04 maio 2026

Arcozelo 1974 : Padre Branco x Fortunas

A minha família nunca foi muito de sacristias. Em 1974 eu ia à missa apenas com a minha mãe, o meu pai passava. Uma boa parte da família alargada costumava assistir à de sábado, ao final da tarde, ficando assim o domingo livre para os picnics na Ria de Aveiro e outras saídas.

Após o 25 de Abril, ocorreu uma sessão de esclarecimento no campo de futebol da freguesia, secretariado pelo meu tio-avô, Adolfo Fortuna, que teve uma breve passagem pelo PS. O pároco da freguesia ouviu numa intervenção algo que não apreciou e pediu a palavra. Aparentemente o meu tio-avô terá registado a solicitação e informou o senhor padre de que iria falar quando chegasse a sua vez, após os anteriormente inscritos. O senhor padre ficou furibundo pela ausência de tratamento prioritário e foi-se embora.

No sábado seguinte, na tal missa do sábado, o pároco aproveitou a homilia para demonstrar a sua ira contra uns certos irmãos, supostamente “fascistas”.  Eu estava lá e recordo-me de, na fila da igreja imediatamente atrás de mim, o meu tio-avô Ilídio Fortuna resmungar a meia voz: Fascista, fascista… fascista é ele!  Na altura, a palavra “fascista” era um depreciativo de largo espetro.

Por canais que ignoro, o assunto chegou a uma rádio, que noticiou a particularidade dessa homilia na paróquia de Arcozelo, Vila Nova de Gaia, libertando grande polémica.

Na missa da manhã do domingo, o senhor Padre resolveu apresentar um “Agarrem-me, senão eu parto”. Anunciou que iria abandonar a paróquia e que agradecessem “a uma certa família”. Gerou-se imediatamente um enorme movimento beático de apoio, “O Padre é nosso, o Padre é nosso”, transformando a missa numa ruidosa manifestação de apoio ...

Como consequência, a família ficou zangada com o sacerdote e o mais interessante para mim foi termos deixado de ir à missa, nem sábado, nem domingo.

Apenas uma pequena história no meio dos inúmeros episódios curiosos que ocorreram no imediato da revolução. Posteriormente as relações acalmaram, como previsível, mas a história é também feita de pequenas histórias.

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