31 março 2026

A China e eu - Terceiro ato


Pelos anos de 2018 e 2019 desloquei-me várias vezes à China, percorrendo uma dúzia de cidades, grandes fábricas, utilizando aviões, TGV’s e estradas.

De Sul a Norte, desde Hangzou até Jilin na Manchúria, já próximo da Coreia do Norte, uma nota para a eficiência. De uma forma geral, as coisas funcionavam bem e a horas. As fábricas, os hotéis, os restaurantes, os meios de transporte, funcionavam. A internet tecnologicamente sim, os conteúdos é que estavam limitados, nada de Facebook, Blogger, Youtube, Googles e outras impurezas.

Um sentimento de muita coisa nova. Até passei ao lado de uma central de carvão novinha em folha – poderíamos para lá ter despachado a do Pego, que não sendo nova, ainda tinha muitos anos de vida. Surpreendente também a quantidade de câmaras de vigilância aos cachos em cada poste, canto e esquina… além das outras vigilâncias, menos visíveis.

Por vezes tudo novo de mais. Entrar numa cidade por uma grande avenida, entre enormes edifícios, e sair pela mesma avenida, sem entender quando teríamos atravessado o centro da localidade. Outro aspeto curioso sobre as interações sociais. Para lá da camada de chineses habituados a contactos regulares com o exterior, com os restantes locais, era terrível. A questão não residia apenas na barreira linguística. Mesmo sem trocar uma palavra é possível comunicar e interagir com outros seres humanos. Ali não era fácil…

As minhas viagens não eram turísticas e apenas pude dar um salto ou dois a algumas curiosidades nos intervalos do programa. A Cidade (outrora) Proibida, em Pequim, o lago e os pagodes de Hangzhou e a cosmopolita Xangai. Com as devidas reservas pelas limitações do âmbito das viagens, não consegui encontrar a pujança e a herança cultural esperadas de um país outrora tão rico e evoluído… Como se o desenvolvimento evidente tivesse soterrado esses vestígios.

Parece que a chamada “Revolução Cultural” dos anos 60 ajudou bastante a esse apagamento e não só na dimensão material. Se há quem considere que a ditadura do Estado Novo moldou e condicionou as mentalidades por estas bandas, como José Gil gosta de afirmar, a repressão e o terror maoísta terão dado direito a amputações mentais e aniquilamentos culturais completos.   

Numa altura em Pequim, de uma janela do escritório onde estava, vi meia-dúzia de pessoas num cruzamento ao fundo e disse ironicamente ao nosso contacto chinês: “Olha, está uma manifestação a decorrer ali!”. Ele saltou da cadeira estupefacto para verificar. Se lhe tivesse dito que um Ovni tinha aterrado na cidade, a surpresa não seria provavelmente maior…

Durante o século XIX, muito debilitada e pobre, a China sofreu enormes humilhações às mãos do Japão e das potencias ocidentais. Certo que em parte devido a uma grande dificuldade em evoluir e jogar o jogo do poder como o mundo na altura jogava. A “reconquista” da unidade (esqueçamos Taiwan) foi uma grande façanha política e militar, inicialmente muito ajudada pela URSS e tirando partido da sofreguidão de poder e falta de escrúpulos de Mao. Mais tarde foi a vez dos EUA (Nixon e Kissinger) ajudarem. O crescimento da China era um contrapeso para diminuir a influência soviética no mundo.

Pode-se entender que persista um registo traumático desses tempos e uma hipersensibilidade quanto a tudo o que possa pôr em causa a unificação, soberania e riqueza conseguidas, mas…

O espartilho que o “partido” aplica aos seus cidadãos é sustentável? Quando as evoluções não ocorrem gradualmente, há o risco de chegarem mais tarde brutalmente. A China evolui materialmente, sim, mutuíssimo. Essa riqueza material chega para as expetativas dos seus cidadãos?

Uma coisa é certa, já deixei demonstrado que tenho dificuldade em conseguir entender e prever o que por lá se passa ou passará...



30 março 2026

O valor do irmão Isaltino

Quando foi acusado e julgado Isaltino Morais era maçom. Naturalmente que a organização não pode ser responsabilizada por todos os desvarios dos seus membros. Diz-se que, no passado, houve até anjos caídos em tentação, se bem que Isaltino nunca teve muita pinta de anjolas.

O curioso é que após a sua libertação, após descontos e benesses várias que aligeiram a conta, ele terá sido rapidamente reintegrado na organização e reassumido funções de liderança. Conta Catarina Guerreiro no livro “O Fim dos Segredos” que esse processo até foi mais discreto do que o habitual nos padrões da organização, dado que muitos maçons se opunham à rapidez do processo.

Como dizem alguns, “Vá-mo-lá-ver…”. Se o senhor foi passar uma temporada à Carregueira por alguns enviesamentos no seu património material, que existirá na sua riqueza intelectual e filosófica para justificar os fraternais braços abertos maçónicos…?

A sua popularidade e aceitação na mui instruída Oeiras ficará por um genérico “Roubo, mas faço” ou algo mais específico como “mas faço obeliscos e triângulos…”? Não sei, mas pagava para saber…

“Diz-me com que andas…. “ e depois não se queixem de que têm uma má imagem.


28 março 2026

E por vezes…


Não sou grande apreciador de estórias com largas centenas de páginas. Não necessariamente pelo tempo de leitura, mas porque, frequentemente, entram em registos do género “um rio e para cá do rio havia campos com flores assim, para lá do rio viam-se árvores com folhas assado”, “e havia uma casa com uma porta… e ao lado da porta janelas, e por cima das janelas um beiral…”. Muita descrição que, na minha opinião, pouco acrescenta à emoção e até muitas vezes com leituras datadas. Um eucalipto há cem anos seria visto de forma diferente de hoje…

Por isso, gosto bastante de contos, bem escritos. Um destes dias fui à procura de um livro de contos de um dos mais musicais escritores portugueses, David Mourão Ferreira. A antologia poética, representada acima, é um dos melhores livros de poesia que me passou pelas mãos. Quando numa simples página se vê escrito:

“Olhar de frente o Sol Assim se aprendem as letras iniciais da Solidão”

Entende-se que o senhor sabe usar a caneta, sem necessitar de muitos litros de tinta para o demonstrar. Sobre a musicalidade das palavras, sugiro o “E por vezes” pela Cristina Branco, ou ir um pouco mais longe à Amália.

Quando procurava então o livro de contos deste senhor, “Gaivotas em Terra”, não o encontrei na minha biblioteca. Tinha quase a certeza de o ter e até uma ténue recordação do aspeto da capa. Tê-lo-ei emprestado… ? Nada feito, obra não encontrada e encomendei nova edição, com papel rejuvenescido de algumas décadas. Os anos não lhe pesam e demonstram que não são necessários quilos de papel e litros de tinta para provocar fortes emoções. Especialmente os dois primeiros contos, “Tal e Qual” e “E Aos Costumes Disse Nada” são uma delícia de leitura. O segundo foi adaptado ao cinema por José Fonseca e Costa, como título de Sem Sombra de Pecado, com um elenco de luxo, incluindo Mário Viegas. A ver e a rever…

David Mourão Ferreira é sinónimo de sensibilidade e elegância (ponto final). 

26 março 2026

É trabalho, dizem


Isaltino Morais volta às notícias pelo tema das despesas em restaurantes por conta da autarquia, incluindo mariscos, tabaco e vinhos caros. Diz o autarca que está tudo certo, presumindo-se que as faturas terão o número de contribuinte correto e o IVA adequado. Acrescenta tratar-se de “almoços de trabalho”. Para lá dos valores e da natureza de alguns consumos, fica uma questão. É normal que uma equipa que tem naturalmente gabinetes, salas de reuniões e demais equipamentos na sede da autarquia, precise de ir para os restaurantes “trabalhar”… ? Sem terem pratos, talheres, guardanapos e copos de bom vinho à frente não conseguem ser produtivos?!

Provavelmente não será particularidade única de Oeiras, mas este conceito de “trabalho” é deveras curiosa... e inquietante.

25 março 2026

Pactos entre partidos


Acho muito curioso que na polémica relativamente à nomeação dos juízes para o Tribunal Constitucional, o PS reivindique a existência de um pacto histórico entre eles o PSD, datado de 1982, que deve ser respeitado. Portanto, há 4 décadas os líderes dos dois maiores partidos combinaram umas coisas e isso deve permanecer com “força de lei” ad aeternum. Já agora, ninguém se lembrou de invocar a validade do pacto MFA-partidos de 1975, que até foi muito mais formal? Certamente que não porque, felizmente, o mundo em que vivemos é muito diferente do de 1975.

Não tenho nenhuma simpatia pelo Chega e, pelo contrário, muitas dúvidas sobre a qualidade de muitos dos seus quadros, mas também não posso ver os dois partidos tradicionalmente maioritários a beneficiar de prerrogativas e “direitos” perenes sobre instituições do Estado, imunes à evolução do respetivo peso eleitoral. Isso sim, constituiria um grave atentado aos princípios democráticos, que teoricamente tanto prezam e defendem.

23 março 2026

A China e eu - Segundo ato


Corria o ano de 2013 e eu estava responsável por um projeto de irrigação em Marrocos, onde algumas válvulas hidráulicas tinham sido compradas na China, com o contrato a obrigar a realização de testes de receção das mesmas em fábrica.

Fui com uma comitiva do cliente até Xiamen, a cidade mesmo em frente da ilha de Taiwan. Uns quilómetros para o interior encontrava-se a respetiva ZEE, “Zona Económica Exclusiva”, uma das que constituíram os embriões da fábrica do mundo.

Zonas industriais com largas avenidas, aparentemente tudo muito bem estruturado e com impressionante dimensão. Uma curiosidade, em cada fábrica existia um edifício residencial onde se instalavam os respetivos operários, muitos deles com origens rurais longínquas. Podiam ir a “casa” uma vez por ano e lá permanecer por uma dúzia de dias, após comboios, autocarros e até outros meios de transporte. Obviamente que nada mais havendo a fazer, trabalhavam nos fins de semana, sempre dava mais uns trocos. Entendi que uma boa parte deles nunca poderia instalar-se familiarmente na zona do seu trabalho. É melhor para eles e para a família do que passarem por grandes privações, mas a prazo, o que aconteceria? A “fábrica do mundo” iria funcionar com imigrantes internos permanentemente afastados das famílias?

Durante os testes, ficamos alojados num enorme hotel, frio, na margem de uma estrada, sem mais nada. Eramos lá despejados pelos chineses ao final dia, cerca das 17h, íamos para uma sala para jantar, eles encomendavam os diferentes pratos e partiam. Lá ficávamos a trincar as coisas colocadas sobre a mesa, os marroquinos mais limitados pelas suas dúvidas quanto à compatibilidade religiosa das “iguarias” apresentadas …

Sobre o contacto com o local, uma visita ao templo budista Hongshan, já na cidade de Xiamen, antes de regressar, e à interessante e belíssima ilha de Gulangyu, uma sobrevivente da mistura de culturas e arquiteturas. Dois bons exemplos de uma China historicamente rica.



21 março 2026

Haja festa


 

Gosto de ver iluminações de Natal, penso que quase toda a gente gosta, e seria muito triste se um politicamente correto qualquer ou uma modernice cultural inventada viessem um dia cancelar as mesmas. Ao mesmo tempo, os milhares de euros de orçamento anunciados para a sua realização intrigam. Não seria possível fazer a coisa por menos, libertando fundos para outros desenvolvimentos sociais e culturais mais prementes e permanentes?

O que se vai sabendo da operação Lumen, envolvendo a Câmara de Lisboa e não só, vem demonstrar que nem todos os euros saíram por um bom caminho. É típico, quando os orçamentos púbicos são grandes aparecerem frequentemente fugas nos circuitos.

Estes descontrolos e falta de rigor (no mínimo) lançam questões adicionais sobre os critérios em vigor nos orçamentos e programas ditos culturais das autarquias. Aquelas produções caras de espetáculos de Verão em cada canto e esquina fazem sentido? Certo ser mais fácil mobilizar e agradar às massas com pimbas e popularices do que com certas produções “contemporâneas” elitistas e difíceis de tragar, mas não haverá alternativa? Deve haver e tem que existir. A opção pela festa fácil e cara não acrescenta grande coisa ao desenvolvimento social cultural do país, sendo que o cultural não precisa de ser árido nem o entretenimento ligeiro e inconsequente.

20 março 2026

A China e eu – Primeiro ato


O meu primeiro contacto com a China foi indireto. Corria o ano de 1996 e eu estava responsável pela realização de um projeto muito específico em Hong Kong, uma caixa-forte, a lembrar a do tio Patinhas, mas automatizada, destinada a armazenar e distribuir notas de banco. Apesar de HK estar ainda sob tutela britânica, o dono da obra era da China continental, concretamente o Bank of China (BOC), uma das três entidades emissoras da moeda local. A mistura de normas inglesas com práticas asiáticas proporcionava um ambiente muito particular.

Durante a fase de especificação funcional detalhada encontramos um problema. Para cada lista de questões enviadas por escrito, as respostas recebidas pouco esclareciam e, pelo contrário, acrescentavam novas dúvidas. A solução foi fazer as malas e apanhar um avião para lá, com o Pedro, que era o homem daquela especialidade.

A aterragem do 747 no antigo aeroporto de Kai Tak foi memorável. Aproxima-se e desce em curva. Vamos vendo os arranha-céus ao nível das asas. Quando desfaz a curva e endireita, as rodas estão a tocar a pista. Impressionante.

O fluxo de pessoas no metro é incrível. Não há espaço para gentilezas do tipo “depois de si”. Quem quiser ser gentil fica lá o dia inteiro a dar passagem aos outros. Gravou-se-me a imagem de uma porta de carruagem a abrir e ver uma muralha de troncos, ombro contra ombro, em força, a ver quem saia primeiro.

Na estação central é importante estar bem atento para usar a saída que nos serve. Depois de estar cá fora, ficamos afogados em gente e submergidos por arranha-céus, não sendo fácil (re)orientarmo-nos.

Logo no início das reuniões, o primeiro choque cultural. Nós estamos habituados a começar por um esboço das grandes linhas e depois ir descendo para detalhes, zona a zona. Não era o reflexo local, onde facilmente se dedicavam a começar por discutir pequenos detalhes. Um pouco como se se principiasse a conceber um automóvel pelo pormenor dos parafusos de fixação da placa de matrícula. Esta parte foi fácil de corrigir.

Começada a discussão, o trabalho parecia avançar rapidamente, face às expetativas iniciais. O problema surgiu umas horas mais tarde, quando, por acaso, uma afirmação veio contradizer uma resposta anterior, fundamental, e de forma completamente incompatível. Havia dois problemas. Um, a dúvida sobre o que realmente se pretendia, outro é que, conforme nos informaram previamente, os chineses não gostam de perder a face e daí ser delicado confrontá-los com um “erro”.

A solução passou por: dizem-nos que deve ser branco, ótimo, mas de manhã tinham dito preto. São duas excelentes cores, certo, mas nós temos dificuldade em fazer algo simultaneamente branco e preto! Podem ajudar-nos a ultrapassar este problema?

A partir desse momento, cada pergunta era seguida de contra pergunta, para validação e verificação da eventual necessidade de “ajuda”.

Numa fase posterior, durante os trabalhos, mais uma surpresa com a aparente ligeireza no planeamento e tolerância para descoordenações. Nos nossos hábitos tínhamos o cuidado de programar as tarefas na sequência necessária para otimizar a utilização de recursos. Ali era andar para a frente e, se um trabalho era feito cedo de mais, obrigando a refazê-lo mais tarde, paciência…

Fisicamente o meu contacto com a China propriamente dita, passou por introduzir uma mão entre as grades da porta do Cerco em Macau, que assim, solitariamente, “foi à China”.

No final deste processo fiquei com a convicção que, dadas as diferenças constatadas, apesar da abundância de recursos, os chineses andariam sempre um passo em atraso relativamente ao “nosso” mundo. Se calhar enganei-me… ou eles mudaram.

Nota de atualidade. O que mudou e muito significativamente em Hong Kong, após a transição da tutela para a China e contrariamente ao acordado, foi a liberdade.

19 março 2026

A vingança do grão


Ao receber o último número da revista de fotografia “Competence Photo”, deparei-me com um editorial, o título acima, e que assim começa (e que uma IA traduziu…):

Há algo de paradoxal no estado atual da fotografia. Nunca antes os sensores foram tão precisos, nunca antes a gestão de ruído digital foi tão impressionante, nunca antes o autofoco foi tão infalível. Os fabricantes competem entre si para produzir imagens cada vez mais nítidas, cada vez mais limpas, cada vez mais fiéis ao que o olho percebe — ou melhor, ao que deveria perceber, segundo uma certa ideia de perfeição óptica. E, no entanto, em todo o lado, observamos o mesmo movimento inverso: fotógrafos a adicionar grão, a procurar lentes vintage com as suas aberrações deliberadas, a desempoeirar os seus filmes Kodak Portra ou a usar presets para simular precisamente o que as suas câmaras se esforçam por eliminar.

Poderíamos ver isto como mera nostalgia, apenas mais uma tendência retro numa era que as adora. Mas isso seria demasiado simplista. O que está aqui em causa é mais profundo: uma resistência à perfeição fria, uma forma de reintroduzir um traço de fragilidade humana na imagem. Granulação, vinheta, ligeiro desfoque de movimento já não são defeitos a corrigir — tornaram-se assinaturas, prova de que por detrás da objectiva estava alguém, com as suas hesitações, as suas limitações, o seu ponto de vista.

É um excelente tema de reflexão. A partir de certo ponto, demasiado perfeito e esterilizado torna-se desumano (bem se costuma dizer que errar é humano). Uma imagem fortemente desfocada pode ser muito “característica”, denunciadora de uma assinatura forte, mas até que ponto funciona, isto é, é apreciada e desperta algo em quem a vê?

Se eu ao escrever um texto eu deixar uma virgula fora do sítio, isso será prova da minha falibilidade e de que o mesmo não é uma produção sintaticamente perfeita de um Chatgpt (já agora, não aproveitem para pedir ao mesmo, faz-me um texto com uns erritos ligeiros, para a coisa parecer humana).

A imagem acima é de 2013 e na altura a pequena Olympus ZX-1 de viagem, já incluía dentro dos filtros, a que em geral pouco ligava, esta opção de “grain film”, simulando fotos antigas analógicas, com resultado interessante.

Em resumo, a técnica resolve problemas técnicos, que são uma parte e uma ferramenta da criação. Se a técnica deixa de ser um desafio, mais espaço haverá para explorar o outro desafio, o da criatividade. Se essa criatividade passa pela imperfeição, certo, ma non troppo.

Já agora, para não haver confusões, falamos do registo de imagens existentes e não das inventadas (especuladas). A partir da imagem de alguém num funeral, fazê-la “evoluir” para colocar a pessoa a sorrir, pode ser divertido de ver, mas é outro contexto que, confesso, a mim, pouco me atrai.

18 março 2026

Um (outro?) Médio-Oriente

Médio-Oriente é uma designação geográfica historicamente associada a instabilidade e a guerras crónicas. Inclui Israel, comparado com os vizinhos um corpo estranho em termos de organização do país, valores sociais, prosperidade e outras coisas mais… e os outros todos seriam os “árabes”. Olhando um pouco mais atentamente, fomos vendo crescer umas diferenças entre os chamados países do Golfo, os ricos, e as imagens mais tradicionais da região.

Começando pelos Emiratos, especialmente o Dubai e passando pelos sauditas e pelo Qatar, foram nascendo urbes vistosas, luxuosas, procurando projetar uma imagem deslumbrante de modernidade. Não temos conta de quanto investiram em imobiliário faustoso, eventos sociais e desportivos de todo o tipo, sempre em prol da construção de uma “nova imagem”. O alvo vai para lá dos habitantes naturais. O objetivo era atrair atenções, para fundos e figuras se instalarem e desfrutarem de um novo e sofisticado paraíso terrestre.

A guerra com a Irão, e a resposta deste, veio demonstrar amargamente que aquela margem do golfo Pérsico continua a pertencer a uma região alérgica a paraísos. Cada míssil ou drone iraniano que explode está a provocar danos e prejuízos patrimoniais brutais, largamente superiores ao custo dos muros derrubados e dos vidros partidos.

Os petrodólares investidos, assim como as outras divisas que lá entraram deverão estar numa angústia enorme. Como se podem salvar, com aqueles vizinhos imprevisíveis e belicosos do outro lado do golfo. O dinheiro manda muito e palpita-me que uma guerra financeira deve estar a decorrer em paralelo.

Certo que se não houvesse intervenção dos EUA e de Israel, nada disto teria acontecido… agora. Mesmo que esta guerra acabe, agora, as sequelas e as incertezas serão esquecidas? O Irão acaba de dar uma machadada valente no valor dos projetos desenvolvidos durante décadas com custos exorbitantes. Afinal, estamos no Médio-Oriente… Será um dia esta expressão sinónimo de algo diferente? Não sei…

Nota adicional em 19/03. No Qatar e nos Emiratos foi decretado ser crime filmar imagens dos ataques. Neste momento já se contam por centenas os criminosos no Qatar e dezenas nos UAE. Questões de segurança... financeira!

15 março 2026

E depois da guerra?


Criticar a intervenção militar no Irão com base no atropelo ao Direito Internacional é algo que fica entre o ingénuo e o manipulador. Se, por exemplo, a Andaluzia estivesse governada por um Estado Islâmico, este a desenvolver misseis e armas nucleares com o objetivo público e assumido de arrasar Lisboa, nós teríamos continuado década após década calmamente apelando ao tal Direito Internacional, quando este nada faz? Não teríamos legitimidade de facto para rebentar com as instalações militares? Seria guerra, sim, seria guerra.

Certo que a forma como o regime iraniano trata os opositores cai fora do respeito pelos Direitos Humanos, mas se fossemos bombardear todas as ditaduras atrozes, a lista seria longa e os resultados pouco garantidos.

A situação atual inclui um atestado de nulo valor e clara incompetência da ONU. Lidar com um Trump não será fácil, mas entregar esse trabalho a um Guterres, tem resultado garantido, sendo que, mesmo com um presidente dos EUA menos atípico, não seria expetável muita dinâmica e liderança construtiva da parte dete secretário-geral.

Se a morte de Khamenei não foi chorada por muita gente, e até celebrada, como reagirá a população aos contínuos bombardeamentos, mesmo se apenas sobre instalações do regime? O regime mostrou ser suficientemente sólido para sobreviver a uma decapitação, mas se cair, o que virá depois? Que plano existe para esse dia seguinte? Experiências recentes estão fartas de demonstrar que muito mais difícil do que ganhar a guerra pode ser ganhar a paz.

11 março 2026

SNS pobre ou rico


Somos um país tradicionalmente pobre e estamos culturalmente habituados a que quando algo falha ou falta, a culpa ir cair num lamento de “a manta é curta”, em jeito de fatalidade.

Daí que quando surge numa necessidade absolutamente premente ou uma falta inaceitável, a reação frequente seja “é preciso gastar mais dinheiro”. Sem ovos não há omeletes, mas não é por encharcar a frigideira com ovos que o resultado vai ser o pretendido. Sem critério nem controlo será desperdício.

Noutras situações, em vez de fazer funcionar eficazmente as instituições existentes, enxerta-se uma “nova coisa” que, essa sim, vai resolver…

O SNS no nosso país, parte das necessidades de primeira linha da população, parece encaixar neste panorama. Se o problema é falta de dinheiro, aumenta-se o orçamento, mas 72% de aumento da despesa entre 2015 e 2024 não parecem ter correspondência proporcional nos serviços prestados. O problema está na gestão e coordenação? Cria-se uma “Direção Executiva”, que até operou sem estatutos nem definição clara de competências por um “breve” período de um ano e meio. O escândalo na dermatologia do Santa Maria demonstra existir falta de controlo? Cria-se uma comissão de combate à fraude. Como vai funcionar? A função antes não existia?

O recente processo de “decisão” da criação do novo centro de cirurgia cardiotorácica no Hospital de Santo António é mais um exemplo. O Hospital quis, secretários de Estado despacharam e alguém pagará. Onde ficou a coordenação e o planeamento? Onde esteve a famosa Direção Executiva? Se não intervém em decisões desta natureza, para que serve?

Entretanto, a administração desse mesmo hospital irá ser julgada no Tribunal de Contas por irregularidades na contratação de serviços e isso não parece incomodar muita gente. Quando haverá efetiva responsabilização de tantos danos à tal manta, curta, que é de nós todos, sob o manto das necessidades de saúde da população?

10 março 2026

O fim dos segredos

É o anunciado na capa do livro, mas como já passaram uma dezena de anos desde a sua publicação, certamente que novos segredos ter-se-ão, entretanto, acrescentado.

Trata-se de um tema que me interessa por várias razões e mais uma. Por que raio as pessoas se associam em “caixinhas” para secretamente combinarem e planearem ações que potencialmente podem influenciar toda a sociedade? Num mundo livre, como o nosso, no mínimo é deselegante.

Este livro visita em várias dimensões as duas organizações mais relevantes desse campeonato e várias diferenças entre as duas ficam evidentes, para lá daquele contraste típico do esquerda-direita, religioso-laico e outros binómios tradicionais que tais.

O Opus Dei parece ser muito mais organizado e centralizado, tendo alguns aspetos que me custa muito a aceitar. Para começar, a idade com que começam a recrutar os jovens e a falta de liberdade imposta aos membros. Seja intelectual (a que Diabo lembrará proibir a leitura de uma boa parte de Eça de Queiroz!?), seja económica, especialmente dos numerários, com a entrega integral do seu vencimento à organização, além de a fazerem beneficiária do seu testamento. O estatuto das numerárias-auxiliares que prestam serviços domésticos na organização “gratuitamente” é indigno e bem capaz até de ser ilegal em termos de direitos do trabalho (para não falar de humanos). Castigos corporais impostos e obrigatórios também não pertencem a estes tempos em geral nem à doutrina cristã em particular.

Tem, no entanto, o OD objetivos claros, anunciados e praticados. Concordando ou criticando, entende-se ao que vêm. Na maçonaria é bastante mais vago. Certo que historicamente, há um século atrás, eles diziam ao que vinham e “lutavam” abertamente por isso, mesmo com armas e milícias, mas hoje não é claro. Têm a sua cartilha e objetivos, mas pessoas como Isaltino Morais estarão lá pelo catecismo oficial? Estão a vê-lo a filosofar e a expressar grandes ideias e princípios…? Qual a motivação que pessoas desse calibre têm e o que espera a organização deles, mesmo frescamente saídos da cadeia? Qual o resultado social efetivo e público das ações da organização? É tudo secretíssimo?

Podem ambas as organizações explicar o seu apetite pelo recrutamento de gente influente? Parece-me que o objetivo imediato das duas é o poder, seja poder pelo poder, seja como meio para atingir o seu graal, sendo a natureza prioritária (realço a palavra) desse caminho diferente entre as duas. O OD busca o poder sobretudo pela vertente financeira. Uma boa parte dos seus “famosos” são gente ligada a bancos e outras instituições financeiras. A maçonaria, pelo menos a principal, busca o poder pela influência política. O número de maçons nas estruturas de Estado, seja no Governo, seja nas instituições tuteladas pelo mesmo é desproporcional à sua presença na sociedade. Assim sendo, pertencer à irmandade pode ser um bom passaporte para certos lugares…

Há algo que me incomoda, e talvez mais significativo no caso da maçonaria, que é a gestão facciosa e obscura das estruturas e bens públicos. Ambas as irmandades têm reflexos tribais. A responsabilização exigida a quem tem poder sobre aquilo que não lhe pertence obriga a transparência. Enquanto isso não existir, o sistema não será são.

Uma (pequena) provocação final. Para quando um Rui Pinto dedicado a tornar públicos eventuais esquemas que orbitam por aqueles lados…?

PS: De assinalar um ponto comum entre ambas que é, embora de forma diferente, a menorização do estatuto da mulher.

 

09 março 2026

Adeus, Marcelo


Diz o povo que quem muito fala, pouco acerta e esta é uma frase que associei a Marcelo Rebelo de Sousa desde os seus tempos de comentador. As minhas expetativas para o seu desempenho como Presidente da República sempre foram baixas.

Agora, na saída, é curioso visitar a galeria de imagens do seu reinado. Há certamente uma vertente de contacto humano com toda a população e episódios de informalidade, que vão de o PR se querer colocar ao nível do cidadão comum a extremos desconcertantes. Uma grande popularidade e receções entusiastas, inclusive nos Palops.

Agora, e eu passo sempre rapidamente aos “agoras”, a vida não é apenas feita de sorrisos e selfies, pelo menos para quem aspira ou tem por missão ser mais de que figurão em redes sociais. Que guardamos na memória de uma intervenção de MRS profunda e notável? Certo que fez muitos discursos e neles passou mensagens “corretas”, mas…

Mas a imagem que fica é de um MRS mais preocupado com a sua promoção, imagem e correspondente popularidade do que com os verdadeiros interesses do país. Estarei a ser injusto? Talvez, mas da galeria de memórias do seu exercício, guardamos muitas memórias simplesmente visuais e muito pouco de projetos estruturais.

Para não fugir à tradição, a Marcelfie final com o governo é representativa e absurdamente caricata. Parece de uma reunião de antigos alunos que se juntam alegres e animados para a fotografia final do encontro. Muito riso, pouco siso e há momentos em que os sorrisos passam a ridículos. Sobre sorrisos, também me chocou uma visita a um cemitério militar português em França, com Macron e Costa, onde os dois portugueses caminham sorrindo contentinhos, sem o mínimo respeito pelo significado do chão que pisavam.

O que faltou mesmo nas galerias de imagens que vi foi a enigmática (marcelática) visita ao Beco do Chão Salgado em novembro de 2023. O processo e execução dos Távoras foi um episódio sinistro de abuso de poder e injustiça, abominável em várias dimensões. Abordar o assunto e o local sem ser claro e frontal é inaceitável. Enviar recados e insinuações diretas naquele local foi de uma ligeireza e irresponsabilidade institucionais brutais. Talvez a maior memória da falta de conteúdo (sério) que me fica deste senhor vaidoso, manipulador e… algo tonto.

05 março 2026

Entre russos


Sim, há mais russos para lá de alguns de triste memória…

No meu ponto de vista uma obra de arte vale fundamental pela sensibilidade despertada. A mestria técnica ajuda e creio até ser indispensável. Um quadro com borrões de tinta projetados ou uma “instalação” com algumas chapas ferrugentas dobradas dificilmente compensarão a falta de técnica artística com algo que me impressione o suficiente para as apreciar.

O tema, pode ajudar, mas acabar por ser um pouco secundário. Nma sinopse da Mona Lisa constaria “Um retrato de uma mulher” e não seria por aí que lhe chegaria a fama. Noutro campo e noutra escala, um dos melhores livros de Saramago para mim é o “Todos os nomes”, cujo sumário pode ser considerado banal, ao contrário das “Intermitências da morte” e de “O homem duplicado”, onde um muito interessante tema não tem desenvolvimento (e impressão) proporcional, na minha opinião.

Vem isto a propósito destas duas figuras maiores da literatura russa, objeto de um tratamento muito díspar na minha biblioteca. Para Dostoivesky está lá, e lido, tudo o que encontrei, algumas edições até com umas boas décadas em cima e páginas escurecidas, longe do branco original. Para Tosltoi havia apenas uma singela “Anna Karénina”, talvez o seu maior romance, mas que permanecia por percorrer, coisa que fiz recentemente.

Sobre Tolstoi, é indiscutível que ele domina a arte de escrever e que o livro nos faz viajar, impressionar e sentir… Agora, em comparação com o autor dos “Irmãos Karamazov”, falta-lhe o toque que me provoca a diferença entre o excelente e o genial. Estamos no domínio da impressão, a minha não será a de toda a gente, nem a de hoje pode ser a mesma amanhã. Apenas digo que a “Anna Karénina” irá continuar singela na prateleira, e “Os Possessos” talvez sejam objeto de releitura.

Mas, enfim, nisto como em outras coisas, cada qual como cada um… e ainda bem.

01 março 2026

Sócrates não tem culpa…

Na medida em que o seu julgamento não chegou ao fim, o Sr. Pinto de Sousa não pode ser considerado formalmente culpado, mas está a fazer tudo para que o processo não se conclua a tempo e, disso, tem certamente culpa.

É impressionante como há gente, com tempo de antena, com coragem e descaramento para afirmar que este rodízio de advogados não é da responsabilidade do réu. A culpa é de o processo ser desproporcionalmente grande e o senhor não tem culpa dos seus advogados entrarem em desacordo com a juíza (!?) ou ficarem doentes.

Como é evidente, com tantos meios e custos envolvidos na sua defesa, com tanta litigância em tantos foros, o senhor não depende certamente de um único causídico, à mercê de uma qualquer corrente de ar. Sócrates só não apresenta oficialmente em tribunal um advogado conhecedor do processo porque não quer. Porque não quer que o processo se conclua a tempo de evitar as prescrições e quem nos tenta convencer do contrário não é honesto…

 

27 fevereiro 2026

ULS Gaia/Espinho - A farsa continua


A ULS Gaia-Espinho, vulgo “Hospital de Gaia”, cumpre há vários anos todos os critérios de serviços médico-cirúrgicos disponibilizados e de população servida para ser classificado no nível de topo dos hospitais públicos. A consequência da reclassificação é naturalmente dotar a unidade de meios materiais e humanos suficientes para atender às necessidades. Porque não está nesse nível não se sabe, nem se entende.

O que sabe é que após uma visita da então ministra da Saúde, na altura Marta Temido, foi reclassificado com efeitos apenas no vencimento dos gestores, como se a prioridade fosse satisfazer revindicações individuais dos mesmos e acalmá-los.

Mais recentemente, em novembro passado, ouvimos uma proposta absurda de transferir competências pediátricas de Gaia para o Santo António… Como se Gaia não fosse o terceiro concelho mais populoso e com a ULS a servir ainda outros concelhos a sul do Douro.

Agora, nasce uma “necessidade”, aparentemente não confirmada pelos dados objetivos, de abrir um terceiro centro de cirurgia cardíaca no grande Porto, no Hospital de Santo António.

Com todas as necessidades objetivas existentes no SNS, confirmadas e à vista de todos, avançar com este processo coloca algumas questões. Faz sentido esta dispersão de existirem três estruturas desta complexidade num raio inferior a 10 km? Faz sentido arrancar com um novo centro desta natureza, recorrendo a prestadores de serviços, vulgo tarefeiros, eventualmente “roubados” aos dois centros já existentes e comprometendo a viabilidade do que já existe e funciona?!  Não seria preferível utilizar essas verbas para reforçar os serviços de obstetrícia, por exemplo, e deixarmos de ter os episódios terceiro-mundistas dos partos em ambulâncias?

Quais serão as justificações reais, é a questão que fica em aberto… O interesse dos utentes do SNS não parece ser.

23 fevereiro 2026

E se fosse no ISCTE?


O caso de Fábio Teixeira, formado em enfermagem, nomeado para coordenador da Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis (EMER) fez correr muito tinta e inclusive a suficiente para ser rapidamente decretada a reversão da nomeação.

Efetivamente, o desalinhamento entre a sua área de formação e a natureza da estrutura causa perplexidade. Desconhecemos se terá conhecimentos específicos sobre o sector, como Miguel Barreto, que depois de ter sido diretor-geral de Energia, se dedicou a criar dúzias de empresas especializada em ganhar licenças de produção de energia, posteriormente revendidas com interessante mais valias. Os condicionamentos no acesso à produção de energia verde, criam oportunidades douradas e talvez Manuel Pina, o presidente da EMER, que nomeou o enfermeiro, tenha algo a explicar sobre eventuais conflitos de interesse com as empresas em que participa/participou.

Podemos ainda especular o seguinte. Se Fábio Teixeira tivesse tirado um curso de “Ciências Políticas” ou outro análogo, porventura menos exigente intelectualmente e tecnicamente também desalinhado, certamente não se levantaria tamanho vendaval… e que desses há por aí muitos, há.

A qualificação para uma função de gestão não se esgota na formação técnica e académica. É indispensável um conjunto de qualidades humanas e de liderança. Formação política nos ISCTEs ou nas juventudes partidárias, essas qualificam pouco para o que realmente importa.

20 fevereiro 2026

Esquerda, direita e o resto

Tempos houve em que as diferenças ideológicas existentes nos partidos do arco do poder eram mínimas. Pouca gente estava interessada numa mudança radical do modelo político e social e as opções eram tomadas em função da competência pressentida nos candidatos. O voto de protesto consistia em alternar o inquilino de S. Bento entre o PS e o PSD.

O mundo mudou, entretanto, e esses inquilinos não entenderam que precisavam de mudar práticas, mais práticas do que princípios, para continuar a merecer a confiança do eleitorado. O protesto deslizou então para extremos, mais radicais, que numa primeira fase foram ignorados pelos estabelecidos, já que traziam propostas irrealistas e mesmo perigosas para valores sociais fundamentais e “consensuais”.

No entanto, a rejeição dos extremos, os famosos cordões sanitários, foi sempre muito mais exigida à direita do que à esquerda. É crime louvar Hitler, e bem, enquanto admirar Estaline será apenas uma exótica demonstração de coerência.

Em Portugal, o jogo mudou com a geringonça Costista. Com o objetivo de alcançar o poder, decretou-se uma fraternidade de “Esquerda”, mesmo quanto relativamente a temas tão fundamentais como projeto europeu, moeda única, defesa e Nato muito pouco havia em comum entre os supostos “irmãos”. Os custos desta aliança ainda estão a ser pagos, no buraco da TAP, no tempo de trabalho da função pública e no descontrolo migratório, este último o grande combustível do populismo de extrema-direita.

“Não é não”, dizia então o PSD quanto a eventuais acordos com o Chega, entre aplausos e desconfianças. O cordão sanitário à direita tornou-se uma exigência dramatizada e um suposto bloco de “Direita”, de que se começou a falar depois das legislativas de 2025, era coisa (ainda?) algo clandestina. As razões para essas reservas são naturais. Para lá dos toques xenófobos e racistas do Chega, os seus programas concretos são altamente incompatíveis com os da AD e da IL. A reclamação de Ventura de liderança da direita, no âmbito das presidenciais, é um sem sentido, sendo que insensatez não parece ser argumento que o perturbe.

Hoje não podemos falar numa divisão simples direita-esquerda. É mais complexo, há mais dimensões. O que continua e continuará a ser relevante será a personalidade e seriedade dos líderes. Aqui André Ventura tem várias deficiências. Continua a ser o “puto reguila” que diz o que bem lhe apetece, que o que disse ontem pode não contar para hoje, em permanente autopromoção despudorada, para quem a indignação desculpa todas as imprecisões factuais, para quem a premência de alguns temas pontuais dispensa apresentar um projeto global coerente. Enfim, falta-lhe integridade e integralidade. Enquanto não o conseguir, lidera o megafone, mas não é suficiente para ir mais longe com um mínimo de eficácia. Certamente que isto não é razão para o restante espetro político esperar poder continuar tranquilamente num “mais do mesmo”.

 

18 fevereiro 2026

O Ramadão

Por estes dias começa o mês sagrado muçulmano do Ramadão. Um primeiro pensamento e palavra para todos os muçulmanos que conheci, que vivem a sua fé serenamente e votos de que tenham uma celebração feliz, à medida das suas expetativas, junto dos seus próximos e familiares.

Passando à parte mais racional, duas “curiosidades”. Quando em 2006 me instalei na Argélia o Ramadão começou a 23 de setembro. Entretanto, deslizou até fevereiro porque o calendário muçulmano continua baseado nos ciclos lunares e ao fim de 12 meses ficam a falar cerca de 11 dias para completar o ciclo solar. Pode ser algo a que as pessoas se habituem, mas ver, por exemplo, o mês de dezembro a viajar entre o Inverno e o Verão, é estranho. Obviamente que no mundo muçulmano, por questões práticas, comerciais e administrativas é utilizado o calendário ocidental, o gregoriano, que acerta o ano pelo ciclo solar. De recordar que não é descoberta recente. Foi proposto pelo Papa Gregório XIII em 1582.

A segunda curiosidade tem a ver com o dia inicial, que depende do avistamento do reaparecimento da Lua e, conforme o local e a meteorologia, pode não ser coincidente em todos os observatórios. Este ano, mesmo em França, houve divergências. A grande mesquita de Paris, talvez a mais relevante instituição muçulmana do país, de tutela argelina, anunciou o início do mês a 18/2 e o CFCM (Conselho Francês do Culto Muçulmano), decertou o 19/2. Esta última instituição foi criada por N. Sarkozy para tentar agregar as diferentes comunidades islâmicas e criar um canal único de diálogo e coordenação com o Estado, mas falhou e não conseguiu a necessária coesão e alinhamento das diferentes correntes.

A prática do Ramadão é anacrónica. Jejuar entre o nascer e o por do Sol como os nómadas que podiam ficar o dia à sombra da tamareira é um cenário incompatível com os ritmos de vida atuais.

Infelizmente por falta de vontade, instituições e/ou lideranças construtivas, o Islão não se questiona e até cada vez mais se enquista. Certamente iremos ver as fatais polémicas sobre o respeito pelas crenças nos atos desportivos e não só. Alguém quer voar num avião com pilotos em jejum há uma dúzia de horas?

Confesso que conheci pouquíssimos muçulmanos que assumiam não cumprir o Ramadão. É considerado um pilar fundamental e sagrado da prática religiosa. No entanto…

No entanto, em 1962, na Tunísia, menos de uma década após a sua independência, sendo esta muito alicerçada na identidade muçulmana, o seu presidente Habib Bourguiba bebeu um sumo de fruta na televisão em pleno período de jejum, dizendo: “Sou mais útil para o meu país se não ficar numa esquina bocejando e esfomeado por causa do Ramadão”. Argumentou que o próprio profeta terá afirmado que se podia quebrar o jejum em situação de guerra, para se ser mais forte, e que a Tunísia estava atualmente em guerra, pelo desenvolvimento! Este ato foi extraordinariamente polémico e, curiosamente, impossível de repetir nos dias de hoje, o que diz muito sobre o sentido das evoluções recentes.

Para quem vive à sombra de poços de petróleo, os desafios são outros, mas gostava muito de ver o que aconteceria se os poços cumprissem o Ramadão e reduzissem drasticamente a produção durante um mês (lunar ou solar, tanto faz…)

10 fevereiro 2026

Contados os votos


Contados os votos, indiscutivelmente Seguro ganhou, Ventura perdeu e comparar números de uma eleição binária com os de outras onde existe uma dúzia de alternativas disponíveis é um exercício com muito pouco sentido.

Será desta vez que o PS volta ao seu registo histórico, se deixa de devaneios neomarxistas e faz as exéquias, assumidas, de um tempo sombrio e indigno?

Face à primeira-volta Ventura subiu. Estranhíssimo seria se descesse. Faço parte dos portugueses que consideram que, apesar dos erros e abusos dos habituais inquilinos do poder, com ele teríamos uma emenda pior do que o soneto. É importante mostrar o que está em causa e em perigo, sem rasgar vestes, nem cair na gritaria. Ventura nunca será nenhum Salazar nem por inteiro, nem por um terço, pela simples razão de nunca saberá governar. A sua equipa é genericamente fraca, o seu programa económico absurdo e a sua relação com a verdade algo de muito débil. A tentativa de colagem à herança de Sá Carneiro foi de uma indecência escandalosa.

O triunfo muito claro de Seguro é a vitória de uma abordagem à prática política mais séria e decente, mas nada garante para o futuro. A satisfação deve ser comedida, especialmente se não for seguida por práticas sérias e decentes.


Acrescentada publicação no "Público" em 11/02/2026


07 fevereiro 2026

Depois de Mao


Diz-se que da calúnia algo sempre ficará. Ou seja, mesmo com posterior esclarecimento de que todas as acusações lançadas eram falsas, haverá sempre quem continue a “achar” que algo de verdadeiro existiria, sobretudo se tiver “vontade” de em tal acreditar. No final, a imagem do caluniado guardará para sempre alguma mancha, indelével.

O mesmo, noutro sentido, ocorre para as personalidades objetos de culto da personalidade. Mesmo que a história e respetivos factos comprovem que as qualidades incensadas eram fabricadas de ponta a ponta, é impossível anular e apagar das memórias coletivas a imagem e os méritos criados para essas figuras.

A “memória” e a visão de Mao Tsé-Tung na China entram neste segundo caso. É inútil (e perigoso) procurar evidenciar a realidade efetiva das suas ações, já que isso implicaria demolir os alicerces do regime e destruir a respetiva narrativa. Numa primeira fase, logo após a sua morte, foi julgado o “Bando dos Quatro”, incluindo a sua última mulher, Jiang Qing. Era necessário reconhecer terem ocorrido erros e culpar alguém pelos mesmos, desde que não fosse o Grande Timoneiro.

Ela terá afirmado que “Eu era o cão de guarda do presidente Mao. Eu mordia qualquer um que ele mandasse morder”. Certo que há cães que mordem por disciplina e obrigação, enquanto outros o fazem com bastante prazer.

No período seguinte, de Deng Xiaoping, ficou a figura de Mao nas paredes, sem grandes loas nem questões. A China não passou pela fase Kruschev, quando este pôs em causa as ações do “Pai dos Povos”, Estaline. O partido comunista chinês foi criado e inicialmente amamentado pelo soviético, na fase estalinista. Embora a partir de uma certa altura Mao tenha tido a vontade de “matar o pai”, sem o conseguir, sempre houve muito interesse na China em acompanhar o que se passava no vizinho do Norte.

A queda da URSS foi um aviso importante para o regime chinês, que se virou do avesso para procurar entender como as grandes potencias caíram e o que fazer para o evitarem. O novo grande timoneiro, Xi Jiping, tomou o assunto em mãos e de forma eficaz, reconheça-se.

Em primeiro lugar foi reabilitar Confúcio e a cultura ancestral. Os “comunistas” 2.0, como Putin, entenderam ser mais fácil apropriarem-se do património cultural passado, como ferramenta de poder, em vez de se darem à trabalheira de criarem “homens novos”. Se a religião (e as crenças antigas) são o ópio do povo, fiquemos donos dos cachimbos. Nada de especialmente inovador, convenhamos. Ao contrário dos comunistas que deploravam e atacavam a cultura antiga, Xi utiliza-a.

Mao, respetivo pensamento e ações, também se tornam inquestionáveis e pôr em causa o heroísmo dos fundadores da China moderna, torna-se crime. Um historiador honesto pode acabar no tribunal, ou de alguma forma desgraçado, mesmo sem ver um juiz.

A China continua a ser “comunista” (o nosso PC que o diga, detalhes aqui nesta pérola). Se as práticas maoístas foram uma aproximação muito grosseira às teorias marxistas, a abertura de Deng Xiaoping é no sentido liberal e capitalista e a China moderna de comunista terá … não sei o quê.

O regime atual, o “comunismo específico chinês” está alicerçado na sabedoria confuciana, nas teorias marxistas, nas práticas insanas e criminosas Maoístas, no liberalismo de Deng e no controlo absoluto da sociedade por Xi. Grande salgalhada!

Como esta pressão e opressão conseguirão manter o país a funcionar com eficácia é uma questão complexa. Que forças podem nascer que provoquem uma mudança de regime, quando há câmaras de vigilância em todas as esquinas e repressão brutal para cada pensamento critico tornado público? Para as gerações chinesas mais jovens, as imagens das manifestações de 1989 na praça de Tiananmen (se a elas conseguirem acesso), serão certamente do domínio da ficção científica.

Teoricamente não há desenvolvimento sustentável e riqueza sem inovação e esta não rima com proibição. A China é diferente, para sempre?

06 fevereiro 2026

Fazer de conta (uma vez mais...)

Não foi a primeira vez, nem será certamente a última. Face a uma situação não rotineira, o aparelho do Estado entra em modo barata tonta, sem rumo nem determinação, como se tivesse aterrado num mundo alienígena, que é preciso “aprender”. Enquanto pessoas desesperadas e desalojadas caem dos telhados ao tentarem proteger o que lhes resta das suas casas semidestruídas, enquanto isso… um ministro produz vídeos de autopromoção, outro levanta uma barraca e leva uma dúzia de militares com motosserras a um beco, uma ministra penosamente luta por conseguir nos dizer algo com sentido e uma caravana ministerial de veículos negros vai lá ver…

Ao fim de vários dias, anunciam-se uns apoios… é tudo o que sabem fazer: oferecer dinheiro. Capacidade e estruturas efetivas e competentes de liderança e de realização não existem. Nem existirão. Quando a matéria-prima é fraca o resultado será sempre sofrível. 

No final, face ao mundo real, os alienígenas são os “responsáveis” políticos.

A imagem dos F16 danificados no hangar é também um bom exemplo de como, mesmo nas Forças Armadas, prevenção e antecipação não parecem ser conceitos familiares.

02 fevereiro 2026

O Bem-Amado…

Durante muito tempo, e diariamente durante os cinco anos do curso, desembarquei no Porto na praça da Batalha e passei pela estátua de D. Pedro V. Confesso que sempre sem lhe dar grande importância. A quarta dinastia nunca me entusiasmou muito. Para lá dos méritos do Restaurador e do Liberal, foi um período de declínio e de desperdício. As insanidades e o esbanjamento no convento de Mafra são um bom exemplo, talvez o mais visível. A riqueza fácil e “gratuita” foi um vírus que envenenou as capacidades e a iniciativa do país.

Um destes dias, num texto de Miguel Unamuno sobre Portugal, este referia-se a D. Pedro V como o “Hamlet Português”, o suficiente para me despertar curiosidade adicional sobre o monarca e a sucumbir à leitura de um correspondente romance histórico, apesar de ser algo crítico quanto à facilidade com que tanta gente se arvora a capacidade de imaginar e transcrever os diálogos e os sentimentos de figuras históricas.

Descontando e ignorando as partes mais detalhadas e eventualmente fantasiadas, lá fui à leitura, procurando descobrir o tal príncipe complexo e angustiado. Não lamento a viagem.

O espírito humanitário, de missão e a humildade do jovem rei deveriam ser um exemplo mais promovido. Apesar do curto reinado, as preocupações com o desenvolvimento, a educação, a saúde e a atenção com os mais desfavorecidos deixaram algumas marcas e a marca “D. Pedro V / Dª Estefânia” em várias realizações meritórias.

Há quem diga que os amados pelos Deuses partem cedo. Também é verdade que a sua memória mais facilmente fica imaculada, não contaminada por eventuais desvios tardios.

Certo que para a República que estava ali ao dobrar da esquina não dava jeito realçar méritos de monarcas. De uma coisa não tenhamos dúvidas. Tão ou mais importante do que os modelos de governação é a formação e a atitude de quem governa.


01 fevereiro 2026

Adamuz, a “Glória” espanhola


O recente descarrilamento e posterior choque de dois comboios de alta velocidade, em Adamuz, próximo de Córdova, provocou 45 vítimas mortais.

Irrita-me a imediata gestão política da desgraça. Os putativos responsáveis tentam logo “sacudir a água do capote” e lançar “narrativas” de abrigo, A oposição aproveita para clamar contra uma suposta incompetência generalizada. As vítimas mereceriam mais respeito.

Parece que uma fissura numa soldadura do carril terá sido a causa. Existem comboios laboratório que circulam regularmente pela rede, procurando detetar falhas como estas. Em situações análogas de alta velocidade, por exemplo em França, a periodicidade das passagens será de duas por mês. No caso de Espanha, o comboio antigo, o “Séneca”, está avariado e o novo, o “Doctor Avril”, ainda não está homologado. O carril em causa esteve 58 dias sem ser auscultado.

Aqui há algum perfume semelhante ao da tragédia do elevador da Glória, em Lisboa. Uma falha estrutural que “não podia” acontecer, práticas de manutenção aligeiradas e uma enorme distância entre os decisores de topo e a realidade do terreno. Quando falo em distância, não me refiro à sequência de níveis hierárquicos. É pior do que isso. É existir gente politicamente nomeada, cujo único mérito é terem bons padrinhos e que borboletam entre variadas entidades e empresas públicas, sem saberem muito bem o que andam a fazer ou o que deveriam assumir. Quando um desastre “fatalmente” acontece, lá correm a afirmar “Eu não fiz nada!”. Precisamente…

Quanto à eficácia sas entidades competentes na reação aos estragos da tempestade Kristin, esperamos para ver.

28 janeiro 2026

Difícil de qualificar


Os regimes totalitários e respetivos líderes têm formas especificas de assegurar a sua permanência no poder. Carecendo de legitimidade democrática por eleições ou de bênção divina de serem reis “por vontade de Deus”, outros argumentos são necessários. Por vezes, quando acederam ao poder por revolução, eventualmente alimentada de supostas boas causas, invocam a legitimidade revolucionária. Em linguagem mais direta será um “ganhamos, (o país) é nosso!”.

A repressão torna-se naturalmente uma ferramenta indispensável, contudo há variantes. Pode haver repressão seletiva, dirigida unicamente àqueles que dalguma forma questionam e ameaçam o poder e o “Estado Novo” português foi um desses casos. Há também a repressão preventiva. Por exemplo, quando a Argélia quis travar o crescimento dos islamistas em 1992, apanhou à pazada todos os que eram ativistas reais, potenciais ou imaginários.

Há um momento em que a repressão não seletiva se torna uma ferramenta fundamental nalguns regimes. É o alicerçar do poder pelo terror, quando qualquer cidadão lambda pode sofrer, sem mesmo saber porquê.  O Estalinismo cai neste caso. Entre os milhões de presos e deportados (e muitos deles mortos de forma atroz) no Gulag, haveria alguns efetivos opositores e críticos do sistema, mas a grande maioria foram apanhados “apenas” para exemplo.

Depois de ter lido “Voai Cisnes Selvagens” de Jung Chang, incluindo o processo da elaboração da biografia de Mao Tse Tung, a leitura desta tornou-se obrigatória.

Mao é mais um adepto e franco praticante da governação pelo terror. Comparado com Estaline, não sei qual dos dois sairá vencedor neste macabro campeonato. Há exemplos relativamente bem conhecidos. Mao é incompetentemente louco e/ou maquiavelicamente assassino. A campanha de extinção dos pardais por comerem grãos, que acaba numa praga de insetos. A cata na rua de pregos e outras peças metálicas, destruição de caçarolas e de outros indispensáveis utensílios de cozinha para, juntamente com o abate indiscriminado de árvores, construir siderurgias domésticas, proporcionando um “Grande Salto em Frente” na produção de aço no país (parece que a qualidade não era grande) …

A manifesta incapacidade de aumentar a produção real agrícola, associada à necessidade de exportá-la para comprar armas e construir uma indústria de armamento vai provocar a morte de dezenas de milhões de pessoas. Segue-se a chamada “Revolução cultural”, que destruirá arte, cultura, património, estruturas de ensino e relações sociais, criando um verdadeiro deserto cultural e traumas enormes na sociedade.

Para lá destes pontos, já relativamente conhecidos, há outros aspetos da vida de Mao que me surpreenderam. A seguir:

Desde a primeira hora que Mao não age movido por ideais, apenas pela busca do poder. Todos os golpes são possíveis e permitidos para esse fim. Não há nada heroico nem especialmente relevante, com um mínimo de princípios na sua “luta”. Unicamente ambição pessoal, que passa por cima de tudo.

Uma vida humana vale apenas na medida do que pode contribuir para o seu projeto de poder. Lançar milhões de pessoas na miséria é um preço aceitável e mesmo irrisório para as suas intenções. Fazer delas carne para canhão na Coreia ou noutros cenários é irrelevante. O custo é insignificante e há um enorme stock disponível. O povo, supostamente tão querido das ideologistas marxistas, é apenas uma matéria prima, para utilizar à sua bela discrição.

A desumanidade não tem limites. Para lá das dezenas de milhões de cadáveres anónimos que jazem no seu percurso, mesmo a Chu En-lai, fiel seguidor e na fase final seu número dois, é-lhe negado tratamento de um cancro, porque Mao não queria que ele lhe sobrevivesse. Pequenas coisas…

Algumas purgas não são definidas e dirigidas por princípios e ações das vítimas. É decretado existirem  x% de “inimigos” a purgar e tratem de cumprir a quota, senão serão purgados vocês.

Estimativas apontam para 70 milhões de chineses mortos na insanidade e voracidade de poder de Mao. Difícil de qualificar, mas se isto não é um dos maiores monstros da história da humanidade…

24 janeiro 2026

As campanhas modernas


Na análise do que houve de novo nas últimas eleições presidenciais, refere-se a natureza das campanhas. Há os candidatos que as fizeram “à antiga”, com os habituais beijinhos e abraços em ruas e mercados para os telejornais e os que apostaram nas redes sociais, fazendo pinos, flexões de braços e outras gracinhas. Parece que há um público, jovem, para estes canais, que até nem tem o hábito de  ver telejornais.

Pode-se argumentar que Marcelo também fez a sua notoriedade como “influenciador”, simplesmente em média diferente, na televisão tradicional e não nas redes. Não me parece assim tão óbvio o paralelo. Por muito que se possa discordar e questionar o seu dilúvio de palpites e comentários, tratava-se de palavras que nos desfiavam a pensar, um pouco. Muito diferente será vermos “influenciadores” políticos a ganharem popularidade com habilidades e gracinhas, em concorrência com skaters aventureiros e imprevistos gatinhos. O mundo (nisto e não só) não muda por decreto nem a partir de simples lamentações, mas era importante não ficar pela constatação do: É assim, para os jovens tem de ser assim!

Está em causa mais do que as faculdades de entretenimento de um personagem e o grande desafio será mesmo cativar e motivar os jovens para a política pelo que ela é e pelo que realmente impacta na sua vida. Não é fácil? Pois não… e também é verdade que os beijinhos e abraços nos mercados de substância têm pouco.

23 janeiro 2026

Cisnes Selvagens

O livro de Jung Chang, com o nome aqui em título, foi editado em 1991, contando a história de 3 gerações de mulheres na China, ao longo do século XX. Para muitos terá sido o primeiro contacto pormenorizado e bem documentado com o “Grande Salto em Frente” e a “Revolução Cultural” maoístas, todos os seus absurdos, abusos, brutalidades e chacinas.

Não é aqui espaço para o detalhar. Para quem se interessa pela história do século XX, é um livro obrigatório. Como curiosidade apenas gostaria de ouvir o comentário dos “progressistas maoístas” europeus dos anos 60 e 70 sobre as barbaridades reais do seu ídolo asiático.

Um destes dias encontrei numa livraria o “Voai, Cisnes Selvagens”, da mesma autora, 34 anos depois. Embora revisitando algumas passagens do primeiro, é mais autobiográfico, com a história da vida de Jung Chang, como decidiu escrever o primeiro livro, o que depois escreveu e como o regime foi reagindo às suas publicações. Vale a pena. É, novamente, histórico.

Quanto a outras obras da mesma autora, há a assinalar uma biografia de Mao que deve ser uma das melhores obras sobre o tema e da Imperatriz (viúva) Cixi. Encomendadas, já me foram ambas entregues e aguardo com muita expetativa o tempo da sua leitura. Conhecer a China é importante para conhecer o mundo.

Irei dando notícias… 

22 janeiro 2026

Adamuz, a “Glória” espanhola


Há poucos dias um descarrilamento e posterior choque de dois comboios de alta velocidade, em Adamuz, próximo de Córdova provocou 43 a 45 vítimas mortais. Ainda é cedo para conclusões finais, mas faltar uma parte do carril, conforme fotografia acima, e marcas nas rodas do comboio descarrilado e noutros que por ali circularam previamente, parece apontar para um defeito de soldadura.

Avarias podem sempre acontecer e é cedo para conhecer toda a sequência de fatos que terá produzido a tragédia e apurar responsabilidades. Há, por isso, algo que me irrita que é a imediata “gestão política” da desgraça, por outras palavras, os putativos responsáveis a tentarem “sacudir a água do capote”, ou a procurarem fazer circular “narrativas” de abrigo.

A ver vamos como isto fica à chegada. A Espanha institucional não é muito famosa pela transparência na comunicação (lembram-se do “Prestige” na Galiza, onde os galegos viam a TV portuguesa para saber o que se passava?), mas os tempos são diferentes.

Aqui há algum perfume semelhante ao da tragédia do elevador da Glória, em Lisboa. Uma grande tragédia por uma falha estrutural que “não podia” acontecer e uma enorme distância entre os decisores de topo e os técnicos do terreno. Quando falo em distância, não me refiro a sequência de níveis hierárquicos, é pior do que isso. É existir gente política e/ou politicamente nomeada que não tem “ni puta idea” do que andam a fazer ou do que deveriam assumir e que, quando um desastre “fatalmente” acontece, a prioridade é correr para o abrigo. 

21 janeiro 2026

Trump é diferente

Trump não foi à Venezuela “extrair” Maduro para proporcionar democracia, liberdade e bem-estar ao povo venezuelano, nem teve o cuidado de o declarar ou insinuar, mesmo que isso possa eventualmente ser um efeito colateral. Os EUA intervieram na Venezuela para evitar que o petróleo fosse para a China, Rússia ou Cuba. Não foi certamente a primeira intervenção feita por eles (e por outros) ao arrepio das normas internacionais e fundamentalmente para proteção dos seus interesses.

A argumento do “narcotráfico” tornou-se necessário unicamente para um mínimo de enquadramento “legal”, sendo que antes de ir pescar pessoas à Venezuela, muitos grandes peixes estão aí ao lado no México e com muito mais impacto no seu país.

A diferença em Trump não será muito por estes atos, mas pela forma como ele assume frontalmente a verdadeira motivação. A ignóbil reação dele ao assassinato de Rob Reiner prima também pela “transparência”. Muitos outros antes dele terão tido arrogâncias e desrespeitos análogos, mas apenas em privado.

O fato de a diferença de Trump ser mais na comunicação do que na ação não é um aspeto de menor importância. Os seus antecessores, ao terem assumido no passado nobres causas e motivações “humanistas”, expunham-se a serem desmascarados por hipocrisia. Com Trump é diferente. A insolência e o desrespeito públicos tornam-se politicamente aceitáveis.

Algo que me parece substancialmente diferente com Trump é a sua aparente “subordinação” a Putin, como se este soubesse algo que o pudesse comprometer. 

20 janeiro 2026

Quo vadis PSD?


A evocação recorrente nesta campanha da inspiração do brilhante Sá Carneiro, evoca um ponto comum com a de 1981. A de um grosseiro erro de avaliação na escolha do candidato presidencial e de que os partidos não são donos absolutos do seu eleitorado nas Presidenciais. Acharam mesmo que Marques Mendes tinha postura para os portugueses o reconhecerem como Presidente e que nomeá-lo candidato bastava?

O PSD perdeu e não dar indicação de voto para a 2ª volta é curioso. Para Montenegro é indiferente ter Seguro ou Ventura em Belém? Olhe que não, olhe que não… Se podemos começar por falar apenas nas facilidades/dificuldades da governação, passando para o domínio dos princípios, ainda mais clara deveria ser a imagem. Ventura vai continuar a pedir e a defender os três Salazares?

Mais tarde ou mais cedo o PSD terá que decidir e assumir com quem quer preferencialmente estar. Se com o PS expurgado do Costismo (herdeiro e órfão do Pinto de Sousa) ou com o Chega. Decidam e assumam.

19 janeiro 2026

Como ficamos



 António J. Seguro

É com satisfação vejo a vitória de AJS que, conforme já referi aí para trás, apoiei. Era o candidato mais adequando à função. Certo ser um pouco redondo, mas de agudos e retorcidos já estivemos servidos.

A ver o que se passa no PS. Para já é um “Incha, Costa!”, “Embrulha, Santos Silva!”, sendo que as probabilidades de Seguro vencer a 2ª volta dependem muito de quanto afastado se mantiver do aparelho do Rato.

Em 86, Mário Soares começou por disparar contra Salgado Zenha à sua esquerda, para poder passar à 2ª volta, e depois foi namorar o PC. Seguro começou a dizer que sim, era de esquerda, e agora vai certamente alegar que é de esquerda “ma non troppo”…

André Ventura

Sempre a subir, apesar de todos os equívocos quanto à natureza do cargo em disputa e um muito à-vontade quanto à distância entre o seu discurso e os fatos reais. Aqueles que o querem travar devem começar a pensar numa estratégia diferente da atual.

Não deverá ganhar, mas se o fizer será a implosão do partido, que fica sem líder a primeiro-ministro credível ou/e do sistema, já que irá continuamente procurar extravasar as competências do PR.

Veremos se continuará a pedir e a defender os 3 Salazares.

Cotrim de Figueiredo

Um bom resultado, muito à custa do PSD e do candidato oficial do partido, mas algum deslumbramento e mesmo um cheirinho de arrogância não ajudaram.

Começou no debate plenário em que decidiu menorizar os candidatos pior colocados, passou pela majestática declaração de que se calhar poderia apoiar Ventura na 2ª volta e acabou na agressiva reação à notícia da acusação de assédio. Podia ter toda a razão do mundo para sentir-se injustiçado, mas ao nível de um potencial PR não se reage a disparar em todas as direções.

Ainda sobre a acusação, se a mesma já tem dois anos, porque ficou a marinar na IL? É para isto que os canais de denúncia (e de boas práticas publicados) servem? Se calhar não será caso único.

Gouveia e Melo

Na terra dos cegos, quem tem um olho é rei. O extraordinário relevo dado a GM na campanha das vacinas, só confirma o quanto as expetativas são baixas relativamente ao desempenho de quem o Estado nomeia.

Quando o aroma apetitoso do poder cresceu à sua volta, muitas moscas atraiu, algumas francamente pouco recomendáveis, o que não perfumou positivamente a campanha.

Depois, faltou-lhe o segundo olho para nos convencer do que poderia mesmo fazer no futuro.

Marques Mendes

Falou-se bastante de Sá Carneiro nesta campanha e o partido fez algo semelhante à opção do antigo líder na de 1981. Um enorme erro de “casting”. Soares Carneiro não tinha pose nem carisma para convencer o “povo”, Marques Mendes também não. Era difícil de adivinhar? Acho que não…

É muito curioso que nem MM nem o PSD darem indicação de voto para a 2ª volta. Para Montenegro é indiferente ter Seguro ou Ventura em Belém? Olhe que não, olhe que não… E só estou a falar nas facilidades/dificuldades da governação, sem entrar pelos “princípios”. Mais tarde ou mais cedo o PSD terá que decidir e assumir com quem quer preferencialmente estar. Se com o PS expurgado do Costismo (herdeiro do Pinto de Sousa) ou do Chega. Decidam e assumam

Dos restantes não é relevante falar!