Foi Miguel Unamuno quem me chamou a atenção para Guerra Junqueiro. Um espanhol? Quem diria! Nem tanto. Unamuno é uma das mais ibéricas figuras culturais da península e entre a Salamanca onde ele finou e Freixo de Espada à Cinta onde Junqueiro nasceu, a distância, geográfica e não só, é menor do que entre elas e a capital do respetivo reino.
Como o português, Unamuno foi um ativista da mudança
desencantado pelo resultado das revoluções que advogaram, o espanhol por duas
vezes.
Uma das obras de referência de Guerra Junqueiro é este “A
Velhice do Padre Eterno”, muito, muitíssimo anticlerical. Pode-se argumentar
que ele tem razão, em parte. Em parte, o clero, e especialmente naquela altura,
era merecedor dos seus mimos, ironias e sarcasmos. Certamente outros clérigos
haveria íntegros e bem-intencionados.
Uma diferença fundamental entre a igreja de há um século e
meio e a atual é hoje ter muito menos poder, fora daquilo que é o âmbito fundamental
da religião. Acredito que os esforços, em parte brutais e excessivos, de travão
às fainas sociais das sotainas, isso proporcionaram. Haveria outras formas,
mais justas? Não sei.
Uma coisa sei e com boa certeza. Há uma religião que está a
precisar de algum tratamento de choque análogo.
E, como ironia, transcrevo um dos poemas do livro, objeto da
ilustração de capa acima representada.
PARASITAS
No meio duma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar, em cima dum jumento,
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.
Os magros histriões, hipócritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.
E toda a gente deu esmola aos tais ciganos;
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver esse quadro, apóstolos romanos,
Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,
Que andais pelo universo, há mil e tantos anos,
Exibindo, explorando o corpo de Jesus.













