10 março 2026

O fim dos segredos

É o anunciado na capa do livro, mas como já passaram uma dezena de anos desde a sua publicação, certamente que novos segredos ter-se-ão, entretanto, acrescentado.

Trata-se de um tema que me interessa por várias razões e mais uma. Por que raio as pessoas se associam em “caixinhas” para secretamente combinarem e planearem ações que potencialmente podem influenciar toda a sociedade? Num mundo livre, como o nosso, no mínimo é deselegante.

Este livro visita em várias dimensões as duas organizações mais relevantes desse campeonato e várias diferenças entre as duas ficam evidentes, para lá daquele contraste típico do esquerda-direita, religioso-laico e outros binómios tradicionais que tais.

O Opus Dei parece ser muito mais organizado e centralizado, tendo alguns aspetos que me custa muito a aceitar. Para começar, a idade com que começam a recrutar os jovens e a falta de liberdade imposta aos membros. Seja intelectual (a que Diabo lembrará proibir a leitura de uma boa parte de Eça de Queiroz!?), seja económica, especialmente dos numerários, com a entrega integral do seu vencimento à organização, além de a fazerem beneficiária do seu testamento. O estatuto das numerárias-auxiliares que prestam serviços domésticos na organização “gratuitamente” é indigno e bem capaz até de ser ilegal em termos de direitos do trabalho (para não falar de humanos). Castigos corporais impostos e obrigatórios também não pertencem a estes tempos em geral nem à doutrina cristã em particular.

Tem, no entanto, o OD objetivos claros, anunciados e praticados. Concordando ou criticando, entende-se ao que vêm. Na maçonaria é bastante mais vago. Certo que historicamente, há um século atrás, eles diziam ao que vinham e “lutavam” abertamente por isso, mesmo com armas e milícias, mas hoje não é claro. Têm a sua cartilha e objetivos, mas pessoas como Isaltino Morais estarão lá pelo catecismo oficial? Estão a vê-lo a filosofar e a expressar grandes ideias e princípios…? Qual a motivação que pessoas desse calibre têm e o que espera a organização deles, mesmo frescamente saídos da cadeia? Qual o resultado social efetivo e público das ações da organização? É tudo secretíssimo?

Podem ambas as organizações explicar o seu apetite pelo recrutamento de gente influente? Parece-me que o objetivo imediato das duas é o poder, seja poder pelo poder, seja como meio para atingir o seu graal, sendo a natureza prioritária (realço a palavra) desse caminho diferente entre as duas. O OD busca o poder sobretudo pela vertente financeira. Uma boa parte dos seus “famosos” são gente ligada a bancos e outras instituições financeiras. A maçonaria, pelo menos a principal, busca o poder pela influência política. O número de maçons nas estruturas de Estado, seja no Governo, seja nas instituições tuteladas pelo mesmo é desproporcional à sua presença na sociedade. Assim sendo, pertencer à irmandade pode ser um bom passaporte para certos lugares…

Há algo que me incomoda, e talvez mais significativo no caso da maçonaria, que é a gestão facciosa e obscura das estruturas e bens públicos. Ambas as irmandades têm reflexos tribais. A responsabilização exigida a quem tem poder sobre aquilo que não lhe pertence obriga a transparência. Enquanto isso não existir, o sistema não será são.

Uma (pequena) provocação final. Para quando um Rui Pinto dedicado a tornar públicos eventuais esquemas que orbitam por aqueles lados…?

PS: De assinalar um ponto comum entre ambas que é, embora de forma diferente, a menorização do estatuto da mulher.

 

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