02 fevereiro 2026

O Bem-Amado…

Durante muito tempo, e diariamente durante os cinco anos do curso, desembarquei no Porto na praça da Batalha e passei pela estátua de D. Pedro V. Confesso que sempre sem lhe dar grande importância. A quarta dinastia nunca me entusiasmou muito. Para lá dos méritos do Restaurador e do Liberal, foi um período de declínio e de desperdício. As insanidades e o esbanjamento no convento de Mafra são um bom exemplo, talvez o mais visível. A riqueza fácil e “gratuita” foi um vírus que envenenou as capacidades e a iniciativa do país.

Um destes dias, num texto de Miguel Unamuno sobre Portugal, este referia-se a D. Pedro V como o “Hamlet Português”, o suficiente para me despertar curiosidade adicional sobre o monarca e a sucumbir à leitura de um correspondente romance histórico, apesar de ser algo crítico quanto à facilidade com que tanta gente se arvora a capacidade de imaginar e transcrever os diálogos e os sentimentos de figuras históricas.

Descontando e ignorando as partes mais detalhadas e eventualmente fantasiadas, lá fui à leitura, procurando descobrir o tal príncipe complexo e angustiado. Não lamento a viagem.

O espírito humanitário, de missão e a humildade do jovem rei deveriam ser um exemplo mais promovido. Apesar do curto reinado, as preocupações com o desenvolvimento, a educação, a saúde e a atenção com os mais desfavorecidos deixaram algumas marcas e a marca “D. Pedro V / Dª Estefânia” em várias realizações meritórias.

Há quem diga que os amados pelos Deuses partem cedo. Também é verdade que a sua memória mais facilmente fica imaculada, não contaminada por eventuais desvios tardios.

Certo que para a República que estava ali ao dobrar da esquina não dava jeito realçar méritos de monarcas. De uma coisa não tenhamos dúvidas. Tão ou mais importante do que os modelos de governação é a formação e a atitude de quem governa.


01 fevereiro 2026

Adamuz, a “Glória” espanhola


O recente descarrilamento e posterior choque de dois comboios de alta velocidade, em Adamuz, próximo de Córdova, provocou 45 vítimas mortais.

Irrita-me a imediata gestão política da desgraça. Os putativos responsáveis tentam logo “sacudir a água do capote” e lançar “narrativas” de abrigo, A oposição aproveita para clamar contra uma suposta incompetência generalizada. As vítimas mereceriam mais respeito.

Parece que uma fissura numa soldadura do carril terá sido a causa. Existem comboios laboratório que circulam regularmente pela rede, procurando detetar falhas como estas. Em situações análogas de alta velocidade, por exemplo em França, a periodicidade das passagens será de duas por mês. No caso de Espanha, o comboio antigo, o “Séneca”, está avariado e o novo, o “Doctor Avril”, ainda não está homologado. O carril em causa esteve 58 dias sem ser auscultado.

Aqui há algum perfume semelhante ao da tragédia do elevador da Glória, em Lisboa. Uma falha estrutural que “não podia” acontecer, práticas de manutenção aligeiradas e uma enorme distância entre os decisores de topo e a realidade do terreno. Quando falo em distância, não me refiro à sequência de níveis hierárquicos. É pior do que isso. É existir gente politicamente nomeada, cujo único mérito é terem bons padrinhos e que borboletam entre variadas entidades e empresas públicas, sem saberem muito bem o que andam a fazer ou o que deveriam assumir. Quando um desastre “fatalmente” acontece, lá correm a afirmar “Eu não fiz nada!”. Precisamente…

Quanto à eficácia sas entidades competentes na reação aos estragos da tempestade Kristin, esperamos para ver.