Ao receber o último número da revista de fotografia “Competence Photo”, deparei-me com um editorial, o título acima, e que assim começa (e que uma IA traduziu…):
Há algo de paradoxal no estado atual da fotografia. Nunca antes
os sensores foram tão precisos, nunca antes a gestão de ruído digital foi tão
impressionante, nunca antes o autofoco foi tão infalível. Os fabricantes
competem entre si para produzir imagens cada vez mais nítidas, cada vez mais
limpas, cada vez mais fiéis ao que o olho percebe — ou melhor, ao que deveria
perceber, segundo uma certa ideia de perfeição óptica. E, no entanto, em todo o
lado, observamos o mesmo movimento inverso: fotógrafos a adicionar grão, a
procurar lentes vintage com as suas aberrações deliberadas, a desempoeirar os
seus filmes Kodak Portra ou a usar presets para simular precisamente o que as
suas câmaras se esforçam por eliminar.
Poderíamos ver isto como mera nostalgia, apenas mais uma
tendência retro numa era que as adora. Mas isso seria demasiado simplista. O
que está aqui em causa é mais profundo: uma resistência à perfeição fria, uma
forma de reintroduzir um traço de fragilidade humana na imagem. Granulação,
vinheta, ligeiro desfoque de movimento já não são defeitos a corrigir —
tornaram-se assinaturas, prova de que por detrás da objectiva estava alguém,
com as suas hesitações, as suas limitações, o seu ponto de vista.
É um excelente tema de reflexão. A partir de certo ponto,
demasiado perfeito e esterilizado torna-se desumano (bem se costuma dizer que
errar é humano). Uma imagem fortemente desfocada pode ser muito “característica”,
denunciadora de uma assinatura forte, mas até que ponto funciona, isto é, é
apreciada e desperta algo em quem a vê?
Se eu ao escrever um texto eu deixar uma virgula fora do sítio,
isso será prova da minha falibilidade e de que o mesmo não é uma produção sintaticamente
perfeita de um Chatgpt (já agora, não aproveitem para pedir ao mesmo, faz-me um
texto com uns erritos ligeiros, para a coisa parecer humana).
A imagem acima é de 2013 e na altura a pequena Olympus ZX-1
de viagem, já incluía dentro dos filtros, a que em geral pouco ligava, esta
opção de “grain film”, simulando fotos antigas analógicas, com resultado
interessante.
Em resumo, a técnica resolve problemas técnicos, que são uma
parte e uma ferramenta da criação. Se a técnica deixa de ser um desafio, mais
espaço haverá para explorar o outro desafio, o da criatividade. Se essa
criatividade passa pela imperfeição, certo, ma non troppo.
Já agora, para não haver confusões, falamos do registo de
imagens existentes e não das inventadas (especuladas). A partir da imagem de
alguém num funeral, fazê-la “evoluir” para colocar a pessoa a sorrir, pode ser
divertido de ver, mas é outro contexto que, confesso, a mim, pouco me atrai.












