04 outubro 2026

Narcos (2ª edição)


Muitos terão visto aquelas produções, meio históricas, meio romanceadas, sobre a vida e obra dos narcotraficantes da Colômbia ou do México. É extremamente chocante o nível de violência, opulência, falência das instituições e, sobretudo, desumanidade.

Essas coisas passavam-se muito longe, do outro lado do Atlântico, geográfica e culturalmente demasiado afastadas para as imaginarmos parte do nosso quotidiano. Será que esse nível de violência e marginalidade é e continuará a ser uma realidade longínqua?

Em cidades como Marselha ou Bruxelas soam pistolas metralhadores e corpos jazem no solo em poças de sangue, consequência de ajustes de contas e disputas territoriais associadas ao tráfego de droga. Nas nossas costas as lanchas rápidas desafiam quase impunemente as forças policiais. Na Suécia há menores contratados como sicários.

Dizer que o dinheiro compra tudo pode não ser absoluto, mas muito dinheiro compra muita coisa e ao dinheiro “ilimitado” quase nada resiste, seja pela aliciação, seja pela coação.

Esta guerra contra os narcotraficantes parece não ter vitória para as forças da lei. Com tantos recursos financeiros disponíveis, os narcos encontrarão sempre buraco por onde furar e chegar aos seus clientes, muitos deles socialmente respeitáveis, deixando pelo caminho as vítimas e os cadáveres que for necessário.

Podem-se encontrar fortes semelhanças com a lei seca de há um século atrás, sabemos como foi e como terminou. Por mais chocante e perigoso para a saúde pública possa parecer liberalizar a cocaína, não estará na altura de aplicar remédio análogo? Provavelmente um mal menor.

03 outubro 2026

Judaicofobia


Um destes dias tropecei neste delicioso texto de José Diogo Quintela (ex Gato Fedorento) sobre o inefável engenheiro Guterres e as suas curiosas capacidades matemáticas.

O cessante SG da ONU declarou que o conflito em Gaza teve “uma escala de morte e destruição sem paralelo com o que testemunhei em todos os meus anos como Secretário-Geral”. É só alguém fazer as contas e o colunista deu-se ao trabalho de as fazer. Assim podem-se listar alguns dos conflitos mais mortíferos presenciados pelo engenheiro.

  1. Na Ucrânia mais de meio milhão.
  2. Na região do Tigré, na Etiópia, idem
  3. No Sudão, entre 140 e 400 mil mortos.
  4. No Afeganistão perto de 200 mil,
  5. Em Myanmar 104 mil,
  6. Na Síria 78 mil,
  7. No Iémen 75 mil.
  8. Em Gaza, 74 mil pessoas

(para mais detalhes, ver o texto completo)

Cada morto em guerra, especialmente entre civis, é um morto a mais e sem desvalorizar as barbaridades ocorridas em Gaza, as declarações de Guterres são de um ridículo absoluto e de uma falsidade indesculpável.

Quando alguém generaliza a violência associada a alguns movimentos islâmicos para todos os muçulmanos do mundo, chamamos-lhe, negativamente, islamofobia. O atual SG da ONU não sofrerá de uma espécie de judaicofobia?

Condenar Netanyahu é uma coisa, generalizar para todos os israelitas é outra, avançar para todos os judeus do mundo é antissemitismo básico, de má memória. Culpar Israel por todos os males que por aqueles lados ocorrem é ignorância e/ou manipulação potenciado por gente pouca séria. Talvez se lhe possa chamar Ocidentofobia, algo análogo às doenças autoimunes, em que o organismo se baralha e se ataca a si próprio…

Vamos recuar um pouco no tempo e recordar a situação de um país governado em ditadura, sem liberdade nem respeito pelos direitos humanos, envolvido numa guerra colonial. Deveria ser expulso de todos os eventos culturais e desportivos? Simone e Tonicha fora da Eurovisão, Amália e Carlos do Carmo cancelados das grandes salas, Eusébio, António Livramento e respetivas equipas excluídos de competições internacionais. Numa perspetiva de coerência, seria assim que os atuais severos juízes de Israel veriam Portugal pelo mundo antes de 1974.

02 outubro 2026

Quando a tecnologia surpreende e nos interroga (V)


5) Outros perigos

Mesmo sem IA já haverá por aí gente com dificuldade em encontrar o caminho para casa sem internet…com o tempo passará a haver quem, em “offline”, não saiba que fazer para a ceia…?

Uma coisa é contar com ela para obter informação: que pressão devo colocar nos pneus? Qual a diferença entre a clara e a gema? Outra coisa é, para lá informação fatual, o “aconselhamento”. A que restaurante devo ir; que prato devo pedir. Acreditando que a senhora IA vai seriamente pesquisar todas as críticas publicadas e tentar ser isenta ao sugerir a tasca do Joaquim à do António... há aqui algum perigo de “afunilamento” injusto. Quanto mais sugerir com sucesso o Joaquim, mais afundado fica o António. Coisas do algoritmo que só o algoritmo conhece.

Onde a IA pode ter certamente efeitos devastadores é na criatividade. Certo que plágios são coisas que não faltam, certo que hoje será mais fácil detetá-los e também certíssimo que ficou assustadoramente fácil pseudo-criar qualquer coisa, com muito bom aspeto.

Não prevejo por aí um fim do mundo, mas gostaria de ver uma contra-IA, alguma coisa que olhando para uma “criação” possa dizer rapidamente: Batota !!!

Ou seja, basicamente usar a IA, mas não lhe deixar a última palavra, talvez valha a pena testar a tasca do António, mesmo contra a vontade do algoritmo.

01 outubro 2026

Quando a tecnologia surpreende e nos interroga (IV)

 

4) O perigo, onde está o perigo?

Como perigo existencial para a humanidade, continuo a preocupar-me mais com as armas nucleares do que com a IA, esperando que os seus sistemas de controlo não estejam ligados à internet, nem potencialmente acionáveis por agentes imprevisíveis (para não ver atual outro filme do genial Kubrick: Dr Estranhoamor).

A IA é e pode ser uma ferramenta fantástica, que ultrapassa o simples acesso à informação. Para lá de encontrar respostas, ela compara e digamos que “cria” (ou copia) textos, músicas, imagens e “tudo” o que se quiser. É absolutamente espantoso como o consegue fazer e em escasso tempo.

Há aqui um problema: se as dificuldades aguçam o engenho, as facilidades embotam-no.

Com as máquinas de calcular eletrónicas e folhas de cálculo deixamos de precisar de saber fazer contas; com os corretores ortográficos já não nos preocupamos com como se escrevem as palavras e respetiva acentuação: com a IA deixaremos de precisar conhecer a gramática para escrever um belo texto. Certo que não vejo grande valor em memorizarmos simplesmente montes de coisas, mas inferir e raciocinar são uma forma de ginástica mental cuja falta pode ter efeitos idênticos à inatividade física.  Estaremos a ir longe de mais neste delegar na máquina capacidades cognitivas?

Podemos fazer um paralelo. Da mesma forma como as facilidades motoras nos retiraram atividade física das necessidades quotidianas e devemos/podemos compensá-lo com práticas desportivas e de lazer, também devemos procurar uma forma de compensação para não acumular gordura nos neurónios. É uma questão de disciplina, muito semelhante ao necessário exercício físico.

Assim sendo, onde fica o perigo… ?


26 setembro 2026

Quando a tecnologia surpreende e nos interroga (III)


3) O fim de qualquer coisa

Anunciar apocalipses face a disrupções não é uma reação inédita, nem nova. Já Camões nos Lusíadas nos apresentava um velho do Restelo que, face à inovação e à ousadia dos navegadores, daí previa que a consequência não seria menos do que o fim do mundo.

Voltando à tecnologia, recordo-me da febre da “robotização” dos anos 80. Em termos de substituição de mão de obra um robot era proporcionalmente bastante mais caro do que um trator, mas o fato de ser antropomórfico dava-lhe um simbolismo muito mais intenso. Hoje os robots e a automatização estão por todo o lado; não olhamos para eles como quem olha para tratores, mas quase… (e já nem falo da polemicazinha com a 5G)

O curioso aqui é os inovadores, os líderes das grandes empresas de IA, se apresentarem preocupados com a inovação. Como se Vasco da Gama falasse em sintonia com o velho do Restelo.  

Como se Henry Ford defendesse a limitação da indústria automóvel por um modelo T ter atropelado umas pessoas ou os promotores do caminho de ferro no século XIX, propusessem o abrandamento dos projetos por uma locomotiva ter abalroado uma vaca. Na altura havia até quem defendesse que o corpo humano não estava preparado para suportar velocidades superiores a 40 km/h.             

Fico com o palpite de que a preocupação destes homens de negócios será talvez mais o seu negócio do propriamente o fim da humanidade. A IA envolve investimentos colossais. O modelo atual permite retorno satisfatório ou será melhor alto e parar o baile por uns tempos?

25 setembro 2026

Quando a tecnologia surpreende e nos interroga (II)


2) A culpa é do sistema

 Não foi ontem, nem neste século. Em 1968, há 58 anos, o genial Stanley Kubrick realizou o espantoso filme “2001 Odisseia no Espaço”. Nesse filme um computador inteligente, HAL 9000 (uma letra antes de IBM e melhor teria sido, talvez, JCN, uma letra à frente), ganha vontade própria e passa a ser ele a mandar, ignorando e contrariando as ordens da tripulação da nave. A máquina desrespeita e ameaça o homem, o seu criador!

Este enredo hoje seria de uma atualidade espantosa, quando sobre a Inteligência Artificial correm visões apocalíticas, anunciando como sua possível consequência o fim da humanidade.

Sobre a imprevisibilidade da IA os informáticos sabem bem que quando um computador diz que o resultado de 2+2 é 22, não será por ter vontade própria, mas por existir uma falha na programação, um erro, na gíria um “bug”, desculpa inventada no tempo em que um inseto introduzido nos enormes armários dos computadores antigos seria razão suficiente para explicar o “despiste”.

Com a complexidade atual dos sistemas informáticos não será tão fácil “debuggar” e extrair o inseto. Hoje os sistemas informáticos são cebolas com tantas e tantas camadas, que dificilmente se saberá por andam os “program counter” lá no fundo…mas a culpa do despiste não deve ser atribuída ao silício, elemento químico na base dos circuitos integrado

24 setembro 2026

Quando a tecnologia surpreende e nos interroga (I)


 

1)   1- Até parece mentira

Há 40 anos, mais dia, menos dia, sentava-me para o meu primeiro dia de trabalho, após sair da universidade. O professor Marques dos Santos, por quem tinha e tenho muito apreço, lançara-me o desafio. Depois de 17 anos em salas de aula, entendi que não faria muito sentido por continuar esses locais, mesmo mudando de posição relativa, e aceitei ir viver o “mundo real”.

Sentei-me, pensei e disse: - Então como é que se começa a trabalhar? Puseram à minha frente um manual do microcontrolador (microprocessador com algum recheio adicional) Hitachi 6303, baseado na família Motorola 6800. Vou deixando algumas referências técnicas para enquadrar melhor o tema a quem conhece, mas não demasiadas, a ponto de tornar o texto intragável aos não iniciados.

Tratava-se de um bicho com 64 patas, em torno do qual eu desenhei um circuito e que após uma industrialização básica, me regressava como uma placa eletrónica. Do ponto de vista da arquitetura era um pequeno computador, com tudo o que deveria ter, só que completamente virgem de software. Comecei por mapear a memória, definir os interrupts, configurar a stack (… e já chega de palavrões). Sendo a primeira utilização daquele processador na empresa, não havia biblioteca de nada e tudo devia ser programado em linguagem máquina, passado para uma Eprom, ficando-se a ver até onde corria como previsto.

Por essa altura, quando coçava a cabeça com uns 5C teclados por C5 e alguns FFs à mistura, li algo a primeira vez sobre os vírus informáticos. Uma “coisa” que se incrustava, se escondia por uns tempos, depois se propagava sem controlo, parecia-me do domínio da ficção. Convém recordar que nessa altura não havia internet e um PC comunicar com um vizinho era algo muito árduo.

Tive sensação análoga agora ao ler notícias sobre agentes de IA que escapam ao controlo dos seus criadores e ganham vontade própria. Sabendo que no fundo, lá no fundo da programação está sempre um “Se isto, faz aquilo”, estas liberdades cibernéticas parecem-me algo incongruentes.

Mas esta IA tem mais que se lhe diga…

22 setembro 2026

A gente vai continuar


Das primeiras vezes que ouvi Jorge Palma, achei algo estranho nas suas letras. Ao contrário daquelas redondinhas que quando começam já se sabe onde e como acabam, ele parecia esticar as frases, como se tivesse sempre e ainda algo mais dizer, para lembrar, para gostar.

Jorge Palma é um daqueles criadores intemporais que quando o ouvimos contar a vida dele, ouvimos também a nossa.

Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo 

Enquanto houver estrada para andar; a gente vai continuar.

17 setembro 2026

Narcos


Muitos terão visto aquelas produções, meio históricas, meio romanceadas, sobre a vida e obra dos narcotraficantes da Colômbia ou do México. É extremamente chocante o nível de violência, opulência, falência das instituições e, sobretudo, desumanidade.

Essas coisas passavam-se muito longe, do outro lado do Atlântico, geográfica e culturalmente demasiado afastadas para as imaginarmos parte do nosso quotidiano.

Por cá vemos principalmente noticias de apreensões e escaramuças com as assombrosas lanchas rápidas dos traficantes. Apenas isso? Não.

Em cidades como Marselha e Bruxelas soam pistolas metralhadores e corpos jazem no solo em poças de sangue, consequência de ajustes de contas e disputas territoriais associadas ao tráfego de droga. Na capital belga não é um problema das periferias degradadas; é mesmo no centro da cidade que as armas falam.

Recolhi a imagem acima de uma reportagem do El País sobre Marselha. Trata-se de um “drive-truh” de droga com clara indicação dos produtos – e aproveitam porque há promoção!

Dizer que o dinheiro compra tudo pode não ser absoluto, mas muito dinheiro compra muita coisa e ao dinheiro “ilimitado” quase nada resiste, seja pela convicção, seja pela coação.

Penso que esta guerra contra os narcotraficantes não tem vitória para as forças da lei. Especialmente enquanto continuar a existir gente rica e gira pagando e sugando cocaína, achando isso “cool”, financiando alegremente estas redes criminosas. Com tantos recursos financeiros disponíveis, os narcos encontrarão sempre buraco por onde furar e chegar aos seus clientes, deixando pelo caminho as vítimas e os cadáveres que for necessário.

Podem-se encontrar fortes semelhanças com a lei seca de há um século atrás, sabemos como foi e como terminou. Não estará na altura de aplicar remédio análogo?

Pode parecer chocante e perigoso para a saúde pública liberalizar a cocaína, mas talvez seja a única forma de secar e apagar uma rede brutal que brutaliza uma boa parte do universo. Provavelmente um mal menor.

O travão policial já demonstrou a sua ineficácia e, repito, recordemo-nos da lei seca.

16 setembro 2026

Se isto é um drama


Já aqui atrás falei do “Volta” e da minha surpresa quanto à sua contestação.

Agora foi o Presidente da Câmara de Lisboa a pedir o seu cancelamento, dado estar a criar um “drama social sem precedentes”. Bom, se os problemas provocados com a aplicação da Volta podem constituir um drama social sem precedentes, não devem existir grandes problemas na sociedade, tais como gente malnutrida, mal alojada, sem acesso a cuidados médicos dignos e por aí fora.

Certo que não é bonito ver gente a remexer no lixo e para uma cidade que se quer catita, para inglês ver, e se isso acontece é porque alguém lá colocou valor.  Certamente que na origem do drama está o comodismo de quem não se importa em deitar uns cêntimos ao lixo.

Pessoalmente, apesar de utilizar poucas embalagens das tratadas pelo Volta, nunca tive o mínimo problema em as devolver e obter o crédito.

Os desafios da reciclagem passam em muito pela separação e valorizar os resíduos para o proporcionar é um caminho. Será que 10 cêntimos é pouco?

Cancelar o sistema por questões estéticas será um drama, a prazo e... tenham a noção do ridículo.

10 setembro 2026

Coincidências…


Na Alemanha , um partido de ultradireita ganhou as eleições na Saxónia-Anhalt. Não estaremos na véspera de uma nova noite de cristal, mas este resultado, associado ao crescimento da extrema-esquerda, é alarmante. É inquietante vermos uma evolução do eleitorado para opções que não reconhecem os valores fundamentais da nossa sociedade, que, não sendo perfeita, é largamente superior em termos de prosperidade e bem-estar dos cidadãos a todas as outras alternativas. Nos próximos capítulos, poderemos muito provavelmente assistir a uma segunda volta das presidenciais francesas entre Le Pen e Melenchon!

Por cá, continuamos a ver o caso Luís Neves, onde a sua gravidade já ultrapassou há muito a dimensão das tropelias que lhe deram origem. O verdadeiro problema está no primeiro-ministro, que defende a sua permanência no Governo, e em toda uma elite com poder formal ou informal, que insiste em nos tentar impingir leituras ridículas, pressupondo que falam para diminuídos mentais.

Um destes dias iremos acordar com um resultado eleitoral preocupante e já estou mesmo a imaginar as pesarosas e alarmistas declarações sobre o leite derramado. Chama-se hipocrisia.

05 setembro 2026

As guardas pretorianas

Em termos quantitativos, entre as trapalhadas de Luís Neves e as operações Sócrates/Salgado, vai a distância de Harvard a um jardim escola. No entanto a forma como o ministro tem sido defendido levanta algumas interrogações.

Um pequeno exemplo. Ninguém é contra a aplicação do devido castigo a marginais, incluindo o eventual confisco de património, mas é a PJ que julga, condena e aplica a pena, confiscando discricionariamente bens e equipamentos, depois requisitados para fins operacionais pouco explícitos? Isto é compatível com um Estado de Direito?

Sócrates defendeu-se negando, ridicularizando-se e teve a sua guarda pretoriana próxima e restrita, bem identificável quanto a motivações e enquadramento. Rapidamente ninguém com imagem de intelectualmente honesto teve a coragem de relativizar os fatos ou de fazer campanha mediática em defesa do senhor.

Com Luís Neves há algo de especial. Muita gente que seria considerada inteligente e equilibrada está a sair à rua, denodadamente a pôr água na fervura, a reduzir a importância e dimensão dos factos. Para mim é um mistério. Qual o enquadramento e a motivação desta milícia pretoriana difícil de enquadrar?

Pode a dimensão puramente quantitativa em causa não ser enorme, mas este ambiente de impunidade, arrogância e descarada tolerância é um precursor de um mal muito maior que merece ser identificado e desmascarado.

 

01 setembro 2026

Estes eslavos do Sul


Uma comunidade é um conjunto de pessoas que em várias dimensões se exprime na primeira pessoa do plural. Nós somos assim, nós fazemos assado, nós gostamos de cozido. Dentro da ficha de identificação comunitária encontra-se muitas vezes a crença: Nós seguimos esta religião.

Por outras palavras, alguém partilhando o mesmo espaço e referencia sociais, só porque tem outra crença deixa de ser “um de nós”.

Muitas das mais violentas e bárbaras guerras civis da história foram consequência de processos de homogeneização religiosa de Estados. Sem querer ser muito exaustivo, três exemplos. As lutas e massacres entre católicos e protestantes na Europa dos séculos XVI e XVII; as inquisições ibéricas; o pós-colapso do império Otomano na Turquia, no século XX, especialmente para os arménios e gregos ortodoxos.

Se há local, relativamente próximo, onde esse violento processo se prolongou muitíssimo, foi nos Balcãs. A Jugoslávia, literalmente país dos eslavos do Sul, inicialmente criada no final da primeira grande guerra, após a derrocada dos impérios vizinhos, nunca se conseguiu cimentar como Estado e pacificar os diferentes grupos étnicos e religiosos,

Os terramotos decorrem do movimento e choque entre placas tectónicas e aquela zona está efetivamente na linha da frente de várias placas culturais/religiosas. Do Noroeste vem a Europa cristã/católica; do Nordeste os eslavos ortodoxos e do Sudoeste os otomanos muçulmanos. Para o Sudoeste sobra o mar adriático.

Perdendo a cola da bota comunista, “não-alinhada”, de Tito, é impressionante como se fragmenta e como gente vizinha por décadas se descobre diferente, inimiga e desata a chacinar-se mutuamente. Até que ponto a procura de posição dominante da Sérvia foi determinante nesse descolamento das regiões é uma questão pertinente, que não sei responder. Arrumadas as restantes províncias em países relativamente hegemónicos, ficou a sobrar no centro a Bósnia.

A Bósnia Herzegovina é talvez o maior símbolo e teatro de impossibilidade de integração de diversidades e, mesmo que se possa hoje chamar um país, na prática está retalhado.

Isto vem a propósito da forma como a Sérvia se prepara para organizar um funeral da Estado para Ratko Mladic, o bárbaro carniceiro de Sarajevo, condenado pelo TPI por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Como se o facto de ser um dos “nossos” ser mais relevante do que os milhares dos “outros” que ele chacinou. Estamos a ver algo de semelhante acontecer na “nossa” Europa? Por exemplo, o atual governo alemão homenagear Hitler, como um grande patriota?

Há aqui diferenças na dimensão humanitária que ultrapassam o simples credo religioso. Estes eslavos…


30 agosto 2026

Mulheres de Ceuta


A invasão de Ceuta e o seu posterior dia-a-dia estão a ser um laboratório, mostrando o que pode resultar de uma abertura descontrolada das fronteiras a uma população culturalmente diferente. Penso que, no que diz respeito a “politicas migratórias”, irá existir na Europa um antes e um depois destes acontecimentos.

Conheço relativamente bem o norte de África e, desculpem lá a franqueza e incorreção, mas não sou muito sensível àqueles cartazes de quem pede/exige vir para a Europa, para ter mais oportunidades. Com o devido respeito e reconhecimento pelos bons profissionais que conheci, a uma esmagadora maioria da população jovem, alguma até com formação superior, faltava-lhe atitude, compromisso e confiabilidade para assumirem responsabilidades profissionais. Mais importante do que deficiências de formação, que se resolvem com algum esforço, encontrei falta de vontade de se dedicarem seriamente aos desafios profissionais. Certo que viver num sistema em que o mérito não é necessariamente um critério de valorização não ajuda. Muitas vezes éramos obrigados a deslocar técnicos de Portugal, que devido à expatriação custavam muito mais, pela simples razão de que não se conseguia fazer trabalhar corretamente os locais.

Curiosamente a percentagem de mulheres com bom desempenho profissional era muitíssimo mais elevado do que a dos homens. Quando elas se apresentavam para trabalhar era porque o queriam fazer mesmo e encontrar realização e autonomia. Não procuravam emprego por pressão familiar ou social, muitas vezes estavam precisamente contrariando essa pressão.

Muito diferente me parece também ser o enquadramento de algumas mulheres que arriscaram a travessia para Ceuta, ato que lhes requereu uma enorme coragem. Ouvindo relatos, muitas buscam apenas segurança e tranquilidade contra situações de violência doméstica e ausência de respeito pelos direitos básicos. O ponto é o seguinte: ou ignoramos o que se passa do outro lado das fronteiras, evitando as tradições acusações de ingerência neocolonialista, ou nos preocupamos com a sorte dos seres humanos na sua universalidade.

Se entregadores de pizzas ao domicílio já devemos ter suficientes, as oportunidades deverão ser oferecidas a quem esteja pronto a assumir compromissos e procure valorização, com esforço. É mais difícil do que andar a correr pela rua e a gritar pela Europa, mas é isso que devem entender. Não é com condescendências paternalistas e prevalência de más consciências do passado colonialista, que já acabou há mais de 50 anos que, teremos bons resultados. Quanto às (muitas) mulheres, parece-me ser um caso diferente. A fragilidade e a injustiça são muito mais elevadas.

27 agosto 2026

Mentiras em S. Bento, verdades em Barcelos


Fundos soberanos são tipicamente coisas de países ricos que, em vez de deixarem o pé-de-meia debaixo do colchão, o investem aqui e acolá. No caso do nosso, que passa a vida de mão estendida, precisaria de estender as duas e, atendendo ao notório insucesso das suas investidas em empresas, as expetativas não são positivas.

Quando não se sabe justificar objetivamente uma decisão, é prática comum invocar um presumido e vago interesse estratégico. Quanto à entrada no capital da REN, o Primeiro-ministro ousou concretizar e anunciou que tal participação iria permitir aos portugueses virem a pagar menos pela eletricidade. Como explicaram vários conhecedores, alguns até da mesma cor política, isso é mentira. Face à regulação a que já está submetida e empresa, de forma nenhuma a presença de um ou dois administradores públicos no seu conselho de administração poderá ter impacto nas nossas faturas futuras.

Para não ficarmos pelas mentiras, evoco uma verdade. O hospital público de referência para o meu concelho é o de Santa Maria Maior, de Barcelos. Com todo o respeito e reconhecimento pelos profissionais de saúde que aí trabalham, aquilo não são instalações deste século, nem os meios disponíveis compatíveis com a dimensão da população atendida. Seria muito mais estratégico para mim, e para uns largos milhares de utentes, dispor de uma boa infraestrutura de saúde. Os potenciais futuros administradores públicos nomeados para a REN terão certamente outras prioridades, mas em contabilidade democrática a sua derrota seria esmagadora.