Durante muito tempo, assumir a laicidade como um pilar básico na organização da nossa sociedade foi praticamente consensual e levantando poucas dúvidas quanto ao respetivo significado. Como Cristo disse há uns séculos: A César o que é de César. Como se disse à igreja católica há mais de um século: podem continuar a celebrar batismos, mas nenhum cidadão será menos cidadão só por não ter tido o crânio regado numa pia batismal.
O termo voltou, entretanto, ao primeiro plano, arrastando
polémicas e controvérsias quanto à sua interpretação. Em França, que funciona
um pouco como balão de ensaio para muitas questões sociais, agita-se e
recorda-se uma lei de 1905 como grande especificidade “religiosa” do país de
Voltaire.
Nos inícios do século XX, quando se legislava quanto à
laicidade, do outro lado da barricada estava a igreja católica. Com maior ou
menor razoabilidade, grandes ou pequenas dores de parto, os seus princípios
consolidaram-se e o assunto deixou de ser tema de atualidade.
A mudança acontece quando aparece uma agenda de islamização
das instituições e do espaço público. Face ao perigo (sim, é um perigo!)
representado, achou-se por bem utilizar como travão a tal lei de 1905. Vocês
não podem avançar por aí, porque a sociedade não pode ser islamizada, nem
cristianizada, nem “nanada”. Até temos uma lei antiga que sacraliza o carácter
laico do espaço público. Não foi redigida agora em cima do joelho especificamente
contra o islão. Entendo que estamos em presença de uma guerra, mas a ser
travada no campo de batalha errado.
Há alguns anos, passei em Nantes na segunda metade de
dezembro. Havia umas iluminações no espaço público, mas não eram de Natal.
Chamavam-lhe Viagem no Inverno e os motivos eram uns caixotes coloridos, sem
gosto nem fantasia… é por aqui que queremos ir nesse caminho para uma laicidade
radical? Para uma sociedade sem gosto e sem carácter, desinfetada e
esterilizada?
Um crucifixo na parede de uma escola pública é algo a banir,
certo! Uma jovem que usa um fio ao pescoço e na ponta um pequeno crucifixo é
caso de polícia? Se não é, então a colega do lado poderá usar uma cruz de David
ou um crescente islâmico. Agora, uma jovem embrulhar a cabeça num pano, que
amarra nos queixos, obrigada socialmente a uma imagem assexuada, porque que
quem sai à rua com os cabelos soltos é vista e tratada como uma vadia, está
certo? Está certo que precise de o fazer apenas para não ser criticada e incomodada?
Se em 1900 o “inimigo” era a igreja católica, hoje é outro. Talvez
seja um pouco ingénuo pensar que podemos travar esta batalha com as mesmas
armas do século passado. O contexto cultural subjacente ao projeto de poder
católico de então é muito diferente do islâmico atual.
O que é necessário dizer (ou legislar) sem complexos é: Meus
senhores, o que pedem é incompatível com os valores da nossa sociedade. Não sendo
perfeita é largamente superior em termos de prosperidade, bem-estar e
felicidade dos seus cidadãos àquelas em que os vossos princípios imperam. E
ponto final (ou não).
Existem dois fatores
que concorrem a desequilibrar as forças nesta batalha. São a demografia e a
democracia. Infelizmente soma-se um efeito amplificador de alguns políticos
para os quais: inimigo do meu inimigo, meu aliado será. Esses políticos
progressistas, prontos a achar irmandade com causas obscuras, poderão olhar
para o caso do Irão. Onde ficaram depois da revolução os seus confrades aliados
dos islamistas e o atual estado de liberdade e de igualdade que se vive no país,
após ter sido salvo das maléficas influências ocidentais.
Sim, há uma guerra em curso, mas combatê-la apenas no campo
da laicidade não é eficaz nem suficiente.













