Há uma certa esquerda que na sua ficha de autoidentificação garante serem os mais bonzinhos da praça, estarem sempre disponíveis para denunciarem e combaterem coisas más e quanto mais extremistas forem, maior a respetiva bondade. Sim, fazem bandeira de valores como a liberdade, a justiça social e a igualdade, mas nos dias que correm já se torna difícil fazer uma verdadeira diferenciação por esse caminho. Especialmente no mundo Ocidental, não estamos de todo em cenários de romance neorrealista do século XX.
A esquerda perde as classes operárias e quanto mais à
esquerda, maior a perda. A teoria de Marx de que as injustiças do capitalismo
levariam à revolução comunista e quanto mais capitalismo mais cedo ela
chegaria, falharam completamente. O sucesso do capitalismo matou o comunismo.
Sim, podemos criticar o sistema capitalista, mas é nesses países que melhor se
vive neste mundo.
Se há locais no mundo em que essa militância tem muitas
razões para intervir é no terceiro-mundo. Muito mais injustiça social existe em
Angola do que em Portugal, por exemplo. No entanto, não parece ser cómodo ir aí
pregar e até se invoca com um certo paternalismo que, coitados, “tudo” é ainda herança
dos malefícios da colonização, cujos herdeiros devem assumir e pagar a culpa
fundamental. Certo é que se esses países fossem governados por um sistema do
tipo ocidental e capitalista o seu povo viveria muito melhor e é isso o que
mais conta.
Perdidos os seus clientes proletários na Europa, curiosamente
em grande parte recuperados pela extrema-direita demagógica, a esquerda
boazinha precisou de encontrar novas causas de práticas ocidentais mazinhas,
contra as quais hastear bandeira. O capitalismo é um mal e encontrar-se-ão
sempre práticas nocivas a denunciar e a combater.
As novas causas passaram a ser as minorias, sejam elas
étnicas, culturais, religiosas ou de qualquer outra natureza, supostamente
injustiçadas. Mais uma vez, há aqui alguma incoerência e enviesamento. Alguns
exemplos: os direitos das minorias muçulmanas na Europa são comparáveis com os
dos cristãos no Médio Oriente? A situação dos LGBTs no Ocidente é equiparável
com o que se passa em muitos países árabes ou africanos? Querem comparar a
situação dos ciganos por cá com a dos uigures na China? Já vimos esses
militantes das boas causas ativamente denunciando essas situações, muitíssimo
mais graves? Claro que no Ocidente há liberdade para manifestar e criticar
enquanto noutras partes do mundo é menos fácil…
Um dos mais caricatos e risíveis exemplos desta militância pelos
direitos das minorias ocorreu há dias no Parlamento Europeu. Ao iniciar uma
intervenção, a eurodeputada irlandesa do Sinn Féin, Lynn Boylan, lamentou-se de
não ser possível expressar-se na sua língua materna, o gaélico. Mais um exemplo
e uma denúncia da opressão cultural e de desrespeito para com as minorias.
Quando lhe informaram de que sim, de que o podia utilizar, já que havia
serviços de tradução disponíveis para a sua língua, ela ficou engasgada. Disse
que não estava preparada e continuou em inglês. É um pequeno episódio, mas com um
simbolismo enorme.














