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27 julho 2026

Mais histórico, menos romance

A minha relação com a obra de Alexandre Herculano não começou de forma muito feliz. No Português do 8ªano, ele foi precedido pelo Garret, não sei se por este ter nascido primeiro ou por ordenação alfabética. Andamos às voltas das “Viagens na Minha Terra”, que, por um motivo qualquer, eu tinha prescindido de ler na íntegra no início. À medida que o tempo passava, mais me convencia de que já não valia a pena o esforço, mas a análise do romance arrastou-se e eu andei umas boas semanas perdido pelo vale de Santarém.

Antes de irmos de férias da Páscoa, o professor apresentou-nos o “Eurico o Presbítero”, que seria o próximo objeto de análise. Aproveitei as férias para o ler de ponta a ponta e apresentei-me no recomeço das aulas tranquilo, seguro de que a Hermengarda não me iria trocar as voltas como a Joaninha tinha feito. Para meu espanto, comunica o professor que o “Eurico” estava dado e encerrado! Que injustiça!!

Na minha viagem pelos autores portugueses clássicos, depois de Camilo aqui e de Júlio Dinis aqui, chegou a vez do Herculano. O autor tem uma cultura enorme, é evidente. Não sei se ele escrevia com um dicionário ao lado, mas fez-me consultá-lo para descobrir o significado de palavras com uma frequência que quase me envergonha…

No registo do romance histórico, lendas e outras histórias, é muito interessante. São quadros ricos de um passado que dá gosto apreciar. Sou algo renitente quanto à credibilidade com que se põe figuras passadas a falar e a divagar, mas quero acreditar que o seu espírito científico e rigoroso e a sua bagagem cultural avalizam a obra.

Menos conseguido é o registo romântico dos corações. Já nem falo do choque de depois de ler Júlio Dinis onde tudo acaba bem e feliz, passar a desfechos dos mais dramáticos e infelizes que se pode imaginar. Há algo naqueles diálogos apaixonados a que não consegui aderir. Penso que intrinsecamente o intelectual Herculano não é um romântico, no sentido de um entusiasmado arauto de paixões.

Fica como sugestão as Lendas e Narrativas e o Bobo, descontando neste a tal vertente da paixão dramática.

Como cidadão, intelectual e político, Alexandre Herculano foi um enorme português.

 

14 julho 2026

Os romances dos bons corações


Em tempos idos, em salas de aula, foram-me apresentados os vários romancistas portugueses de século XIX, chamemos-lhe “clássicos”. Ficaram-me os nomes, mas nem tanto o interesse para mais tarde os ler “a sério”. Exceção foi unicamente Eça de Queiroz, de quem depois li tudo, ou quase.

Em maré de me redimir do pecado, decidi há pouco visitar Camilo Castelo Branco, visita da qual deixei nota aqui. Foi agora a vez de Júlio Dinis e dos seus quatro romances acima representados. Lidos na sequência da sua publicação, nota-se uma evolução interessante na densidade da intriga e na diversidade dos personagens, desde a “Família Inglesa” até aos “Fidalgos”. Há algo de comum: todos têm um final feliz e as generosas e justas qualidades humanas prevalecem e vencem todos os percalços e obstáculos. Também há pouca gente verdadeiramente má; muito do negativo é mais no campo do caricato e burlesco do que no verdadeiramente maligno (a excluir o missionário da “Morgadinha”).

Este otimismo do romancista é razão para alguns o (des)classificarem como um bucólico, irrealista e idealista. Não concordo. Um romance é um retrato daquilo que o autor quer retratar. Não é obrigatoriamente um recenseamento exaustivo de caracteres e feitios. Se Júlio Dinis quis dar protagonismo à eficácia da bondade, honestidade e bons princípios, possa isso inspirar-nos e recordar que daí pode vir sucesso, às vezes.

Falando em retratos, quando Vermeer pintou a “Rapariga com o Brinco de Pérola”, não se terá preocupado em pintar um rosto “representativo” do universo, mas sim de algo que lhe pareceu belo. A nós também nos parece belo e confesso olhar com mais satisfação para esse quadro do que para uma imagem angustiante de Paula Rego.

Falando de imagens femininas, uma verdadeira particularidade de Júlio Dinis é a força, inteligência, sensibilidade e determinação das personagens femininas. Estamos muito longe daquele estereotipo da beleza cuja participação principal no enredo oscila entre seduzir e ser seduzida. Será o facto de ter perdido a mãe aos seis anos que lhe fez desenhar essas fortíssimas mulheres? Em muitas situações são elas quem sabiamente conduz a história, enquanto que, especialmente no registo romântico, os “heróis” masculinos sofrem muito mais de inconstância e de dificuldades de discernimento.

Se as “Pupilas” é o romance dos bons corações em ambiente bucólico, os seguintes não podem ser considerados social e historicamente inócuos e simples. Na “Morgadinha” é vigorosa e eloquente a crítica ao obscurantismo religioso e aos cacicais processos eleitorais, num tempo em que a chegada das estradas e dos cemitérios se prepara para mudar o mundo rural.

O “Fidalgos” são uma alegoria à decadência do país tradicional, que se recusa a viver no seu tempo. Pena que o resultado dessas mudanças sociais e políticas não tenha correspondido ao otimismo do romancista. Na altura as esperanças eram legitimas.

Apreciei muito a qualidade e vivacidade dos diálogos. Muitas passagens são soberbas e deliciosas, provavelmente aproveitando as experiências do autor pelo teatro.

Nestes romances há muitos bons corações e certas figuras possuem uma força que as torna símbolos. Por exemplo, o médico das “Pupilas”, João Semana, tem uma participação muito secundária no enredo. No entanto o seu nome ficou para a posteridade como um símbolo do médico da aldeia abnegado, humano e generoso. Representativo da força da escrita.

Enfim, recomendo!

 

PS: Tenho alguma relutância em deixar a foto da capa dos “Fidalgos”. Quem desenhou aquilo não tinha a mínima ideia da história que era suposto ilustrar.

22 maio 2025

Camilo Castelo Branco




Celebrou-se recentemente o segundo centenário do nascimento do escritor, falou-se muito sobre isso e, por acaso, vi na mesma altura a série “Ferreirinha”, onde a sua história corre em paralelo, apesar de um pouco romanceada e mesmo branqueada. Por exemplo, a cegueira não foi devida ao período do cárcere e respetiva falta de luz…

No que por estes tempos li e ouvi sobre o autor, entendi que ele é considerado uma das figuras maiores da nossa literatura, certo, para muitos taco-a-taco com o grande Eça de Queiroz, para alguns mesmo acima.

Ora bem, de Eça li tudo, ou quase, do Camilo apenas encontrei perdida na minha biblioteca uma pequenina edição do “Amor de Perdição”, resultado de uma compra “obrigatória”, numa visita à Lello. Decidi partir à exploração do autor, considerando ser uma vergonha o desinteresse que lhe tinha dedicado.

Ao romance de referência já existente juntei “Maria da Fonte”, uma crónica sarcástica e mordaz sobre os acontecimentos de 1846 e sequente guerra da Patuleia, a partir das memórias do famoso Padre Casimiro, e de todas as incoerências e caricatos daquele período. Acrescentei as “Memórias do Carcere”, um bom retrato da sociedade da época e respetivos crimes e castigos e a “Queda de um Anjo”, a irónica típica novela do puro rural que chega à capital para ser amolecido e corrompido pela mesma.

Camilo indubitavelmente sabe escrever, disso não há dúvida, há ali elegância, não há arestas nem coisas que arranham os ouvidos. Agora, duas coisas menos bem para mim.

Para a caraterização de um personagem ou de uma ação existem adjetivos que bastem na língua portuguesa. Outra forma é por comparação com outrem, em analogia. Ele fez-se “sicrano”, ela agiu tal “beltrana”…. Camilo usa e abusa desta segunda via, com um enorme universo de sicranos e beltranos, clássicos, históricos e mesmo contemporâneos, alguns famosos apenas naquela época. Perde-se um pouco a leitura para quem não conhecer a galeria completa.

A outra questão é que Camilo salta muito para dentro da narrativa, não como um narrador personagem, mas como ele mesmo, frequentemente ironizando o desempenho dos seus personagens e até interpelando os leitores. É um pouco como se víssemos uma peça de teatro em que o encenador para a cena e sobe ao palco, para comentar o quadro, em nome próprio. Como se houvesse uma fronteira pouco clara entre o cronista, que opina, e o romancista que é suposto mergulhar-nos numa história e deixar-nos vivê-la, sem apartes nem interrupções.

Em resumo, a partir desta amostra, continuo claramente a votar em Eça de Queiroz. Numa particularidade Camilo passará à frente, que é na ligação ao país fora da capital. Apesar do seu cosmopolitismo e do castiço da “Cidade e as Serras”, Eça escreve “sentado” em Lisboa. Apesar da sua tentação de comentar e de se apresentar ele mesmo superiormente nas suas histórias, Camilo parece-me indubitavelmente mais próximo do mundo rural, das suas rudezas, grandezas e asperezas. Aqui deu-me vontade de saltar para o Miguel Torga, mas, por hoje fechamos assim.

Nota: Foto refeita já que a anterior foi considerada não angelical pelo FB e a publicação censurada :) 

03 maio 2024

Rurais, vareiros e outras diminuições




Tempos houve em que alguém produzir algo com as mãos constitua uma desqualificação social. Tempos houve em que os camponeses eram uma subespécie estruturalmente abaixo dos senhores feudais e doutos clérigos. Algo que devia ficar mansamente pelos campos como as árvores e as ovelhas.

Felizmente esses tempos mudaram, em princípio, e usar as mãos ou trabalhar a terra deixou de ser um sinónimo de descrédito social. O vírus, no entanto, não morreu completamente e de vez em quando lá vêm os sinais da supremacia neo-aristocrática  e dos privilégios da capital relativamente ao resto, “paisagem”.

Quem conhece Espinho, sabe que a jovem cidade é tudo menos rural. Lá num canto é até vareira, mas gente do mar é ainda outra coisa. Se ainda fosse Montalegre ou Vila Viçosa …

Enfim, para lá da 2ª circular existirá uma grande homogeneidade, na perspetiva de alguns personagens muito Queirosianos… Vocês sabem de quem eu estou a falar… !

Atualizado em 8/5 com publicação no Público

04 outubro 2023

Larguem os ossos


Penso que qualquer potencial notável nacional, seja pela pena, pelas armas, pelas chuteiras, pelas guitarras, pela retórica e até mesmo, quem sabe, pela influência nas redes sociais, tem interesse em deixar expresso onde pretende que os seus ossos tranquilamente repousem.

Nunca se sabe se os chamados eleitos da nação não irão um dia requisitar os seus restos para ornamentar um qualquer supostamente prestigioso depósito de sepulturas. Alguém imagina, por exemplo, Miguel Torga, satisfeito com a ideia de sair do seu S. Martinho de Anta, atravessar o Marão e ir para Lisboa, ele, para quem “a nação não morre de amores pela capital e esta paga-lhe na mesma moeda”?

Para lá desta falta de gosto e de decência de remexer em velhos jazigos, para lá da abrangência curta ou excessiva do nosso Panteão, homenagear os que “da lei da morte se libertaram”, não passa por andar em macabras bolandas com os seus restos. Passa sim por promover e divulgar a sua obra. O mais importante não é onde ficam os ossos, é o que resta da vida. Mais importante do que o material morto é o imaterial vivo.

Este folhetim atual com a transladação dos restos mortais de Eça de Queiroz dava uma excelente novela queirosiana. Haja quem a escreva com a fineza e elegância do grande mestre, independentemente do local onde os seus ossos repousarão um dia.

28 janeiro 2013

Inconveniente

Já falei aí atrás de sociedades secretas em geral e do Opus Dei em particular e não vou repetir o que já disse. Acrescento apenas que soube hoje existir uma base de dados oficial da dita organização com os livros não recomendados, muito bem organizada, com a classificação do nível de inconveniente de cada obra. Pesquisei Eça de Queirós e encontrei o seguinte:

L-A1: Sin inconvenientes
As minas de Salomão   

L-A2: Sin inconvenientes, aunque puede no resultar adecuado para lectores más jóvenes
Alves e Cia         

L-B1: Algunos inconvenientes morales
Cartas de Inglaterra , Cartas de Lisboa, Cartas familiares, Crónicas de Londres, A cidade e as serras, A ilustre casa de Ramires, Ecos de Paris, O Conde de Abranhos, O Egipto,  O mistério da estrada de Sintra, La Nourrice, Prosas Bárbaras , Os contos

L-B2: Presenta pasajes de cierta entidad contrarios a la fe o la moral
Notas contemporâneas, O Mandarim, O primo Basílio, Singularidades de uma rapariga loura   

L-C1: Presenta pasajes escabrosos o un fondo ideológico general que puede confundir a personas con una escasa formación cristiana
Os Maias, Uma campanha alegre, A Capital, A correspondência de Fradique Mendes  

L-C3: Por sus contenidos explícitos, la obra contraría la fe o la moral católica o se dirige contra la Iglesia y sus instituciones
A relíquia, O crime do Padre Amaro,

Sendo que este exemplo é unicamente para Eça, fica para mim a questão: deixar de ler (poder ler) obras magníficas por este tipo de suposta inconveniência é assustadoramente empobrecedor e pode certamente provocar escassa formação humana.

11 fevereiro 2011

Estes polacos... !

O piloto de F1 polaco R. Kubica sofreu um grave acidente num rali em Itália no domingo passado, tendo ficado próximo de ver uma mão e até mesmo o braço amputados.
Para ajudar à sua convalescença, receberá uma relíquia do ex-papa e futuro santo João Paulo II que consiste num pedaço de uma veste e uma … gota de sangue!
Que mau gosto! Deve ser uma enorme fonte de força e de inspiração olhar para uma gota de sangue...
E depois o conceito de "relíquia". O que deve mobilizar são os princípios e os valores e não nenhum tipo de quinquilharia, por muito abençoada que se apregoe.
E podes voltar Eça que este mundo não mudou assim tanto..

26 abril 2007

Notícias da província

No dia 25 de Abril o telejornal da RTP foi para o ar trazendo-nos logo de entrada, e com grande, destaque a abertura do distinto, capital e famosíssimo túnel do Marquês. Não sei como foi nos outros canais porque só tenho RTPi, mas não estranharia nada que tenha sido idêntico. Em Viana, em Faro, em Bragança e até mesmo em Argel vimos interessadíssimos e quase emocionados os populares a correrem pelo túnel dentro e a serem entrevistados para comentarem doutamente as condições de segurança do mesmo, vimos o presidente da câmara a correr a fugir do buraco e os automobilistas a fazerem fila para o “experimentarem” em primeira mão. E a abertura ao trânsito foi assim transmitida em directo para os lares de todos os portugueses e para todo o mundo.

Provinciano será sempre provinciano. E Eça continuará sempre, sempre, actual....