Manter-se no poder é um desafio que pode recorrer a várias estratégias e linhas de força. Como em muitas receitas, os ingredientes podem ser variados, mas em cada caso concreto há sempre um eixo principal na afirmação e justificação do “Aqui quem manda sou eu!”.
A mais comum nos tempos que correm, no nosso mundo, é a
legitimidade democrática. Os eleitores deram um mandato limitado no tempo e no
âmbito para alguém assumir o poder. Pode evoluir para situações
“pós-democráticas” de outra natureza. Como dizia o Sr Erdogan, a democracia é
um comboio que se apanha e do qual se sai quando ele chega à estação
pretendida.
Outra forma é a da força. Mando porque sou o mais forte e se
alguém dúvida, vamos ao rinque e veremos quem fica em pé. É uma forma bastante
clássica e tradicional, sendo que a força pode ter várias dimensões e os
combates no rinque não estar sujeitos a regras equitativas.
Temos também a legitimidade divina. Sou rei por vontade
divina e colocá-lo em causa é atentar contra a autoridade de Deus. Bastante
simples e eficaz. A curiosidade é que em
situações de revolução e de rutura dinástica, o novo rei conseguia sempre no
final obter o apoio divino. Algo flexíveis estas vontades sagradas.
Outro tipo é a legitimidade revolucionária. Os vencedores de
uma insurreição entendem que esse sucesso é mérito suficiente para os manter sentados
e colados à cadeira. O problema aqui é o prazo de validade. Se no dia seguinte
à revolta é aceitável ver no poder numa junta ad hoc, dois anos mais tarde já
será abuso e vinte anos depois é caricato e escandaloso.
Há também a legitimidade da bondade paternalista. O poder
infantiliza a população e defende que há todo o interesse em os deixar
governar, porque eles são muito bonzinhos e a alternativa representa uma grande
ameaça. Às tantas, até comem criancinhas ao pequeno-almoço! Sim, entendo que o
Estado Novo era predominantemente desta classe.
Finalmente, existe a legitimidade do terror. O sistema tem
enormes poderes arbitrários, mesmo de vida e de morte, sobre a população e
qualquer um, por um sim, por um não ou mesmo por um silêncio, pode ver a sua
vida descambar. Um bom exemplo é o da China maoista em que o grande timoneiro
declarava existirem x% de traidores a executar e os seus comissários deviam
cumprir a quota, se não queriam ser eles próprios considerados traidores. Os
milhões que passaram e muitos deles ficaram no Gulag estalinista, também não
eram todos perigosos ativistas que ameaçavam o poder. Muitos deles apenas ali
caiam “para exemplo” e recordar que ninguém estava a salvo… do poder.












