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18 maio 2026

A extraordinária URSS


Por estes dias o nosso extraordinário PCP lembrou que “A União Soviética, infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente, porque de facto foram anos extraordinários para o povo”. Por estes dias celebrou-se o final da II Guerra Mundial, onde a URSS esteve do lado dos vencedores.

Aqueles que querem a todo o custo encontrar algum mérito no período soviético, descontando o anterior terror estalinista e a posterior repressão na Europa de Leste, realçam a sua participação e generoso esforço material e humano despendido nessa guerra, do lado “certo”.

No entanto…  Em agosto de 1939, Estaline apertava a mão ao nazi Ribbentrop (imagem), escassos dias antes das tropas alemãs entrarem na Polónia pelo Oeste e a URSS a seguir os imitarem pelo Leste. Até Hitler decidir entrar na URSS em 1941, os partidos comunistas europeus viam até com alguma simpatia o regime nazi.

No final da guerra, enquanto a Oeste, Eisenhower deixa a primazia da entrada em Paris a Leclerc, simbolicamente permitindo que a capital de França fosse libertada por franceses, na Leste, na aproximação a Varsóvia, quando a resistência armada polaca cresce, os blindados soviéticos param e aguardam cinicamente. Ter os resistentes polacos massacrados pelos alemães era trabalho em avanço, dispensando os soviéticos de precisarem de fazer mais tarde.

O esforço de resistência clandestina polaca foi talvez daqueles com maior dimensão e organização, mas no final perderam de novo. O “mundo livre” deixou-nos sob a pata de Estaline.

Ainda estou à espera do detalhe do que foram os anos extraordinários da URSS. Talvez os polacos possam ajudar.

15 agosto 2025

Um urso no Alasca


Meio mundo aguarda com expetativa o resultado da próxima cimeira no Alasca entre Trump e Putin, naturalmente. Aquela guerra precisa de acabar e considerando que já passaram mais de 24 horas depois da tomada de posse do presidente dos EUA…

Eu estou expectante, mas também cético. Supondo que até corre bem, as armas se calam e vamos a caminho de um acordo de paz, que garantias há de que Putin não inventa mais uma “ameaça” qualquer para relançar a ofensiva.

De recordar que este conflito foi iniciado sem que a Ucrânia tenha atirado uma simples pedra no território russo ou planear fazê-lo. A menos que a ocidentalização e liberalização de uma antiga colónia fosse uma pedra no sapato dos senhores do Kremlin.

Aparentemente o objetivo era “desnazificar” Kyiv e, se esse argumento legitimava a “operação especial” há três anos, porque não esse ou outro poderão ser de novo invocados? De recordar que em 1994 a Ucrânia entregou o arsenal nuclear soviético em seu poder, em troca de garantias de segurança e…

Quem começa uma guerra desta forma, não parece confiável para manter a paz sem uma forte coação militar e/ou económica. Todos aqueles que acreditam que as promessas de paz destes brutais senhores da guerra garantem algo, podem revisitar a história dos acordos de paz de Munique de 1938 e do que se seguiu.

Atualizado em 16/8 com a publicação no "Público"


18 agosto 2024

KURSKando

Temos visto recentemente noticias sobre esta cidade e região na Rússia, a propósito da audaz ofensiva ucraniana de fazer sentir a guerra também na casa do outro. Ficamos na expetativa do que vai a seguir fazer Putin, humilhado. Os arrogantes humilhados e impotentes são sempre perigosos imprevisíveis…

Não será a primeira vez que muitos ouviram este nome. Em agosto de 2000 um submarino nuclear russo com o mesmo nome foi vítima de uma expulsão de um torpedo, afundando-se e matando todos os tripulantes. Uma vintena de sobreviventes à explosão inicial acabaram também por morrer, por incapacidade, incompetência, falta de meios e soberba da Rússia que se recusou a ser ajudada a tempo. Na altura Putin, recém-eleito Presidente, foi criticado pela forma arrogante e fria como geriu a catástrofe. Na altura ainda era possível criticar.

E porque é que o submarino se chamava Kursk?  Porque próximo desta cidade travou-se em Agosto de 1943 uma grande batalha, que terminou com a vitória soviética e marcou o fim das iniciativas alemãs na frente leste da 2º Guerra Mundial.

Talvez, para alguns russos, seja uma espécie de repetição da “Grande Guerra Patriótica”. Em volta de Kursk haverá uma batalha entre invasores nazis e patriotas soviéticos. Só que esta suposta repetição é já do domínio da farsa. Para todos os que acreditavam que o fim da guerra 39-45 era um passo irreversível no caminho da liberdade e democracia, para todos os que nos anos 70 viram desaparecer os caudilhos ditadores do sul da Europa, para os que em1989 viram cair o muro que amordaçava metade da Europa, para todos os que acreditavam que mais depressa ou mais devagar o caminho tinha uma direção clara, esta Rússia brutal e desumana veio demonstrar que esse caminho não é assim tão irreversível.

O que está em causa não deveria ser objeto de “nem mas nem meio mas” por parte das gentes de boa vontade, que acredito serem a maioria...

Todos aqueles que se recusam a reconhecê-lo, estão a prestar um péssimo serviço à humanidade e trabalharem para deixarem aos próximos um mundo pior do que o que encontraram quando chegaram.


22 novembro 2023

Liberdade, direitos e democracia

Por estes tempos já toda a gente sabe, ou deveria saber, o que foi o Gulag. Podem dizer que não vale a pena chover no molhado, que é passado, mas eu discordo e já explico.

Diz-se que as condenações ao Gulag eram extramente discricionárias e muito arbitrárias. Não era bem assim. Segundo imagem acima, extraída do famoso livro de Alexander Soljenítsin, havia efetivamente algum enquadramento e classificação. Nela estão elencados os “crimes” que poderiam levar um individuo a passar umas dezenas de anos preso em condições não humanas e com elevada possibilidade de não regressar.

Há cerca de 4 anos o Parlamento Europeu votou e aprovou uma resolução que coloca nazismo e comunismo em pé de igualdade. Sendo que nestes casos, as contabilidades e a verificação de empate são algo subjetivas, a barbaridade estalinista não fica atrás, nem em números nem em princípio da nazi. Votação unanime? Não. Da parte que nos diz respeito, o BE e o PCP votaram contra. A declaração publicada pelo PCP na altura (aqui) é um monumento de hipocrisia e desonestidade. 

Se inicialmente Hitler e Estaline começaram aliados e a repartir a Polónia, quando até os partidos comunistas ocidentais tinham alguma simpatia pelos inimigos do capitalismo liberal, se no final a URSS foi determinante para o resultado da Guerra e a derrota da Alemanha, isto não constitui carta branca para menorizar os milhões assassinados por Estaline.  Diz o PCP no final do comunicado que não permitirá “o branqueamento do fascismo e a criminalização do ideal e projecto comunista”. Portanto… equiparar o fascismo ao estalinismo é branquear o primeiro e atacar o belo ideal do segundo?! Não têm vergonha?

A Alemanha fez o luto do nazismo e algo equivalente ou próximo é impossível de acontecer, pelo menos a curto-médio prazo, na Europa Ocidental liberal e democrática. Para a Rússia, cada vez mais autoritária e implacável, e seus simpatizantes, há tolerância e mesmo alguma nostalgia desses tempos assassinos e nunca é demais dizer que

“Gulag nunca mais”

Destes estamos muito menos protegidos. 

07 agosto 2023

Hiroxima, missão assassina? (I)


Por estes dias, concretamente a 6 e 9 de agosto, registam-se os aniversários dos bombardeamentos atómicos sobre o Japão de 1945, acontecimentos que mudaram para sempre este mundo e as suas guerras.

Uma primeira discussão será de até que ponto isto poderia ter sido evitado e a bomba atómica não ter sido de todo inventada. Parece impossível. A própria Alemanha estava na corrida, imagine-se se tivessem chegado primeiro, e mais tarde ou mais cedo a bomba seria uma realidade. A perseguição aos judeus, incluindo aos físicos que fugiram e atravessaram o Atlântico, foi afinal um "feliz" tiro no pé dos nazis.

A segunda questão é se havia necessidade de a ter utilizado e se este massacre de civis constituiu um ato criminoso. Se bem que com meios diferentes, bombardear cidades para forçar rendições, aconteceu neste final da guerra, mas também logo no início. Quando em maio de 1940, a Alemanha resolveu atacar e França, atravessando o Benelux para contornar a famosa linha Maginot, a Holanda resistiu inicialmente, mas rendeu-se após um brutal bombardeamento que arrasou Roterdão. A Bélgica, na perspetiva de sofrer algo idêntico também não resistiu e estas capitulações relâmpago dos seus vizinhos do Norte, foram muito criticadas pela França, que a isso atribui a sua derrota… relâmpago.

Seguiu-se o massacre de Londres e a “very british” reação de “Keep calm and carry on”. Mais tarde seria a resposta aliada na Alemanha, como, por exemplo, Dresden, Colónia, Hamburgo e Berlin.

Quando Truman decide largar a bomba em Hiroxima, para forçar a capitulação do Japão, não era também a primeira vez que uma cidade nipónica sofria um bombardeamento. O tipo de bomba, escala e efeitos foram diferentes, mas o princípio não foi diferente do que tinha sido corrente naquela guerra.

O segundo bombardeamento de Nagasaki, apenas 3 dias depois, sem ter dado tempo ao Japão de assimilar e reagir ao de Hiroxima, é bastante mais questionável. O fato de a primeira bomba ser de uranio e a segunda de plutónio, faz especular sobre se o interesse “científico” em testar os dois tipos de bomba não se terá sobreposto aos objetivos puramente militares e humanos…

Enfim, com a ligeireza e tranquilidade de quem hoje está a olhar para isto sentado num sofá, a toda esta distância, parece-me que Hiroxima tem desculpa, mas Nagasaki talvez não.

Continua para ...

23 dezembro 2022

Os outros nas nossas botas


Há uma expressão “calçar os sapatos dos outros”, ou colocar-se na sua pele, que apela a experimentar ver um problema pelo lado do outro, eventualmente um adversário, e assim procurar entender o seu raciocínio, o seu ponto de vista e compreender melhor as suas ações.

Existe algo um pouco complementar que é o tentar colocar os outros no nosso lugar. Desconhecendo os fundamentos das suas motivações, trata-se de imaginá-las à luz dos nossos valores e princípios. É um jogo potencialmente perigoso.

Aqueles que apelam ao diálogo e à diplomacia face aos autoritarismos e agressões, das quais a situação na Ucrânia é o atual exemplo mais agudo, acham que como “connosco”, “com os outros” a lógica será a mesma. Obviamente que para Putin, tal como Hitler em 1938, há um sistema de valores que não é o “nosso”. Não é o diálogo, nem a argumentação que os convencem. É a força, militar, económica ou outra.

O sistema de valores que defendemos necessita de ser forte para resistir, sem hesitações nem meias-medidas. As botas de Putin são muito diferentes das nossas. Não serve de nada imaginá-lo a calçar as nossas, não há calçadeira que tal consiga.

12 outubro 2019

O problema do populismo


Não faltam demonstrações de desalento e de preocupação pela entrada do “Chega” no Parlamento, um pouco como alguém se lamentar de ter encontrado um rastro de bicho de madeira em casa, potencialmente ameaçador para a saúde de toda a mobília.

O Chega e outros populistas podem efetivamente minar o regime democrático, para lá do que ele já foi minado pelos menos populistas. Se populismo é apresentar aos eleitores receitas falsificadas, todos são maus. Quanto ao extremismo, não encontro nocividade acrescida no ser de direita. Nunca entendi porque se tolera mais Staline, Mao e Fidel do que Hitler, Mussolini e Franco.

O problema da implantação e do crescimento dos populistas não está, no entanto, nas mentiras que dizem; está precisamente nas (algumas) verdades. Os partidos tradicionais demitiram-se de ser sérios. Pelo politicamente correto divorciado da realidade, pelas desonestidades de todo o tipo, pela negação das evidencias e dificuldade em assumir e corrigir as falhas… demasiadas coisas cheiram mal nos habituais inquilinos do poder.

Não é, portanto, difícil apontar meia dúzia de verdades incómodas, para as quais os eleitores estarão recetivos. É fácil, a seguir, enxertar nesse discurso uma dúzia de meias verdades e duas dúzias de mentiras descaradas.

O bicho da madeira aparece porque não se arejou suficientemente a casa. Não se tendo tido o cuidado de manter um ambiente são, não vale a pena agora chorar pelo apodrecimento adicional. Não reconhecer e não tratar a causa fundamental apenas agrava.

08 junho 2016

Uma Aldeia Francesa


Confesso. A série agarrou-me logo no início. Por ir para lá do básico maniqueísmo habitual nestas narrativas sobre o nazismo e a ocupação. Os personagens não se dividem estaticamente entre colaboracionistas oportunistas sem escrúpulos e heroicos resistentes de grandiloquentes princípios. A realidade é e terá sido certamente mais complexa e, sobretudo, evolutiva. A ocupação não foi apenas um tsunami pontual, que na altura da catástrofe revela os covardes e os heróis do momento. Foram muitos dias, muitos meses e até anos em que a vida teve que continuar.

E, nesta luta diária, quem teve mais mérito? Daniel Larcher, o médico presidente da câmara que, pelo menos inicialmente tenta jogar o jogo com os alemães, negociar com eles, condicioná-los, minorando os efeitos nocivos para a população, ou o seu irmão Marcel, e os seus amigos comunistas que decidem matar um oficial alemão, para marcar posição, provocando o lançamento de represálias…?

A cena da diferença entre a perspetiva e a realidade do prato de puré foi magistral. A partilha final da cela e o fuzilamento simultâneo do resistente comunista e do novo presidente colaboracionista só pecou por ter sido demasiado rapidamente diluída na ação. Merecia mais tempo e profundidade. As aproximações amorosas e culturais entre partes dos dois lados são um desvio pecaminoso ou uma consequência natural da unicidade da espécie humana? A resposta não é evidente e estas interrogações fazem parte do interesse da série. Preferiria que se tivesse arrastado menos e não intricando tanto o enredo, com incontáveis e mais ou menos verosímeis percalços, felizes e infelizes coincidências, à la Jack Bauer (24), mas isso deve fazer parte da receita comercial. As denúncias por pressão sobre os afetos também me pareceram um ingrediente demasiado usado e abusado.

A minha curiosidade principal agora é ver como será tratado o pós-libertação e como na voracidade dessa mudança serão carregados ou atropelados os justos e os oportunistas. Promete…!

29 dezembro 2015

O pior do Nazismo

Num destes fins-de-semana, a RTP2 passou um filme sobre Anne Frank. Não acrescentando nada de muito relevante em termos de informação, acrescenta sempre algo como reflexão…

Uma coisa é o Nazismo no palácio, no quartel-general, onde os líderes mais ou menos alienados tomam decisões que provocam a morte de muitas pessoas, mais ou menos atroz, mas sem lhes sentirem o cheiro, vistas apenas quase como uma estatística, enquadradas num objetivo macro qualquer. Convém recordar que a morte deliberada de civis não foi um exclusivo dos “maus”. Massivos bombardeamentos foram realizados pelos aliados a várias cidades alemãs, assumidamente, com a intenção de quebrar o moral às populações.

Outra coisa é no dia-a-dia, entre pessoas que se conhecem, que se cheiram, aceitar e jogar este jogo assassino e a denúncia pouco menos do que gratuita… Como é possível, pessoas que se fitam nos olhos se consigam “dessolidarizar” a ponto de enviar um semelhante inocente e indefeso para a degradação e morte?

Não, o pior do Nazismo não foi Hitler. O pior foi a aceitação do sistema e a participação ativa no mesmo de largas franjas da população e não apenas na Alemanha. Pode-se invocar aqui a tal imagem da “banalização do mal”, apresentada por Hannah Arendt? Eichmann, participando e promovendo ativa e conscientemente a morte de muitos milhares, invocou uma espécie de alienação passiva. Tudo aquilo era “normal”, argumentando constituir uma simples peça acrítica de uma engrenagem complexa. No entanto, os cidadãos básicos que aderiram ao processo não podem invocar assim tão facilmente o fator hierárquico para justificar a perseguição daqueles que até há pouco eram seus vizinhos, colegas e amigos.

Num momento em que a Europa mostra sinais de fadiga em vários campos, com alguns paralelos com a situação antecedente a esse período negro, nunca é demais rever o sorriso de uma Anne Frank, mesmo que seja simplesmente o rosto de uma atriz num filme.

19 novembro 2015

Empresas, donos e histórias

Passou há pouco tempo na RTP2 uma série sobre a família Krupp, fundadora da empresa alemã com o mesmo nome, um dos maiores impérios industriais do século XX. A ação decorre fundamentalmente nos palácios da família, em torno dos seus conflitos, dramas e estoicidades, sem abordar as dificílimas condições de trabalho nas fábricas e referindo apenas muito ao de leve os registos esclavagistas e criminosos da fase do III Reich.

Manter uma dinastia viva e pujante não é tarefa fácil e uma boa parte do enredo estava construído precisamente em torno da forma(ta)ção muito exigente e tensa do herdeiro designado.

No final, há um acontecimento assinalável. A propriedade da empresa é transferida da família para uma fundação, um processo que merece alguma reflexão. Se tudo nasce, cresce e morre ou se transforma, a transformação de um grande património familiar numa fundação (falamos, obviamente, de fundações a sério) é admirável em significado e em potencial. Para lá do prescindir da propriedade de um bem, está em causa abandonar o objetivo básico de criar riqueza para si e colocar o património numa instituição sem fins lucrativos, incorporando uma função social relevante. Isto possibilita um campo de intervenção infinitamente mais amplo e potencialmente gerador de outras riquezas, noutros campos, que uma lógica de gestão de acionista/investidor dificilmente permitiria.

Voltando à série e aos Krupp, há uma conclusão muito clara. Uma empresa de corpo inteiro é uma entidade viva, gerida, liderada e sentida, não um simples título que voa de mão em mão, conforme o vento. Há donos das empresas que as vêm como algo criado, construído e com um valor para lá do contabilístico; há outros, para quem elas são apenas um ativo transacionável, que pode entrar ou sair a qualquer momento dos seus livros, conforme a oportunidade.

As primeiras fazem a história, as segundas vagueiam de estória em estória.

13 abril 2015

Resistência e colaboração

Os franceses são grandes vendedores de imagem. Sem falar em modas, perfumes e outros luxos muito bem vendidos, basta pensar naquele vinhito de S. Martinho, o “Beaujolais Nouveau”, com o qual conseguem criar um acontecimento mundial… enfim!


Na sua história há duas referências claramente sobrevalorizadas ou, pelo menos, contadas de forma facciosa. Uma é a famosa revolução, certamente um marco fundamental na história da humanidade, mas cuja prática imediata, muito afastada da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” é pouco analisada. A outra é a resistência à ocupação alemã durante a II Guerra Mundial.

As imagens românticas e heroicas dos resistentes, do “Si c’etait à refaire…”, são apresentadas como a representação principal da verdadeira França, grandiosa, mas não foi bem assim. Muitíssimos franceses colaboraram e não necessariamente por básica necessidade de sobrevivência ou simples cobardia. Muitos deles identificaram-se com a ideologia nazi e, por exemplo, abraçaram claramente o antissemitismo. A história não deve incluir apenas o lado A, aprende-se muito com o B. Por tudo isto, é muito significativo ter estado patente uma importante exposição sobre a França colaboracionista, realizada a partir de documentos da época – “La Collaboration (1940-1945) à travers les archives”, Hôtel Soubise, Paris.

Agora que esta mostra corajosa encerrou, podemos esperar de algo idêntico cá, para os nossos lados, para o nosso lado B …? É que procurar evitar erros futuros passa por analisar com frieza e discernimento os passados.

07 junho 2013

Morto pelas ideias ...?

França está em estado de choque esta semana. Um estudante de esquerda, anti-fascista, morreu após uma agressão por um grupo de extrema-direita. A exploração política dispara e há quem diga que ele morreu pelas suas ideias, quase um Martin Luther King.

Ora bem, fui investigar e, ao que parece, foi assim: havia uma venda privada de roupa de marca bastante apreciada tanto pelos jovens da extrema-esquerda como da extrema-direita… Aí, dois grupos ter-se-ão cruzado e “naturalmente” provocado. A provocação teve como consequência uma pancadaria no exterior. Clement, que até era franzino, recebe um murro que o faz cair e bater com a cabeça num poste, o que provocou a sua morte.

Para lá de naturalmente ser a lamentar a morte e uma morte assim, passar este assunto para a esfera da “luta política” e das ideias é patético e pateta.


Foto estraída do "Le Monde"

20 março 2009

E o mal é ou não é banal?

A expressão “Banalização do mal”, “criada” por Hannah Arendt após assistir ao julgamento de Adolf Heichmann é muito facilmente citada. Eu mesmo não resisti a evocá-la no último texto a propósito do massacre de Winnenden. Coincide ainda com o julgamento do monstro de Amstetten, o tal que sequestrou e violou a filha durante 24 anos, e que também teve direito a esse carimbo.

Não me apercebi na altura em que li o trabalho da autora mas, ao olhar agora de novo para a expressão, parece-me algo infeliz ou imprecisa. Enquanto houver bem, haverá mal e o mal é muito frequentemente banal, no sentido de trivial; não é necessária ou habitualmente transcendente. Ou seja, a motivação para provocar mal raramente é excepcional ou grandiosa. Muitas vezes é até bem mesquinha e vulgar. E isso não é equivalente a banal? E é bem certo que a máquina nazi era tudo menos banal.

Hannah Arendt fica siderada porque esperava ver ódio na motivação dos assassinos e algum tipo de carga emocional. Quando um funcionário nazi diz friamente que executar uma ordem para carregar um comboio com judeus destinados a uma câmara de gás não é diferente de executar uma outra ordem qualquer, como mandar limpar a sala e parecendo acreditar no que diz, não podemos deixar de ficar estupefactos.

Este mal não é “quente”, mas sim “frio”. E aqui, sim, reside a particularidade e a monstruosidade. Por muito ou pouco condenável ou justificável que seja, fazer mal deve ser intencional. Assim, poderá ser avaliado, questionado e combatido. Provocar mal conscientemente mas sem intenção ou percepção de o fazer é… desumano ou demente.

Não presenciei, obviamente, esse nem a outros testumhos mas vi entrevistas gravadas a alguns indivíduos da mesma categoria. Não estou assim tão convencido dessa indiferença. A atitude de defesa de não pensar e de não questionar não é equivalente a pensar que não é nada.

No mal frio eu não acredito. Um malévolo frio ou é louco ou é desonesto, sendo ambas as posturas duas formas clássicas de reagir em tribunal perante uma acusação grave. No fim, pode-se especular eternamente sobre a motivação e a percepção do mal na perspectiva de quem o provoca, mas, no entanto, do lado de quem o sofre, a visão é bastante mais clara.
Correcção em 21.3.2009: O julgamente em causa não foi o de Nuremberga mas sim um especial em Israel para este senhor capturado posteriormente pelos israelitas. As minhas desculpas pela confusão...

16 setembro 2006

Esquerda, direita ou antes pelo contrário

Há 20-30 anos atrás, ser jovem e “ser do contra” era ser de esquerda. E sendo-o duma forma não necessariamente muito fundamentada. O Che Guevara era o herói generoso que tinha tentado mudar o mundo e morrido martirizado às mãos de broncos horrorosos.

Não está em causa o rigor desta perspectiva romântica, nem a avaliação do desfecho cubano desta história. Uma frase não sei de que origem diz: “Se aos 20 anos não és comunista, não tens coração; se aos 30 ainda és comunista, não tens inteligência”. Na altura, era “normal” ter coração.

Sendo “norma” o cabelo ser curto, “ser do contra” era ter o cabelo comprido. Se a geração acima achava que os comunistas não eram recomendáveis, “ser do contra” era ser de esquerda. E, já agora, da extrema mesmo porque os ortodoxos já estavam agarrados a um sistema visivelmente falhado. Essa irreverência, e contestação, tinha um pano de fundo, ingénuo claro, mas generoso e idealista.

E tudo isto vem a propósito de que agora está a ficar moda que ser “do contra” é ter a cabeça rapada, ser racista e xenófobo. Poderá não ser mais do que o espaço ainda possível de provocação? Será que esta é uma das poucas formas ainda disponíveis de chocar a “sociedade”? Não sei. Não sei se é só isso: querer chocar gratuitamente. Só faltaria uma nova frase: “Se aos 20 anos não és nazi, não tens personalidade....”.

Por muitas semelhanças que possam existir na questão de fundo, uma camisola com a imagem do Che Guevara não pode ser posta ao lado de outra com a imagem de Hitler... porra!!! (e para não pôr aqui um palavrão bem grosso...)

E é claro que esta “norma” tem excepções: "ter sido do contra" antes pela direita e sê-lo agora pela esquerda. No entanto, ambas são, politicamente, muito menos correctas...

27 janeiro 2006

Descontentamentos misturados

O que há de comum entre Manuel Alegre e Jean-Marie Le Pen?

Nas últimas eleições presidenciais francesas, Le Pen passou à segunda volta excluindo um candidato de um partido “oficial”, concretamente Leonel Jospin do Partido Socialista. No dia 22 de Janeiro Manuel Alegre não passou à segunda volta por uma unha negra e ultrapassou claramente o candidato oficial do Partido Socialista. Ambos se apresentaram como exteriores ao “sistema” partidário oficial de poder. Continuar com este paralelismo pode ser insultuoso para Manuel Alegre e para Portugal. Ainda bem que o voto de protesto português cai num poeta e não num xenófobo truculento e mal educado. Além de que continuo sem perceber como o PS foi incapaz de entender que Mário Soares era definitivamente do passado.

Por trás desta “revolta” do eleitorado estão razões diversas e é perigoso vê-las misturadas. Uma coisa é o protesto justo contra os que se governam, fingindo que nos governam. Contra os jobs dos boys. Contra os “jotinhas” promovidos a ministros desconhecendo que existe vida para lá dos aparelhos partidários. Contra os tráficos de influência. Contra o delapidar dos dinheiros públicos e por aí fora.

Outra coisa é o protesto pelo aumento da idade de reforma, contra o fim das carreiras automáticas e contra um conjunto de coisas aritmeticamente justificadas e necessárias para não hipotecar mais o futuro dos nossos filhos. Este segundo protesto não faz sentido. Não podemos insistir cegamente em termos sempre uma fatia crescente do bolo quando o bolo total, em vez de crescer, está a mingar.

Misturar estes dois protestos bloqueia a realização das acções necessárias e é extraordinariamente perigoso e fonte de perigosa deriva. Obviamente que, enquanto os políticos oficiais não nos convencerem da sua seriedade, os protestos m
isturar-se-ão.

No passado dia 23 de Janeiro passei a escassos quilómetros do campo de Bergen-Belsen. A temperatura ambiente era de -8ºC e recordei o enorme frio que senti quando o visitei, apesar de ter sido em Julho. Aquele espaço de chumbo foi só o limite, e acreditamos que não passível de repetição, da deriva que tomou conta da Europa depois da crise dos anos 30. É certamente abusivo evocar um campo de concentração nazi a propósito do resultado das eleições presidenciais portuguesas com. Relativamente às francesas e a Le Pen, já nem tanto…

O problema das derivas é que sabemos quando começam mas não sabemos quando nem como acabam.

13 outubro 2005

E ainda... Brel

Quando, há cerca de 12 anos, peguei em armas e bagagens para me instalar na Bélgica, para uma “comissão de serviço”de uns anos, esse país tinha, para mim, dois “B”s associados: Bruxelas e Brel.

Tendo-me instalado num meio principalmente flamengo, desde logo me surpreenderam algumas respostas à minha curiosidade sobre o significado de Brel para eles. Respostas evasivas. “Sim... Brel... pois... acho até que temos lá em casa um disco dele”. Não conseguia entender como, para a dimensão de Brel e o seu impacto na cultura do país, se podia falar dele como se de alguém datado, que tivesse tido um sucesso numa dada altura, e de quem ficou um álbum no armário.

Polémico sim, de gostar ou de detestar, ou, quando muito, de desconhecer... mas nunca de referir superficialmente. Posteriormente aprendi que a separação, sem coragem para divórcio consumado, entre Brel e alguns flamengos, se deveu ao corrosivo “Les Flamingants, chanson comique” do “Les Marquises”. Depois da anterior brincadeira sobre uma certa “limitação de vistas” do “Les Flamandes”, Brel não teve meias-palavras para arrasar um espírito mesquinho e hipócrita daqueles que eram “nazis durante as guerras e muito católicos no intervalo delas”.

A resposta a esta provocação foi o tema ter sido censurado pela rádio pública flamenga e, muitos flamengos, terem escondido os álbuns lá para a parte de trás do armário... sem coragem para os deitar fora, nem para manifestar frontalmente o seu desagrado.

Provaram que Brel tinha razão.

19 maio 2005

Ridículas paradas

Ao ver a fotografia de Putin e Bush, todos bonitos, a avançar e a acenar no automóvel clássico, pensei que estariam a inaugurar um parque temático. Mas não. Fazia parte das comemorações do fim da II Guerra Mundial. Nestas comemorações há alguma coisa desajustada.

Independentemente de na sua origem directa, ter estado uma figura perigosa e sinistra, a II Guerra Mundial não foi uma guerra dos bons contra os maus. A Rússia? Foi dos maus no início e dos bons no fim? Como outras, esta guerra foi “apenas” um conflito de interesses ocorrido numa altura em que os exércitos eram os argumentos geo-estratégicos de primeira linha. Obviamente que nem é necessário perguntarem-me qual o “interesse” que eu prefiro.

Também de referir que os EUA não entrarem na guerra para ajudar a Europa, nem por princípios éticos ou morais. Entraram em defesa dos seus próprios interesses políticos e económicos. Como prenda, no final, receberam uma mina de ouro sem fundo. Na conferência de Breton Woods, ficou decidido que a moeda mundial de referência seria o dólar americano e que eles poderiam imprimir tantos quantos quisessem. Durou formalmente até 1973.

Parece-me patético que 60 anos depois ainda se fale de vitórias. Que se ignore que houve barbárie de ambos os lados e que, só por exemplo, o bombardeamento de alvos exclusivamente civis para desmoralizar o adversário foi Roterdão e também foi Colónia; foi Londres e também foi Dresden.

Mais grave. Parece-me ainda não esclarecido o que foi colectivamente o nazismo. Não é um louco sozinho que arrasta um país instruído. Durante anos funcionou uma grande máquina tenebrosa. Essa máquina teve a adesão activa, efciente e dedicada de muita e muita gente da Europa das luzes.

É assustador que 60 anos depois seja necessário legislar para proibir partidos xenófobos e manifestações neo-nazis. E que essas simpatias não se resumam só a jovens zaragateiros. Não se pode dizer que seja por falta de informação. Quanto mais não seja pelo canal, deformado é certo, dos filmes, toda a gente viu campos de concentração e a sua brutalidade insana.

Visitei Bergen-Belsen. Pouco há de material. Somente um ar de chumbo que nos sufoca com milhentas interrogações.

Por tudo isto, estas comemorações deviam centrar-se nas interrogações que permanecem e não em ridículas paradas.