18 abril 2021

Lições de boas práticas corruptivas


Aprendemos todos muito com a famosa comunicação de Ivo Rosa de 9/4. Por exemplo, os corruptos aprenderam uma forma infalível de ficarem impunes. Basta apresentarem um contrato de corrupção assinado com data 5 ou 15 anos anterior (verificar a data de aplicação da alteração com um bom advogado) à data dos pagamentos. Sim, esse documento poderá ser falso, mas quem o vai provar?

Ao mesmo tempo será também “tax free”; é só vantagens! Para lá das voltas e reviravoltas que os especialistas fiscais possam dar, acho muito curiosa a interpretação de que se não for descoberto, nada se sabe, nada a assinalar; se for descoberto (e provado…) a integralidade reverte para o Estado e não faz sentido pagar imposto por algo de que não se usufruiu. O cidadão lambda que por uns dias de atraso nas suas obrigações fiscais tem logo direito a multas e juros, deve achar muito particular esta visão de que o corrupto, sendo apanhado, devolve o produto ao Estado e fica tudo quite.

Sim, o combate à corrupção é complexo e exige meios e ferramentas que podem faltar, mas será que, especialmente na deliberação do Tribunal Constituição sobre o início da contagem do prazo de prescrição, não faltará também vontade e seriedade?

 

16 abril 2021

Mobilidade elétrica

Está feita voz corrente que o futuro dos automóveis passa pela eletricidade, com alguns construtores a anunciarem mesmo o fim dos motores de combustão. Para já, vamos pôr de lado a questão da origem dessa energia elétrica. Em Portugal, atualmente, cerca de 60% é de origem renovável e veremos até que ponto o aumento do consumo será superado pelo crescimento da produção renovável, de forma a a mobilidade elétrica ser efetiva e globalmente zero emissões (e nuclear free).

A questão aqui é do ponto de vista do utilizador “normal”, não aquele que se interessa por monstros “amigos” do ambiente com algumas centenas de cavalos. Vamos imaginar um automóvel elétrico simples com autonomia de 200 a 300 km. Carregar em casa numa tomada standard, poderão ser cerca de 6 km de autonomia por hora de carga; numa noite de 8 horas, ficará pelos 50 km… utilizando uma tomada especifica reforçada (Wall box), depende da potência contratada e do carregador no veículo. Para 7 a 8 KW, serão 20 a 30 km por hora de carga e atingirá os tais 200 km de autonomia no dia seguinte pela manhã.

Se a rotina de utilização for compatível com a carga diária noturna, perfeito. Se pontualmente ultrapassar, mas em contexto conhecido, onde se possa identificar com alguma segurança onde recarregar durante o dia, eventualmente num carregador rápido, também passa. O problema é pensar em aventuras:  “Vou passar um fim de semana ao Alentejo”; “Vou até Madrid”. Aí, será necessário planear muito bem por onde passar, onde dormir e esperar que os carregadores com que se conta estejam operacionais e disponíveis. E não se poderá mudar facilmente de ideias ou de itinerário sem reavaliar a viabilidade.

Pode o futuro mudar com a evolução das baterias. Veja-se o caso dos camiões que para longas distâncias transportariam quase tanto peso de carga útil como de baterias. Pessoalmente tenho dúvidas quanto a assistirmos a um desenvolvimento espetacular na área tecnológica, neste campo. Talvez fosse mais interessante atingir alguma estandardização e, por exemplo, trocar de bateria de vazia para carregada, como se troca uma botija de gás. Talvez mais promissor possa ser o hidrogénio, mas ainda é cedo.

Neste contexto tecnológico e com o balanço do consumo de energia elétrica/produção de renováveis longe de estar garantido, parece-me pouco fundamentada esta vaga radical de decretar a morte dos motores de combustão.


14 abril 2021

O Marquês o os ausentes


Uma das verdades proferidas por Ivo Rosa na famosa comunicação de 9/4, foi de que José Sócrates estava a ser acusado de atos, que, mesmo primeiro-ministro, não poderia ter praticado sozinho, por não estarem na sua competência direta. Ou seja, a ter ocorrido, haveria mais gente envolvida. Daí, ter inquirido os próximos do arguido e tomado boa nota das respostas negativas obtidas. Ilibar um presumível criminoso a partir do simples testemunho de potenciais cúmplices é ingenuidade ou outra coisa. Ter valorizado o testemunho de Paulo Campos e desvalorizado o de Luis Campos e Cunha é uma coisa estranha.

Pode a justiça ficar, pelo menos para já, apenas com o branqueamento de capitais, já não é mau de todo. Mas a sobrevivência do regime precisa de mais. Precisa de saber porque e para quê circularem aqueles milhões de euros a montante das entregas de Santos Silva, que tão mal cheiram, e quem direta ou indiretamente esteve envolvido nesse processo. É difícil, mas a alternativa é a podridão.

 Entende-se que os diretamente visados tudo neguem e os restantes envolvidos, por agora não incomodados, façam de mortos, à espera que passe. O que não se entende é que comuns cidadãos, coletivamente lesados, rejubilem por não se conseguir averiguar o que se passou com o seu/nosso dinheiro.

13 abril 2021

O perigo e a perceção

Quando há cerca de 15 anos me instalei na Argélia, ainda por lá corria alguma atividade terrorista, embora em escala muito inferior à da década anterior. Ao tentar avaliar objetivamente o perigo em causa, podiam-se fazer as contas seguintes. Os terroristas matavam 2 a 3 pessoas por mês, principalmente militares ou policias e em zonas remotas; na estrada morriam em média 10 a 12  por dia e por todo o lado. Um risco realmente muito mais elevado.

Na mesma altura em Portugal, em 2006, morreram 850 pessoas em acidentes de viação (Pordata) durante o ano. Ou seja, o número de mortos na estrada em Portugal era mais ou menos equivalente ao das vítimas de terrorismo na Argélia, sendo que lá até era mais fácil evitar os locais de risco. A grande diferença, não quantitativa, estava na natureza do risco. O da estrada era-nos conhecido e familiar; o outro era novo e isso desestabiliza.

Isto vem a propósito do folhetim com os riscos da vacina da AstraZeneca. Talvez um dia venhamos a saber até que ponto o Brexit e a empresa ser um novo jogador no mercado das vacinas contou para tanto ruído. A questão é que ninguém olha (ou pouco) para as contraindicações e possíveis efeitos secundários de uma medicação, quando a tem que tomar. Entende-se frequentemente que há um risco, mas pode/deve ser corrido.

O Covid-19 assusta, é novidade e tudo o que a ele diz respeito desestabiliza-nos. Mas, das duas uma, ou corremos o risco da doença ou o da vacina. Não é possível esperar risco nulo e a razoabilidade é validada por procedimentos que não foram feitos ontem e por entidades supostamente informadas e competentes. As decisões políticas de põe e tira, tira e põe, quando objetivamente não há novos elementos relevantes, são uma fonte de desestabilização muito dispensável.


10 abril 2021

Marquês a quente…

 

Ivo Rosa entende que C. Santos Silva corrompeu J. Sócrates com 1,7 milhões de Euros, mas o processo não avança apenas porque prescreveu. Apesar disto, este declara-se mais puro do que a Branca de Neve.

Supostas intervenções imputadas a J. Sócrates, não são tomadas em consideração porque estariam foram do âmbito e da competência individual do Primeiro-Ministro; a acontecer não poderia ter sido ele, apenas… e o testemunho dos seus colaboradores próximos é validado.

 J. Sócrates não terá passado recado a Lula da Silva sobre a PT, já que as datas das cimeiras e os encontros oficiais agendados entre os dois líderes não o teriam permitido. Já ouviram falar em telefones e outros canais e intermediários?

Certamente é e será difícil julgar a corrupção, pelo menos na nossa máquina judicial, mas, apesar de tudo o que foi para já anulado, ficou claro e evidente que foram apanhados!


09 abril 2021

Jorge Coelho, uma reflexão

Para mim e certamente para muitos a memória de Jorge Coelho ficará marcada principalmente por dois episódios. A demissão imediata após a tragédia de Entre-os-Rios e o recado do “Quem se mete com o PS, leva!”. Por trás destas duas atitudes, aparentemente díspares de virtude, existiria uma coerência, a frontalidade. Com Jorge Coelho, sabia-se ao que ele vinha, com o positivo e o negativo, mas de forma assumida.

Ouvimos hoje os elogios fúnebres fraternos daqueles para quem um ministro não é responsável por nada (de negativo; para positivo já é mérito), daqueles para quem “no limite …” a coisa pode nem sequer ter acontecido, ou pelo menos numa forma que lhes seja imputável, para quem a hipocrisia é tão natural como a respiração. Esta diferença faz evidenciar a degradação da qualidade humana dos atuais, digamos, responsáveis.


08 abril 2021

Vamos imaginar



Vamos imaginar que estava em funções um governo de Passos Coelho ou parecido e um Presidente da República Jorge Sampaio ou parecido. Vamos imaginar que nestes tempos de pandemia sanitária e social o Parlamento aprovava uma lei alargando apoios sociais temporários, aumentando a despesa pública, numa escala aparentemente gerível, e correspondendo a uma necessidade social efetiva e justa. O PR aprovava a lei e o Governo contestava, invocando a não constitucionalidade formal do processo. O mesmo governo que está a enterrar milhares de milhões numa TAP.

Vamos supor que o Governo era de direita e o PR de esquerda. Vai uma aposta em que os mesmos que hoje rasgam as vestes pelo cumprimento rigoroso da Constituição, estariam a rasgar as vestes contra a insensibilidade social dos “neo-liberais”? Vai uma aposta? Como, em vez de se julgar pelo fundamento, razoabilidade e justiça num sentido lato, tomam-se posições simplesmente pelo alinhamento tribal? Depois, estranhem que deixe de haver pachorra para aturar “os do costume”.


16 março 2021

Um novo apartheid


Tempos e países houve onde se separavam as pessoas pela raça, por exemplo, escolas para uns e outras escolas para os outros. Houve quem tivesse sonhado e lutado por um mundo onde direitos e oportunidades não dependeriam da cor da pele; onde essa ideia de dividir seres humanos por uma coisa chamada cor ou raça seria um anacronismo a eliminar.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e vemos hoje polémicas quanto a quem pode ou não traduzir o poema de Amanda Gorman, pronunciado na tomada de posse de Joe Biden. A tradução de um texto literário e especialmente de um (bom) poema, onde há duplos sentidos, imagens evocadas e uma elegância de frases a cumprir, não é como ser um figurante porta-estandarte. Requer um bom conhecimento da língua origem e um excelente domínio da língua destino. A escolha de um tradutor deve ser determinada pela capacidade e mérito e não pela cor da pele ou o género.

Depois do tempo em que se aplaudia quem tinha belos sonhos, passamos a um tempo em que nos querem fazer mergulhar num pesadelo triste e sombrio: o de um apartheid cultural.

09 março 2021

Não falha! E as sobras

Pode o Governo não conseguir comprar a tempo os computadores prometidos para os alunos necessitados aprenderem em casa durante o confinamento; pode não conseguir reforçar a capacidade de resposta do SNS a partir de dentro ou de fora; pode a execução orçamental de 2020 ter ficado abaixo do previsto antes de Covid-19… mas há coisas que não falham.

Relativamente à Presidência Europeia, contratar comes e bebes para festas que não haverá, automóveis e fardas para motoristas que não verão passageiros, prendas para visitas que não nos visitarão e montar um centro de imprensa quando a ordem geral é trabalhar isolado, essas coisas não podem falhar! Acrescentando os casos que passaram por ajustes diretos a empresas recém-nascidas, aparentemente as únicas “capazes”… venham depois chorar e lamentar que o populismo constitui um grave problema.

E palpita-me que no fim tudo isto ainda vai gerar uma sobras simpáticas

08 março 2021

Foi você que pediu uma freguesia?


Leio atónito que alterações legislativas permitirão criar cerca de 600 novas freguesias, um aumento de cerca de 20% face ao número atual. Vejo anunciado que, em termos de população, será necessário um mínimo de 900 habitantes, 300 no interior, quando a média global do país está acima de 3000. Realmente, depois da racionalização dos tempos da troika, parece confirmar-se que, por cá, reformas a sério apenas sob severa tutela e que à primeira oportunidade os velhos reflexos regressam, mais teimosos do que um boneco “sempre-em-pé”, que, não importa o que lhe façam, retoma sempre à posição inicial. Eventualmente, será mais apropriado falar de “sempre-em-crise”.

Com uma população que não aumenta, com o desaparecimento da necessidade da presença física nas instituições públicas para cada vez mais interações, parece-me até que se deveria pensar e avançar ao nível dos concelhos e não recuar nas freguesias.

Quem pede uma freguesia? Queixas de foro afetivo pelo desaparecimento da individualidade da “sua” freguesia histórica e… “Prasidentes desempragados” de uma Santo António de Matraquilhos ou Santa Maria dos Escofados, que perderam o seu pequenino poder. Nenhuma destas motivações deveria ser racionalmente atendida. Nunca cresceremos assim, brincando aos pequeninos.

E em versão reduzida no Público de hoje.



26 fevereiro 2021

Empresas, nascem e morrem


O livro acima representado, que li recentemente, é uma vista sobre a génese, desenvolvimento e desaparecimento da indústria de papel no estado do Maine, nos EUA, ao longo de mais de um século.

Com o devido respeito pelas distâncias, diferenças e diversidades, apetece-me desenhar um ciclo típico, que poderá não ser assim tão específico daquele contexto.          

Fase I – Os fundadores. A empresa é criada por alguém e segue dentro da família, com dono próximo, personalizado e extraordinariamente ligada à comunidade. Mais do que um emprego para a vida, a empresa é o sustento de famílias inteiras, em sucessivas gerações. Sem muitas obrigações legais que a forcem a tal, oferece um conjunto enorme de infraestruturas e serviços sociais à comunidade. Os trabalhadores, apesar de tudo o que falta, sentem-se orgulhosos em participar no projeto e no sucesso do seu trabalho.

Fase II – Os seguidores - Esgotada a participação da linhagem original, a empresa passa a ser dirigida por quadros aí nascidos. Se bem que a propriedade possa estar já dispersa e parcialmente longe da “terra”, não têm exigências apertadas sobre o retorno do seu investimento. Assim, mantem-se na gestão local uma visão de longo prazo e uma pressão moderada sobre os resultados. Para os trabalhadores o espírito não muda muito e sindicalização não é sentida como necessária.

Fase III – A degradação – Por falta de enquadramento e/ou de caráter o ambiente é envenenado por nepotismo, pequenos reis em cada esquina e iniquidades insuportáveis. Entram os sindicatos.

Fase IV – Gente de fora – A empresa é comprada, vamos supor neste cenário, para já, por outra do mesmo setor. É submetida a concorrência interna, os processos são comparados e questionados, produtos são deslocados e os que agora mandam ainda falam a mesma língua, mas com outro sotaque. A guerra com quem lá está, já sindicalizada, e quem chega e quer mudar é total. A empresa pode ser fechada, por excedentária na nova carteira, redimensionada ou mesmo melhorada. Não remam já com todos na mesma direção, mas antes se confrontam internamente, uns de um lado e outros de outro. As decisões de investimento são algo travadas pela incerteza do clima de litigância.

Fase V – Gente mesmo de fora – Diretamente ou indiretamente os donos são investidores financeiros, que colocam como objetivo prioritário absoluto a sua retribuição e a curto prazo. Nomeiam diretamente equipas de gestão, com esse objetivo, vindas sabe-se lá de onde, que não são minimamente consideradas nem reconhecidas pela antiga organização de cima a baixo. Aqui, tudo pode acontecer e o ambiente não é nem nunca virá a ser o da família. A empresa pode acabar por fechar, como uma grande maioria neste caso, ou não.

Algo que na minha opinião falha no livro em questão é a ligação e a influencia do meio externo e do mercado. Num cenário protegido a fase II, onde as pessoas são certamente mais felizes, pode ser viável, mas tornar-se inviável se o ambiente concorrencial apertar. As empresas necessitam de capitais para investir e sobreviver; quem os disponibiliza espera naturalmente resultados, dentro das melhores expetativas. Dificilmente apenas com legislação se conseguirá proporcionar e forçar um justo equilíbrio entre resultados, sustentabilidade, respeito pelas comunidades e manutenção de valores sociais básicos. Depende das pessoas, valores e … cultura. Entre irredutíveis sindicatos fechados em direitos adquiridos e predadores financeiros que não se preocupam em matar a empresa desde que o seu retorno a curto prazo seja o pretendido… há empresa que morrem e pessoas que sofrem. Depende da … cultura.

 

11 fevereiro 2021

Importações e contrafações ideológicas


 Os States são um grande país que influencia meio mundo (mais de 3/4?) de várias formas e feitios e não apenas pelos jeans, filmes de cowboys e a coca-cola. Inevitavelmente há inúmeros produtos e ideias que são importados e adaptados, preocupando-se eles muito pouco com o tal crime de apropriação cultural, pelo contrário, até o fomentam.

Uma ideia made in USA que foi importada para o mundo ocidental em geral com tradução deficiente é o mea culpa ad-eternum pela escravatura e tráfico associado e o correspondente crédito infinito que tais crimes atestam à comunidade de cor (mesmo estas expressões têm hoje de ser usadas com pinças). Vamos por partes.

A escravatura não é invenção nem exclusivo ocidental, como os dois livros acima representados, que li recentemente bem documentam. Se a escala do tráfico Atlântico foi enorme, o equivalente no Médio Oriente e no Norte de África, só para falar de realidades mais próximas, não foi quantitativamente irrelevante nem diferente no princípio nem na brutalidade.

A partir do século XIX a Europa e especialmente a Inglaterra desenvolve um esforço enorme para acabar com a escravidão e respetivo tráfico no Mundo. Sim, com a máquina a vapor do lado deles o fim da mão de obra escrava era do seu interesse económico, mas independentemente da motivação, a ação foi essa.

O tráfico de escravos em África só acabou após a colonização europeia em larga escala do continente, durante o século XIX. Sem menorizar todos os males desse processo, neste campo particular foi decisivo. Portanto, por motivações e meios questionáveis, o facto é que a Europa está há dois séculos a lutar contra a escravidão e a erradicá-la dos territórios por ela controlada.

Passemos aos States. Foram os grandes “beneficiários” do tráfico Atlântico, mas também no século XIX o poder central aboliu a escravatura, de forma veemente e decidida, provocando uma séria guerra civil (1861-1865). O que há a acrescentar sobre isto é que os Estados do Sul, perderam a guerra, foram vencidos, mas não convencidos. Após a retirada das forças do Norte, arranjaram forma de contornar a “igualdade” constitucional formal e implementar uma coisa muito feia, que se chama segregação racial, grosso modo o equivalente do apartheid sul-africano. Este processo vergonhoso entrou pelo século XX, muito apoiado pela comunidade branca pobre e rural, que aí via uma oportunidade de promoção automática (a tal supremacia branca). Já não é escravatura, mas há uma continuidade na recusa de conceder plenos direitos aos descendentes de africanos, misturando-se os dois conceitos na mesma acusação.

As lutas dos negros (e de alguns brancos) pela igualdade nos EUA (especialmente no Sul) no século XX têm todo o mérito e razão de ser. Bravo aos corajosos.

Agora, importar esse contexto para o Ocidente em geral e em especial para a Europa que há dois séculos luta eficazmente, erradicando o flagelo de onde pode… é uma contrafação, ou, digamos, um “lost in translation”!

09 fevereiro 2021

As sobras, certo?


Acho particularmente irónica a justificação de que alguns “desvios” nas prioridades da vacinação foram feitos para “aproveitar as sobras”… Recorda-me uma história que me contaram de um empreiteiro “esperto” que tinha o hábito de propor partilhar com “oportunos terceiros” as “sobras previstas” das suas empreitadas. Estão a ver o nome correto, certo?

Se o número efetivo de doses disponíveis para cada conjunto de frascos abertos tem alguma variação, não será possível convocar um pouco por excesso, o chamado “overbooking” nas viagens aéreas? No caso de um voo confirmado, ter que esperar pelo próximo pode ser efetivamente um grande inconveniente, mas ser vacinado um dia ou no seguinte, não deve ser assim tão dramático. Questão de planificação, certo?

Obviamente que o problema de fundo não é a questão técnica da “gestão das sobras” e da sua deficiente planificação, mas sim de que serve de desculpa e justificação para uma coisa vergonhosa. Não é preciso mais acrescentar, certo?

03 fevereiro 2021

Amazon

Até há cerca de 2 meses, não tive nada, rigorosamente nada, a apontar à Amazon. Bons preços, serviço impecável. A quase totalidade do meu equipamento fotográfico veio de lá, a maior parte dos livros e outras pequenas/médias coisas também, durante cerca de 8 anos. Tudo irrepreensível.

A diferença começou quando há cerca de 1,5 meses necessitei de devolver um produto com um valor significativo. Realço que após dezenas e dezenas de produtos recebidos, os dedos de uma mão chegam-me e sobram largamente para contar as devoluções que fiz.

Vendo que o registo da devolução e correspondente reembolso tardavam, resolvi contactar o serviço cliente, para ser informado que o meu envio tinha sido efetivamente recebido 3 dias após a expedição e pedindo-me para esperar mais 2 ou 3 dias para ser reembolsado. Este filme foi repetido 10 vezes, sempre com o mesmo resultado: nulo.

Hoje, 7 semanas depois da devolução e 10 contactos com o serviço cliente, dizem-me, na 11ª vez, que há um problema, porque o meu pacote foi recebido vazio!

Bom, lá terei de passar às ações legais, coisa que me enerva solenemente, mas fica o recado. Se quiserem comprar alfinetes, tudo bem; para um produto de valor, cuidado. Pode correr muito mal, correm o risco de ficar sem o produto e sem o dinheiro.

Nota em 5/2: Depois de alguma “agitação social” na página deles, acabaram por me informar que me vão reembolsar e até oferecer 10 Euros, mas não em livros! Ainda não lhe vi a cor, mas tenho esperança. Por curiosidade e anedota anexo as imagens do folhetim. Todas as mensagens, exceto da 21/12 são reação a contactos meus!





01 fevereiro 2021

Vai ficar tudo bem?


 “Fia-te na virgem… e não corras!” Quando a primeira vaga da pandemia cá passou, ao de leve, todos se sentiram excelentes em sabedoria e competência, o povo que se assustou, teve medo e se auto confinou e o governo que concordou com o povo. Na prática não se sabia mesmo porque é que tinha corrido bem e adotou-se o autossatisfação do marinheiro que se julga o maior campeão do mar… quando ele está calmo e o vento de feição.

Mas o vento pode mudar e marinheiro que não se acautela … fia-se na virgem e não rema. Hoje é fácil apontar o que falhou em termos de preparação e atribuí-lo à impossibilidade de previsão, mas são coisas diferentes. A impossibilidade de prever não invalida a necessidade de preparar, pelo contrário.

O que estamos a assistir em termos de incapacidade de navegar num mar realmente agitado, não é novidade. O passado recente está pleno de exemplos de aselhice do Estado e, se não falarmos em coisas dramáticas como os incêndios e a proteção civil, podemos falar do caricato dos boletins de voto das últimas Presidenciais. Sobre o SNS e as suas limitações crónicas, só resta perguntar: resolveu-se esperar que o mar continuasse calmo e a tempestade milagrosamente ao largo?

Depois, temos as vacinas. Começou com a excessiva publicidade ao "irmos ficar bem". Depois, para lá da “esperteza” típica que não foi prevista, há detalhes como, por exemplo, não se ter planeado à cabeça o que fazer com as “sobras”, estranho nome  (e não falemos dos políticos prioritários porque isso alimenta o populismo!).

Acreditar que vai correr tudo bem, não preparar a sério e andar agora a pensar hoje o que se pode ainda proibir para amanhã, foi acreditar demais na virgem!