19 março 2026

A vingança do grão


Ao receber o último número da revista de fotografia “Competence Photo”, deparei-me com um editorial, o título acima, e que assim começa (e que uma IA traduziu…):

Há algo de paradoxal no estado atual da fotografia. Nunca antes os sensores foram tão precisos, nunca antes a gestão de ruído digital foi tão impressionante, nunca antes o autofoco foi tão infalível. Os fabricantes competem entre si para produzir imagens cada vez mais nítidas, cada vez mais limpas, cada vez mais fiéis ao que o olho percebe — ou melhor, ao que deveria perceber, segundo uma certa ideia de perfeição óptica. E, no entanto, em todo o lado, observamos o mesmo movimento inverso: fotógrafos a adicionar grão, a procurar lentes vintage com as suas aberrações deliberadas, a desempoeirar os seus filmes Kodak Portra ou a usar presets para simular precisamente o que as suas câmaras se esforçam por eliminar.

Poderíamos ver isto como mera nostalgia, apenas mais uma tendência retro numa era que as adora. Mas isso seria demasiado simplista. O que está aqui em causa é mais profundo: uma resistência à perfeição fria, uma forma de reintroduzir um traço de fragilidade humana na imagem. Granulação, vinheta, ligeiro desfoque de movimento já não são defeitos a corrigir — tornaram-se assinaturas, prova de que por detrás da objectiva estava alguém, com as suas hesitações, as suas limitações, o seu ponto de vista.

É um excelente tema de reflexão. A partir de certo ponto, demasiado perfeito e esterilizado torna-se desumano (bem se costuma dizer que errar é humano). Uma imagem fortemente desfocada pode ser muito “característica”, denunciadora de uma assinatura forte, mas até que ponto funciona, isto é, é apreciada e desperta algo em quem a vê?

Se eu ao escrever um texto eu deixar uma virgula fora do sítio, isso será prova da minha falibilidade e de que o mesmo não é uma produção sintaticamente perfeita de um Chatgpt (já agora, não aproveitem para pedir ao mesmo, faz-me um texto com uns erritos ligeiros, para a coisa parecer humana).

A imagem acima é de 2013 e na altura a pequena Olympus ZX-1 de viagem, já incluía dentro dos filtros, a que em geral pouco ligava, esta opção de “grain film”, simulando fotos antigas analógicas, com resultado interessante.

Em resumo, a técnica resolve problemas técnicos, que são uma parte e uma ferramenta da criação. Se a técnica deixa de ser um desafio, mais espaço haverá para explorar o outro desafio, o da criatividade. Se essa criatividade passa pela imperfeição, certo, ma non troppo.

Já agora, para não haver confusões, falamos do registo de imagens existentes e não das inventadas (especuladas). A partir da imagem de alguém num funeral, fazê-la “evoluir” para colocar a pessoa a sorrir, pode ser divertido de ver, mas é outro contexto que, confesso, a mim, pouco me atrai.

18 março 2026

Um (outro?) Médio-Oriente

Médio-Oriente é uma designação geográfica historicamente associada a instabilidade e a guerras crónicas. Inclui Israel, comparado com os vizinhos um corpo estranho em termos de organização do país, valores sociais, prosperidade e outras coisas mais… e os outros todos seriam os “árabes”. Olhando um pouco mais atentamente, fomos vendo crescer umas diferenças entre os chamados países do Golfo, os ricos, e as imagens mais tradicionais da região.

Começando pelos Emiratos, especialmente o Dubai e passando pelos sauditas e pelo Qatar, foram nascendo urbes vistosas, luxuosas, procurando projetar uma imagem deslumbrante de modernidade. Não temos conta de quanto investiram em imobiliário faustoso, eventos sociais e desportivos de todo o tipo, sempre em prol da construção de uma “nova imagem”. O alvo vai para lá dos habitantes naturais. O objetivo era atrair atenções, para fundos e figuras se instalarem e desfrutarem de um novo e sofisticado paraíso terrestre.

A guerra com a Irão, e a resposta deste, veio demonstrar amargamente que aquela margem do golfo Pérsico continua a pertencer a uma região alérgica a paraísos. Cada míssil ou drone iraniano que explode está a provocar danos e prejuízos patrimoniais brutais, largamente superiores ao custo dos muros derrubados e dos vidros partidos.

Os petrodólares investidos, assim como as outras divisas que lá entraram deverão estar numa angústia enorme. Como se podem salvar, com aqueles vizinhos imprevisíveis e belicosos do outro lado do golfo. O dinheiro manda muito e palpita-me que uma guerra financeira deve estar a decorrer em paralelo.

Certo que se não houvesse intervenção dos EUA e de Israel, nada disto teria acontecido… agora. Mesmo que esta guerra acabe, agora, as sequelas e as incertezas serão esquecidas? O Irão acaba de dar uma machadada valente no valor dos projetos desenvolvidos durante décadas com custos exorbitantes. Afinal, estamos no Médio-Oriente… Será um dia esta expressão sinónimo de algo diferente? Não sei…

Nota adicional em 19/03. No Qatar e nos Emiratos foi decretado ser crime filmar imagens dos ataques. Neste momento já se contam por centenas os criminosos no Qatar e dezenas nos UAE. Questões de segurança... financeira!

15 março 2026

E depois da guerra?


Criticar a intervenção militar no Irão com base no atropelo ao Direito Internacional é algo que fica entre o ingénuo e o manipulador. Se, por exemplo, a Andaluzia estivesse governada por um Estado Islâmico, este a desenvolver misseis e armas nucleares com o objetivo público e assumido de arrasar Lisboa, nós teríamos continuado década após década calmamente apelando ao tal Direito Internacional, quando este nada faz? Não teríamos legitimidade de facto para rebentar com as instalações militares? Seria guerra, sim, seria guerra.

Certo que a forma como o regime iraniano trata os opositores cai fora do respeito pelos Direitos Humanos, mas se fossemos bombardear todas as ditaduras atrozes, a lista seria longa e os resultados pouco garantidos.

A situação atual inclui um atestado de nulo valor e clara incompetência da ONU. Lidar com um Trump não será fácil, mas entregar esse trabalho a um Guterres, tem resultado garantido, sendo que, mesmo com um presidente dos EUA menos atípico, não seria expetável muita dinâmica e liderança construtiva da parte dete secretário-geral.

Se a morte de Khamenei não foi chorada por muita gente, e até celebrada, como reagirá a população aos contínuos bombardeamentos, mesmo se apenas sobre instalações do regime? O regime mostrou ser suficientemente sólido para sobreviver a uma decapitação, mas se cair, o que virá depois? Que plano existe para esse dia seguinte? Experiências recentes estão fartas de demonstrar que muito mais difícil do que ganhar a guerra pode ser ganhar a paz.

11 março 2026

SNS pobre ou rico


Somos um país tradicionalmente pobre e estamos culturalmente habituados a que quando algo falha ou falta, a culpa ir cair num lamento de “a manta é curta”, em jeito de fatalidade.

Daí que quando surge numa necessidade absolutamente premente ou uma falta inaceitável, a reação frequente seja “é preciso gastar mais dinheiro”. Sem ovos não há omeletes, mas não é por encharcar a frigideira com ovos que o resultado vai ser o pretendido. Sem critério nem controlo será desperdício.

Noutras situações, em vez de fazer funcionar eficazmente as instituições existentes, enxerta-se uma “nova coisa” que, essa sim, vai resolver…

O SNS no nosso país, parte das necessidades de primeira linha da população, parece encaixar neste panorama. Se o problema é falta de dinheiro, aumenta-se o orçamento, mas 72% de aumento da despesa entre 2015 e 2024 não parecem ter correspondência proporcional nos serviços prestados. O problema está na gestão e coordenação? Cria-se uma “Direção Executiva”, que até operou sem estatutos nem definição clara de competências por um “breve” período de um ano e meio. O escândalo na dermatologia do Santa Maria demonstra existir falta de controlo? Cria-se uma comissão de combate à fraude. Como vai funcionar? A função antes não existia?

O recente processo de “decisão” da criação do novo centro de cirurgia cardiotorácica no Hospital de Santo António é mais um exemplo. O Hospital quis, secretários de Estado despacharam e alguém pagará. Onde ficou a coordenação e o planeamento? Onde esteve a famosa Direção Executiva? Se não intervém em decisões desta natureza, para que serve?

Entretanto, a administração desse mesmo hospital irá ser julgada no Tribunal de Contas por irregularidades na contratação de serviços e isso não parece incomodar muita gente. Quando haverá efetiva responsabilização de tantos danos à tal manta, curta, que é de nós todos, sob o manto das necessidades de saúde da população?

10 março 2026

O fim dos segredos

É o anunciado na capa do livro, mas como já passaram uma dezena de anos desde a sua publicação, certamente que novos segredos ter-se-ão, entretanto, acrescentado.

Trata-se de um tema que me interessa por várias razões e mais uma. Por que raio as pessoas se associam em “caixinhas” para secretamente combinarem e planearem ações que potencialmente podem influenciar toda a sociedade? Num mundo livre, como o nosso, no mínimo é deselegante.

Este livro visita em várias dimensões as duas organizações mais relevantes desse campeonato e várias diferenças entre as duas ficam evidentes, para lá daquele contraste típico do esquerda-direita, religioso-laico e outros binómios tradicionais que tais.

O Opus Dei parece ser muito mais organizado e centralizado, tendo alguns aspetos que me custa muito a aceitar. Para começar, a idade com que começam a recrutar os jovens e a falta de liberdade imposta aos membros. Seja intelectual (a que Diabo lembrará proibir a leitura de uma boa parte de Eça de Queiroz!?), seja económica, especialmente dos numerários, com a entrega integral do seu vencimento à organização, além de a fazerem beneficiária do seu testamento. O estatuto das numerárias-auxiliares que prestam serviços domésticos na organização “gratuitamente” é indigno e bem capaz até de ser ilegal em termos de direitos do trabalho (para não falar de humanos). Castigos corporais impostos e obrigatórios também não pertencem a estes tempos em geral nem à doutrina cristã em particular.

Tem, no entanto, o OD objetivos claros, anunciados e praticados. Concordando ou criticando, entende-se ao que vêm. Na maçonaria é bastante mais vago. Certo que historicamente, há um século atrás, eles diziam ao que vinham e “lutavam” abertamente por isso, mesmo com armas e milícias, mas hoje não é claro. Têm a sua cartilha e objetivos, mas pessoas como Isaltino Morais estarão lá pelo catecismo oficial? Estão a vê-lo a filosofar e a expressar grandes ideias e princípios…? Qual a motivação que pessoas desse calibre têm e o que espera a organização deles, mesmo frescamente saídos da cadeia? Qual o resultado social efetivo e público das ações da organização? É tudo secretíssimo?

Podem ambas as organizações explicar o seu apetite pelo recrutamento de gente influente? Parece-me que o objetivo imediato das duas é o poder, seja poder pelo poder, seja como meio para atingir o seu graal, sendo a natureza prioritária (realço a palavra) desse caminho diferente entre as duas. O OD busca o poder sobretudo pela vertente financeira. Uma boa parte dos seus “famosos” são gente ligada a bancos e outras instituições financeiras. A maçonaria, pelo menos a principal, busca o poder pela influência política. O número de maçons nas estruturas de Estado, seja no Governo, seja nas instituições tuteladas pelo mesmo é desproporcional à sua presença na sociedade. Assim sendo, pertencer à irmandade pode ser um bom passaporte para certos lugares…

Há algo que me incomoda, e talvez mais significativo no caso da maçonaria, que é a gestão facciosa e obscura das estruturas e bens públicos. Ambas as irmandades têm reflexos tribais. A responsabilização exigida a quem tem poder sobre aquilo que não lhe pertence obriga a transparência. Enquanto isso não existir, o sistema não será são.

Uma (pequena) provocação final. Para quando um Rui Pinto dedicado a tornar públicos eventuais esquemas que orbitam por aqueles lados…?

PS: De assinalar um ponto comum entre ambas que é, embora de forma diferente, a menorização do estatuto da mulher.

 

09 março 2026

Adeus, Marcelo


Diz o povo que quem muito fala, pouco acerta e esta é uma frase que associei a Marcelo Rebelo de Sousa desde os seus tempos de comentador. As minhas expetativas para o seu desempenho como Presidente da República sempre foram baixas.

Agora, na saída, é curioso visitar a galeria de imagens do seu reinado. Há certamente uma vertente de contacto humano com toda a população e episódios de informalidade, que vão de o PR se querer colocar ao nível do cidadão comum a extremos desconcertantes. Uma grande popularidade e receções entusiastas, inclusive nos Palops.

Agora, e eu passo sempre rapidamente aos “agoras”, a vida não é apenas feita de sorrisos e selfies, pelo menos para quem aspira ou tem por missão ser mais de que figurão em redes sociais. Que guardamos na memória de uma intervenção de MRS profunda e notável? Certo que fez muitos discursos e neles passou mensagens “corretas”, mas…

Mas a imagem que fica é de um MRS mais preocupado com a sua promoção, imagem e correspondente popularidade do que com os verdadeiros interesses do país. Estarei a ser injusto? Talvez, mas da galeria de memórias do seu exercício, guardamos muitas memórias simplesmente visuais e muito pouco de projetos estruturais.

Para não fugir à tradição, a Marcelfie final com o governo é representativa e absurdamente caricata. Parece de uma reunião de antigos alunos que se juntam alegres e animados para a fotografia final do encontro. Muito riso, pouco siso e há momentos em que os sorrisos passam a ridículos. Sobre sorrisos, também me chocou uma visita a um cemitério militar português em França, com Macron e Costa, onde os dois portugueses caminham sorrindo contentinhos, sem o mínimo respeito pelo significado do chão que pisavam.

O que faltou mesmo nas galerias de imagens que vi foi a enigmática (marcelática) visita ao Beco do Chão Salgado em novembro de 2023. O processo e execução dos Távoras foi um episódio sinistro de abuso de poder e injustiça, abominável em várias dimensões. Abordar o assunto e o local sem ser claro e frontal é inaceitável. Enviar recados e insinuações diretas naquele local foi de uma ligeireza e irresponsabilidade institucionais brutais. Talvez a maior memória da falta de conteúdo (sério) que me fica deste senhor vaidoso, manipulador e… algo tonto.

05 março 2026

Entre russos


Sim, há mais russos para lá de alguns de triste memória…

No meu ponto de vista uma obra de arte vale fundamental pela sensibilidade despertada. A mestria técnica ajuda e creio até ser indispensável. Um quadro com borrões de tinta projetados ou uma “instalação” com algumas chapas ferrugentas dobradas dificilmente compensarão a falta de técnica artística com algo que me impressione o suficiente para as apreciar.

O tema, pode ajudar, mas acabar por ser um pouco secundário. Nma sinopse da Mona Lisa constaria “Um retrato de uma mulher” e não seria por aí que lhe chegaria a fama. Noutro campo e noutra escala, um dos melhores livros de Saramago para mim é o “Todos os nomes”, cujo sumário pode ser considerado banal, ao contrário das “Intermitências da morte” e de “O homem duplicado”, onde um muito interessante tema não tem desenvolvimento (e impressão) proporcional, na minha opinião.

Vem isto a propósito destas duas figuras maiores da literatura russa, objeto de um tratamento muito díspar na minha biblioteca. Para Dostoivesky está lá, e lido, tudo o que encontrei, algumas edições até com umas boas décadas em cima e páginas escurecidas, longe do branco original. Para Tosltoi havia apenas uma singela “Anna Karénina”, talvez o seu maior romance, mas que permanecia por percorrer, coisa que fiz recentemente.

Sobre Tolstoi, é indiscutível que ele domina a arte de escrever e que o livro nos faz viajar, impressionar e sentir… Agora, em comparação com o autor dos “Irmãos Karamazov”, falta-lhe o toque que me provoca a diferença entre o excelente e o genial. Estamos no domínio da impressão, a minha não será a de toda a gente, nem a de hoje pode ser a mesma amanhã. Apenas digo que a “Anna Karénina” irá continuar singela na prateleira, e “Os Possessos” talvez sejam objeto de releitura.

Mas, enfim, nisto como em outras coisas, cada qual como cada um… e ainda bem.

01 março 2026

Sócrates não tem culpa…

Na medida em que o seu julgamento não chegou ao fim, o Sr. Pinto de Sousa não pode ser considerado formalmente culpado, mas está a fazer tudo para que o processo não se conclua a tempo e, disso, tem certamente culpa.

É impressionante como há gente, com tempo de antena, com coragem e descaramento para afirmar que este rodízio de advogados não é da responsabilidade do réu. A culpa é de o processo ser desproporcionalmente grande e o senhor não tem culpa dos seus advogados entrarem em desacordo com a juíza (!?) ou ficarem doentes.

Como é evidente, com tantos meios e custos envolvidos na sua defesa, com tanta litigância em tantos foros, o senhor não depende certamente de um único causídico, à mercê de uma qualquer corrente de ar. Sócrates só não apresenta oficialmente em tribunal um advogado conhecedor do processo porque não quer. Porque não quer que o processo se conclua a tempo de evitar as prescrições e quem nos tenta convencer do contrário não é honesto…

 

27 fevereiro 2026

ULS Gaia/Espinho - A farsa continua


A ULS Gaia-Espinho, vulgo “Hospital de Gaia”, cumpre há vários anos todos os critérios de serviços médico-cirúrgicos disponibilizados e de população servida para ser classificado no nível de topo dos hospitais públicos. A consequência da reclassificação é naturalmente dotar a unidade de meios materiais e humanos suficientes para atender às necessidades. Porque não está nesse nível não se sabe, nem se entende.

O que sabe é que após uma visita da então ministra da Saúde, na altura Marta Temido, foi reclassificado com efeitos apenas no vencimento dos gestores, como se a prioridade fosse satisfazer revindicações individuais dos mesmos e acalmá-los.

Mais recentemente, em novembro passado, ouvimos uma proposta absurda de transferir competências pediátricas de Gaia para o Santo António… Como se Gaia não fosse o terceiro concelho mais populoso e com a ULS a servir ainda outros concelhos a sul do Douro.

Agora, nasce uma “necessidade”, aparentemente não confirmada pelos dados objetivos, de abrir um terceiro centro de cirurgia cardíaca no grande Porto, no Hospital de Santo António.

Com todas as necessidades objetivas existentes no SNS, confirmadas e à vista de todos, avançar com este processo coloca algumas questões. Faz sentido esta dispersão de existirem três estruturas desta complexidade num raio inferior a 10 km? Faz sentido arrancar com um novo centro desta natureza, recorrendo a prestadores de serviços, vulgo tarefeiros, eventualmente “roubados” aos dois centros já existentes e comprometendo a viabilidade do que já existe e funciona?!  Não seria preferível utilizar essas verbas para reforçar os serviços de obstetrícia, por exemplo, e deixarmos de ter os episódios terceiro-mundistas dos partos em ambulâncias?

Quais serão as justificações reais, é a questão que fica em aberto… O interesse dos utentes do SNS não parece ser.

23 fevereiro 2026

E se fosse no ISCTE?


O caso de Fábio Teixeira, formado em enfermagem, nomeado para coordenador da Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis (EMER) fez correr muito tinta e inclusive a suficiente para ser rapidamente decretada a reversão da nomeação.

Efetivamente, o desalinhamento entre a sua área de formação e a natureza da estrutura causa perplexidade. Desconhecemos se terá conhecimentos específicos sobre o sector, como Miguel Barreto, que depois de ter sido diretor-geral de Energia, se dedicou a criar dúzias de empresas especializada em ganhar licenças de produção de energia, posteriormente revendidas com interessante mais valias. Os condicionamentos no acesso à produção de energia verde, criam oportunidades douradas e talvez Manuel Pina, o presidente da EMER, que nomeou o enfermeiro, tenha algo a explicar sobre eventuais conflitos de interesse com as empresas em que participa/participou.

Podemos ainda especular o seguinte. Se Fábio Teixeira tivesse tirado um curso de “Ciências Políticas” ou outro análogo, porventura menos exigente intelectualmente e tecnicamente também desalinhado, certamente não se levantaria tamanho vendaval… e que desses há por aí muitos, há.

A qualificação para uma função de gestão não se esgota na formação técnica e académica. É indispensável um conjunto de qualidades humanas e de liderança. Formação política nos ISCTEs ou nas juventudes partidárias, essas qualificam pouco para o que realmente importa.

20 fevereiro 2026

Esquerda, direita e o resto

Tempos houve em que as diferenças ideológicas existentes nos partidos do arco do poder eram mínimas. Pouca gente estava interessada numa mudança radical do modelo político e social e as opções eram tomadas em função da competência pressentida nos candidatos. O voto de protesto consistia em alternar o inquilino de S. Bento entre o PS e o PSD.

O mundo mudou, entretanto, e esses inquilinos não entenderam que precisavam de mudar práticas, mais práticas do que princípios, para continuar a merecer a confiança do eleitorado. O protesto deslizou então para extremos, mais radicais, que numa primeira fase foram ignorados pelos estabelecidos, já que traziam propostas irrealistas e mesmo perigosas para valores sociais fundamentais e “consensuais”.

No entanto, a rejeição dos extremos, os famosos cordões sanitários, foi sempre muito mais exigida à direita do que à esquerda. É crime louvar Hitler, e bem, enquanto admirar Estaline será apenas uma exótica demonstração de coerência.

Em Portugal, o jogo mudou com a geringonça Costista. Com o objetivo de alcançar o poder, decretou-se uma fraternidade de “Esquerda”, mesmo quanto relativamente a temas tão fundamentais como projeto europeu, moeda única, defesa e Nato muito pouco havia em comum entre os supostos “irmãos”. Os custos desta aliança ainda estão a ser pagos, no buraco da TAP, no tempo de trabalho da função pública e no descontrolo migratório, este último o grande combustível do populismo de extrema-direita.

“Não é não”, dizia então o PSD quanto a eventuais acordos com o Chega, entre aplausos e desconfianças. O cordão sanitário à direita tornou-se uma exigência dramatizada e um suposto bloco de “Direita”, de que se começou a falar depois das legislativas de 2025, era coisa (ainda?) algo clandestina. As razões para essas reservas são naturais. Para lá dos toques xenófobos e racistas do Chega, os seus programas concretos são altamente incompatíveis com os da AD e da IL. A reclamação de Ventura de liderança da direita, no âmbito das presidenciais, é um sem sentido, sendo que insensatez não parece ser argumento que o perturbe.

Hoje não podemos falar numa divisão simples direita-esquerda. É mais complexo, há mais dimensões. O que continua e continuará a ser relevante será a personalidade e seriedade dos líderes. Aqui André Ventura tem várias deficiências. Continua a ser o “puto reguila” que diz o que bem lhe apetece, que o que disse ontem pode não contar para hoje, em permanente autopromoção despudorada, para quem a indignação desculpa todas as imprecisões factuais, para quem a premência de alguns temas pontuais dispensa apresentar um projeto global coerente. Enfim, falta-lhe integridade e integralidade. Enquanto não o conseguir, lidera o megafone, mas não é suficiente para ir mais longe com um mínimo de eficácia. Certamente que isto não é razão para o restante espetro político esperar poder continuar tranquilamente num “mais do mesmo”.

 

18 fevereiro 2026

O Ramadão

Por estes dias começa o mês sagrado muçulmano do Ramadão. Um primeiro pensamento e palavra para todos os muçulmanos que conheci, que vivem a sua fé serenamente e votos de que tenham uma celebração feliz, à medida das suas expetativas, junto dos seus próximos e familiares.

Passando à parte mais racional, duas “curiosidades”. Quando em 2006 me instalei na Argélia o Ramadão começou a 23 de setembro. Entretanto, deslizou até fevereiro porque o calendário muçulmano continua baseado nos ciclos lunares e ao fim de 12 meses ficam a falar cerca de 11 dias para completar o ciclo solar. Pode ser algo a que as pessoas se habituem, mas ver, por exemplo, o mês de dezembro a viajar entre o Inverno e o Verão, é estranho. Obviamente que no mundo muçulmano, por questões práticas, comerciais e administrativas é utilizado o calendário ocidental, o gregoriano, que acerta o ano pelo ciclo solar. De recordar que não é descoberta recente. Foi proposto pelo Papa Gregório XIII em 1582.

A segunda curiosidade tem a ver com o dia inicial, que depende do avistamento do reaparecimento da Lua e, conforme o local e a meteorologia, pode não ser coincidente em todos os observatórios. Este ano, mesmo em França, houve divergências. A grande mesquita de Paris, talvez a mais relevante instituição muçulmana do país, de tutela argelina, anunciou o início do mês a 18/2 e o CFCM (Conselho Francês do Culto Muçulmano), decertou o 19/2. Esta última instituição foi criada por N. Sarkozy para tentar agregar as diferentes comunidades islâmicas e criar um canal único de diálogo e coordenação com o Estado, mas falhou e não conseguiu a necessária coesão e alinhamento das diferentes correntes.

A prática do Ramadão é anacrónica. Jejuar entre o nascer e o por do Sol como os nómadas que podiam ficar o dia à sombra da tamareira é um cenário incompatível com os ritmos de vida atuais.

Infelizmente por falta de vontade, instituições e/ou lideranças construtivas, o Islão não se questiona e até cada vez mais se enquista. Certamente iremos ver as fatais polémicas sobre o respeito pelas crenças nos atos desportivos e não só. Alguém quer voar num avião com pilotos em jejum há uma dúzia de horas?

Confesso que conheci pouquíssimos muçulmanos que assumiam não cumprir o Ramadão. É considerado um pilar fundamental e sagrado da prática religiosa. No entanto…

No entanto, em 1962, na Tunísia, menos de uma década após a sua independência, sendo esta muito alicerçada na identidade muçulmana, o seu presidente Habib Bourguiba bebeu um sumo de fruta na televisão em pleno período de jejum, dizendo: “Sou mais útil para o meu país se não ficar numa esquina bocejando e esfomeado por causa do Ramadão”. Argumentou que o próprio profeta terá afirmado que se podia quebrar o jejum em situação de guerra, para se ser mais forte, e que a Tunísia estava atualmente em guerra, pelo desenvolvimento! Este ato foi extraordinariamente polémico e, curiosamente, impossível de repetir nos dias de hoje, o que diz muito sobre o sentido das evoluções recentes.

Para quem vive à sombra de poços de petróleo, os desafios são outros, mas gostava muito de ver o que aconteceria se os poços cumprissem o Ramadão e reduzissem drasticamente a produção durante um mês (lunar ou solar, tanto faz…)

10 fevereiro 2026

Contados os votos


Contados os votos, indiscutivelmente Seguro ganhou, Ventura perdeu e comparar números de uma eleição binária com os de outras onde existe uma dúzia de alternativas disponíveis é um exercício com muito pouco sentido.

Será desta vez que o PS volta ao seu registo histórico, se deixa de devaneios neomarxistas e faz as exéquias, assumidas, de um tempo sombrio e indigno?

Face à primeira-volta Ventura subiu. Estranhíssimo seria se descesse. Faço parte dos portugueses que consideram que, apesar dos erros e abusos dos habituais inquilinos do poder, com ele teríamos uma emenda pior do que o soneto. É importante mostrar o que está em causa e em perigo, sem rasgar vestes, nem cair na gritaria. Ventura nunca será nenhum Salazar nem por inteiro, nem por um terço, pela simples razão de nunca saberá governar. A sua equipa é genericamente fraca, o seu programa económico absurdo e a sua relação com a verdade algo de muito débil. A tentativa de colagem à herança de Sá Carneiro foi de uma indecência escandalosa.

O triunfo muito claro de Seguro é a vitória de uma abordagem à prática política mais séria e decente, mas nada garante para o futuro. A satisfação deve ser comedida, especialmente se não for seguida por práticas sérias e decentes.


Acrescentada publicação no "Público" em 11/02/2026


07 fevereiro 2026

Depois de Mao


Diz-se que da calúnia algo sempre ficará. Ou seja, mesmo com posterior esclarecimento de que todas as acusações lançadas eram falsas, haverá sempre quem continue a “achar” que algo de verdadeiro existiria, sobretudo se tiver “vontade” de em tal acreditar. No final, a imagem do caluniado guardará para sempre alguma mancha, indelével.

O mesmo, noutro sentido, ocorre para as personalidades objetos de culto da personalidade. Mesmo que a história e respetivos factos comprovem que as qualidades incensadas eram fabricadas de ponta a ponta, é impossível anular e apagar das memórias coletivas a imagem e os méritos criados para essas figuras.

A “memória” e a visão de Mao Tsé-Tung na China entram neste segundo caso. É inútil (e perigoso) procurar evidenciar a realidade efetiva das suas ações, já que isso implicaria demolir os alicerces do regime e destruir a respetiva narrativa. Numa primeira fase, logo após a sua morte, foi julgado o “Bando dos Quatro”, incluindo a sua última mulher, Jiang Qing. Era necessário reconhecer terem ocorrido erros e culpar alguém pelos mesmos, desde que não fosse o Grande Timoneiro.

Ela terá afirmado que “Eu era o cão de guarda do presidente Mao. Eu mordia qualquer um que ele mandasse morder”. Certo que há cães que mordem por disciplina e obrigação, enquanto outros o fazem com bastante prazer.

No período seguinte, de Deng Xiaoping, ficou a figura de Mao nas paredes, sem grandes loas nem questões. A China não passou pela fase Kruschev, quando este pôs em causa as ações do “Pai dos Povos”, Estaline. O partido comunista chinês foi criado e inicialmente amamentado pelo soviético, na fase estalinista. Embora a partir de uma certa altura Mao tenha tido a vontade de “matar o pai”, sem o conseguir, sempre houve muito interesse na China em acompanhar o que se passava no vizinho do Norte.

A queda da URSS foi um aviso importante para o regime chinês, que se virou do avesso para procurar entender como as grandes potencias caíram e o que fazer para o evitarem. O novo grande timoneiro, Xi Jiping, tomou o assunto em mãos e de forma eficaz, reconheça-se.

Em primeiro lugar foi reabilitar Confúcio e a cultura ancestral. Os “comunistas” 2.0, como Putin, entenderam ser mais fácil apropriarem-se do património cultural passado, como ferramenta de poder, em vez de se darem à trabalheira de criarem “homens novos”. Se a religião (e as crenças antigas) são o ópio do povo, fiquemos donos dos cachimbos. Nada de especialmente inovador, convenhamos. Ao contrário dos comunistas que deploravam e atacavam a cultura antiga, Xi utiliza-a.

Mao, respetivo pensamento e ações, também se tornam inquestionáveis e pôr em causa o heroísmo dos fundadores da China moderna, torna-se crime. Um historiador honesto pode acabar no tribunal, ou de alguma forma desgraçado, mesmo sem ver um juiz.

A China continua a ser “comunista” (o nosso PC que o diga, detalhes aqui nesta pérola). Se as práticas maoístas foram uma aproximação muito grosseira às teorias marxistas, a abertura de Deng Xiaoping é no sentido liberal e capitalista e a China moderna de comunista terá … não sei o quê.

O regime atual, o “comunismo específico chinês” está alicerçado na sabedoria confuciana, nas teorias marxistas, nas práticas insanas e criminosas Maoístas, no liberalismo de Deng e no controlo absoluto da sociedade por Xi. Grande salgalhada!

Como esta pressão e opressão conseguirão manter o país a funcionar com eficácia é uma questão complexa. Que forças podem nascer que provoquem uma mudança de regime, quando há câmaras de vigilância em todas as esquinas e repressão brutal para cada pensamento critico tornado público? Para as gerações chinesas mais jovens, as imagens das manifestações de 1989 na praça de Tiananmen (se a elas conseguirem acesso), serão certamente do domínio da ficção científica.

Teoricamente não há desenvolvimento sustentável e riqueza sem inovação e esta não rima com proibição. A China é diferente, para sempre?

06 fevereiro 2026

Fazer de conta (uma vez mais...)

Não foi a primeira vez, nem será certamente a última. Face a uma situação não rotineira, o aparelho do Estado entra em modo barata tonta, sem rumo nem determinação, como se tivesse aterrado num mundo alienígena, que é preciso “aprender”. Enquanto pessoas desesperadas e desalojadas caem dos telhados ao tentarem proteger o que lhes resta das suas casas semidestruídas, enquanto isso… um ministro produz vídeos de autopromoção, outro levanta uma barraca e leva uma dúzia de militares com motosserras a um beco, uma ministra penosamente luta por conseguir nos dizer algo com sentido e uma caravana ministerial de veículos negros vai lá ver…

Ao fim de vários dias, anunciam-se uns apoios… é tudo o que sabem fazer: oferecer dinheiro. Capacidade e estruturas efetivas e competentes de liderança e de realização não existem. Nem existirão. Quando a matéria-prima é fraca o resultado será sempre sofrível. 

No final, face ao mundo real, os alienígenas são os “responsáveis” políticos.

A imagem dos F16 danificados no hangar é também um bom exemplo de como, mesmo nas Forças Armadas, prevenção e antecipação não parecem ser conceitos familiares.