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13 agosto 2025

O que é uma nação

Nos tempos atribulados que vivemos quanto a estrangeiros, migrações e nacionalidades, falta muita reflexão objetiva, racional e, aparentemente, aquela coisa que toda a gente proclama ter, que é o bom-senso.

Migrações e evoluções sociais e culturais na sequência da chegada de gente diferente, sempre houve na história da humanidade, mas, mas… quando essas mudanças são demasiado rápidas (a velocidade é relativa, certo), os “mudados” passam a sentir que aquela “casa” já não é a sua e temos um problema “legitimo”. Pessoalmente, não tenho nenhuma questão com a tez da pele das pessoas, mas tenho sim com os códigos sociais, quando eles são radicalmente diferentes das nossas referências. Já vivi em outras paragens e não gostaria que alguns comportamentos que lá são normais passem a ser norma aqui. 

A definição dos limites de uma nação é complexa. Não é apenas geográfica, embora muitas vezes as cadeias montanhosas se transformem em fronteiras naturais e uma boa parte da nossa fronteira com Espanha ser fluvial. Não é apenas pela língua, já que existem nações multilinguísticas e outras vizinhas que partilham a língua, mas que se diferenciam. Não é também religiosa, apesar de em muitos casos as nações terem sido construídas precisamente sobre a homogeneidade religiosa.

Não há uma definição simples e abrangente do que é integrar uma nação. Penso que passa muito por uma conjugação no plural de um “somos” e um “fomos”, oportunamente desvalorizando/olvidando o que nos separa/separou e recordando/promovendo o que nos pode orgulhar e unir.

Por isso, para alguém poder ser português, não basta preencher um formulário, nem tão pouco genéticas e credos deverão ser condições de exclusão. O que deve ser obrigatório sim, são as referências culturais. É partilhar o “somos” e o “fomos”. Desculpem lá a pequena provocação, mas, como exemplo, quem desconhece Camões não pode ser português.


Atualizado a 14/8 com o recorte da publicação no "Público", com a última frase omitida... falta de espaço...(ideológico?)



10 junho 2025

Luis Vaz


 Ao desconcerto do mundo


Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que só para mim
Anda o mundo concertado.

Sempre atual este Luís Vaz, para sempre vivo este Portugal

04 junho 2024

Afinal havia outra…

Ao vermos a horrorosa imagem de Luis Camões na moeda comemorativa dos 500 anos, imaginamos que será uma “experiencia” única, sem antecedentes nem subsequentes, tão consensual parece ser o absurdo e o ridículo de tal representação.

Mas não, afinal… havia outra!

No átrio principal do Palácio de São Bento, no nosso mui nobre Parlamento português há uma escultura, do mesmo artista, largamente aparentada com a moeda. Presumo que tenha dado direito a um bom desconto na conceção da segunda “obra de arte”…!

Aqui podem ver uma tentativa de explicação da mesma, mas apenas para quem for mesmo muito intelegentio… 

 

02 junho 2024

Camões não merece


Comemorar 500 anos de alguém que definitivamente da lei da morte se libertou não é pouca coisa. Quando esse alguém é provavelmente o maior génio da história portuguesa e o expoente máximo da nossa arte e cultura, o desafio é grande.

Entende-se e aplaude-se que o Banco de Portugal se tenha lembrado de cunhar uma medalha comemorativa. De passagem, é de referir que, no geral, esta efeméride pouco interesse parece estar a despertar. Pode-se entender que quisessem ilustrar a mesma com uma imagem diferente da clássica, que se vê nos manuais escolares…

Agora, que tal imagem seja uma coisa disforme, que nem sequer um rosto humano é, horrível de ver, sem propósito ou significado decifráveis, a menos de eventualmente desvalorizar e ridicularizar o príncipe dos poetas, isso é coisa que não se entende de todo, nem se aceita. É absolutamente ultrajante e quem autorizou tamanha monstruosidade deveria ser confrontado com a sua irresponsabilidade. O domínio artístico é certamente subjetivo, mas há mínimos de decência e de respeito, especialmente neste contexto. Aparentemente Camões continua a não merecer o país que tão brilhantemente cantou, mas, sei lá, às tantas esta moeda ainda vai ganhar um prémio de design qualquer…

10 junho 2023

Má fortuna?


 

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que pera mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa [a] que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!

                        Luís de Camões

No Cabo de Guardafui
Vou aguardando bons ventos
Tiro a pena da mochila
E assento meus pensamentos

Às voltas com seu fadário
Um simples soldado raso
Tomai lá meu secretário
E guardai bem este meu caso

Só me deu p'ra dizer não
Em tempo de dizer sim
Também na mesma moeda
O mundo me paga a mim

Como este Cabo tão triste
Pedregoso e sem verdura
Assim minha vida existe
Marcada p'la desventura

Pergunto à musa porquê
Pergunto aos deuses nos céus
Todos me dizem que é só
Má fortuna e erros meus

Se baixo o amor à taberna
E depois o subo em soneto
Ele arde em mim com dois lumes
Um é branco e outro é preto

Assim ando estrada fora
Como um bardo vagabundo
Desisti de ver a hora
De ficar de bem com o mundo

No Cabo de Guardafui
Guardei os meus pensamentos
Ponho a mochila às costas
Pois já sopram melhores ventos

Como esse Cabo que existe
À tristeza condenado
Também a má fortuna insiste
Em andar sempre a meu lado

Pergunto à musa porquê
Pergunto a vós que me ouvis
Também achais que um poeta
Só é bom quando infeliz
Carlos Tê/Rui Veloso

10 junho 2021

Verdes são os campos


Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,

De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gado que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis,

Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

 

Para sempre grande Luiz Vaz, de quem pouco se sabe do acessório, mas que excelsas no fundamental.

25 janeiro 2017

O que há


Este texto sai descaradamente fora da linha editorial do blogue, mas é por uma boa causa. Considero fazer sentido o esforço e a heresia, se ajudar alguém na doença do “à” e do “há”:


1) O “à”

Eu vou a + o monte = eu vou ao monte
Eu vou a + a praia = eu vou à praia


2) O “há”

Forma do verbo haver, equivalente de existir. Na dúvida substituir pela conjugação equivalente de existir e ver se faz sentido
Hoje há festa = hoje existe festa – correto
Vamos há (?) praia = vamos existe praia - incorreto


3) O plural

Nas suas conjugações “simples” o verbo haver não tem plural (pelo menos por enquanto):
Não “haverão” razões – há razões
Não “hão” coisas – há coisas
Como auxiliar pode estar no plural
“Havemos de ver as razões; hão de ser feitas coisas”

12 junho 2014

Manifestar ou desrespeitar

Ficaram-me duas imagens marcantes deste último Dia de Portugal. Uma é o estranho apagão de Cavaco Silva e seria importante esclarecer os portugueses sobre o que se passa realmente com o seu Presidente. Outra é a imagem de Mário Nogueira sorrindo satisfeito de orelha a orelha com a barulheira feita pelos manifestantes, que muito perturbou as cerimónias. Inquirido pela comunicação social disse, e cito de memória, que em democracia as pessoas têm direito a manifestarem-se livremente.

Ora bem, se num próximo congresso ou manifestação ele estiver a discursar e aparecer um grupo ruidoso de antagonistas a assobia-lo e a insultá-lo, será que ele continuará a defender o tal “democrático direito à manifestação” ou denunciará violenta e veementemente uma “falta de respeito pela democracia”? Pois é, certamente referirá a falta de respeito, com razão, e eu não vejo porque uma manifestação sindical deve merecer mais respeito do que a celebração do Dia de Portugal, muito pelo contrário.

Quem ateia fogos, presumindo que a direcção do vento o há-de levar para longe do seu jardim, está a correr um risco muito grande e a esquecer-se de que nunca deu bom resultado brincar ao pirómano.

28 agosto 2005

Multiculturalismo

Na sequência dos recentes atentados terroristas na Europa, tenho visto muito debate e especulação sobre a viabilidade e os limites de uma sociedade multicultural. Há algumas posições surpreendentemente radicais, segundo as quais, uma sociedade multicultural é pura e simplesmente uma utopia.

Não me considero racista, mas reconheço que tenho mais depressa o reflexo de trancar as portas do carro quando vejo uma pessoa de cor atravessar a rua à minha frente do que um “dos nossos”. Não tem lógica, mas é assim. Ao conversar sobre estes temas com um magrebino, ele dizia, e acho que com razão, que, a todos, mesmo a eles, nos tranquiliza estar entre “nossos semelhantes”. O ver “diferentes”, perturba-nos. É natural sentirmo-nos inseguros ao sermos confrontados com uma diversidade que desconhecemos.

Efectivamente, as demonstrações de xenofobia estão mais presentes em situações de crise, quando o nível geral de insegurança é já elevado. Mas, por outro lado, uma sociedade em que sejamos todos louros, de olhos verdes, 1,80m, com as mesmas crenças, com as mesmas certezas e etc., é uma sociedade pobre e em decadência. Quanto mais não seja por consanguinidade cultural.

Creio que o conviver plenamente com múltiplas culturas passa por identificar o nível das diferenças, separando o superficial do profundo. Uns olhos brilhantes e um sorriso de criança são iguais em qualquer parte do mundo.

E, para concluir, deixo essas lindíssimas palavras do grande Luís Vaz que, além de saber muito, também viveu muito: “Bem parece estranha, mas bárbara não.”

Endechas a Bárbara escrava

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E pois nela vivo,
É força que viva.

30 maio 2005

Informação limitada, muita ou demais?

É frequente ouvirmos dizer que vivemos numa sociedade “mediatizada”, em que os “média” têm um enorme poder, que condicionam fortemente a informação que nos chega e, consequentemente, a nossa visão do mundo. Embora, em parte, isso seja verdade, acho que essa perspectiva deve ser um pouco matizada.

Em primeiro lugar, hoje dispomos, ao alcance de uns cliques, de acesso a um universo de dados (informação?) incomparavelmente superior ao que tínhamos há uma dúzia de anos. Para entender o que se passa, nada melhor do que ler o que os americanos dizem dos franceses e vice-versa e, já agora, o que os espanhóis não dizem de Portugal. No dia 24/05, depois da revelação dos 6,83%, o Le Soir belga e o Le Monde francês falam do deficit português e, curiosamente, o Cinco Dias espanhol fala só do deficit....italiano. Se eu procurar a sério e quiser mesmo estar informado, tenho muito mais facilidade em consegui-lo agora do que no passado.

Em segundo lugar, a enorme facilidade com que se coloca e acede a informação na Internet poderá pôr em causa o valor da palavra escrita. Existem, e em várias línguas, expressões que consagram a credibilidade dos livros e da escrita. Exemplo: “isso não vem nos livros”; “o que ele diz não se escreve”, “to act by the book”, etc.

No entanto, se eu escrever neste blogue que a obra Os Lusíadas foi escrita por mim em 1991, não será impossível que alguém encontre esta referência, escrita, ao pesquisar “Lusíadas” num motor de busca. É um caso limite e caricato mas, de facto, podemos encontrar muita asneira que nos apanhe distraídos. Tendemos a acreditar no que vemos escrito com alguma ligeireza.

Se pensarmos na situação actual da palavra impressa, cada publicação tem autor e editor claramente identificados e responsabilizados. Ao “pesar” um livro na livraria, faz-se alguma avaliação, obviamente subjectiva. Não os podemos comprar todos e, por isso, somos naturalmente selectivos. O mesmo cuidado não temos, ou não necessitamos de ter, quando vamos ler as referências que saem num motor de busca. É tudo muito mais rápido e mais simples. Neste raciocínio, já nem questiono que critérios de ordenação terá cada motor de busca, sabendo que a primeira meia dúzia de referências tem muito maior probabilidades de ser consultada do que as últimas.

Apesar de tudo, é melhor ficar perdido em muitas entradas, incluindo lixo, do que ler um único jornal. Talvez não estejamos é ainda habituados a lidar com esta dose excessiva de coisas escritas que, além de simplificar, também complica. Talvez nos esqueçamos que há muitas coisas que se escrevem e que não se lêem.