24 dezembro 2024

Ainda Natal


Neste solstício de Inverno, onde o ciclo solar recomeça e, sem ser por acaso, o ano civil muda, supostamente celebramos a data de nascimento de um tal nazareno. Há para muitos uma dimensão religiosa que não terá discussão, haverá para outros a fragilidade e o questionável rigor histórico da data e, mantendo-nos na dimensão histórica, algo mais pode ser evocado.

Em setembro 2023 percorri Israel, parte dos “últimos turistas” antes da eclosão da guerra. Um dos locais visitado foi o monte das Bem-Aventuranças, onde num cenário belíssimo face ao mar da Galileia, esse tal nazareno terá realizado um sermão e que acabou por fazer mudar meio mundo. Só por isto, já impõe respeito e reflexão.

Mas, há algo que se pode acrescentar e continuando na dimensão histórica. Num mundo intolerante e impiedoso ele disse que “Quem nunca pecou que atire a primeira pedra”, num mundo de olho por olho, dente por dente, que por vezes passa a dois dentes por um olho e três olhos por dois dentes, ele sugeriu sair pela exposição da outra face; num mundo de clãs e tribos ele disse que “Todo o homem é meu irmão” e que todos, mesmo os mais pobres e desfavorecidos têm valor e direito ao respeito e à dignidade.

Se isto não é uma precoce declaração universal dos direitos humanos, parece. Com ou sem fé à mistura, há algo associado a esta figura histórica que merece ser celebrado. Feliz Natal !

19 dezembro 2024

A falta de um Olimpo


Em contexto cultural fortemente monoteísta, seja de base cristã, judaica ou muçulmana, algum tipo de invocação dos méritos do politeísmo é quase crime. No passado foi mesmo crime e objeto de pesadas penas.

Efetivamente, na construção da relação do ser humano com a transcendência, estamos habituados que o Deus único seja um dos pilares fundamentais e inquestionáveis (e não me confundam com a Santíssima Trindade).

Se a religião serve para dar uma visão alargada da existência, uma dimensão metafísica, elevar comportamentos e promover valores mais altos do que os dos instintos básicos, … será que o mais “eficaz” é acreditar e temer um Deus único, coisa simples de explicar e assimilar?

Sobre o deserto ser monoteísta e a floresta, eventualmente, politeísta, já especulei ali atrás e uma boa parte desse texto encaixaria neste, mas não o vou repetir.

A panóplia de Deuses Gregos (e posteriormente traduzidos pelos romanos), dá múltiplas dimensões e motivações. Mais ricas, menos castradoras…?

A função reguladora de instintos, que a religião promove, obriga a disciplina e, consequentemente apresenta a ameaça de castigos terrenos ou divinos. Mas não haverá algum exagero redutor e pobreza intelectual derivados de tanta simplicidade, rigor e severidade…?

Acredito que para muitos a religião e a fé têm uma dimensão dogmática que vai muito para lá destas especulações racionais e heréticas. Acredito também que outros se possam sentir perdidos e ter dificuldade em definir uma hierarquia entre Atena e Baco…

Mas também acredito que o esforço para conseguir um mundo melhor tem dimensões e fontes de inspiração múltiplas, divinais ou naturais, dogmáticas ou racionais que irão para lá do receio do castigo.

Será pecado às vezes visitar o Olimpo e valorizar o que por lá anda?

15 dezembro 2024

A Vendeia e as ideias


A Vendeia está no centro da costa atlântica francesa, um departamento não muito conhecido. A região não tem os pergaminhos históricos da Aquitânia ao Sul, nem a especificidade cultural da Bretanha ao Norte. Um episódio marcou, no entanto, a sua crónica. Nos finais do século XVIII, nas convulsões do processo pós-revolução francesa, ocorreu um levantamento popular contra um recrutamento maciço, tendo-se formado um exército “irregular” que algum trabalho deu àqueles que defendiam a liberdade a todo o custo, passando pelo terror, sempre que “necessário”.

Há uma altura em que, para acabar de vez com a perturbação, os que queriam impor a (sua) fraternidade, custasse o que custasse, decidem enviar expedições punitivas que circularão pela região matando todos os que se apresentam à sua frente, minimamente ou supostamente suspeitos, independentemente da atividade, sexo ou idade. Uma brutal sequência de massacres, existindo um memorial evocativo, em Lucs-sur-Boulogne (imagem abaixo), num dos locais onde essas execuções sumárias foram  realizadas.

Obviamente que os tempos hoje são outros e que este tipo de violência já não é usado para impor ideias, pelo menos por estes lados. No entanto, ainda há quem não hesite em usar toda a força disponível, e socialmente aceitável, para calar opiniões diversas. Chama-se cancelamento. Se antes se entendia que os contestatários podiam perder o direito a viver, hoje ficamos pela perda do direito a falar. Do mal, o menos…

Felizmente que o limite da agressão aceitável está noutra escala e dimensão, mas, por muita bondade que possa existir na sua génese, as ideias que não admitem contraditório são fontes de pobreza, para o mundo e para elas. Uma ideia que se autoproclama inquestionável e se arroga o direito de destruir as outras, está ela própria a caminho da destruição de todos os seus eventuais méritos.



12 dezembro 2024

D Gouveia e Meio – O Almirante Perfeito


Acho que todos já viram aquelas revistas/boletins municipais em que há uma fotografia, pelo menos uma, com o senhor “Prasidente” em todas as páginas, noticiando o que começou a fazer, o que está a fazer, o que acabou de fazer ou o que está a pensar fazer…

Parece que esse vírus atacou para os lados da revista da Armada, cujo último número com o atual Chefe do Estado-Maior é, digamos que muitíssimo, dedicada ao senhor que parece querer ser “Prasidente” desta nossa República.

O cúmulo da descaradez, chegando mesmo ao grotesco, é o bonacheirão almirante aparecer desenhado ao lado do determinado D. João II, que na opinião do mui isento editor da revista, não hesitaria em trocar ideias com o putativo Prasidente, quase um seu espiritual herdeiro. Efetivamente, se o Príncipe Perfeito dispusesse dos atuais drones da nossa marinha, Bartolomeu Dias teria tido muito mais facilidades em dobrar o maldito cabo.

Toda a imagem é de um caricato indescritível.

Quem ficou dobrado e arquivado no meu arquivo de gente de pouca confiança foi quem se ridicularizou desta forma. Enfim, ao menos ficou claro.

11 dezembro 2024

CCB – Alguém me explica?

Em 2023, o então presidente do CCB, Elísio Summavielle, foi convidado por Pedro Adão e Silva, ministro da tutela, a contratar Aida Tavares, uma apoiante do PS e de António Costa, para a direção artística do centro, diretamente, sem concurso público. Pedido recusado por, no entender de Summavielle, a função já estar coberta.

Em finais desse ano Summavielle é empurrado para a saída e substituído por Francisca Carneiro Fernandes, que rapidamente contrata a tal Aida, licenciada em “Educação de Infância”… Duas diretoras artísticas existentes terão ficado sem funções e obrigadas a sair.

Agora, a nova ministra resolve exonerar Francisca e colocar novo diretor… Ai Jesus, é uma calamidade! Protestos de todos os quadrantes, nacionais e internacionais. Comunicado da comissão de trabalhadores, chocada. Convocatória da ministra ao Parlamento. Petição a circular somando mais de 2100 assinaturas. Que capacidade de mobilização!

Pedro A. Silva pedir um tacho para uma camarada partidária não escandaliza ninguém; o novo governo substituir quem andou a fazer fretes ao anterior, isso sim. Isso sim, é um atentado à meritocracia a justificar todas estas reações em cadeia… Ainda por cima, as loas à sua capacidade, competência e resultados, não parecem ter correspondência com a realidade dos factos que começam a vir a público.

Há aqui algo que me escapa.

10 dezembro 2024

Bem Bashar, Mal Bashar


Há cerca de 5 anos, o mundo celebrava o fim (estabilização?) da guerra na Síria, com a derrota dos abomináveis selvagens do “Estado Islâmico” e a manutenção do regime de Bashar al Assad. Certo que não era um santo, até se supunha que teria usado armas químicas contra o seu próprio povo, mas sempre parecia melhor do que os outros fundamentalistas bárbaros. Olhou-se com alguma complacência para os bombardeamentos a civis (não era Gaza) e dir-se-ia que o Hezbollah estava do lado certo da cena.

Hoje celebra-se a queda do ditador e a libertação do país por uns extremistas, bastante mais polidos nas intenções do que os anteriores, mas saídos do mesmo molde. A ver vamos, sendo que se isto se passa com o patrocínio da Turquia a situação não deve ficar fácil para os curdos instalados no nordeste do país.

A Rússia não veio ajudar, encravada na Ucrânia, e o Hezbollah está enfraquecido por ter provocado Israel e corrido mal. De recordar que esta frente foi aberta pelo Hezbollah, em solidariedade com os seus irmãos sunitas de Gaza. Correu mal, porque os sunitas aproveitaram para os correr da Síria, quebrando finalmente o eixo xiita horizontal Irão – Mediterrâneo, que desde sempre foi a questão fundamental na internacionalização do conflito sírio.

Estas celebrações recordam-me as da queda de outro ditador, Sadam Hussein no Iraque, com a diferença de aqui ainda havia forças estrangeiras a tentar forçar a construção de um Estado com instituições normais. Há cerca de um século especulava-se sobre os motivos do declínio e queda do Império Otomano. Cem anos depois, questionamo-nos porque é tão difícil conseguir Estados de Direito (mesmo mínimo) em torno das outrora poderosas e brilhantes Damasco e Bagdad. Algo a ver com a fácil manipulação religiosa das populações? Herança da cultura tribal e dificuldade em estabelecimento de princípios universais de cidadania? O certo é que enquanto uma parte do mundo celebrava e se encantava com a recuperação de uma catedral, aquela outra parte continua com muito dificuldade em ver a luz.

07 dezembro 2024

Votos no vazio


Há algo de comum entre o apoio ao potencial candidato à PR Gouveia e Melo e o recebido no passado por Tino de Rans. É o virem de fora dos circuitos partidários, não viverem no serralho. Apesar do vazio das expetativas quanto à sua capacidade e eventual desempenho como PR, o calceteiro de Penafiel conseguiu mais de cem mil votos. De Gouveia de Melo também pouco se sabe, mas pode vier a ter um resultado interessante, apesar do vazio atualmente existente quanto ao seu pensamento e opções políticas. Diria mesmo que, quanto menos falar, maior probabilidade de sucesso terá.

Esta atração pelo vazio diferente é consequência da repulsa pelo vazio oficial. O normal seria que o PR fosse um senador, sobejamente conhecido e respeitado pelo eleitorado pelas suas ideias e as suas práticas. Alguém sobre o qual pouco vazio pairasse. E, quanto a candidatos com esse perfil, estamos um pouco no vazio.

Não ajudará também o perfil do atual PR, sobejamente falador e opinador, mas em tamanha escala e dispersão, que os excessos e superfluidades acabaram por criar uma outra espécie de vazio.

Portanto, de uma forma ou de outra, perspetivam-se umas eleições assim em forma de vazio. Perigoso.

05 dezembro 2024

App 112


Tem sido notícia os atrasos no atendimento às chamadas de emergência e parece que um dos fatores que faz demorar a gestão das mesmas é a indicação do local da ocorrência.

Felizmente não tenho muita experiência direta nestes casos, mas, até numa chamada para a assistência em viagem, sabemos que pode não ser muito imediata e rigorosa a passagem dessa informação, especialmente quando não se está em local urbano.

Curiosamente, enquanto se pode estar a perder um tempo precioso a explicar a localização, o Mister Google e outros que tais estão “carecas” de saber rigorosamente onde estamos e mesmo mais…

Seria difícil ter uma aplicação para as comunicações de emergência que diretamente passasse a localização? Certo, não funcionaria para chamadas da rede fixa e para quem quisesse manter alguma privacidade. Mas, certamente, para uma grande percentagem de casos seria uma grande ajuda em termos de rapidez e eficácia e precisamente nos momentos em que cada segundo conta.

03 dezembro 2024

Carlos Tavares

Neste último domingo Carlos Tavares bateu com a porta e demitiu-se, ou foi delicada e determinada, direta ou indiretamente, convidado a fazê-lo, ou um pouco das duas coisas.

O gestor que tinha salvo o grupo PSA (Peugeot e cia) da falência, que tinha integrado a Opel e colocá-la a dar lucros depois de largos anos a perder dinheiro, que pilotou a fusão com a Fiat-Chrysler com sucesso, gerando e gerindo um conglomerado de 14 marcas, foi para a rua. Para a rua não literalmente porque o belo pecúlio acumulado nestes anos deve-lhe proporcionar uns telhados simpáticos.

A indústria automóvel, europeia em particular, está a passar por um processo de transformação muito desafiante. Veja-se o caso da histórica e icónica VW, verdadeiramente aos papeis. Segundo os acionistas da Stellantis, Carlos Tavares não estaria a lidar e a gerir a transformação da melhor forma. É possível, quem sou eu para o avaliar, e também ninguém faz tudo sempre tudo certo.

Fica, no entanto, uma palavra de admiração. Há o enorme sucesso da sua carreira, para não dizer extraordinário e, para lá ou por causa disso, a carreira especifica de um homem toda a vida nos automóveis gerir uma empresa de automóveis. Fazem-me um pouco de “espécie” os gestores todo-o-terreno, que um dia estão a gerir uma fábrica de batatas fritas e no dia seguinte podem estar a dirigir uma empresa de computadores.

Há certamente competências transversais e muito especialmente no que diz respeito às qualidades humanas… mas um conhecimento sectorial especifico vertical é/tem que ser uma vantagem. Acho eu…