Uma comunidade é um conjunto de pessoas que em várias dimensões
se exprime na primeira pessoa do plural. Nós somos assim, nós fazemos assado,
nós gostamos de cozido. Dentro da ficha de identificação comunitária encontra-se
muitas vezes a crença: Nós seguimos esta religião.
Por outras palavras, alguém partilhando o mesmo espaço e
referencia sociais, só porque tem outra crença deixa de ser “um de nós”.
Muitas das mais violentas e bárbaras guerras civis da
história foram consequência de processos de homogeneização religiosa de Estados.
Sem querer ser muito exaustivo, três exemplos. As lutas e massacres entre católicos
e protestantes na Europa dos séculos XVI e XVII; as inquisições ibéricas; o pós-colapso
do império Otomano na Turquia, no século XX, especialmente para os arménios e
gregos ortodoxos.
Se há local, relativamente próximo, onde esse violento processo
se prolongou muitíssimo, foi nos Balcãs. A Jugoslávia, literalmente país dos
eslavos do Sul, inicialmente criada no final da primeira grande guerra, após a
derrocada dos impérios vizinhos, nunca se conseguiu cimentar como Estado e pacificar
os diferentes grupos étnicos e religiosos,
Os terramotos decorrem do movimento e choque entre placas tectónicas
e aquela zona está efetivamente na linha da frente de várias placas
culturais/religiosas. Do Noroeste vem a Europa cristã/católica; do Nordeste os
eslavos ortodoxos e do Sudoeste os otomanos muçulmanos. Para o Sudoeste sobra o
mar adriático.
Perdendo a cola da bota comunista, “não-alinhada”, de Tito,
é impressionante como se fragmenta e como gente vizinha por décadas se descobre
diferente, inimiga e desata a chacinar-se mutuamente. Até que ponto a procura
de posição dominante da Sérvia foi determinante nesse descolamento das regiões é
uma questão pertinente, que não sei responder. Arrumadas as restantes províncias
em países relativamente hegemónicos, ficou a sobrar no centro a Bósnia.
A Bósnia Herzegovina é talvez o maior símbolo e teatro de
impossibilidade de integração de diversidades e, mesmo que se possa hoje chamar
um país, na prática está retalhado.
Isto vem a propósito da forma como a Sérvia se prepara para
organizar um funeral da Estado para Ratko Mladic, o bárbaro carniceiro de
Sarajevo, condenado pelo TPI por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a
humanidade. Como se o facto de ser um dos “nossos” ser mais relevante do que os
milhares dos “outros” que ele chacinou. Estamos a ver algo de semelhante acontecer
na “nossa” Europa? Por exemplo, o atual governo alemão homenagear Hitler, como
um grande patriota?
Há aqui diferenças na dimensão humanitária que ultrapassam o
simples credo religioso. Estes eslavos…














