1) 1- Até parece mentira
Há 40 anos, mais dia, menos dia, sentava-me para o meu
primeiro dia de trabalho, após sair da universidade. O professor Marques dos
Santos, por quem tinha e tenho muito apreço, lançara-me o desafio. Depois de 17
anos em salas de aula, entendi que não faria muito sentido por continuar esses
locais, mesmo mudando de posição relativa, e aceitei ir viver o “mundo real”.
Sentei-me, pensei e disse: - Então como é que se começa a
trabalhar? Puseram à minha frente um manual do microcontrolador (microprocessador
com algum recheio adicional) Hitachi 6303, baseado na família Motorola 6800.
Vou deixando algumas referências técnicas para enquadrar melhor o tema a quem
conhece, mas não demasiadas, a ponto de tornar o texto intragável aos não
iniciados.
Tratava-se de um bicho com 64 patas, em torno do qual eu
desenhei um circuito e que após uma industrialização básica, me regressava como
uma placa eletrónica. Do ponto de vista da arquitetura era um pequeno
computador, com tudo o que deveria ter, só que completamente virgem de
software. Comecei por mapear a memória, definir os interrupts, configurar a
stack (… e já chega de palavrões). Sendo a primeira utilização daquele
processador na empresa, não havia biblioteca de nada e tudo devia ser
programado em linguagem máquina, passado para uma Eprom, ficando-se a ver até
onde corria como previsto.
Por essa altura, quando coçava a cabeça com uns 5C teclados
por C5 e alguns FFs à mistura, li algo a primeira vez sobre os vírus
informáticos. Uma “coisa” que se incrustava, se escondia por uns tempos, depois
se propagava sem controlo, parecia-me do domínio da ficção. Convém recordar que
nessa altura não havia internet e um PC comunicar com um vizinho era algo muito
árduo.
Tive sensação análoga agora ao ler notícias sobre agentes de
IA que escapam ao controlo dos seus criadores e ganham vontade própria. Sabendo
que no fundo, lá no fundo da programação está sempre um “Se isto, faz aquilo”, estas
liberdades cibernéticas parecem-me algo incongruentes.
Mas esta IA tem mais que se lhe diga…













