16 junho 2026

Onde para a laicidade?


Durante muito tempo, assumir a laicidade como um pilar básico na organização da nossa sociedade foi praticamente consensual e levantando poucas dúvidas quanto ao respetivo significado. Como Cristo disse há uns séculos: A César o que é de César. Como se disse à igreja católica há mais de um século: podem continuar a celebrar batismos, mas nenhum cidadão será menos cidadão só por não ter tido o crânio regado numa pia batismal.

O termo voltou, entretanto, ao primeiro plano, arrastando polémicas e controvérsias quanto à sua interpretação. Em França, que funciona um pouco como balão de ensaio para muitas questões sociais, agita-se e recorda-se uma lei de 1905 como grande especificidade “religiosa” do país de Voltaire.

Nos inícios do século XX, quando se legislava quanto à laicidade, do outro lado da barricada estava a igreja católica. Com maior ou menor razoabilidade, grandes ou pequenas dores de parto, os seus princípios consolidaram-se e o assunto deixou de ser tema de atualidade.

A mudança acontece quando aparece uma agenda de islamização das instituições e do espaço público. Face ao perigo (sim, é um perigo!) representado, achou-se por bem utilizar como travão a tal lei de 1905. Vocês não podem avançar por aí, porque a sociedade não pode ser islamizada, nem cristianizada, nem “nanada”. Até temos uma lei antiga que sacraliza o carácter laico do espaço público. Não foi redigida agora em cima do joelho especificamente contra o islão. Entendo que estamos em presença de uma guerra, mas a ser travada no campo de batalha errado.

Há alguns anos, passei em Nantes na segunda metade de dezembro. Havia umas iluminações no espaço público, mas não eram de Natal. Chamavam-lhe Viagem no Inverno e os motivos eram uns caixotes coloridos, sem gosto nem fantasia… é por aqui que queremos ir nesse caminho para uma laicidade radical? Para uma sociedade sem gosto e sem carácter, desinfetada e esterilizada?

Um crucifixo na parede de uma escola pública é algo a banir, certo! Uma jovem que usa um fio ao pescoço e na ponta um pequeno crucifixo é caso de polícia? Se não é, então a colega do lado poderá usar uma cruz de David ou um crescente islâmico. Agora, uma jovem embrulhar a cabeça num pano, que amarra nos queixos, obrigada socialmente a uma imagem assexuada, porque que quem sai à rua com os cabelos soltos é vista e tratada como uma vadia, está certo? Está certo que precise de o fazer apenas para não ser criticada e incomodada?

Se em 1900 o “inimigo” era a igreja católica, hoje é outro. Talvez seja um pouco ingénuo pensar que podemos travar esta batalha com as mesmas armas do século passado. O contexto cultural subjacente ao projeto de poder católico de então é muito diferente do islâmico atual.

O que é necessário dizer (ou legislar) sem complexos é: Meus senhores, o que pedem é incompatível com os valores da nossa sociedade. Não sendo perfeita é largamente superior em termos de prosperidade, bem-estar e felicidade dos seus cidadãos àquelas em que os vossos princípios imperam. E ponto final (ou não).

 Existem dois fatores que concorrem a desequilibrar as forças nesta batalha. São a demografia e a democracia. Infelizmente soma-se um efeito amplificador de alguns políticos para os quais: inimigo do meu inimigo, meu aliado será. Esses políticos progressistas, prontos a achar irmandade com causas obscuras, poderão olhar para o caso do Irão. Onde ficaram depois da revolução os seus confrades aliados dos islamistas e o atual estado de liberdade e de igualdade que se vive no país, após ter sido salvo das maléficas influências ocidentais.

Sim, há uma guerra em curso, mas combatê-la apenas no campo da laicidade não é eficaz nem suficiente.

11 junho 2026

Anticlerical e laicidade


Foi Miguel Unamuno quem me chamou a atenção para Guerra Junqueiro. Um espanhol? Quem diria! Nem tanto. Unamuno é uma das mais ibéricas figuras culturais da península e entre a Salamanca onde ele finou e Freixo de Espada à Cinta onde Junqueiro nasceu, a distância, geográfica e não só, é menor do que entre elas e a capital do respetivo reino.

Como o português, Unamuno foi um ativista da mudança desencantado pelo resultado das revoluções que advogaram, o espanhol por duas vezes.

Uma das obras de referência de Guerra Junqueiro é este “A Velhice do Padre Eterno”, muito, muitíssimo anticlerical. Pode-se argumentar que ele tem razão, em parte. Em parte, o clero, e especialmente naquela altura, era merecedor dos seus mimos, ironias e sarcasmos. Certamente outros clérigos haveria íntegros e bem-intencionados.

Uma diferença fundamental entre a igreja de há um século e meio e a atual é hoje ter muito menos poder, fora daquilo que é o âmbito fundamental da religião. Acredito que os esforços, em parte brutais e excessivos, de travão às fainas sociais das sotainas, isso proporcionaram. Haveria outras formas, mais justas? Não sei.

Uma coisa sei e com boa certeza. Há uma religião que está a precisar de algum tratamento de choque análogo.

E, como ironia, transcrevo um dos poemas do livro, objeto da ilustração de capa acima representada.

PARASITAS

No meio duma feira, uns poucos de palhaços

Andavam a mostrar, em cima dum jumento,

Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,

Aborto que lhes dava um grande rendimento.

 

Os magros histriões, hipócritas, devassos,

Exploravam assim a flor do sentimento,

E o monstro arregalava os grandes olhos baços,

Uns olhos sem calor e sem entendimento.

 

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos;

Deram esmola até mendigos quase nus.

E eu, ao ver esse quadro, apóstolos romanos,

 

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,

Que andais pelo universo, há mil e tantos anos,

Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

10 junho 2026

A nossa Pátria


Ouvi recentemente uma figura das artes brasileiras argumentar que, após estudar e aprender várias línguas latinas, descobriu a sua língua, o brasileiro, supostamente suficientemente distinto do português para dever ser considerado uma língua autónoma. Quando esperava algum desenvolvimento e exemplos concretos dessa diferença, argumentou que as pessoas no Brasil sentiam orgulho em falar em música brasileira e outros campos onde se usasse o mesmo adjetivo, mas referir a sua língua como português, não agradava a muita gente.

Sendo assim, parece que se trata de mudar a capa da gramática, ficando o povo feliz, liberto dessa ligação ao antigo colonizador, que, aparentemente, ao dar independência ao país, terá lançado uma feitiçaria poderosa que dois séculos depois ainda limita o desenvolvimento do país.

Eduardo Agualusa veio mais recentemente tocar na mesma tecla, sugerindo o a mudança do nome do idioma para “língua geral”, expressão usada há vários séculos para as línguas mestiças utilizadas no Brasil. Parece tratar-se de um objetivo cosmético de apagar a assinatura da “supremacia cultural europeia”, colonizadora e maligna.

Como dizia Fernando Pessoa, “A minha Pátria é a língua portuguesa” e esse património é rico. No dia de Camões em que, mais do que Portugal, se celebra um dos maiores expoentes da língua portuguesa, o dia deveria ser de festa para todos aqueles que devem uma boa parte da sua herança cultural ao genial poeta.

Se há quem tenha problemas e angústias em assumir esse legado, incluindo eventualmente o senhor Aguageral, que tentem resolver o seu problema de alguma forma, mas sem fazer figuras ridículas.

08 junho 2026

A Ditosa Pátria


Entre “Os Lusíadas” de Luís de Camões e a “Mensagem” de Fernando Pessoa, fica a “Pátria” de Guerra Junqueiro. Em contextos e estilos muito diferentes, há algo em comum nestas três magnificas obras poéticas. O amor dos seus geniais autores pela sua ditosa Pátria, numa declaração inquieta e pujante, face a uma realidade decadente.

Em Camões temos a epopeia e o heroísmo, em Pessoa o fantástico e o misticismo, em Junqueiro o desespero e a loucura. O pano de fundo da “Pátria” é o do momento da aceitação do ultimato inglês de 1890 e a respetiva gestão por um rei, D. Carlos, apresentado como mundano, socialmente insensível, incompetente e irresponsável.

Este episódio tem características únicas e irrepetíveis. Participamos em poucas guerras, muito menos saindo delas como perdedores, pagando por isso humilhações deste tipo. Ocorre também num momento de esgotamento do regime monárquico. D. Carlos era muito diferente do seu tio Bem Amado, D. Pedro V. Os republicanos aproveitaram para capitalizar o descontentamento provocado e mobilizar vontades para a mudança de regime.

Guerra Junqueiro acreditava que a sorte do país seria diferente sob um regime republicano e na teoria teria razão. É potencialmente mais seletivo ao mérito, mais justo e assim, supostamente, mais próspero. Lutou, com a pena, por esse ideal, mas o resultado da Primeira República, muito diferente do modelo cívico de elevação moral que ele imaginara, rapidamente o desiludiu. As lutas partidárias, corrupção e violência, a começar pelo regicídio, amarguraram-no a ponto de refazer uma nova versão mais macia da “Pátria”, esta sem interesse.

Hoje não corremos o risco de receber ultimatos humilhantes e as teorias disruptivas de mudança de regime também não estão muito pujantes com uma revolução possível ao virar da esquina. No entanto, a incapacidade de a liderança do regime ser um modelo cívico de elevação mantém-se, somando-se os casos desde Primeiros-Ministros a Presidentes de Junta de Freguesia.

Como a ditosa Pátria vai sair e para onde irá, não sabemos, mas corre o risco de enlouquecer à imagem do “Doido” de Junqueiro e sabe-se lá o que pode fazer um louco.


06 junho 2026

Os refugiados eternos

No processo de Independência das colónias portugueses de África, cerca de 500 mil portugueses regressarem à metrópole. Ficaram conhecidos por “retornados”. Foi criado um organismo designado IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais) para apoiar esses refugiados à chegada, já que nem todos viriam com diamantes cosidos nas bainhas das calças.

Independente das justiças e injustiças ocorridas na gestão desse processo e se a duração foi curta ou excessiva, em 1975 era consensual a necessidade de um mecanismo de apoio. Se hoje ainda houvesse netos de retornados a viverem em tendas, em campos de campismo, subsidiados por um ainda existente IARN, isso já seria muito difícil de entender e justificar.

A eternização de gerações de refugiados por longas décadas é obviamente um absurdo, fruto de uma lógica onde esses seres humanos são ferramentas e vítimas de uma agenda que não é a dos seus interesses humanos. Existem dois bons exemplos dessas situações atualmente. A famosa dos palestinianos, que dura desde a independência de Israel de1948, onde alguns já estarão para lá de netos… A outra, menos conhecida, é a dos Saarauis, “refugiados” ainda presos em Tindouf, na Argélia desde 1975, data da invasão do Saara Ocidental por Marrocos. Não há aqui espaço para desenvolver os comos e porquês destes absurdos, apenas referir que algumas razões haverá para esta pobre gente viver miseravelmente e após tanto tempo ainda não estar de alguma forma integrada.

 

03 junho 2026

Gostos…


Não se discutem. Gosto de histórias com pessoas, suas particularidades e subtilezas, mais de que de construções filosóficas e complexas. Acredito que estas pecam sempre um pouco por desalinhamento no significado das palavras. Quando se sai para muitas voltas pelo abstrato não é garantido que a abstração e respetivas evocações sejam lidas de forma equivalente entre quem escreve e quem lê.  Entendo que a filosofia é mais interessante e fértil dialogada do que monologada.

Passando aos diálogos, gosto das histórias com muito discurso direto. Penso ser a forma mais eficaz e rica de traçar identidades, desenhar personalidades e “falar” aos leitores.

Vem isto a propósito de algo que li recentemente de Haruki Murakami. Já há algum tempo tinha lido o “Kafka à Beira-mar”, que muito de agradou. Agora foi a vez do “Norwegian Wood”, que me confirmou o autor como alguém que vale a pena ler. Estando bem localizado num espaço e num tempo que não são os nossos, tem o condão de nos fazer entender e viajar na cabeça dos personagens, apreciando a paisagem.

No passado, depois de me agradar um ou dois livros do mesmo autor, partia para uma sequência que apenas acabava quando não vi mais títulos do mesmo nas estantes das livrarias. Neste caso, hesito. Tenho algum receio de que o próximo possa não estar à altura das expectativas… A ver quanto tempo demorará a superar esse receio.

02 junho 2026

E acabar de vez com a mistificação?


No meu texto designado “O filho bastardo” e publicado a 26 de maio, refiro que esta revolução e respetiva larga aceitação nos momentos iniciais foram em muito consequência da incompetência, intolerância e violência da Primeira República. Li posteriormente isso ser classificado como uma apologia da ditadura, o que não é obviamente correto. No próprio dia 28 de maio não se sabia exatamente para onde o regime ia, mas sentia-se a necessidade da rutura. Posteriormente alguns desses apoiantes da primeira hora terão ficado desiludidos e passaram a opositores. O 25 de abril também teve um largo apoio popular inicial que, face à diversidade e até incompatibilidade dos projetos subjacentes, acabaria por ver apoiantes passarem a opositores, conforme a evolução concreta.

Considerar a Primeira República como um regime democrático é mais uma mistificação. O seu grande líder Afonso Costa defender que “o PRP deve permanecer no poder para defender o povo, mesmo contra a vontade do próprio povo», diz muito quanto à dimensão democrática desse projeto. Esta doutrina não ficou pela teoria e várias vezes o PRP recorreu à violência e intimidação para se manter no poder.

O primeiro regime republicano caiu principalmente pelos seus próprios erros e não como uma inocente vítima de malvadas forças reacionárias. Está mais do que na hora de acabar com a mistificação, ilimitada tolerância e tribal simpatia para com os Afonsos Costas deste mundo, se não queremos voltar a ver Salazares. 

31 maio 2026

Sim, é execrável


O ministro israelita Ben-Gvir é um personagem execrável, grosseiro e sem respeito pelos princípios básicos dos direitos humanos. O filme em que ele se apresenta a humilhar os ativistas da última flotilha é um triste e condenável exemplo.

Essa condenação não justifica que se considerem todos os israelitas e por demais de razão todos os judeus do mundo igualmente execráveis. Tão pouco justifica o destaque planetário que provocou, pela simples razão de que há coisas muito piores a decorrer em simultâneo, que são ignoradas. Alguns exemplos: o que se passa na China com os Uigures vai muito para lá da humilhação de uns ativistas que decidirem ir provocar o lobo. É gente em sua casa, na sua terra a quem são retirados direitos básicos ao longo de décadas. Os massacres em Myanar e no Sudão, onde não se trata de humilhação, mas sim de assassinato em massa também não são notícia. O calvário sofrido pelas minorias religiosas, por exemplo pelos drusos na Síria não comove muita gente, nem desencadeia flotilhas.

Por outro lado, uma escaramuça entre colonos e palestinianos na Cisjordânia é sempre bem noticiada. Não está em causa defender todas as ações de Israel, mas no histórico das hostilidades estas foram quase sempre desencadeadas pelos árabes que não aceitam o estado judeu, que a seguir se defende, desproporcionalmente, é um facto. Há quem “religiosamente” não o queira reconhecer, mas façam um esforço de objetividade.

Podemos discutir se a decisão da criação de Israel em 1947 terá sido um erro, mas o tempo dessa discussão já passou. A história da humanidade está plena de decisões injustas que muito sofrimento provocaram, por exemplo no desmembramento dos grandes impérios, no redesenho das fronteiras europeias após as guerras, mas as feridas provocadas acabam sempre por sarar. No caso de Israel, continua a haver gente com poder que não desiste do projeto de “atirar os judeus ao mar”. Como isso nunca irá acontecer, nunca veremos estabilização. Os ativistas que consciente ou inconscientemente fazem coro com essa reivindicação não estão a lutar pela paz.

Sobre fazer prologar a crise e a vitimização: Ainda há netos refugiados das ex-colónias português após 1974 a viver em tendas em parques de campismo, subsidiados por um IARN? Porque é que os descendentes dos palestinianos que saíram de Israel em 1948 ainda são “refugiados” e as centenas de milhares de judeus que na mesma altura tiveram que abandonar os países árabes não o são?

28 maio 2026

O Schmidt e os vroumms (III)

 Começou aqui 

Uma meia dúzia de anos mais tarde, já regressado a Portugal, caiu na minha secretária uma chamada da Autoeuropa. Era do responsável do sector onde estava instalado o famoso armazém automático, agora um português. Quando me tentou explicar brevemente o que era o sistema, respondi-lhe de que o conhecia muito bem.

Tinham problemas importantes de funcionamento e queriam saber se os poderíamos ajudar… Vroumm até Palmela. O sistema tinha alguns cancros que pesavam na sua fiabilidade e custos de operação. Mais chocante foi que, ao contrário da nossa proposta que tinha respeitado religiosamente o solicitado, eles tinham ignorado inúmeros pontos e não menores. Como exemplo, para quem tenha um cheirinho de familiaridade com o contexto, a eletrónica de controlo, em vez de recorrer a equipamentos standard e abertos como exigido (vulgo PLCs), usava um hardware fechado e específico do construtor.

Vendemos um serviço de auditoria detalhada, mas, obviamente, meter as mãos em seara alheia e mal plantada era uma operação de alto risco. Acabamos por propor um conjunto largo de alterações, jogando pelo seguro, mas o valor era incompatível. Não sei como acabou… não houve mais vroummms nem fui ver o Schmidt que possivelmente já lã não estaria, nem teria sido o responsável principal pelo desfecho. Aliás, destas “vitórias” estão os cemitérios cheios.

Mais tarde, acabou por haver alguns alemães finalmente a comprar aquilo a portugueses, mas isso já são outras histórias.

27 maio 2026

O Schmidt e os vroumms (II)

 Começou aqui

Não ganhamos? Como assim? Então, o vosso procedimento…!? Explicou o Schmidt que, sim, pois, mas a diferença de preço era muito pequena, ele até a poderia pagar do seu bolso, e o futuro responsável do sector em Palmela, atualmente em Valencia, diz que prefere o outro fabricante que lá forneceu (por coincidência alemão). Vrouum para Bruxelas, voo para Madrid e vrouum para Valencia com o nosso homem local, Jesus Garcia, para tentar mudar as ideias ao espanhol renitente.

Este, muito simpático, frontal e acessível, informou que não estava ainda decidido que viria para Palmela e quanto ao sistema lá montado, que nos mostrou, tinha tido muitos problemas de infância, que foram corrigidos, e que funcionava, sem mais. De forma nenhuma estava rendido. Pude verificar que os alemães tinham arriscado em algumas soluções que não tinham funcionado à primeira, tendo necessitado de vários remendos.

Regressado a Bruxelas, vroumm até Colónia para informar o Scmidt de que por ali não havia problemas. Acrescentou que havia um problema na integração com o sistema de gestão de produção. Deu-me o contacto do freelancer americano que tratava do tema e apanhei-o na fábrica Ford de Genk, mais ou menos a meio caminho entre Bruxelas e Colónia. Vroumm até lá para explicar o que tínhamos previsto e que ele validou. Curiosamente acho que na altura eu já tinha o Mondeo MK1, produzido naquela fábrica, que fechou depois em 2014. O Mondeo passou de lá para Valencia…

Entretanto, dentro da política monetária em vigor na época, o escudo tinha desvalorizado, o que aumentaria a diferença entre o nosso preço e o do alemão.

Vroumm até Colónia para explicar ao Schmidt de que por ali não havia problemas. Então disse-me que a equipa de automação tinha encontrado um problema na nossa proposta. Quando lhe pedi os contactos, respondeu que já chegava, não mos dava e assunto encerrado. Encerrado mesmo? Nem tanto.

Como mais ou menos na mesma altura disse o Diretor Técnico de um grande grupo alemão que tentávamos convencer: Isto não é coisa que se compre em Portugal!

Continua e conclui aqui


26 maio 2026

O filho bastardo

Brevemente veremos passar cem anos sobre a revolução de 28 de maio de 1926. No passado era celebrada como data fundadora do regime em vigor, para outros foi a hora zero de uma longa noite de trevas.

Além das considerações e ponderações emotivas, penso que vale a pena refletir um pouco no que foi esse dia e no porquê desse dia. O dia e o movimento em si têm algumas semelhanças com os da revolução seguinte de 25 de abril de 1974. Um movimento militar derruba facilmente um regime fragilizado, que não resiste, e recebe elevado apoio popular. Sim, religiões e profissões de fé à parte, o 28 de maio terá sido até mais consensual e com apoio popular mais amplo do que o 5 de outubro de 1910. Porquê? Porque a primeira República foi de uma incompetência, intolerância, violência e desorganização que uma mudança radical se impunha e era bem-vinda.

O 28 de maio foi um filho bastardo do 5 de outubro. Não se trata aqui de relativizar, desvalorizar ou menorizar tudo o que depois se passou. Apenas insistir que o caminho trilhado pelos primeiros republicanos levou direitinho o país para o que se seguiu. É importante procurar e assumir racionalmente as relações históricas causa-efeito sem romantismos irrealistas. Questão de evitar tristes repetições. 

 

22 maio 2026

Quando se desperdiça energia renovável


A energia elétrica tem a particularidade de necessitar de um ajuste permanente e instantâneo entre a produção e o consumo. Historicamente o parque produtor tinha flexibilidade suficiente para se conseguir esse equilíbrio com alguma facilidade. A produção eólica e principalmente solar vieram trazer uma fonte muito variável e de difícil controlo. Com o seu aumento, torna-se mais difícil fechar esse balanço. O apagão de abril 2025 parece ter sido a consequência de uma falha nessa gestão.

No entanto, nos períodos com excesso de produção e quando há energia a ser oferecida a custo zero e mesmo marginalmente abaixo de zero, os consumidores domésticos estão num tarifário de “pico” e a restringir o consumo. Há aqui algo que não faz sentido, já que os esquemas tarifários continuam a ser os herdados de outro século e de outra realidade.

Se as grandes empresas podem gerir dinamicamente o seu consumo e a sua fatura em função do preço real, seria lógico que a nível doméstico se criassem mecanismos e tarifas dinâmicas para que equipamentos tolerantes à intermitência como aquecimentos de água, climatizações e carga de veículos elétricos, por exemplo, pudessem estar informados e reagir automaticamente, aproveitando esses períodos de excesso de produção e esses preços baixos.

Comportaria alguns desafios técnicos e regulamentares (e de contra lóbi), se bem que a dificuldade não estará ao nível de um projeto Artemis. Permitira os produtores serem melhor remunerados, os consumidores pagarem menos e os reguladores terem uma dimensão de controlo adicional.

O que não faz sentido é estarem os consumidores a travarem consumos, porque o custo da energia é alto quando o sistema rebenta pelas costuras com excesso de oferta e são travadas e desperdiçadas capacidades de produção renováveis.



21 maio 2026

O Schmidt e os vroumms (I)


Leio na imprensa que a Ford está a pontos de vender a sua fábrica de Almussafes, Valência, à chinesa BYD. Todo um símbolo, depois de acabar com os convencionais e históricos Fiestas e Focus e de fazer acordos com outros construtores europeus para produzir os seus elétricos. A seguir ao Capri com a VW, sem grande sucesso, agora passará para Renault. Basicamente significa que não vêm potencial para investir numa fábrica própria e .. a Renault terá espaço para aceitar outras marcas nas suas linhas. Ainda, todo um símbolo.

Isto lembrou-me uma visita que fiz a essa fábrica espanhola da Ford, algures por 1993 ou perto e no meio de outra crise da indústria europeia. Estava em curso a construção da Autoeuropa, na altura uma parceria em que a VW desenvolveu o veículo e a Ford as instalações. Eu estava baseado na Bélgica e saiu o concurso para um pequeno armazém automático, para a fábrica de Palmela. Destinava-se a ferramentas e consumíveis, materiais não integrados no veículo, mas era muito importante para nós, pelo símbolo de estar naquele investimento e naquele sector.

Como as compras estavam a ser coordenadas a partir da histórica fábrica da Ford de Colónia e de Bruxelas a lá eram 220km, fiquei encarregado de acompanhar a proposta. Vroumm e fui reunir com o comprador responsável pelo concurso. Não me recordo do nome, mas vou chamar-lhe Schmidt, combina com o perfil de que tenho memória. Uma curiosidade no parque de estacionamento do pessoal da fábrica. Numa altura em que a indústria europeia estava sob enorme pressão pela oferta asiática, ver automóveis japoneses ali pareciam-me ser uma incoerência.

O Schmidt explicou-me o procedimento. As propostas recebidas eram analisadas, validadas tecnicamente e a mais barata adjudicada. Não havia segunda hipótese nem negociação. Tínhamos interesse em apresentar o melhor preço logo na primeira e única oportunidade.

O caderno de encargos técnico era muito detalhado e especificava opções técnicas que não utilizávamos, algumas interessantes e que até posteriormente adaptamos como standards. Sendo portugueses, para um projeto em Portugal apresentamos o preço em escudos.

Submetida a proposta e decorrido o tempo de apreciação, vroumm, lá fui visitar o Schmidt que me disse que estávamos validados e éramos os mais baratos. Abri um sorriso de orelha a orelha e disse: Então, ganhamos! E ele respondeu… Não !

Continua para aqui

18 maio 2026

A extraordinária URSS


Por estes dias o nosso extraordinário PCP lembrou que “A União Soviética, infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente, porque de facto foram anos extraordinários para o povo”. Por estes dias celebrou-se o final da II Guerra Mundial, onde a URSS esteve do lado dos vencedores.

Aqueles que querem a todo o custo encontrar algum mérito no período soviético, descontando o anterior terror estalinista e a posterior repressão na Europa de Leste, realçam a sua participação e generoso esforço material e humano despendido nessa guerra, do lado “certo”.

No entanto…  Em agosto de 1939, Estaline apertava a mão ao nazi Ribbentrop (imagem), escassos dias antes das tropas alemãs entrarem na Polónia pelo Oeste e a URSS a seguir os imitarem pelo Leste. Até Hitler decidir entrar na URSS em 1941, os partidos comunistas europeus viam até com alguma simpatia o regime nazi.

No final da guerra, enquanto a Oeste, Eisenhower deixa a primazia da entrada em Paris a Leclerc, simbolicamente permitindo que a capital de França fosse libertada por franceses, na Leste, na aproximação a Varsóvia, quando a resistência armada polaca cresce, os blindados soviéticos param e aguardam cinicamente. Ter os resistentes polacos massacrados pelos alemães era trabalho em avanço, dispensando os soviéticos de precisarem de fazer mais tarde.

O esforço de resistência clandestina polaca foi talvez daqueles com maior dimensão e organização, mas no final perderam de novo. O “mundo livre” deixou-nos sob a pata de Estaline.

Ainda estou à espera do detalhe do que foram os anos extraordinários da URSS. Talvez os polacos possam ajudar.

15 maio 2026

Glosa Crua, 21 - Tempo, 0


Sim, aqui no Glosa Crua não é habitual celebrar efemérides. Uma exceção é o aniversário do blogue, que a 13 de maio fez 21 anos.
Já foi  há 2 dias. Distraí-me, não tenho estado atento a notícias de Fátima, também não estou à espera de milagres... :)