Durante algum tempo acompanhei de perto o que se passava na
Argélia e até aí residi uma temporada. A sua vida política tinha a particularidade
de ser duma misteriosa simplicidade. Simplicidade porque pouca coisa acontecia
que mudasse algo de relevante e, ao mesmo tempo, quase nada se sabia do que acontecia
nos bastidores do poder. De vez em quando transpirava alguma suposição, mas sempre
coisa pouca e pouco documentada.
Uma figura representativa deste estado de coisas era o
general Mohamed Mediène, de alcunha Toukif, que chefiou os serviços de
informação do país durante 25 anos, de 1990 a 2015. Ele não se via em sítio
nenhum, tampouco se expressava publicamente dalguma forma. As fotografias dele
eram raríssimas. Qualquer noticia era frequentemente ilustrada sempre com a mesma,
acima.
Num país em que as práticas dos agentes do poder não eram
exemplares, os serviços de informação (DRS) tinham acumulado um álbum com
registos comprometedores para todos, ou quase. Qualquer tentativa de abalar o
senhor era travada pela ameaça da abertura do armário e exposição da gaveta
correspondente.
As ações do DRS não se limitavam ao “soft-power”. Alguns
opositores mais determinados foram vítimas de acidentes infelizes e muitos
crimes imputados ao terrorismo islâmico levantam algumas dúvidas, já que
beneficiaram mais o poder do que os islamitas.
A informação é uma arma terrível, sobretudo em meios pouco
saudáveis. A suspeita de que uma polícia a utiliza em beneficio de interesses obscuros
é fatal para a confiança dos cidadãos no regime e quanto mais alto for o nível,
mais dramático será.
Isto vem a propósito do que se passa atualmente com Luís
Neves. Certamente que a PJ portuguesa não tem paralelo com a DRS argelina, mas as
contemporizações, as desculpas esfarrapadas, tudo isto transpira a manobras de
bastidores e a guerras de influência. Uma polícia e a PJ em particular não pode
ser arma de jogadas secretas.
PS: A teoria de que por trás disto existe uma “cabala” do
Chega é só mais uma dessas tentativas de projetar cortinas de fumo. A haver
cabala, ela estará noutro quadrante.














