24 abril 2009

Liberdade não rima com ser pequeno

Pois é. Lá vem o tal dia com as comemorações rotineiras e com as polémicas paroquiais que sempre se arranjam nesta altura. Desta vez trata-se da inauguração da praça Salazar em S. Comba Dão. Mais paroquial não poderia ser. O 25 de Abril é uma data passada e com um valor associado intemporal. Não casa com os nostálgicos dos tempos revolucionários nem com relativização do que representa. E cada vez é mais difícil fazer com que os que não viveram o “antes” consigam olhar para a data como mais do que um simpático feriado em que os chatos do costume lá vêm de novo proclamar a liberdade e coisas que tais, sabendo que quem nunca viveu a guerra nunca dará o real valor à paz.

No actual fundo de crise a sério, porque crise em geral já não me lembro de não existir, há umas reflexões a fazer. O tal dito de S. Comba foi popularmente votado o maior português de todos os tempos. Esta nostalgia corresponde a simpatia pela pobreza? Preferimos ser pobres e estáveis a “ir à luta” do desenvolvimento? E quando falo em desenvolvimento não falo apenas do económico. O Portugal de Salazar além de pobre é tacanho, pequenino e mesquinho!

Nas crises nascem as ditaduras, porquê? Porque as dificuldades exigem uma liderança forte que inviabiliza os largos consensos? Vejamos os franceses que são um bom exemplo nestas coisas. Quando protestam violentamente contra o fecho das fábricas, aqueles que protestam com tanta determinação assumiriam alguma vez uma postura construtiva, pragmática e alternativa? Não, sinceramente penso que não. E quando o protesto é destrutivo e primário, há uma menorização implícita do protestante. Ao pegar no machado para destruir a embarcação em que viajamos, no fundo, no fundo, ninguém quer naufragar. É o: “agarrem-me, senão eu faço!”. E quando a mão que brame o machado não tem mais ouvido para razoavelmente escutar, só restará tirar-lhe o machado pela força. E a essa força quando começa, não se sabe quando nem como acaba. O regime “forte”/ditadura nasce então a partir do protesto demitido.

Quando a resposta à crise é a nostalgia da pobreza, da utopia falida ou a demissão social, tudo isto são variantes do ser pequenino e o que faz falta é ser grande e enfrentar a tormenta em vez de ficar escondido ou simplesmente barricado atirando pedras de protesto.

19 abril 2009

Os gafanhotos e o “burro do inglês”



É uma velha história e nem sei o porquê dessa nacionalidade para o protagonista. Um inglês esperto, para poupar, decidiu habituar o seu burro a não comer. Foi-lhe diminuindo a alimentação gradualmente e quando tinha comprovado o sucesso da sua teoria e o burro já estava desabituado de comer, por azar, este morreu!

Lembrei-me desta história ao ler um artigo num dos últimos da “Economist”, que imagem acima publicada ilustrava, sobre o declínio dos “gafanhotos económicos”. Tentando explicar o contexto rapidamente. Ainda não há muito tempo, acreditava-se que os Estados podiam falir e era necessário ter fundos de pensões privados para “garantia” das reformas!!! (e não foi assim há tanto tempo!). Esses fundos bem nutridos pelas poupanças dos muitos crédulos, pela fortuna pessoal de outros, com enormes facilidades de alavancagem financeira e pilotados por “gestores todo-o-terreno” foram comparados às pragas de gafanhotos.

Entravam onde queriam e, friamente, em três tempos, com tratamentos de choque, limpavam as gorduras das empresas ex-públicas ou familiares esclerosadas. Faziam um belo brilharete e revendiam-na, geralmente ao gafanhoto seguinte, com enormes mais valias para grande satisfação dos clientes dos fundos: eram uns craques! O mundo não é a preto e branco e é perigoso generalizar. Algumas intervenções terão sido esclarecidas e com algum enquadramento estratégico sustentável. Mas na maior parte não. Com o objectivo de fazer números bonitos a curto prazo, muitas vezes com a gordura ia também a fêvera, desde que bem paga. Se depois, sem fêvera, a empresa definhasse, isso era irrelevante desde que o efeito surgisse para lá do horizonte temporal da intervenção dos devastadores insectos.

É relativamente fácil descobrir que uma empresa tem um valor de vendas/empregado baixo. É bastante menos evidente concluir que a solução seja simplesmente reduzir o pessoal para acertar o rácio (e até evitei falar em arrogância). Pode conduzir à síndroma do “burro do inglês”. Para criar valor de forma sustentada é necessário conhecer o negócio e ter uma visão que, sem os ignorar, ultrapasse a frieza dos rácios dos balanços e das contas de exploração. Aliás na tempestade actual é fácil entender quem se aguenta melhor. Por isso, pelas dificuldades no mercado financeiro e, porque não, pela quantidade de “burros” que por aí há em cuidados intensivos, os gafanhotos perdem brilho e músculo. Passaremos a ter empresas de sapatos lideradas, será espantoso, por quem entende de… sapatos. Outros problemas aparecerão, mas é um pouco repor alguma justiça neste mundo.

15 abril 2009

Gincana asquerosa

Excerto de uma notícia sobre o recurso que o advogado de Domingos Névoa vai apresentar à condenação do seu cliente:

“No recurso, o jurista afirma que a responsabilidade criminal do arguido estará também excluída, "por falta de culpa, devida a erro não censurável sobre a ilicitude, ou seja, por ter agido sem conhecimento da ilicitude, conforme o Código Penal". "A falta de culpa radica no facto de não se ter provado que o arguido tivesse conhecimento da ilicitude (penal) - coisa diferente do conhecimento da proibição - como não se provou que o seu desconhecimento ou erro fosse censurável", afirma.

Sustenta que "o direito português vigente, correctamente aplicado, nomeadamente à luz das exigências constitucionais da proporcionalidade, não permite o recurso a escutas telefónicas, acções encobertas e gravação de conversas cara-a-cara e de imagem, para investigar e perseguir o crime de corrupção activa para acto lícito”


Qual o objectivo: provar que legalmente não é válido, aquilo que para o comum dos mortais não apresenta a mínima dúvida? Que princípios tem quem assim argumenta? Está tudo bem desde que se consiga anular a prova? Sintomático que Isaltino Morais ao ser questionado por uma testemunha ter afirmado que ele recebeu uma casa no Algarve por “contrapartida de um favor a um empresário”, tenha comentado: “Ele disse que eu lhe disse e isso vale zero” – não importa o fundo, o que conta é se a prova legal conta. “Ladrão” é apenas aquele que é apanhado e que não atirou fora o produto do furto antes de ser fotografado? E, já agora, que tem que saber previamente que vai ser fotografado e que autorizou a fotografia?

Acho muito bem que ninguém seja condenado antes que a culpa seja indubitavelmente provada e que essa prova tenha regras bem claras. Mas, se tecnicamente a justiça é a aplicação das leis, é também, e fundamentalmente, um valor daqueles que nos afastam da barbárie e convém não esquecer isso. Depois dos inocentados Fátima Felgueiras, Pinto da Costa, Avelino Torres, e veremos como sairão Isaltino Morais e Valentim Loureiro, não querem ver que Domingos Névoa, por azar condenado, ainda se “safa”? Para lá das distracções e azelhices que deixam estes buracos técnicos onde chafurdam diligentes advogados, será que a lei não protege tanto que acaba por inviabilizar a Justiça?

Uma coisa é certa, quando a “inocência” é conseguida à custa destas gincanas técnicas, a reacção é de asco!

13 abril 2009

Andando às Antas….


No meio do Alentejo, seguir uma indicação para uma anta pode ser uma boa aventura. Principalmente porque na maior parte das vezes a sinalização só manda sair da estrada principal e depois é uma questão de persistência, palpite e sorte. Pode não se ver nenhum monumento, pode-se avistar um lá ao fundo, bem protegido por várias linhas de arame farpado, mas acaba por ser um exercício de descoberta com o seu quê de divertido e a atirar-nos para lugares e cantos que doutra forma não descobriríamos.

Entre Marvão e S. Pedro do Corval, há uma dessas placas que por acaso até nem nos faz perder. A particularidade é que na zona dos monumentos está uma parada de oliveiras antigas impressionantes. A oliveira é sempre uma árvore bonita e sob um sol de manhã de primavera mais ainda. Naquela zona, no entanto, é uma verdadeira exposição de arte! Garanto que já visitei exposições de artes plásticas muito, mas mesmo muito, menos interessantes!

09 abril 2009

Nocera, Todi e Aquila


O centro de Itália não tem o esplendor da Toscana e da sua Florença, nem o charme histórico de Roma, nem o romantismo do norte dos lagos, de Verona e Veneza, mas é a minha zona preferida. Já passei várias vezes pela Umbria em férias e em trabalho e sempre com o mesmo prazer. Sendo Peruggia e Assis os locais mais conhecidos, não faltam outras belíssimas povoações encavalitadas no alto daquelas doces colinas, das quais destaco Gubio e Orvietto.

Mas é uma zona sísmica. A foto acima é de Todi, do verão passado, de que me recordei por semelhança ao ver imagens de Aquila, mais a sul no Abruzzo, agora sinistrada.

Em Setembro de 1997 um terramoto na mesma falha sísmica esvaziou a aldeia de Nocera Umbra, um pouco a leste de Assis. Passei lá em 2005, ou seja 8 anos depois e guardo uma impressão muito forte dessa visita. A povoação continuava em ruínas, vazia, como se os habitantes a tivessem abandonado na véspera, apenas com um pouco mais de pó, com as paredes das casas fendidas e as postas escancaradas para um interior caótico. 8 anos depois é assustador. Os habitantes continuavam em casas pré-fabricadas no fundo do vale, 8 anos depois.
Passados os focos mediáticos e enterrados os mortes, Nocera Umbra ficou ao tempo e ao pó e a sua gente em habitações provisórias. Esperemos que desta vez seja diferente.

07 abril 2009

Sssemana Sssanta!

Quando andava com mais frequência pelas terras de Castela e Levante, ouvia nesta altura do ano ser referida com entoação muito convicta e carregada esta coisa da “ssssemana sssanta”. Na expressão junta-se um misto de sabor a pequenas férias e uma veneração e reverência por aquelas manifestações negras e roxas da “paixão”!

Não costumo ter férias nesta altura e as procissões das cruzes parecem-me mais lúgubres e sinistras do que minimamente simbólicas de outra coisa mais elevada. E, mais uma vez, é pena. É pena que num mundo em tamanha convulsão que forçosamente questiona os seus valores, e os procura, mais uma vez a Igreja católica não consiga utilizar o seu riquíssimo património humanístico. Ficamos pela rotina oca das cruzes envoltas em faixas roxas e pelas tenebrosas procissões espectaculares. Não se vê como isso combina com os ovos e os coelhos da fertilidade associados ao equinócio do Primavera, mas com um bocadinho de esforço poderiam lá chegar. É mais fácil, se bem que bastante menos eficaz, fazer um discurso a condenar o hedonismo em Luanda…

01 abril 2009

“Balboas”? Não, obrigado?


Em passagem recente por Monsaraz ouvi falar de novo na controversa refinaria prevista para Balboa, no outro lado da fronteira. Em primeiro lugar, o investimento parece algo atípico. Uma refinaria “movimenta” quantidades enormes de materiais e a localização economicamente mais lógica é junto a um porto, e dos grandes. Ali, perdida no meio da Estremadura, é estranho. Pensando que se trata de uma zona deprimida, com “incentivos” especiais ao investimento, pode ser apenas mais uma caça ao subsídio. Para estes valores de investimento e respectivo ciclo de vida parece caça grossa demais, mas enfim, eles lá saberão.

A polémica é sobre a componente ambiental. E lá vem um monte de gente afirmar que a poluição por ela emitida irá matar o Alqueva. Talvez possa não ser assim. O impacto de uma unidade deste tipo não pode ser comparado com o histórico do que acontecia há 20 anos. Actualmente existem soluções para tratar qualquer tipo de poluição e legislação para obrigar à sua aplicação. Obviamente que o custo varia conforme a exigência. Assim sendo e estando em causa uma zona tão sensível como a bacia do Alqueva, o Estado Português só tem que colocar a “fasquia” no ponto certo, exigir o seu cumprimento e prever multas bem dissuasoras para o caso de ocorrer um “problema”. Até poderia exigir acesso à monitorização em tempo real das emissões!

Com algumas semelhanças está o projecto da Cimentaurus para uma nova cimenteira em Figueiró dos Vinhos. Em primeiro lugar, com a situação actual na construção em Portugal e em Espanha, surpreende a necessidade de uma nova unidade de produção de cimento, mas eles lá saberão. Do ponto de vista ambiental, diz-se de tudo, até que porá em risco a saúde e a qualidade de vida das populações. De novo, está mal! Uma cimenteira pode ser limpa. Basta investir e isso já é obrigatório até. E, de passagem, recordo-me de quando um projecto de uma nova máquina de papel em Viana/Ponte de Lima ia “destruir” o bucólico rio Lima.

Há apenas um aspecto que pode não ser pacífico e que nem se aplica a Balboa que está 50 km para lá da fronteira. É o impacto visual. Se as emissões e os efluentes são medidos e tratados, uma grande unidade industrial pode estragar o “ambiente” do ponto de vista estético. Um dia alguém há-de pensar e legislar sobre a integração paisagística destas e doutras coisas como antenas, aerogeradores, etc.

29 março 2009

Ainda o preservativo e o papa

Aqui atrás reagi um pouco a quente a este tema, de tal forma o assunto parecia estar a pedir. Depois de ver alguns prós e contras, apetece-me acrescentar algo.

Entendo que o Papa não condenou o preservativo cientificamente mas sim moralmente. Posso compreender que seja essa a sua posição. Para a igreja católica a actividade sexual deve ser exclusivamente dedicada à procriação, não é? Por isso, o preservativo sendo um contraceptivo, não é aceitável. Neste ponto, como com a pílula, só pode acontecer uma de duas coisas: ou Roma revê a sua posição, ou se quiser ser coerente até ao fim, o seu rebanho ficará muito, muito, muito encolhido.

Outro ponto de vista, e por acaso até alinhado com a posição do Vaticano, é defender que se cada um tiver única e apenas um parceiro estável, não há propagação da sida. O preservativo facilitando a promiscuidade vai no sentido contrário. Agora, será por desaparecerem os preservativos que acaba a promiscuidade e especialmente em África? Resposta óbvia: não. Aliás, face ao que sabe e ao que não se sabe, nem sequer é disparate, em muitos casos, sugerir o uso do preservativo mesmo entre pares “teoricamente” estáveis e exclusivos.

O Papa quer condenar o hedonismo e todas as religiões, de alguma forma, tocam esse ponto de recusar dar a primazia ao prazer imediato e individual. Agora tem é que saber como falar e com quem está a falar. Quando em Luanda usou a palavra “hedonismo” em frente daquela multidão, teria ele uma ideia de quantos dos assistentes sabiam do que ele falava?

26 março 2009

Prémios, bónus e outras desgraças

O vendaval começou com a AIG, quando se soube que a seguradora americana, ainda há poucos meses à beira da falência e salva pelo estado americano com muitos milhões de euros, um daqueles números com tantos zeros que ultrapassa a nossa capacidade de avaliação, ia distribuir uns milhões de euros pelos seus gestores, como prémio.

Ora bem, se estes gestores quase levaram a empresa à falência, não deveriam ter direito a prémio, antes pelo contrário. É uma lógica simples e até Barack Obama reagiu fortemente afirmando que o dinheiro dos contribuintes não poderia ser usado para esse fim. E foi a correr criar legislação para taxar esses prémios e “recuperar” os milhões para os cofres públicos. É fácil estar de acordo com este princípio e entender a revolta que tal “prémio” provoca em quem perdeu o seu emprego e/ou as suas poupanças na actual tormenta, mas à parte o populismo, há mais pontos a considerar.

Se esses gestores foram realmente incompetentes e desastrosos, não é o bónus que é indevido. É tudo, incluindo o seu salário fixo e outras mordomias. Se não prestam devem ser despedidos e ponto final. Se não é esse o caso e se a sua continuidade é útil para as empresas, não é necessariamente mau que a sua remuneração tenha uma componente fixa e outra variável, a que se chama “prémio”. Essa parte variável tem, em geral, regras bem definidas e o prémio em questão na AIG pode muito bem ser apenas o resultado do que está contratualizado com essas pessoas e não fruto de uma decisão arbitrária. Se o “valor” dessas pessoas no seu mercado de trabalho é tal que o que recebem no total de fixo mais variável é o “justo”, sob pena sairem da empresa por receberem propostas mais aliciantes, não podemos criticar a existência “per si” do prémio.

Podemos então questionar duas coisas: A primeira é se esse “mercado” está equilibrado? Estes “gestores” não terão andado entretidos a aumentarem-se uns aos outros durante os tempos faustos criando uma bolha a precisar de ser purgada? A segunda questão é uma noção de responsabilidade e solidariedade social. Pode estar tudo formalmente muito certo, mas é questionável manter estritamente as condições do “contrato” no contexto actual. A uma situação excepcional devem corresponder acções excepcionais. Já experimentei a situação de eu e um grupo de pessoas, fortemente comprometidas com a sobrevivência duma empresa em dificuldades, termos aceite reduzir pontual e temporariamente o nosso vencimento e isso é “normal”.

Uma coisa é certa: quando os operários da Valeo francesa vêm a empresa em sério risco de sobrevivência, serem suprimidos 1600 postos de trabalho e o seu presidente ter uma “prenda” de despedida de 3,2 milhões de euros, é muito, mas mesmo muito difícil aceitar e entender que isso seja justo. É assim que começam as revoluções.

21 março 2009

A história repete-se


Depois do seu antecessor, Bento XVI foi a África para voltar a criticar a utilização de preservativos. Pensava-se que tamanha gafe não fosse repetida. Mas não. A história repete-se e da segunda vez....
E afinal não foi sem razão que muita em gente em Abril de 2005 fez uma grande careta quando soube que o novo papa seria o então cardeal Ratzinger. Bento XVI está com sérios problemas de afirmação no Vaticano e na Igreja em geral. A última gafe foi o perdão aos bispos da Irmandade Pio X, fundada pelo bispo Lefévre e que querem recuar para o antes do concílio Vaticano II. E, para dúvidas não houvesse, um desses bispos, o inglês Richard Williamson, apressou-se de imediato a dizer que não acredita que tivessem existido câmaras de gás nos campos de concentração nazis.

Enfim… cada vez mais longe do homem que sorria.

20 março 2009

E o mal é ou não é banal?

A expressão “Banalização do mal”, “criada” por Hannah Arendt após assistir ao julgamento de Adolf Heichmann é muito facilmente citada. Eu mesmo não resisti a evocá-la no último texto a propósito do massacre de Winnenden. Coincide ainda com o julgamento do monstro de Amstetten, o tal que sequestrou e violou a filha durante 24 anos, e que também teve direito a esse carimbo.

Não me apercebi na altura em que li o trabalho da autora mas, ao olhar agora de novo para a expressão, parece-me algo infeliz ou imprecisa. Enquanto houver bem, haverá mal e o mal é muito frequentemente banal, no sentido de trivial; não é necessária ou habitualmente transcendente. Ou seja, a motivação para provocar mal raramente é excepcional ou grandiosa. Muitas vezes é até bem mesquinha e vulgar. E isso não é equivalente a banal? E é bem certo que a máquina nazi era tudo menos banal.

Hannah Arendt fica siderada porque esperava ver ódio na motivação dos assassinos e algum tipo de carga emocional. Quando um funcionário nazi diz friamente que executar uma ordem para carregar um comboio com judeus destinados a uma câmara de gás não é diferente de executar uma outra ordem qualquer, como mandar limpar a sala e parecendo acreditar no que diz, não podemos deixar de ficar estupefactos.

Este mal não é “quente”, mas sim “frio”. E aqui, sim, reside a particularidade e a monstruosidade. Por muito ou pouco condenável ou justificável que seja, fazer mal deve ser intencional. Assim, poderá ser avaliado, questionado e combatido. Provocar mal conscientemente mas sem intenção ou percepção de o fazer é… desumano ou demente.

Não presenciei, obviamente, esse nem a outros testumhos mas vi entrevistas gravadas a alguns indivíduos da mesma categoria. Não estou assim tão convencido dessa indiferença. A atitude de defesa de não pensar e de não questionar não é equivalente a pensar que não é nada.

No mal frio eu não acredito. Um malévolo frio ou é louco ou é desonesto, sendo ambas as posturas duas formas clássicas de reagir em tribunal perante uma acusação grave. No fim, pode-se especular eternamente sobre a motivação e a percepção do mal na perspectiva de quem o provoca, mas, no entanto, do lado de quem o sofre, a visão é bastante mais clara.
Correcção em 21.3.2009: O julgamente em causa não foi o de Nuremberga mas sim um especial em Israel para este senhor capturado posteriormente pelos israelitas. As minhas desculpas pela confusão...

17 março 2009

Síndroma de Columbine



Columbina está associado a pomba, símbolo da paz, mas este síndroma de Columbine, manifestado pela última vez há poucos dias no sul da Alemanha, não tem nada a ver com a paz e começa a ocorrer com uma frequência preocupante. Na minha opinião estes casos são “apenas” uma variante do suicídio arrogante. Um desistente resolve não partir sozinho e em fúria destrutiva arrasta com ele algo de simbólico e representativo. Há os que dizimam a família e há estes adolescentes que tentam levar uma parte da escola, ambos associados à sua falha e à sua exclusão.

Dito assim é simples e como haverá sempre falhados na escola e armas de fogo disponíveis, os Columbines são inevitáveis. Sim, mas pondo de lado a questão do suicídio em si, vejamos a forma.

As imagens finais do assassino/suiçida de Winnenden mostram uma pose estranhamente parecida com um daqueles personagens das consolas de jogos de que ele tanto gostava. Daqueles jogos em que é normal e até recompensada a violência gratuita e brutal; veja-se o GTA (Grand thief auto).

Não é por mostrar unicamente imagens de anjinhos cor-de-rosa que a violência desaparecerá. Ela sempre esteve presente: o que o desgraçado do Coiote não sofre ao tentar apanhar o Bip-bip! Mas, aí, há um certo “valor”: o Coiote é mau e sofre por isso. Nos jogos actuais basicamente luta-se e no conceito do RPG (role playing game) o jogador faz parte daquela intriga e mata e morre por pontos e por nada. E, quando morre, perde uma de várias vidas e, quando perde tudo, ou se chateia, tem um botão de reset para recomeçar; o único prejuízo é na auto-estima. Quando o personagem não encontra o seu papel “cá fora” e desiste, carrega o botão de reset e toca a acabar com aquele “jogo”.

A solução não será unicamente proibir e limitar as armas de fogo mas isso ajudará bastante; a solução não passará certamente por colocar detectores de metais em cada porta e esquina. É fundamental haver uma moral sólida que impeça alguém de olhar um inocente olhos nos olhos e decretar: vais morrer comigo! E desenvolver e consolidar uma moral é uma questão de exemplo, de empenho e de tempo. Os GTA’s e as crianças entregues a si próprias vivendo esse mundo sem uma tutela e uma referência familiar forte, ou social ou, no limite, confessional estão a caminho da famosa “banalização do mal”. Quando os pais pedem para as escolas ficarem abertas 12 horas, não estão a entender o jogo.
Nota: Foto extraída do site do Nytimes

15 março 2009

“Mentiroso” não é insulto?

A CGTP promoveu uma manifestação de protesto que foi um sucesso. O primeiro-ministro falou de instrumentalização política e acusou a organização de recorrer ao insulto. A CGTP refuta. Até aqui nada de novo. O curioso é quando Carvalho da Silva diz ser normal chamar mentiroso aos políticos e que mesmo na Assembleia da República isso é frequente. Bem, realmente tem-se ouvido por lá muita coisa que não pode ser considerada normal ou digna.

Por este andar não vai ser necessário procurar adjectivos para atacar os políticos. Deixemos pois os simples mentirosos em paz e quando quisermos insultar a dita classe, digamos apenas:
Seu político!!!!

14 março 2009

Já se sabia

Já se sabia que um dos problemas que temos, cada vez mais, é as pessoas não saberem escrever e já há problemas de interpretação de legislação por os seus autores sofrerem de um certo grau de analfabetismo.

Agora, o que nunca imaginei foi que a desgraçada irmã do Português no ensino, a Matemática, também chegasse assim dramaticamente aos tribunais. Recentemente recebi uma cópia de uma deliberação, no mínimo anedótica.

No 8º Juízo Cível de Lisboa, no processo nr 1313/2002, concluído em 10/11/2008 um executado, a quem foi ordenada a penhora de 1/6 do seu vencimento, pediu a isenção da dita penhora. O assunto foi avaliado e o tribunal, em jeito de compromisso decidiu “proceder à redução da penhora do vencimento do executado para 1/5 do vencimento”. Esta “redução” corresponde a um aumento de 20% do valor absoluto da mesma.

Eu acho que não vale a pena explicar ao Sr. Dr Juiz o que é o numerador e o que é denominador, sendo que quanto menor for o denominador por menos se divide e mais fica. Proponho que, didacticamente, o vencimento dele seja “aumentado” segundo o mesmo critério! Até receber no final do mês, ficará contentíssimo. Depois, aprenderá e não esquecerá ….

09 março 2009

Polis e despolis


Vila Real não é certamente um bom exemplo de desenvolvimento urbanístico. Talvez até seja um dos piores à escala nacional. Se lá fossem aplicados os mesmos critérios de Viana do Castelo relativamente ao famoso prédio Coutinho, provavelmente seria necessário demolir 80% da cidade e certamente não estou a ser pessimista.

Veio o Polis e aconteceu um milagre. Conseguiu criar-se no coração da cidade em volta do rio Corgo um parque, não muito grande é certo, mas bastante agradável.

Só que vícios antigos não têm cura e prova-se não ser por acaso que a cidade está como está. A Câmara em vez de procurar outras zonas para novo milagre, quer entrar pelo parque dentro com uma estrada, umas “infra-estruturas” e um parque de estacionamento. O meu espanto é que só vejo desvantagens na intervenção. Tenho falta de informação ou de imaginação ou de outra coisa qualquer para descortinar algum benefício para a comunidade. Haverá algo que me escapa? No sítio oficial da Câmara Municipal está uma palavrosa e oca apresentação e tentativa de justificação referindo ”evolução das condições económicas, sociais, culturais e ambientais” e para detalhes remete para um site (http://www.polisvilareal.pt/), não disponível.

Diz o presidente da autarquia, um daqueles que já perdeu a conta ao número de mandatos e que continua com firme apoio popular, que como as infra-estruturas serão pintadas de verde, os utilizadores da zona quase que nem vão notar! É uma boa sugestão para Viana. Pintam o prédio Coutinho de um lado da cor do céu e do outro lado da cor do Rio Lima e pronto! Fica toda a gente satisfeita.

Bom, se eles estragarem o que o programa Polis financiou, há-de haver um dia mais tarde um Repólis, pago de novo por todos nós, é claro, para corrigir os problemas urbanísticos criados e melhorar a qualidade de vida das cidades. Quem fica a ganhar, ainda não entendi.