No meu texto designado “O filho bastardo” e publicado a 26
de maio, refiro que esta revolução e respetiva larga aceitação nos momentos
iniciais foram em muito consequência da incompetência, intolerância e violência
da Primeira República. Li posteriormente isso ser classificado como uma apologia
da ditadura, o que não é obviamente correto. No próprio dia 28 de maio não se
sabia exatamente para onde o regime ia, mas sentia-se a necessidade da rutura.
Posteriormente alguns desses apoiantes da primeira hora terão ficado
desiludidos e passaram a opositores. O 25 de abril também teve um largo apoio
popular inicial que, face à diversidade e até incompatibilidade dos projetos
subjacentes, acabaria por ver apoiantes passarem a opositores, conforme a
evolução concreta.
Considerar a Primeira República como um regime democrático é
mais uma mistificação. O seu grande líder Afonso Costa defender que “o PRP deve
permanecer no poder para defender o povo, mesmo contra a vontade do próprio
povo», diz muito quanto à dimensão democrática desse projeto. Esta doutrina não
ficou pela teoria e várias vezes o PRP recorreu à violência e intimidação para
se manter no poder.
O primeiro regime republicano caiu principalmente pelos seus próprios erros e não como uma inocente vítima de malvadas forças reacionárias. Está mais do que na hora de acabar com a mistificação, ilimitada tolerância e tribal simpatia para com os Afonsos Costas deste mundo, se não queremos voltar a ver Salazares.












