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07 setembro 2017

Gente do mar


Nasci perto do mar e raramente me afastei dele. Não tão próximo a ponto de lhe sentir o cheiro, mas o suficiente para ouvi-lo durante a noite. Na prática para o não ouvir, dado que só o ouve efetivamente quem a esse ruído de fundo não está habituado. No verão, durante um mês, passava umas dez horas por dia na praia da Aguda. Na altura ainda não havia restrições com os UV’s. Conheci e batizei os seus rochedos, hoje afogados em areia por uma daquelas obras que parecem projetadas por quem ignora o mar.

Apesar desta proximidade, há a gente da terra e a gente do mar. Numa estatística caseira e improvisada recordo muito poucas famílias mistas. Os pescadores e as vareiras eram uma comunidade à parte, vivendo numa linha estreita, donde eles saiam para o mar, para pescar, e elas para a terra, para vender o peixe. Não me recordo de tensões nem de nenhum sentimento de hostilidade, nem sequer de antipatia. À parte umas considerações sobre hábitos higiénicos (sem mais precisão), as pessoas respeitavam-se, mas pertencendo claramente a mundos diferentes.

Lembrei-me de tudo isto ao fotografar a procissão ao mar nas festas de Viana deste ano, donde extraí a foto acima, está um pequeno álbum nesta ligação, dizendo a mim próprio: Gente do mar! :)  

14 fevereiro 2015

A saudade é


A saudade é a dor cravada de acreditar que, noutro lugar, um outro tempo nos espera.

Porto de Leixões

26 janeiro 2009

Trabalhos de Sísifo na praia da Aguda



Diz-se que "há mar e mar" como quem diz que conhecer o mar não se limita a ver ondas e marés. E o mar tem coisas e manias que, quando lhe apetece fazer, o faz com muita força e determinação e não vale a pena contrariá-lo.

Eu percebo muito pouco de mar. Mas sei que na costa a sul do Porto, onde passei muitos verões, existe uma corrente importante de norte para sul que arrasta muita coisa, incluindo, naturalmente, areia, sendo que esta ao longo do ano não pára quieta. Quando um obstáculo aparece, provoca um desequilíbrio. As obras no porto Leixões afectaram a praia de Espinho, as protecções que posteriormente se fizeram em Espinho, afectaram Esmoriz e por aí fora.

Agora quando quase já não há pescadores, foi construído um enorme molhe de abrigo na Aguda. Esse obstáculo fez estacionar toneladas na Aguda, soterrando os rochedos e as algas que a faziam uma/a praia mais iodada do país e, naturalmente, essa areia aí a sobrar vai a faltar lá à frente, a Sul, na praia da Granja.

A empreitada em curso de transportar areia da Aguda para a Granja por enormes camiões a pisar e a estragar, é um verdadeiro trabalho de Sísifo! À imagem daquele que transporta a pedra até ao cume do monte, para a fazer rolar de novo até à base e recomeçar, aquela areia vai pelos camiões mas o mar, com as suas manias, encarrega-se de repor rapidamente a situação inicial.

Não sei se seria possível construir a infra-estrutura de abrigo de uma forma diferente com menos impacto, nem sei se isso foi ponderado e avaliado. Com o assoreamento na Aguda neste momento tão intenso e afectando já o movimento dos barcos dos pescadores, parece-me que esse impacto foi pouco ou mal avaliado.

Não sei qual a solução, mas gostava muito de, mantendo alguma protecção para os pescadores, voltar a ver rochas e algas na Aguda.

19 abril 2007

O mar no feminino




Nasci à beira-mar e o mar sempre me arrebatou. Nasci no Mediterrâneo onde a terra é obscura e o Sol cega. Ele está lá, massa de água azul verde, violeta, por vezes lamacenta do cinzento das profundezas, mas sempre luminosa de desejo. Sem ele os humanos seriam nus e rijos como ossos abandonados numa duna. Ele, o Sol, apenas produz calor e poeira; é o mar que o amansa e lhe confere o seu duplo feminino, é ele que transforma o seu deslumbramento em claridade, em dedo de luz, num reflexo de água. O sol lavra a terra da Argélia mas é o mar que a semeia. E a salva.

Tradução livre de excerto do livro "Il faut abattre la lune" de Jean-Paul Mari.