26 março 2026

É trabalho, dizem


Isaltino Morais volta às notícias pelo tema das despesas em restaurantes por conta da autarquia, incluindo mariscos, tabaco e vinhos caros. Diz o autarca que está tudo certo, presumindo-se que as faturas terão o número de contribuinte correto e o IVA adequado. Acrescenta tratar-se de “almoços de trabalho”. Para lá dos valores e da natureza de alguns consumos, fica uma questão. É normal que uma equipa que tem naturalmente gabinetes, salas de reuniões e demais equipamentos na sede da autarquia, precise de ir para os restaurantes “trabalhar”… ? Sem terem pratos, talheres, guardanapos e copos de bom vinho à frente não conseguem ser produtivos?!

Provavelmente não será particularidade única de Oeiras, mas este conceito de “trabalho” é deveras curiosa... e inquietante.

25 março 2026

Pactos entre partidos


Acho muito curioso que na polémica relativamente à nomeação dos juízes para o Tribunal Constitucional, o PS reivindique a existência de um pacto histórico entre eles o PSD, datado de 1982, que deve ser respeitado. Portanto, há 4 décadas os líderes dos dois maiores partidos combinaram umas coisas e isso deve permanecer com “força de lei” ad aeternum. Já agora, ninguém se lembrou de invocar a validade do pacto MFA-partidos de 1975, que até foi muito mais formal? Certamente que não porque, felizmente, o mundo em que vivemos é muito diferente do de 1975.

Não tenho nenhuma simpatia pelo Chega e, pelo contrário, muitas dúvidas sobre a qualidade de muitos dos seus quadros, mas também não posso ver os dois partidos tradicionalmente maioritários a beneficiar de prerrogativas e “direitos” perenes sobre instituições do Estado, imunes à evolução do respetivo peso eleitoral. Isso sim, constituiria um grave atentado aos princípios democráticos, que teoricamente tanto prezam e defendem.

23 março 2026

A China e eu - Segundo ato


Corria o ano de 2013 e eu estava responsável por um projeto de irrigação em Marrocos, onde algumas válvulas hidráulicas tinham sido compradas na China, com o contrato a obrigar a realização de testes de receção das mesmas em fábrica.

Fui com uma comitiva do cliente até Xiamen, a cidade mesmo em frente da ilha de Taiwan. Uns quilómetros para o interior encontrava-se a respetiva ZEE, “Zona Económica Exclusiva”, uma das que constituíram os embriões da fábrica do mundo.

Zonas industriais com largas avenidas, aparentemente tudo muito bem estruturado e com impressionante dimensão. Uma curiosidade, em cada fábrica existia um edifício residencial onde se instalavam os respetivos operários, muitos deles com origens rurais longínquas. Podiam ir a “casa” uma vez por ano e lá permanecer por uma dúzia de dias, após comboios, autocarros e até outros meios de transporte. Obviamente que nada mais havendo a fazer, trabalhavam nos fins de semana, sempre dava mais uns trocos. Entendi que uma boa parte deles nunca poderia instalar-se familiarmente na zona do seu trabalho. É melhor para eles e para a família do que passarem por grandes privações, mas a prazo, o que aconteceria? A “fábrica do mundo” iria funcionar com imigrantes internos permanentemente afastados das famílias?

Durante os testes, ficamos alojados num enorme hotel, frio, na margem de uma estrada, sem mais nada. Eramos lá despejados pelos chineses ao final dia, cerca das 17h, íamos para uma sala para jantar, eles encomendavam os diferentes pratos e partiam. Lá ficávamos a trincar as coisas colocadas sobre a mesa, os marroquinos mais limitados pelas suas dúvidas quanto à compatibilidade religiosa das “iguarias” apresentadas …

Sobre o contacto com o local, uma visita ao templo budista Hongshan, já na cidade de Xiamen, antes de regressar, e à interessante e belíssima ilha de Gulangyu, uma sobrevivente da mistura de culturas e arquiteturas. Dois bons exemplos de uma China historicamente rica.



21 março 2026

Haja festa


 

Gosto de ver iluminações de Natal, penso que quase toda a gente gosta, e seria muito triste se um politicamente correto qualquer ou uma modernice cultural inventada viessem um dia cancelar as mesmas. Ao mesmo tempo, os milhares de euros de orçamento anunciados para a sua realização intrigam. Não seria possível fazer a coisa por menos, libertando fundos para outros desenvolvimentos sociais e culturais mais prementes e permanentes?

O que se vai sabendo da operação Lumen, envolvendo a Câmara de Lisboa e não só, vem demonstrar que nem todos os euros saíram por um bom caminho. É típico, quando os orçamentos púbicos são grandes aparecerem frequentemente fugas nos circuitos.

Estes descontrolos e falta de rigor (no mínimo) lançam questões adicionais sobre os critérios em vigor nos orçamentos e programas ditos culturais das autarquias. Aquelas produções caras de espetáculos de Verão em cada canto e esquina fazem sentido? Certo ser mais fácil mobilizar e agradar às massas com pimbas e popularices do que com certas produções “contemporâneas” elitistas e difíceis de tragar, mas não haverá alternativa? Deve haver e tem que existir. A opção pela festa fácil e cara não acrescenta grande coisa ao desenvolvimento social cultural do país, sendo que o cultural não precisa de ser árido nem o entretenimento ligeiro e inconsequente.

20 março 2026

A China e eu – Primeiro ato


O meu primeiro contacto com a China foi indireto. Corria o ano de 1996 e eu estava responsável pela realização de um projeto muito específico em Hong Kong, uma caixa-forte, a lembrar a do tio Patinhas, mas automatizada, destinada a armazenar e distribuir notas de banco. Apesar de HK estar ainda sob tutela britânica, o dono da obra era da China continental, concretamente o Bank of China (BOC), uma das três entidades emissoras da moeda local. A mistura de normas inglesas com práticas asiáticas proporcionava um ambiente muito particular.

Durante a fase de especificação funcional detalhada encontramos um problema. Para cada lista de questões enviadas por escrito, as respostas recebidas pouco esclareciam e, pelo contrário, acrescentavam novas dúvidas. A solução foi fazer as malas e apanhar um avião para lá, com o Pedro, que era o homem daquela especialidade.

A aterragem do 747 no antigo aeroporto de Kai Tak foi memorável. Aproxima-se e desce em curva. Vamos vendo os arranha-céus ao nível das asas. Quando desfaz a curva e endireita, as rodas estão a tocar a pista. Impressionante.

O fluxo de pessoas no metro é incrível. Não há espaço para gentilezas do tipo “depois de si”. Quem quiser ser gentil fica lá o dia inteiro a dar passagem aos outros. Gravou-se-me a imagem de uma porta de carruagem a abrir e ver uma muralha de troncos, ombro contra ombro, em força, a ver quem saia primeiro.

Na estação central é importante estar bem atento para usar a saída que nos serve. Depois de estar cá fora, ficamos afogados em gente e submergidos por arranha-céus, não sendo fácil (re)orientarmo-nos.

Logo no início das reuniões, o primeiro choque cultural. Nós estamos habituados a começar por um esboço das grandes linhas e depois ir descendo para detalhes, zona a zona. Não era o reflexo local, onde facilmente se dedicavam a começar por discutir pequenos detalhes. Um pouco como se se principiasse a conceber um automóvel pelo pormenor dos parafusos de fixação da placa de matrícula. Esta parte foi fácil de corrigir.

Começada a discussão, o trabalho parecia avançar rapidamente, face às expetativas iniciais. O problema surgiu umas horas mais tarde, quando, por acaso, uma afirmação veio contradizer uma resposta anterior, fundamental, e de forma completamente incompatível. Havia dois problemas. Um, a dúvida sobre o que realmente se pretendia, outro é que, conforme nos informaram previamente, os chineses não gostam de perder a face e daí ser delicado confrontá-los com um “erro”.

A solução passou por: dizem-nos que deve ser branco, ótimo, mas de manhã tinham dito preto. São duas excelentes cores, certo, mas nós temos dificuldade em fazer algo simultaneamente branco e preto! Podem ajudar-nos a ultrapassar este problema?

A partir desse momento, cada pergunta era seguida de contra pergunta, para validação e verificação da eventual necessidade de “ajuda”.

Numa fase posterior, durante os trabalhos, mais uma surpresa com a aparente ligeireza no planeamento e tolerância para descoordenações. Nos nossos hábitos tínhamos o cuidado de programar as tarefas na sequência necessária para otimizar a utilização de recursos. Ali era andar para a frente e, se um trabalho era feito cedo de mais, obrigando a refazê-lo mais tarde, paciência…

Fisicamente o meu contacto com a China propriamente dita, passou por introduzir uma mão entre as grades da porta do Cerco em Macau, que assim, solitariamente, “foi à China”.

No final deste processo fiquei com a convicção que, dadas as diferenças constatadas, apesar da abundância de recursos, os chineses andariam sempre um passo em atraso relativamente ao “nosso” mundo. Se calhar enganei-me… ou eles mudaram.

Nota de atualidade. O que mudou e muito significativamente em Hong Kong, após a transição da tutela para a China e contrariamente ao acordado, foi a liberdade.

19 março 2026

A vingança do grão


Ao receber o último número da revista de fotografia “Competence Photo”, deparei-me com um editorial, o título acima, e que assim começa (e que uma IA traduziu…):

Há algo de paradoxal no estado atual da fotografia. Nunca antes os sensores foram tão precisos, nunca antes a gestão de ruído digital foi tão impressionante, nunca antes o autofoco foi tão infalível. Os fabricantes competem entre si para produzir imagens cada vez mais nítidas, cada vez mais limpas, cada vez mais fiéis ao que o olho percebe — ou melhor, ao que deveria perceber, segundo uma certa ideia de perfeição óptica. E, no entanto, em todo o lado, observamos o mesmo movimento inverso: fotógrafos a adicionar grão, a procurar lentes vintage com as suas aberrações deliberadas, a desempoeirar os seus filmes Kodak Portra ou a usar presets para simular precisamente o que as suas câmaras se esforçam por eliminar.

Poderíamos ver isto como mera nostalgia, apenas mais uma tendência retro numa era que as adora. Mas isso seria demasiado simplista. O que está aqui em causa é mais profundo: uma resistência à perfeição fria, uma forma de reintroduzir um traço de fragilidade humana na imagem. Granulação, vinheta, ligeiro desfoque de movimento já não são defeitos a corrigir — tornaram-se assinaturas, prova de que por detrás da objectiva estava alguém, com as suas hesitações, as suas limitações, o seu ponto de vista.

É um excelente tema de reflexão. A partir de certo ponto, demasiado perfeito e esterilizado torna-se desumano (bem se costuma dizer que errar é humano). Uma imagem fortemente desfocada pode ser muito “característica”, denunciadora de uma assinatura forte, mas até que ponto funciona, isto é, é apreciada e desperta algo em quem a vê?

Se eu ao escrever um texto eu deixar uma virgula fora do sítio, isso será prova da minha falibilidade e de que o mesmo não é uma produção sintaticamente perfeita de um Chatgpt (já agora, não aproveitem para pedir ao mesmo, faz-me um texto com uns erritos ligeiros, para a coisa parecer humana).

A imagem acima é de 2013 e na altura a pequena Olympus ZX-1 de viagem, já incluía dentro dos filtros, a que em geral pouco ligava, esta opção de “grain film”, simulando fotos antigas analógicas, com resultado interessante.

Em resumo, a técnica resolve problemas técnicos, que são uma parte e uma ferramenta da criação. Se a técnica deixa de ser um desafio, mais espaço haverá para explorar o outro desafio, o da criatividade. Se essa criatividade passa pela imperfeição, certo, ma non troppo.

Já agora, para não haver confusões, falamos do registo de imagens existentes e não das inventadas (especuladas). A partir da imagem de alguém num funeral, fazê-la “evoluir” para colocar a pessoa a sorrir, pode ser divertido de ver, mas é outro contexto que, confesso, a mim, pouco me atrai.

18 março 2026

Um (outro?) Médio-Oriente

Médio-Oriente é uma designação geográfica historicamente associada a instabilidade e a guerras crónicas. Inclui Israel, comparado com os vizinhos um corpo estranho em termos de organização do país, valores sociais, prosperidade e outras coisas mais… e os outros todos seriam os “árabes”. Olhando um pouco mais atentamente, fomos vendo crescer umas diferenças entre os chamados países do Golfo, os ricos, e as imagens mais tradicionais da região.

Começando pelos Emiratos, especialmente o Dubai e passando pelos sauditas e pelo Qatar, foram nascendo urbes vistosas, luxuosas, procurando projetar uma imagem deslumbrante de modernidade. Não temos conta de quanto investiram em imobiliário faustoso, eventos sociais e desportivos de todo o tipo, sempre em prol da construção de uma “nova imagem”. O alvo vai para lá dos habitantes naturais. O objetivo era atrair atenções, para fundos e figuras se instalarem e desfrutarem de um novo e sofisticado paraíso terrestre.

A guerra com a Irão, e a resposta deste, veio demonstrar amargamente que aquela margem do golfo Pérsico continua a pertencer a uma região alérgica a paraísos. Cada míssil ou drone iraniano que explode está a provocar danos e prejuízos patrimoniais brutais, largamente superiores ao custo dos muros derrubados e dos vidros partidos.

Os petrodólares investidos, assim como as outras divisas que lá entraram deverão estar numa angústia enorme. Como se podem salvar, com aqueles vizinhos imprevisíveis e belicosos do outro lado do golfo. O dinheiro manda muito e palpita-me que uma guerra financeira deve estar a decorrer em paralelo.

Certo que se não houvesse intervenção dos EUA e de Israel, nada disto teria acontecido… agora. Mesmo que esta guerra acabe, agora, as sequelas e as incertezas serão esquecidas? O Irão acaba de dar uma machadada valente no valor dos projetos desenvolvidos durante décadas com custos exorbitantes. Afinal, estamos no Médio-Oriente… Será um dia esta expressão sinónimo de algo diferente? Não sei…

Nota adicional em 19/03. No Qatar e nos Emiratos foi decretado ser crime filmar imagens dos ataques. Neste momento já se contam por centenas os criminosos no Qatar e dezenas nos UAE. Questões de segurança... financeira!

15 março 2026

E depois da guerra?


Criticar a intervenção militar no Irão com base no atropelo ao Direito Internacional é algo que fica entre o ingénuo e o manipulador. Se, por exemplo, a Andaluzia estivesse governada por um Estado Islâmico, este a desenvolver misseis e armas nucleares com o objetivo público e assumido de arrasar Lisboa, nós teríamos continuado década após década calmamente apelando ao tal Direito Internacional, quando este nada faz? Não teríamos legitimidade de facto para rebentar com as instalações militares? Seria guerra, sim, seria guerra.

Certo que a forma como o regime iraniano trata os opositores cai fora do respeito pelos Direitos Humanos, mas se fossemos bombardear todas as ditaduras atrozes, a lista seria longa e os resultados pouco garantidos.

A situação atual inclui um atestado de nulo valor e clara incompetência da ONU. Lidar com um Trump não será fácil, mas entregar esse trabalho a um Guterres, tem resultado garantido, sendo que, mesmo com um presidente dos EUA menos atípico, não seria expetável muita dinâmica e liderança construtiva da parte dete secretário-geral.

Se a morte de Khamenei não foi chorada por muita gente, e até celebrada, como reagirá a população aos contínuos bombardeamentos, mesmo se apenas sobre instalações do regime? O regime mostrou ser suficientemente sólido para sobreviver a uma decapitação, mas se cair, o que virá depois? Que plano existe para esse dia seguinte? Experiências recentes estão fartas de demonstrar que muito mais difícil do que ganhar a guerra pode ser ganhar a paz.

11 março 2026

SNS pobre ou rico


Somos um país tradicionalmente pobre e estamos culturalmente habituados a que quando algo falha ou falta, a culpa ir cair num lamento de “a manta é curta”, em jeito de fatalidade.

Daí que quando surge numa necessidade absolutamente premente ou uma falta inaceitável, a reação frequente seja “é preciso gastar mais dinheiro”. Sem ovos não há omeletes, mas não é por encharcar a frigideira com ovos que o resultado vai ser o pretendido. Sem critério nem controlo será desperdício.

Noutras situações, em vez de fazer funcionar eficazmente as instituições existentes, enxerta-se uma “nova coisa” que, essa sim, vai resolver…

O SNS no nosso país, parte das necessidades de primeira linha da população, parece encaixar neste panorama. Se o problema é falta de dinheiro, aumenta-se o orçamento, mas 72% de aumento da despesa entre 2015 e 2024 não parecem ter correspondência proporcional nos serviços prestados. O problema está na gestão e coordenação? Cria-se uma “Direção Executiva”, que até operou sem estatutos nem definição clara de competências por um “breve” período de um ano e meio. O escândalo na dermatologia do Santa Maria demonstra existir falta de controlo? Cria-se uma comissão de combate à fraude. Como vai funcionar? A função antes não existia?

O recente processo de “decisão” da criação do novo centro de cirurgia cardiotorácica no Hospital de Santo António é mais um exemplo. O Hospital quis, secretários de Estado despacharam e alguém pagará. Onde ficou a coordenação e o planeamento? Onde esteve a famosa Direção Executiva? Se não intervém em decisões desta natureza, para que serve?

Entretanto, a administração desse mesmo hospital irá ser julgada no Tribunal de Contas por irregularidades na contratação de serviços e isso não parece incomodar muita gente. Quando haverá efetiva responsabilização de tantos danos à tal manta, curta, que é de nós todos, sob o manto das necessidades de saúde da população?

10 março 2026

O fim dos segredos

É o anunciado na capa do livro, mas como já passaram uma dezena de anos desde a sua publicação, certamente que novos segredos ter-se-ão, entretanto, acrescentado.

Trata-se de um tema que me interessa por várias razões e mais uma. Por que raio as pessoas se associam em “caixinhas” para secretamente combinarem e planearem ações que potencialmente podem influenciar toda a sociedade? Num mundo livre, como o nosso, no mínimo é deselegante.

Este livro visita em várias dimensões as duas organizações mais relevantes desse campeonato e várias diferenças entre as duas ficam evidentes, para lá daquele contraste típico do esquerda-direita, religioso-laico e outros binómios tradicionais que tais.

O Opus Dei parece ser muito mais organizado e centralizado, tendo alguns aspetos que me custa muito a aceitar. Para começar, a idade com que começam a recrutar os jovens e a falta de liberdade imposta aos membros. Seja intelectual (a que Diabo lembrará proibir a leitura de uma boa parte de Eça de Queiroz!?), seja económica, especialmente dos numerários, com a entrega integral do seu vencimento à organização, além de a fazerem beneficiária do seu testamento. O estatuto das numerárias-auxiliares que prestam serviços domésticos na organização “gratuitamente” é indigno e bem capaz até de ser ilegal em termos de direitos do trabalho (para não falar de humanos). Castigos corporais impostos e obrigatórios também não pertencem a estes tempos em geral nem à doutrina cristã em particular.

Tem, no entanto, o OD objetivos claros, anunciados e praticados. Concordando ou criticando, entende-se ao que vêm. Na maçonaria é bastante mais vago. Certo que historicamente, há um século atrás, eles diziam ao que vinham e “lutavam” abertamente por isso, mesmo com armas e milícias, mas hoje não é claro. Têm a sua cartilha e objetivos, mas pessoas como Isaltino Morais estarão lá pelo catecismo oficial? Estão a vê-lo a filosofar e a expressar grandes ideias e princípios…? Qual a motivação que pessoas desse calibre têm e o que espera a organização deles, mesmo frescamente saídos da cadeia? Qual o resultado social efetivo e público das ações da organização? É tudo secretíssimo?

Podem ambas as organizações explicar o seu apetite pelo recrutamento de gente influente? Parece-me que o objetivo imediato das duas é o poder, seja poder pelo poder, seja como meio para atingir o seu graal, sendo a natureza prioritária (realço a palavra) desse caminho diferente entre as duas. O OD busca o poder sobretudo pela vertente financeira. Uma boa parte dos seus “famosos” são gente ligada a bancos e outras instituições financeiras. A maçonaria, pelo menos a principal, busca o poder pela influência política. O número de maçons nas estruturas de Estado, seja no Governo, seja nas instituições tuteladas pelo mesmo é desproporcional à sua presença na sociedade. Assim sendo, pertencer à irmandade pode ser um bom passaporte para certos lugares…

Há algo que me incomoda, e talvez mais significativo no caso da maçonaria, que é a gestão facciosa e obscura das estruturas e bens públicos. Ambas as irmandades têm reflexos tribais. A responsabilização exigida a quem tem poder sobre aquilo que não lhe pertence obriga a transparência. Enquanto isso não existir, o sistema não será são.

Uma (pequena) provocação final. Para quando um Rui Pinto dedicado a tornar públicos eventuais esquemas que orbitam por aqueles lados…?

PS: De assinalar um ponto comum entre ambas que é, embora de forma diferente, a menorização do estatuto da mulher.

 

09 março 2026

Adeus, Marcelo


Diz o povo que quem muito fala, pouco acerta e esta é uma frase que associei a Marcelo Rebelo de Sousa desde os seus tempos de comentador. As minhas expetativas para o seu desempenho como Presidente da República sempre foram baixas.

Agora, na saída, é curioso visitar a galeria de imagens do seu reinado. Há certamente uma vertente de contacto humano com toda a população e episódios de informalidade, que vão de o PR se querer colocar ao nível do cidadão comum a extremos desconcertantes. Uma grande popularidade e receções entusiastas, inclusive nos Palops.

Agora, e eu passo sempre rapidamente aos “agoras”, a vida não é apenas feita de sorrisos e selfies, pelo menos para quem aspira ou tem por missão ser mais de que figurão em redes sociais. Que guardamos na memória de uma intervenção de MRS profunda e notável? Certo que fez muitos discursos e neles passou mensagens “corretas”, mas…

Mas a imagem que fica é de um MRS mais preocupado com a sua promoção, imagem e correspondente popularidade do que com os verdadeiros interesses do país. Estarei a ser injusto? Talvez, mas da galeria de memórias do seu exercício, guardamos muitas memórias simplesmente visuais e muito pouco de projetos estruturais.

Para não fugir à tradição, a Marcelfie final com o governo é representativa e absurdamente caricata. Parece de uma reunião de antigos alunos que se juntam alegres e animados para a fotografia final do encontro. Muito riso, pouco siso e há momentos em que os sorrisos passam a ridículos. Sobre sorrisos, também me chocou uma visita a um cemitério militar português em França, com Macron e Costa, onde os dois portugueses caminham sorrindo contentinhos, sem o mínimo respeito pelo significado do chão que pisavam.

O que faltou mesmo nas galerias de imagens que vi foi a enigmática (marcelática) visita ao Beco do Chão Salgado em novembro de 2023. O processo e execução dos Távoras foi um episódio sinistro de abuso de poder e injustiça, abominável em várias dimensões. Abordar o assunto e o local sem ser claro e frontal é inaceitável. Enviar recados e insinuações diretas naquele local foi de uma ligeireza e irresponsabilidade institucionais brutais. Talvez a maior memória da falta de conteúdo (sério) que me fica deste senhor vaidoso, manipulador e… algo tonto.

05 março 2026

Entre russos


Sim, há mais russos para lá de alguns de triste memória…

No meu ponto de vista uma obra de arte vale fundamental pela sensibilidade despertada. A mestria técnica ajuda e creio até ser indispensável. Um quadro com borrões de tinta projetados ou uma “instalação” com algumas chapas ferrugentas dobradas dificilmente compensarão a falta de técnica artística com algo que me impressione o suficiente para as apreciar.

O tema, pode ajudar, mas acabar por ser um pouco secundário. Nma sinopse da Mona Lisa constaria “Um retrato de uma mulher” e não seria por aí que lhe chegaria a fama. Noutro campo e noutra escala, um dos melhores livros de Saramago para mim é o “Todos os nomes”, cujo sumário pode ser considerado banal, ao contrário das “Intermitências da morte” e de “O homem duplicado”, onde um muito interessante tema não tem desenvolvimento (e impressão) proporcional, na minha opinião.

Vem isto a propósito destas duas figuras maiores da literatura russa, objeto de um tratamento muito díspar na minha biblioteca. Para Dostoivesky está lá, e lido, tudo o que encontrei, algumas edições até com umas boas décadas em cima e páginas escurecidas, longe do branco original. Para Tosltoi havia apenas uma singela “Anna Karénina”, talvez o seu maior romance, mas que permanecia por percorrer, coisa que fiz recentemente.

Sobre Tolstoi, é indiscutível que ele domina a arte de escrever e que o livro nos faz viajar, impressionar e sentir… Agora, em comparação com o autor dos “Irmãos Karamazov”, falta-lhe o toque que me provoca a diferença entre o excelente e o genial. Estamos no domínio da impressão, a minha não será a de toda a gente, nem a de hoje pode ser a mesma amanhã. Apenas digo que a “Anna Karénina” irá continuar singela na prateleira, e “Os Possessos” talvez sejam objeto de releitura.

Mas, enfim, nisto como em outras coisas, cada qual como cada um… e ainda bem.

01 março 2026

Sócrates não tem culpa…

Na medida em que o seu julgamento não chegou ao fim, o Sr. Pinto de Sousa não pode ser considerado formalmente culpado, mas está a fazer tudo para que o processo não se conclua a tempo e, disso, tem certamente culpa.

É impressionante como há gente, com tempo de antena, com coragem e descaramento para afirmar que este rodízio de advogados não é da responsabilidade do réu. A culpa é de o processo ser desproporcionalmente grande e o senhor não tem culpa dos seus advogados entrarem em desacordo com a juíza (!?) ou ficarem doentes.

Como é evidente, com tantos meios e custos envolvidos na sua defesa, com tanta litigância em tantos foros, o senhor não depende certamente de um único causídico, à mercê de uma qualquer corrente de ar. Sócrates só não apresenta oficialmente em tribunal um advogado conhecedor do processo porque não quer. Porque não quer que o processo se conclua a tempo de evitar as prescrições e quem nos tenta convencer do contrário não é honesto…

 

27 fevereiro 2026

ULS Gaia/Espinho - A farsa continua


A ULS Gaia-Espinho, vulgo “Hospital de Gaia”, cumpre há vários anos todos os critérios de serviços médico-cirúrgicos disponibilizados e de população servida para ser classificado no nível de topo dos hospitais públicos. A consequência da reclassificação é naturalmente dotar a unidade de meios materiais e humanos suficientes para atender às necessidades. Porque não está nesse nível não se sabe, nem se entende.

O que sabe é que após uma visita da então ministra da Saúde, na altura Marta Temido, foi reclassificado com efeitos apenas no vencimento dos gestores, como se a prioridade fosse satisfazer revindicações individuais dos mesmos e acalmá-los.

Mais recentemente, em novembro passado, ouvimos uma proposta absurda de transferir competências pediátricas de Gaia para o Santo António… Como se Gaia não fosse o terceiro concelho mais populoso e com a ULS a servir ainda outros concelhos a sul do Douro.

Agora, nasce uma “necessidade”, aparentemente não confirmada pelos dados objetivos, de abrir um terceiro centro de cirurgia cardíaca no grande Porto, no Hospital de Santo António.

Com todas as necessidades objetivas existentes no SNS, confirmadas e à vista de todos, avançar com este processo coloca algumas questões. Faz sentido esta dispersão de existirem três estruturas desta complexidade num raio inferior a 10 km? Faz sentido arrancar com um novo centro desta natureza, recorrendo a prestadores de serviços, vulgo tarefeiros, eventualmente “roubados” aos dois centros já existentes e comprometendo a viabilidade do que já existe e funciona?!  Não seria preferível utilizar essas verbas para reforçar os serviços de obstetrícia, por exemplo, e deixarmos de ter os episódios terceiro-mundistas dos partos em ambulâncias?

Quais serão as justificações reais, é a questão que fica em aberto… O interesse dos utentes do SNS não parece ser.

23 fevereiro 2026

E se fosse no ISCTE?


O caso de Fábio Teixeira, formado em enfermagem, nomeado para coordenador da Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis (EMER) fez correr muito tinta e inclusive a suficiente para ser rapidamente decretada a reversão da nomeação.

Efetivamente, o desalinhamento entre a sua área de formação e a natureza da estrutura causa perplexidade. Desconhecemos se terá conhecimentos específicos sobre o sector, como Miguel Barreto, que depois de ter sido diretor-geral de Energia, se dedicou a criar dúzias de empresas especializada em ganhar licenças de produção de energia, posteriormente revendidas com interessante mais valias. Os condicionamentos no acesso à produção de energia verde, criam oportunidades douradas e talvez Manuel Pina, o presidente da EMER, que nomeou o enfermeiro, tenha algo a explicar sobre eventuais conflitos de interesse com as empresas em que participa/participou.

Podemos ainda especular o seguinte. Se Fábio Teixeira tivesse tirado um curso de “Ciências Políticas” ou outro análogo, porventura menos exigente intelectualmente e tecnicamente também desalinhado, certamente não se levantaria tamanho vendaval… e que desses há por aí muitos, há.

A qualificação para uma função de gestão não se esgota na formação técnica e académica. É indispensável um conjunto de qualidades humanas e de liderança. Formação política nos ISCTEs ou nas juventudes partidárias, essas qualificam pouco para o que realmente importa.