Já o tinha referido aqui, há quase 14 anos, como o aguerrido
Santiago Matamoros fora reconvertido em simples jardineiro. O que lá escrevi
mantém-se de atualidade.
O culto de Santiago e a suposta descoberta dos seus restos
mortais na Galiza está intimamente ligado e alimentado pela campanha de
reconquista, à qual o apóstolo serviu de invocação e estandarte. Deu até o nome
a uma das principais ordens religiosas guerreiras da península Ibérica.
Obviamente que entre os milhares de peregrinos que hoje
demandam Compostela, poucos o farão por devoção religiosa e talvez nenhum para
pedir apoio em guerras contra infiéis. No entanto, a história é a história.
Um destes dias ao discutir o assunto com um amigo que
planeava ir ao tal “Campo de Estrelas”, encomendei-lhe o serviço de investigar
como iam as flores que delicadamente davam abrigo visual às vítimas do mata-mouros.
A resposta é que na catedral já não há apóstolo guerreiro. A estatua em questão
foi discretamente trasladada para o museu diocesano, certamente muito menos vista
do que no lugar original.
Podemos entender que para a generalidade dos peregrinos o
ímpeto guerreiro do apóstolo (ou da imagem dele criada) não seja o que estão à
espera de ver quando concluem a sua romagem. Mas, de que serve assepsiar a
história? Provavelmente uma boa parte dos muçulmanos mais suscetíveis nem
sequer franquearão o pórtico da catedral, mas… não seria bonito poder dizer
ombro-a-ombro, cristão e mouro, felizmente já não estamos nestes tempos?
Entretanto, mesmo em frente, do outro lado da praça do
Obradoiro, no edifício do “Concello”, equivalente da Câmara Municipal, está
exposta uma bandeira da Palestina. Sim, que há gente inocente que lá sofre, mas
e os outros? Na Ucrânia, Congo, Síria, Sudão, Curdistão, Myanmar, Xinjiang e a
lista continua. Será o fato de não serem vítimas de Israel que os torna menos
merecedores de solidariedade?
Já agora, só falta chamar palestiniano a Tiago. Ao fim e ao
cabo, ele foi morto por Judeus… E a reconquista, que o seu culto patrocinou, sendo
que o seu contexto em Braga ou Lugo é muito diferente de Sevilha ou Córdova,
foi uma luta contra um invasor de outra etnia e de outra religião. Podemos
estabelecer alguns paralelos…
Em resumo, os belgas que terraplanem a colina de Waterloo
para não lembrar guerras passadas e provocar os franceses… estes que revejam e apaguem
os nomes sensíveis inscritos no seu Arco do Triunfo … e a lista por aqui seria longa. Mesmo o nosso
Mosteiro da Batalha pode ser coisa de incomodar os nuestros hermanos. Talvez seja
melhor pensar construir uma barreira visual à volta.
Quando se quer construir um futuro apagando o passado, o
edifício não resulta robusto.













