18 maio 2026

A extraordinária URSS


Por estes dias o nosso extraordinário PCP lembrou que “A União Soviética, infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente, porque de facto foram anos extraordinários para o povo”. Por estes dias celebrou-se o final da II Guerra Mundial, onde a URSS esteve do lado dos vencedores.

Aqueles que querem a todo o custo encontrar algum mérito no período soviético, descontando o anterior terror estalinista e a posterior repressão na Europa de Leste, realçam a sua participação e generoso esforço material e humano despendido nessa guerra, do lado “certo”.

No entanto…  Em agosto de 1939, Estaline apertava a mão ao nazi Ribbentrop (imagem), escassos dias antes das tropas alemãs entrarem na Polónia pelo Oeste e a URSS a seguir os imitarem pelo Leste. Até Hitler decidir entrar na URSS em 1941, os partidos comunistas europeus viam até com alguma simpatia o regime nazi.

No final da guerra, enquanto a Oeste, Eisenhower deixa a primazia da entrada em Paris a Leclerc, simbolicamente permitindo que a capital de França fosse libertada por franceses, na Leste, na aproximação a Varsóvia, quando a resistência armada polaca cresce, os blindados soviéticos param e aguardam cinicamente. Ter os resistentes polacos massacrados pelos alemães era trabalho em avanço, dispensando os soviéticos de precisarem de fazer mais tarde.

O esforço de resistência clandestina polaca foi talvez daqueles com maior dimensão e organização, mas no final perderam de novo. O “mundo livre” deixou-nos sob a pata de Estaline.

Ainda estou à espera do detalhe do que foram os anos extraordinários da URSS. Talvez os polacos possam ajudar.

15 maio 2026

Glosa Crua, 21 - Tempo, 0


Sim, aqui no Glosa Crua não é habitual celebrar efemérides. Uma exceção é o aniversário do blogue, que a 13 de maio fez 21 anos.
Já foi  há 2 dias. Distraí-me, não tenho estado atento a notícias de Fátima, também não estou à espera de milagres... :)

14 maio 2026

A escravatura, as desculpas e outras contas

Por estes lados, por vezes vemos o mundo com óculos” made in USA”, que nem sempre proporcionam uma visão suficiente alargada da realidade. Um exemplo é o caso da escravatura. Para eles será sinónimo do tráfico transatlântico de África para o continente americano. Como sabe facilmente quem quiser saber, a escravatura foi uma realidade muito disseminada no passado, remontando a tempos em que ainda não havia navios a atravessarem o Atlântico.

No século VII, no tempo de Maomé, era banal e perfeitamente aceitável naquela sociedade. Daí que o Corão, na sua dimensão regulamentar, refira direitos e obrigações de um muçulmano face aos seus escravos. Quando o Ocidente vem decretar ser proibido algo que uma leitura estrita do livro sagrado considera permitido, a rejeição é grande. Dentro do negativo das colonizações do século XIX de África, elas tiveram um papel decisivo no combate ao fenómeno nesse continente.

Aqui por perto, no Mediterrâneo e na costa atlântica, muitas ações de saque e de captura de escravos foram realizadas pelos corsários otomanos a partir de principalmente Argel, Tunes e Rabat, ações terminadas em meados do século XIX… com a colonização francesa do Norte de África. São referidas mais de um milhão de capturas, menos certamente do que os números transatlânticos, mas de todo não irrelevante. Miguel Cervantes por isso passou, em Argel,

Uma vez que já atravessamos a maré dos pedidos de desculpa, se quer avançar para a parte das compensações e o assunto ganhou foro global na ONU, sugiro que a Turquia faça também a sua parte, começando pelas desculpas.  O saque de Porto Santo em 1617, por exemplo, foi terrível. Depois dessa fase, podemos eventualmente passar à fase das compensações, mas sempre numa perspetiva de equidade… Obviamente que nunca na vida a Turquia irá apresentar um mínimo esboço de pedido de desculpas pelas ações dos seus corsários no passado e, se calhar, terá razão.

 

13 maio 2026

O Hantavírus


Parece que o bicho embarcou num navio de cruzeiros e daí saltou para a primeira linha das páginas noticiosas. Os jornalistas fazem diretos em frente a hospitais, os fabricantes de máscaras carregam no acelerador e vemos alguma excitação de quem já viu o Covid-19 e parece estar a ver chegar um digno sucessor.

No final dos anos 90 desloquei-me várias vezes à Argentina durante a realização de dois grandes projetos. Numa altura em que estava com a equipa de colegas em La Plata, a sul de Buenos Aires, lemos nos jornais locais artigos sobre o aparecimento de alguns casos de um tal "hanta virus", da qual pouco sabíamos.

Não conhecíamos a doença, mas, pelo tom das notícias, parecia feia. Ao perguntar na receção do hotel lá nos explicaram que era um vírus que aparecia nos ratos com o lixo, no lixo com os ratos, mas que não nos preocupássemos porque era um problema “só dos pobres”. Ainda perguntámos se era contagioso, como se transmitia e responderam-nos que sim e que se transmitia pelo ar. Fomo-nos deitar desejando-nos mutuamente votos de boa noite e de bom vento (que soprasse na "boa direção"...).

Tanto quanto soubemos, o vento não terá soprado demasiado forte, já que não ouvimos mais noticias sobre o tal vírus. Neste caso atual, a ver vamos, mas pelo menos para já não me tirará o sono. Talvez nos possa fazer refletir sobre a dimensão do planeta e a globalização que se torna efetiva a várias dimensões. Como se resolve o problema dos ratos e dos pobres, não sei. Certamente que não será com cruzeiros exóticos, embora estes possam trazer para as primeiras páginas alguns detalhes que não faz mal conhecer.

10 maio 2026

Receiem os vivos


Dizem que se deve recear fortemente os vivos que não conseguem respeitar e dignificar os seus mortos. No caso do falecimento de Carlos Brito, histórico e destacado militante do PCP, a reação do partido é efetivamente assustadora.

A imagem acima publicada, “A pedido de vários Órgãos de Comunicação Social”, (apenas saiu a pedido?), é de uma confrangedora miséria humana.

Obviamente que podemos discordar das suas posições, antes e depois do seu afastamento do partido, mas alguém que durante tantas décadas se dedicou a uma causa, merece ser respeitado e enaltecido por aqueles a quem ele consagrou tão intensamente o seu esforço e uma grande parte da vida.

Tinha razão quando assumiu a rutura? Talvez tivesse, mas especialmente neste momento isso seria um episódio que não deveria apagar o reconhecimento sincero e espontâneo do partido por tudo o que antes ele fizera.

O PCP é realmente um partido que assusta. 

Original aqui

08 maio 2026

A culpa é dos States


Sim, os EUA não são de forma nenhuma um ator angelical e puro na geopolítica mundial. Particularmente o seu atual Presidente deixa muito a desejar quanto a ética e princípios, mas daí a colocá-los na primeira linha das responsabilidades por todas as desgraças do mundo, vai a distância de uma generalização abusiva.

Recentemente vimos uma inacreditável “pérola” desse “desporto” de culpar os EUA de tudo e mais alguma coisa. Judite de Sousa, que por formação e currículo tinha obrigação de saber o que diz e medir as suas palavras, veio afirmar que “O Japão atacou Pearl Harbour porque levou com dois bombas atómicas”. Não está apenas em causa a discrepância cronológica do ataque japonês ter ocorrido em 1941 e os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki em 1945.  O primeiro evento foi um ataque surpresa, sem declaração prévia de guerra, que precipitou a entrada dos EUA na guerra; o segundo foi o momento final que levou à capitulação do Japão.

Penso que nem Donald Trump poderia afirmar tal barbaridade, sendo de realçar que ele não tem formação superior em História, como esta famosa jornalista e comentadora … É absurdo e estúpido demais para ser verdade.

Dir-se-ia que as nossas TVs têm mais espaços de comentários do que comentadores habilitados para os preencher. Que crédito podemos dar a esses palpitadores “todo-o-terreno” que por ali pululam?

05 maio 2026

A linguagem de estar e ficar no poder


Manter-se no poder é um desafio que pode recorrer a várias estratégias e linhas de força.  Como em muitas receitas, os ingredientes podem ser variados, mas em cada caso concreto há sempre um eixo principal na afirmação e justificação do “Aqui quem manda sou eu!”.

A mais comum nos tempos que correm, no nosso mundo, é a legitimidade democrática. Os eleitores deram um mandato limitado no tempo e no âmbito para alguém assumir o poder. Pode evoluir para situações “pós-democráticas” de outra natureza. Como dizia o Sr Erdogan, a democracia é um comboio que se apanha e do qual se sai quando ele chega à estação pretendida.

Outra forma é a da força. Mando porque sou o mais forte e se alguém dúvida, vamos ao rinque e veremos quem fica em pé. É uma forma bastante clássica e tradicional, sendo que a força pode ter várias dimensões e os combates no rinque não estar sujeitos a regras equitativas.

Temos também a legitimidade divina. Sou rei por vontade divina e colocá-lo em causa é atentar contra a autoridade de Deus. Bastante simples e eficaz.  A curiosidade é que em situações de revolução e de rutura dinástica, o novo rei conseguia sempre no final obter o apoio divino. Algo flexíveis estas vontades sagradas.

Outro tipo é a legitimidade revolucionária. Os vencedores de uma insurreição entendem que esse sucesso é mérito suficiente para os manter sentados e colados à cadeira. O problema aqui é o prazo de validade. Se no dia seguinte à revolta é aceitável ver no poder numa junta ad hoc, dois anos mais tarde já será abuso e vinte anos depois é caricato e escandaloso.

Há também a legitimidade da bondade paternalista. O poder infantiliza a população e defende que há todo o interesse em os deixar governar, porque eles são muito bonzinhos e a alternativa representa uma grande ameaça. Às tantas, até comem criancinhas ao pequeno-almoço! Sim, entendo que o Estado Novo era predominantemente desta classe.

Finalmente, existe a legitimidade do terror. O sistema tem enormes poderes arbitrários, mesmo de vida e de morte, sobre a população e qualquer um, por um sim, por um não ou mesmo por um silêncio, pode ver a sua vida descambar. Um bom exemplo é o da China maoista em que o grande timoneiro declarava existirem x% de traidores a executar e os seus comissários deviam cumprir a quota, se não queriam ser eles próprios considerados traidores. Os milhões que passaram e muitos deles ficaram no Gulag estalinista, também não eram todos perigosos ativistas que ameaçavam o poder. Muitos deles apenas ali caiam “para exemplo” e recordar que ninguém estava a salvo… do poder.

04 maio 2026

Arcozelo 1974 : Padre Branco x Fortunas

A minha família nunca foi muito de sacristias. Em 1974 eu ia à missa apenas com a minha mãe, o meu pai passava. Uma boa parte da família alargada costumava assistir à de sábado, ao final da tarde, ficando assim o domingo livre para os picnics na Ria de Aveiro e outras saídas.

Após o 25 de Abril, ocorreu uma sessão de esclarecimento no campo de futebol da freguesia, secretariado pelo meu tio-avô, Adolfo Fortuna, que teve uma breve passagem pelo PS. O pároco da freguesia ouviu numa intervenção algo que não apreciou e pediu a palavra. Aparentemente o meu tio-avô terá registado a solicitação e informou o senhor padre de que iria falar quando chegasse a sua vez, após os anteriormente inscritos. O senhor padre ficou furibundo pela ausência de tratamento prioritário e foi-se embora.

No sábado seguinte, na tal missa do sábado, o pároco aproveitou a homilia para demonstrar a sua ira contra uns certos irmãos, supostamente “fascistas”.  Eu estava lá e recordo-me de, na fila da igreja imediatamente atrás de mim, o meu tio-avô Ilídio Fortuna resmungar a meia voz: Fascista, fascista… fascista é ele!  Na altura, a palavra “fascista” era um depreciativo de largo espetro.

Por canais que ignoro, o assunto chegou a uma rádio, que noticiou a particularidade dessa homilia na paróquia de Arcozelo, Vila Nova de Gaia, libertando grande polémica.

Na missa da manhã do domingo, o senhor Padre resolveu apresentar um “Agarrem-me, senão eu parto”. Anunciou que iria abandonar a paróquia e que agradecessem “a uma certa família”. Gerou-se imediatamente um enorme movimento beático de apoio, “O Padre é nosso, o Padre é nosso”, transformando a missa numa ruidosa manifestação de apoio ...

Como consequência, a família ficou zangada com o sacerdote e o mais interessante para mim foi termos deixado de ir à missa, nem sábado, nem domingo.

Apenas uma pequena história no meio dos inúmeros episódios curiosos que ocorreram no imediato da revolução. Posteriormente as relações acalmaram, como previsível, mas a história é também feita de pequenas histórias.

02 maio 2026

F1 – Febre de ultrapassagem


Depois das duas corridas anuladas pela guerra no Médio Oriente, que assim encontra algumas dificuldades no seu caminho para ser a nova Meca deste caro desporto, a F1 regressa este fim de semana. Após as três primeiras corridas a polémica é grande quanto à razoabilidade das novas regras de gestão da potência elétrica, que provocam alterações abrutas e perigosos na velocidade das máquinas.

Este cenário recorda-me aqueles filmes de competição em que há dois carros par a par numa longa reta e o herói tem a inspiração de encontrar mais uma velocidade e espremer mais o acelerador, afastando-se assim brilhantemente do vilão. É irrealista porque numa corrida a sério, no meio de uma grande reta vão todas as mudanças metidas e o acelerador já a fundo, sem reserva. As ultrapassagens a sério, entre carros de desempenho idêntico são feitas nas trajetórias e travagens nas aproximações às curvas. Ver os exemplos históricos acima de Villeneuve x Arnoux em França 1979 e Piquet x Senna na Hungria 1986 (desculpem a qualidade das imagens, não encontrei melhor).

Hoje, parece que estamos numa realidade próxima dos filmes que eram irrealistas. Com os eletrões a serem libertados quando se quer/pode, qualquer um ultrapassa qualquer um, como quem limpa o coiso a meninos… Dizem que estas medidas de facilitar as ultrapassagens ajudam ao “espetáculo”…. A sério?

Recordo-me de outro episódio também histórico e também com Gilles Villeneuve, desta vez em Espanha 1981. Com um carro mais lento do que a concorrência e uma capacidade de condução muito acima da média, o canadiano aguentou um comboio de quatro carros atrás dele durante mais de 60 voltas, sem um único erro e sem permitir a ultrapassagem. O 5ª terminou a 1,24 segundos do primeiro, tão compacto era o comboio. Com o regulamento atual nem duas voltas o comboio duraria, provavelmente nem se formaria sequer. DRS em cima e ops, ninguém fica atrás de ninguém …

Onde está o espetáculo mais interessante e revelador das qualidades de pilotagem?

28 abril 2026

Os que comem tudo!


Em 1963, José Afonso gravava “Os vampiros”, invetivando aqueles que “Comem tudo e não deixam nada”. Nessa data era óbvio a quem a metáfora se dirigia. Aqueles que o viveram, o sentiram ou hoje pensam sentir, continuam a vibrar com a denúncia dos “Senhores à força, mandadores sem lei”…

Agora, agora, hoje, esses vampiros de 1963 estão bem mortos e enterrados. Haverá o risco do bando voltar, procurando “chupar o sangue fresco da manada”? O risco naturalmente existe sempre, mas, sinceramente, a sua probabilidade de sucesso é bastante limitada para justificar uma dramática mobilização contra esses específicos “pés de veludo”.

Agora, agora, hoje, não haverá por acaso outros tipos de vampiragem que por aí andam a comer tudo …? Mais do que romanticamente vituperar os vampiros de 1963, protagonistas de um contexto que já não existe há décadas, não será mais útil denunciar os parasitas que em 2026 por cá vagueiam impunes e vistosos …?

Atualizado a 06 05 2026 com a publicação no Público



25 abril 2026

A janela que Abril abriu


Em 1974 um sistema triste, retrógrado e sufocante caiu de podre. Não foi preciso muito esforço para ele se desmoronar completamente e a revolução conseguir uma enorme adesão popular. Num meio bafiento e asfixiante foi uma janela que se abriu e dessa abertura esperava-se um desapertar do país para uma realidade mais aberta, livre, justa e próspera (e sem guerra). Havia objetivos largamente consensuais entre a maioria da população simples e claros.

Como expetável o caminho específico e os destinos concretos seriam menos consensuais. Para desempatar essas divergências existe um sistema que é o pior sistema com exceção de todos os outros: a democracia.

Apesar de alguns sustos e ameaças, o 25 de abril cumpriu as expetativas globais e se onde estamos não é o local que muitos ansiaram em 1974, paciência. A janela abriu, ficou aberta, o país foi e será aquilo que os portugueses quiserem. De pouco serve hoje proclamar nostalgias românticas do que não foi e poderia ter sido. Olhemos para a frente, será mais útil e mais construtivo.

22 abril 2026

A tua tortura é pior do que a minha


Por estes dias tem sido notícia e polémica a contabilidade dos presos políticos de antes e depois do 25 de abril. O debate é temperado com argumentos sobre como se integra na comparação a diferença na duração entre 48 anos e 2 anos e em que medida os antecedentes e respetiva tensão acumulada atenuam a importância do fenómeno. São ponderações e contabilidades pueris.

A principal diferença que vejo é que relativamente ao Estado Novo é praticamente consensual terem existido presos políticos, torturas e outras barbaridades, sendo raríssimas as vozes que as desvalorizam ou tentam apagar. Quanto ao pós 25 de Abril, as leituras são muito mais relativizadas. É indiscutível que em 1974-75 houve atropelos graves e sistemáticos ao Estado de Direito e aos Direitos Humanos, devidamente promovidas e validades por altas hierarquias em funções. Não foram esporádicas escaramuças em contexto de excitações revolucionárias. Começaram em setembro de 74, cinco bons meses depois da revolução e não se autoextinguiram por normalização dos seus protagonistas, mas por um contragolpe em novembro de 75.

O facto de terem existido é grave e as tentativas de branqueamento por quem gosta de hastear a bandeira da liberdade e da democracia são imposturas hipócritas. Aqueles que ainda guardam respeito e admiração por figuras como Otelo Saraiva de Carvalho e o seu projeto de encher o Campo Pequeno de contrarrevolucionários, podem manter as suas convicções, não serão presos. Agora, assumam que não são democratas nem defensores da liberdade. Os do outro lado são mais claros nas suas opções e intenções. Procurar comparar as conta-correntes de Salazar e de Otelo é de interesse secundário. O mais importante é assumir que existiram e não devem voltar a existir.

20 abril 2026

Y Viva España


Vejo nas notícias em Portugal que o nosso Presidente da República está em visita oficial a Espanha, encontrando-se com o Primeiro-Ministro e o Rei. É a sua primeira viagem oficial ao estrangeiro.

Vou espreitar os jornais “hermanos” que acompanho, El País e El Mundo, deste até tenho assinatura, e na página principal nem sinais de AJ Seguro. Resolvo fazer uma pesquisa à palavra “Portugal” e os resultados são os da imagem. Incrível! Dois dos principais media espanhóis ignoram absolutamente a visita (a menos que esteja tão escondido que não vi).

De uma forma geral, Portugal é notícia em Espanha em três situações.

  • a)       Quando aqui ocorre uma desgraça
  • b)       Quando aqui ocorre algo de embaraçoso/vergonhoso
  • c)       Quando lá ocorre algo de embaraçoso/vergonhoso, em Espanha, e eles resolvem autoflagelarem-se dizendo: Vejam que até Portugal consegue fazer melhor do que nós

Curioso… e representativo

19 abril 2026

O exemplo vem de cima


Ouvimos e reouvimos apelos e anúncios do Governo, clamando pela redução da sinistralidade rodoviária, incluindo agravamento das penalidades para os infratores. Não podemos deixar de recordar a imagem do Primeiro-Ministro, apresentando-se em filme publicitário sem cinto de segurança. Um pequeno detalhe, mas que vale bastante.

O à-vontade demonstrado evidencia ser um hábito. Quem tem o costume consolidado de colocar o cinto, estranha instintivamente a sensação de se deslocar sem aquela amarra. Especialmente ao produzir um filme que será publicado, é sintomático esse reflexo não ter atuado. Temos, assim, um PM para quem as leis da estrada são dispensáveis? Já o tínhamos sabido relativamente aos (não) limites de velocidade que se costumam aplicar à casta governante.

Se o ridículo era grande, Miguel Guimarães conseguiu ainda aumentá-lo, ao tentar explicar e desculpar, argumentando que o veículo estaria meio parado. Recomendo-lhe fortemente uma consulta urgente a um seu colega oftalmologista. A menos que o conceito de “meio parado” fosse que a parte esquerda do veículo, onde estava Montenegro e o motorista, estivesse em movimento e a parte direita eventualmente parada. Algo um pouco irrealista e inviável, é certo, mas como já estamos habituados a “histórias da carochinha”…

17 abril 2026

José Luís Tinoco


Alguém se recorda da canção que venceu o Festival da Canção há 5 anos? Ou o de há 10…?

No entanto, todos ou quase todos se recordarão daquela que ficou em terceiro lugar há 50 anos, em 1976. Termina assim:

No teu poema

Existe a esperança acesa atrás do muro

Existe tudo o mais que ainda me escapa

E um verso em branco à espera do futuro

E a primeira voz pela qual a ouvimos era a de Carlos do Carmo

Sim, era de uma época em que as canções tinham letras, melodias e interpretações que venciam o tempo.

Esta semana deixou-nos o seu autor, José Luís Tinoco, mas também nos deixou belas obras, que jamais esqueceremos!

(No teu Poema)

Existe um rio

A sina de quem nasce fraco ou forte

O risco, a raiva e a luta de quem cai

Ou que resiste

Que vence ou adormece antes da morte

16 abril 2026

À antiga…


Numa fase em que é consensual que os partidos habituais do poder precisam de mudar de vida e de hábitos, para limitar o crescimento dos populismos e extremismos perigosos e prejudiciais, vimos duas notícias interessantes.

A indicação pelo PS de Tiago Antunes para Provedor de Justiça. Este senhor aparentemente terá tido um pseudónimo Miguel Abrantes, cuja missão no blogue Câmara Corporativa era defender com unhas e dentes um tal suposto engenheiro, efetivo primeiro-ministro, José Sócrates.

A outra é a indicação pelo PSD de António Preto para o Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais. Este senhor recebeu a alcunha de “homem da mala”. Não foi efetivamente condenado, mas, entre outros episódios, receber 150 mil euros em líquido, seja em malas, seja noutro recipiente, não faz parte das práticas habituais dos cidadãos de boas práticas.

Continuem com nomeações limitadas a fiéis militantes, independentemente do seu currículo e cadastro, continuem a clamar pela defesa dos valores democráticos e depois verão o que a democracia vos irá trazer.

15 abril 2026

Em modo diversão


Como eu dizia aqui atrás quando falava de cavalo à solta, a bicicleta elétrica poder ter três modos de funcionamento, exercício, passeio ou diversão.

Este é um exemplo do modo diversão, no monte de S. Lourenço ali entre Palmeira de Faro, Vila Chã e Belinho. Acho que a música combina bem em ritmo e em tempo!

Está aqui.

 

14 abril 2026

TGV – Santo Ovídio


Sei que não estamos na altura de discutir este assunto, mas relativamente à estação TGV planeada para Gaia, se, em vez de Santo Ovídio ou Vilar do Paraíso, ela não existisse de todo?

Um TGV vale pela rapidez da viagem e as suas paragens devem ser muito limitadas. Fará sentido existir uma segunda paragem a cerca de 5km de Campanhã, num contexto completamente coberto por transportes públicos, incluindo metro? Indo aos exemplos de fora, em Paris, na saída para sudoeste, Nantes e Bordéus, a primeira possível paragem dos TGVs é em Massy, a mais de 15 km. Na saída para sul, para Lyon, a maior parte das circulações são diretas, algumas eventualmente parando no aeroporto de Lyon, também a mais de 15 km da estação do centro da cidade.

Com este critério, a paragem Porto-Sul do TGV ficaria para os lados de Espinho… O argumento de que as estações fora dos centros não funcionam, aplica-se certamente às que nascem entre beterrabas, pretendendo servir uma cidade 20 km acima e outra 30 km abaixo. Não é o caso da malha urbana em causa.

Uma estação em Gaia não será feita para servir os moradores da sua Avenida da República. Esses, que são poucos para a justificar, até têm linha de metro para irem até Campanhã. Os outros virão do Sul e, mesmo excluindo os egoístas que querem chegar em viatura própria, muitos precisarão de aceder por meio rodoviário, seja táxi, TVDE ou autocarro. Para esses, Santo Ovídio já é um calvário e pior ficará.

Sem questionar o trabalho e a competência da APA, uma decisão desta natureza não deveria estar dependente da sua palavra final. Na minha opinião, se não hã alternativa a Santo Ovídio, esganada à superfície e entalada na profundidade, mais vale não fazer.

12 abril 2026

Nem maçom, nem sacristão


Desde muito cedo tive a certeza de que nunca seria sacristão. Não por ter grandes desalinhamentos de princípio com o Nazareno, descontando, é certo, os seus excessos apocalípticos. Houve e haverá cristãos, pessoas fantásticas, de enorme valor humano e intelectual, mas a instituição Igreja sempre me cheirou demasiado a uma certa hipocrisia bolorenta. Que me perdoem os crentes sinceros e bem-intencionados, mas o perfume que me chega às narinas não é coisa que me entusiasme.

Escalas e contextos à parte, a instituição abriga também alguns pequenos Torquemadas, símbolos de intransigência e obscurantismo, de quem se agradece distância.

Quanto à maçonaria, o paralelo é grande (ó Diabo...!). Efetivamente, é difícil discordar dos princípios da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, mas quanto às práticas da organização, a incoerência é grande. Como o posso saber, quando a sua atividade é secreta (ou discreta, para quem gosta de eufemismos)? Que conheço eu de concreto, que me permita fazer tal afirmação? É simples. Precisamente por não conhecer nada de concreto e público por eles realizado na atualidade. Para quem defende convictamente uns princípios e um projeto, qual a razão de o fazer às escondidas? Diz-se que” Quem não deve, não teme”; eu acrescento que “Quem não teme, não se esconde”.

Existirão ainda por aquelas bandas uns pequenos Robespierres, companhias muito pouco recomendáveis para quem valoriza pluralismo e liberdade e de quem se agradece distância.

Outro ponto comum é existirem nas duas instituições aderentes motivados não pelos princípios e convicções, mas pelo oportunismo de apanharem boleia para locais protegidos, de acesso discretamente privilegiado para membros. Nestes casos passamos da discordância para a repugnância.

A todos aqueles que se eclipsaram ou que o poderão fazer por estas minhas afirmações e opções, apenas posso dizer: Fiquem com as vossas grilhetas, que eu não prescindo da minha liberdade. Nunca mendiguei apadrinhamentos e nunca valorizei ninguém que não fosse pelo mérito e competência. E tenho um estomago delicado…

Infelizmente o prejuízo não acaba aqui, individualmente … o sucesso e a prosperidades “universais” dependem, indiscutivelmente, de outros valores.

08 abril 2026

Comical Trump


Durante a invasão do Iraque em 2003, Mohammed Saeed al-Sahhaf, na altura Ministro da Informação de Saddam Hussein, ficou famoso por relatar na televisão evoluções da guerra que só ele via, conforme os seus desejos e completamente opostas à realidade em curso. Uma das alcunhas irónicas que recebeu foi Comical Ali.

Por estes lidos temos ouvido outro cómico falar de conversações de paz, mudanças de regime no Irão e outros “factos” que também apenas ele “vê”. Tem algum paralelo.

É difícil não concordar com a necessidade de impedir o acesso do Irão à bomba atómica, seria salutar uma mudança de regime (para melhor) e silenciar os terroristas do Hezbollah e outros afilhados… No entanto, antes de mexer num vespeiro, convém tomar as necessárias precauções. Uma delas, seria, por exemplo, garantir a segurança do estreito do Ormuz, que está em via de se tornar uma das portagens mais caras do mundo!

Um regime como o iraniano não cai apenas por lhe decapitar algumas lideranças, mas Trump parece ter entrado numa fase de arrogância e prepotência que exclui toda e qualquer opinião diferente da sua, o que costuma dar asneira.

 Esta guerra, a continuar assim, não vai terminar rapidamente e a desproporção de custos entre um drone e o missel que o intercepta é tal, que o tempo corre a favor do Irão. Também não será com bombardeamentos contínuos e com ameaças boçais e brutais contra toda a população que ela receberá estes “salvadores” de braços abertos.

Se o objetivo era ter em Teerão um regime mais tolerante e comprometido com uma certa ordem internacional, talvez tivesse sido boa ideia não ter cortado as pontes em 2018, quando o mesmo Trump decidiu matar o acordo, bom ou mau, mas um acordo, em curso. 

04 abril 2026

As Constituições


Estamos a celebrar os 50 anos da Constituição da República Portuguesa de 1976, tratada como se fosse “A Constituição”. Não é bem assim. Para começar, todo o processo da sua redação foi extremamente delicado e condicionado pela tutela militar e por forças minoritárias, não democráticas. Foi um exercício de equilíbrio delicado e resultou num texto que, apesar de vários pontos notáveis e positivos, não agradava completamente a ninguém. Teve o mérito de ter sido concluído e apontar um caminho.

Apenas com a revisão de 1982 foi consolidado o regime democrático e plural, entre outras medidas com a extinção do Conselho da Revolução e liberalização da economia. Felizmente ficou irreversível, apesar de todo a deceção da esquerda comunista.

Permanece no preâmbulo, é certo, a missão de “abrir caminho para uma sociedade socialista”, felizmente mais como curiosidade caricatural do que como letra de lei. Se assim não fosse, teríamos o TC a vetar todas as medidas legislativas que não fossem no sentido de caminhar para o socialismo!

Apesar disto, a revisão constitucional (e exatamente de quê) é uma necessidade do regime? É ela que nos impede de ver o país a funcionar eficazmente e com prosperidade? Penso que não. Há muitas oportunidades de melhoria nas atitudes e nas ações de quem nos governa largamente prioritárias. Discutir uma revisão agora é manobra de diversão… e há quem goste.

31 março 2026

A China e eu - Terceiro ato


Pelos anos de 2018 e 2019 desloquei-me várias vezes à China, percorrendo uma dúzia de cidades, grandes fábricas, utilizando aviões, TGV’s e estradas.

De Sul a Norte, desde Hangzou até Jilin na Manchúria, já próximo da Coreia do Norte, uma nota para a eficiência. De uma forma geral, as coisas funcionavam bem e a horas. As fábricas, os hotéis, os restaurantes, os meios de transporte, funcionavam. A internet tecnologicamente sim, os conteúdos é que estavam limitados, nada de Facebook, Blogger, Youtube, Googles e outras impurezas.

Um sentimento de muita coisa nova. Até passei ao lado de uma central de carvão novinha em folha – poderíamos para lá ter despachado a do Pego, que não sendo nova, ainda tinha muitos anos de vida. Surpreendente também a quantidade de câmaras de vigilância aos cachos em cada poste, canto e esquina… além das outras vigilâncias, menos visíveis.

Por vezes tudo novo de mais. Entrar numa cidade por uma grande avenida, entre enormes edifícios, e sair pela mesma avenida, sem entender quando teríamos atravessado o centro da localidade. Outro aspeto curioso sobre as interações sociais. Para lá da camada de chineses habituados a contactos regulares com o exterior, com os restantes locais, era terrível. A questão não residia apenas na barreira linguística. Mesmo sem trocar uma palavra é possível comunicar e interagir com outros seres humanos. Ali não era fácil…

As minhas viagens não eram turísticas e apenas pude dar um salto ou dois a algumas curiosidades nos intervalos do programa. A Cidade (outrora) Proibida, em Pequim, o lago e os pagodes de Hangzhou e a cosmopolita Xangai. Com as devidas reservas pelas limitações do âmbito das viagens, não consegui encontrar a pujança e a herança cultural esperadas de um país outrora tão rico e evoluído… Como se o desenvolvimento evidente tivesse soterrado esses vestígios.

Parece que a chamada “Revolução Cultural” dos anos 60 ajudou bastante a esse apagamento e não só na dimensão material. Se há quem considere que a ditadura do Estado Novo moldou e condicionou as mentalidades por estas bandas, como José Gil gosta de afirmar, a repressão e o terror maoísta terão dado direito a amputações mentais e aniquilamentos culturais completos.   

Numa altura em Pequim, de uma janela do escritório onde estava, vi meia-dúzia de pessoas num cruzamento ao fundo e disse ironicamente ao nosso contacto chinês: “Olha, está uma manifestação a decorrer ali!”. Ele saltou da cadeira estupefacto para verificar. Se lhe tivesse dito que um Ovni tinha aterrado na cidade, a surpresa não seria provavelmente maior…

Durante o século XIX, muito debilitada e pobre, a China sofreu enormes humilhações às mãos do Japão e das potencias ocidentais. Certo que em parte devido a uma grande dificuldade em evoluir e jogar o jogo do poder como o mundo na altura jogava. A “reconquista” da unidade (esqueçamos Taiwan) foi uma grande façanha política e militar, inicialmente muito ajudada pela URSS e tirando partido da sofreguidão de poder e falta de escrúpulos de Mao. Mais tarde foi a vez dos EUA (Nixon e Kissinger) ajudarem. O crescimento da China era um contrapeso para diminuir a influência soviética no mundo.

Pode-se entender que persista um registo traumático desses tempos e uma hipersensibilidade quanto a tudo o que possa pôr em causa a unificação, soberania e riqueza conseguidas, mas…

O espartilho que o “partido” aplica aos seus cidadãos é sustentável? Quando as evoluções não ocorrem gradualmente, há o risco de chegarem mais tarde brutalmente. A China evolui materialmente, sim, mutuíssimo. Essa riqueza material chega para as expetativas dos seus cidadãos?

Uma coisa é certa, já deixei demonstrado que tenho dificuldade em conseguir entender e prever o que por lá se passa ou passará...



30 março 2026

O valor do irmão Isaltino

Quando foi acusado e julgado Isaltino Morais era maçom. Naturalmente que a organização não pode ser responsabilizada por todos os desvarios dos seus membros. Diz-se que, no passado, houve até anjos caídos em tentação, se bem que Isaltino nunca teve muita pinta de anjolas.

O curioso é que após a sua libertação, após descontos e benesses várias que aligeiram a conta, ele terá sido rapidamente reintegrado na organização e reassumido funções de liderança. Conta Catarina Guerreiro no livro “O Fim dos Segredos” que esse processo até foi mais discreto do que o habitual nos padrões da organização, dado que muitos maçons se opunham à rapidez do processo.

Como dizem alguns, “Vá-mo-lá-ver…”. Se o senhor foi passar uma temporada à Carregueira por alguns enviesamentos no seu património material, que existirá na sua riqueza intelectual e filosófica para justificar os fraternais braços abertos maçónicos…?

A sua popularidade e aceitação na mui instruída Oeiras ficará por um genérico “Roubo, mas faço” ou algo mais específico como “mas faço obeliscos e triângulos…”? Não sei, mas pagava para saber…

“Diz-me com que andas…. “ e depois não se queixem de que têm uma má imagem.


28 março 2026

E por vezes…


Não sou grande apreciador de estórias com largas centenas de páginas. Não necessariamente pelo tempo de leitura, mas porque, frequentemente, entram em registos do género “um rio e para cá do rio havia campos com flores assim, para lá do rio viam-se árvores com folhas assado”, “e havia uma casa com uma porta… e ao lado da porta janelas, e por cima das janelas um beiral…”. Muita descrição que, na minha opinião, pouco acrescenta à emoção e até muitas vezes com leituras datadas. Um eucalipto há cem anos seria visto de forma diferente de hoje…

Por isso, gosto bastante de contos, bem escritos. Um destes dias fui à procura de um livro de contos de um dos mais musicais escritores portugueses, David Mourão Ferreira. A antologia poética, representada acima, é um dos melhores livros de poesia que me passou pelas mãos. Quando numa simples página se vê escrito:

“Olhar de frente o Sol Assim se aprendem as letras iniciais da Solidão”

Entende-se que o senhor sabe usar a caneta, sem necessitar de muitos litros de tinta para o demonstrar. Sobre a musicalidade das palavras, sugiro o “E por vezes” pela Cristina Branco, ou ir um pouco mais longe à Amália.

Quando procurava então o livro de contos deste senhor, “Gaivotas em Terra”, não o encontrei na minha biblioteca. Tinha quase a certeza de o ter e até uma ténue recordação do aspeto da capa. Tê-lo-ei emprestado… ? Nada feito, obra não encontrada e encomendei nova edição, com papel rejuvenescido de algumas décadas. Os anos não lhe pesam e demonstram que não são necessários quilos de papel e litros de tinta para provocar fortes emoções. Especialmente os dois primeiros contos, “Tal e Qual” e “E Aos Costumes Disse Nada” são uma delícia de leitura. O segundo foi adaptado ao cinema por José Fonseca e Costa, como título de Sem Sombra de Pecado, com um elenco de luxo, incluindo Mário Viegas. A ver e a rever…

David Mourão Ferreira é sinónimo de sensibilidade e elegância (ponto final). 

26 março 2026

É trabalho, dizem


Isaltino Morais volta às notícias pelo tema das despesas em restaurantes por conta da autarquia, incluindo mariscos, tabaco e vinhos caros. Diz o autarca que está tudo certo, presumindo-se que as faturas terão o número de contribuinte correto e o IVA adequado. Acrescenta tratar-se de “almoços de trabalho”. Para lá dos valores e da natureza de alguns consumos, fica uma questão. É normal que uma equipa que tem naturalmente gabinetes, salas de reuniões e demais equipamentos na sede da autarquia, precise de ir para os restaurantes “trabalhar”… ? Sem terem pratos, talheres, guardanapos e copos de bom vinho à frente não conseguem ser produtivos?!

Provavelmente não será particularidade única de Oeiras, mas este conceito de “trabalho” é deveras curiosa... e inquietante.

25 março 2026

Pactos entre partidos


Acho muito curioso que na polémica relativamente à nomeação dos juízes para o Tribunal Constitucional, o PS reivindique a existência de um pacto histórico entre eles o PSD, datado de 1982, que deve ser respeitado. Portanto, há 4 décadas os líderes dos dois maiores partidos combinaram umas coisas e isso deve permanecer com “força de lei” ad aeternum. Já agora, ninguém se lembrou de invocar a validade do pacto MFA-partidos de 1975, que até foi muito mais formal? Certamente que não porque, felizmente, o mundo em que vivemos é muito diferente do de 1975.

Não tenho nenhuma simpatia pelo Chega e, pelo contrário, muitas dúvidas sobre a qualidade de muitos dos seus quadros, mas também não posso ver os dois partidos tradicionalmente maioritários a beneficiar de prerrogativas e “direitos” perenes sobre instituições do Estado, imunes à evolução do respetivo peso eleitoral. Isso sim, constituiria um grave atentado aos princípios democráticos, que teoricamente tanto prezam e defendem.

23 março 2026

A China e eu - Segundo ato


Corria o ano de 2013 e eu estava responsável por um projeto de irrigação em Marrocos, onde algumas válvulas hidráulicas tinham sido compradas na China, com o contrato a obrigar a realização de testes de receção das mesmas em fábrica.

Fui com uma comitiva do cliente até Xiamen, a cidade mesmo em frente da ilha de Taiwan. Uns quilómetros para o interior encontrava-se a respetiva ZEE, “Zona Económica Exclusiva”, uma das que constituíram os embriões da fábrica do mundo.

Zonas industriais com largas avenidas, aparentemente tudo muito bem estruturado e com impressionante dimensão. Uma curiosidade, em cada fábrica existia um edifício residencial onde se instalavam os respetivos operários, muitos deles com origens rurais longínquas. Podiam ir a “casa” uma vez por ano e lá permanecer por uma dúzia de dias, após comboios, autocarros e até outros meios de transporte. Obviamente que nada mais havendo a fazer, trabalhavam nos fins de semana, sempre dava mais uns trocos. Entendi que uma boa parte deles nunca poderia instalar-se familiarmente na zona do seu trabalho. É melhor para eles e para a família do que passarem por grandes privações, mas a prazo, o que aconteceria? A “fábrica do mundo” iria funcionar com imigrantes internos permanentemente afastados das famílias?

Durante os testes, ficamos alojados num enorme hotel, frio, na margem de uma estrada, sem mais nada. Eramos lá despejados pelos chineses ao final dia, cerca das 17h, íamos para uma sala para jantar, eles encomendavam os diferentes pratos e partiam. Lá ficávamos a trincar as coisas colocadas sobre a mesa, os marroquinos mais limitados pelas suas dúvidas quanto à compatibilidade religiosa das “iguarias” apresentadas …

Sobre o contacto com o local, uma visita ao templo budista Hongshan, já na cidade de Xiamen, antes de regressar, e à interessante e belíssima ilha de Gulangyu, uma sobrevivente da mistura de culturas e arquiteturas. Dois bons exemplos de uma China historicamente rica.



21 março 2026

Haja festa


 

Gosto de ver iluminações de Natal, penso que quase toda a gente gosta, e seria muito triste se um politicamente correto qualquer ou uma modernice cultural inventada viessem um dia cancelar as mesmas. Ao mesmo tempo, os milhares de euros de orçamento anunciados para a sua realização intrigam. Não seria possível fazer a coisa por menos, libertando fundos para outros desenvolvimentos sociais e culturais mais prementes e permanentes?

O que se vai sabendo da operação Lumen, envolvendo a Câmara de Lisboa e não só, vem demonstrar que nem todos os euros saíram por um bom caminho. É típico, quando os orçamentos púbicos são grandes aparecerem frequentemente fugas nos circuitos.

Estes descontrolos e falta de rigor (no mínimo) lançam questões adicionais sobre os critérios em vigor nos orçamentos e programas ditos culturais das autarquias. Aquelas produções caras de espetáculos de Verão em cada canto e esquina fazem sentido? Certo ser mais fácil mobilizar e agradar às massas com pimbas e popularices do que com certas produções “contemporâneas” elitistas e difíceis de tragar, mas não haverá alternativa? Deve haver e tem que existir. A opção pela festa fácil e cara não acrescenta grande coisa ao desenvolvimento social cultural do país, sendo que o cultural não precisa de ser árido nem o entretenimento ligeiro e inconsequente.

20 março 2026

A China e eu – Primeiro ato


O meu primeiro contacto com a China foi indireto. Corria o ano de 1996 e eu estava responsável pela realização de um projeto muito específico em Hong Kong, uma caixa-forte, a lembrar a do tio Patinhas, mas automatizada, destinada a armazenar e distribuir notas de banco. Apesar de HK estar ainda sob tutela britânica, o dono da obra era da China continental, concretamente o Bank of China (BOC), uma das três entidades emissoras da moeda local. A mistura de normas inglesas com práticas asiáticas proporcionava um ambiente muito particular.

Durante a fase de especificação funcional detalhada encontramos um problema. Para cada lista de questões enviadas por escrito, as respostas recebidas pouco esclareciam e, pelo contrário, acrescentavam novas dúvidas. A solução foi fazer as malas e apanhar um avião para lá, com o Pedro, que era o homem daquela especialidade.

A aterragem do 747 no antigo aeroporto de Kai Tak foi memorável. Aproxima-se e desce em curva. Vamos vendo os arranha-céus ao nível das asas. Quando desfaz a curva e endireita, as rodas estão a tocar a pista. Impressionante.

O fluxo de pessoas no metro é incrível. Não há espaço para gentilezas do tipo “depois de si”. Quem quiser ser gentil fica lá o dia inteiro a dar passagem aos outros. Gravou-se-me a imagem de uma porta de carruagem a abrir e ver uma muralha de troncos, ombro contra ombro, em força, a ver quem saia primeiro.

Na estação central é importante estar bem atento para usar a saída que nos serve. Depois de estar cá fora, ficamos afogados em gente e submergidos por arranha-céus, não sendo fácil (re)orientarmo-nos.

Logo no início das reuniões, o primeiro choque cultural. Nós estamos habituados a começar por um esboço das grandes linhas e depois ir descendo para detalhes, zona a zona. Não era o reflexo local, onde facilmente se dedicavam a começar por discutir pequenos detalhes. Um pouco como se se principiasse a conceber um automóvel pelo pormenor dos parafusos de fixação da placa de matrícula. Esta parte foi fácil de corrigir.

Começada a discussão, o trabalho parecia avançar rapidamente, face às expetativas iniciais. O problema surgiu umas horas mais tarde, quando, por acaso, uma afirmação veio contradizer uma resposta anterior, fundamental, e de forma completamente incompatível. Havia dois problemas. Um, a dúvida sobre o que realmente se pretendia, outro é que, conforme nos informaram previamente, os chineses não gostam de perder a face e daí ser delicado confrontá-los com um “erro”.

A solução passou por: dizem-nos que deve ser branco, ótimo, mas de manhã tinham dito preto. São duas excelentes cores, certo, mas nós temos dificuldade em fazer algo simultaneamente branco e preto! Podem ajudar-nos a ultrapassar este problema?

A partir desse momento, cada pergunta era seguida de contra pergunta, para validação e verificação da eventual necessidade de “ajuda”.

Numa fase posterior, durante os trabalhos, mais uma surpresa com a aparente ligeireza no planeamento e tolerância para descoordenações. Nos nossos hábitos tínhamos o cuidado de programar as tarefas na sequência necessária para otimizar a utilização de recursos. Ali era andar para a frente e, se um trabalho era feito cedo de mais, obrigando a refazê-lo mais tarde, paciência…

Fisicamente o meu contacto com a China propriamente dita, passou por introduzir uma mão entre as grades da porta do Cerco em Macau, que assim, solitariamente, “foi à China”.

No final deste processo fiquei com a convicção que, dadas as diferenças constatadas, apesar da abundância de recursos, os chineses andariam sempre um passo em atraso relativamente ao “nosso” mundo. Se calhar enganei-me… ou eles mudaram.

Nota de atualidade. O que mudou e muito significativamente em Hong Kong, após a transição da tutela para a China e contrariamente ao acordado, foi a liberdade.

19 março 2026

A vingança do grão


Ao receber o último número da revista de fotografia “Competence Photo”, deparei-me com um editorial, o título acima, e que assim começa (e que uma IA traduziu…):

Há algo de paradoxal no estado atual da fotografia. Nunca antes os sensores foram tão precisos, nunca antes a gestão de ruído digital foi tão impressionante, nunca antes o autofoco foi tão infalível. Os fabricantes competem entre si para produzir imagens cada vez mais nítidas, cada vez mais limpas, cada vez mais fiéis ao que o olho percebe — ou melhor, ao que deveria perceber, segundo uma certa ideia de perfeição óptica. E, no entanto, em todo o lado, observamos o mesmo movimento inverso: fotógrafos a adicionar grão, a procurar lentes vintage com as suas aberrações deliberadas, a desempoeirar os seus filmes Kodak Portra ou a usar presets para simular precisamente o que as suas câmaras se esforçam por eliminar.

Poderíamos ver isto como mera nostalgia, apenas mais uma tendência retro numa era que as adora. Mas isso seria demasiado simplista. O que está aqui em causa é mais profundo: uma resistência à perfeição fria, uma forma de reintroduzir um traço de fragilidade humana na imagem. Granulação, vinheta, ligeiro desfoque de movimento já não são defeitos a corrigir — tornaram-se assinaturas, prova de que por detrás da objectiva estava alguém, com as suas hesitações, as suas limitações, o seu ponto de vista.

É um excelente tema de reflexão. A partir de certo ponto, demasiado perfeito e esterilizado torna-se desumano (bem se costuma dizer que errar é humano). Uma imagem fortemente desfocada pode ser muito “característica”, denunciadora de uma assinatura forte, mas até que ponto funciona, isto é, é apreciada e desperta algo em quem a vê?

Se eu ao escrever um texto eu deixar uma virgula fora do sítio, isso será prova da minha falibilidade e de que o mesmo não é uma produção sintaticamente perfeita de um Chatgpt (já agora, não aproveitem para pedir ao mesmo, faz-me um texto com uns erritos ligeiros, para a coisa parecer humana).

A imagem acima é de 2013 e na altura a pequena Olympus ZX-1 de viagem, já incluía dentro dos filtros, a que em geral pouco ligava, esta opção de “grain film”, simulando fotos antigas analógicas, com resultado interessante.

Em resumo, a técnica resolve problemas técnicos, que são uma parte e uma ferramenta da criação. Se a técnica deixa de ser um desafio, mais espaço haverá para explorar o outro desafio, o da criatividade. Se essa criatividade passa pela imperfeição, certo, ma non troppo.

Já agora, para não haver confusões, falamos do registo de imagens existentes e não das inventadas (especuladas). A partir da imagem de alguém num funeral, fazê-la “evoluir” para colocar a pessoa a sorrir, pode ser divertido de ver, mas é outro contexto que, confesso, a mim, pouco me atrai.

18 março 2026

Um (outro?) Médio-Oriente

Médio-Oriente é uma designação geográfica historicamente associada a instabilidade e a guerras crónicas. Inclui Israel, comparado com os vizinhos um corpo estranho em termos de organização do país, valores sociais, prosperidade e outras coisas mais… e os outros todos seriam os “árabes”. Olhando um pouco mais atentamente, fomos vendo crescer umas diferenças entre os chamados países do Golfo, os ricos, e as imagens mais tradicionais da região.

Começando pelos Emiratos, especialmente o Dubai e passando pelos sauditas e pelo Qatar, foram nascendo urbes vistosas, luxuosas, procurando projetar uma imagem deslumbrante de modernidade. Não temos conta de quanto investiram em imobiliário faustoso, eventos sociais e desportivos de todo o tipo, sempre em prol da construção de uma “nova imagem”. O alvo vai para lá dos habitantes naturais. O objetivo era atrair atenções, para fundos e figuras se instalarem e desfrutarem de um novo e sofisticado paraíso terrestre.

A guerra com a Irão, e a resposta deste, veio demonstrar amargamente que aquela margem do golfo Pérsico continua a pertencer a uma região alérgica a paraísos. Cada míssil ou drone iraniano que explode está a provocar danos e prejuízos patrimoniais brutais, largamente superiores ao custo dos muros derrubados e dos vidros partidos.

Os petrodólares investidos, assim como as outras divisas que lá entraram deverão estar numa angústia enorme. Como se podem salvar, com aqueles vizinhos imprevisíveis e belicosos do outro lado do golfo. O dinheiro manda muito e palpita-me que uma guerra financeira deve estar a decorrer em paralelo.

Certo que se não houvesse intervenção dos EUA e de Israel, nada disto teria acontecido… agora. Mesmo que esta guerra acabe, agora, as sequelas e as incertezas serão esquecidas? O Irão acaba de dar uma machadada valente no valor dos projetos desenvolvidos durante décadas com custos exorbitantes. Afinal, estamos no Médio-Oriente… Será um dia esta expressão sinónimo de algo diferente? Não sei…

Nota adicional em 19/03. No Qatar e nos Emiratos foi decretado ser crime filmar imagens dos ataques. Neste momento já se contam por centenas os criminosos no Qatar e dezenas nos UAE. Questões de segurança... financeira!

15 março 2026

E depois da guerra?


Criticar a intervenção militar no Irão com base no atropelo ao Direito Internacional é algo que fica entre o ingénuo e o manipulador. Se, por exemplo, a Andaluzia estivesse governada por um Estado Islâmico, este a desenvolver misseis e armas nucleares com o objetivo público e assumido de arrasar Lisboa, nós teríamos continuado década após década calmamente apelando ao tal Direito Internacional, quando este nada faz? Não teríamos legitimidade de facto para rebentar com as instalações militares? Seria guerra, sim, seria guerra.

Certo que a forma como o regime iraniano trata os opositores cai fora do respeito pelos Direitos Humanos, mas se fossemos bombardear todas as ditaduras atrozes, a lista seria longa e os resultados pouco garantidos.

A situação atual inclui um atestado de nulo valor e clara incompetência da ONU. Lidar com um Trump não será fácil, mas entregar esse trabalho a um Guterres, tem resultado garantido, sendo que, mesmo com um presidente dos EUA menos atípico, não seria expetável muita dinâmica e liderança construtiva da parte dete secretário-geral.

Se a morte de Khamenei não foi chorada por muita gente, e até celebrada, como reagirá a população aos contínuos bombardeamentos, mesmo se apenas sobre instalações do regime? O regime mostrou ser suficientemente sólido para sobreviver a uma decapitação, mas se cair, o que virá depois? Que plano existe para esse dia seguinte? Experiências recentes estão fartas de demonstrar que muito mais difícil do que ganhar a guerra pode ser ganhar a paz.

11 março 2026

SNS pobre ou rico


Somos um país tradicionalmente pobre e estamos culturalmente habituados a que quando algo falha ou falta, a culpa ir cair num lamento de “a manta é curta”, em jeito de fatalidade.

Daí que quando surge numa necessidade absolutamente premente ou uma falta inaceitável, a reação frequente seja “é preciso gastar mais dinheiro”. Sem ovos não há omeletes, mas não é por encharcar a frigideira com ovos que o resultado vai ser o pretendido. Sem critério nem controlo será desperdício.

Noutras situações, em vez de fazer funcionar eficazmente as instituições existentes, enxerta-se uma “nova coisa” que, essa sim, vai resolver…

O SNS no nosso país, parte das necessidades de primeira linha da população, parece encaixar neste panorama. Se o problema é falta de dinheiro, aumenta-se o orçamento, mas 72% de aumento da despesa entre 2015 e 2024 não parecem ter correspondência proporcional nos serviços prestados. O problema está na gestão e coordenação? Cria-se uma “Direção Executiva”, que até operou sem estatutos nem definição clara de competências por um “breve” período de um ano e meio. O escândalo na dermatologia do Santa Maria demonstra existir falta de controlo? Cria-se uma comissão de combate à fraude. Como vai funcionar? A função antes não existia?

O recente processo de “decisão” da criação do novo centro de cirurgia cardiotorácica no Hospital de Santo António é mais um exemplo. O Hospital quis, secretários de Estado despacharam e alguém pagará. Onde ficou a coordenação e o planeamento? Onde esteve a famosa Direção Executiva? Se não intervém em decisões desta natureza, para que serve?

Entretanto, a administração desse mesmo hospital irá ser julgada no Tribunal de Contas por irregularidades na contratação de serviços e isso não parece incomodar muita gente. Quando haverá efetiva responsabilização de tantos danos à tal manta, curta, que é de nós todos, sob o manto das necessidades de saúde da população?

10 março 2026

O fim dos segredos

É o anunciado na capa do livro, mas como já passaram uma dezena de anos desde a sua publicação, certamente que novos segredos ter-se-ão, entretanto, acrescentado.

Trata-se de um tema que me interessa por várias razões e mais uma. Por que raio as pessoas se associam em “caixinhas” para secretamente combinarem e planearem ações que potencialmente podem influenciar toda a sociedade? Num mundo livre, como o nosso, no mínimo é deselegante.

Este livro visita em várias dimensões as duas organizações mais relevantes desse campeonato e várias diferenças entre as duas ficam evidentes, para lá daquele contraste típico do esquerda-direita, religioso-laico e outros binómios tradicionais que tais.

O Opus Dei parece ser muito mais organizado e centralizado, tendo alguns aspetos que me custa muito a aceitar. Para começar, a idade com que começam a recrutar os jovens e a falta de liberdade imposta aos membros. Seja intelectual (a que Diabo lembrará proibir a leitura de uma boa parte de Eça de Queiroz!?), seja económica, especialmente dos numerários, com a entrega integral do seu vencimento à organização, além de a fazerem beneficiária do seu testamento. O estatuto das numerárias-auxiliares que prestam serviços domésticos na organização “gratuitamente” é indigno e bem capaz até de ser ilegal em termos de direitos do trabalho (para não falar de humanos). Castigos corporais impostos e obrigatórios também não pertencem a estes tempos em geral nem à doutrina cristã em particular.

Tem, no entanto, o OD objetivos claros, anunciados e praticados. Concordando ou criticando, entende-se ao que vêm. Na maçonaria é bastante mais vago. Certo que historicamente, há um século atrás, eles diziam ao que vinham e “lutavam” abertamente por isso, mesmo com armas e milícias, mas hoje não é claro. Têm a sua cartilha e objetivos, mas pessoas como Isaltino Morais estarão lá pelo catecismo oficial? Estão a vê-lo a filosofar e a expressar grandes ideias e princípios…? Qual a motivação que pessoas desse calibre têm e o que espera a organização deles, mesmo frescamente saídos da cadeia? Qual o resultado social efetivo e público das ações da organização? É tudo secretíssimo?

Podem ambas as organizações explicar o seu apetite pelo recrutamento de gente influente? Parece-me que o objetivo imediato das duas é o poder, seja poder pelo poder, seja como meio para atingir o seu graal, sendo a natureza prioritária (realço a palavra) desse caminho diferente entre as duas. O OD busca o poder sobretudo pela vertente financeira. Uma boa parte dos seus “famosos” são gente ligada a bancos e outras instituições financeiras. A maçonaria, pelo menos a principal, busca o poder pela influência política. O número de maçons nas estruturas de Estado, seja no Governo, seja nas instituições tuteladas pelo mesmo é desproporcional à sua presença na sociedade. Assim sendo, pertencer à irmandade pode ser um bom passaporte para certos lugares…

Há algo que me incomoda, e talvez mais significativo no caso da maçonaria, que é a gestão facciosa e obscura das estruturas e bens públicos. Ambas as irmandades têm reflexos tribais. A responsabilização exigida a quem tem poder sobre aquilo que não lhe pertence obriga a transparência. Enquanto isso não existir, o sistema não será são.

Uma (pequena) provocação final. Para quando um Rui Pinto dedicado a tornar públicos eventuais esquemas que orbitam por aqueles lados…?

PS: De assinalar um ponto comum entre ambas que é, embora de forma diferente, a menorização do estatuto da mulher.

 

09 março 2026

Adeus, Marcelo


Diz o povo que quem muito fala, pouco acerta e esta é uma frase que associei a Marcelo Rebelo de Sousa desde os seus tempos de comentador. As minhas expetativas para o seu desempenho como Presidente da República sempre foram baixas.

Agora, na saída, é curioso visitar a galeria de imagens do seu reinado. Há certamente uma vertente de contacto humano com toda a população e episódios de informalidade, que vão de o PR se querer colocar ao nível do cidadão comum a extremos desconcertantes. Uma grande popularidade e receções entusiastas, inclusive nos Palops.

Agora, e eu passo sempre rapidamente aos “agoras”, a vida não é apenas feita de sorrisos e selfies, pelo menos para quem aspira ou tem por missão ser mais de que figurão em redes sociais. Que guardamos na memória de uma intervenção de MRS profunda e notável? Certo que fez muitos discursos e neles passou mensagens “corretas”, mas…

Mas a imagem que fica é de um MRS mais preocupado com a sua promoção, imagem e correspondente popularidade do que com os verdadeiros interesses do país. Estarei a ser injusto? Talvez, mas da galeria de memórias do seu exercício, guardamos muitas memórias simplesmente visuais e muito pouco de projetos estruturais.

Para não fugir à tradição, a Marcelfie final com o governo é representativa e absurdamente caricata. Parece de uma reunião de antigos alunos que se juntam alegres e animados para a fotografia final do encontro. Muito riso, pouco siso e há momentos em que os sorrisos passam a ridículos. Sobre sorrisos, também me chocou uma visita a um cemitério militar português em França, com Macron e Costa, onde os dois portugueses caminham sorrindo contentinhos, sem o mínimo respeito pelo significado do chão que pisavam.

O que faltou mesmo nas galerias de imagens que vi foi a enigmática (marcelática) visita ao Beco do Chão Salgado em novembro de 2023. O processo e execução dos Távoras foi um episódio sinistro de abuso de poder e injustiça, abominável em várias dimensões. Abordar o assunto e o local sem ser claro e frontal é inaceitável. Enviar recados e insinuações diretas naquele local foi de uma ligeireza e irresponsabilidade institucionais brutais. Talvez a maior memória da falta de conteúdo (sério) que me fica deste senhor vaidoso, manipulador e… algo tonto.

05 março 2026

Entre russos


Sim, há mais russos para lá de alguns de triste memória…

No meu ponto de vista uma obra de arte vale fundamental pela sensibilidade despertada. A mestria técnica ajuda e creio até ser indispensável. Um quadro com borrões de tinta projetados ou uma “instalação” com algumas chapas ferrugentas dobradas dificilmente compensarão a falta de técnica artística com algo que me impressione o suficiente para as apreciar.

O tema, pode ajudar, mas acabar por ser um pouco secundário. Nma sinopse da Mona Lisa constaria “Um retrato de uma mulher” e não seria por aí que lhe chegaria a fama. Noutro campo e noutra escala, um dos melhores livros de Saramago para mim é o “Todos os nomes”, cujo sumário pode ser considerado banal, ao contrário das “Intermitências da morte” e de “O homem duplicado”, onde um muito interessante tema não tem desenvolvimento (e impressão) proporcional, na minha opinião.

Vem isto a propósito destas duas figuras maiores da literatura russa, objeto de um tratamento muito díspar na minha biblioteca. Para Dostoivesky está lá, e lido, tudo o que encontrei, algumas edições até com umas boas décadas em cima e páginas escurecidas, longe do branco original. Para Tosltoi havia apenas uma singela “Anna Karénina”, talvez o seu maior romance, mas que permanecia por percorrer, coisa que fiz recentemente.

Sobre Tolstoi, é indiscutível que ele domina a arte de escrever e que o livro nos faz viajar, impressionar e sentir… Agora, em comparação com o autor dos “Irmãos Karamazov”, falta-lhe o toque que me provoca a diferença entre o excelente e o genial. Estamos no domínio da impressão, a minha não será a de toda a gente, nem a de hoje pode ser a mesma amanhã. Apenas digo que a “Anna Karénina” irá continuar singela na prateleira, e “Os Possessos” talvez sejam objeto de releitura.

Mas, enfim, nisto como em outras coisas, cada qual como cada um… e ainda bem.