09 julho 2024

De vitória em vitória até…


Uma larga frente, dita democrática e republicana, provocou e festejou em França a derrota da extrema-direita nas eleições deste passado domingo. Para começar, o RN tem muitos defeitos, mas nunca o vi questionar o regime republicano nem eleições e respetivo resultado. Começar por essa (não) caraterização é desde já estar a avaliar mal a questão.

Houve uma larga conjugação de forças sim, para derrotar RN, numa amplitude que em Portugal equivaleria a ir do CDS até ao PC e BE. A questão é que esta vitória não consolida nada. Em muitos círculos, mesmo assim, o RN perdeu por 40 e muitos por cento.

Tem razão Marine Le Pen quando diz que se não foi desta, será a seguir, é apenas uma questão de tempo. O vento sopra nessa direção e, continuando assim, isto é coisa de vitória em vitória até à derrota final.

Será dramático para a França e para o projeto Europeu uma vitória de um extremismo, sendo que os de esquerda também não são inócuos. Há aqui um exercício difícil entre compreender e atender às expetativas dos eleitores e fazê-los compreender os efeitos negativos a prazo das propostas populistas e extremistas. É necessário ter inteligência, seriedade e autoridade moral reconhecida, coisas que não abundam no panorama político atual. Independentemente da complicação de governação que se seguirá, este resultado é positivo, mas celebrá-lo não chega.

07 julho 2024

A Memória dos Dias

 

Correste a dizer que o dia vinha às portas da saudade

E cobriste de mil flores as varandas da cidade

Ao cantar enrouqueceste mil canções feitas à toa

Dançaste todas as ruas embriagadas de Lisboa

Leste os clássicos do tempo como toda a novidade

E a sonhar adormeceste no prazer da liberdade

Inventando mil amigos

Esquecendo velhos perigos


Não foi ontem que Fausto nos deixou fisicamente, mas as suas canções ficarão para sempre nas nossas memórias e nos nossos dias. Vi-o 3 ou 4 vezes em concertos, o último dos quais o “Três Cantos”, mas, mais do que ver, há ouvir e continuaremos a ouvi-lo.

Bastam uns poucos primeiros compassos para identificar o cantante autor em cada canção. Se “Por este rio acima” é a obra completa, não faz esquecer a magia do “Despertar dos Alquimistas” ou a delicadeza do “Para além das cordilheiras”.

 Pela beleza das melodias, pela doçura da voz, pelo brilho das orquestrações, pela riqueza das palavras, Fausto ficará na nossa memória para todos os dias e no património cultural de Portugal para sempre.

Vêm do fundo da paz da terra os sonhadores…

06 julho 2024

Acho que… será que…?

O exercício de “achar que”, assim tipo palpite, sem conhecimento profundo do contexto é caminho perigoso… frequentemente a realidade não corresponde com o que a ignorância imagina… De forma que eu achar algo relativamente ao futebol é perigoso e será prudente passar para a forma interrogativa.

Será que tenho razão ao achar que uma grande parte dos jogos do Euro2024 têm sido chatos e enfadonhos?

Será que no passado havia/era dado mais espaço a jogadores virtuosos que fintavam em série e emocionavam o público?

Será que excessos de individualismo e desenvolvimento de táticas e estratégias, com prioridade com circulação ao primeiro toque mudaram o paradigma?

Terá sido principalmente a partir do Barcelona de Guardiola que passou a ser mais importante o jogar em equipa, dando mais relevo ao papel do treinador e conseguindo resultados razoáveis, mesmo para equipas sem vedetas?

Será que as táticas de defesa evoluíram e aquela coisa de fazer um carrocel à frente da área, esperando provocar uma desconcentração e uma falha no adversário já não funciona?

Será que sem iniciativas virtuosas, este esperar por uma falha que não aparece é o que torna os jogos enfadonhos, em que se prefere a segurança de trocar a bola sem avançar, a correr o risco de um contra-ataque?

Pois, não sei, mas a França chegar às meias-finais com 3 golos marcados, 2 de autogolo do adversário e um de penalti, sem um único golo marcado em jogo corrido deve ser algo inédito.

 

Quitte ou double

Enquanto se achar que a razão do crescimento da extrema direita está na extrema direita...

01 julho 2024

Quitou, não dobrou


A estratégia ultra-arriscada de Macron de provocar eleições antecipadas em França foi um tiro de bazuca que saiu pela culatra. Sendo óbvio que a extrema-direita iria repetir o sucesso das europeias, qual era a ideia?

As contas do presidente devem ter tido em consideração o fato de se tratar de umas eleições a duas voltas e, sendo fácil gerar uma larga frente contra esses vencedores inoportunos, haveria grandes hipóteses de os segundos saírem reforçados e acabarem por ficar à frente na segunda volta.

O que baralhou as contas foi a criação de uma larga geringonça francesa onde o líder não parece ser o tradicional PS, mas sim o “insubmisso” Jean Luc Mélenchon, que advoga a saída da França da Nato, eventualmente da EU, tiques de antissemitismo, além de outras particularidades e excentricidades, muitas delas comuns às da cartilha de Le Pen. Acontece que foi essa geringonça quem ficou em segundo e serão os seus candidatos a receberem o voto útil contra a extrema-direita.

Portanto, o partido do presidente vai mingar e os pobres franceses terão de optar entre Le Pen e Mélenchon. Não lhes invejo o dilema!! Se a primeira opção constitui um perigo para a França e para a Europa, a segunda também tem riscos que baste …

Acho curiosas as eloquentes declarações de opção de desistência dos terceiros, para ajudar a combater a extrema-direita. Numas eleições a duas voltas, os terceiros têm direito a opção!?

30 junho 2024

Quitte ou double


França é um país que gosta de ideias, mas também alinha facilmente atrás de líderes fortes, que se impõem mais pelo carisma, do que pelas mesmas. Mesmo sem recuar aos tempos de reis solares ou de imperadores autoritários que confiscaram regimes republicanos, todos com boa aceitação popular, tivemos muito recentemente um tal de “mon general” De Gaulle, que na ressaca da traumática participação francesa na II G Guerra, fundou um partido pessoal e um regime com um nível de poder concentrado no presidente de fazer inveja a muitos reis, mesmo reinantes.

Emmanuel Macron, noutra escala certamente, é também alguém que aparece, funda um partido e que toma o poder, muito mais assente na sua personalidade do que numa ideologia. Não está a correr bem, se bem que não é fácil imaginar quem ali podia fazer melhor. No top 3 das últimas presidenciais, nos alternativos, entre Le Pen e Mélenchon, que veja o diabo e não escolha.

Depois das últimas europeias e respetivo descalabro, Macron resolveu jogar o “quitte ou double”. Efetivamente se quisermos excluir xenófobos, putinistas, anti-semitas e irresponsáveis “iluminados”, só mesmo o partido presidente apresenta alguma razoabilidade e racionalidade. Vamos a ver o que a razão dirá este domingo,

27 junho 2024

SOS Automóvel


Nem sei bem em que canal passa, nem os dias exatos, mas quando o zapping por lá passa, obrigatoriamente para. Carros…

Para lá das mecânicas, dos detalhes e especificidades das reconstruções de veículos de outras eras, alguns de que nos recordamos de ainda ter visto na estrada, há algo mais. Há a relação dos mesmos com os seus donos. Um carro da família, mesmo que esteja há anos abandonado e degradado, é parte da família. Daí, tantas imagens emocionantes de proprietários e famílias quando reencontram o “seu” carro, tal como um ente querido que esteve longe em viagem e que, surpreendentemente, a casa retorna.

Um carro da casa, talvez mais antes do que agora, quando duravam mais tempo, não é apenas uma coisa que se move sobre rodas. É um repositório de experiências e de vivências. É um símbolo de um tempo e de uma fase das vidas. Tendo no passado os carros especificidades e personalidades mais marcadas e distintas do que hoje, mais intensa é essa memória.

Por estes lados, sem a projeção mediática nem o financiamento do “SOS”, fiz recuperar o carro especial que tinha sido do meu avô desde 1974. Um 124 “Special T”. E recordo-me dos sorrisos que no final provocou...        

Reportagem aqui

12 junho 2024

O tamanho do S Gonçalo


Entre os vales do Cávado e do Neiva, há um ponto culminante, próximo dos 500 m de altitude, com uma vista enorme e abrangente a partir de lá, sendo também visto de “todo o lado” com a sua a torre de observação e antenas.

A primeira vez que lá tentei chegar a pedalar, foi numa tarde de verão tão quente que fiz meia-volta a menos de metade, ali pelo monte do Castro. De uma segunda vez, mais recente e mais pela fresca, fui um pouco mais acima, mas a combinação do declive com a irregularidade do terreno é tal que torna a coisa um pouco difícil. Aliás, o percurso sinalizado será quando muito para subir a pé e para quem não receia torcer um tornozelo. Foi esta combinação e “incapacidade” que me deu a motivação (e a justificação!) para comprar a elétrica.

Tanto assim, que após uma primeira volta de ambientação, a segunda saída foi subir ao S. Gonçalo, com a coisa melhor estudada, pelos estradões e não por leitos de ribeira secos…  Aliás, com a assistência elétrica no mínimo, já é um bom treino ir por ali acima.

 Mais do que altitude e da vista lá no ponto final, o que fascina é a dimensão daquela área enorme, sem uma casita para amostra. Há estradões que sulcam o monte em todas as direções e a sensação de que dificilmente se passará por todos os cantos e recantos. Liberdade é um pouco isso, também, não? Haver sempre algo por descobrir.

E a uma distancia de uma dúzia de quilómetros da base.., ou umas dúzias de pedaladas.



04 junho 2024

Afinal havia outra…

Ao vermos a horrorosa imagem de Luis Camões na moeda comemorativa dos 500 anos, imaginamos que será uma “experiencia” única, sem antecedentes nem subsequentes, tão consensual parece ser o absurdo e o ridículo de tal representação.

Mas não, afinal… havia outra!

No átrio principal do Palácio de São Bento, no nosso mui nobre Parlamento português há uma escultura, do mesmo artista, largamente aparentada com a moeda. Presumo que tenha dado direito a um bom desconto na conceção da segunda “obra de arte”…!

Aqui podem ver uma tentativa de explicação da mesma, mas apenas para quem for mesmo muito intelegentio… 

 

02 junho 2024

Camões não merece


Comemorar 500 anos de alguém que definitivamente da lei da morte se libertou não é pouca coisa. Quando esse alguém é provavelmente o maior génio da história portuguesa e o expoente máximo da nossa arte e cultura, o desafio é grande.

Entende-se e aplaude-se que o Banco de Portugal se tenha lembrado de cunhar uma medalha comemorativa. De passagem, é de referir que, no geral, esta efeméride pouco interesse parece estar a despertar. Pode-se entender que quisessem ilustrar a mesma com uma imagem diferente da clássica, que se vê nos manuais escolares…

Agora, que tal imagem seja uma coisa disforme, que nem sequer um rosto humano é, horrível de ver, sem propósito ou significado decifráveis, a menos de eventualmente desvalorizar e ridicularizar o príncipe dos poetas, isso é coisa que não se entende de todo, nem se aceita. É absolutamente ultrajante e quem autorizou tamanha monstruosidade deveria ser confrontado com a sua irresponsabilidade. O domínio artístico é certamente subjetivo, mas há mínimos de decência e de respeito, especialmente neste contexto. Aparentemente Camões continua a não merecer o país que tão brilhantemente cantou, mas, sei lá, às tantas esta moeda ainda vai ganhar um prémio de design qualquer…

30 maio 2024

E/Imigrantes


Por estes dias, o nosso governo aprovou um conjunto de medidas em favor dos jovens, nomeadamente para procurar reter os qualificados cá no país e evitar o nosso empobrecimento em recursos humanos.

Ao mesmo tempo, há quem clame que devemos receber na Europa todos os que quiserem para cá vir, pela necessidade de termos mais gente a trabalhar e a criar riqueza, independentemente do que isso possa implicar de empobrecimento nos seus países de origem. Falta de coerência ou simples egoísmo/oportunismo?

Migrações sempre houve e haverá na história da humanidade e o respetivo enquadramento não se resume a uma palavra, ou duas: integração e asilo. Uma jovem afegã a quem foi vedado o acesso aos estudos não pode ser tratada da mesma forma que um quadro superior magrebino que procura melhores condições económicas. E muito menos do que um originário não importa de onde que queira simplesmente usufruir do guarda-chuva social europeu.

Não podemos fechar a porta a toda a gente, nem abrir de par em par. Devíamos estar de acordo que a prioridade das prioridades é proporcionar condições de vida digna para todos, no local onde nasceram e isso não passa obviamente por esvaziá-los dos seus recursos humanos valiosos. A Europa cometeu certamente erros no seu passado, mas que esteja condenada a uma expiação coletiva de todos dever receber como penitência, não. O erro maior está principalmente nas carências nos governos dos países de onde os emigrantes querem sair, mas pôr isso em causa pode ser classificado de ingerência e “neo-colonialismo”.

E não falei dos choques culturais de (des)integração que não são um problema menor, nem se resolvem com ignorância e ingenuidade.

24 maio 2024

O Diretor “Executivo”

Com o processo de substituição de Fernando Araújo na direção do SNS, têm abundado as referências ao seu cargo de “Diretor Executivo”. Não será caso único com essa função designada, mas o sentido dela em bom português é algo que me escapa.

Escapa-me pela simples razão de que, tanto quanto sei ou imagino, não existem diretores sem funções executivas. De que servirá então acrescentar esse atributo, em pleonasmo? Penso que se deve a um certo “lost in translation”.

Em inglês existe, é certo, o executive director, mas a confusão vem do facto de que director não se traduzir por diretor, mas sim por administrador. O board of directors é o conselho de administração, não a direção da empresa/entidade. Aí faz todo o sentido existirem administradores executivos, com responsabilidades na gestão diária da empresa e outros não executivos.

A confusão aumenta quando os membros executivos de uma administração constituem uma chamada “comissão executiva” (CE), que efetivamente governa a empresa ao mais alto nível. Chamar “executivo” a um diretor poderá ser uma forma de tentar dizer que ele “está lá em cima”. Não será, no entanto, pelo simples título de “executivo”, alguém que executa, que tal se concretiza. A kind of lost in translation?

 

22 maio 2024

Um bom debate?


Será que o debate de ontem foi um bom debate, como vi referido nalguns fóruns? Começando por para que serve o debate? Para conhecer os pontos de vista dos candidatos ou para, em sentido largo, aprender algo? Bom, para os candidatos repetirem aquilo que já sabemos valerá de pouco e isso foi o caso de João Oliveira, absolutamente cassete, ou disco riscado, e não vale a pena questioná-lo, porque dali nada sai nada diferente ou de outro “racional”.

Tanger Correia parecia, mais uma vez, alguém na corda bomba, a tentar não se espalhar, com uma cassetizinha mais ou menos aprendida, mas dando ares de ter vontade que aquela espécie de tormenta acabasse depressa.

Ficava então Marta Temido (tendo gaguejado menos) e Sebastião Bugalho, supostamente quem poderia apresentar visões e ideias mais equilibradas e supostamente mais ricas e esclarecedoras. Se é um facto que debaterem, e talvez haja quem adore este espírito de tourada, foi tudo na base do disseram, não disseram, é verdade, foi mentira. Mais do que afirmarem, pela positiva, o que pretendiam e propunham, caíram muito facilmente no acusar o outro do negativo que eles, ou o seu grupo político fizeram. Foi, não foi, disse, não disse. Muito pobre. Acho que foi um debate inútil. Não aprendi nada.

20 maio 2024

Protestos contra… os próprios


Tem-se visto algumas referências ao paralelismo entre os atuais protestos de estudantes, particularmente nos USA, contra a guerra na Palestina e aos de há umas décadas atrás contra a guerra do Vietname. Há alguns pontos em comum, mas a intervenção militar americana na indochina tinha motivações, objetivos e antecedentes completamente diferentes dos do contexto atual. Também quem protestava era quem, ou seus próximos, lá ia expor-se, o que não é o caso de todo neste momento.

O que há também de comum entre estes protestos e outras contestações estudantis é o serem “contra o seu sistema”. É compreensível e meritório que os jovens queiram e exijam um mundo melhor e questionem a forma como o seu mundo é administrado, mas isso não deveria gerar simpatia por regimes brutais, largamente piores em termos de respeito pelos direitos humanos do que o mundo ocidental. Porque será que a brutalidade da Rússia na Síria para acabar com o Estado Islâmico, poucos dedos fez levantar? Xinjiang diz alguma coisa?

Na fundação de Israel, este enfrentou os estados árabes promovidos pelo ocidente, na sequência da reorganização dos Médio Oriente, pós queda do império Otomano. Assim, inicialmente foi buscar apoio ao chamado bloco de Leste. Vai uma aposta em como se hoje os EUA ainda apoiassem apenas os árabes e a Rússia suportasse Israel, os estudantes americanos estariam sossegados ou, quando muito, a sair à rua com bandeiras do estado judaico, protestando contra o (seu) imperialismo que tinha desencadeado esta guerra desnecessária? Depois, há também quem se aproveite desta ingenuidade/ignorância e que lhes chama “idiotas úteis”.

18 maio 2024

Os turcos devem estar a rir


Obviamente que André Ventura disse uma grande “patacoada” quando, relativamente aos prazos para a construção do novo aeroporto de Lisboa, resolveu fazer uma comparação com os turcos “que não são propriamente conhecidos por ser o povo mais trabalhador do mundo”. Obviamente que deve ignorar a dinâmica económica e empreendedora daquele país que, podendo não ser o mais dinâmico do mundo, tem uma capacidade de realização e de resiliência capaz de fazer inveja a muitos.

Fazer dessa patacoada uma questão de Estado, capaz de mobilizar a primeira página dos media, é realmente um sinónimo de que não devemos ter grandes problemas em curso neste nosso jardim à beira-mar plantado.

Sim, é uma patacoada infeliz, desnecessária e desenquadrada. Não é de aplaudir, claro, mas basta classificar uma vez. Se bem conheço os turcos, estou a imaginá-los mais a ironizar sobre tais despropósitos do que a sentirem-se vítimas de racismo ou outro crime qualquer…