Por estes dias tem sido notícia e polémica a contabilidade dos presos políticos de antes e depois do 25 de abril. O debate é temperado com argumentos sobre como se integra na comparação a diferença na duração entre 48 anos e 2 anos e em que medida os antecedentes e respetiva tensão acumulada atenuam a importância do fenómeno. São ponderações e contabilidades pueris.
A principal diferença que vejo é que relativamente ao Estado
Novo é praticamente consensual terem existido presos políticos, torturas e
outras barbaridades, sendo raríssimas as vozes que as desvalorizam ou tentam
apagar. Quanto ao pós 25 de Abril, as leituras são muito mais relativizadas. É
indiscutível que em 1974-75 houve atropelos graves e sistemáticos ao Estado de
Direito e aos Direitos Humanos, devidamente promovidas e validades por altas
hierarquias em funções. Não foram esporádicas escaramuças em contexto de
excitações revolucionárias. Começaram em setembro de 74, cinco bons meses
depois da revolução e não se autoextinguiram por normalização dos seus
protagonistas, mas por um contragolpe em novembro de 75.
O facto de terem existido é grave e as tentativas de
branqueamento por quem gosta de hastear a bandeira da liberdade e da democracia
são imposturas hipócritas. Aqueles que ainda guardam respeito e admiração por
figuras como Otelo Saraiva de Carvalho e o seu projeto de encher o Campo
Pequeno de contrarrevolucionários, podem manter as suas convicções, não serão
presos. Agora, assumam que não são democratas nem defensores da liberdade. Os
do outro lado são mais claros nas suas opções e intenções. Procurar comparar as
conta-correntes de Salazar e de Otelo é de interesse secundário. O mais
importante é assumir que existiram e não devem voltar a existir.

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