30 novembro 2024

As frentes de libertação

A tragédia  que estamos a assistir em Moçambique, tem por vilão uma entidade intitulada “frente de libertação”. Este movimento e outros análogos, protagonizaram uma luta pela emancipação de povos oprimidos, evocando projetos de liberdade e de democracia. Poucos foram, no entanto, os que a seguir cumpriram minimamente as promessas e muito especialmente quanto à democracia.

Depois de ganharam a legitimidade de representarem o povo a libertar, adotaram o princípio do “ganhamos, é nosso”. Nos casos de não ter sido possível encontrar unicidade nessa representatividade revolucionária, seguiu-se guerra civil pela primazia “libertadora”. Nestes processos houve, é certo, influencias externas cujo objetivo era basicamente que as populações “mudassem de dono”. Pode ter havido alguma precipitação nos processos de independência, mas o resultado final é muito longe de brilhante e positivo para as populações objeto dessa “libertação”.

Há uma parte disto que é história, que não podemos mudar, mas talvez aprender. A benevolência ingénua com que os “colonizadores” olharam para o que se prenunciava e, apesar disso, daí lavaram as mãos: Querem autodeterminação? Levem-na!

Hoje a discussão não é essa, mas a pobreza do governo de muitas frentes Ex libertadoras é um problema para as suas populações, para a humanidade em geral e para a Europa em particular, onde uma parte da opinião pública ainda se crê devedora de pecados passados, passíveis de expiação recolhendo massivamente as populações desfavorecidas. Não acredito ser isso a preferência deles, nem o melhor caminho para a humanidade, nem para o desenvolvimento desses países. Entretanto, continuamos a lavar as mãos face às barbaridades, não queremos ser acusados de neocolonialismo.


29 novembro 2024

Estou chocado !


Boualem Sansal, na minha opinião um dos mais brilhantes escritores e pensadores da atualidade, de 75 anos, está preso na Argélia, desde 16 de novembro, por “ameaças à segurança do Estado argelino”. O processo pode potencialmente acabar em prisão perpetua.

Qual o crime? Terá dito que parte da Argélia do Oeste pertenceu no passado a Marrocos, inclusive a cidade de Orão e que foi a França colonial que ao definir o território denominado Argélia o separou. Não sei história suficiente para avaliar a afirmação, mas toda a gente sabe, se quiser saber, que antes da colonização não há muitas referencias a um território unificado correspondente a uma boa parte do atual país.

Daí a uma afirmação destas dar prisão preventiva e poder chegar a pena perpetua …!

O escritor engenheiro já tinha sido despedido da função pública pelo que escreveu. Mas não deixou de escrever, com elegância e com coragem, nem de viver no seu país natal, magrebino, apesar de também ter nacionalidade francesa.

Há uma coincidência temporal com uma polémica tomada de posição da França favorável a Marrocos e pouco apreciada pela Argélia, relativamente à eterna questão do Saara Ocidental, que é outro tema… Não quero acreditar que esteja relacionado e que o estado argelino possa prender um intelectual do seu calibre como forma de pressão…

Força Boualem ! Parabéns pela obra! Esta ninguém a tira.

25 novembro 2024

Onde estavas no 25 de Novembro?


Nesta data não houve uma revolução nem um corte definitivo com a tutela do MFA e do Conselho da Revolução sobre a vida política nacional, mas um passo importante para a consolidação de uma coisa chamada democracia e o fim da chamada “legitimidade revolucionária” que tantas ditaduras neste mundo instaurou, quando os (alguns) que lutaram contra um opressor se arvoram em “legítimos” herdeiros e donos do poder…

Do PS incluído para a direita, todos os partidos apoiaram o movimento. À luz das eleições constituintes de abril de 75, cerca 72% do eleitorado. Nas presidências do ano seguinte, o comandante operacional do movimento, Ramalho Eanes, é eleito Presidente da República à primeira volta com 62% dos votos. Ao longo dos anos, a esquerda pró-soviética e a extrema-esquerda nunca foram muito mais longe do que isso; hoje até são bastante menos.

Porque haveria de haver agora polémica com a data? Basicamente porque o projeto de poder do PS, a partir de 2015, inventou um alinhamento de forças e supostos princípios comuns com uma ampla “esquerda”, onde se incluem órfãos de Estaline e admiradores de Maduros… O PS de 1976 e de Mário Soares sabia que o PCP e Cunhal não eram democráticos e, se o espírito democrático permitiu que o PC continuasse a existir e a ir a votos, era importante impedi-lo de concretizar um projeto totalitário (olhe que sim, olhe que sim…)

Portanto, o PS deverá clarificar e definir-se. Ou é democrata, defensor da liberdade e condena inequivocamente os apetites autoritários dos herdeiros de Cunhal, ou assume efetivamente que tem algo em comum com eles e que o alinhamento na esquerda geringonça é ideologicamente genuíno.

Ou, então, deveria dividir-se em dois… senão, parece-me que anda uma metade a enganar a outra. Viva a democracia!

Atualizado a 27/11 com cópia da publicação no Público

21 novembro 2024

Inclusividades

A presidenta foi uma ausenta. Doenta, com febre ardenta. A agenta ficou contenta. Pareces uma estudanta, disse-lhe a tenenta…

E, por respeito a Camões, por aqui ficamos.

Se calhar ainda virá um dia em que se possa dizer que um presidento esteve ausento.

11 novembro 2024

Não ser Trump não chega


A vitória de Trump não é uma boa noticia e dispenso-me de elencar todas as razões já sobejamente enunciadas. Certamente também não será o fim do mundo, uma vez que ele já lá passou 4 anos e ainda cá estamos com as instituições cá e lá relativamente estáveis. Talvez um dos aspetos não negligenciáveis, a prazo, é a degradação de valores cívicos e éticos que uma liderança destas transmite à sociedade. Já houve no passado outros presidentes de princípios “marginais”, mas com a diferença que o escondiam ou conseguiram manter escondido. A menos de Nixon e o seu Watergate.

A surpresa quanto à derrota de Kamala, virá de quem achava que bastava não ser Trump para reunir um largo e maioritário consenso de “gente boa e luminosa”, garantidamente vencedora. E não foi assim. Kamala foi uma vice-presidente muito pouco luminosa e largos sorrisos “dentífricos” não chegam certamente para ser reconhecida como líder.

Enquanto não se encontrar uma terceira via entre o populismo arrogante e boçal e o wokismo arrogado e sofisticado, enquanto as escolhas se mantiveram entre estes dois polos, receio bem que o povo preferirá a arrogância boçal à arrogância elitista.

A “culpa” não é do Trump…