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06 junho 2026

Os refugiados eternos

No processo de Independência das colónias portugueses de África, cerca de 500 mil portugueses regressarem à metrópole. Ficaram conhecidos por “retornados”. Foi criado um organismo designado IARN (Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais) para apoiar esses refugiados à chegada, já que nem todos viriam com diamantes cosidos nas bainhas das calças.

Independente das justiças e injustiças ocorridas na gestão desse processo e se a duração foi curta ou excessiva, em 1975 era consensual a necessidade de um mecanismo de apoio. Se hoje ainda houvesse netos de retornados a viverem em tendas, em campos de campismo, subsidiados por um ainda existente IARN, isso já seria muito difícil de entender e justificar.

A eternização de gerações de refugiados por longas décadas é obviamente um absurdo, fruto de uma lógica onde esses seres humanos são ferramentas e vítimas de uma agenda que não é a dos seus interesses humanos. Existem dois bons exemplos dessas situações atualmente. A famosa dos palestinianos, que dura desde a independência de Israel de1948, onde alguns já estarão para lá de netos… A outra, menos conhecida, é a dos Saarauis, “refugiados” ainda presos em Tindouf, na Argélia desde 1975, data da invasão do Saara Ocidental por Marrocos. Não há aqui espaço para desenvolver os comos e porquês destes absurdos, apenas referir que algumas razões haverá para esta pobre gente viver miseravelmente e após tanto tempo ainda não estar de alguma forma integrada.

 

14 maio 2026

A escravatura, as desculpas e outras contas

Por estes lados, por vezes vemos o mundo com óculos” made in USA”, que nem sempre proporcionam uma visão suficiente alargada da realidade. Um exemplo é o caso da escravatura. Para eles será sinónimo do tráfico transatlântico de África para o continente americano. Como sabe facilmente quem quiser saber, a escravatura foi uma realidade muito disseminada no passado, remontando a tempos em que ainda não havia navios a atravessarem o Atlântico.

No século VII, no tempo de Maomé, era banal e perfeitamente aceitável naquela sociedade. Daí que o Corão, na sua dimensão regulamentar, refira direitos e obrigações de um muçulmano face aos seus escravos. Quando o Ocidente vem decretar ser proibido algo que uma leitura estrita do livro sagrado considera permitido, a rejeição é grande. Dentro do negativo das colonizações do século XIX de África, elas tiveram um papel decisivo no combate ao fenómeno nesse continente.

Aqui por perto, no Mediterrâneo e na costa atlântica, muitas ações de saque e de captura de escravos foram realizadas pelos corsários otomanos a partir de principalmente Argel, Tunes e Rabat, ações terminadas em meados do século XIX… com a colonização francesa do Norte de África. São referidas mais de um milhão de capturas, menos certamente do que os números transatlânticos, mas de todo não irrelevante. Miguel Cervantes por isso passou, em Argel,

Uma vez que já atravessamos a maré dos pedidos de desculpa, se quer avançar para a parte das compensações e o assunto ganhou foro global na ONU, sugiro que a Turquia faça também a sua parte, começando pelas desculpas.  O saque de Porto Santo em 1617, por exemplo, foi terrível. Depois dessa fase, podemos eventualmente passar à fase das compensações, mas sempre numa perspetiva de equidade… Obviamente que nunca na vida a Turquia irá apresentar um mínimo esboço de pedido de desculpas pelas ações dos seus corsários no passado e, se calhar, terá razão.

 

15 novembro 2025

Podia ter sido diferente


Por estes dias escutei num dos podcasts do Observador a espantosa vida de Jorge Jardim. Dava um filme de fazer inveja a James Bond, ainda por cima tratando-se de realidade e não de ficção. O homem tinha iniciativa, coragem, habilidade, uma capacidade enorme de viajar, sobrevoar e superar desafios, perigos e dificuldades e, se calhar, alguma falta de “bom-senso”. Ter sobrevivido a tantas peripécias foi questão não só de sorte, mas também.

Uma grande curiosidade é a sua proximidade com Salazar, quando ideologias à parte, a distância de carácter devia ser enorme entre quem corria as quatro partidas do mundo, de todas as formas e feitios, e quem voou uma única vez entre Lisboa e Porto em 1966, dois anos antes de cair da cadeira, não gostou, não repetiu e ir além de Badajoz não estaria ao nível de transpor o Adamastor, mas quase.

Já nos anos 70, Jardim, homem do regime radicado em Moçambique, entende que a guerra colonial não é solução e começa a negociar por contra própria em Lusaca um acordo de independência para a colónia, equilibrado, procurando lugar para todos. Quando Lisboa soube, estupidamente não aprovou…

Veio o 25 de Abril e o novo poder entregou à Frelimo tudo de mão beijada sem condições, nem obrigações e deu no que deu, outro erro de Lisboa. Um padrão infelizmente frequente nas descolonizações, quando os movimentos de libertação são reconhecidos como legítimos e únicos representantes do “povo”, sem pedir opinião ao povo, nem nesse momento, nem depois.

Este ano comemoraram-se 50 anos dessas independências e, mais uma vez, lá vieram os discursos sobre a responsabilidade da herança colonial nas “dificuldades” atuais. Se seguirem a escola do Brasil, daqui a 50 anos Portugal ainda continuará a arcar com a culpa pela miséria e subdesenvolvimento. Há uns tempos Lula da Silva referia que o facto de a primeira universidade brasileira ter sido criada apenas em 1920 (facto contestável) era uma consequência da colonização portuguesa. Considerando que o seu país ficou independente em 1822, esta influência nefasta projetada por 100 anos, parece coisa de feitiço ou magia-negra, que desconhecia ser assim tão poderosa nestas latitudes.

Voltando às nossas colónias africanas, seja em 1973, seja em 1975, as ações e o resultado podia ter sido diferente.

Podemos certamente criticar o racismo e as desigualdades sociais no tempo das colónias. Devemos também reconhecer que o resultado das independências está muito longe de ter constituído uma melhoria das condições de vida para as populações. Voltando ao Eng Jardim e a Moçambique, ver imagens do estado atual do seu Grande Hotel da Beira, é representativo da evolução do país nestes últimos 50 anos.

30 novembro 2024

As frentes de libertação

A tragédia  que estamos a assistir em Moçambique, tem por vilão uma entidade intitulada “frente de libertação”. Este movimento e outros análogos, protagonizaram uma luta pela emancipação de povos oprimidos, evocando projetos de liberdade e de democracia. Poucos foram, no entanto, os que a seguir cumpriram minimamente as promessas e muito especialmente quanto à democracia.

Depois de ganharam a legitimidade de representarem o povo a libertar, adotaram o princípio do “ganhamos, é nosso”. Nos casos de não ter sido possível encontrar unicidade nessa representatividade revolucionária, seguiu-se guerra civil pela primazia “libertadora”. Nestes processos houve, é certo, influencias externas cujo objetivo era basicamente que as populações “mudassem de dono”. Pode ter havido alguma precipitação nos processos de independência, mas o resultado final é muito longe de brilhante e positivo para as populações objeto dessa “libertação”.

Há uma parte disto que é história, que não podemos mudar, mas talvez aprender. A benevolência ingénua com que os “colonizadores” olharam para o que se prenunciava e, apesar disso, daí lavaram as mãos: Querem autodeterminação? Levem-na!

Hoje a discussão não é essa, mas a pobreza do governo de muitas frentes Ex libertadoras é um problema para as suas populações, para a humanidade em geral e para a Europa em particular, onde uma parte da opinião pública ainda se crê devedora de pecados passados, passíveis de expiação recolhendo massivamente as populações desfavorecidas. Não acredito ser isso a preferência deles, nem o melhor caminho para a humanidade, nem para o desenvolvimento desses países. Entretanto, continuamos a lavar as mãos face às barbaridades, não queremos ser acusados de neocolonialismo.


11 fevereiro 2021

Importações e contrafações ideológicas


 Os States são um grande país que influencia meio mundo (mais de 3/4?) de várias formas e feitios e não apenas pelos jeans, filmes de cowboys e a coca-cola. Inevitavelmente há inúmeros produtos e ideias que são importados e adaptados, preocupando-se eles muito pouco com o tal crime de apropriação cultural, pelo contrário, até o fomentam.

Uma ideia made in USA que foi importada para o mundo ocidental em geral com tradução deficiente é o mea culpa ad-eternum pela escravatura e tráfico associado e o correspondente crédito infinito que tais crimes atestam à comunidade de cor (mesmo estas expressões têm hoje de ser usadas com pinças). Vamos por partes.

A escravatura não é invenção nem exclusivo ocidental, como os dois livros acima representados, que li recentemente bem documentam. Se a escala do tráfico Atlântico foi enorme, o equivalente no Médio Oriente e no Norte de África, só para falar de realidades mais próximas, não foi quantitativamente irrelevante nem diferente no princípio nem na brutalidade.

A partir do século XIX a Europa e especialmente a Inglaterra desenvolve um esforço enorme para acabar com a escravidão e respetivo tráfico no Mundo. Sim, com a máquina a vapor do lado deles o fim da mão de obra escrava era do seu interesse económico, mas independentemente da motivação, a ação foi essa.

O tráfico de escravos em África só acabou após a colonização europeia em larga escala do continente, durante o século XIX. Sem menorizar todos os males desse processo, neste campo particular foi decisivo. Portanto, por motivações e meios questionáveis, o facto é que a Europa está há dois séculos a lutar contra a escravidão e a erradicá-la dos territórios por ela controlada.

Passemos aos States. Foram os grandes “beneficiários” do tráfico Atlântico, mas também no século XIX o poder central aboliu a escravatura, de forma veemente e decidida, provocando uma séria guerra civil (1861-1865). O que há a acrescentar sobre isto é que os Estados do Sul, perderam a guerra, foram vencidos, mas não convencidos. Após a retirada das forças do Norte, arranjaram forma de contornar a “igualdade” constitucional formal e implementar uma coisa muito feia, que se chama segregação racial, grosso modo o equivalente do apartheid sul-africano. Este processo vergonhoso entrou pelo século XX, muito apoiado pela comunidade branca pobre e rural, que aí via uma oportunidade de promoção automática (a tal supremacia branca). Já não é escravatura, mas há uma continuidade na recusa de conceder plenos direitos aos descendentes de africanos, misturando-se os dois conceitos na mesma acusação.

As lutas dos negros (e de alguns brancos) pela igualdade nos EUA (especialmente no Sul) no século XX têm todo o mérito e razão de ser. Bravo aos corajosos.

Agora, importar esse contexto para o Ocidente em geral e em especial para a Europa que há dois séculos luta eficazmente, erradicando o flagelo de onde pode… é uma contrafação, ou, digamos, um “lost in translation”!

31 janeiro 2020

Essa coisa do colonialismo e racismo e os concursos de cuspidela


Recordo-me de, ao visitar o museu do Louvre pela primeira vez, ter tentado imaginar qual seria o estado de espírito de um egípcio ao ver ali a enorme quantidade de património trazido (roubado?) do seu país… Recordo-me também de, ao ter sabido dos riscos que correu o museu do Cairo aquando da famosa “primavera” de 2010, ter pensado… ainda bem que há tesouros culturais egípcios guardados em local seguro.

O tema do património deslocado não se resume a questões coloniais. Existe desde que na História há vencedores e vencidos e, inclusive, vendedores e compradores. Um tema passível de discussão, séria.

Um personagem como a deputada do Livre, famosa pela forma agressiva e pouco esclarecida como grita por “racismo e colonialismo” sem se preocupar demasiado em saber do que fala, veja-se a fotografia junto do quadro representativo da chegada de Vasco da Gama à India, vir lançar este tema em âmbito de discussão de orçamento de Estado é uma boa forma matar a discussão… Não sou racista, mas de tanto ouvir acusações generalizadas e cegas, começo a não ter pachorra para estes discursos, que já merecem um: “Porque não te calas?!”. Acusações mal fundamentadas, temperadas com fortes doses de injustificável e desnecessárias belicosidade e arrogância são um descrédito para a causa séria e uma bênção para o verdadeiro racismo.

O que André Ventura disse… é incorreto… mas não é sexista, nem racista. É uma resposta xenófoba a um irritante despropósito. E a discussão séria acaba antes de começar, até porque estes intervenientes, ungidos de uma suposta sapiência inatacável e inquestionável, não parecem verdadeiramente interessados em ouvir e discutir o que quer que seja… é mais “tipo” concurso de cuspidela!

29 janeiro 2020

O dinheiro não tem cheiro



Há quem diga que sim, há quem diga que não, mas poucos serão os que apuram o olfato quando as notas passam à frente do nariz… e poucos se preocuparam com o “eventual” cheiro do dinheiro de Isabel dos Santos. Agora, com escândalo declarado, vemos uma precipitação que recorda a imagem dos ratos a fugirem do navio… Veremos no futuro, caso apareçam por aí outras notas com perfume duvidoso, como estará a sensibilidade dos narizes.

Para lá do que tudo o que agora se diz e agora se sabe, para lá do ridículo deste agora ser agora, há outro ridículo, que é o carater único e excecional atribuído ao fenómeno, como se este súbito cordão sanitário desse uma boa consciência, se bem que tardia, e mais vale tarde do que nunca…

Não! O que a família dos Santos fez ao longo de décadas em Angola, não é único daquela família nem daquele país. Não faltam por esse mundo fora, belas capitais europeias incluídas, transações e negócios relevantes com notas de cheiro suspeito.

Por outro lado, e mais importante, escala e contextos diversos, compras com dinheiro derivado de governação desonesta… não faltam, mesmo com origem neste nosso querido país. Vamo-nos escandalizar com isso também…? É possível?

24 junho 2019

Coisas de Raças !?


Aparentemente foi decidido que nos próximos Censos não será incluída uma questão sobre a origem étnico racial da população. Aqueles que são contra a discriminação racista estão revoltados. Eu tenho muita dificuldade em compartimentar a humanidade em raças e julgava mesmo que no século XXI essa tentativa de divisão, sem base científica, já não deveria sequer existir. Atentemos à segmentação sugerida:

— Branco/Português branco/De origem europeia
— Negro/Português negro/Afro-descendente/De origem africana
— Asiático/Português de origem asiática/De origem asiática
— Cigano/Português cigano/Roma.

Provavelmente que alguns/muitos não teriam grande dificuldade em escolher onde colocar a cruzinha, mas… os de origem mista, de pai negro vindo de Angola e mãe branca nascida em Bragança? E os berberes do norte de África que podem ter a pele mais branca do que a maioria dos portugueses de gema? E a Ásia, onde começa – um libanês não será mais próximo da tal dita suposta raça europeia do que da chinesa? E os índios e seus descendentes? E desde quando cigano é uma raça – não será antes uma cultura/modelo social? 

Desculpem lá, mas esta coisa de querer saber quantos brancos, pretos e amarelos há por aqui, esquecendo os vermelhos e acrescentando a cultura cigana porque fica bem, parece-me caricatural, redutor e retrógrado. Tentar segmentar a humanidade em função do pantone da pele, diâmetro do crânio ou grossura do nariz é… o princípio do racismo.

22 janeiro 2019

Distribuição da riqueza


Ontem foi divulgado um relatório da Oxfam sobre as gritantes desigualdades neste mundo e apelando ao que pode e deve ser feito para combater a pobreza. Pode ser visto aqui.

Há uma afirmação forte que faz refletir: Se os 1% mais ricos pagassem um imposto adicional de 0,5% sobre a sua riqueza, isso seria suficiente para proporcionar cuidados de saúde que salvariam a vida 3,3 milhões de pessoas e educar 262 milhões de crianças que não vão à escola. 


À primeira vista parece potencialmente fácil. Apenas 0,5% será muito pouco e o retorno enorme. Uma segunda vista evidencia que não é assim tão fácil. Imaginemos que até se consegue implementar essa contribuição. Como, na prática mesma prática, seriam utilizados esses fundos. Especialmente nos países em que isso é mesmo necessário, quem e como iria aplicar honesta e eficazmente esses recursos? Seriam mesmo aplicados na saúde de 3,3 milhões e na educação de 262 milhões de crianças?

A Oxfam defende que é necessário ir buscar mais riqueza aos privados para criar serviços públicos para os pobres. Talvez sim, mas infelizmente essa é uma questão secundária. A questão principal não está na falta de recursos. Nos países em que há mesmo miséria, uma enorme percentagem dos recursos disponíveis para esses serviços públicos é mal utilizada ou desviada para outras opções, merecedoras de maior atenção e prioritárias para quem rouba/governa. Teoricamente, os 0,5% seriam de alguma forma positivos, mas enquanto não houver boa e honesta governança as contas não são de forma nenhuma assim lineares.

30 junho 2018

Ajudando o populismo

Quando se fala em migrantes e na crise associada é fundamental fazer a análise em distintos níveis. No imediato, se estão vidas em risco no mar, é desumano deixá-los morrer à fome ou naufragar. Sobre este ponto não há/não deveria haver dúvidas. Ponto final.

Uma outra dimensão é admitir estruturalmente que a Europa tem obrigação de acolher todos aqueles que para cá queiram vir. Ignorando considerações interesseiras sobre a “necessidade” de importar matéria humana, como quem importa petróleo ou óleo de soja, a resposta é não e por três razões simples.

1 – Não é justo esvaziar o terceiro mundo de uma parte significativa dos seus recursos humanos, sob pena de comprometer ainda mais o seu desenvolvimento.

2- Muitos desses migrantes terão dificuldade em se integrarem num meio diferente do seu e serão infelizes longe de “casa”. Prefeririam viver dignamente aí.

3. A Europa não tem capacidade de integração ilimitada.

A postura de querer recolher “todos”, como quem leva para casa um gatinho encontrado perdido na rua, é infantil! Estas e outras boas intenções servem para potenciar o tráfego, alimentar as máfias associadas e amplificar expetativas nos países de origem.

Uma boa parte da população europeia, que consegue ver para lá desse irrealismo ingénuo, a escolher entre os que dizem “venham todos” e os populistas que dizem “nem mais um”, face a essas duas únicas opções… escolhe o populismo.

A solução não passa por derrubar os muros, passa por não haver necessidade deles.

21 maio 2018

O consenso que falta?


É consensual que a Líbia sem Khadafi ficou e permanecerá durante bastante tempo ingovernável. É consensual que o Iraque sem Saddam Hussei ficou ingovernável e veremos até quando. É consensual que Bachar Al Assad na Síria está muito longe de cumprir os mínimos em termos de respeito pelos direitos humanos e é também consensual que, caindo, iremos ter outro país ingovernável. Só para compor um pouco mais, e sem encerrar o tema, podemos acrescentar a este ramalhete Mohamed Abdelaziz da Mauritânia e Omar al-Bachir do Sudão.

Podemos recordar o consenso de que a colonização não é alternativa, não era justificável nem aceitável, apesar de… apesar do pequeno detalhe que as pessoas (não as ideias), as Pessoas, Homem, Mulheres e Crianças de muitos países viveriam hoje melhor, com mais qualidade de vida, edução e cuidados em geral sob um regime colonial do que no seu atual. Falo das Pessoas, não das Ideias.

No meio de tanto consenso fica, portanto, uma questão em aberto: como pode ser? Se decapitar o ditador não resolve, se não é aceitável deixá-lo ficar a praticar barbaridades, se a administração por terceiros não é correta, qual a solução que permita viver Dignamente as Pessoas?

Dizem que é a democracia. Pelo princípio sim, mas na prática não chega registar partidos e contar votos, enquanto não houver consistência cívica suficiente. Como se chega lá: com tempo, esforço, sensibilização, responsabilização, coisas que não estão ao alcance de um ditador nem de uma democracia imberbe. E mais não digo…

17 novembro 2017

É também racismo

E se, em vez de andarmos por aí a discutir a responsabilidade pelo que aconteceu há 500 anos ou há 50, nos mobilizássemos e denunciássemos as desgraças que acontecem hoje e continuarão amanhã?

Leio na imprensa que o único hospital público de Brazzaville, capital do Congo, fechou por falta de meios. Quem precisar e puder que se trate numa clínica privada. Isto não parece escandalizar muita gente, nem apelar a responsabilizar quem quer que seja.

No entanto, quando uns criminosos embarcam nas costas da Líbia uns migrantes, congoleses ou outros, sem as mínimas condições de segurança, com alta probabilidade de naufrágio e a desgraça acontece, a Europa acha-se culpada ...

Este aceitar a miséria e o crime, por omissão e negligencia, relativizar o nepotismo e a corrupção que tantos governos praticam contra os seus é uma forma de racismo. Chamemos-lhe neo-racismo, usando um prefixo bem na moda. O racismo clássico incluía uma visão de superioridade dominadora: já que vocês são limitados e incapazes, mandamos nós.

O neorracismo atual presume uma natural incapacidade de bom governo. Eles têm essa limitação e não há nada a fazer, nem a exigir. Os cidadãos que sofrem e morrem são vítimas “inevitáveis” da incapacidade e limitações da raça dos seus líderes. É uma fatalidade, vista com alguma superioridade natural e correspondente condescendência.

Haverá quem diga que uma boa parte da culpa não é dos líderes incompetentes e corrompidos, mas sim das influências externas que os manipulam e corrompem. Mais do mesmo… A culpa não é assim tanto deles, já que a sua “raça” isso proporciona.

Pensemos, só para exemplo, no Freeport e nos submarinos. A culpa maior não é dos nossos governantes, ao que parece, corrompidos. A culpa principal será então dos ingleses e dos alemães que os corromperam… certo?

19 setembro 2017

De spin a screwed


Não tenho nenhuma simpatia pelas máquinas de propaganda, que agora se chamam de “spin”. É um nome mais chique, mais “in”, usam ferramentas mais sofisticadas, mas os objetivos basicamente são os mesmos: influenciar e moldar a perceção da opinião pública. Podem argumentar tratar-se simplesmente de “realçar” uma perspetiva … mas a prática é muitas vezes pura e simplesmente enganar descaradamente. Enganar é feio e muito principalmente quando os mandantes são entidades públicas e governamentais, com responsabilidades éticas acrescidas face ao comum dos mortais. Por outro lado, em geral, há uma relação entre a necessidade de propaganda e o autoritarismo dos regimes. Quanto mais feios são, de mais maquilhagem necessitam.

Um destes dias a Bell Pottinger, multinacional de “Relações Públicas” e “Gestão da Reputação” baseada em Londres estourou e faliu. Criada em 1987 por Sir Bell, o spin doctor favorito de Margaret Thatcher, eram bons e especiais. Corriam o risco de atender clientes delicados, como a fundação Pinochet, a primeira dama da Síria, o ditador da Bielorrússia, os governos do Egito e do Bahrain, etc. Que fizeram eles, então? Aceitaram e executaram uma encomenda, com origem ligada ao poder na África do Sul, cujo objetivo era provocar agitação social, explorando as questões raciais. Isso mesmo... aumentar a tensão racial, na África do Sul e pago por próximos do poder em exercício. Mesmo isso!

Felizmente, isto passa-se no Reino Unido, onde a diferença entre os princípios e a prática não é tão grande como noutras paragens e a associação de empresas do sector baniu-os, provocando a sua queda, merecida. De tanto fazerem “spin”, acabaram “screwed”. In portuguese: de tanto enrolaram, acabaram enroscados (ou uma palavra mais feia).

Palpita-me que não será assim um caso tão único e dá para ter uma ideia do que (não) vai acontecendo por este mundo, graças à propaganda e à manipulação. A solução? Ser prudente, não acreditar em tudo à primeira e, sobretudo, diversificar as fontes (fica o problema de muitas vezes, sem saber, estarmos a ouvir apenas vários ecos da mesma fonte).

21 agosto 2017

Je suis Altice

Não sou cliente da PT, nem pretendo ser, e não tenho nenhuma simpatia ou admiração especial pela Altice. No entanto, como cidadão, sinto vergonha pela triste figura que o nosso governo está a fazer, no assédio à empresa francesa, protagonizado pelo próprio Primeiro-Ministro.

A PT enquanto pública, ou “para pública”, foi um rio de dinheiro, aproveitado e abusado por muitos famosos da praça. No meio desse saque, o negócio ruinoso com o Brasil destruiu o valor da empresa, sempre sob o alto patrocínio, interesse e influência de quem governava. Sobre as responsabilidades neste saque aparentemente não se interessam os políticos, apenas os juízes.

Subitamente, a Altice e a PT, passaram a ser coisa pestilenta. Nos dias seguintes à tragédia de Pedrogão, o PM assume e repete cegamente o comunicado desresponsabilizador do SIRESP, que, supostamente, não tinha falhado; agora decretou que o colapso do sistema foi devido aos cabos aéreos da PT, pelos vistos subcontratado do consórcio (e gostava de saber se nesta cadeia alguém exigiu contratualmente cabos enterrados). Amanhã, se a Altice desistir de comprar a TVI, voltamos à primeira forma? É claro como água que foi esta aquisição que irritou o PS, a ponto de vermos um PM fazer figuras terceiro-mundistas. Em que continente vivemos?

Sobre o Siresp, só fica bem quem não esteve perto. Hoje temos um sistema caro, obsoleto e frágil. Já que o PM tem um amigo bom a renegociar coisas, e até conhecedor deste dossier, a solução é resiliar e contratar uma prestação de serviços a profissionais, deixando de brincar a infraestruturas de comunicações dedicadas que falham ao primeiro aperto (não apenas quando os cabos aéreos ardem).

20 fevereiro 2017

E a Sra Le Pen agradece


Emmanuel Macron, o candidato da esquerda às próximas eleições francesas foi à Argélia, antiga colónia, e achou por bem afirmar que a colonização constituiu um crime contra a humanidade. Não sei se acreditará mesmo no que disse ou não; os políticos têm por hábito dizer o que acham por bem ser dito.

Se a história da humanidade está cheia de crimes e as guerras por si, para mim, serão todas criminosas, independentemente das causas e motivações, essa colagem direta da etiqueta é abusiva. Devo dizer que, como português, agradeço bastante a colonização que os Romanos por cá fizeram.

Se falarmos de África e de tempos mais recentes, poder-se-ia questionar se as lutas foram mesmo pela libertação ou apenas pela mudança da tutela e se, no pós-independência, há mais ou menos crimes contra a humanidade do que antes, mas aí estaríamos a fugir à discussão do princípio.

Citando o que alguém disse no “Le Point”, em outubro passado: ”… que a colonização na Argélia tinha trazido a tortura, mas também o nascimento de um Estado, a criação de riquezas e de uma classe média. Houve elementos de civilização e elementos de barbárie”. Quem afirmou isto, bastante razoável e equilibrado? O Sr Macron, o mesmo!!!

À sombra da falta de razoabilidade, incoerência e oportunismo descarado destes senhores, cresce a Sra Le Pen. Depois, se ela ganhar… podem organizar manifs.


Foto do France24

26 outubro 2016

TPI e Gâmbia

Nas imagens recorrentes dos migrantes africanos mortos e resgatados já se entendeu que nem todos são refugiados sírios, há alguns de cor escura (será politicamente correto dizer assim?). Uma parte significativa desses vêm da Gâmbia, um pequeno país de 2 milhões de habitantes, situado na costa ocidental de África, encaixado no Senegal.

República tornada islâmica, governado desde 1994 por Yahya Jammeh, após golpe de estado, é um país onde é muito perigoso ser jornalista. Ser oposição e manifestar dá direito a ser preso e estar preso não é nada saudável, dado que a detenção provoca frequentemente a morte. Jammeh é um ditador perigosamente ridículo e, evidentemente, os indicadores de desenvolvimento não são brilhantes. Será de estranhar que muitos dos seus habitantes queiram fugir dali?

Recentemente o país anunciou a sua saída do TPI (Tribunal Penal Internacional), por entender que este apenas persegue dirigentes africanos. Por exemplo, Jammeh pediu que o TPI abrisse um processo à União Europeia por causa dos migrantes mortos no Mediterrâneo e essa pretensão não foi satisfeita!

Tornar a Gâmbia um país “decente”, de onde as pessoas não queiram fugir a todo o custo, correndo riscos enormes não é uma opção para o senhor. A culpa é e há-de ser sempre dos colonizadores. Atendendo a que os portugueses foram os primeiros europeus a pôr os pés por ali, ainda nos vai chegar também fatura.


Foto extraída do site do "The Telegraph"

07 setembro 2016

Isto sim, é um golpe

O Gabão é um país na costa ocidental africana, ali logo acima de Angola, relativamente pequeno em população, menos de 2 milhões, e bastante rico em petróleo. Liderado desde 2009 por Ali Bongo, filho do presidente histórico Omar Bongo, ainda recentemente me parecia ser um dos poucos países na zona com alguma visão estratégica e vontade de a implementar, conforme o documento com a capa acima reproduzida expunha com alguma consistência e abrangência.

Houve eleições presidenciais em 27 de agosto passado. Quando faltava apenas escrutinar os votos da província do Alto Ogooué, o candidato da oposição, Jean Ping, tinha um avanço de 60 000 votos sobre o candidato presidente em exercício, Ali Bongo. Ora bem, os resultados dessa província foram uma taxa de participação de 99,93% e mais 95% dos votos a favor de Ali Bongo, que assim recupera e ultrapassa Jean Ping por cerca de 5500 votos.

Entretanto o país está a ferro e fogo, a comunidade internacional apela à calma, esta notícia do Le Monde aqui é de um cinismo “remarquable” e pode-se sempre comparar com esta aqui do Mondeafrique

16 julho 2016

Porque não acaba

Os avanços militares contra o designado Estado Islâmico na Síria e no Iraque parecem sugerir que o apogeu desta organização ficou para trás e ser agora uma questão de relativamente pouco tempo até essa barbaridade passar a ser passado.

Poderá ser verdade, concretamente para este rebento do fundamentalismo islâmico, mas as sementes lá estando, é outra questão de tempo até vermos novo protagonista. Donde vêm essas sementes e quem as rega? Para lá de algumas particularidades na génese do Islão, a sua visão hegemónica e de superioridade face às outras religiões do livro, o registo bélico da fase de Medina e a concentração da liderança religiosa e temporal na mesma figura, particularidades que podiam ter sido resolvidas com o tempo, é necessário ir ver mais perto, a 100 anos atrás.

No final da Grande Guerra de 14-18, o império otomano, herdeiro dos califados históricos, está de rastos e cai. As razões da sua decadência são tema para muitos estudos, questionando-se nomeadamente qual a influência da religião nesse declínio. Kemal Ataturk irá fundar uma Turquia moderna, laica, entendendo que o futuro passa pela separação da religião da política.

No mundo muçulmano em geral este fim de ciclo e o desaparecimento do califa é sentido como uma perda e uma grande desilusão. O que é correu mal? Algumas vozes, principalmente no Egito, vão proclamar que se na “origem” foram poderosos e agora enfraqueceram, isso aconteceu por se terem afastado dos fundamentos religiosos. A solução é o regresso às origens: o salafismo. Tudo que é “influência ocidental” é mau. É necessário islamizar o individuo, a família, a sociedade, o país, o mundo; se for necessário lutar, lute-se; se essa luta tiver que ser violenta, seja; se for preciso morrer nessa luta, isso é uma obrigação e uma honra. Esta cartilha criada nos anos 20 está por trás de quase todo o ativismo político islâmico atual, interpretado de forma mais “hard” ou mais “soft”, conforme o contexto.

Estes salafistas vão estar inicialmente aliados aos independentistas “progressistas” face ao colonizador, inimigo comum. Após as independências o casamento de conveniência desfaz-se, porque as conceções de sociedade dos dois são incompatíveis.

O salafismo ativista vai encontrar terreno fértil nas desilusões do pós-independência, a partir da década de 80. De fato, os regimes no poder falham as expetativas de desenvolvimento e de bem-estar que a expulsão dos colonizadores prometia. As sementes no terreno fértil serão regadas pelas monarquias do golgo pérsico, substancialmente enriquecidas após o choque petrolífero da década de 70. Lideradas nessa fase pela Arábia Saudita, guardiã dos principais locais santos e seguidora de uma versão do islão fechada e intolerante, encontrarão assim uma forma de expandir e aumentar a sua influência no mundo muçulmano. As chamadas “Primaveras Árabes” e, principalmente, os seus desfechos devem ser lidos neste enquadramento.

Não afirmo que os petrodólares pagaram diretamente as kalashnikov que massacram em nome do Islão. É claro, no entanto, pelo menos no norte de África, que a radicalização dos jovens, muitos deles agora a lutar na Síria e amanhã sabe-se lá onde, tem a marca das escolas, mesquitas e associações patrocinadas pelo “golfo”. É muito importante realçar que não estão em causa movimentos pontuais que nascem e morrem isoladamente. Há um processo de base, estruturado e com um longo histórico.

Enquanto houver terreno fértil, sementes e irrigação, os rebentos continuarão a brotar.
 

26 junho 2015

O que falta?

40 anos após a independência das nossas ex-colónias o balanço é algo complexo. É fácil concordar que a autodeterminação desses povos era um direito que lhes assistia, assim como é fácil constatar que, nalguns casos, a luta original foi confiscada por outros interesses, como a constituição em Angola de um palco quente para a guerra fria e que não se encerrou com a independência. Pode-se atribuir uma boa parte dos problemas que persistem à fraca herança deixada pelo colonizador, mas evitando, se possível, chegar à situação do Brasil, que julga ainda sofrer dos males deixados pelo colonizador há alguns séculos.

Apesar de o caminho para a autonomia das colónias portuguesas ter sido muito diferente do de outros países africanos, não se encontram diferenças muito grandes na situação atual face a países análogos e vizinhos. África ainda tem um longo caminho a percorrer até ter uma sólida classe média, motor do desenvolvimento económico e social e pilar crítico da boa governação. Quando se lê alguma reflexão sobre o assunto, como num editorial recente da Jeune Afrique, o diagnóstico e a receita sugerida nem sequer estão claros.

Há, no entanto, um caso muito curioso: Guiné Bissau e Cabo Verde. O mesmo colonizador e, inicialmente, até um movimento de libertação comum: PAIGC. Hoje as diferenças entre esses países são abismais. Uma análise comparativa das duas evoluções seria muito interessante: o que houve em Cabo Verde que falhou na Guiné Bissau?

04 novembro 2014

Medo e ébola


Quando vivia na Argélia e me pediam uma avaliação do risco do país, costumava dizer: há uma actividade terrorista residual, em zonas geográficas bem determinadas. Sem estatísticas muito precisas, não provocará mais de uma dúzia de mortos por mês, quase exclusivamente membros de forças de segurança e apenas nessas zonas. Em contrapartida, na estrada morrem em média 12 pessoas todos os dias e por todo o país. Apesar de objectivamente o risco da estrada ser muitíssimo mais elevado e generalizado do que o terrorismo, este último era/é precepcionado com mais intensidade por quem lá vai. Porquê? Porque temos sempre mais medo daquilo que conhecemos mal e que julgamos não dominar.

Actualmente, passo cerca de 4 vezes por mês no aeroporto de Casablanca que tem várias ligações diárias com os países da áfrica ocidental onde o ébola anda descontrolado. Certamente corro algum risco, mas provavelmente inferior ao de escorregar na banheira e, obviamente, nem eu nem ninguém deixa de tomar banho por isso. Achamos que a “necessidade” do banho se sobrepõe ao risco associado.

Este assumir correr riscos não está apenas associado a aspectos utilitários ou necessidades básicas. O nosso quotidiano está cheio de riscos e viver plenamente passa por encará-los e saber como os enfrentar. É muito estúpido menosprezar o risco, como também é estúpido reagir desproporcionadamente. O medo irracional é uma enorme restrição à qualidade de vida. O problema está, como em tantas coisas, na ignorância. Se há tanta dificuldade em controlar a epidemia na áfrica ocidental, isso tem muito a ver com a ignorância. É muito difícil ter sucesso quando acontecem coisas como a de agosto passado, quando uma multidão atacou e “libertou” os infectados isolados num centro de quarentena em Monróvia…

Certo, mesmo certo, é que o céu não nos cairá em cima da cabeça, mas, mesmo assim, há quem tenha medo disso.