A cerca de 50 km a sul de Nantes, há uma placa informativa na
autoestrada anunciando “Memorial da Vendeia”. A primeira vez que a vi não tinha
a mínima ideia do contexto e após informação e posterior visita do local ficou-me
como um dos episódios mais dramáticos e representativos daquele período de
liberdade terrifica, dois conceitos que infelizmente se apresentam muitas vezes
em conjunto.
O tema já foi objeto de publicação anterior, aqui, e
posteriormente li a obra acima representada, verdadeiramente (bem) desenvolvida
e documentada sobre o tema. Não é objetivo hoje refazer o histórico dessa
guerra e guerrilha, da tentativa de genocídio sobre toda a população civil da
zona rebelde e demais as barbaridades desse período de terror absoluto, sem o
mínimo de respeito pelos “direitos universais do homem”, nem mesmo o direito a
viver para aqueles cujo sangue fosse declarado “impuro” (ver a letra da
Marselhesa).
Há aqui um fenómeno daqueles que, acreditando tão
inequivocamente estarem do lado “certo” da história, não hesitam em enviar para
as masmorras ou para o cadafalso, todos os que se considerem estar do lado
errado. Em Nantes, chegaram a afogar sumariamente no rio os inimigos do regime,
como suposta medida sanitária na sequência da saturação das prisões.
Uma questão que levanta muitas interrogações é como, séculos
depois, com todos os elementos para uma visão clara de toda a barbaridade,
ainda haja gente “inteligente” que consegue expressar simpatia, compreensão e benevolência
para com “Robespierres” e outros que tais. É um verdadeiro mistério da natureza
e da irracionalidade humana.
Numa dada passagem do livro, o autor lança um repto se este totalitarismo
ideológico jacobino não foi a matriz inspiradora do que a seguir se viu na
Europa com os regimes ditatoriais brutais, nomeadamente no século XX. Pode não
ter sido inspirador diretamente, poderão apenas terem génese na mesma “doença
do poder”, mas as semelhanças são bastantes.
Efetivamente há atualmente órfãos de Estaline e órfãos de
Robespierre e com muitos a partilharem as duas orfandades… Qual será a cura,
não sei, racionalidade e humanidade não parecem ser.
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