14 maio 2026

A escravatura, as desculpas e outras contas

Por estes lados, por vezes vemos o mundo com óculos” made in USA”, que nem sempre proporcionam uma visão suficiente alargada da realidade. Um exemplo é o caso da escravatura. Para eles será sinónimo do tráfico transatlântico de África para o continente americano. Como sabe facilmente quem quiser saber, a escravatura foi uma realidade muito disseminada no passado, remontando a tempos em que ainda não havia navios a atravessarem o Atlântico.

No século VII, no tempo de Maomé, era banal e perfeitamente aceitável naquela sociedade. Daí que o Corão, na sua dimensão regulamentar, refira direitos e obrigações de um muçulmano face aos seus escravos. Quando o Ocidente vem decretar ser proibido algo que uma leitura estrita do livro sagrado considera permitido, a rejeição é grande. Dentro do negativo das colonizações do século XIX de África, elas tiveram um papel decisivo no combate ao fenómeno nesse continente.

Aqui por perto, no Mediterrâneo e na costa atlântica, muitas ações de saque e de captura de escravos foram realizadas pelos corsários otomanos a partir de principalmente Argel, Tunes e Rabat, ações terminadas em meados do século XIX… com a colonização francesa do Norte de África. São referidas mais de um milhão de capturas, menos certamente do que os números transatlânticos, mas de todo não irrelevante. Miguel Cervantes por isso passou, em Argel,

Uma vez que já atravessamos a maré dos pedidos de desculpa, se quer avançar para a parte das compensações e o assunto ganhou foro global na ONU, sugiro que a Turquia faça também a sua parte, começando pelas desculpas.  O saque de Porto Santo em 1617, por exemplo, foi terrível. Depois dessa fase, podemos eventualmente passar à fase das compensações, mas sempre numa perspetiva de equidade… Obviamente que nunca na vida a Turquia irá apresentar um mínimo esboço de pedido de desculpas pelas ações dos seus corsários no passado e, se calhar, terá razão.

 

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