A minha relação com a obra de Alexandre Herculano não
começou de forma muito feliz. No Português do 8ªano, ele foi precedido pelo
Garret, não sei se por este ter nascido primeiro ou por ordenação alfabética. Andamos
às voltas das “Viagens na Minha Terra”, que, por um motivo qualquer, eu tinha prescindido
de ler na íntegra no início. À medida que o tempo passava, mais me convencia de
que já não valia a pena o esforço, mas a análise do romance arrastou-se e eu andei
umas boas semanas perdido pelo vale de Santarém.
Antes de irmos de férias da Páscoa, o professor
apresentou-nos o “Eurico o Presbítero”, que seria o próximo objeto de análise.
Aproveitei as férias para o ler de ponta a ponta e apresentei-me no recomeço
das aulas tranquilo, seguro de que a Hermengarda não me iria trocar as voltas
como a Joaninha tinha feito. Para meu espanto, comunica o professor que o “Eurico”
estava dado e encerrado! Que injustiça!!
Na minha viagem pelos autores portugueses clássicos, depois
de Camilo aqui e de Júlio Dinis aqui, chegou a vez do Herculano. O autor tem
uma cultura enorme, é evidente. Não sei se ele escrevia com um dicionário ao
lado, mas fez-me consultá-lo para descobrir o significado de palavras com uma frequência
que quase me envergonha…
No registo do romance histórico, lendas e outras histórias, é
muito interessante. São quadros ricos de um passado que dá gosto apreciar. Sou
algo renitente quanto à credibilidade com que se põe figuras passadas a falar e
a divagar, mas quero acreditar que o seu espírito científico e rigoroso e a sua
bagagem cultural avalizam a obra.
Menos conseguido é o registo romântico dos corações. Já nem
falo do choque de depois de ler Júlio Dinis onde tudo acaba bem e feliz, passar
a desfechos dos mais dramáticos e infelizes que se pode imaginar. Há algo
naqueles diálogos apaixonados a que não consegui aderir. Penso que
intrinsecamente o intelectual Herculano não é um romântico, no sentido de um
entusiasmado arauto de paixões.
Fica como sugestão as Lendas e Narrativas e o Bobo, descontando
neste a tal vertente da paixão dramática.
Como cidadão, intelectual e político, Alexandre Herculano
foi um enorme português.

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