01 dezembro 2005

Quem pode criticar?

Depois das várias considerações e contra-considerações em textos anteriores do Glosa Crua sobre a autoridade das minhas críticas, sintetizei este texto, que foi publicado no “Público” de 28/11/2005 como “Carta ao Director”. Será que fica mais claro? Se calhar não…


Estamos a assistir a um período de mudança e de tentativa de mudança muito significativo. Não é objectivo do texto analisar a justeza, a oportunidade ou a forma como essas mudanças estão a ser realizadas, mas sim como são discutidas publicamente. Se escolhermos, como exemplos representativos, a justiça, a saúde e o ensino, assistimos a muita contestação dos visados pelas mudanças e, também, a muita contracontestação da restante "opinião pública".Vemos ainda argumentos de que a contracontestação não é credível porque, como diz o ditado, "quem está fora racha lenha".

Eu, em parte, acho que têm razão. Somos um país muito bem dotado de gente especialista em resolver os problemas dos outros e que opina sobre tudo e todos. Um caso sintomático e ridículo é a chuva de palpites para o futuro do(s) aeroporto(s) de Lisboa. Não nos faltam especialistas em planeamento de infra-estruturas aeroportuárias!

Entendo que um cidadão comum não estará habilitado a dar sugestões concretas sem conhecimento profundo de causa. Agora, o que pode e deve é exigir resultados. Exagerando, se eu for operado para extrair um quisto e, por erro, me amputarem um dedo, eu não vou querer saber porque aconteceu, nem tenho de ser eu a sugerir ao hospital o que deve/devia ter feito para que isso não acontecesse. Há gente paga para isso e a quem eu pago directa ou indirectamente.

Um cidadão comum também pode e deve criticar atitudes. E uma atitude profundamente errada nestes movimentos de contestação é a postura corporativa e de defesa sindicalista em bloco. Se os médicos, professores, magistrados e etc. não querem, e com razão, ouvir dizer que o problema reside principalmente na sua classe, então que deixem de defender a classe como se fossem todos os iguais. Separem o trigo do joio. Enquanto não o fizerem, não terão credibilidade na opinião pública.

Outro interveniente fundamental neste jogo é a comunicação social. A ausência de isenção e rigor em geral, e em particular neste campo sensível e determinante onde está em jogo a revisão da nossa infra-estrutura social, é irresponsabilidade grave.

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