Durante muito tempo, e diariamente durante os cinco anos do
curso, desembarquei no Porto na praça da Batalha e passei pela estátua de D.
Pedro V. Confesso que sempre sem lhe dar grande importância. A quarta dinastia nunca
me entusiasmou muito. Para lá dos méritos do Restaurador e do Liberal, foi um
período de declínio e de desperdício. As insanidades e o esbanjamento no
convento de Mafra são um bom exemplo, talvez o mais visível. A riqueza fácil e
“gratuita” foi um vírus que envenenou as capacidades e a iniciativa do país.
Um destes dias, num texto de Miguel Unamuno sobre Portugal,
este referia-se a D. Pedro V como o “Hamlet Português”, o suficiente para me
despertar curiosidade adicional sobre o monarca e a sucumbir à leitura de um
correspondente romance histórico, apesar de ser algo crítico quanto à
facilidade com que tanta gente se arvora a capacidade de imaginar e transcrever
os diálogos e os sentimentos de figuras históricas.
Descontando e ignorando as partes mais detalhadas e
eventualmente fantasiadas, lá fui à leitura, procurando descobrir o tal
príncipe complexo e angustiado. Não lamento a viagem.
O espírito humanitário, de missão e a humildade do jovem rei
deveriam ser um exemplo mais promovido. Apesar do curto reinado, as
preocupações com o desenvolvimento, a educação, a saúde e a atenção com os mais
desfavorecidos deixaram algumas marcas e a marca “D. Pedro V / Dª Estefânia” em
várias realizações meritórias.
Há quem diga que os amados pelos Deuses partem cedo. Também
é verdade que a sua memória mais facilmente fica imaculada, não contaminada por
eventuais desvios tardios.
Certo que para a República que estava ali ao dobrar da
esquina não dava jeito realçar méritos de monarcas. De uma coisa não tenhamos
dúvidas. Tão ou mais importante do que os modelos de governação é a formação e
a atitude de quem governa.

