17 agosto 2026

Deus quer?


As atrocidades cometidas pela inquisição e o seu carácter absolutamente incompatível com os princípios cristãos não são novidade para ninguém. Já em tempos tinha expressado umas reflexões aqui sobre a insanidade que se pode encontrar nos autos dos seus processos.

A obra agora lida de Alexandre Herculano, trouxe-me algo mais sobre a sua génese. Não foi caso de simplesmente um Rei sonhar, um Papa querer e a obra nascer. A realidade foi mais complexa e merece algumas reflexões. Quando Gregório IX estabelece o Santo Ofício inicialmente, no século XIII, a instituição igreja está ameaçada por heresias, muito especialmente os cátaros no sudoeste de França e estes tinham iniciativas proselitistas, buscando ativamente desviar ovelhas do rebanho romano. Sem menorizar a sua crueldade, pode entender-se que Roma tinha razões para se sentir ameaçada e reagir com brutalidade. A lógica era clara.

Em Portugal isto passa-se três séculos depois e bastante a reboque da vizinha Espanha (não foram bons ventos). As expulsões e conversões forçadas ocorreram em 1497, no âmbito do contrato de casamento de D. Manuel I com a filha dos reis católicos. Estes insistiam que deveria existir um Torquemada português. Em Espanha ela vem de 1478, instaurada pouco após a unificação de Castela e Aragão. Pode-se entender que o novo reino, sentisse necessidade de procurar uma entidade identificadora e agregadora na religião. Não parece ser de forma alguma uma situação análoga à de Portugal, onde a definição da identidade estava muito mais consolidada.

O estabelecimento do tribunal da Inquisição no nosso país vai ocorrer em 1536, no reinado de D. João III, cognominado “Piedoso”, apesar de piedade não ter demonstrado muita. O que nos conta Alexandre Herculano na sua obra é que mesmo após a sua criação ocorreu um longo processo negocial (e transacional) entre o Rei a reclamar uma inquisição com plenos poderes, sob a sua alçada e fora da jurisdição e controlo do Vaticano e um papa, Paulo III, muitíssimo renitente. Inúmeros braços de ferro, manobras e golpes de parte a parte. Em termos de “defesa da fé”, D. João III foi largamente mais papista do que o Papa.

Sobe a capa de discussões “teológicas”, existiria obviamente disputa de poder, não sendo de menor importância o destino a dar aos bens dos condenados. No entanto, face ao estado calamitoso do país, porque é que D João III se encarniçou tanto em ter a “sua” inquisição e fez disso uma prioridade? Até que ponto foi determinante a influencia da rainha, Catarina de Áustria, que, aparentemente, mais do que se ver como rainha dos portugueses, via-se como uma Habsburgo, irmã do Imperador Carlos V? Qual o interesse de Carlos V se empenhar tanto em advogar a causa do cunhado e se mostrar tão interessado em ver um Santo Ofício livremente ativo (e assassino) em Portugal? Alguma relação com o facto de a migração ibérica dos judeus de Espanha para Portugal enfraquecer relativamente o seu reino e a fuga dos judeus portugueses para os Países Baixos enriquecer esses territórios… governados também por Carlos V?

A inquisição é uma história de fanatismo e hipocrisia, mas também de brutal maldade e desumanidade desmedidas. A facilidade com que se manipulou e atiçou o “povo” e a forma como foram tratados inocentes cujo único pecado era serem diferentes (e terem sucesso) é algo que nos deve ainda hoje fazer refletir.

A desgraça que tocou o nosso país umas décadas mais tarde não nasceu em Alcácer Quibir.

13 agosto 2026

Em que país?


Todos os cidadãos que de uma forma ou de outra esperaram e desesperaram por um atendimento no SNS certamente se questionam em que país vivemos ou queremos viver. É fácil recordar que os recursos são limitados, porque isso é sempre verdade. No entanto, quando vemos o aumento do orçamento do SNS ao longo dos anos e algumas pontas de icebergue, como o caso do dermatologista do Santa Maria, a faturar dezenas de milhares de euros num único dia, não parece que tudo se resuma a limitações orçamentais. Não faltam vampiros que beneficiando da cumplicidade ou incompetência do pastoreio, chupam gulosamente os impostos da manada.

Há quem argumente que os governos querem destruir o SNS, entregar o negócio a privados e que a saúde não deve ser comércio. A medicina atual e respetiva economia é diferente da dos tempos de João Semana, felizmente. Continuam a existir muitos profissionais dedicados, altruístas e imbuídos de vontade de fazer o bem ao próximo, mas, se entrarmos num hospital público e virmos os equipamentos e os consumíveis presentes, eles foram comprados e pagos a empresas privadas.

Para um doente que necessita de extrair um tumor maligno, o fundamental é a operação ser realizada depressa e bem; para os governantes gestores dos nossos impostos o importante é haver racionalidade na utilização dos mesmos. A placa de identificação do edifício onde a intervenção é realizada será de importância secundária. Soluções extremas de tudo privatizar terão também potenciais efeitos secundários indesejáveis, mas o que não faz sentido é o doente esperar o dobro do tempo, com eventual fatalidade, e desperdiçar-se receita de impostos por posições “religiosas” e não racionais.

Voltando ao país onde queremos viver, e já sem falar em rotundas cibernéticas, festanças e fogos de artificio, precisamos mesmo de espetaculares novos aeroportos, linhas de alta velocidade e outros investimentos públicos vistosos? Talvez precisemos, mas a saúde dos cidadãos é e tem que ser uma prioridade máxima. Mais do que verbas é necessário liderança, competência e integridade. Enquanto lá não chegarmos, deixemos de armar aos ricos para “ingleses verem” e amigos faturarem.

08 agosto 2026

Não sei que lhe diga…

Depois de Camilo, Júlio Dinis e Alexandre Herculano, chegou naturalmente a vez de Almeida Garret. Ele foi um cidadão com uma enorme participação e contributo na vida política e cultural do país, mas esse não é o tema aqui. Apenas o que achei da sua produção literária que li. Pela introdução já dará talvez para entender que não me entusiasmou muito e que tenho alguma dificuldade em sintetizar num traço caraterístico. Pode ser da seleção de obras que fiz...

As duas peças de teatro são interessantes, mas não a ponto de deslumbrar. Talvez seja da escola da época, as personagens são estáticas, acabam como começaram, não se apercebem subtilezas nem evoluções. Custa-me a entender o carácter quase mítico atribuído ao “Ninguém” do Frei Luís de Sousa.

O Arco de Santana é um romance histórico que tem a particularidade notável de tudo acabar em bem. Até a velha judia se converte voluntariamente no final, para nada destoar. O prato principal, que ficou para o fim, foi o Viagens na Minha Terra, cujo saltar da leitura integral muito me tinha trocado as voltas no secundário.

A história entrelaçada é “mais” uma narrativa romântica em que como seria obrigatório, a donzela acaba em morte súbita, suicida, demente ou, no melhor dos casos, em clausura. Tem duas exceções, a inglesa Georgina tem mais força e determinação do que o habitual e Carlos acaba por não ser o garboso cavaleiro irrepreensível que a receita da época prescrevia.

Se já tinha achado que Camilo saltava demasiado da narrativa para se dirigir ao leitor, neste livro Garret ultrapassa-o de forma gigantesca. Os comentários e apartes não se ficam pelo enredo e personagens, mas vão sobre tudo. Algumas reflexões são certamente muito pertinentes, mas gostaria de as ver mais agrupadas e estruturadas e não despejadas a granel, sendo que por vezes parece ser alguém que faz mais garbo em expor da sua enorme cultura geral do que em desenvolver o que pensa.

Para não acabar em negativo, cá vai uma citação:

Fica, é verdade, o direito salvo para chorar depois o erro, lamentar a precipitação do momento e conspirar cada um contra a sua própria obra; mas é tudo o que fica.

 E não obstante isso, assim se fez sempre, assim se há-de sempre fazer, porque o povo nunca se excita fortemente pelo bom do que há-de vir, senão pelo mau e insuportável do que é. Por outras palavras: nenhum demagogo fez nunca uma revolução com os seus programas, por mais artigos que eles tenham; todas as fazem os governos, todas as concita o poder por seus abusos e insolências.

 

06 agosto 2026

A medida da imigração


Frequentemente discute-se a imigração em termos absolutos e redutores: é boa porque isto; é má porque aquilo. Como é óbvio, nem todos os emigrantes são iguais qualitativamente em potencial e cultura, nem todas as escalas são equivalentes.

Por estes dias, os acontecimentos de Ceuta vieram colocar em evidência a falta de consistência dessas abordagens simplistas. A chegada daquela quantidade de pessoas a um espaço como Ceuta em dois dias é obviamente incomportável; se fosse a toda a Espanha durante 10 anos, seria diferente. Onde está o limite?

O limite está certamente na capacidade de integração sem transfiguração social. Um quadro venezuelano irá integrar-se mais facilmente do que um jovem marroquino, que não fala espanhol, nem tem formação. Os países que se identificam como Estados têm uma identidade e costumes em que os seus cidadãos se reconhecem. Evoluem, certamente, mas essas mudanças não podem ser brutais, nem colocar em causa valores basilares da sociedade recetora, neste caso, principalmente, a liberdade, a tolerância e a igualdade de direitos, para lá de alguns códigos sociais básicos, que também definem o ecossistema social. Em Portugal é normal atravessar uma rua fora da passadeira, na Suíça não. Um suíço não apreciará ver imigrantes portugueses transporem para lá essas práticas (apenas um exemplo simples e pacífico).

Nas causas de Ceuta, acumulam-se vários fatores, catalisadores e responsabilidades dos dois lados da fronteira e não é objetivo aqui analisá-los.

Queria apenas realçar que a política do “venham todos”, somos bonzinhos e “recebemos todos, todos” estourou na cara de Pedro Sanchez e de quem o defende. Supostas boas intenções ingénuas ou demagógicas não são solução para nada. Veremos se aprenderam! Vai uma aposta?

04 agosto 2026

O Volta e a Revolta

Foi com bastante surpresa que constatei a existência dum encarniçado movimento contra o Volta, com petição pública e tudo.

Antes de mais, é de recordar uma evidência sobre tratamento de resíduos. É consensual que poupar o planeta e os seus recursos passa por reduzir e valorizar resíduos. Se não é, devia sê-lo. Tratar um monte de papel velho tem solução fácil, um monte de vidros também, idem para latas de alumínio, cascas de batata e pilhas gastas, sempre que os mesmos se apresentem separados. Se estiver tudo misturado a granel num contentor, torna-se muito difícil!

Eu separo o mais que posso e choca-me ver situações como às vezes encontro, especialmente em cafés ou restaurantes, onde tudo vai para o mesmo grande saco preto, atirado no contentor de resíduos indiferenciados da esquina.

Sobre o Volta, posso entender que se discutam sugestões de melhoria, se questionem os circuitos financeiros, mas pretender abolir o sistema de todo é violento. No meu caso, pouco muda, apenas tenho que ter um pouco mais de cuidado com as embalagens e levá-las ao supermercado em vez de ir ao ponto de reciclagem.

Logo numa das primeiras queixas da petição, invoca: “Impõe ao cidadão o trabalho de armazenar, transportar e entregar embalagens.”. Pois, quem queriam que o fizesse – o Pai Natal? Talvez não se lembrem, mas já chegou a existir um depósito de vasilhame generalizado para as bebidas no passado e ninguém morreu por isso.

Refletindo sobre quem pode ter ficado assim tão assanhado com o sistema, encontro um padrão possível. O dos preguiçosos que não estavam para se ralar com a reciclagem das embalagens e agora perdem uns trocos e no mesmo princípio, mas com outra dimensão, aqueles que no café punham tudo misturado no mesmo saco preto. Terão efetivamente mais trabalho, mas se queremos dar uma ajuda ao planeta, não dá para ser egoísta.

Sobre os caçadores de embalagens Volta nos contentores do lixo, isso merece atenção e busca de solução, mas obviamente que não é razão para abolir o Volta e encher aterros.

 

03 agosto 2026

Narrativas esfarrapadas


Um dos aspetos mais irritantes deste folhetim de Luís Neves e da PJ não é necessariamente a dimensão dos ilícitos, mas a forma como insistem (ele e uma certa legião de comentadores) em nos fazer passar por parvos e isso… chateia-me! Alguns exemplos.

Diz LN que o tanque foi passado a piscina sem ele saber. Por mais informal que seja a relação entre o dono da obra e o empreiteiro, se este tem uma sugestão de alteração significativa ao que estava planeado, o natural é que o sugira ao seu cliente. Este, e particularmente se não nadar em dinheiro, decidirá em função da resposta a uma pergunta fundamental: Isso quanto custa? Querem que acreditemos que o empreiteiro faz as melhorias que lhe pareceram bem, sem o dono da obra saber sequer quanto iriam custar?! A menos que tivessem sido gratuitas…

Diz o empreiteiro que o conteúdo do famoso atrelado foi descarregado nas suas instalações e este aí ficou parado sem se movimentar. Quando foi encontrado pelos jornalistas em Barcelos, ele estava acoplado a um camião trator do empreiteiro. Sendo que a galera pode perfeitamente ficar estacionada sem companhia, qual a razão desse casamento ainda em vigor há tão pouco tempo? Querem que acreditemos que esse camião ficou imobilizado, agarrado ao atrelado, desde algures em 2025 até julho de 2026?

Disse LS que apresentaria o detalhe dos trabalhos e pagamentos no final dos mesmos. Disse na conferência de imprensa que o empreiteiro amigo já lá não trabalhava. Então, por favor, o que falta para mostrar a totalidade do que foi feito, faturado e pago?

Chateia-me !

31 julho 2026

Um atrelado para ti, um Ferrari para mim


Não sei se uma CPI aos mandatos de Luís Neves na PJ será a ferramenta adequada, mas depois de tantas semanas a preparar esclarecimentos, a comunicação do ministro ficou longe de satisfazer as expetativas dos cidadãos deste país.

Há, por um lado, as práticas na organização, onde a utilização algo desregulada de bens apreendidos parece ser coisa habitual. É mesmo assim? Um bem apreendido fica ao belo dispor de quem na PJ lhe puder deitar a mão? Imaginem que era um avião particular!

Já agora, se a PJ apreender um Ferrari, não tiver onde o guardar e não quiser pagar a renda de uma garagem, eu fico com ele em minha casa gratuitamente! Uma poupança para o Estado!!! Precedente já existe!

Depois há o perfil e a ligeireza do grande polícia Luís Neves que parece não hesitar em assumir e desvalorizar o não cumprimento da lei, desde que depois, quando alertado, corrija. Posso um dia argumentar: senhor agente, eu desconhecia o limite de velocidade aqui, mas logo que vi a vossa viatura atrás de mim, mandando-me encostar, corrigi imediatamente e isso é o mais importante neste momento.

As relativizações e desvalorização destes episódios por parte de algumas personalidades, já não se suportam. Não têm pudor em fazer essas figuras?

30 julho 2026

Em busca das causas perdidas


Há uma certa esquerda que na sua ficha de autoidentificação garante serem os mais bonzinhos da praça, estarem sempre disponíveis para denunciarem e combaterem coisas más e quanto mais extremistas forem, maior a respetiva bondade. Sim, fazem bandeira de valores como a liberdade, a justiça social e a igualdade, mas nos dias que correm já se torna difícil fazer uma verdadeira diferenciação por esse caminho. Especialmente no mundo Ocidental, não estamos de todo em cenários de romance neorrealista do século XX.

A esquerda perde as classes operárias e quanto mais à esquerda, maior a perda. A teoria de Marx de que as injustiças do capitalismo levariam à revolução comunista e quanto mais capitalismo mais cedo ela chegaria, falharam completamente. O sucesso do capitalismo matou o comunismo. Sim, podemos criticar o sistema capitalista, mas é nesses países que melhor se vive neste mundo.

Se há locais no mundo em que essa militância tem muitas razões para intervir é no terceiro-mundo. Muito mais injustiça social existe em Angola do que em Portugal, por exemplo. No entanto, não parece ser cómodo ir aí pregar e até se invoca com um certo paternalismo que, coitados, “tudo” é ainda herança dos malefícios da colonização, cujos herdeiros devem assumir e pagar a culpa fundamental. Certo é que se esses países fossem governados por um sistema do tipo ocidental e capitalista o seu povo viveria muito melhor e é isso o que mais conta.

Perdidos os seus clientes proletários na Europa, curiosamente em grande parte recuperados pela extrema-direita demagógica, a esquerda boazinha precisou de encontrar novas causas de práticas ocidentais mazinhas, contra as quais hastear bandeira. O capitalismo é um mal e encontrar-se-ão sempre práticas nocivas a denunciar e a combater.

As novas causas passaram a ser as minorias, sejam elas étnicas, culturais, religiosas ou de qualquer outra natureza, supostamente injustiçadas. Mais uma vez, há aqui alguma incoerência e enviesamento. Alguns exemplos: os direitos das minorias muçulmanas na Europa são comparáveis com os dos cristãos no Médio Oriente? A situação dos LGBTs no Ocidente é equiparável com o que se passa em muitos países árabes ou africanos? Querem comparar a situação dos ciganos por cá com a dos uigures na China? Já vimos esses militantes das boas causas ativamente denunciando essas situações, muitíssimo mais graves? Claro que no Ocidente há liberdade para manifestar e criticar enquanto noutras partes do mundo é menos fácil…

Um dos mais caricatos e risíveis exemplos desta militância pelos direitos das minorias ocorreu há dias no Parlamento Europeu. Ao iniciar uma intervenção, a eurodeputada irlandesa do Sinn Féin, Lynn Boylan, lamentou-se de não ser possível expressar-se na sua língua materna, o gaélico. Mais um exemplo e uma denúncia da opressão cultural e de desrespeito para com as minorias. Quando lhe informaram de que sim, de que o podia utilizar, já que havia serviços de tradução disponíveis para a sua língua, ela ficou engasgada. Disse que não estava preparada e continuou em inglês. É um pequeno episódio, mas com um simbolismo enorme.

29 julho 2026

ONU 2672

Quem estiver atento à “decoração” dos camiões e respetivas atrelados já terá notado placas deste tipo nalguns. É uma sinalização de que o veículo transporta cargas perigosas, mostrando código do produto e o tipo de risco.

Isto acontece, e bem, porque não se anda por estradas e ruas carregando produtos perigosos como quem transporta sacos de cimento ou paletes de tijolo para o estaleiro.

Estes transportes são enquadrados por um acordo europeu denominado ADR, que regula o transporte rodoviário internacional de mercadorias perigosas. Não se fica apenas pela placa laranja. Se virem um camião de combustíveis podem identificar outras sinalizações sobre o tipo de risco, equipamentos de segurança, contactos de emergência, além de existirem outras obrigações menos visíveis. Os motoristas precisam de formação e certificação, deve haver documentação especifica relativa aos produtos e nalgumas situações mesmo o veículo precisa de ser certificado. Existem também regras de compatibilidade sobre produtos que podem partilhar o mesmo transporte ou não.

O número ONU 2672 corresponde ao amoníaco em solução, aparentemente um dos principais produtos carregados no famoso atrelado que foi do Seixal até Barcelos. Como presumo que originalmente os traficantes não lhe tenham colocado as placas laranja respetivas, fica a questão (só mais uma): quando ele se fez à estrada cumpria todos os requisitos ADR? Se sim, não deve ser difícil encontrar rasto dessa documentação obrigatória. Mostrem-na.

Se assim não ocorreu e foi basicamente dar à chave e fazer-se à estrada… quem anda à chuva pode molhar-se. Caso houvesse um acidente com sérias consequências, mesmo pessoais… quem responderia criminalmente? Saber-se-ia nesse tempo, presumo…

Estaremos mesmo perante este nível de ligeireza e irresponsabilidade?

 

28 julho 2026

A maçonaria frente ao juiz

Foi notícia recente que cinco membros da maçonaria expulsos da organização em 2023, contestaram internamente a decisão sem sucesso, acabaram por levar o caso a tribunal e o processo segue o seu caminho.

É um pouco insólito imaginar uma organização tradicionalmente tão discreta vir lavar a roupa suja em público e ser obrigada a mostrar os seus regulamentos e justificar decisões perante um juiz “profano”.

Coloca-se aqui uma questão sobre a natureza da organização. Vivemos em liberdade associativa e isso inclui direitos e deveres. Se eu quiser criar uma associação columbófila ou de amigos da sueca, estas deverão ter estatutos públicos, definindo objetivos, forma de governo, etc... Uma “associação” que evita esta transparência pública e respetivas obrigações é provavelmente ilegal. Daí ser lógico que as associações maçónicas, estando enquadradas na legislação existente, possam ser chamadas a tribunal quando as suas práticas são questionáveis face à lei.

A partir desta obrigação de transparência mínima, podemos procurar perceber quais os objetivos sociais atuais da organização. No século XIX era relativamente claro; hoje não sei. Quando por aí circulamos, por estradas, ruas e praças, é difícil descortinar a sua assinatura no que vemos. Se alguém me quiser informar em que medida a organização pode “contribuir para a minha felicidade” e do comum dos cidadãos, sou todo ouvidos.

Se estão em causa princípios universais e objetivos “altos, nobres e justos”, venham a terreiro assumi-lo e explicar o que fazem mesmo, mesmo, mesmo, para a sociedade, exterior à organização.

 

27 julho 2026

Mais histórico, menos romance

A minha relação com a obra de Alexandre Herculano não começou de forma muito feliz. No Português do 8ªano, ele foi precedido pelo Garret, não sei se por este ter nascido primeiro ou por ordenação alfabética. Andamos às voltas das “Viagens na Minha Terra”, que, por um motivo qualquer, eu tinha prescindido de ler na íntegra no início. À medida que o tempo passava, mais me convencia de que já não valia a pena o esforço, mas a análise do romance arrastou-se e eu andei umas boas semanas perdido pelo vale de Santarém.

Antes de irmos de férias da Páscoa, o professor apresentou-nos o “Eurico o Presbítero”, que seria o próximo objeto de análise. Aproveitei as férias para o ler de ponta a ponta e apresentei-me no recomeço das aulas tranquilo, seguro de que a Hermengarda não me iria trocar as voltas como a Joaninha tinha feito. Para meu espanto, comunica o professor que o “Eurico” estava dado e encerrado! Que injustiça!!

Na minha viagem pelos autores portugueses clássicos, depois de Camilo aqui e de Júlio Dinis aqui, chegou a vez do Herculano. O autor tem uma cultura enorme, é evidente. Não sei se ele escrevia com um dicionário ao lado, mas fez-me consultá-lo para descobrir o significado de palavras com uma frequência que quase me envergonha…

No registo do romance histórico, lendas e outras histórias, é muito interessante. São quadros ricos de um passado que dá gosto apreciar. Sou algo renitente quanto à credibilidade com que se põe figuras passadas a falar e a divagar, mas quero acreditar que o seu espírito científico e rigoroso e a sua bagagem cultural avalizam a obra.

Menos conseguido é o registo romântico dos corações. Já nem falo do choque de depois de ler Júlio Dinis onde tudo acaba bem e feliz, passar a desfechos dos mais dramáticos e infelizes que se pode imaginar. Há algo naqueles diálogos apaixonados a que não consegui aderir. Penso que intrinsecamente o intelectual Herculano não é um romântico, no sentido de um entusiasmado arauto de paixões.

Fica como sugestão as Lendas e Narrativas e o Bobo, descontando neste a tal vertente da paixão dramática.

Como cidadão, intelectual e político, Alexandre Herculano foi um enorme português.

 

26 julho 2026

O sistema Toufik

Durante algum tempo acompanhei de perto o que se passava na Argélia e até aí residi uma temporada. A sua vida política tinha a particularidade de ser duma misteriosa simplicidade. Simplicidade porque pouca coisa acontecia que mudasse algo de relevante e, ao mesmo tempo, quase nada se sabia do que acontecia nos bastidores do poder. De vez em quando transpirava alguma suposição, mas sempre coisa pouca e pouco documentada.

Uma figura representativa deste estado de coisas era o general Mohamed Mediène, de alcunha Toukif, que chefiou os serviços de informação do país durante 25 anos, de 1990 a 2015. Ele não se via em sítio nenhum, tampouco se expressava publicamente dalguma forma. As fotografias dele eram raríssimas. Qualquer noticia era frequentemente ilustrada sempre com a mesma, acima.

Num país em que as práticas dos agentes do poder não eram exemplares, os serviços de informação (DRS) tinham acumulado um álbum com registos comprometedores para todos, ou quase. Qualquer tentativa de abalar o senhor era travada pela ameaça da abertura do armário e exposição da gaveta correspondente.

As ações do DRS não se limitavam ao “soft-power”. Alguns opositores mais determinados foram vítimas de acidentes infelizes e muitos crimes imputados ao terrorismo islâmico levantam algumas dúvidas, já que beneficiaram mais o poder do que os islamitas.

A informação é uma arma terrível, sobretudo em meios pouco saudáveis. A suspeita de que uma polícia a utiliza em beneficio de interesses obscuros é fatal para a confiança dos cidadãos no regime e quanto mais alto for o nível, mais dramático será.

Isto vem a propósito do que se passa atualmente com Luís Neves. Certamente que a PJ portuguesa não tem paralelo com a DRS argelina, mas as contemporizações, as desculpas esfarrapadas, tudo isto transpira a manobras de bastidores e a guerras de influência. Uma polícia e a PJ em particular não pode ser arma de jogadas secretas.

PS: A teoria de que por trás disto existe uma “cabala” do Chega é só mais uma dessas tentativas de projetar cortinas de fumo. A haver cabala, ela estará noutro quadrante.


24 julho 2026

Parabéns aos USA

Os Estados Unidos da América celebraram este mês 250 anos e não é necessário ir a Teerão para os ver serem condenados como o grande Satã e o mais maléfico país da história da humanidade. Certamente que não têm currículo limpo, mas esses acusadores podem fazer o favor de apontar um, um único, exemplo de uma grande potência que possa atirar a primeira pedra…

São também tempos controversos. Por um lado, temos um Presidente que só lhe falta mudar o nome do país para TSA (Trump States of America) e com mais alguns detalhes de atitude e valores muito afastados dos princípios e práticas dos pais fundadores do país.

Outra figura, com bastante menos poder executivo, mas com grande exposição e apreciação mediática é o progressista Presidente da Câmara de Nova Iorque, Zohran Mamdani. Aparentemente sente-se algo desconfortável com a data e o contexto da fundação do país, provavelmente por ter sido pouco inclusivo. Esperemos que a moda não pegue, caso contrário ainda veremos alguns iluminados a condenarem a celebração da fundação de Portugal, pela intolerância de D. Afonso Henriques face aos mouros.

Apesar de todos os defeitos e pecadilhos, os USA são o país da liberdade e das oportunidades, num registo que não tem paralelo. O seu nascimento marca o nascimento irreversível de um sistema onde não há poderes sem escrutínio popular, não hã mandatos temporais de suposta origem divina e é o povo quem valida e sanciona o exercício do poder. O extrato a seguir da declaração de independência é extraordinariamente eloquente e forte:

…todos os homens são criados iguais, que são dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão Vida, Liberdade e a busca da Felicidade. — Que, para assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados. — Que sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva desses fins, é direito do povo alterá-la ou aboli-la, e instituir um novo governo, estabelecendo seus fundamentos sobre tais princípios e organizando seus poderes de forma que lhes pareça mais adequada para garantir sua segurança e felicidade

É curiosa esta evocação do “direito à felicidade”. A felicidade é algo talvez difícil de definir juridicamente, mas com toda a subjetividade implícita, é dever dos governantes proporcionarem felicidade aos seus governados.

A implementação destes princípios após a independência não foi perfeita, certamente, sobretudo quando se pensa em negros e em índios. Mesmo hoje o valor de cada um não é exclusivamente função do seu mérito e do que ele faz. Continuam a existir alguns privilégios de casta, na prática.

Apesar de todas essas deficiências práticas não deve haver no mundo contemporâneo um país com um sistema mais são. Os resultados estão à vista em muito do que temos à nossa frente no nosso dia-a-dia e certamente que o seu sistema irá resistir a todas as Trumpices e Mamdanices que o ameaçam.

A fundação dos EUA marca a fundação de uma forma de governo que cortou com tudo o que então existia e, não sendo perfeita, é ainda hoje melhor do que todas as outras. 

 

23 julho 2026

Pela frente do palco

O Trovante foi um projeto fantástico na música portuguesa. Quantas das suas canções ficaram na memória de tantos, “Perdidamente”…

Se a criação artística esteve muito do lado do genial João Gil, juntando-se-lhes Manuel Faria e João Monge, este para os textos, o resultado não seria o mesmo sem as brilhantes interpretações vocais de Luís Represas, que agora nos deixou.

Tenho a discografia completa e dos concertos a que assisti, recordo especialmente a apresentação do “84” e do “Sepes”. Recentemente tive a oportunidade de assistir ao reencontro dos 50 anos, mas ao ouvir o desempenho vocal atual de Represas, desisti e decidi ficar com a memória da beleza e força de outros tempos.

Mais do que a memória dessas interpretações, ficam os registos e cito por exemplo, só como exemplo, “Memórias de um Beijo”.

Obrigado Trovante, Obrigado Luís Represas.

 

22 julho 2026

O motor do atrelado


Os primeiros episódios do folhetim com as obras no monte de Luís Neves parecem incluir irregularidades várias. Se bem que sendo transgressões habituais em muito cidadão comum não são aceitáveis no comportamento de um ministro.

O episódio do atrelado leva o caso para outra dimensão e até podemos nem dar relevo ao contexto da apreensão do veículo e ao fim a que se destinavam os produtos químicos.

A Marinha não queria continuar com a guarda dos mesmos pelo risco latente, a PJ não tinha verba (!?) para os neutralizar e o polivalente empresário de Barcelos apareceu e ofereceu-se para ajudar…

Em primeiro lugar, se os produtos eram potencialmente perigosos, que garantias de segurança foram precavidas para a sua armazenagem em Barcelos? Não é preciso ser muito instruído para saber que não se armazenam produtos químicos perigosos sem um estrito enquadramento de segurança, uma enorme panóplia de procedimentos obrigatórios e, dependendo das quantidades, respetivo licenciamento. De quem seria a responsabilidade caso um acidente grave tivesse ocorrido?

Depois, não existem almoços grátis. Qual a motivação do empresário para oferecer este serviço à PJ? Esta aceitou, um pouco como se aceita a ajuda de um amigo para guardar temporariamente na sua garagem alguns móveis, atravessando-se com enorme ligeireza a fronteira entre a esfera pública e a privada.

Uma coisa é certa. Se isto fosse o enredo de uma ficção, a mesma seria desacreditada por excesso de inverosimilhança. Qual o motor (e o combustível) que proporcionou ao atrelado e ao seu conteúdo tão singular viagem?

Como ainda há quem consiga alinhar umas palavras de tolerância e indulgencia para com Luís Neves, é outro mistério.

20 julho 2026

Crime e castigo

Luís Neves está para já inocente e ainda nem sequer de nada foi acusado. No entanto, para lá do óbvio conflito de interesses, ser amigo e receber favores de um empreiteiro com largo cadastro de calotes às finanças e à segurança social não lhe fica bem. Também ficam mal as trapalhadas quanto ao pagamento das faturas e à teoria absurda de que fatura emitida é sinónimo de fatura paga, assim como as especulações semânticas entre tanques e piscinas.

Certo que se fossemos julgar e condenar todos aqueles que, com maior ou menor consciência da transgressão, pagaram obras ou reparações “por fora” ou fizeram trabalhos sem autorização, no mínimo 3/4 do país ficaria com cadastro.

Daí a menorizar este caso pela banalidade das infrações vai um passo perigoso de transpor. Lembro-me de um ministro, Miguel Cadilhe, ter apresentado a sua demissão por fuga à sisa, o que, sendo frequente e comum, não deixa de ser uma fraude.

Há aqui uma questão de fundo que é o país em que queremos viver. Se é num reino dos “espertos” que aproveitam todos as oportunidades em benefício próprio, saltando por cima de regras e princípios, ou num Estado efetivo de direito, onde o expetável é os cidadãos serem íntegros e cumpridores. Obviamente que transgressores haverá sempre, mas essas práticas não deverão ser uma norma desculpável e o exemplo tem que vir de cima. Se se perdoa a um ministro que por função, experiência e formação não tem a mínima desculpa para ignorar o que anda a fazer, onde iremos acabar?

 Nota: Este texto foi escrito antes do episódio do atrelado, que levou o folhetim para outro nível, muito mais grave.

16 julho 2026

No país dos talismãs


O primeiro-ministro, Luís Montenegro assistiu a três jogos da nossa seleção no campeonato mundial de futebol. Não foram no Jamor nem em Madrid, mas do outro lado do Atlântico.

Considerando que o cidadão em causa não aproveitou o seu estatuto para simplesmente ter o prazer de ir ver a bola, podemos questionar a lógica institucional de fazer para cima de 20000 kms neste contexto. Como os membros do Governo aparecem na comunicação social em serviço, a qualquer dia e a todas as horas, presume-se que não terão muito tempo livre e que estas deslocações obedecerem a uma necessidade imperiosa qualquer.

Alguém terá sugerido que ele era uma espécie de talismã para a seleção e, pasme-se, até ofereceu um amuleto aos jogadores, supostamente para os proteger dos maus olhados dos adversários. Pelos resultados obtidos talvez tivesse sido mais eficaz o papel de mascote, assistindo a todos os treinos e partilhando as areias de Palm Beach com os craques.

A mim palpita-me que presumia que a presença do seu sorriso nos putativos sucessos da equipa nacional seria uma espécie de talismã atraindo popularidade a si próprio e ao seu Governo e um amuleto contra os efeitos das críticas à governação. Sugiro que pensem em governar eficazmente sem ficarem dependentes de talismãs ou amuletos, porque isto não vai lá com magias, sejam elas brancas, negras, rosa ou laranja.

14 julho 2026

Os romances dos bons corações


Em tempos idos, em salas de aula, foram-me apresentados os vários romancistas portugueses de século XIX, chamemos-lhe “clássicos”. Ficaram-me os nomes, mas nem tanto o interesse para mais tarde os ler “a sério”. Exceção foi unicamente Eça de Queiroz, de quem depois li tudo, ou quase.

Em maré de me redimir do pecado, decidi há pouco visitar Camilo Castelo Branco, visita da qual deixei nota aqui. Foi agora a vez de Júlio Dinis e dos seus quatro romances acima representados. Lidos na sequência da sua publicação, nota-se uma evolução interessante na densidade da intriga e na diversidade dos personagens, desde a “Família Inglesa” até aos “Fidalgos”. Há algo de comum: todos têm um final feliz e as generosas e justas qualidades humanas prevalecem e vencem todos os percalços e obstáculos. Também há pouca gente verdadeiramente má; muito do negativo é mais no campo do caricato e burlesco do que no verdadeiramente maligno (a excluir o missionário da “Morgadinha”).

Este otimismo do romancista é razão para alguns o (des)classificarem como um bucólico, irrealista e idealista. Não concordo. Um romance é um retrato daquilo que o autor quer retratar. Não é obrigatoriamente um recenseamento exaustivo de caracteres e feitios. Se Júlio Dinis quis dar protagonismo à eficácia da bondade, honestidade e bons princípios, possa isso inspirar-nos e recordar que daí pode vir sucesso, às vezes.

Falando em retratos, quando Vermeer pintou a “Rapariga com o Brinco de Pérola”, não se terá preocupado em pintar um rosto “representativo” do universo, mas sim de algo que lhe pareceu belo. A nós também nos parece belo e confesso olhar com mais satisfação para esse quadro do que para uma imagem angustiante de Paula Rego.

Falando de imagens femininas, uma verdadeira particularidade de Júlio Dinis é a força, inteligência, sensibilidade e determinação das personagens femininas. Estamos muito longe daquele estereotipo da beleza cuja participação principal no enredo oscila entre seduzir e ser seduzida. Será o facto de ter perdido a mãe aos seis anos que lhe fez desenhar essas fortíssimas mulheres? Em muitas situações são elas quem sabiamente conduz a história, enquanto que, especialmente no registo romântico, os “heróis” masculinos sofrem muito mais de inconstância e de dificuldades de discernimento.

Se as “Pupilas” é o romance dos bons corações em ambiente bucólico, os seguintes não podem ser considerados social e historicamente inócuos e simples. Na “Morgadinha” é vigorosa e eloquente a crítica ao obscurantismo religioso e aos cacicais processos eleitorais, num tempo em que a chegada das estradas e dos cemitérios se prepara para mudar o mundo rural.

O “Fidalgos” são uma alegoria à decadência do país tradicional, que se recusa a viver no seu tempo. Pena que o resultado dessas mudanças sociais e políticas não tenha correspondido ao otimismo do romancista. Na altura as esperanças eram legitimas.

Apreciei muito a qualidade e vivacidade dos diálogos. Muitas passagens são soberbas e deliciosas, provavelmente aproveitando as experiências do autor pelo teatro.

Nestes romances há muitos bons corações e certas figuras possuem uma força que as torna símbolos. Por exemplo, o médico das “Pupilas”, João Semana, tem uma participação muito secundária no enredo. No entanto o seu nome ficou para a posteridade como um símbolo do médico da aldeia abnegado, humano e generoso. Representativo da força da escrita.

Enfim, recomendo!

 

PS: Tenho alguma relutância em deixar a foto da capa dos “Fidalgos”. Quem desenhou aquilo não tinha a mínima ideia da história que era suposto ilustrar.

12 julho 2026

Aqua e Circus


Na Roma Antiga a população era entretida e satisfeita oferecendo-lhes pannus (pão) e circus (diversão). Hoje já não é necessário passar pela farinha, oferecem-se subsídios, isenções e outras benesses. Acabo de ler que a câmara do Porto vai tornar os transportes públicos gratuitos na cidade, mas apenas para os habitantes da mesma, por acaso os seus eleitores. Um prospero burguês da Foz viaja gratuitamente e um arrabaldino da Afurada, que vem à cidade ganhar o salário mínimo, paga!

Também tem sido notícia a situação terceiro-mundista em Almada com a falta de abastecimento de água. Parece que alguém se esqueceu de planear a prazo, sendo que tudo o que fica para lá do horizonte de um mandato é esforço sem retorno (eleitoral). Em contrapartida, se formos ver o programa das festas nesse burgo, vê-se que não falta circus. Isso não pode falhar e gastos desproporcionados em festas, espetáculos, iluminações natalícias, pirotecnia e outros entretenimentos vistosos são uma realidade recorrente pelo país fora. Pode a prazo a água faltar, mas circus é que nunca se pode dispensar.

Sabemos como acabou Roma. Na barbárie.

PS: Se um dia faltar o abastecimento de água em Vimioso, a Ministra do Ambiente também lá irá solidária…?

07 julho 2026

Guerras e lágrimas


Em 1981 Desmond Morris publicou o livro muito interessante, “A tribo do futebol”, onde compara o fenómeno deste desporto e dos seus rituais a uma recriação de comportamentos tribais ancestrais. Em 1980 Peter Gabriel cantava que os Jogos sem Fronteiras eram uma guerra sem lágrimas, onde os olhares só não matavam porque não podiam.

Quando há um grande campeonato de futebol ao nível das nações, como atualmente o Mundial, entra em jogo o espírito da tribo nação. Muita gente que durante o ano não liga de todo ao futebol, não deixa de se envolver, interessar e apoiar a seleção da sua nação. Globalmente, dentro de certos limites de respeito e de reciprocidade, considero positivo que as populações se identifiquem com uma nação. Estranho seria um português alegrar-se com as derrotas da equipa nacional (por acaso conheço uma pessoa que o afirma, mas esse tem contexto e desculpa 😊).

Seria também positivo que essa identificação se alicerçasse em algo mais do neste tribalismo da bola, mas, apesar de todas as modas das integrações e fusões culturais a qualquer preço, é claro que um português se identifica como português, de alguma forma diferente de um espanhol (mesmo sem ser necessário passar pelo futebol para o marcar).

Faz parte do ritual festejar as vitórias nas guerras. A lógica diria que devem ser celebrações de alegria, mas frequentemente vão para lá disso. Parece que a exaltação no estádio não são suficientes para sublimar o potencial belicoso de alguns adeptos e as ruas das cidades tornam-se campos de batalha. Existem dois enquadramentos típicos. Uma é de algumas comunidades imigradas, especialmente quando o vencido é o seu anfitrião, noutros casos é pura guerra civil.

Recentemente, para minimizar os estragos subsequentes às “celebrações” das vitórias da sua seleção, muitas cidades em França aplicaram um recolher obrigatório para menores de 16 anos desacompanhados, entre as 22h e as 5 da manhã nos dias dos jogos. Esta necessidade e o perfil de aplicação diz algo de muito preocupante. Que fazem menores de 14 anos sozinhos na rua depois da meia-noite e mandá-los para casa reduz significativamente o potencial de destruição!?

Não é o futebol em si que está na origem destes distúrbios, provavelmente que se ele não existisse outra “razão” se levantaria.

No dia em que nos despedimos da participação de Cristiano Ronaldo em eventos internacionais de alto nível, será bom recordar o seu exemplo de atingir a excelência pelo trabalho, empenho e disciplina, assim como a sua dimensão humana e solidária.  Sim, apesar de tudo o resto, podemos encontrar no futebol bons exemplos.

04 julho 2026

A justiça a funcionar


Não terei sido o único português a sentir revolta e repugnância pela decisão de tribunal de condenar o Estado Português a indemnizar José Sócrates por violação do segredo de justiça. Sugiro que fique em conta-corrente, já que o crédito do Estado face ao senhor é largamente superior ao valor em causa, ou que, pelo menos, deduzam os custos com os advogados oficiosos.

Poder-se-á dizer ser a justiça a funcionar e que ela é suposta funcionar da mesma forma, quer o sujeito se chame Sócrates ou Sousa, mas… . O comum dos cidadãos, não versado nos procedimentos e labirintos do sistema judicial, deve poder reconhecer as suas decisões como justas e justificadas.

Supondo que num hospital existe uma informação clínica sensível relativo a um personagem relevante e a mesma veio a público. Se o dossier estava num armário aberto, acessível a quem passa, sim, é negligência; se o hospital possuía um sistema de registo de informação estruturado, com sólido controlo de acessos e um hacker lá entrou e extraiu a informação, continua a ser “justo” condenar automaticamente o hospital, sem averiguação detalhada?

Por outro lado, nestes casos, a defesa implacável do segredo de justiça e penalização das fugas parece-me ser aquilo que se chama no desporto de “falta marcada, beneficiando o infrator”. Quando alguém tem ou teve responsabilidades na administração de bens públicos e há fatos e evidências graves, o assunto deixa de ser de foro privado e passa a ser de interesse público. Os cidadãos merecem ser informados imediatamente, independentemente das sentenças que mais tarde um tribunal possa decretar, considerando que o processo não foi sabotado com anulação de provas por questões processuais, prescrições por infindáveis manobras dilatórias ou outras habilidades sobre as quais o senhor Pinto de Sousa pode escrever um livro, este sim um potencial grande sucesso editorial.

Sim, o sistema judicial português não está a funcionar como os honestos cidadãos esperam e exigem.

02 julho 2026

Vade retro…


Em certos círculos está na moda não fazer uma intervenção pública, declaração de cidadania, sem alertar para os perigos da extrema-direita e declarar medo ao aparecimento do fascismo. Não podemos discordar do fundo, se bem que fascismo não será provavelmente o termo melhor adequado para classificar o fenómeno (ver a História).

A mim também me preocupa o crescimento dos populismos autoritários que podem pôr em causa o modelo social e as liberdades e harmonias a que estamos habituados, mas há uma diferença. Há algumas dezenas de anos que me manifesto preocupado com o desgoverno e impunidade das elites que nos têm governado e que foram a semente e o adubo do que hoje adicionalmente nos preocupa.

Lamentar uma doença sem refletir sobre as causas é pueril. Não identificar essas causas e exigir remédios é irresponsabilidade. Bem diziam os frades ociosos e bem-nutridos “Vade retro Satana! Não venhas aqui roubar almas ao meu virtuoso rebanho”. Era suficiente?

24 junho 2026

Vamos ao fundo

Muitas vezes os políticos gostam de anunciar coisas sensacionais, como quem saca um imprevisto coelho de uma insuspeita cartola. A última foi a da criação de um tal fundo soberano nacional. Espantoso e dito com as sílabas bem marcadas, para o devido realce de credibilidade porque “não estamos cá para enganar ninguém”! Não sou especialista do tema, mas associo esses instrumentos financeiros a países que têm um pé-de-meia de poupanças e que, em vez de as deixarem dormir debaixo do colchão, tentam fazê-las render algures.

Não será certamente o caso do Estado português que se vira e revira para evitar gastar muito mais do que o que coleta e passa a vida a estender a mão nos mercados para financiar o seu funcionamento. Para poder criar esse fundo, precisará de estender as duas mãos e, naturalmente, pagar juros. Convém que o rendimento da aplicação desses recursos gere resultados superiores ao seu custo, senão é mais prejuízo.

Recordando os casos mais recentes de investimento do Estado em empresas designadas por estratégicas, nomeadamente na Tap e na Efacec, contextos e dimensões à parte, estes não se poderão considerar casos de sucesso em termos de criação de riqueza.

Resumindo, parece que este Governo já não sabe o que fazer para a ceia…

Uma sugestão. Tentem rentabilizar o património que já existe, tanto dele abandonado e degradado. Não sei se isso dá coelho que se veja, mas é certamente mais rentável do que andar a semear dinheiro que não temos em empresas que o Estado não sabe gerir.

 

23 junho 2026

Acabar com os ricos

Há uma clivagem importante nas visões quanto à forma de corrigir as injustiças sociais. Há quem julgue fundamental acabar com os ricos e há quem dê prioridade a acabar com os pobres. Excluindo os que ficaram ricos com processos ilegais, objeto de remédios de outra natureza, na minha opinião, as políticas sociais deverão focar-se efetivamente em retirar pessoas da situação de pobreza.

Fará sentido existirem 13 prestações sociais não contributivas? Os potenciais beneficiários terão sempre uma visão esclarecida e eficaz daquilo a que têm direito, dentro desse labirinto? Parece-me fazer sentido uma simplificação e talvez fosse prioritário discutir os moldes e detalhes em vez de defender imobilismos.

Faz sentido que esses beneficiários sejam obrigados a, dentro do razoável, retribuírem à sociedade um pouco da ajuda que recebem? Faz e também faz sentido manter alguma atividade em prol da estabilidade emocional e potencial de reinserção no mercado de trabalho. O objetivo devia ser retirar pessoas dessa situação, não por castigo, mas por valorização. Defender imobilismos sociais nestes contextos não é remédio para nada.

Faz sentido haver mecanismos de combate a fraudes e abusos? Evidentemente que faz e canais de denúncia alimentados por cidadãos não são coisa rara por essa Europa fora, mesmo em países que não experimentaram no passado uma cultura de bufos.

É importante defender e ajudar quem disso necessita, mas a maior ajuda é retirá-los dessa necessidade para reencontrarem autonomia e dignidade. Fazer esta missão refém de politiquices não é serviço à causa social fundamental.

 

19 junho 2026

Mata-mouros reformado

Já o tinha referido aqui, há quase 14 anos, como o aguerrido Santiago Matamoros fora reconvertido em simples jardineiro. O que lá escrevi mantém-se de atualidade.

O culto de Santiago e a suposta descoberta dos seus restos mortais na Galiza está intimamente ligado e alimentado pela campanha de reconquista, à qual o apóstolo serviu de invocação e estandarte. Deu até o nome a uma das principais ordens religiosas guerreiras da península Ibérica.

Obviamente que entre os milhares de peregrinos que hoje demandam Compostela, poucos o farão por devoção religiosa e talvez nenhum para pedir apoio em guerras contra infiéis. No entanto, a história é a história.

Um destes dias ao discutir o assunto com um amigo que planeava ir ao tal “Campo de Estrelas”, encomendei-lhe o serviço de investigar como iam as flores que delicadamente davam abrigo visual às vítimas do mata-mouros. A resposta é que na catedral já não há apóstolo guerreiro. A estatua em questão foi discretamente trasladada para o museu diocesano, certamente muito menos vista do que no lugar original.

Podemos entender que para a generalidade dos peregrinos o ímpeto guerreiro do apóstolo (ou da imagem dele criada) não seja o que estão à espera de ver quando concluem a sua romagem. Mas, de que serve assepsiar a história? Provavelmente uma boa parte dos muçulmanos mais suscetíveis nem sequer franquearão o pórtico da catedral, mas… não seria bonito poder dizer ombro-a-ombro, cristão e mouro, felizmente já não estamos nestes tempos?

Entretanto, mesmo em frente, do outro lado da praça do Obradoiro, no edifício do “Concello”, equivalente da Câmara Municipal, está exposta uma bandeira da Palestina. Sim, que há gente inocente que lá sofre, mas e os outros? Na Ucrânia, Congo, Síria, Sudão, Curdistão, Myanmar, Xinjiang e a lista continua. Será o fato de não serem vítimas de Israel que os torna menos merecedores de solidariedade?

Já agora, só falta chamar palestiniano a Tiago. Ao fim e ao cabo, ele foi morto por Judeus… E a reconquista, que o seu culto patrocinou, sendo que o seu contexto em Braga ou Lugo é muito diferente de Sevilha ou Córdova, foi uma luta contra um invasor de outra etnia e de outra religião. Podemos estabelecer alguns paralelos…

Em resumo, os belgas que terraplanem a colina de Waterloo para não lembrar guerras passadas e provocar os franceses… estes que revejam e apaguem os nomes sensíveis inscritos no seu Arco do Triunfo …  e a lista por aqui seria longa. Mesmo o nosso Mosteiro da Batalha pode ser coisa de incomodar os nuestros hermanos. Talvez seja melhor pensar construir uma barreira visual à volta.

Quando se quer construir um futuro apagando o passado, o edifício não resulta robusto.

 

16 junho 2026

Onde para a laicidade?


Durante muito tempo, assumir a laicidade como um pilar básico na organização da nossa sociedade foi praticamente consensual e levantando poucas dúvidas quanto ao respetivo significado. Como Cristo disse há uns séculos: A César o que é de César. Como se disse à igreja católica há mais de um século: podem continuar a celebrar batismos, mas nenhum cidadão será menos cidadão só por não ter tido o crânio regado numa pia batismal.

O termo voltou, entretanto, ao primeiro plano, arrastando polémicas e controvérsias quanto à sua interpretação. Em França, que funciona um pouco como balão de ensaio para muitas questões sociais, agita-se e recorda-se uma lei de 1905 como grande especificidade “religiosa” do país de Voltaire.

Nos inícios do século XX, quando se legislava quanto à laicidade, do outro lado da barricada estava a igreja católica. Com maior ou menor razoabilidade, grandes ou pequenas dores de parto, os seus princípios consolidaram-se e o assunto deixou de ser tema de atualidade.

A mudança acontece quando aparece uma agenda de islamização das instituições e do espaço público. Face ao perigo (sim, é um perigo!) representado, achou-se por bem utilizar como travão a tal lei de 1905. Vocês não podem avançar por aí, porque a sociedade não pode ser islamizada, nem cristianizada, nem “nanada”. Até temos uma lei antiga que sacraliza o carácter laico do espaço público. Não foi redigida agora em cima do joelho especificamente contra o islão. Entendo que estamos em presença de uma guerra, mas a ser travada no campo de batalha errado.

Há alguns anos, passei em Nantes na segunda metade de dezembro. Havia umas iluminações no espaço público, mas não eram de Natal. Chamavam-lhe Viagem no Inverno e os motivos eram uns caixotes coloridos, sem gosto nem fantasia… é por aqui que queremos ir nesse caminho para uma laicidade radical? Para uma sociedade sem gosto e sem carácter, desinfetada e esterilizada?

Um crucifixo na parede de uma escola pública é algo a banir, certo! Uma jovem que usa um fio ao pescoço e na ponta um pequeno crucifixo é caso de polícia? Se não é, então a colega do lado poderá usar uma cruz de David ou um crescente islâmico. Agora, uma jovem embrulhar a cabeça num pano, que amarra nos queixos, obrigada socialmente a uma imagem assexuada, porque que quem sai à rua com os cabelos soltos é vista e tratada como uma vadia, está certo? Está certo que precise de o fazer apenas para não ser criticada e incomodada?

Se em 1900 o “inimigo” era a igreja católica, hoje é outro. Talvez seja um pouco ingénuo pensar que podemos travar esta batalha com as mesmas armas do século passado. O contexto cultural subjacente ao projeto de poder católico de então é muito diferente do islâmico atual.

O que é necessário dizer (ou legislar) sem complexos é: Meus senhores, o que pedem é incompatível com os valores da nossa sociedade. Não sendo perfeita é largamente superior em termos de prosperidade, bem-estar e felicidade dos seus cidadãos àquelas em que os vossos princípios imperam. E ponto final (ou não).

 Existem dois fatores que concorrem a desequilibrar as forças nesta batalha. São a demografia e a democracia. Infelizmente soma-se um efeito amplificador de alguns políticos para os quais: inimigo do meu inimigo, meu aliado será. Esses políticos progressistas, prontos a achar irmandade com causas obscuras, poderão olhar para o caso do Irão. Onde ficaram depois da revolução os seus confrades aliados dos islamistas e o atual estado de liberdade e de igualdade que se vive no país, após ter sido salvo das maléficas influências ocidentais.

Sim, há uma guerra em curso, mas combatê-la apenas no campo da laicidade não é eficaz nem suficiente.

11 junho 2026

Anticlerical e laicidade


Foi Miguel Unamuno quem me chamou a atenção para Guerra Junqueiro. Um espanhol? Quem diria! Nem tanto. Unamuno é uma das mais ibéricas figuras culturais da península e entre a Salamanca onde ele finou e Freixo de Espada à Cinta onde Junqueiro nasceu, a distância, geográfica e não só, é menor do que entre elas e a capital do respetivo reino.

Como o português, Unamuno foi um ativista da mudança desencantado pelo resultado das revoluções que advogaram, o espanhol por duas vezes.

Uma das obras de referência de Guerra Junqueiro é este “A Velhice do Padre Eterno”, muito, muitíssimo anticlerical. Pode-se argumentar que ele tem razão, em parte. Em parte, o clero, e especialmente naquela altura, era merecedor dos seus mimos, ironias e sarcasmos. Certamente outros clérigos haveria íntegros e bem-intencionados.

Uma diferença fundamental entre a igreja de há um século e meio e a atual é hoje ter muito menos poder, fora daquilo que é o âmbito fundamental da religião. Acredito que os esforços, em parte brutais e excessivos, de travão às fainas sociais das sotainas, isso proporcionaram. Haveria outras formas, mais justas? Não sei.

Uma coisa sei e com boa certeza. Há uma religião que está a precisar de algum tratamento de choque análogo.

E, como ironia, transcrevo um dos poemas do livro, objeto da ilustração de capa acima representada.

PARASITAS

No meio duma feira, uns poucos de palhaços

Andavam a mostrar, em cima dum jumento,

Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,

Aborto que lhes dava um grande rendimento.

 

Os magros histriões, hipócritas, devassos,

Exploravam assim a flor do sentimento,

E o monstro arregalava os grandes olhos baços,

Uns olhos sem calor e sem entendimento.

 

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos;

Deram esmola até mendigos quase nus.

E eu, ao ver esse quadro, apóstolos romanos,

 

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,

Que andais pelo universo, há mil e tantos anos,

Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

10 junho 2026

A nossa Pátria


Ouvi recentemente uma figura das artes brasileiras argumentar que, após estudar e aprender várias línguas latinas, descobriu a sua língua, o brasileiro, supostamente suficientemente distinto do português para dever ser considerado uma língua autónoma. Quando esperava algum desenvolvimento e exemplos concretos dessa diferença, argumentou que as pessoas no Brasil sentiam orgulho em falar em música brasileira e outros campos onde se usasse o mesmo adjetivo, mas referir a sua língua como português, não agradava a muita gente.

Sendo assim, parece que se trata de mudar a capa da gramática, ficando o povo feliz, liberto dessa ligação ao antigo colonizador, que, aparentemente, ao dar independência ao país, terá lançado uma feitiçaria poderosa que dois séculos depois ainda limita o desenvolvimento do país.

Eduardo Agualusa veio mais recentemente tocar na mesma tecla, sugerindo o a mudança do nome do idioma para “língua geral”, expressão usada há vários séculos para as línguas mestiças utilizadas no Brasil. Parece tratar-se de um objetivo cosmético de apagar a assinatura da “supremacia cultural europeia”, colonizadora e maligna.

Como dizia Fernando Pessoa, “A minha Pátria é a língua portuguesa” e esse património é rico. No dia de Camões em que, mais do que Portugal, se celebra um dos maiores expoentes da língua portuguesa, o dia deveria ser de festa para todos aqueles que devem uma boa parte da sua herança cultural ao genial poeta.

Se há quem tenha problemas e angústias em assumir esse legado, incluindo eventualmente o senhor Aguageral, que tentem resolver o seu problema de alguma forma, mas sem fazer figuras ridículas.

08 junho 2026

A Ditosa Pátria


Entre “Os Lusíadas” de Luís de Camões e a “Mensagem” de Fernando Pessoa, fica a “Pátria” de Guerra Junqueiro. Em contextos e estilos muito diferentes, há algo em comum nestas três magnificas obras poéticas. O amor dos seus geniais autores pela sua ditosa Pátria, numa declaração inquieta e pujante, face a uma realidade decadente.

Em Camões temos a epopeia e o heroísmo, em Pessoa o fantástico e o misticismo, em Junqueiro o desespero e a loucura. O pano de fundo da “Pátria” é o do momento da aceitação do ultimato inglês de 1890 e a respetiva gestão por um rei, D. Carlos, apresentado como mundano, socialmente insensível, incompetente e irresponsável.

Este episódio tem características únicas e irrepetíveis. Participamos em poucas guerras, muito menos saindo delas como perdedores, pagando por isso humilhações deste tipo. Ocorre também num momento de esgotamento do regime monárquico. D. Carlos era muito diferente do seu tio Bem Amado, D. Pedro V. Os republicanos aproveitaram para capitalizar o descontentamento provocado e mobilizar vontades para a mudança de regime.

Guerra Junqueiro acreditava que a sorte do país seria diferente sob um regime republicano e na teoria teria razão. É potencialmente mais seletivo ao mérito, mais justo e assim, supostamente, mais próspero. Lutou, com a pena, por esse ideal, mas o resultado da Primeira República, muito diferente do modelo cívico de elevação moral que ele imaginara, rapidamente o desiludiu. As lutas partidárias, corrupção e violência, a começar pelo regicídio, amarguraram-no a ponto de refazer uma nova versão mais macia da “Pátria”, esta sem interesse.

Hoje não corremos o risco de receber ultimatos humilhantes e as teorias disruptivas de mudança de regime também não estão muito pujantes com uma revolução possível ao virar da esquina. No entanto, a incapacidade de a liderança do regime ser um modelo cívico de elevação mantém-se, somando-se os casos desde Primeiros-Ministros a Presidentes de Junta de Freguesia.

Como a ditosa Pátria vai sair e para onde irá, não sabemos, mas corre o risco de enlouquecer à imagem do “Doido” de Junqueiro e sabe-se lá o que pode fazer um louco.


06 junho 2026

Os refugiados eternos

No processo de Independência das colónias portugueses de África, cerca de 500 mil portugueses regressarem à metrópole. Ficaram conhecidos por “retornados”. Foi criado um organismo designado IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais) para apoiar esses refugiados à chegada, já que nem todos viriam com diamantes cosidos nas bainhas das calças.

Independente das justiças e injustiças ocorridas na gestão desse processo e se a duração foi curta ou excessiva, em 1975 era consensual a necessidade de um mecanismo de apoio. Se hoje ainda houvesse netos de retornados a viverem em tendas, em campos de campismo, subsidiados por um ainda existente IARN, isso já seria muito difícil de entender e justificar.

A eternização de gerações de refugiados por longas décadas é obviamente um absurdo, fruto de uma lógica onde esses seres humanos são ferramentas e vítimas de uma agenda que não é a dos seus interesses humanos. Existem dois bons exemplos dessas situações atualmente. A famosa dos palestinianos, que dura desde a independência de Israel de1948, onde alguns já estarão para lá de netos… A outra, menos conhecida, é a dos Saarauis, “refugiados” ainda presos em Tindouf, na Argélia desde 1975, data da invasão do Saara Ocidental por Marrocos. Não há aqui espaço para desenvolver os comos e porquês destes absurdos, apenas referir que algumas razões haverá para esta pobre gente viver miseravelmente e após tanto tempo ainda não estar de alguma forma integrada.

 

03 junho 2026

Gostos…


Não se discutem. Gosto de histórias com pessoas, suas particularidades e subtilezas, mais de que de construções filosóficas e complexas. Acredito que estas pecam sempre um pouco por desalinhamento no significado das palavras. Quando se sai para muitas voltas pelo abstrato não é garantido que a abstração e respetivas evocações sejam lidas de forma equivalente entre quem escreve e quem lê.  Entendo que a filosofia é mais interessante e fértil dialogada do que monologada.

Passando aos diálogos, gosto das histórias com muito discurso direto. Penso ser a forma mais eficaz e rica de traçar identidades, desenhar personalidades e “falar” aos leitores.

Vem isto a propósito de algo que li recentemente de Haruki Murakami. Já há algum tempo tinha lido o “Kafka à Beira-mar”, que muito de agradou. Agora foi a vez do “Norwegian Wood”, que me confirmou o autor como alguém que vale a pena ler. Estando bem localizado num espaço e num tempo que não são os nossos, tem o condão de nos fazer entender e viajar na cabeça dos personagens, apreciando a paisagem.

No passado, depois de me agradar um ou dois livros do mesmo autor, partia para uma sequência que apenas acabava quando não vi mais títulos do mesmo nas estantes das livrarias. Neste caso, hesito. Tenho algum receio de que o próximo possa não estar à altura das expectativas… A ver quanto tempo demorará a superar esse receio.

02 junho 2026

E acabar de vez com a mistificação?


No meu texto designado “O filho bastardo” e publicado a 26 de maio, refiro que esta revolução e respetiva larga aceitação nos momentos iniciais foram em muito consequência da incompetência, intolerância e violência da Primeira República. Li posteriormente isso ser classificado como uma apologia da ditadura, o que não é obviamente correto. No próprio dia 28 de maio não se sabia exatamente para onde o regime ia, mas sentia-se a necessidade da rutura. Posteriormente alguns desses apoiantes da primeira hora terão ficado desiludidos e passaram a opositores. O 25 de abril também teve um largo apoio popular inicial que, face à diversidade e até incompatibilidade dos projetos subjacentes, acabaria por ver apoiantes passarem a opositores, conforme a evolução concreta.

Considerar a Primeira República como um regime democrático é mais uma mistificação. O seu grande líder Afonso Costa defender que “o PRP deve permanecer no poder para defender o povo, mesmo contra a vontade do próprio povo», diz muito quanto à dimensão democrática desse projeto. Esta doutrina não ficou pela teoria e várias vezes o PRP recorreu à violência e intimidação para se manter no poder.

O primeiro regime republicano caiu principalmente pelos seus próprios erros e não como uma inocente vítima de malvadas forças reacionárias. Está mais do que na hora de acabar com a mistificação, ilimitada tolerância e tribal simpatia para com os Afonsos Costas deste mundo, se não queremos voltar a ver Salazares. 

31 maio 2026

Sim, é execrável


O ministro israelita Ben-Gvir é um personagem execrável, grosseiro e sem respeito pelos princípios básicos dos direitos humanos. O filme em que ele se apresenta a humilhar os ativistas da última flotilha é um triste e condenável exemplo.

Essa condenação não justifica que se considerem todos os israelitas e por demais de razão todos os judeus do mundo igualmente execráveis. Tão pouco justifica o destaque planetário que provocou, pela simples razão de que há coisas muito piores a decorrer em simultâneo, que são ignoradas. Alguns exemplos: o que se passa na China com os Uigures vai muito para lá da humilhação de uns ativistas que decidirem ir provocar o lobo. É gente em sua casa, na sua terra a quem são retirados direitos básicos ao longo de décadas. Os massacres em Myanar e no Sudão, onde não se trata de humilhação, mas sim de assassinato em massa também não são notícia. O calvário sofrido pelas minorias religiosas, por exemplo pelos drusos na Síria não comove muita gente, nem desencadeia flotilhas.

Por outro lado, uma escaramuça entre colonos e palestinianos na Cisjordânia é sempre bem noticiada. Não está em causa defender todas as ações de Israel, mas no histórico das hostilidades estas foram quase sempre desencadeadas pelos árabes que não aceitam o estado judeu, que a seguir se defende, desproporcionalmente, é um facto. Há quem “religiosamente” não o queira reconhecer, mas façam um esforço de objetividade.

Podemos discutir se a decisão da criação de Israel em 1947 terá sido um erro, mas o tempo dessa discussão já passou. A história da humanidade está plena de decisões injustas que muito sofrimento provocaram, por exemplo no desmembramento dos grandes impérios, no redesenho das fronteiras europeias após as guerras, mas as feridas provocadas acabam sempre por sarar. No caso de Israel, continua a haver gente com poder que não desiste do projeto de “atirar os judeus ao mar”. Como isso nunca irá acontecer, nunca veremos estabilização. Os ativistas que consciente ou inconscientemente fazem coro com essa reivindicação não estão a lutar pela paz.

Sobre fazer prologar a crise e a vitimização: Ainda há netos refugiados das ex-colónias português após 1974 a viver em tendas em parques de campismo, subsidiados por um IARN? Porque é que os descendentes dos palestinianos que saíram de Israel em 1948 ainda são “refugiados” e as centenas de milhares de judeus que na mesma altura tiveram que abandonar os países árabes não o são?