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29 novembro 2023

Habituem-se ?


França é um país que preza muito a laicidade do Estado. Desde há uns tempos para cá que existe larga polémica sobre onde e como se podem montar presépios de Natal em espaços públicos e, seja por opção voluntária de autarcas, seja por decisão de tribunal, a probabilidade de nos cruzarmos com um presépio exposto em zona pública é cada vez mais remota.

As iluminações ditas de Natal parecem ser os próximos alvos. Na progressista cidade de Nantes, este ano houve inovação. As decorações chamam-se “Voyage en Hiver” (Viagem no Inverno), fugindo à palavra polémica, e em vez das habituais e festivas iluminações sobre ruas e praças, há umas coisas coloridas agarradas a algumas fachadas…

Será que um não crente se sente chocado por ver um presépio ou sobre a sua cabeça iluminações ditas de Natal? Será isso suficiente para desinfetar a quadra de toda referência religiosa, mesmo quando isso constitui uma fortíssima tradição cultural no sentido amplo da palavra? Vamos evoluir para um quadro social em que estas referências devem ser completamente apagadas de um espaço público asséptico? Certo que a sociedade e os costumes evoluem e o futuro, o futuro o dirá. Agora, pelo menos neste momento, parece-me bastante forçado… e muito menos bonito!



03 dezembro 2020

Alguma coisa acontece


Cantava Caetano Veloso que alguma coisa acontecia no seu coração, que só quando cruzava a Ipiranga e a Avenida São João…

Noutras latitudes, outras músicas, ou mesmo sem música, mas algo acontece no meu coração quando cruzo Passos Manuel e Santa Catarina, mesmo sem rimas e com uma toponímia muito menos sonante. Dispensando considerações arquitetónicas e históricas que não as sei fazer, aquele cruzamento tem algo de especial.

De um lado a Batalha, o meu porto de chegada ao Porto, durante muitos anos de transportes públicos; Santa Catarina, em boa hora pedonal, que rasga a cidade e onde se ancora uma boa parte do comércio tradicional; Passos Manuel que mergulha para o rio da Avenida, sendo que as ruas no Porto vão muitas vezes desaguar a rios e vales. E a subida para os “pobeiros” e para o porto mais profundo e popular, onde não há “spots” turísticos de nota e a cidade pouco mudou. Ali ao lado o Coliseu, onde tantos dias se ouviram coisas como o primeiro dia e a quem a cidade recusou o último dia. E depois, ao dobrar da esquina, o majestoso Majestic, agora a fechar as portas, indefinidamente.

A primeira reação é de um duplo lamento, pelo desaparecimento daquele espaço, de uma riqueza única no género e pelo que significa um café tradicional a menos na vida da cidade. Numa segunda vista, um café que cobra 5 Euros por um café, não é um café social da cidade. É um local a ser visitado por experiência, uma vez, em visita à cidade, que vive da rotação das experiências e da cadencia das aterragens em Francisco Sá Carneiro. Não seria possível “ter dado uma volta”…? Entre o Majestic fechado e o Imperial McDo, nem sei que diga.

29 novembro 2019

Sexta-feira negra e o mar amarelo


O Mar de Aral na Ásia central, em tempos o quarto maior lago do planeta, praticamente desapareceu. Para além da redução da água, há contaminações de várias naturezas como pesticidas, fertilizantes e salinidade elevada que, associadas à redução do volume de água, atingem níveis de concentração brutais.

Para lá dos erros, desperdícios e disparates que podem ter aumentado a dimensão da catástrofe, a origem do problema tem um nome: algodão e a sua plantação intensiva.

O mesmo algodão “simpático” para os consumidores, provavelmente presente em muitas peças de roupa que serão compradas nesta 6º feira negra a preços simpáticos, em várias cores. Ou provavelmente a preferência irá para as fibras sintéticas extraídas do petróleo e que talvez um outro dia, não sendo biodegradáveis, acabarão na barriga de uma baleia… ou nos nossos intestinos.

Para lá da origem e da sustentabilidade das fibras usados no têxtil, e aqui mais não digo porque necessitaria de acrescentar uma declaração de interesse, será que não compramos roupa a mais… e o fim de vida do vestuário não está a necessitar gritantemente de ficar um pouco mais circular? Sim, claro, para um futuro menos negro.

McKinsey - Style that’s sustainable: A new fast fashion formula (2016) – Três em cada cinco peças de vestuário deixam de ser usadas ao final de um ano.

Ellen MacArthur Foundation 2018 – Menos de 1% do vestuário é reciclado – Um camião de vestuário é queimado, despejado em aterro ou no oceano, em cada segundo.




25 setembro 2018

Andamos para trás?


O senhor reproduzido nesta fotografia, créditos abaixo, é considerado pelos especialistas ter possuído uma das mais fantásticas vozes de sempre. Pela sua imagem e prática foi assumidamente homossexual, com as minhas desculpas para a eventualidade desta expressão não ser atualmente a mais politicamente correta.

Na avaliação e discussão do valor de Freddy Mercury como artista, sinceramente, não me lembro de ver recorrentemente apontada, pela positiva ou pela negativa, a sua homossexualidade. Nos tempos atuais, supostamente mais modernos, isso já não seria possível. Uma crítica seria imediatamente classificada como homofóbica pelos guardiões das minorias, mesmo daquelas que dispensam esse tipo de guardas, e um elogio obviamente imputado ao lóbi dos gays.

Dificilmente será possível vermos hoje uma discussão natural e objetiva sobre os méritos e deméritos de um Fredy Mercury sem uma contaminação inevitável das, chamemos-lhe, suas preferências sexuais. À força de tanta pressão pela “modernidade” e pelo politicamente correto e na sequência das reações que todos fundamentalismos e radicalismos provocam, acabamos por viver muito mais condicionados por preconceitos do que no passado.  

Foto: Redferns, Bob King


06 agosto 2018

Tecnologias de proteção


A nossa Proteção Civil, a quem convinha fazer algo de excelente para limpar um pouco a imagem da vergonha do ano passado, resolveu ser moderna. Decidiu enviar SMSs a avisar quando há risco de incêndio, a dar um número de contacto e a pedir para as pessoas ficarem atentas. Dá uns títulos engraçados e quantificados como convém: Proteção Civil envia 7 milhões de SMS… grande trabalho, sim senhor. Convém apenas melhorar um pouco as 12 horas que o processo demora.

Sábado passado, seis jovens ameaçados por um incêndio na zona de Estremoz ligaram para o 112 e, na impossibilidade de explicarem onde estavam exatamente, ficaram a saber que não era possível enviarem a sua localização GPS para nenhum recetor. Ou seja, a Google certamente saberia onde eles estavam, mas para a Proteção Civil isso era impossível. Ficaram os seis feridos e dois com gravidade.

É mais fácil despejar SMSs de pertinência discutível do que poder receber a localização GPS de quem liga para o 112? Aparentemente seria, mas não foi o caso, dado que o primeiro SMS saiu com o número errado. Lapsos ...

04 janeiro 2018

Como todo o mundo é composto de mudança


Nada tenho contra a mudança como conceito em geral, terei uma opinião positiva e negativa quanto a cada mudança em particular e irritam-me as tendências generalizadas de mudança acéfalas e acríticas.

Dentro das mudanças significativas recentes, uma que deixará certamente um antes e depois é a denúncia das situações de assédio sexual. Já abordei o tema antes e o meu aplauso a tudo o que seja limitar e castigar estes abusos. No entanto… no entanto… daí a declarar o Príncipe da Bela Adormecida um predador sexual, como li recentemente, vai uma distância e a ultrapassagem de uma fronteira entre a sensatez e a estupidez.

Por um lado, está-se a ignorar o contexto da fantasia onde as intenções e expetativas estão bem definidas e conhecidas, de ambos os lados. Por outro lado, tentando transpor a situação para uma realidade, que, insisto, não é o caso deste e de outros contos fantásticos (no sentido simples da palavra) e quem os lê sabe bem disso, chamar crime a acordar alguém com um beijo terno… será coisa de quem não sabe nem imagina o que isso é.

O Jorge Palma que se prepare, porque aquele reparo a quem “nunca roubou um beijo” está mesmo a pedi-las. Já deve faltar pouco para ser necessário um termo de aceitação escrito, assinado e reconhecido em notário antes de poder abraçar alguém. Melhor assim do que ao contrário? Sim, mas muito pobres serão aqueles para quem as alternativas se resumem a estes dois tristes cenários extremos.

Acho que qualquer criancinha saberá distinguir o Príncipe em causa de um predador e quem por aí isso teoriza devia receber umas lições de maturidade, nem que seja de uma criança. Invocando a igualdade de direitos e princípios, aproveito para declarar, mesmo sem passar em notário, que se uma princesa me acordar um dia com um beijo, não levarei o assunto a tribunal.

03 maio 2015

Nem tanto ao mar


A campanha de publicidade acima representada gerou grande polémica e contestação em Inglaterra. Basicamente promovia um método de emagrecimento, lembrando a praia que está a chegar, onde “convém” apresentar boa forma, e com a imagem de uma modelo de peso abaixo do do comum dos mortais.

Supostamente, a reação enérgica seria devida a a campanha promover a anorexia… Eu acho que não, como também me parece que o fundo do problema não se endereça proibindo cartazes.

Que há de comum entre alguém obcecado por perder peso e outro alguém buscando, a todo o custo, aumentar o volume dos bíceps? Procurar um físico mais saudável…? No início, talvez. Não é necessário ser “escultural”, mas um pouco de equilíbrio na forma não fica mal nem faz mal a ninguém, pelo contrário. O problema… são dois. O primeiro é o pobre primado da imagem, quando mais importante do que a dimensão dos bíceps é a dimensão cultural e mais grave do que uns quilos a mais, é ideias a menos. O segundo são os hábitos de vida precedentes. Gostava de ver uma estatística: Quem teve desde a primeira hora um regime de alimentação saudável e alguma actividade física, não estará num ponto de partida mais equilibrado e com menos pressão para se “radicalizar? Penso que o problema principal e o “modelo errado” não está nestas imagens, por indesejáveis que sejam. Escondê-las é como cortar a rama de um arbusto: fica-se muito longe da raiz.

Sem cair nos limites patológicos, posso dizer que, no meu caso, a minha barriga pode crescer um pouco se eu me distrair e pode diminuir se eu me cuidar. Um dos lados é o facilitar, o outro é o disciplinar. Quando vi algumas imagens da contestação ao anúncio, com umas gordinhas em biquíni posando ao lado, a mensagem era “não me chateies por ter facilitado, vou para a praia com pneus e não recordem isso, está bem?”. Nisto, como em tantas coisas, o problema está em facilitar e depois alguém nos lembrar… Aliás, o facto de a contestação às imagens da moda, tantas vezes muito mais chocantes, ser incomparavelmente menos activa e agressiva é sintomático.

21 outubro 2013

Uma desgraça,,, !

A minha conta principal de correio electrónico é da Yahoo. Provavelmente muitos torcem o nariz: “Que é isso?!?”. Pois… Não tenho registo do meu registo, mas pelo menos desde 1999 que lá estou, donde que, contas redondas, uma quinzena de anos. E com letra mais grossa, menos grossa, mais ou menos facilidade de criar e manter pastas as pastas, ele não mudou assim tanto. Pelo menos numa coisa importante: a individualidade das mensagens – uma mensagem enviada ou recebida é um registo individual com o respectivo cabeçalho e perfeitamente isolada.

Para minha desgraça, mudou para uma forma mais moderna, em que, suponho, o objectivo é facilitar o acesso à informação. Tem aquela coisa de juntar as mensagens em conversas, de forma mais ou menos empastelada, e em que aparecem uns “eus”, Zés e Antónios, agregados às três pancadas. Hoje queria enviar uma carta para o Público. Habitualmente pego na mensagem anterior idêntica, faço “resposta a todos”, limpo o que tenho a limpar, anexo o texto e lá vai. Desta vez ao abrir o que pensava ser uma simples mensagem, nasce-me uma “conversa” com 90 entradas, lá com os “eus e os outros” a granel… Vá lá que ao longo dos anos mudei qualquer coisa, senão daria mais de 300! Ao tentar criar a nova mensagem, fiquei literalmente sem saber em que sitio dos 90 estava a escrever e se estavam a ir todos agarrados, ou não.... Só depois de 3 rascunhos é que consegui, achei eu, concluir o processo… Quase! Do Público responderam-me a dizer que o texto supostamente em anexo não tinha chegado apesar de nos meus enviados ele estar lá! Enfim… conversas desalinhadas…

Sinceramente, pode ser retrógrado da minha parte mas esta mania das máquinas acharem que adivinham o que nós queremos e nos conduzirem/formatarem irrita-me sobremaneira. Nota para quem entender: eu comecei a minha actividade profissional a colocar programas em hexadecimal em eprom’s virgens, ou seja a controlar tudo!

E se o correio da Yahoo quer ficar igual ao Gmail, quem fica a ganhar é este!

06 fevereiro 2013

Mais um Parlamento perdido

No âmbito da discussão da legalização do casamento homossexual em França, o respectivo Parlamento encontrou um problema muito bicudo de resolver: qual o critério para o nome da família da criança adoptada. Para quem não sabe, nome de família em França só pode ser um e é o do pai – sim, é assim por lei e em França, não é na Arábia Saudita nem num desses países esquisitos de direitos, liberdades e igualdade entre géneros. Só se o pai for um pé rapado e a mão tiver alto pedigree, é que pode haver uma excepção para a criança receber o nome da mãe. Eu próprio o comprovei quando ao registar o meu filho nascido na Bélgica, com legislação idêntica, em que precisei de à pressa declarar nomes de família como nomes próprios para o rapaz pode ficar com mais do que um único nome de família. Voltando às famílias homossexuais, é bastante óbvio que a solução simples é ficar com os dois nomes de família. Só que, igualdade por igualdade, isso também teria que ser aplicado a toda a gente, destruindo então essa pedra basilar da identidade francesa. Como ilustração dos problemas que isso traz, foi referido o caso português dos nomes de família que nunca mais acabam. Lá chamam-lhes “nomes mala”, em português será talvez um “comboio de nomes”. Mas, se para evitar nomes comboio é necessário estabelecer por legislação uma coisa tão desigual e retrógrada, é estranho. Por outro lado, é incrível como parece ser mais fácil discutir a família homossexual do que simplesmente anular essa regra arcaica e machista. Para que conste: os adultos têm o direito de viverem como entenderem na sua esfera privada e por isso acho bem que possa aplicar-se-lhes a instituição/contrato casamento. Como uma criança não é um animal de estimação eu acho mal que tenham pai-pai ou mãe-mãe. Mas esta é a minha parte retrógrada.

06 novembro 2012

Os segredos ...


Vejo numa revista generalista as letras gordas e as legendas de um artigo sobre o funcionamento do cérebro. Está identificado o cantinho do órgão que reage a cada estímulo e onde reside cada funcionalidade. Leio na diagonal e o tom é de que já se sabe tudo, mas acho que a coisa fica pelo conhecimento geográfico. Se pensarmos no processo de desenvolvimento das faculdades mentais, o nevoeiro é absoluto e cerrado. Porque raio há quem não consiga aprender matemática? Qual a influência da televisão e dos ecrãs em geral – net e jogos – no desenvolvimento do cérebro do ser humano?

Aqui, o pau tem dois bicos. Se se soubesse como fazer evoluir o cérebro resolver-se-iam muitos dilemas e angústias do sistema educativo e dos seus actores como pais e professores. Mas, se isso fosse tão claro como o desenvolvimento dos bíceps, iríamos ter “ginásios” para criar sobredotados? E iríamos necessitar de alguma forma de controlo anti-doping para não termos batota, ou se preferirmos, evitar estratégias de alto rendimento a todo o custo que apresentam factura pesada a prazo?

Não, decididamente, o que se sabe continua a ser mais sobre o hardware do que sobre o software. E ainda bem. O cérebro está para o ser humano como uma reserva virgem está para a biodiversidade. Se colocássemos todas as espécies num zoológico, perderíamos algo de fundamental. Se fosse possível condicionar, programar ou formatar o nosso software, acho que deixaríamos de ser nós.

Não obstante estes devaneios saber um pouco mais sobre o que é realmente saudável e nocivo para o desenvolvimento do cérebro não seria mau.

26 agosto 2012

Não importa se são ou não arte


Os graffiti são certamente uma forma de expressão. Se artística ou não será discutível, sobretudo nalguns casos, mas isso não altera em nada o facto de serem aceitáveis ou não. Não o são. Ninguém tem o direito de intervir no que não é seu. Não posso ir a casa do meu vizinho arrancar-lhe as roseiras e plantar lá batatas, só porque a minha forma de expressão é semear batatais em todo o lado.

Tenho alguma curiosidade em saber qual seria a reacção daqueles que contemporizam, toleram e até conseguem justificar os graffiti se um dia vissem o seu automóvel decorado com uns profusos tags, vidros incluídos. Será que considerariam que o seu carro faria parte de uma nova estética urbana e até se sentiriam uns privilegiados por passarem a deslocar-me num objecto artístico, diferente de todos os outros automóveis banais; ou será que soltariam uma meia dúzia de palavrões seguidos de “isto não pode ser!!!”

28 junho 2012

Politicamente correcto

Nenhuma empresa politicamente correcta que se preze apresenta uma imagem institucional com pessoas sem incluir representação de minorias. Um anúncio de um seguro, de um produto financeiro, ou de outra coisa qualquer também tem que ter o seu colorido… Penso que até haverá associações e outras confusões que se dão ao trabalho de vigiar a devida representatividade das minorias nos alvos potencialmente racistas. Falha-me a memória mas já vi um protesto do tipo… não sei se pela Playboy ter uma percentagem excessiva de louras, mas algo do género…

No S. João de Braga - e chapéu se tire aos seus bispos e demais clérigos que ao longo do tempo conseguiram incluir uma muito pia procissão na festa do solstício do Verão, para esta não ser santa apenas de nome - apareceu-me um gigantone… preto! Confesso que não sou especialista no tema, mas não me lembro de ter visto alguma vez um gigantone assim colorido… Está bem, está de acordo com os tempos e fico à espera que, para o ano, corrijam a falha grave de não terem apresentado nenhum com feições asiáticas…!

13 janeiro 2010

Casais e famílias

Parece-me defensável que dois homossexuais possam ter um contrato social que enquadre a sua partilha de vida, estabeleça direitos e obrigações mútuos, regulamente partilhas e heranças e outras coisas desse género. Aliás até nem me chocaria demasiado que 3 ou 4 pessoas, maiores e vacinados, decidissem constituir uma “família”, independentemente do respectivo sexo e orientação, originais ou modificados.

Quanto à adopção, a esfera é outra: a avaliação determinante é no ponto de vista do adoptado. Por isso, quando se começa a discussão falando no “direito à adopção”, já se está a entrar pelo mau caminho, com os papeis secundários a roubarem o palco aos protagonistas.

É que pela mesmíssima ordem de razões, não vejo nenhum motivo racional para não legalizar também a poligamia e respectivo direito à adopção. Se não há problema em ter dois pais ou duas mães, qual o problema de ter um pai e duas mães, ou duas mães e um pai? Seria uma restrição discriminatória, anticonstitucional e, inclusive, antidemocrática, considerando que presumivelmente há muito mais gente com inclinação sexual “poli” do que “homo”! A diferença é que o “poli” é socialmente condenável e considerado retrógrado enquanto o “homo” deixou de ser censurável e passou mesmo a ser sinónimo de modernidade.

A heterodoxia no relacionamento entre adultos é uma coisa que choca mais ou menos conforme o contexto e, talvez, o hábito (eu nunca me irei habituar ao mau gosto horrível das paradas gay). Quanto a menores a história é outra. Não ter pai nem mãe é uma coisa, mas ter dois pais ou ter duas mães não é normal. As relações afectivas com pai e com mãe têm diferenças concretas, função do sexo real do progenitor. Os técnicos, pedopsiquiatrias e até psicanalistas, poderão esclarecer com rigor e fundamento, se quiserem, mas falar disso não está “in”...

07 janeiro 2010

A rapariguinha do shopping

Um cheque da Fnac prestes a expirar fez-me correr a um “shopping” um dia antes do final do ano. Bom... se o movimento com crise é aquele, que seria se ela não existisse?!

Com o tempo limitado e sem muita paciência para acotovelar o necessário e optimizar os 10 Euros, trouxe um velho disco histórico que ainda não possuía, o primeiro do Rui Veloso, “Ar de Rock”, álbum que abre com o tema: “A rapariguinha do shopping”! E dá vontade de comparar, 30 anos depois, as duas gerações de rapariguinhas do shopping. Seguramente que a actual não traz uma revista de bordados nem faz malha no autocarro. Descerá as escadas rolantes enviando SMS’s por um telemóvel catita e já terá até ganho para o carrito. O olhar rutilante, abanar das ancas, rimel e crayon é que talvez sejam os mesmos....

Há 30 anos, a rapariguinha tinha pretensamente subido na vida. Já só se dava com gente bem e ia ao sábado à noite à boite! Hoje é o contrário. Poderá continuar a sentir o glamour por procuração de vender moda a gente, alguma, bem e irá seguramente à boite... mas o shopping é agora um elevador social que vai mais para baixo do que para cima.

Algumas rapariguinhas do shopping até terão uma licenciatura pública ou privada, um daqueles canudos mais ou menos consistentes e por lá andarão mais ou menos a prazo, em horizontes mais ou menos longos ou claros, mais ou menos acomodadas.

Os ditos cujos podem ser muito giros, alguns, e até práticos. Os investimentos em shoppings poderão ter tido um bom retorno financeiro para os promotores e construtores. No entanto, em termos sociais, culturais é até mesmo macro-económicos quanto ao impacto no crescimento do país, o efeito é nulo... ou negativo.

08 fevereiro 2007

Ainda o aborto: moderno ou retrógrado?

Tenho a sensação de que não acompanhei bem esta campanha. Parece-me, no entanto, que a principal novidade relativamente à última é uma certa falência na argumentação do “sim”.

Utilizar a argumentação sócio-económica para justificar a inevitabilidade do aborto e, por consequência, se tem que haver, que seja legal, é, na minha opinião, inaceitável. Os problemas de carências afectivas, maus tratos e más condições em geral na criação de uma criança resolvem-se não a deixando nascer? E para as que já nascerem e que sofrem desses problemas? Suprimem-se? É claro que não, porque se trata de um vida.

Está bom de ver que a questão toda está quando começa essa vida. Parece óbvio que uma semana antes de nascer, não faz sentido, a vida já existe. E 3 meses antes? Também não! E 6 meses? E 7 meses? Onde fica essa fronteira? Porque raio 10 semanas e não 5 ou 20 ou 12 ou .. zero ? Que se passa de especial para justificar essa fronteira dessas 10 semanas?

Evidentemente que uma gravidez indesejada pode transformar e transtornar profundamente uma vida ou uma família mas as soluções drásticas têm que ser justificadas num balanço global de prós e contras considerando todas as implicações e alternativas. Justifica-se restaurar a pena de morte para evitar que um assassino perigoso cometa mais crimes? Justifica-se acabar com as penas de prisão em geral dado que, muito frequentemente, elas propiciam um agravamento do perfil criminoso de quem lá passa uns anos?

Pondo de lado toda a questão religiosa, acho que, sabendo o que se sabe hoje, do ponto de vista puramente civilizacional, o aborto não é “moderno”. Julgo que virá um tempo em que o aborto será considerado uma prática bárbara do passado. A história o dirá.

02 fevereiro 2007

Eufemismo

Se em vez de “pobreza”, se dissesse CMBS (Carência de Meios Básicos de Subsistência) ? Seria óptimo, porque acabaríamos com os pobres! E se em vez de se dizer “analfabetismo” se inventasse uma ILE (Insuficiência em Leitura e Escrita)? Deixaríamos de ter analfabetos no país!

Isto a propósito da sigla IVG. Porque não continuar a chamar-lhe mesmo o que é: “aborto”?! Porque é necessário criar e invocar este eufemismo? Para amaciar o carácter brutal da palavra? Será que, para discutir o aborto, o primeiro passo é chamar-lhe outra coisa?

Confesso que a minha posição sobre a aborto é clara quando aplicada numa perspectiva pessoal, mas pouco definida quanto a definir uma regra geral. No entanto, não posso aceitar nem entender muitos dos disparates que se dizem de ambas as partes. Por exemplo, não posso aceitar que a mulher tenha “direitos” plenos sobre a sua procriação nem que a actividade sexual só possa existir em contexto de “procriação”.

Quando os adeptos do sim dizem que é mais digno a criança não nascer do que nascer sem haver condições afectivas ou económicas para a criar, esquecem uma coisa: se uma família deixar de ter essas condições depois da criança nascer, também se aplica a mesma lógica? Claro que não! Como se define então o tempo limite para o aborto? Porquê “x” semanas e não “y” ?

Por tudo isto, nunca se poderá chamar digna a opção do aborto e a sua banalização jamais será aceitável

24 maio 2006

A Idade do Folhetim

“[…] Ao que parece, os “folhetins” eram produzidos aos milhões como elemento especialmente apreciado da matéria da imprensa diária, constituíam o alimento principal dos leitores desejosos de se instruírem, informarem, ou melhor, “conversarem” sobre mil objectos do saber […]

Tinham títulos como “Friedrich Nietzche e a moda feminina de 1870” ou “Os pratos favoritos do compositor Rossini” ou “O papel do cão de regaço na vida das grandes cortesãs” e assim por diante. […]

Quando lemos os títulos de semelhantes verborreias […] surpreende-nos menos a circunstância de haver pessoas que as devoram como leitura diária do que o facto de autores de prestígio, com classe e boa formação, ajudarem a “alimentar” este gigantesco consumo de curiosidades sem valor […]

Havia alturas em que eram particularmente apreciadas as perguntas feitas a personalidades conhecidas sobre assuntos da ordem do dia […] em que se punha por exemplo químicos ou virtuosos do piano a falar sobre política, enquanto autores em voga, ginastas, aviadores e até mesmo poetas eram postos a dar a sua opinião sobre as vantagens ou inconvenientes do celibato, sobre as causas presumidas das crises financeiras, etc. O que importava, apenas, era associar um nome conhecido a um tema realmente actual […]

Mudasse de dono um quadro famoso, fosse leiloado um manuscrito valioso, ardesse um castelo antigo, envolvesse-se num escândalo o possuidor de um nome aristocrático antigo, e os leitores encontrariam em milhares de folhetins não só os factos como também receberiam, no próprio dia ou no seguinte, uma quantidade de material anedótico, histórico, psicológico, erótico e outro sobre o assunto […]

Essas pessoas […] estavam quase indefesas perante a morte, o medo, a dor, a fome, já não encontravam consolo nas igrejas nem conselho no espírito. Eles, que liam tantos artigos e ouviam tantas conferências, não se concediam nem o tempo nem o esforço de se fortalecerem contra o medo, de combaterem neles mesmo o medo da morte, viviam a tremer e não acreditavam em amanhã nenhum.”

Parece familiar e actual?
É um extracto do romance “O Jogo das contas de vidro” de Hermann Hesse publicado em 1943. Apesar de ser ficção, esta "Idade do Folhetim" é colocada nos inícios do século XX.
Tão modernos estes antigos; tão antigos estes modernos.

19 dezembro 2005

As grandes causas das famílias americanas

AFA - American Family Association. Com poucos dias de intervalo vi esta poderosa associação conservadora americana envolvida em dois casos curiosos.

A AFA achou grave que a Ford fizesse publicidade em revistas “gays” e pressionou a construtora de automóveis, ameaçando lançar uma acção de boicote contra os seus modelos. A Ford foi sensível à pressão e suspendeu a publicidade. De seguida os “gays” pressionaram e, em duas semanas, a Ford deu o dito por não dito e retomou esses anúncios.
Resultado: AFA – 0; Gays - 1.

A AFA não gosta da tendência verificada nos EUA de, em vez de se desejar um cristão “Feliz Natal”, se falar somente em laicas “Festas Felizes”. E lançou um boicote contra a cadeia Target, que tem 1400 lojas, por ela não falar explicitamente em Natal. 700 000 pessoas protestaram e a Target cedeu. A AFA tem mais marcas e cadeias na mira.
Resultado: AFA – 1; Laicos - 0

Duas sugestões
Eu acho que tudo se resolveria se, por exemplo, a Ford segmentasse o mercado: Ford para cristãos, Volvo para gays, Jaguar para judeus, Mazda para islâmicos e etc. O retalho também poderia criar redes de lojas especializadas à sombra de crucifixos, crescentes, estrelas de David, olho maçónico e por aí fora.

Duas constatações.
Algo me diz que esta civilização está a andar para trás,,,
Sem dúvida que o pressionar está muito na moda. Pressão é, por definição, uma força distribuída numa superfície. Entre a origem da força e o alvo existe um meio que é utilizado para transmitir e distribuir o efeito.

E um corolário.
São estes os problemas importantes e agudos da nossa sociedade e que justificam a mobilização maciça de boas vontades. Face a eles, os milhões de subnutridos do planeta, crianças sem escola, doentes sem assistência médica devida e outras misérias humanas são uma simples fatalidade e parte daqueles insondáveis desígnios supremos contra os quais somos todos impotentes.
E dos crucifixos esquecidos nas escolas portuguesas, nem falamos.

14 maio 2005

Escrita tatuada

“ulaxx lindah...tax mxm mt mt girah na foto,nc t tinha bixtu kom u kabelo axim,fikat mt bm;) Tu ex mxm mt fixe,ex 5*...pr ixu e k eu...loool. E melhr n dixer + nd...xenao inda m enterro,loool(max tu xabex u keu keruh dixer;) Nc + e amanha...loooool,tou anxioxo...u dia bai xer di+ pk n bou ter nenhum texte...loool(e + 1 xena mx e melhr n dixer.loool) fika bm...dwt bjtux****”

O texto acima foi retirado de uma entrada de um blog de adolescentes. Para aqueles que tenham dificuldades de leitura, acrescento a tradução:

“Olá linda… estás mesmo muito muito gira na foto, nunca te tinha visto com o cabelo assim, fica-te muito bem (sorriso). Tu és mesmo muito fixe, és cinco estrelas… por isso é que eu .. (gargalhada). É melhor não dizer mais nada… senão ainda me enterro (gargalhada) (mas tu sabes o que eu quero dizer (sorriso))
Nunca mais é amanhã … (gargalhada), estou ansioso… o dia vai ser demais porque não vou ter nenhum teste... (gargalhada) (e mais uma cena mas é melhor não dizer. (gargalhada))
Fica bem… adoro-te Beijitos ****”

De certa forma, este grafismo é derivado daquela nova estenografia desenvolvida para as mensagens de telemóvel e conversação na Internet (chat). Contudo, representa algo mais do que simplificar e encurtar a expressão escrita.

Cada nova geração, ao assomar, e antes de entrar em cena no teatro dos grandes, sente a necessidade de marcar diferenças. Às vezes essas diferenças são pela alternância: cabelo curto contra comprido; roupa larga contra justa, etc. Outras vezes são pela negação e, no limite, mesmo até pela demolição. Com o tempo, os meios de expressão vão-se banalizando e o seu impacto atenuando. Quem marcou diferença com cabelos à Beatle há 40 anos, terá hoje perto de 60 e, se guardou as repinhas, elas já não chocam ninguém.

Mas, enquanto os cabelos compridos podem ser cortados e os rapados podem crescer, há outras demonstrações, como as tatuagens, que são indeléveis. Não sei se esta forma de escrita deixa marcas pessoais ou até globais. Recordo-me de uma pequena iniciativa dos Amigos da Ortografia Livre (Amol) que nasceu um pouco no mesmo contexto e que não deixou sequelas aos seus membros...

O marcar diferenças é normal e salutar. No entanto, as dificuldades na expressão escrita e leitura são um dos principais problemas das novas gerações. Escrever mal com consciência disso é melhor do que nem sequer escrever... A questão toda, na opinião deste “cota”, é: tenham cuidado com todo o tipo de tatuagens que depois não saem quando já não as queremos!