26 fevereiro 2012

O Artista

Tem um enredo em “bossa de camelo”, sobe, cai na fossa e no fim sobe de novo, acabando tudo bem; as personagens são absolutamente lineares e sem surpresas; a narrativa é tão previsível que podemos ir adivinhando o desenvolvimento em avanço. Pois é... Não é um filme para intelectuais... 

Mas é um filme belíssimo e não é por acaso. Há detalhes de sobe e desce de escadas a subir e a descer, planos inclinados… e sorrisos maravilhosos, expressões ríquissimas e que é um gosto ver …  pois é; a beleza não precisa de ser complicada pois não? Um filme belíssimo (na minha opinião é claro…)

24 fevereiro 2012

De quem se fala

Confesso que tenho mais simpatia por Barcelona do que por Madrid e que essa preferência se transmitiu numa primeira fase ao Barça x Real. Com a história da transferência do Figo, o meu “respeito” pelo clube catalão baixou bastante. Neste momento “me encanta” que o Real regresse aos títulos e que para isso tenha necessitado de Portugueses em que, para lá do C. Ronaldo, esteja especialmente o “Mou”. Sem concordar com muitas das suas posições e afirmações, acho sumamente divertida a trovoada que ele causa por terras de Castela. 

Por isso tenho sempre alguma curiosidade quando vejo um título sobre Mourinho. Desta vez era “Mourinho acusado de ser homofóbico” e lá vem a interrogação “o que é que foi desta?!!”. Pelos vistos, antes do último jogo com o CSKA em Moscovo e face ao atraso dos anfitriões em decidirem qual a bola que seria usada, ele terá dito “Quando é que estes mariconços se decidem…?” e lá veio uma associaçõe que eu nem sonhava que existisse - Federação Europeia de Gays e Lésbicas Desportista - com um “ai Jesus” que isso não se diz” e a solicitar à Uefa que tome medidas e imponha sanções! Sendo que mariconço/maricas não é equivalente a homosexual, a atitude dessa tal federação foi, isso sim, verdadeiramente mariconça!

Está cada vez mais difícil usar algum tipo de adjectivo depreciativo. Em torno da raça está mal é claro; autista e atrasado mental é politicamente incorrecto, se bem que dizer que alguém que ouve está a ser surda não é pejorativa para os verdadeiros surdos. Se se usar burro, urso ou camelo já não faltará muito para uma associação protectora dos animais se indignar. A ser assim, pelo seguro, o melhor é atirar com um rotundo e implacável:

- normal, saudável, descomplexado e heterossexual!!!

Ainda não tem conotação negativa mas já faltou mais e para estes não haverá seguramente nenhuma associação que se manifeste.

22 fevereiro 2012

Cinzas

Da mesma forma que acho que só deve gozar férias quem trabalha, também acho que só deveria gozar o Carnaval – Carne Vale – Adeus à carne - quem a seguir realmente fizer quaresma. Grande heresia ? Talvez: ao fim e ao cabo toda a gente tem o direito de se divertir e o motivo de fundo é secundário…!

Estarei a exagerar, um pouquinho. Obviamente que para lá de os antecedentes do Carnaval poderem estar para lá desse antes da quaresma, também a sua história mais recente terá enraizado e contraído um significado próprio e desligado do pré-jejum.

Conheci um alemão que um mês por ano resolvia fazer um jejum de : álcool, tabaco, café e chocolate. Ignoro se fazia uma despedida no último dia antes de iniciar o ciclo, mas era uma forma de se convencer que podia viver sem esses 4 “vícios”.

Não, não o faço e também não celebro o Carnaval, mas no fundo não posso deixar de estar de acordo que o valor de muita coisa só se clarifica na sua carência/quaresma.

E, pode não ter muito a ver mas lembrei-me de um álbum do grande Chico Buarque de 1978 em que durante a ditadura el falava num “cálice”, invocando a censura do “Cale-se” e que incluía uma belíssima música de Silvio Rodrigues que só mais tarde aprendi a ler aquela história dos mortos da felicidade:

Vivo en un país libre
cual solamente puede ser libre
en esta tierra, en este instante
yo soy feliz porque soy gigante.
Amo a una mujer clara
que amo y me ama
sin pedir nada
o casi nada,
que no es lo mismo
pero es igual

Y si esto fuera poco,
tengo mis cantos
que poco a poco
muelo y rehago
habitando el tiempo,
como le cuadra
a un hombre despierto.
Soy feliz,
soy un hombre feliz,
y quiero que me perdonen
por este día
los muertos de mi felicidad.

15 fevereiro 2012

And I will always love you

Claro que não, claro que não há sempre, como o triste fim da menina bonita desta fotografia ilustra. Não há sempre, nem nunca, nem tudo nem nada. Mas, mesmo sendo pieguice, é bonito de ouvir.

E.. como diria um “outro”:

- Se não há nada de mais maravilhoso do que uma mulher que nos tenta conquistar;
- também não há nada de mais ……… do que uma mulher que nos considera conquistados.

E, parece mal para um dia de namorados ?!

10 fevereiro 2012

Kompass life 3

Afinal sempre há novidades … logo após publicar o texto anterior clamando a inexistência de novidades vi a notícia daquela coisa esquisita que dá o nome a esta publicação. É um suposto produto financeiro de um banco alemão, Deutsche Bank.

Eu entendo que se fizer um seguro de vida, terei uma estimativa de vida que será calculada e considerada, de forma mais ou menos agregada, e que se eu viver mais tempo do que essa previsão a seguradora fica a ganhar porque cotizo mais tempo e se eu morrer antes, perdem.

Este conceito do “Kompass life” parece que começou por ser trazer este perder/ganhar para o público. O banco fazia apólices de seguros em nome de indivíduos e pagava os prémios. Quando morriam o dinheiro da apólice ia para o fundo. Quando mais cedo morressem, mais o fundo valorizava, mais rendível era o investimento.

Pelos vistos esta versão 3 é mais “simples”. Não há apólices de vida. Foram seleccionados 500 americanos idosos e “especialistas médicos”, do banco, claro, calcularam a respectiva esperança de vida. O público só tem que apostar e se morrerem mais cedo do que essa previsão ganha o investidor; se morrerem mais tarde, ganha o banco. Deixando de lado a “esperteza” do banco que é juiz, ao determinar a esperança de vida, e parte interessada, fica a ganhar se ultrapassarem essa estimativa, como se pode classificar estes “investimentos” com a morte?

Uma seguradora tem um negócio montado e regulamentado, mas ter milhares de pessoas esperando que os tais seres humanos morram depressa para o seu “investimento” ter o maior retorno, não sei se se lhe deve chamar imoral, indecente ou outra coisa, mas que não está certo, não está. Ou então, por outras palavras, este não é o mundo em que eu quero viver. Ou ainda, não é assim que eu concebo que se possa ganhar a vida.

07 fevereiro 2012

Nada de novo

Depois de um longo intervalo apetece dizer “nada de novo” em jeito de desculpa. E, realmente, apenas confirmações do que se sabia… vamos por partes.

Cavaco Silva – as limitações eram conhecidas, as expectativas baixas mas agora não sobra nada. Não temos mesmo “Presidente” e por vários efeitos cumulativos – queixar-se da redução das pensões no principio, dizer que não chegam quantificando uma e omitindo a mais elevada (não sabe quanto somam mas sabe que não chegam), recusar o principio básico que a todos é pedido de ajustar o que gasta ao que ganha e referir as poupanças, sabendo que uma boa parte dessas “poupanças” foi a negociata das acções da SLN/BPN que estamos todos a pagar, é dose a mais para uma intervenção só: o homem “morreu”.

Inverno árabe – depois da Primavera de esperança tunisina, do Verão quente líbio e do Outono “democrático” egípcio dos islamistas e salafistas, temos o Inverno sírio. Se no início até se podia acreditar que na base estava um movimento genuíno e popular, a guerra na Líbia mostrou que algo mais havia para além dos cartazes, as eleições provaram que a alternativa democrática é o islamismo, mais ou menos moderado, se é que existe essa variante, e a Síria é o seguinte. Al-jazira, Qatar.. há aqui uma força “externa” que “ajuda à democracia”. O Ocidente entrou a contra-gosto neste comboio na Líbia e agora está num comboio desconfortável e não sabe que fazer… Entretanto, há centenas de sírios mortos por semana mas vítimas são apenas os pobres palestinianos…

Corolário: os mortos no campo de Port Said e o que se seguiu. Se é apenas ódio “tribal” transladado ao futebol é preocupante; se é algo mais e é mais preocupante. A solução é a democracia ?

Europa – Já perdi as contas às cimeiras e às formulações e reformulações dos “fundos”. Senhores: a Europa no seu global está mais pobre e assumam isso. Se, apesar das aldrabices gregas, os lá do Norte continuam a achar que a solução é deixar cair os membros gangrenados estão enganados e vamos definhar todos.

Carnaval, pelos vistos. Pelos vistos a tolerância de ponto é um direito adquirido; pelos vistos a falta de disponibilidade dos funcionários públicos condena as celebrações – há assim tantos funcionários?!; e, pelos vistos, uma dia a mais ou a menos não faz diferença – claro que não, quando há gente excedentária que apenas precisa de acelerar um pouco depois para compensar.

04 janeiro 2012

Sociedades secretas

Por motivos diversos tem-se falado ultimamente nas tais sociedades secretas. Em primeiro lugar parece-me perfeitamente lícito que um grupo de cidadãos com um interesse comum se agrupe e crie um sindicado, no sentido lato da palavra, qualquer que seja o grupo e o interesse. Agora, que seja secreto ou algo escondido já me parece menos óbvio. Quem não deve não teme e, acrescento eu, quem não teme não se esconde. Posso entender que uma associação cristã em Espanha nos anos 30 sentisse medo e necessidade de se esconder, assim como que os comunistas o fizessem em Portugal durante o chamado Estado Novo. Hoje não consigo vislumbrar qual pode ser a razão ou o receio que justifique alguma forma de secretismo nos dias que correm.

Depois, há a questão da clareza das intenções. Os promotores imobiliários do Distrito de Aveiro terão todo o direito de criar uma associação que defenda os seus interesses mas não lhe deverão chamar “Associação para a Defesa da Biodiversidade da Ria de Aveiro”. E não devem fazê-lo por duas razões: uma é estarem a enganar a sociedade em geral, a segunda, muito mais grave, é captarem a generosidade de jovens de idade e/ou de espírito que ao pensarem que estão a trabalhar para a defesa da biodiversidade da Ria de Aveiro, estão é a trabalhar para promotores imobiliários. Isto é imoral e obsceno e as “ONG’s” a sério deveriam denunciá-lo.

29 dezembro 2011

A bem da Nação

De acordo com alguns órgãos de comunicação social, a Assembleia de República este vazia de deputados no dia 23/12. Não havia tolerância de ponto, donde que das duas uma: ou os deputados assumiram uma tolerância indevida ou todos encontraram algo que fazer no exterior nesse dia, o que é uma coincidência extraordinária…

A bem da Nação, da dignidade do órgão e da seriedade e solidariedade que deve existir sempre e muito particularmente no período em curso, seria muito positivo que todos os grupos parlamentares comunicassem publicamente o que todos os seus deputados andaram a fazer nesse dia 23/12. 

27 dezembro 2011

Direitos de autor

Eu entendo que se comprar um livro ou uma música não tenho o direito de os copiar e distribuir ou vender e acho que a criação tem que ser remunerada com protecção da propriedade intelectual. Entendo que quem produz um medicamento é devedor de uma remuneração que pague o esforço de investigação e desenvolvimento.

Agora, custa-me mais a entender que isso se aplique com a terra e com sementes. Que um agricultor não possa seleccionar livremente grãos da sua própria colheita e semeá-los no ano seguinte! Mas é assim.

No caso concreto de França, 99% de todas as sementes comercializadas estão protegidas por um certificado de origem vegetal que integra o tal conceito de protecção dos direitos de quem desenvolveu a espécie, sendo assim proibida a sua “replantação”. Ainda em França, esta prática era tolerada mas o lóbi dos produtores de sementes conseguiu fazer votar uma lei que clarifica o contexto e obrigará a pagar ao “dono” da semente um certo valor em direitos. Pode fazer algum sentido e ser reconhecível o paralelo com outros processos criativos ou científicos, mas quando se fala de sementes e terra soa a algo bizarro e contra-natura.

21 dezembro 2011

Este parte, aquele parte ...

“Galiza ficas sem homens que possam cortar teu pão”. Assim escrevia Rosalía de Castro o que muito foi cantado. Há também a fotografia de Gérald Bloncourt da menina portuguesa com a boneca, na lama de um bairro da lata de Paris, muito recentemente identificada, que foi e é outro símbolo. Quando o governo sugere a emigração é natural que a evocação desta fase miserabilista desperte repulsa e reacções fortes.

Não tem que ser assim, uma diáspora de qualidade a funcionar em rede pode ser um enorme factor potenciador do desenvolvimento do país e não há nenhuma dívida de que a experiência internacional é um importante factor de valorização pessoal. Ou seja: a saída do país construtiva e ambiciosa é positiva; a saída para simplesmente fugir à miséria, não.

Da mesma forma que se incentivam as empresas a saírem, será lícito que o governo faça o mesmo com as pessoas? Acho que não. Não gostaria de ver um ministro no vale do Ave a sugerir aos desempregados têxteis que façam as malas e que partam para o Paquistão. O que gostaria era de ter visto o governo a dizer aos seus “boys” para irem gerir hospitais para Angola e para o Brasil em vez de ter substituído as administrações em Portugal para lhes dar lugar.

O problema do emprego em Portugal e na Europa não se resolve carregando barcos de gente; resolve-se com fábricas, mas isso está fora de moda.

16 dezembro 2011

Saber gastar, saber poupar

Na ressaca dos excessos do consumo público em que vivemos, é conclusão evidente que o Estado não soube gastar. Fazer uma larga requalificação urbana na cidade do Porto e arredores e esperar que seja o “andante” a pagar, investir na modernização da linha do Vouga e a seguir encerá-la … são apenas exemplos.

Agora que é necessário poupar, parece-me que também não está a saber poupar. As reduções devem ser baseadas em indicadores e rácios e, naturalmente, serem mais veementes para quem gasta proporcionalmente mais. As reduções cegas são mais rápidas de implementar mas potencialmente muito injustas.

Imaginemos duas entidades análogas. A “A” já tinha feito o trabalho de casa e tem uma estrutura ajustada e uma organização equilibrada e eficaz; a “B” mantém-se tranquila, pouco produtiva e com as suas gorduras estruturais. Vem o corte cego, igual para todos e o que acontece? A “A” vê-se e deseja-se para o conseguir cumprir devido ao seu ponto de partida mais apertado; a “B” com alguma facilidade lá corta algumas gorduras e alcança o objectivo. Quem fica bem e quem fica mal na fotografia?

Eu sei que dá muito mais trabalho definir indicadores relevantes, analisar rácios e definir objectivos, mas essa é a única forma de ser justo e nos tempos que correm a injustiça é muito difícil de insuportar
.

13 dezembro 2011

"Afectos" com preço

A Assembleia Nacional Francesa votou unanimemente um documento de princípio tendente a abolir a prostituição e, a exemplo da Suécia, criminalizar os clientes. Uma das vantagens de ver estas notícias nas páginas abertas a comentários, como neste caso no Le Monde, é que, apesar de algum primarismo e chutos ao lado, há sempre uma grande latitude de pontos de vista que acabam por enriquecer o tema. Aqui não faltou: “É um puritanismo hipócrita; será válido apenas para os pequenos, os grandes como o DSK acabarão sempre por encontrar esquemas; é uma espécie de “lei seca” com as consequências conhecidas, é importante para a dignidade da “mulher”.. e etc.

Se o proxenetismo e o tráfico de seres humanos devem ser crime bem penalizado, e acho que já são, o cobrar pelos “afectos” simplesmente pode ser algo mais delicado de caracterizar. Vejamos no limite: se uma menina vai de férias com um homem (para já não pensemos no vice-versa para não criar mais confusão) em que ele paga tudo… e tem tudo… isso pode ser considerado um negócio e penalizado? E se simplesmente fazem um programa em que ele paga um bom jantar, tendo já subjacente o passo seguinte? Ainda é crime? E quando ela casa sem afecto e sem amor, apenas pela recompensa material, não estará também a vender a sua dignidade? E, aqui, a ser crime, é a vítima que é condenada…?

09 dezembro 2011

Uma oportunidade

Todos sabemos que os erros e as falhas são oportunidades para aprender e corrigir e vem isto a propósito da justiça em Portugal. Ao que parece, qualquer processo mediamente complexo e que disponha de meios de defesa suficientes transforma-se facilmente num queijo suíço de tanto buraco que evidencia ou, noutra imagem, é um simples castelo de cartas que qualquer sniper de boa pontaria faz ruir em dois tempos. E podem os casos actuais estarem perdidos. Pode Isaltino Morais continuar a fumar tranquilamente os seus charutos pagos pela conta do seu sobrinho taxista enquanto apela e recorre até onde preciso for; pode Carlos Cruz regressar às câmaras e recuperar o estatuto de vedeta da televisão, pode Dias Loureiro e o restante universo BPN voltarem a ser socialmente frequentáveis e pode até Manuel Godinho pôr uma acção qualquer contra o Estado Português e, quem sabe, ganhar.

Podem estes e outros casos passarem ao lado da justiça mas aproveitem por favor mudar qualquer coisa para nos próximos ser diferente, pode ser? Não que tenha que ser mesmo como naquele país maquiavélico do outro lado do Atlântico em que lida a sentença condenatória o réu é algemado e não vem dar palpites e lançar poeira para os media. Pode não ter que ser assim, mas pode ser muito melhor do que o que é actualmente. Questão de aproveitar a oportunidade para construir algo melhor, mais eficaz e eficiente … e, por favor, não deixem que os futuros snipers sejam os arquitectos do edifício.