27 agosto 2026

Mentiras em S. Bento, verdades em Barcelos


Fundos soberanos são tipicamente coisas de países ricos que, em vez de deixarem o pé-de-meia debaixo do colchão, o investem aqui e acolá. No caso do nosso, que passa a vida de mão estendida, precisaria de estender as duas e, atendendo ao notório insucesso das suas investidas em empresas, as expetativas não são positivas.

Quando não se sabe justificar objetivamente uma decisão, é prática comum invocar um presumido e vago interesse estratégico. Quanto à entrada no capital da REN, o Primeiro-ministro ousou concretizar e anunciou que tal participação iria permitir aos portugueses virem a pagar menos pela eletricidade. Como explicaram vários conhecedores, alguns até da mesma cor política, isso é mentira. Face à regulação a que já está submetida e empresa, de forma nenhuma a presença de um ou dois administradores públicos no seu conselho de administração poderá ter impacto nas nossas faturas futuras.

Para não ficarmos pelas mentiras, evoco uma verdade. O hospital público de referência para o meu concelho é o de Santa Maria Maior, de Barcelos. Com todo o respeito e reconhecimento pelos profissionais de saúde que aí trabalham, aquilo não são instalações deste século, nem os meios disponíveis compatíveis com a dimensão da população atendida. Seria muito mais estratégico para mim, e para uns largos milhares de utentes, dispor de uma boa infraestrutura de saúde. Os potenciais futuros administradores públicos nomeados para a REN terão certamente outras prioridades, mas em contabilidade democrática a sua derrota seria esmagadora.

26 agosto 2026

Assim progredimos


Foi hoje anunciado o nascimento de um “think tank”, ou “do thank” ou sabe-se lá se não evoluirá para piscina. Pretende ser um laboratório de ideias de esquerda. Não entendi bem qual a alquimia prevista e o que falta inventar.

A coisa intitula-se Instituto Progresso, desculpem lá a imodéstia, e é liderado pelo senhor da fotografia, jovem senhor que aparentemente ainda não consegue uma barba adulta. Será certamente um excelente político dentro dos parâmetros habituais da classe nos dias de hoje. Para lá da aparelho partidário e cargos públicos políticos nada mais fez na vida e presume-se que nunca fará. Os restantes nomes que vejo citados e encherão o tanque são também gente de carreira política. Até Isaltino Morais lá dará uns mergulhos.

Fico certamente com muitas dúvidas do que nascerá desta salada e do brilhantismo e intelecto espetacular de gente como Pedro Costa. Se por lá está tanta gente com responsabilidades partidárias ao longo de muitos anos, o que faltou para pensarem antes, proporem em programa eleitoral e levarem à prática quando governo?

Quando leio que está previsto ““análise e implementação” de medidas concretas que propõe, através de parcerias com “empresas, municípios, escolas, academia e sociedade civil” fico com a nítida sensação de que alguém se prepara para ir ao nosso bolso.

Enfim, para progresso é necessário competência, liderança e integridade, coisas difíceis de descortinar no conjunto destas “personalidades”. Que raio de interesse os une afinal?

22 agosto 2026

As contas de Luís Neves


Não, não se trata de especular novos casos. Apenas recordar que para todos aqueles que são de palavra o prometido é devido.

Logo na fase inicial quando se questionou Luís Neves sobre o montante pago ao seu amigo empreiteiro pelas obras realizadas e face à estranheza quanto ao reduzido valor anunciado de cinco mil euros, o ministro declarou que as contas seriam fechadas no final.

Na conferência de imprensa de 29 de julho, ficamos a saber que a Construbarcelos já não estava a realizar obras no monte alentejano. Como quem trabalha quer ser pago e não há piscinas grátis, presumimos que já devem estar as contas fechadas e as faturas emitidas.

Podemos ver a lista de trabalhos e a respetiva valorização, para termos a certeza de que não houve tratamento de favor…? Se não há nada de errado, Luís Neves só tem a ganhar com esta transparência. Se esconde, não é bom sinal. Não é por o tempo passar em silencio que as dúvidas desaparecem.

19 agosto 2026

A humanidade de Fidel Castro


Não há maior cego do que aquele que não quer ver e a cegueira de uma certa esquerda sobre as experiências comunistas é um caso patológico.

Vimos recentemente passar o centenário sobre o nascimento de Fidel Castro e, fatalmente, não falaram esforços para encontrar méritos no senhor. Cheguei mesmo a ver realçado o seu carácter humano. Considerando que não teria sido um humanoide, do ponto de vista biológico está correto.

Mais difícil será enquadrá-lo numa humanidade que inclui respeito pelos outros seres humanos, empatia, solidariedade e altruísmo; olhar o outro e entender que há sempre algo de comum connosco. Recordando o muito oportuno e humanista Albert Camus

 Os homens são todos diferentes, é verdade, e eu sei das profundas tradições que me separam de um africano ou de um muçulmano. Mas sei também o que nos une, sei que há, em cada um deles, algo que não posso desdenhar sem me destruir a mim mesmo

Fidel Castro teria carisma e capacidade de sedução, especialmente para quem quisesse ser seduzido. Associar isso a humanidade, especialmente com toda a prática repressiva e feroz protagonizada pelo regime, é um abuso e uma estupidez.

Gostava de conhecer um exemplo, um único, de um regime comunista que tivesse tido uma prática humana e de respeito pelos direitos humanos. Penso que nem sequer se consegue encontrar a tal exceção que eventualmente confirma a regra.

Provocação final: que diriam estes admiradores de Fidel, se aparecesse alguém a invocar que, apesar de tudo o resto, Hitler tinha sido um patriota.

18 agosto 2026

Entre a pimenta e o refresco


Gostaria de saber o seguinte. Se a ministra da Saúde ou o primeiro-ministro tiverem, por exemplo, uma forte mal-estar abdominal, com fortes cólicas e acharem que necessitam de atenção médica, ligam para a linha SNS 24, ficando eventualmente uma hora à espera? Depois, apresentam-se na urgência referenciada, suplicando a todos anjinhos para serem contemplados com uma pulseira da cor mais quente possível e aguardam umas boas horas até finalmente verem um médico à sua frente?

Sendo consensual que todos os cidadãos têm os mesmos direitos, viva a igualdade, que neste nosso regime não há prerrogativas de casta, todos, e mesmo todos, os cidadãos deveriam seguir o mesmo processo, independentemente de serem ministros ou amigos dos mesmos, não?

Talvez que se isso ocorresse, se os responsáveis máximos fossem obrigados a provar o remédio que receitam, maior seria a motivação para mudar o estado das coisas. A diferença entre o refresco e a pimenta…!


17 agosto 2026

Deus quer?


As atrocidades cometidas pela inquisição e o seu carácter absolutamente incompatível com os princípios cristãos não são novidade para ninguém. Já em tempos tinha expressado umas reflexões aqui sobre a insanidade que se pode encontrar nos autos dos seus processos.

A obra agora lida de Alexandre Herculano, trouxe-me algo mais sobre a sua génese. Não foi caso de simplesmente um Rei sonhar, um Papa querer e a obra nascer. A realidade foi mais complexa e merece algumas reflexões. Quando Gregório IX estabelece o Santo Ofício inicialmente, no século XIII, a instituição igreja está ameaçada por heresias, muito especialmente os cátaros no sudoeste de França e estes tinham iniciativas proselitistas, buscando ativamente desviar ovelhas do rebanho romano. Sem menorizar a sua crueldade, pode entender-se que Roma tinha razões para se sentir ameaçada e reagir com brutalidade. A lógica era clara.

Em Portugal isto passa-se três séculos depois e bastante a reboque da vizinha Espanha (não foram bons ventos). As expulsões e conversões forçadas ocorreram em 1497, no âmbito do contrato de casamento de D. Manuel I com a filha dos reis católicos. Estes insistiam que deveria existir um Torquemada português. Em Espanha ela vem de 1478, instaurada pouco após a unificação de Castela e Aragão. Pode-se entender que o novo reino, sentisse necessidade de procurar uma entidade identificadora e agregadora na religião. Não parece ser de forma alguma uma situação análoga à de Portugal, onde a definição da identidade estava muito mais consolidada.

O estabelecimento do tribunal da Inquisição no nosso país vai ocorrer em 1536, no reinado de D. João III, cognominado “Piedoso”, apesar de piedade não ter demonstrado muita. O que nos conta Alexandre Herculano na sua obra é que mesmo após a sua criação ocorreu um longo processo negocial (e transacional) entre o Rei a reclamar uma inquisição com plenos poderes, sob a sua alçada e fora da jurisdição e controlo do Vaticano e um papa, Paulo III, muitíssimo renitente. Inúmeros braços de ferro, manobras e golpes de parte a parte. Em termos de “defesa da fé”, D. João III foi largamente mais papista do que o Papa.

Sobe a capa de discussões “teológicas”, existiria obviamente disputa de poder, não sendo de menor importância o destino a dar aos bens dos condenados. No entanto, face ao estado calamitoso do país, porque é que D João III se encarniçou tanto em ter a “sua” inquisição e fez disso uma prioridade? Até que ponto foi determinante a influencia da rainha, Catarina de Áustria, que, aparentemente, mais do que se ver como rainha dos portugueses, via-se como uma Habsburgo, irmã do Imperador Carlos V? Qual o interesse de Carlos V se empenhar tanto em advogar a causa do cunhado e se mostrar tão interessado em ver um Santo Ofício livremente ativo (e assassino) em Portugal? Alguma relação com o facto de a migração ibérica dos judeus de Espanha para Portugal enfraquecer relativamente o seu reino e a fuga dos judeus portugueses para os Países Baixos enriquecer esses territórios… governados também por Carlos V?

A inquisição é uma história de fanatismo e hipocrisia, mas também de brutal maldade e desumanidade desmedidas. A facilidade com que se manipulou e atiçou o “povo” e a forma como foram tratados inocentes cujo único pecado era serem diferentes (e terem sucesso) é algo que nos deve ainda hoje fazer refletir.

A desgraça que tocou o nosso país umas décadas mais tarde não nasceu em Alcácer Quibir.

13 agosto 2026

Em que país?


Todos os cidadãos que de uma forma ou de outra esperaram e desesperaram por um atendimento no SNS certamente se questionam em que país vivemos ou queremos viver. É fácil recordar que os recursos são limitados, porque isso é sempre verdade. No entanto, quando vemos o aumento do orçamento do SNS ao longo dos anos e algumas pontas de icebergue, como o caso do dermatologista do Santa Maria, a faturar dezenas de milhares de euros num único dia, não parece que tudo se resuma a limitações orçamentais. Não faltam vampiros que beneficiando da cumplicidade ou incompetência do pastoreio, chupam gulosamente os impostos da manada.

Há quem argumente que os governos querem destruir o SNS, entregar o negócio a privados e que a saúde não deve ser comércio. A medicina atual e respetiva economia é diferente da dos tempos de João Semana, felizmente. Continuam a existir muitos profissionais dedicados, altruístas e imbuídos de vontade de fazer o bem ao próximo, mas, se entrarmos num hospital público e virmos os equipamentos e os consumíveis presentes, eles foram comprados e pagos a empresas privadas.

Para um doente que necessita de extrair um tumor maligno, o fundamental é a operação ser realizada depressa e bem; para os governantes gestores dos nossos impostos o importante é haver racionalidade na utilização dos mesmos. A placa de identificação do edifício onde a intervenção é realizada será de importância secundária. Soluções extremas de tudo privatizar terão também potenciais efeitos secundários indesejáveis, mas o que não faz sentido é o doente esperar o dobro do tempo, com eventual fatalidade, e desperdiçar-se receita de impostos por posições “religiosas” e não racionais.

Voltando ao país onde queremos viver, e já sem falar em rotundas cibernéticas, festanças e fogos de artificio, precisamos mesmo de espetaculares novos aeroportos, linhas de alta velocidade e outros investimentos públicos vistosos? Talvez precisemos, mas a saúde dos cidadãos é e tem que ser uma prioridade máxima. Mais do que verbas é necessário liderança, competência e integridade. Enquanto lá não chegarmos, deixemos de armar aos ricos para “ingleses verem” e amigos faturarem.

08 agosto 2026

Não sei que lhe diga…

Depois de Camilo, Júlio Dinis e Alexandre Herculano, chegou naturalmente a vez de Almeida Garret. Ele foi um cidadão com uma enorme participação e contributo na vida política e cultural do país, mas esse não é o tema aqui. Apenas o que achei da sua produção literária que li. Pela introdução já dará talvez para entender que não me entusiasmou muito e que tenho alguma dificuldade em sintetizar num traço caraterístico. Pode ser da seleção de obras que fiz...

As duas peças de teatro são interessantes, mas não a ponto de deslumbrar. Talvez seja da escola da época, as personagens são estáticas, acabam como começaram, não se apercebem subtilezas nem evoluções. Custa-me a entender o carácter quase mítico atribuído ao “Ninguém” do Frei Luís de Sousa.

O Arco de Santana é um romance histórico que tem a particularidade notável de tudo acabar em bem. Até a velha judia se converte voluntariamente no final, para nada destoar. O prato principal, que ficou para o fim, foi o Viagens na Minha Terra, cujo saltar da leitura integral muito me tinha trocado as voltas no secundário.

A história entrelaçada é “mais” uma narrativa romântica em que como seria obrigatório, a donzela acaba em morte súbita, suicida, demente ou, no melhor dos casos, em clausura. Tem duas exceções, a inglesa Georgina tem mais força e determinação do que o habitual e Carlos acaba por não ser o garboso cavaleiro irrepreensível que a receita da época prescrevia.

Se já tinha achado que Camilo saltava demasiado da narrativa para se dirigir ao leitor, neste livro Garret ultrapassa-o de forma gigantesca. Os comentários e apartes não se ficam pelo enredo e personagens, mas vão sobre tudo. Algumas reflexões são certamente muito pertinentes, mas gostaria de as ver mais agrupadas e estruturadas e não despejadas a granel, sendo que por vezes parece ser alguém que faz mais garbo em expor da sua enorme cultura geral do que em desenvolver o que pensa.

Para não acabar em negativo, cá vai uma citação:

Fica, é verdade, o direito salvo para chorar depois o erro, lamentar a precipitação do momento e conspirar cada um contra a sua própria obra; mas é tudo o que fica.

 E não obstante isso, assim se fez sempre, assim se há-de sempre fazer, porque o povo nunca se excita fortemente pelo bom do que há-de vir, senão pelo mau e insuportável do que é. Por outras palavras: nenhum demagogo fez nunca uma revolução com os seus programas, por mais artigos que eles tenham; todas as fazem os governos, todas as concita o poder por seus abusos e insolências.

 

06 agosto 2026

A medida da imigração


Frequentemente discute-se a imigração em termos absolutos e redutores: é boa porque isto; é má porque aquilo. Como é óbvio, nem todos os emigrantes são iguais qualitativamente em potencial e cultura, nem todas as escalas são equivalentes.

Por estes dias, os acontecimentos de Ceuta vieram colocar em evidência a falta de consistência dessas abordagens simplistas. A chegada daquela quantidade de pessoas a um espaço como Ceuta em dois dias é obviamente incomportável; se fosse a toda a Espanha durante 10 anos, seria diferente. Onde está o limite?

O limite está certamente na capacidade de integração sem transfiguração social. Um quadro venezuelano irá integrar-se mais facilmente do que um jovem marroquino, que não fala espanhol, nem tem formação. Os países que se identificam como Estados têm uma identidade e costumes em que os seus cidadãos se reconhecem. Evoluem, certamente, mas essas mudanças não podem ser brutais, nem colocar em causa valores basilares da sociedade recetora, neste caso, principalmente, a liberdade, a tolerância e a igualdade de direitos, para lá de alguns códigos sociais básicos, que também definem o ecossistema social. Em Portugal é normal atravessar uma rua fora da passadeira, na Suíça não. Um suíço não apreciará ver imigrantes portugueses transporem para lá essas práticas (apenas um exemplo simples e pacífico).

Nas causas de Ceuta, acumulam-se vários fatores, catalisadores e responsabilidades dos dois lados da fronteira e não é objetivo aqui analisá-los.

Queria apenas realçar que a política do “venham todos”, somos bonzinhos e “recebemos todos, todos” estourou na cara de Pedro Sanchez e de quem o defende. Supostas boas intenções ingénuas ou demagógicas não são solução para nada. Veremos se aprenderam! Vai uma aposta?

04 agosto 2026

O Volta e a Revolta

Foi com bastante surpresa que constatei a existência dum encarniçado movimento contra o Volta, com petição pública e tudo.

Antes de mais, é de recordar uma evidência sobre tratamento de resíduos. É consensual que poupar o planeta e os seus recursos passa por reduzir e valorizar resíduos. Se não é, devia sê-lo. Tratar um monte de papel velho tem solução fácil, um monte de vidros também, idem para latas de alumínio, cascas de batata e pilhas gastas, sempre que os mesmos se apresentem separados. Se estiver tudo misturado a granel num contentor, torna-se muito difícil!

Eu separo o mais que posso e choca-me ver situações como às vezes encontro, especialmente em cafés ou restaurantes, onde tudo vai para o mesmo grande saco preto, atirado no contentor de resíduos indiferenciados da esquina.

Sobre o Volta, posso entender que se discutam sugestões de melhoria, se questionem os circuitos financeiros, mas pretender abolir o sistema de todo é violento. No meu caso, pouco muda, apenas tenho que ter um pouco mais de cuidado com as embalagens e levá-las ao supermercado em vez de ir ao ponto de reciclagem.

Logo numa das primeiras queixas da petição, invoca: “Impõe ao cidadão o trabalho de armazenar, transportar e entregar embalagens.”. Pois, quem queriam que o fizesse – o Pai Natal? Talvez não se lembrem, mas já chegou a existir um depósito de vasilhame generalizado para as bebidas no passado e ninguém morreu por isso.

Refletindo sobre quem pode ter ficado assim tão assanhado com o sistema, encontro um padrão possível. O dos preguiçosos que não estavam para se ralar com a reciclagem das embalagens e agora perdem uns trocos e no mesmo princípio, mas com outra dimensão, aqueles que no café punham tudo misturado no mesmo saco preto. Terão efetivamente mais trabalho, mas se queremos dar uma ajuda ao planeta, não dá para ser egoísta.

Sobre os caçadores de embalagens Volta nos contentores do lixo, isso merece atenção e busca de solução, mas obviamente que não é razão para abolir o Volta e encher aterros.

 

03 agosto 2026

Narrativas esfarrapadas


Um dos aspetos mais irritantes deste folhetim de Luís Neves e da PJ não é necessariamente a dimensão dos ilícitos, mas a forma como insistem (ele e uma certa legião de comentadores) em nos fazer passar por parvos e isso… chateia-me! Alguns exemplos.

Diz LN que o tanque foi passado a piscina sem ele saber. Por mais informal que seja a relação entre o dono da obra e o empreiteiro, se este tem uma sugestão de alteração significativa ao que estava planeado, o natural é que o sugira ao seu cliente. Este, e particularmente se não nadar em dinheiro, decidirá em função da resposta a uma pergunta fundamental: Isso quanto custa? Querem que acreditemos que o empreiteiro faz as melhorias que lhe pareceram bem, sem o dono da obra saber sequer quanto iriam custar?! A menos que tivessem sido gratuitas…

Diz o empreiteiro que o conteúdo do famoso atrelado foi descarregado nas suas instalações e este aí ficou parado sem se movimentar. Quando foi encontrado pelos jornalistas em Barcelos, ele estava acoplado a um camião trator do empreiteiro. Sendo que a galera pode perfeitamente ficar estacionada sem companhia, qual a razão desse casamento ainda em vigor há tão pouco tempo? Querem que acreditemos que esse camião ficou imobilizado, agarrado ao atrelado, desde algures em 2025 até julho de 2026?

Disse LS que apresentaria o detalhe dos trabalhos e pagamentos no final dos mesmos. Disse na conferência de imprensa que o empreiteiro amigo já lá não trabalhava. Então, por favor, o que falta para mostrar a totalidade do que foi feito, faturado e pago?

Chateia-me !

31 julho 2026

Um atrelado para ti, um Ferrari para mim


Não sei se uma CPI aos mandatos de Luís Neves na PJ será a ferramenta adequada, mas depois de tantas semanas a preparar esclarecimentos, a comunicação do ministro ficou longe de satisfazer as expetativas dos cidadãos deste país.

Há, por um lado, as práticas na organização, onde a utilização algo desregulada de bens apreendidos parece ser coisa habitual. É mesmo assim? Um bem apreendido fica ao belo dispor de quem na PJ lhe puder deitar a mão? Imaginem que era um avião particular!

Já agora, se a PJ apreender um Ferrari, não tiver onde o guardar e não quiser pagar a renda de uma garagem, eu fico com ele em minha casa gratuitamente! Uma poupança para o Estado!!! Precedente já existe!

Depois há o perfil e a ligeireza do grande polícia Luís Neves que parece não hesitar em assumir e desvalorizar o não cumprimento da lei, desde que depois, quando alertado, corrija. Posso um dia argumentar: senhor agente, eu desconhecia o limite de velocidade aqui, mas logo que vi a vossa viatura atrás de mim, mandando-me encostar, corrigi imediatamente e isso é o mais importante neste momento.

As relativizações e desvalorização destes episódios por parte de algumas personalidades, já não se suportam. Não têm pudor em fazer essas figuras?

30 julho 2026

Em busca das causas perdidas


Há uma certa esquerda que na sua ficha de autoidentificação garante serem os mais bonzinhos da praça, estarem sempre disponíveis para denunciarem e combaterem coisas más e quanto mais extremistas forem, maior a respetiva bondade. Sim, fazem bandeira de valores como a liberdade, a justiça social e a igualdade, mas nos dias que correm já se torna difícil fazer uma verdadeira diferenciação por esse caminho. Especialmente no mundo Ocidental, não estamos de todo em cenários de romance neorrealista do século XX.

A esquerda perde as classes operárias e quanto mais à esquerda, maior a perda. A teoria de Marx de que as injustiças do capitalismo levariam à revolução comunista e quanto mais capitalismo mais cedo ela chegaria, falharam completamente. O sucesso do capitalismo matou o comunismo. Sim, podemos criticar o sistema capitalista, mas é nesses países que melhor se vive neste mundo.

Se há locais no mundo em que essa militância tem muitas razões para intervir é no terceiro-mundo. Muito mais injustiça social existe em Angola do que em Portugal, por exemplo. No entanto, não parece ser cómodo ir aí pregar e até se invoca com um certo paternalismo que, coitados, “tudo” é ainda herança dos malefícios da colonização, cujos herdeiros devem assumir e pagar a culpa fundamental. Certo é que se esses países fossem governados por um sistema do tipo ocidental e capitalista o seu povo viveria muito melhor e é isso o que mais conta.

Perdidos os seus clientes proletários na Europa, curiosamente em grande parte recuperados pela extrema-direita demagógica, a esquerda boazinha precisou de encontrar novas causas de práticas ocidentais mazinhas, contra as quais hastear bandeira. O capitalismo é um mal e encontrar-se-ão sempre práticas nocivas a denunciar e a combater.

As novas causas passaram a ser as minorias, sejam elas étnicas, culturais, religiosas ou de qualquer outra natureza, supostamente injustiçadas. Mais uma vez, há aqui alguma incoerência e enviesamento. Alguns exemplos: os direitos das minorias muçulmanas na Europa são comparáveis com os dos cristãos no Médio Oriente? A situação dos LGBTs no Ocidente é equiparável com o que se passa em muitos países árabes ou africanos? Querem comparar a situação dos ciganos por cá com a dos uigures na China? Já vimos esses militantes das boas causas ativamente denunciando essas situações, muitíssimo mais graves? Claro que no Ocidente há liberdade para manifestar e criticar enquanto noutras partes do mundo é menos fácil…

Um dos mais caricatos e risíveis exemplos desta militância pelos direitos das minorias ocorreu há dias no Parlamento Europeu. Ao iniciar uma intervenção, a eurodeputada irlandesa do Sinn Féin, Lynn Boylan, lamentou-se de não ser possível expressar-se na sua língua materna, o gaélico. Mais um exemplo e uma denúncia da opressão cultural e de desrespeito para com as minorias. Quando lhe informaram de que sim, de que o podia utilizar, já que havia serviços de tradução disponíveis para a sua língua, ela ficou engasgada. Disse que não estava preparada e continuou em inglês. É um pequeno episódio, mas com um simbolismo enorme.

29 julho 2026

ONU 2672

Quem estiver atento à “decoração” dos camiões e respetivas atrelados já terá notado placas deste tipo nalguns. É uma sinalização de que o veículo transporta cargas perigosas, mostrando código do produto e o tipo de risco.

Isto acontece, e bem, porque não se anda por estradas e ruas carregando produtos perigosos como quem transporta sacos de cimento ou paletes de tijolo para o estaleiro.

Estes transportes são enquadrados por um acordo europeu denominado ADR, que regula o transporte rodoviário internacional de mercadorias perigosas. Não se fica apenas pela placa laranja. Se virem um camião de combustíveis podem identificar outras sinalizações sobre o tipo de risco, equipamentos de segurança, contactos de emergência, além de existirem outras obrigações menos visíveis. Os motoristas precisam de formação e certificação, deve haver documentação especifica relativa aos produtos e nalgumas situações mesmo o veículo precisa de ser certificado. Existem também regras de compatibilidade sobre produtos que podem partilhar o mesmo transporte ou não.

O número ONU 2672 corresponde ao amoníaco em solução, aparentemente um dos principais produtos carregados no famoso atrelado que foi do Seixal até Barcelos. Como presumo que originalmente os traficantes não lhe tenham colocado as placas laranja respetivas, fica a questão (só mais uma): quando ele se fez à estrada cumpria todos os requisitos ADR? Se sim, não deve ser difícil encontrar rasto dessa documentação obrigatória. Mostrem-na.

Se assim não ocorreu e foi basicamente dar à chave e fazer-se à estrada… quem anda à chuva pode molhar-se. Caso houvesse um acidente com sérias consequências, mesmo pessoais… quem responderia criminalmente? Saber-se-ia nesse tempo, presumo…

Estaremos mesmo perante este nível de ligeireza e irresponsabilidade?

 

28 julho 2026

A maçonaria frente ao juiz

Foi notícia recente que cinco membros da maçonaria expulsos da organização em 2023, contestaram internamente a decisão sem sucesso, acabaram por levar o caso a tribunal e o processo segue o seu caminho.

É um pouco insólito imaginar uma organização tradicionalmente tão discreta vir lavar a roupa suja em público e ser obrigada a mostrar os seus regulamentos e justificar decisões perante um juiz “profano”.

Coloca-se aqui uma questão sobre a natureza da organização. Vivemos em liberdade associativa e isso inclui direitos e deveres. Se eu quiser criar uma associação columbófila ou de amigos da sueca, estas deverão ter estatutos públicos, definindo objetivos, forma de governo, etc... Uma “associação” que evita esta transparência pública e respetivas obrigações é provavelmente ilegal. Daí ser lógico que as associações maçónicas, estando enquadradas na legislação existente, possam ser chamadas a tribunal quando as suas práticas são questionáveis face à lei.

A partir desta obrigação de transparência mínima, podemos procurar perceber quais os objetivos sociais atuais da organização. No século XIX era relativamente claro; hoje não sei. Quando por aí circulamos, por estradas, ruas e praças, é difícil descortinar a sua assinatura no que vemos. Se alguém me quiser informar em que medida a organização pode “contribuir para a minha felicidade” e do comum dos cidadãos, sou todo ouvidos.

Se estão em causa princípios universais e objetivos “altos, nobres e justos”, venham a terreiro assumi-lo e explicar o que fazem mesmo, mesmo, mesmo, para a sociedade, exterior à organização.