09 dezembro 2014

Questão de estatuto ?

Recentemente falou-se muito de Mário Soares. Eu considero que a avaliação da sua contribuição para a consolidação da democracia em Portugal, se bem que relevante, está, em geral, algo inflacionada. Também não entendo o mutismo da comunicação social sobre tantas zonas escuras associadas a ele e aos seus amigos, parece que nunca existiram.


Para lá do conteúdo das suas intervenções, polémicas e questionáveis, o que me choca, e muito, é aquela afirmação, recorrente, de que o seu estatuto lhe permitir dizer o que pensa. Isto choca-me porque se há algo de básico numa sociedade livre é cada qual poder dizer o que pensa, sem necessidade de usufruir de um estatuto especial para isso.

Se é necessário ter sido primeiro-ministro, presidente da República e mais de 80 anos para se poder dizer o que se pensa, é muito grave. Assumir isso explicitamente, com toda a naturalidade, é assumir que a nossa sociedade está podre, é hipócrita e refém de interesses que amordaçam a consciência, a iniciativa e, já agora, como consequência, condenam o progresso.

Não digam que a culpa é da troika ou exclusivamente dos malvados da esquerda ou da direita, conforme o ponto de vista. A culpa está em todas as latitudes e achar esta situação “normal” é uma forma de cumplicidade. O meu avô não alcançou um milésimo da notoriedade de Mário Soares e, no entanto, teve sempre estatuto para dizer frontalmente o que pensava.

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