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22 fevereiro 2012

Cinzas

Da mesma forma que acho que só deve gozar férias quem trabalha, também acho que só deveria gozar o Carnaval – Carne Vale – Adeus à carne - quem a seguir realmente fizer quaresma. Grande heresia ? Talvez: ao fim e ao cabo toda a gente tem o direito de se divertir e o motivo de fundo é secundário…!

Estarei a exagerar, um pouquinho. Obviamente que para lá de os antecedentes do Carnaval poderem estar para lá desse antes da quaresma, também a sua história mais recente terá enraizado e contraído um significado próprio e desligado do pré-jejum.

Conheci um alemão que um mês por ano resolvia fazer um jejum de : álcool, tabaco, café e chocolate. Ignoro se fazia uma despedida no último dia antes de iniciar o ciclo, mas era uma forma de se convencer que podia viver sem esses 4 “vícios”.

Não, não o faço e também não celebro o Carnaval, mas no fundo não posso deixar de estar de acordo que o valor de muita coisa só se clarifica na sua carência/quaresma.

E, pode não ter muito a ver mas lembrei-me de um álbum do grande Chico Buarque de 1978 em que durante a ditadura el falava num “cálice”, invocando a censura do “Cale-se” e que incluía uma belíssima música de Silvio Rodrigues que só mais tarde aprendi a ler aquela história dos mortos da felicidade:

Vivo en un país libre
cual solamente puede ser libre
en esta tierra, en este instante
yo soy feliz porque soy gigante.
Amo a una mujer clara
que amo y me ama
sin pedir nada
o casi nada,
que no es lo mismo
pero es igual

Y si esto fuera poco,
tengo mis cantos
que poco a poco
muelo y rehago
habitando el tiempo,
como le cuadra
a un hombre despierto.
Soy feliz,
soy un hombre feliz,
y quiero que me perdonen
por este día
los muertos de mi felicidad.

10 junho 2011

A Banda do Chico passa em Barcelos


"A Banda" de Chico Buarque por Nara Leão.
Bonecos de João Ferreria (Oleiro de Barcelos).
Versão com melhor qualidade aqui .

E, para quem quiser ver algo relacionado, há um jovenzinho a cantar isto aqui.

14 julho 2005

Ser-se mais do que uma só coisa

Este texo, de contexto datado, foi publicado no jornal Público em 20 de Março de 2005, como "Carta ao Director". O tema de fundo é, na minha opinião, universal...


O facto de Bono dos U2 ter sido considerado como um possível líder do Banco Mundial, apoiado pelo Secretário de Estado do tesouro dos USA, é surpreendente.

Talvez menos surpreendente seja o facto de alguns financeiros e economistas carimbarem imediatamente essa hipótese como irrealista, sem sequer analisarem os requisitos da posição e as qualidades de Bono. Independente deste caso particular, que até já está decido de uma forma radicalmente diferente, para muitos, o sucesso só pode ter uma vertente. Se ele já tem sucesso como músico, basta! O sucesso multi-facetado é incómodo e inaceitável para os pequenos de espírito que não aceitam que um estranho, com êxito noutra área, lhes possa passar à frente na sua própria tribo.

E lembrei-me de um dos melhores livros que li recentemente chamado “Budapeste” escrito por um tal Chico Buarque que se revela como um grande escritor. No entanto, como ele já tem sucesso noutras áreas, não será fácil ser reconhecido como grande escritor pela tribo literária.

E lembrei-me de uma criança sonhadora que me dizia ser importante e motivo de grande admiração conseguir “ser-se mais do que uma só coisa”. O seu ídolo era, naturalmente, Leonardo da Vinci. Dentro da lógica anterior, Leonardo da Vinci teria sérios problemas de afirmação. A tribo dos pintores não lhe perdoaria a engenharia; os anatomistas não suportariam que ele também fosse arquitecto, os culinários não gostariam dos seus dotes de escultor e por aí fora. Teria que optar e deveria ficar só num único galho.

O recusar que se seja “mais do que uma coisa” é condenar cada tribo a uma consanguinidade cultural, que é obviamente sinónimo de definhamento.