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02 maio 2026

F1 – Febre de ultrapassagem


Depois das duas corridas anuladas pela guerra no Médio Oriente, que assim encontra algumas dificuldades no seu caminho para ser a nova Meca deste caro desporto, a F1 regressa este fim de semana. Após as três primeiras corridas a polémica é grande quanto à razoabilidade das novas regras de gestão da potência elétrica, que provocam alterações abrutas e perigosos na velocidade das máquinas.

Este cenário recorda-me aqueles filmes de competição em que há dois carros par a par numa longa reta e o herói tem a inspiração de encontrar mais uma velocidade e espremer mais o acelerador, afastando-se assim brilhantemente do vilão. É irrealista porque numa corrida a sério, no meio de uma grande reta vão todas as mudanças metidas e o acelerador já a fundo, sem reserva. As ultrapassagens a sério, entre carros de desempenho idêntico são feitas nas trajetórias e travagens nas aproximações às curvas. Ver os exemplos históricos acima de Villeneuve x Arnoux em França 1979 e Piquet x Senna na Hungria 1986 (desculpem a qualidade das imagens, não encontrei melhor).

Hoje, parece que estamos numa realidade próxima dos filmes que eram irrealistas. Com os eletrões a serem libertados quando se quer/pode, qualquer um ultrapassa qualquer um, como quem limpa o coiso a meninos… Dizem que estas medidas de facilitar as ultrapassagens ajudam ao “espetáculo”…. A sério?

Recordo-me de outro episódio também histórico e também com Gilles Villeneuve, desta vez em Espanha 1981. Com um carro mais lento do que a concorrência e uma capacidade de condução muito acima da média, o canadiano aguentou um comboio de quatro carros atrás dele durante mais de 60 voltas, sem um único erro e sem permitir a ultrapassagem. O 5ª terminou a 1,24 segundos do primeiro, tão compacto era o comboio. Com o regulamento atual nem duas voltas o comboio duraria, provavelmente nem se formaria sequer. DRS em cima e ops, ninguém fica atrás de ninguém …

Onde está o espetáculo mais interessante e revelador das qualidades de pilotagem?

02 dezembro 2025

A exclusividade está nos resultados


A Fórmula 1 é um desporto de alta emoção (para quem gosta, claro) e as preferências relativamente aos pilotos frequentemente têm uma componente subjetiva e emotiva, que vai para lá dos frios resultados objetivos. Não é por acaso que Gilles Villeneuve com apenas 4 temporadas e meia disputadas e 6 vitórias registadas, continua a ser recordado, 43 anos após a sua morte. Muitos acham (aqui o escriba incluído) que as suas características de pilotagem, combatividade e além disso humanas não foram igualadas. Não me peçam para ser racional a suportar esta consideração.

Dentro dos campeões mais recentes nem Hamilton nem Verstappen me entusiasmam, nem suscitam empatia. Acho mesmo que a imagem cultivada por Hamilton de “amigo do ambiente”, com dieta vegan, redução do uso de plásticos, veículos elétricos, etc, é algo incompatível com a sua profissão, para não dizer que entra claramente no campo da hipocrisia. Como é possível conciliar isso com ser piloto de F1, automóveis que bebem combustível como ogres, gastam pneus a um ritmo alucinante, enormes quantidades de peças de desgaste de vida curta, sem falar em recorrentes acidentes que muito material enviam para a sucata…. acrescentando ainda o périplo geográfico mundial de equipas e demais staff. Podem tentar melhorar algo, mas para contabilizar isto como atividade amiga do ambiente é necessária muita, muita boa vontade.

Com grande impacto mediático foi anunciado no início da época de 2024 que para 2025 ele integraria a Ferrari. Esta antecipação é estranha. Por muito profissionais que sejam as equipas e os pilotos, passar a época inteira a saber que no final tudo muda é algo desconcertante para quem sai e para quem entra.

Para lá da estranheza do “timing”, parecia também pouco garantido o impacto e resultados desportivos que ele aportaria, apesar de toda a experiência e palmarés.  Não parecia possível a repetição do milagre “Schumacher” na equipa italiana dos anos 2000. Não me parecia a mim, fã dos carros vermelhos, nem a gente bastante sabedora e com muitos kms de F1, como Bernie Ecclestone e Eddie Jordan. Eles questionavam se o interesse da Ferrari seria desportivo… ou de marketing (capas de revista...) e que desportivamente a Ferrari muito mais bem servida continuando com Carlos Sainz Jr.

Numa entrevista à Time, foto acima (sim, o modelo catita é um piloto de F1), Hamilton contra-argumentou que não tinha que dar ouvidos a velhos, ainda por cima brancos. Que era o primeiro e único negro campeão de F1, que era diferente, a idade para ela corria de outra forma, etc. Enfim, eu julgava que a não discriminação racial era um caminho com dois sentidos. Acrescentava ainda que receava encontrar na Ferrari um ambiente menos diverso e inclusivo do aquele a que estava habituado na Mercedes. Uma entrevista muito à la moda.

O início da temporada de 2025 foi decepcionante. O carro não esteve brilhante, mas o seu colega de equipa foi sistematicamente superior. Falta de habituação ao carro, diziam. Quando já em agosto, na Hungria, Leclerc faz a pole-position e Hamilton fica pelo 12º lugar da grelha, este classifica-se como um “inútil”. Estão a ver Villeneuve assim resignado, ele que desde que o motor trabalhasse e o carro tivesse no mínimo duas rodas nunca baixava os braços? Ou Senna?

O final da época já cai no domínio da humilhação. No Qatar parte 17º; vá lá que melhorou e terminou em 12º, Sainz, a quem ele tomou o lugar e passou a uma equipa teoricamente inferior, acabou no pódio.

Hamilton não é um Schumacher nem um Lauda. Os grandes pilotos são os que desenvolvem e melhoram as equipas por onde passam, não os que caiem em choradinhos. Como aparecerá trajado física e mentalmente na próxima capa de revista?

08 maio 2018

Gilles


8 de maio de 1982, faz hoje exatamente 36 anos. A sessão de treinos do GP de F1 da Bélgica está a terminar, mas há um piloto que quer absolutamente superar o tempo do seu colega de equipa. Os pneus de qualificação já estão gastos, mas para ele, desde que o motor trabalhe e o carro tenha rodas, os braços não baixam.

Esse piloto de combatividade inesgotável, que nunca desiste, é Gilles Villeneuve. Na corrida anterior, quando os dois Ferrari rodavam tranquilamente na frente e vieram ordens da box para abrandar, Didier Pironi ultrapassou-o inesperadamente na última volta, roubando-lhe a vitória. Uma traição inaceitável e imperdoável dentro dos princípios puros de Gilles. Agora, ele quer provar que é o mais rápido e lança-se para a pista, para tudo. Um acidente estúpido, como a maioria, com Jochen Mass em marcha lenta, faz o Ferrari levantar voo, partir-se ao tocar no solo, projetando o corpo do pequeno canadiano, que terminou ali a sua vida e a sua carreira de piloto de F1. Tinha começado no grande prémio de Inglaterra de 1977, 5 anos antes.

Gilles foi vice-campeão em 1979, disciplinadamente atrás de Jody Scheckter, piloto principal da equipa e venceu 6 grandes prémios, apenas. Numa ordenação objetiva de pilotos por resultados, Gilles não estaria no top 10 e provavelmente nem sequer no top 20. Porque deixou então tantos órfãos afetivos, porquê na Galeria Ferrari em Maranello tem mais destaque do que outros que foram mesmo campeões com os carros vermelhos? Talvez porque para lá de um piloto muito rápido, Gilles nunca desistia, nunca, e como ser humano era duma frontalidade, integridade e lealdade irrepreensíveis.

Porque, mais do que das 6 vitórias, nos recordamos de 6 outras coisas

1- De na estreia em Inglaterra 1977, a pilotar pela primeira vez um F1, modelo obsoleto do ano anterior, se ter qualificado à frente de um dos pilotos oficiais da equipa, com carro novo, top e tudo.
2- Por numa sessão de treinos à chuva nos USA em 1979, ter dado 9 segundos ao seguinte.
3- Por no Canadá 1981 ter feito a maior parte da corrida com a asa dianteira obstruindo a visão e depois desaparecida, sem reduzir tempos, como se esse apêndice aerodinâmico fosse dispensável
4- Por na Holanda 1979 ter regressado à box em 3 rodas, para nada, mas sem deixar de lutar até ao fim
5- Por em Espanha 1981, com um carro nitidamente inferior à concorrência, ter vencido, controlado um engarrafamento de 4 perseguidores, que cortaram a meta todos a menos de segundo e meio.
6- Pelo GP de França 1979 e o seu duelo épico pelo segundo lugar com R. Arnoux, coisa sem paralelo.

E também porque os grandes condutores posteriores se revelaram de mau caráter, não hesitando em provocar intencionalmente um acidente nas últimas corridas, para sujamente tentar garantir o seu título. A saber: Prost contra Senna no Japão 1989; Senna contra Prost no Japão 1990, Schumacher contra J. Villeneube (o filho…) no GP Europa de 1997.

Grande piloto, grande homem, para sempre grande Gilles!