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15 fevereiro 2015

A saudade como



"A saudade dói como um barco, que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais"

Com Chico Buarque em S. Jacinto

14 fevereiro 2015

A saudade é


A saudade é a dor cravada de acreditar que, noutro lugar, um outro tempo nos espera.

Porto de Leixões

21 outubro 2007

Um olhar português

Se é verdade que a raça (pode-se usar esta palavra?) portuguesa é fruto de uma grande miscigenação com grande variedade de cores, cabelos e íris, também é verdade que há qualquer coisa de característico e cúmplice no olhar que muitas vezes nos permite pressentir, em qualquer lugar do mundo, quando estamos face a um patrício.

À saída do aeroporto de Orly espero pelo táxi que me levará ao hotel nas traseiras do outro aeroporto, Charles de Gaulle. Vou especulando interiormente sobre o tipo de carro e de motorista que me sairá na rifa. Chega a minha vez e há algo no pestanejar do taxista que me faz estar quase certo sobre a sua nacionalidade. Após um telefonema meu dentro do carro que me trai a origem, pergunta-me ele se venho do Porto e que tempo por lá faz.

Vamos conversando ao longo da longa viagem e conta-me que está em França há 41 anos e que só espera que a esposa atinja também a idade da reforma para ir ocupar a tempo inteiro a sua casa na terra. Está contente por a França não ter passado à final do campeonato do mundo de Rugby. Não teria pachorra para aturar os festejos histéricos que não o deixariam trabalhar. Nota-se que não tem pachorra em geral para aquele país. Conta-me da filha que por aquelas terras gaulesas ficará, que se casou na “mairie” em França mas na igreja foi em Portugal. E vai-me contando ainda pequenas histórias das suas idas a Portugal e outras sobre o mesmo tema que passageiros que transportou lhe foram contando.

Já na área do aeroporto de Charles de Gaulle, nas suas traseiras, uma raposa lindíssima, tal qual o Dentuça da Disney, na placa interior de uma rotunda, fita espantada os faróis que a iluminam. Acha o meu motorista que ela não terá problemas de sobrevivência ali porque é uma zona com muitos coelhos. Efectivamente, 200 metros à frente, 3 orelhudos estão perdidos na berma da estrada. Ninguém diria que estamos na periferia de um dos mais movimentados aeroportos da Europa.

Chegados ao meu hotel, despeço-me desejando-lhe um bom retorno definitivo a Portugal. Ela suspende o movimento em curso de me retirar a bagagem da mala e com os olhos pisqueiros diz-me: “Sabe.. aqui, quando chega o frio, às vezes, dá assim uma vontade de um bacalhau, de umas favas...!”

26 maio 2005

Essa palavra saudade

Saiu, há uns tempos, um top mundial das palavras mais difíceis de traduzir. O facto de a nossa “saudade” aparece bastante bem colocada, proporciona uma reflexão sobre o valor que terá, positivo ou negativo, revermo-nos colectivamente nessa palavra.

Se considerarmos “saudade = lamentar a ausência; nostalgia do passado”, teremos aquela noção passiva e derrotista mas, ao mesmo tempo, relativamente fácil de traduzir. A dificuldade da tradução não virá da peculiaridade da palavra em si mas da complexidade do conceito associado.

Na minha opinião, a saudade está associada a uma inquietação do “só estou bem onde não estou” e a um sentimento de incompleto do “há sempre algo que falta”. Pode, por isso, desenvolver uma atitude de introspecção, interrogação e acção ricas e não necessariamente resignadas. Faz sentido falar em saudades do futuro?

Arriscando um pouco mais e tentando desenvolver uma definição para a essa saudade: Não somos de “cá”, não pertencemos ao “agora” neste lugar. A saudade é a dor cravada de acreditar que, noutro lugar, um outro tempo nos espera. Sempre haverá uma terra prometida, onde eu daqui saiba como lá estar. E, no fundo, inconsciente, espero tão cedo lá não vir a chegar. Porque aí, nesse tempo, não saberia como ficar e, novamente, outro lugar teria que projectar. No fim, não somos de nada, ou este somos não existe. No fim, entre ser, tempo e nada, renascerá um doce amargo engano, de em tudo ter acreditado e de nada ter entendido.

Agora traduzam lá....