a TSF hoje tenha feito destaque e folhetim com um avião que está com problemas para trazer uns portugueses do México para cá…!
Cheira-me é que com estas coisas e os petróleos por aí acima, os voos baratos vão ficar um pouco menos baratos. O planeta agradece porque virem uns ingleses a Espanha de avião apenas para comprarem bebidas alcoólicas carece de racionalidade.

07 novembro 2007

Acidentes acontecem

Pode-se discutir como minimizar o número de acidentes pela melhoria das infra-estruturas, pelo aumento do policiamento e repressão, pela evolução das atitudes e mentalidades e tudo o mais, mas eles nunca deixarão de ocorrer. O problema é que quando acontece um acidente sério com um autocarro as consequências são quase sempre trágicas. E talvez só não ocorram mais pela prudência que, de uma forma geral, os profissionais que os conduzem manifestam.

Porque é que os acidentes de autocarro se tornam tão facilmente em tragédias? Pensemos na evolução na segurança passiva e activa nos automóveis ligeiros nos últimos anos, nas almofadas de ar, nas deformações estudadas das estruturas e tudo o que foi feito para proteger os ocupantes, traduzido nas famosas estrelas NCAP que ser tornaram um argumento comercial fundamental. Que se passa com os autocarros? Alguns terão cintos de segurança, mas até que ponto os assentos se mantêm solidários com a estrutura em caso de acidente? A carroçaria em volta dos passageiros é assustadoramente ligeira e frágil. Comparado com os ligeiros, a diferença é abismal e, no entanto, partilham a mesma estrada e os mesmos riscos.

Pelas dimensões e vocação será difícil aos autocarros atingirem um nível de segurança passiva idêntico ao dos ligeiros, ou não. Enquanto for uma questão fora da agenda pública nunca o saberemos. Questão de custo?

30 setembro 2006

“Probo Koala”



Falou-se pouco em Portugal deste belo e esplêndido navio que a foto, “googleada” um pouco à sorte, documenta. Parece que começou por andar uns tempos meio errante ao largo de Algeciras e Gibraltar. Dizem as más línguas que a receber lixos de refinarias que ninguém queria. Outros dizem que foi uma refinaria artesanal flutuante, transformando cudre em gasolina pobre e à custa da criação de resíduos perigosos. Outros dizem que o facto de não ser especializado e transportar produtos petroquímicos muito variados produziu uma mistura perigosa na cisterna de recolha das águas de lavagem.

No início de Julho tentou descarregar em Amesterdão umas supostas águas sujas de lavagem de tanques. O cheiro pestilento e insuportável dos produtos abortou a operação. Recomendaram as autoridades portuárias que o navio fosse descarregar a Roterdão, onde existem meios próprios para o tratamento. O afretador achou que era muito caro. Além do custo da viagem adicional e do tratamento, perdia o contrato seguinte. Perferiu tentar outra “solução” dez a quinze vezes mais barata.

Assim, com os holandeses a assobiarem para o lado, o navio zarpou para a escala seguinte na Estónia, onde tranquilamente carregou produtos petrolíferos que foi levar à Nigéria. Na volta, no dia 19 de Agosto, fez uma discreta paragem na Costa do Marfim para descarregar “águas sujas de lavagem”. As 400 toneladas altamente tóxicas foram parar a várias lagoas nos arredores de Abidjan.

O efeito foi fulminante. Morreram 8 pessoas, algumas delas crianças que simplesmente mergulharam nas lagoas contamindas. Logo nos primeiros dias cerca de nove mil pessoas tiveram sintomas de envenamento como problemas respiratórios, hemorragias nasais, erupções cutenâeas, etc. O total, não claramente contabilizado, será de várias dezenas de milhar. Num país onde tanta coisa falta, faltaram as máscaras respiratórias que atingiram preços astronómicos. Quem está com um problema sério são os motoristas dos camiões que fizeram a descarga. Fugiram para parte incerta, ameaçados pela população em fúria.

Agora, a França altruística e humanitariamente propõe-se ajudar na recolha e no tratamento dos resíduos, apesar do mau momento nas relações políticas bilaterais.

Que seria do mundo pobre se não fosse a caridade dos ricos?!

08 julho 2006

Os quatro elementos


Água, Ar

Terra, Ar

Água, Terra, Ar

e Fogo

Memória de Fragoso, Barcelos.
6 de Junho de 2006.
2800 ha de floresta ardidos no maior incêndio florestal do ano até hoje.

17 outubro 2005

Sinistralidade rodoviária. Legislação ou formação?

De acordo com os números divulgados recentemente, o novo código da estrada fez aumentar as multas mas não diminuiu a sinistralidade. Para mim, isto não constitui surpresa. Creio que uma boa parte do problema não está na legislação mas sim na formação e na consciencialização.

Por exemplo, muitos acidentes graves por despiste em IP’s de montanha, são provocados por simples inaptidão e falta de preparação dos condutores. Não sabem conduzir. Não sabem que naqueles declives, em piso molhado, uma travagem fora de sítio ou um golpe de direcção podem ser suficientes para desequilibrar o automóvel, mesmo não estando em excesso de velocidade. E isso não se resolve com legislação.

Outro exemplo sintomático, é a utilização dos coletes reflectores. O pessoal até aderiu bem e acha “catita” envergar o dito cujo, até mesmo nas costas do banco. Mas.... quantas vezes se vê a família à volta do carro; o condutor com o colete obrigatório e os demais sem colete, porque não é obrigatório. Já me ocorreu ver um colete a mudar um pneu quase completamente escondido por pares de pernas em redor. Estranhamente, o pessoal não sabe, nem pensa, que, se o colecte é obrigatório, é porque é extremamente perigoso estar no exterior do automóvel, na estrada, e, se for mesmo necessário estar, o colete ajudará a ficar mais seguro.

Aprender a conduzir, no léxico oficial, equivale a saber de cor pesos, dimensões e outras coisas de utilidade muito questionável relativas a veículos que nunca se conduzirão. A perícia na condução é medida pela capacidade de estacionar e fazer inversão de marcha sem tocar no lancil do passeio. Depois, há os que são melhores ou piores autodidactas; que têm maior ou menor sensibilidade; que têm sorte, ou não.

As revalidações da carta de condução são meras formalidades administrativas. Que tal um pouco de formação contínua obrigatória?