Passando à parte mais racional, duas “curiosidades”. Quando
em 2006 me instalei na Argélia o Ramadão começou a 23 de setembro. Entretanto, deslizou
até fevereiro porque o calendário muçulmano continua baseado nos ciclos lunares
e ao fim de 12 meses ficam a falar cerca de 11 dias para completar o ciclo
solar. Pode ser algo a que as pessoas se habituem, mas ver, por exemplo, o mês
de dezembro a viajar entre o Inverno e o Verão, é estranho. Obviamente que no
mundo muçulmano, por questões práticas, comerciais e administrativas é
utilizado o calendário ocidental, o gregoriano, que acerta o ano pelo ciclo solar.
De recordar que não é descoberta recente. Foi proposto pelo Papa Gregório XIII
em 1582.
A segunda curiosidade tem a ver com o dia inicial, que
depende do avistamento do reaparecimento da Lua e, conforme o local e a meteorologia,
pode não ser coincidente em todos os observatórios. Este ano, mesmo em França,
houve divergências. A grande mesquita de Paris, talvez a mais relevante instituição
muçulmana do país, de tutela argelina, anunciou o início do mês a 18/2 e o CFCM
(Conselho Francês do Culto Muçulmano), decertou o 19/2. Esta última instituição
foi criada por N. Sarkozy para tentar agregar as diferentes comunidades islâmicas
e criar um canal único de diálogo e coordenação com o Estado, mas falhou e não
conseguiu a necessária coesão e alinhamento das diferentes correntes.
A prática do Ramadão é anacrónica. Jejuar entre o nascer e o
por do Sol como os nómadas que podiam ficar o dia à sombra da tamareira é um
cenário incompatível com os ritmos de vida atuais.
Infelizmente por falta de vontade, instituições e/ou
lideranças construtivas, o Islão não se questiona e até cada vez mais se
enquista. Certamente iremos ver as fatais polémicas sobre o respeito pelas
crenças nos atos desportivos e não só. Alguém quer voar num avião com pilotos em
jejum há uma dúzia de horas?
Confesso que conheci pouquíssimos muçulmanos que assumiam
não cumprir o Ramadão. É considerado um pilar fundamental e sagrado da prática
religiosa. No entanto…
No entanto, em 1962, na Tunísia, menos de uma década após a
sua independência, sendo esta muito alicerçada na identidade muçulmana, o seu
presidente Habib Bourguiba bebeu um sumo de fruta na televisão em pleno período
de jejum, dizendo: “Sou mais útil para o meu país se não ficar numa esquina
bocejando e esfomeado por causa do Ramadão”. Argumentou que o próprio profeta
terá afirmado que se podia quebrar o jejum em situação de guerra, para se ser
mais forte, e que a Tunísia estava atualmente em guerra, pelo desenvolvimento!
Este ato foi extraordinariamente polémico e, curiosamente, impossível de
repetir nos dias de hoje, o que diz muito sobre o sentido das evoluções recentes.
Para quem vive à sombra de poços de petróleo, os desafios
são outros, mas gostava muito de ver o que aconteceria se os poços cumprissem o
Ramadão e reduzissem drasticamente a produção durante um mês (lunar ou solar,
tanto faz…)













