Depois de algumas divagações escritas
aqui (1)
aqui (2)
e aqui (3),
é a vez de aqui ficarem algumas imagens.
Glosa (do grego “glossa” – língua): Interpretação de um texto obscuro; anotação; comentário à margem // Crua: Que está por cozer, curtir, corar; no estado natural; que não está maduro
Apenas com a revisão de 1982 foi consolidado o regime
democrático e plural, entre outras medidas com a extinção do Conselho da
Revolução e liberalização da economia. Felizmente ficou irreversível, apesar de
todo a deceção da esquerda comunista.
Permanece no preâmbulo, é certo, a missão de “abrir caminho
para uma sociedade socialista”, felizmente mais como curiosidade caricatural do
que como letra de lei. Se assim não fosse, teríamos o TC a vetar todas as
medidas legislativas que não fossem no sentido de caminhar para o socialismo!
Apesar disto, a revisão constitucional (e exatamente de quê)
é uma necessidade do regime? É ela que nos impede de ver o país a funcionar eficazmente
e com prosperidade? Penso que não. Há muitas oportunidades de melhoria nas
atitudes e nas ações de quem nos governa largamente prioritárias. Discutir uma
revisão agora é manobra de diversão… e há quem goste.
De Sul a Norte, desde Hangzou até Jilin na Manchúria, já
próximo da Coreia do Norte, uma nota para a eficiência. De uma forma geral, as
coisas funcionavam bem e a horas. As fábricas, os hotéis, os restaurantes, os
meios de transporte, funcionavam. A internet tecnologicamente sim, os conteúdos
é que estavam limitados, nada de Facebook, Blogger, Youtube, Googles e outras
impurezas.
Um sentimento de muita coisa nova. Até passei ao lado de uma
central de carvão novinha em folha – poderíamos para lá ter despachado a do
Pego, que não sendo nova, ainda tinha muitos anos de vida. Surpreendente também
a quantidade de câmaras de vigilância aos cachos em cada poste, canto e
esquina… além das outras vigilâncias, menos visíveis.
Por vezes tudo novo de mais. Entrar numa cidade por uma
grande avenida, entre enormes edifícios, e sair pela mesma avenida, sem
entender quando teríamos atravessado o centro da localidade. Outro aspeto
curioso sobre as interações sociais. Para lá da camada de chineses habituados a
contactos regulares com o exterior, com os restantes locais, era terrível. A
questão não residia apenas na barreira linguística. Mesmo sem trocar uma
palavra é possível comunicar e interagir com outros seres humanos. Ali não era
fácil…
As minhas viagens não eram turísticas e apenas pude dar um
salto ou dois a algumas curiosidades nos intervalos do programa. A Cidade (outrora)
Proibida, em Pequim, o lago e os pagodes de Hangzhou e a cosmopolita Xangai.
Com as devidas reservas pelas limitações do âmbito das viagens, não consegui
encontrar a pujança e a herança cultural esperadas de um país outrora tão rico
e evoluído… Como se o desenvolvimento evidente tivesse soterrado esses
vestígios.
Parece que a chamada “Revolução Cultural” dos anos 60 ajudou
bastante a esse apagamento e não só na dimensão material. Se há quem considere que
a ditadura do Estado Novo moldou e condicionou as mentalidades por estas bandas,
como José Gil gosta de afirmar, a repressão e o terror maoísta terão dado
direito a amputações mentais e aniquilamentos culturais completos.
Numa altura em Pequim, de uma janela do escritório onde
estava, vi meia-dúzia de pessoas num cruzamento ao fundo e disse ironicamente ao
nosso contacto chinês: “Olha, está uma manifestação a decorrer ali!”. Ele
saltou da cadeira estupefacto para verificar. Se lhe tivesse dito que um Ovni
tinha aterrado na cidade, a surpresa não seria provavelmente maior…
Durante o século XIX, muito debilitada e pobre, a China
sofreu enormes humilhações às mãos do Japão e das potencias ocidentais. Certo
que em parte devido a uma grande dificuldade em evoluir e jogar o jogo do poder
como o mundo na altura jogava. A “reconquista” da unidade (esqueçamos Taiwan)
foi uma grande façanha política e militar, inicialmente muito ajudada pela URSS
e tirando partido da sofreguidão de poder e falta de escrúpulos de Mao. Mais
tarde foi a vez dos EUA (Nixon e Kissinger) ajudarem. O crescimento da China
era um contrapeso para diminuir a influência soviética no mundo.
Pode-se entender que persista um registo traumático desses
tempos e uma hipersensibilidade quanto a tudo o que possa pôr em causa a
unificação, soberania e riqueza conseguidas, mas…
O espartilho que o “partido” aplica aos seus cidadãos é
sustentável? Quando as evoluções não ocorrem gradualmente, há o risco de chegarem
mais tarde brutalmente. A China evolui materialmente, sim, mutuíssimo. Essa
riqueza material chega para as expetativas dos seus cidadãos?
Uma coisa é certa, já deixei demonstrado que tenho dificuldade
em conseguir entender e prever o que por lá se passa ou passará...
Quando foi acusado e julgado Isaltino Morais era maçom.
Naturalmente que a organização não pode ser responsabilizada por todos os
desvarios dos seus membros. Diz-se que, no passado, houve até anjos caídos em
tentação, se bem que Isaltino nunca teve muita pinta de anjolas.
O curioso é que após a sua libertação, após descontos e
benesses várias que aligeiram a conta, ele terá sido rapidamente reintegrado na
organização e reassumido funções de liderança. Conta Catarina Guerreiro no
livro “O Fim dos Segredos” que esse processo até foi mais discreto do que o
habitual nos padrões da organização, dado que muitos maçons se opunham à
rapidez do processo.
Como dizem alguns, “Vá-mo-lá-ver…”. Se o senhor foi passar
uma temporada à Carregueira por alguns enviesamentos no seu património
material, que existirá na sua riqueza intelectual e filosófica para justificar
os fraternais braços abertos maçónicos…?
A sua popularidade e aceitação na mui instruída Oeiras
ficará por um genérico “Roubo, mas faço” ou algo mais específico como “mas faço
obeliscos e triângulos…”? Não sei, mas pagava para saber…
“Diz-me com que andas…. “ e depois não se queixem de que têm
uma má imagem.
Não sou grande apreciador de estórias com largas centenas de
páginas. Não necessariamente pelo tempo de leitura, mas porque, frequentemente,
entram em registos do género “um rio e para cá do rio havia campos com flores
assim, para lá do rio viam-se árvores com folhas assado”, “e havia uma casa com
uma porta… e ao lado da porta janelas, e por cima das janelas um beiral…”. Muita
descrição que, na minha opinião, pouco acrescenta à emoção e até muitas vezes
com leituras datadas. Um eucalipto há cem anos seria visto de forma diferente
de hoje…
Por isso, gosto bastante de contos, bem escritos. Um destes
dias fui à procura de um livro de contos de um dos mais musicais escritores portugueses,
David Mourão Ferreira. A antologia poética, representada acima, é um dos
melhores livros de poesia que me passou pelas mãos. Quando numa simples página se
vê escrito:
“Olhar de frente o Sol Assim se aprendem as letras iniciais
da Solidão”
Entende-se que o senhor sabe usar a caneta, sem necessitar
de muitos litros de tinta para o demonstrar. Sobre a musicalidade das palavras,
sugiro o “E por vezes” pela Cristina Branco, ou ir um pouco mais longe à
Amália.
Quando procurava então o livro de contos deste senhor, “Gaivotas
em Terra”, não o encontrei na minha biblioteca. Tinha quase a certeza de o ter
e até uma ténue recordação do aspeto da capa. Tê-lo-ei emprestado… ? Nada feito,
obra não encontrada e encomendei nova edição, com papel rejuvenescido de
algumas décadas. Os anos não lhe pesam e demonstram que não são necessários
quilos de papel e litros de tinta para provocar fortes emoções. Especialmente
os dois primeiros contos, “Tal e Qual” e “E Aos Costumes Disse Nada” são uma delícia
de leitura. O segundo foi adaptado ao cinema por José Fonseca e Costa, como
título de Sem Sombra de Pecado, com um elenco de luxo, incluindo Mário Viegas.
A ver e a rever…
David Mourão Ferreira é sinónimo de sensibilidade e elegância (ponto final).
Provavelmente não será particularidade única de Oeiras, mas
este conceito de “trabalho” é deveras curiosa... e inquietante.
Não tenho nenhuma simpatia pelo Chega e, pelo contrário,
muitas dúvidas sobre a qualidade de muitos dos seus quadros, mas também não
posso ver os dois partidos tradicionalmente maioritários a beneficiar de
prerrogativas e “direitos” perenes sobre instituições do Estado, imunes à
evolução do respetivo peso eleitoral. Isso sim, constituiria um grave atentado
aos princípios democráticos, que teoricamente tanto prezam e defendem.
Fui com uma comitiva do cliente até Xiamen, a cidade mesmo
em frente da ilha de Taiwan. Uns quilómetros para o interior encontrava-se a respetiva
ZEE, “Zona Económica Exclusiva”, uma das que constituíram os embriões da
fábrica do mundo.
Zonas industriais com largas avenidas, aparentemente tudo
muito bem estruturado e com impressionante dimensão. Uma curiosidade, em cada fábrica
existia um edifício residencial onde se instalavam os respetivos operários, muitos
deles com origens rurais longínquas. Podiam ir a “casa” uma vez por ano e lá permanecer
por uma dúzia de dias, após comboios, autocarros e até outros meios de
transporte. Obviamente que nada mais havendo a fazer, trabalhavam nos fins de
semana, sempre dava mais uns trocos. Entendi que uma boa parte deles nunca
poderia instalar-se familiarmente na zona do seu trabalho. É melhor para eles e
para a família do que passarem por grandes privações, mas a prazo, o que
aconteceria? A “fábrica do mundo” iria funcionar com imigrantes internos permanentemente
afastados das famílias?
Durante os testes, ficamos alojados num enorme hotel, frio, na
margem de uma estrada, sem mais nada. Eramos lá despejados pelos chineses ao
final dia, cerca das 17h, íamos para uma sala para jantar, eles encomendavam os
diferentes pratos e partiam. Lá ficávamos a trincar as coisas colocadas sobre a
mesa, os marroquinos mais limitados pelas suas dúvidas quanto à compatibilidade
religiosa das “iguarias” apresentadas …
Sobre o contacto com o local, uma visita ao templo budista Hongshan,
já na cidade de Xiamen, antes de regressar, e à interessante e belíssima ilha
de Gulangyu, uma sobrevivente da mistura de culturas e arquiteturas. Dois bons
exemplos de uma China historicamente rica.
Gosto de ver iluminações de Natal, penso que quase toda a
gente gosta, e seria muito triste se um politicamente correto qualquer ou uma
modernice cultural inventada viessem um dia cancelar as mesmas. Ao mesmo tempo,
os milhares de euros de orçamento anunciados para a sua realização intrigam.
Não seria possível fazer a coisa por menos, libertando fundos para outros
desenvolvimentos sociais e culturais mais prementes e permanentes?
O que se vai sabendo da operação Lumen, envolvendo a Câmara
de Lisboa e não só, vem demonstrar que nem todos os euros saíram por um bom
caminho. É típico, quando os orçamentos púbicos são grandes aparecerem
frequentemente fugas nos circuitos.
Estes descontrolos e falta de rigor (no mínimo) lançam questões
adicionais sobre os critérios em vigor nos orçamentos e programas ditos
culturais das autarquias. Aquelas produções caras de espetáculos de Verão em
cada canto e esquina fazem sentido? Certo ser mais fácil mobilizar e agradar às
massas com pimbas e popularices do que com certas produções “contemporâneas”
elitistas e difíceis de tragar, mas não haverá alternativa? Deve haver e tem
que existir. A opção pela festa fácil e cara não acrescenta grande coisa ao
desenvolvimento social cultural do país, sendo que o cultural não precisa de
ser árido nem o entretenimento ligeiro e inconsequente.
Durante a fase de especificação funcional detalhada
encontramos um problema. Para cada lista de questões enviadas por escrito, as
respostas recebidas pouco esclareciam e, pelo contrário, acrescentavam novas
dúvidas. A solução foi fazer as malas e apanhar um avião para lá, com o Pedro,
que era o homem daquela especialidade.
A aterragem do 747 no antigo aeroporto de Kai Tak foi memorável.
Aproxima-se e desce em curva. Vamos vendo os arranha-céus ao nível das asas.
Quando desfaz a curva e endireita, as rodas estão a tocar a pista.
Impressionante.
O fluxo de pessoas no metro é incrível. Não há espaço para
gentilezas do tipo “depois de si”. Quem quiser ser gentil fica lá o dia inteiro
a dar passagem aos outros. Gravou-se-me a imagem de uma porta de carruagem a
abrir e ver uma muralha de troncos, ombro contra ombro, em força, a ver quem
saia primeiro.
Na estação central é importante estar bem atento para usar a
saída que nos serve. Depois de estar cá fora, ficamos afogados em gente e submergidos
por arranha-céus, não sendo fácil (re)orientarmo-nos.
Logo no início das reuniões, o primeiro choque cultural. Nós
estamos habituados a começar por um esboço das grandes linhas e depois ir
descendo para detalhes, zona a zona. Não era o reflexo local, onde facilmente se
dedicavam a começar por discutir pequenos detalhes. Um pouco como se se principiasse
a conceber um automóvel pelo pormenor dos parafusos de fixação da placa de
matrícula. Esta parte foi fácil de corrigir.
Começada a discussão, o trabalho parecia avançar
rapidamente, face às expetativas iniciais. O problema surgiu umas horas mais
tarde, quando, por acaso, uma afirmação veio contradizer uma resposta anterior,
fundamental, e de forma completamente incompatível. Havia dois problemas. Um, a
dúvida sobre o que realmente se pretendia, outro é que, conforme nos informaram
previamente, os chineses não gostam de perder a face e daí ser delicado
confrontá-los com um “erro”.
A solução passou por: dizem-nos que deve ser branco, ótimo,
mas de manhã tinham dito preto. São duas excelentes cores, certo, mas nós temos
dificuldade em fazer algo simultaneamente branco e preto! Podem ajudar-nos a
ultrapassar este problema?
A partir desse momento, cada pergunta era seguida de contra
pergunta, para validação e verificação da eventual necessidade de “ajuda”.
Numa fase posterior, durante os trabalhos, mais uma surpresa
com a aparente ligeireza no planeamento e tolerância para descoordenações. Nos nossos
hábitos tínhamos o cuidado de programar as tarefas na sequência necessária para
otimizar a utilização de recursos. Ali era andar para a frente e, se um
trabalho era feito cedo de mais, obrigando a refazê-lo mais tarde, paciência…
Fisicamente o meu contacto com a China propriamente dita, passou
por introduzir uma mão entre as grades da porta do Cerco em Macau, que assim, solitariamente,
“foi à China”.
No final deste processo fiquei com a convicção que, dadas as
diferenças constatadas, apesar da abundância de recursos, os chineses andariam
sempre um passo em atraso relativamente ao “nosso” mundo. Se calhar enganei-me…
ou eles mudaram.
Nota de atualidade. O que mudou e muito significativamente
em Hong Kong, após a transição da tutela para a China e contrariamente ao
acordado, foi a liberdade.
Há algo de paradoxal no estado atual da fotografia. Nunca antes
os sensores foram tão precisos, nunca antes a gestão de ruído digital foi tão
impressionante, nunca antes o autofoco foi tão infalível. Os fabricantes
competem entre si para produzir imagens cada vez mais nítidas, cada vez mais
limpas, cada vez mais fiéis ao que o olho percebe — ou melhor, ao que deveria
perceber, segundo uma certa ideia de perfeição óptica. E, no entanto, em todo o
lado, observamos o mesmo movimento inverso: fotógrafos a adicionar grão, a
procurar lentes vintage com as suas aberrações deliberadas, a desempoeirar os
seus filmes Kodak Portra ou a usar presets para simular precisamente o que as
suas câmaras se esforçam por eliminar.
Poderíamos ver isto como mera nostalgia, apenas mais uma
tendência retro numa era que as adora. Mas isso seria demasiado simplista. O
que está aqui em causa é mais profundo: uma resistência à perfeição fria, uma
forma de reintroduzir um traço de fragilidade humana na imagem. Granulação,
vinheta, ligeiro desfoque de movimento já não são defeitos a corrigir —
tornaram-se assinaturas, prova de que por detrás da objectiva estava alguém,
com as suas hesitações, as suas limitações, o seu ponto de vista.
É um excelente tema de reflexão. A partir de certo ponto,
demasiado perfeito e esterilizado torna-se desumano (bem se costuma dizer que
errar é humano). Uma imagem fortemente desfocada pode ser muito “característica”,
denunciadora de uma assinatura forte, mas até que ponto funciona, isto é, é
apreciada e desperta algo em quem a vê?
Se eu ao escrever um texto eu deixar uma virgula fora do sítio,
isso será prova da minha falibilidade e de que o mesmo não é uma produção sintaticamente
perfeita de um Chatgpt (já agora, não aproveitem para pedir ao mesmo, faz-me um
texto com uns erritos ligeiros, para a coisa parecer humana).
A imagem acima é de 2013 e na altura a pequena Olympus ZX-1
de viagem, já incluía dentro dos filtros, a que em geral pouco ligava, esta
opção de “grain film”, simulando fotos antigas analógicas, com resultado
interessante.
Em resumo, a técnica resolve problemas técnicos, que são uma
parte e uma ferramenta da criação. Se a técnica deixa de ser um desafio, mais
espaço haverá para explorar o outro desafio, o da criatividade. Se essa
criatividade passa pela imperfeição, certo, ma non troppo.
Já agora, para não haver confusões, falamos do registo de
imagens existentes e não das inventadas (especuladas). A partir da imagem de
alguém num funeral, fazê-la “evoluir” para colocar a pessoa a sorrir, pode ser
divertido de ver, mas é outro contexto que, confesso, a mim, pouco me atrai.
Médio-Oriente é uma designação geográfica historicamente associada a instabilidade e a guerras crónicas. Inclui Israel, comparado com os vizinhos um corpo estranho em termos de organização do país, valores sociais, prosperidade e outras coisas mais… e os outros todos seriam os “árabes”. Olhando um pouco mais atentamente, fomos vendo crescer umas diferenças entre os chamados países do Golfo, os ricos, e as imagens mais tradicionais da região.
Começando pelos Emiratos, especialmente o Dubai e passando pelos
sauditas e pelo Qatar, foram nascendo urbes vistosas, luxuosas, procurando projetar
uma imagem deslumbrante de modernidade. Não temos conta de quanto investiram em
imobiliário faustoso, eventos sociais e desportivos de todo o tipo, sempre em prol
da construção de uma “nova imagem”. O alvo vai para lá dos habitantes naturais.
O objetivo era atrair atenções, para fundos e figuras se instalarem e desfrutarem
de um novo e sofisticado paraíso terrestre.
A guerra com a Irão, e a resposta deste, veio demonstrar amargamente
que aquela margem do golfo Pérsico continua a pertencer a uma região alérgica a
paraísos. Cada míssil ou drone iraniano que explode está a provocar danos e prejuízos
patrimoniais brutais, largamente superiores ao custo dos muros derrubados e dos
vidros partidos.
Os petrodólares investidos, assim como as outras divisas que
lá entraram deverão estar numa angústia enorme. Como se podem salvar, com aqueles
vizinhos imprevisíveis e belicosos do outro lado do golfo. O dinheiro manda
muito e palpita-me que uma guerra financeira deve estar a decorrer em paralelo.
Certo que se não houvesse intervenção dos EUA e de Israel,
nada disto teria acontecido… agora. Mesmo que esta guerra acabe, agora, as
sequelas e as incertezas serão esquecidas? O Irão acaba de dar uma machadada
valente no valor dos projetos desenvolvidos durante décadas com custos
exorbitantes. Afinal, estamos no Médio-Oriente… Será um dia esta expressão sinónimo
de algo diferente? Não sei…
Nota adicional em 19/03. No Qatar e nos Emiratos foi decretado ser crime filmar imagens dos ataques. Neste momento já se contam por centenas os criminosos no Qatar e dezenas nos UAE. Questões de segurança... financeira!
Certo que a forma como o regime iraniano trata os opositores
cai fora do respeito pelos Direitos Humanos, mas se fossemos bombardear todas
as ditaduras atrozes, a lista seria longa e os resultados pouco garantidos.
A situação atual inclui um atestado de nulo valor e clara incompetência
da ONU. Lidar com um Trump não será fácil, mas entregar esse trabalho a um Guterres,
tem resultado garantido, sendo que, mesmo com um presidente dos EUA menos
atípico, não seria expetável muita dinâmica e liderança construtiva da parte
dete secretário-geral.
Se a morte de Khamenei não foi chorada por muita gente, e
até celebrada, como reagirá a população aos contínuos bombardeamentos, mesmo se
apenas sobre instalações do regime? O regime mostrou ser suficientemente sólido
para sobreviver a uma decapitação, mas se cair, o que virá depois? Que plano
existe para esse dia seguinte? Experiências recentes estão fartas de demonstrar
que muito mais difícil do que ganhar a guerra pode ser ganhar a paz.
Daí que quando surge numa necessidade absolutamente premente
ou uma falta inaceitável, a reação frequente seja “é preciso gastar mais
dinheiro”. Sem ovos não há omeletes, mas não é por encharcar a frigideira com
ovos que o resultado vai ser o pretendido. Sem critério nem controlo será
desperdício.
Noutras situações, em vez de fazer funcionar eficazmente as
instituições existentes, enxerta-se uma “nova coisa” que, essa sim, vai
resolver…
O SNS no nosso país, parte das necessidades de primeira
linha da população, parece encaixar neste panorama. Se o problema é falta de
dinheiro, aumenta-se o orçamento, mas 72% de aumento da despesa entre 2015 e
2024 não parecem ter correspondência proporcional nos serviços prestados. O
problema está na gestão e coordenação? Cria-se uma “Direção Executiva”, que até
operou sem estatutos nem definição clara de competências por um “breve” período
de um ano e meio. O escândalo na dermatologia do Santa Maria demonstra existir
falta de controlo? Cria-se uma comissão de combate à fraude. Como vai
funcionar? A função antes não existia?
O recente processo de “decisão” da criação do novo centro de
cirurgia cardiotorácica no Hospital de Santo António é mais um exemplo. O
Hospital quis, secretários de Estado despacharam e alguém pagará. Onde ficou a
coordenação e o planeamento? Onde esteve a famosa Direção Executiva? Se não
intervém em decisões desta natureza, para que serve?
Entretanto, a administração desse mesmo hospital irá ser
julgada no Tribunal de Contas por irregularidades na contratação de serviços e
isso não parece incomodar muita gente. Quando haverá efetiva responsabilização
de tantos danos à tal manta, curta, que é de nós todos, sob o manto das
necessidades de saúde da população?
É o anunciado na capa do livro, mas como já passaram uma
dezena de anos desde a sua publicação, certamente que novos segredos ter-se-ão,
entretanto, acrescentado.
Trata-se de um tema que me interessa por várias razões e
mais uma. Por que raio as pessoas se associam em “caixinhas” para secretamente combinarem
e planearem ações que potencialmente podem influenciar toda a sociedade? Num
mundo livre, como o nosso, no mínimo é deselegante.
Este livro visita em várias dimensões as duas organizações
mais relevantes desse campeonato e várias diferenças entre as duas ficam evidentes,
para lá daquele contraste típico do esquerda-direita, religioso-laico e outros binómios
tradicionais que tais.
O Opus Dei parece ser muito mais organizado e centralizado,
tendo alguns aspetos que me custa muito a aceitar. Para começar, a idade com
que começam a recrutar os jovens e a falta de liberdade imposta aos membros. Seja
intelectual (a que Diabo lembrará proibir a leitura de uma boa parte de Eça de
Queiroz!?), seja económica, especialmente dos numerários, com a entrega
integral do seu vencimento à organização, além de a fazerem beneficiária do seu
testamento. O estatuto das numerárias-auxiliares que prestam serviços domésticos
na organização “gratuitamente” é indigno e bem capaz até de ser ilegal em
termos de direitos do trabalho (para não falar de humanos). Castigos corporais impostos
e obrigatórios também não pertencem a estes tempos em geral nem à doutrina
cristã em particular.
Tem, no entanto, o OD objetivos claros, anunciados e praticados.
Concordando ou criticando, entende-se ao que vêm. Na maçonaria é bastante mais
vago. Certo que historicamente, há um século atrás, eles diziam ao que vinham e
“lutavam” abertamente por isso, mesmo com armas e milícias, mas hoje não é
claro. Têm a sua cartilha e objetivos, mas pessoas como Isaltino Morais
estarão lá pelo catecismo oficial? Estão a vê-lo a filosofar e a expressar grandes
ideias e princípios…? Qual a motivação que pessoas desse calibre têm e o que
espera a organização deles, mesmo frescamente saídos da cadeia? Qual o
resultado social efetivo e público das ações da organização? É tudo secretíssimo?
Podem ambas as organizações explicar o seu apetite pelo
recrutamento de gente influente? Parece-me que o objetivo imediato das duas é o
poder, seja poder pelo poder, seja como meio para atingir o seu graal, sendo a
natureza prioritária (realço a palavra) desse caminho diferente entre as duas.
O OD busca o poder sobretudo pela vertente financeira. Uma boa parte dos seus “famosos”
são gente ligada a bancos e outras instituições financeiras. A maçonaria, pelo
menos a principal, busca o poder pela influência política. O número de maçons
nas estruturas de Estado, seja no Governo, seja nas instituições tuteladas pelo
mesmo é desproporcional à sua presença na sociedade. Assim sendo, pertencer à
irmandade pode ser um bom passaporte para certos lugares…
Há algo que me incomoda, e talvez mais significativo no caso
da maçonaria, que é a gestão facciosa e obscura das estruturas e bens públicos.
Ambas as irmandades têm reflexos tribais. A responsabilização exigida a quem
tem poder sobre aquilo que não lhe pertence obriga a transparência. Enquanto isso
não existir, o sistema não será são.
Uma (pequena) provocação final. Para quando um Rui Pinto
dedicado a tornar públicos eventuais esquemas que orbitam por aqueles lados…?
PS: De assinalar um ponto comum entre ambas que é, embora de
forma diferente, a menorização do estatuto da mulher.