Em tempos idos, em salas de aula, foram-me apresentados os vários romancistas portugueses de século XIX, chamemos-lhe “clássicos”. Ficaram-me os nomes, mas nem tanto o interesse para mais tarde os ler “a sério”. Exceção foi unicamente Eça de Queiroz, de quem depois li tudo, ou quase.
Em maré de me redimir do pecado, decidi há pouco visitar
Camilo Castelo Branco, visita da qual deixei nota aqui. Foi agora a vez de
Júlio Dinis e dos seus quatro romances acima representados. Lidos na sequência
da sua publicação, nota-se uma evolução interessante na densidade da intriga e na
diversidade dos personagens, desde a “Família Inglesa” até aos “Fidalgos”. Há
algo de comum: todos têm um final feliz e as generosas e justas qualidades
humanas prevalecem e vencem todos os percalços e obstáculos. Também há pouca
gente verdadeiramente má; muito do negativo é mais no campo do caricato e burlesco
do que no verdadeiramente maligno (a excluir o missionário da “Morgadinha”).
Este otimismo do romancista é razão para alguns o
(des)classificarem como um bucólico, irrealista e idealista. Não concordo. Um
romance é um retrato daquilo que o autor quer retratar. Não é obrigatoriamente
um recenseamento exaustivo de caracteres e feitios. Se Júlio Dinis quis dar
protagonismo à eficácia da bondade, honestidade e bons princípios, possa isso
inspirar-nos e recordar que daí pode vir sucesso, às vezes.
Falando em retratos, quando Vermeer pintou a “Rapariga com o
Brinco de Pérola”, não se terá preocupado em pintar um rosto “representativo”
do universo, mas sim de algo que lhe pareceu belo. A nós também nos parece belo
e confesso olhar com mais satisfação para esse quadro do que para uma imagem
angustiante de Paula Rego.
Falando de imagens femininas, uma verdadeira particularidade
de Júlio Dinis é a força, inteligência, sensibilidade e determinação das
personagens femininas. Estamos muito longe daquele estereotipo da beleza cuja
participação principal no enredo oscila entre seduzir e ser seduzida. Será o
facto de ter perdido a mãe aos seis anos que lhe fez desenhar essas fortíssimas
mulheres? Em muitas situações são elas quem sabiamente conduz a história, enquanto
que, especialmente no registo romântico, os “heróis” masculinos sofrem muito
mais de inconstância e de dificuldades de discernimento.
Se as “Pupilas” é o romance dos bons corações em ambiente
bucólico, os seguintes não podem ser considerados social e historicamente inócuos
e simples. Na “Morgadinha” é vigorosa e eloquente a crítica ao obscurantismo
religioso e aos cacicais processos eleitorais, num tempo em que a chegada das estradas
e dos cemitérios se prepara para mudar o mundo rural.
O “Fidalgos” são uma alegoria à decadência do país
tradicional, que se recusa a viver no seu tempo. Pena que o resultado dessas
mudanças sociais e políticas não tenha correspondido ao otimismo do romancista.
Na altura as esperanças eram legitimas.
Apreciei muito a qualidade e vivacidade dos diálogos. Muitas
passagens são soberbas e deliciosas, provavelmente aproveitando as experiências
do autor pelo teatro.
Nestes romances há muitos bons corações e certas figuras possuem
uma força que as torna símbolos. Por exemplo, o médico das “Pupilas”, João
Semana, tem uma participação muito secundária no enredo. No entanto o seu nome
ficou para a posteridade como um símbolo do médico da aldeia abnegado, humano e
generoso. Representativo da força da escrita.
Enfim, recomendo!
PS: Tenho alguma relutância em deixar a foto da capa dos
“Fidalgos”. Quem desenhou aquilo não tinha a mínima ideia da história que era
suposto ilustrar.














