31 janeiro 2009

Freeport (... e SIRESP)

Estava eu à espera que a poeira assentasse um pouco mais antes de me pronunciar sobre o caso, mas como acho que ainda vai demorar bastante tempo avanço algumas questões e reflexões.

Ainda não vi claramente os motivos objectivos para os dois chumbos iniciais e a aprovação final do Freeport. Houve mudança objectiva no projecto, ou para o mesmo projecto, foram usados critérios diferentes? A decisão de última hora tomada pelo governo em saída foi apenas motivada pela vontade de deixar a casa arrumada?

Face à dimensão do projecto e ao encravamento verificado, não é de estranhar que andassem notas gordas pelo ar, pedidas ou oferecidas, e que algumas tenham efectivamente aterrado algures, candidatos não faltariam. Agora, se houve favor político remunerado, certamente que o aeroporto das notas não terá sido a conta particular de José Sócrates, grande ingenuidade nisso pensar, mas uma coisa chamada financiamento do PS, por canais mais ou menos tortuosos.

E será pura coincidência a reabertura agora do processo de adjudicação do SIRESP na última hora do governo de Santana Lopes, à Sociedade Lusa de Negócios, muito próxima do PSD? Negócio onde ainda falta saber muita coisa, para lá do simples desconto de 100 milhões de Euros obtidos em simples renegociação pelo governo seguinte.

Uma coincidência que me faz recordar os processos nos anos 90, curiosamente também simultâneos, de Costa Freire (PSD) e Carlos Melancia (PS). Esperemos pois pelo desaparecimento da poeira e que a justiça desfaça esta tradição de empates tácticos.

30 janeiro 2009

As crises

Já não deve faltar para muito para ser necessário um superlativo para esta palavra, de tal forma está gasta e banalizada.

Toda a gente entende que os americanos deixaram de pagar as suas hipotecas, que os bancos ficaram com as casas sobrevalorizadas e sem liquidez e que bancos sem liquidez é uma catástrofe.

Depois, as bolsas caíram. Tudo o que era “fortuna” baseada em acções, daquelas boas que subiam assim tipo balões de ar quente, derreteu como neve ao sol; tudo o que era financiamento com garantia sobre acções ficou com o chão em falso.

Agora, o que se está a viver hoje não se explica apenas por estes escassos meses de retracção de consumo, falências individuais, restrições de crédito e dificuldade de colocação de capital em bolsa. Foi muito pouco tempo para tamanho efeito. Já estávamos era assim a cair para a crise e os “sub-prime” foram o empurrão para o abismo.

Hoje, finalmente, já ninguém sonha que os países e as sociedades em geral possam sobreviver comprando tudo feito, certo? Quando se vê o que está a acontecer, e, por exemplo, as nuvens negras sobre a Quimonda aqui ao lado, podemos reflectir sobre há quanto tempo está em curso esta deslocalização das actividades económicas para zonas de “mão de obra barata”, dando espectaculares taxas de crescimento nesses países e preços de produtos fantásticos por cá… e que esperávamos? Baixarmos até ao nível social dos chineses, para sermos competitivos, ou esperarmos, considerando que sobreviveríamos até lá, que eles chegassem ao nosso nível? Na prática seria uma espécie de meio caminho por ambos os lados, mas descer, mesmo apenas metade, é já uma grandessíssima senhora crise. A economia é demasiado importante para ficar nas mãos dos economistas. Política, com “P” maiúsculo, precisa-se.

26 janeiro 2009

Trabalhos de Sísifo na praia da Aguda



Diz-se que "há mar e mar" como quem diz que conhecer o mar não se limita a ver ondas e marés. E o mar tem coisas e manias que, quando lhe apetece fazer, o faz com muita força e determinação e não vale a pena contrariá-lo.

Eu percebo muito pouco de mar. Mas sei que na costa a sul do Porto, onde passei muitos verões, existe uma corrente importante de norte para sul que arrasta muita coisa, incluindo, naturalmente, areia, sendo que esta ao longo do ano não pára quieta. Quando um obstáculo aparece, provoca um desequilíbrio. As obras no porto Leixões afectaram a praia de Espinho, as protecções que posteriormente se fizeram em Espinho, afectaram Esmoriz e por aí fora.

Agora quando quase já não há pescadores, foi construído um enorme molhe de abrigo na Aguda. Esse obstáculo fez estacionar toneladas na Aguda, soterrando os rochedos e as algas que a faziam uma/a praia mais iodada do país e, naturalmente, essa areia aí a sobrar vai a faltar lá à frente, a Sul, na praia da Granja.

A empreitada em curso de transportar areia da Aguda para a Granja por enormes camiões a pisar e a estragar, é um verdadeiro trabalho de Sísifo! À imagem daquele que transporta a pedra até ao cume do monte, para a fazer rolar de novo até à base e recomeçar, aquela areia vai pelos camiões mas o mar, com as suas manias, encarrega-se de repor rapidamente a situação inicial.

Não sei se seria possível construir a infra-estrutura de abrigo de uma forma diferente com menos impacto, nem sei se isso foi ponderado e avaliado. Com o assoreamento na Aguda neste momento tão intenso e afectando já o movimento dos barcos dos pescadores, parece-me que esse impacto foi pouco ou mal avaliado.

Não sei qual a solução, mas gostava muito de, mantendo alguma protecção para os pescadores, voltar a ver rochas e algas na Aguda.

21 janeiro 2009

Antes do degelo

O futuro dos dinossauros

Ao procurar notícias sobre a evolução da contagem dos votos nos USA, deparei com a divulgação de um estudo, pelo Fundo Mundial para a Natureza, em que se previa que, devido às emissões de dióxido de carbono, todo o gelo do Árctico poderá derreter até o final deste século. As consequências seriam naturalmente catastróficas para uma boa parte da humanidade. Neste contexto, há um país que se recusa a ratificar o protocolo de Quioto porque, segundo o seu presidente, não pretendem mudar o seu “maravilhoso estilo de vida”.

Esta visão de curto prazo e de falta de preocupação com a sustentabilidade das políticas não é exclusiva deste campo. Há já alguns anos que os EUA vivem acima das suas possibilidades, suportados pelo sua máquina de imprimir notas verdes e pelos bancos centrais asiáticos que compram os dólares para evitarem a valorização das suas divisas e não perderem competitividade. Os défices comercial e orçamental dos EUA continuam alegremente a acumular até ao dia em que, por um lado ou por outro, mais rápido ou mais lento, se accionar um mecanismo qualquer de correcção que trará à economia mundial um efeito semelhante ao do degelo do Árctico para o meio ambiente.

Esse presidente foi reeleito e, desta vez, não se pode dizer como há quatro anos que foi uma vitória tangencial, de legitimidade suspeita, e que, embora não se esperando grande coisa, não se previa até que ponto chegaria. Agora ele e a sua política foram claramente sufragados pelos cidadãos americanos. “Eles” são mesmo assim!

Estes EUA mantêm dimensão mas, tornou-se mais evidente, que lhes falta, e intrinsecamente, uma série de coisas importantes como sensibilidade e visão estratégica de médio-longo prazo. Estão cada vez mais na cena internacional como um dinossauro (daí talvez, por identificação, o grande sucesso dos temas jurássicos!?!).

A personificação da luta contra o terrorismo em Bin Laden é também um sinónimo de um estilo de liderança frouxa e pela negativa. Quando Bin Laden desaparecer, desaparece o grande desígnio de G.W. Bush. Será por isso que ainda não foi capturado?

O discurso de vitória fez-me recordar os discursos do filme “About Schmidt”. Uma América hipócrita, sem rasgo com um assustadoramente vazio “politicamente correcto”.
Um dia, algo mudará e, confiemos que, antes do degelo do Árctico.
------------------------------------
Este meu texto, publicado no “Público” de 6.11.2004, faz-me lembrar como esse grande país, diferente de tudo o resto que há no mundo, tem uma capacidade impressionante para mudar e surpreender (nota: a “crise” actual já lá está anunciada!).

Realmente mudou e agora temos um novo presidente, “como deve ser”, felizmente antes do referido degelo…! Os EUA, ou pelo menos uma boa parte, estão felizes por exorcizarem a miserável herança que um tonto, talvez boa pessoa, mas tonto e muito mal aconselhado deixou.

Agora, uma coisa é ter uma excelente imagem, apresentar brilhantes discursos com uma mensagem cuidada e irrepreensível e outra coisa é fazer mesmo. Obama é um sedutor e isso ajuda muito. Se Obama parece ter tudo, e mesmo a imprensa mais crítica classifica o percurso dele como “perfeito”, é exagerado e ridículo falar já dos “anos Obama”.

Desejemos-lhe apenas boa sorte, sempre necessária, para lá do discernimento, capacidade de liderança e de decisão e, lá para a frente, poderemos então falar duns “anos Obama” à medida da enorme expectativa criada nos quatro cantos do mundo. A ver vamos…

19 janeiro 2009

Foi ontem

Pois, eu sei, o Glosa Crua não celebra efemérides, mas ontem ouvi falar de Ary dos Santos e deu vontade de pôr cá uma coisa. E fica também em memória de uma pessoa a quem eu muitas vezes ouvi trautear isto por estes caminhos…
video

16 janeiro 2009

O Cardeal e os Muçulmanos

D. Policarpo tem obviamente razão. Casar com um muçulmano pode ser um monte de sarilhos. E, obviamente, há um monte de “inteligência” que vem à praça num “Ai Jesus!!!”, dizer que isso é uma barbaridade retrógrada.

Penso que D. Policarpo não o teria dito como pastor preocupado com a deserção das suas ovelhas (o casamento obriga à conversão, saberá isso a “inteligência”?), mas mais como pastor “pai de família”, preocupado com o bem-estar dos seus.

Um dos problemas destas análises e comentários de comentários é que o exercício de imaginar calçar os sapatos do outro falha. Pensamos que os muçulmanos nos vêm como nós os vemos a eles, o que é falso. Para eles Maomé é o último profeta, com uma mensagem que integra todos os anteriores, incluindo Jesus Cristo; é a religião mais completa e num plano de superioridade relativamente a tudo o resto. É uma visão muito assimétrica e sem preocupações de reciprocidade.

Por outro lado, o Corão é muito um manual de instruções de comportamento, muito detalhadas, e que resiste mal aos 14 séculos que tem em cima. “A mulher não pode viajar sozinha”. E porquê? Por menoridade de direitos ou por necessidade protecção? No ano 600 a segunda hipótese seria razoável, mas, não estando clarificado, a interpretação linear resulta em limitações enormes e pouco compatíveis com os nossos padrões sociais actuais.

D. Policarpo tem razão e, no mínimo, o assunto tem uma actualidade tremenda e merece uma análise objectiva e informada. A “inteligência”, antes de disparar o politicamente correcto, abafando e colocando uma nuvem de fumo sobre essa discussão, poderia começar por ler o Corão e procurar um contacto real com o outro lado para saber como é em vez de imaginar como deve ser.

15 janeiro 2009

Será da idade?

Diz-se que com o avançar dos anos ficamos mais rezingões e com menos pachorra para aturar contra-tempos. Não sei se isso será mesmo assim; pelo menos os grupos de turistas reformados que por aí circulem demonstram muitas vezes um nível de paciência assinalável…

Esta semana vim à Argélia, na minha visita mensal. Como não tinha a agenda estabilizada e a famosa crise diminuiu a frequência dos voos por Espanha, resolvi vir via Paris, que ainda tem voos diários.

Detesto o aeroporto de Charles de Gaulle. Visualmente muito frio e desconfortável. O velhinho e decrépito Orly é mais humano e simpático. O voo da ex-Portugália chega ao terminal 1, que, apesar de umas pinturas novas, parece tirado de um filme barato de ficção científica dos anos 60. Não sei bem como são, mas associo-os a decorações assim "futuristas passadas", com tapetes rolantes a subirem, a descerem e a cruzarem-se no espaço, cada qual bem envolvido pelo seu tubo plástico.

No meio da ligação deveria existir um almoço. Como os controlos de segurança em Paris tendem a serem desesperantemente longos, achei melhor almoçar depois de entrar e depois de me informar de que “sim, lá dentro há restaurantes”. No dito controlo de segurança: sapatos fora, cinto fora! Mas o meu cinto não toca! Tire na mesma, pode ter algo escondido. Ora bem se posso ter algo escondido no cinto não detectado no pórtico, mais depressa o esconderia numa costura das calças, dado ainda não termos chegado à fase de passar em cuecas.

Depois de repor o cinto, o casaco os sapatos e tudo, lá vou à procura dos restaurantes. Duas coisas meio self-service, meio bar, sendo necessário lutar para não comer de pé. Por uns módicos 12 euros pode-se ter um prato quente a partir de um tabuleiro plástico que se coloca num microondas, depois de furar a película de cobertura, depois de partir o garfo plástico na manobra e depois de esperar 10 minutos que o cliente anterior acabasse de aquecer os seus.

O famoso Dilbert dizia numa das suas famosas e esclarecidas irónicas reflexões que somos muitos cuidadosos a tratar do nosso automóvel, apenas usando lubrificantes e combustíveis 100% como deve ser, enquanto que para o estômago enfiamos qualquer porcaria desde que minimamente energética e digestível. Pois… acreditamos mais na resistência do nosso organismo que ainda tem muitos órgãos importantes não substituíveis nem recicláveis do que na do automóvel. Questão de bom senso, de prioridade ou de insanidade?

09 janeiro 2009

Gaza e Gazirão

Gaza andava a encravar o Glosa Crua há vários dias. Este texto foi aberto, retocado e fechado várias vezes, até atingir esta forma, publicável, mas sem ainda o sentir encerrado. Acompanhei o assunto de várias fontes, até mesmo em contacto directo com a “rua árabe” e falar/escrever sobre o tema é, no mínimo, delicado.

A existência de Israel e o seu histórico de vitórias militares não estão nem serão tão cedo “digeridas” pelo mundo árabe, que facilmente se solidariza e mobiliza para suportar os irmãos palestinianos vítimas. O facto de o Hamas, para quem um palestiniano morto por um israelita é um mártir e “quantos mais houver, mais fortes seremos”, ter sido quem disparou primeiro é irrelevante. Para a opinião pública árabe, os “rockets” que caem às dezenas numa área pequena e praticamente sem causar vítimas contam pouco ou nada.

Para lá de ninguém gostar de ver pedras choverem no seu quintal todos dias, mesmo não provocando estragos de maior, se efectivamente o Hamas está a ser apoiado e armado pelo Irão, o tempo corre contra o estado hebreu. Pode assim Israel ter razão na sua atitude pro-defensiva, ficando “apenas”o grande “apenas” das centenas de mortos.

Os estados árabes “moderados”, certamente não modelares em organização nem em transparência, a braços com o controlo dos islamitas radicais dentro das suas próprias fronteiras, não apoiam o Hamas e vêem assustados os protestos crescerem nas suas ruas. Curiosamente o cerco de Gaza e a consequente densidade populacional absurda têm dois actores: Israel pelo norte e leste e o Egipto pelo sul, se bem que as críticas sejam integralmente facturadas ao primeiro. Diga-se em abono da verdade que os palestinianos não têm fama de bons visitantes. A Jordânia expulsou a OLP do seu território em 1970 por atentarem contra o rei anfitrião. Aliás, penso que um líder do Hamas no Egipto não gozaria de grande amplitude de movimentos (expressão eufemística).

Pode Israel estar “simplesmente” a fazer algo de indispensável à sua sobrevivência, mas, na prática, está a ajudar a que se hoje houvesse eleições abertas teríamos provavelmente um “Irão” em todo o Médio Oriente. Não há eleições, mas …às vezes há revoluções. Quando a “autoridade palestiniana” dialoga com Israel, a seguir perde as eleições para o Hamas. Se um dia, por sua vez, o Hamas negociar veremos esses resultados consolidados ou surgirá um Hamas bis? O certo é que há dois tipos de paz: a dos cemitérios e a dos bravos e ainda faltam muitos mortos e os bravos que existem não chegam.

Enquanto a “rua árabe” não entender que a resposta aos padrões de vida “ocidentais”, que eles odeiam e invejam, não é um Irão, as perspectivas a prazo só podem piorar. Tentar esquecer uma dor de fígado bebendo whisky não ajuda nada, mas mesmo nada.