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05 maio 2026

A linguagem de estar e ficar no poder


Manter-se no poder é um desafio que pode recorrer a várias estratégias e linhas de força.  Como em muitas receitas, os ingredientes podem ser variados, mas em cada caso concreto há sempre um eixo principal na afirmação e justificação do “Aqui quem manda sou eu!”.

A mais comum nos tempos que correm, no nosso mundo, é a legitimidade democrática. Os eleitores deram um mandato limitado no tempo e no âmbito para alguém assumir o poder. Pode evoluir para situações “pós-democráticas” de outra natureza. Como dizia o Sr Erdogan, a democracia é um comboio que se apanha e do qual se sai quando ele chega à estação pretendida.

Outra forma é a da força. Mando porque sou o mais forte e se alguém dúvida, vamos ao rinque e veremos quem fica em pé. É uma forma bastante clássica e tradicional, sendo que a força pode ter várias dimensões e os combates no rinque não estar sujeitos a regras equitativas.

Temos também a legitimidade divina. Sou rei por vontade divina e colocá-lo em causa é atentar contra a autoridade de Deus. Bastante simples e eficaz.  A curiosidade é que em situações de revolução e de rutura dinástica, o novo rei conseguia sempre no final obter o apoio divino. Algo flexíveis estas vontades sagradas.

Outro tipo é a legitimidade revolucionária. Os vencedores de uma insurreição entendem que esse sucesso é mérito suficiente para os manter sentados e colados à cadeira. O problema aqui é o prazo de validade. Se no dia seguinte à revolta é aceitável ver no poder numa junta ad hoc, dois anos mais tarde já será abuso e vinte anos depois é caricato e escandaloso.

Há também a legitimidade da bondade paternalista. O poder infantiliza a população e defende que há todo o interesse em os deixar governar, porque eles são muito bonzinhos e a alternativa representa uma grande ameaça. Às tantas, até comem criancinhas ao pequeno-almoço! Sim, entendo que o Estado Novo era predominantemente desta classe.

Finalmente, existe a legitimidade do terror. O sistema tem enormes poderes arbitrários, mesmo de vida e de morte, sobre a população e qualquer um, por um sim, por um não ou mesmo por um silêncio, pode ver a sua vida descambar. Um bom exemplo é o da China maoista em que o grande timoneiro declarava existirem x% de traidores a executar e os seus comissários deviam cumprir a quota, se não queriam ser eles próprios considerados traidores. Os milhões que passaram e muitos deles ficaram no Gulag estalinista, também não eram todos perigosos ativistas que ameaçavam o poder. Muitos deles apenas ali caiam “para exemplo” e recordar que ninguém estava a salvo… do poder.

10 fevereiro 2026

Contados os votos


Contados os votos, indiscutivelmente Seguro ganhou, Ventura perdeu e comparar números de uma eleição binária com os de outras onde existe uma dúzia de alternativas disponíveis é um exercício com muito pouco sentido.

Será desta vez que o PS volta ao seu registo histórico, se deixa de devaneios neomarxistas e faz as exéquias, assumidas, de um tempo sombrio e indigno?

Face à primeira-volta Ventura subiu. Estranhíssimo seria se descesse. Faço parte dos portugueses que consideram que, apesar dos erros e abusos dos habituais inquilinos do poder, com ele teríamos uma emenda pior do que o soneto. É importante mostrar o que está em causa e em perigo, sem rasgar vestes, nem cair na gritaria. Ventura nunca será nenhum Salazar nem por inteiro, nem por um terço, pela simples razão de nunca saberá governar. A sua equipa é genericamente fraca, o seu programa económico absurdo e a sua relação com a verdade algo de muito débil. A tentativa de colagem à herança de Sá Carneiro foi de uma indecência escandalosa.

O triunfo muito claro de Seguro é a vitória de uma abordagem à prática política mais séria e decente, mas nada garante para o futuro. A satisfação deve ser comedida, especialmente se não for seguida por práticas sérias e decentes.


Acrescentada publicação no "Público" em 11/02/2026


24 janeiro 2026

As campanhas modernas


Na análise do que houve de novo nas últimas eleições presidenciais, refere-se a natureza das campanhas. Há os candidatos que as fizeram “à antiga”, com os habituais beijinhos e abraços em ruas e mercados para os telejornais e os que apostaram nas redes sociais, fazendo pinos, flexões de braços e outras gracinhas. Parece que há um público, jovem, para estes canais, que até nem tem o hábito de  ver telejornais.

Pode-se argumentar que Marcelo também fez a sua notoriedade como “influenciador”, simplesmente em média diferente, na televisão tradicional e não nas redes. Não me parece assim tão óbvio o paralelo. Por muito que se possa discordar e questionar o seu dilúvio de palpites e comentários, tratava-se de palavras que nos desfiavam a pensar, um pouco. Muito diferente será vermos “influenciadores” políticos a ganharem popularidade com habilidades e gracinhas, em concorrência com skaters aventureiros e imprevistos gatinhos. O mundo (nisto e não só) não muda por decreto nem a partir de simples lamentações, mas era importante não ficar pela constatação do: É assim, para os jovens tem de ser assim!

Está em causa mais do que as faculdades de entretenimento de um personagem e o grande desafio será mesmo cativar e motivar os jovens para a política pelo que ela é e pelo que realmente impacta na sua vida. Não é fácil? Pois não… e também é verdade que os beijinhos e abraços nos mercados de substância têm pouco.

20 janeiro 2026

Quo vadis PSD?


A evocação recorrente nesta campanha da inspiração do brilhante Sá Carneiro, evoca um ponto comum com a de 1981. A de um grosseiro erro de avaliação na escolha do candidato presidencial e de que os partidos não são donos absolutos do seu eleitorado nas Presidenciais. Acharam mesmo que Marques Mendes tinha postura para os portugueses o reconhecerem como Presidente e que nomeá-lo candidato bastava?

O PSD perdeu e não dar indicação de voto para a 2ª volta é curioso. Para Montenegro é indiferente ter Seguro ou Ventura em Belém? Olhe que não, olhe que não… Se podemos começar por falar apenas nas facilidades/dificuldades da governação, passando para o domínio dos princípios, ainda mais clara deveria ser a imagem. Ventura vai continuar a pedir e a defender os três Salazares?

Mais tarde ou mais cedo o PSD terá que decidir e assumir com quem quer preferencialmente estar. Se com o PS expurgado do Costismo (herdeiro e órfão do Pinto de Sousa) ou com o Chega. Decidam e assumam.

17 janeiro 2026

Estou em reflexão

Não é que precise deste período de retiro para definir o meu voto de amanhã, contudo aprecio a calma. Sei que só liga a televisão quem quer e no canal que escolher, mas deixar de ver candidatos a fazer pinos reais ou simbólicos, ou aos beijinhos e abraços por feiras e mercados, dignifica a imagem que guardamos deles para quando os virmos amanhã no boletim de voto.

Achei muito curiosa a intervenção de Marcelo R. Sousa, defendendo a importância deste dia de reflexão, quando ele votou antecipadamente, sem dele ter usufruído. Também não justificou porque necessitou de votar antecipadamente, sendo que o voto antecipado parece-me ser dirigido a quem disso necessita, prescindindo, portanto, do período de reflexão.

Enfim, que Marcelo de tudo fale, sem necessidade de tudo justificar, já estávamos habituados e, nestas minhas reflexões, só me resta esperar que no futuro não venhamos a ter saudades do tempo dos seus mandatos.

14 janeiro 2026

E Marques Mendes desistir?

Dizia Cotrim no início da pré-campanha que tinha sido “convidado” a desistir em favor de Marques Mendes. Não chegou a precisar quem o tinha feito, nem exatamente como e o assunto caiu no esquecimento.

A campanha real provou que Marques Mendes, saído da cadeira de comentador televisivo vale pouco e pouco convence. Nem é apenas a questão da altura e da voz nasalada. A sua linguagem corporal não demonstra de forma nenhuma “pose de estadista”.  Dada a forma arrastada e algo repetitiva (professoral ?!) como comunica, chega-se ao ponto de querer dizer-lhe: deixe de falar para os seus botões e seja conciso. A forma como comprou a polémica levantada por Gouveia e Melo, também foi infantil e pouco valorizadora.

Correu mal e, contra as expetativas oficiais iniciais, Marques Mendes parece estar fora da corrida, quando Cotrim ainda tem algumas hipóteses. Hoje, este fez um apelo ao voto do PSD na sua candidatura. Não sei se está deslumbrado com o sucesso, com vontade de humilhar adicionalmente Marques Mendes ou simplesmente criar um novo “facto” que permita enviar para segundo plano os anteriores, menos favoráveis.

Uma coisa é certa. Para a “direita democrática”, fazia sentido que MM efetivamente desistisse em favor de Cotrim. Não sei se depois alguém o “aturaria” nem como o PSD iria digerir a história do flop. De todas as formas, de um flop já não se safa… estava-se mesmo a ver que MM presidente não seria a primeira escolha de muita gente do próprio partido, não?

 

09 janeiro 2026

Segurando o PS


A degradação do nosso regime (não só do nosso, mas por hoje focamo-nos aqui) e a erosão dos partidos tradicionais são, a prazo, um retrocesso e um risco para o sistema democrático em que nos habituamos a viver, em liberdade.

Por muito eco que as propostas extremistas possam ter em gente séria, bem-intencionada e com motivos concretos e válidos para estar desiludida com o “sistema”, é evidente que a sua eventual colocação em prática não irá nada resolver, muito pelo contrário.

Os radicais de esquerda podem invocar bons-sentimentos e projetos de uma humanidade mais justa e generosa, mas a sua implementação sempre falhou, tanto na vertente económica, sem geração de riqueza não há milagres, como no próprio campo que lhes é teoricamente caro, o da liberdade. Os de direita, podem apelar à salvaguarda de valores tradicionais e uma certa ordem e segurança, mas também trazem o risco de uma discriminação injusta e até violenta.  Em ambos os casos, a prazo, não haverá tolerância, segurança e sucesso.

Parece-me claro que o modelo que funciona melhor é o atual e o problema não está nos seus princípios, mas sim nos seus intérpretes. Dentro dos protagonistas recentes que se distinguiram pelas piores razões, está obviamente o PS. Falamos de Sócrates e dos seus órfãos e afilhados, assim como dos coitados por ele “enganados”, que nada viram. Também não há anjos, longe disso, mas o PS leva a medalha de ouro (?!) de longe no campeonato da degradação e descredibilização do nosso sistema.

A candidatura de AJ Seguro às Presidenciais não é certamente um toque mágico que tudo pode resolver, mas o seu sucesso, que sinceramente gostaria de ver acontecer, seria um grande passo na regeneração de um dos partidos fundamentais do nosso regime. Sou eu a ser otimista, mas às vezes é preciso.

30 dezembro 2025

Se o ridículo matasse, este país estava morto

No boletim de voto das Presidenciais de 2021 constava um senhor chamado Eduardo Nelson da Costa Batista, um candidato fantasma, já que quando o TC chumbou a sua candidatura os boletins de voto já estavam impressos.

Seria previsível que depois de tão ridículo falhanço, tivessem sido tomadas medidas para evitar repetições. Parece que não. Para 2026, as eleições seguintes às de 2021 parece que vamos ter não um, nem dois, mas três candidatos fantasmas nos boletins.

Coisas que acontecem quando a incompetência e impunidade são muitas. E fico por aqui, para não entrar pelos palavrões! Não criem uma cultura de meritocracia no aparelho do Estado, que estamos bem. Tudo funciona da melhor forma possível, dadas as (podres) circunstâncias.

Nota adicional: Aqui, há 5 anos eu esperava ingenuamente que não seria repetível...

27 dezembro 2025

O este e o aquele


Para quem não assistiu, cá vai um resumo da principal discussão no último debate das Presidenciais, por acaso até envolvendo dois candidatos com fortes probabilidades de chegarem à final.

- Você é um “este”!

- Não sou, não!

- É sim!

- Não sou!

- Sim, é!

               - Justifique porque me chama um “este”!

- Não preciso. Você é que tem de provar que não é!

               - Mas você saiu-me cá um “aquele”!

- Não, não sou!

               - É, sim senhor!

- Você é que é um “este”!

               - Você é que é um “aquele”

 Só faltou para manterem o nível (presidencial, recorde-se) encerrarem com um

- Quem o diz é quem o é!

- Tens cara de chimpanzé!!

E os verdadeiros primatas que me desculpem a imagem! 

06 dezembro 2025

Não sabia, mesmo?


O nome de Afonso Camões pode não ser conhecido de todos, mas quem acompanhou a novela socrática lembra-se dele. Joker (pau para toda a colher) e general prussiano que nunca se amotina (caninamente fiel ao chefe), características especialmente relevantes quando se pede “arranjem-me um emprego”. Para quem na altura nada ouviu, os motores de busca rapidamente podem levar-lhe os detalhes dos fatos em questão.

Quando o nome de Gouveia e Melo se perspectivou como um fácil ganhador das presidenciais, não faltaram “moscas” a aproximarem-se, atraídas pelo aliciante perfume do poder. Faz parte da natureza humana.

Seria função do candidato e/ou de quem o assessoria fazer a filtragem entre os apoios que trazem currículo e os que trazem cadastro (mesmo sem condenação e transito em julgado…). Não parece ter sido muito seletivo. Logo na plateia da sua apresentação se via gente com algum cadastro.

O apoio recentemente anunciado por José Sócrates era dos que inequivocamente traziam “cadastro”. Foi repudiado pelo candidato, mas lançou algum interesse sobre as eventuais presenças de “tralha socrática” naquele navio.  E, surpresa! Entre outros nomes vem essa figura de Afonso Camões, mandatário em Castelo Branco.

Instalada a polémica, o fiel socrático recua, publicando um comunicado, prontamente copiado, “a pedido”, na página oficial do almirante. Imagem acima e disponível aqui. Além de elegâncias linguísticas como referir a “dor de corno” de quem o ataca, o pobre Camões alega estar a ser perseguido por causa de uma escuta ilegal (lá está, foi verdade, mas como não serve para condenar, ele permanece inocente) e de uma ligação de juventude ao antigo primeiro-ministro, E sei que podemo-nos sentir “forever young”, mas, nas minhas contas ele teria mais de 50 anos quando foi apanhado nessa escuta e nessas manobras…

Falta de filtragem inicial, foi distração ou pior, terem feito o favor de copiar um comunicado deste teor na página oficial é amadorismo …. ou pior

05 dezembro 2025

O candidato do partido invisível


Em 2014, quando A.J. Seguro estava prestes a ser corrido da liderança do partido por investida de A. Costa e companhia, alertou para a existência de um partido invisível na sociedade portuguesa e de haver uma parte do PS associada aos negócios e interesses. Isto da parte do ainda líder de um partido com a dimensão e importância do PS é mais do que preocupante, é potencialmente muito grave.

A ser mentira seria expetável uma reação do tipo “quem não se sente, não é filho de boa gente”, eventualmente até uma queixa por difamação, mas o assunto foi ignorado e arquivado, como se fosse apenas um episódio de uma disputa acalorada. No entanto, o fundo da questão não se deveria esgotar com o fecho daquelas primárias pela liderança do partido.

É óbvio que o partido invisível não o esqueceu, nem perdoou e agora votarem Seguro não é como os comunistas a porem a cruzinha em Soares na segunda volta das presidenciais de 1986… mas pior!

Vemos assim esgares de muita gente a repudiarem AJ Seguro porque sim ou por argumentos estapafúrdios e assumida ou sub-repticiamente a migrarem para candidaturas menos alérgicas.

O eventual cenário de termos uma segunda volta entre um candidato do partido invisível e A. Ventura é dos piores pesadelos que posso imaginar.

 

25 novembro 2025

Polémica com o 25 de novembro

Confesso que não estava a planear abordar este tema hoje, até tinha outro texto preparado, mas umas declarações que ontem ouvi a João Ferreira fizeram-me sair do sério. Segundo ele, no 25 de novembro saiam vitoriosas forças não democráticas… e que a data foi um revés para o processo “democrático”. A sério?

Portanto, Conselho da Revolução, pactos MFA-partidos que condicionavam os partidos democraticamente sufragados, cercos à Assembleia Constituinte, mandatos de captura em branco e outros tropelias lideradas por quem nas eleições tinha tido (PCP+MDP+ resto) menos de 20%, isso sim era respeitar a democracia! Ou, para os comunistas, democratas com direitos plenos são apenas aqueles que votam em nós? Os restantes são reacionários. fascistas, lacaios de imperialistas, neoliberais e extrema-direita, todos gente a desqualificar e obstáculos no caminho para a “verdadeira democracia, a nossa”?

Se dúvidas houvesse, nas eleições presidenciais seguintes de 1976 os vencedores (não democratas?) do 25 de novembro (Ramalho Eanes + Pinheiro de Azevedo) tiveram 75% dos votos.

Que os comunistas e a esquerda radical não tenham digerido, nem nunca conseguirão digerir o fim do PREC, entende-se. Que uma parte significativa do PS alinhe nestas histórias deve fazer Mário Soares, e outros socialistas da época, dar umas voltas no túmulo. A origem desta revisão está naturalmente na geringonça Costista, que para alcançar o poder, inventou uma frente de esquerda que de coesão, pelo menos em 1976, tinha muito pouca. Se hoje tem, duvido, pelo menos a nível do eleitorado de base do PS. Que se faça polémica e que tente reescrever a história quem nisso está interessado é um pouco natural. Que não haja uma larga reação a dizer “deixem-se de tretas” e de estórias pseudo-democráticas, isso é que me surpreende.

24 novembro 2025

Debates presidenciais

Se nada me falhou, acima está a lista de debates (duelos?) previstos para as próximas eleições presidenciais, aparentemente 28. Julgo que a partir da dúzia, no máximo, ninguém mais trará nada de novo, para lá, naturalmente, de alimentar os comentários e as sentenças na comunicação social e nas redes sobre quem venceu quem e porquê.

Para lá desta overdose, parece-me que há outro problema. Do que vi e li até agora, fico com dúvidas de que muitos candidatos não saibam ou não queiram saber o que é a função presidencial. A confusão é especialmente proporcionada por André Ventura, que fala como se estivesse a concorrer a primeiro-ministro, pelo menos fala da mesma maneira como falou quando a esse lugar concorria. Não é o único com veleidades legislativas, mas é o mais evidente, até pela sua presença direta nas duas eleições.

O Presidente não governa. Se quisermos uma analogia futebolística, o Presidente é uma espécie de árbitro, que vela para que as regras do jogo sejam cumpridas. Apresentará os amarelos e os vermelhos quando necessário, mas não opina sobre se a tática deve ser 4-3-3 ou 4-1-4-1 ou se o Manuel deve jogar à esquerda ou à direita. O jogo legislativo nasce e é decidido no Parlamento, objeto de outro ato eleitoral.

Estamos a escolher uma pessoa, não um programa. É importante conhecer o que ele pensa, a sua bagagem, a sua resiliência face a situações de tensão, enfim a sua personalidade, integridade e capacidade para cumprir a função a que se candidata. Não o queremos ouvir propor como se poderá resolver os problemas da saúde, da justiça ou da habitação, já que não será sufragado para isso, nem para isso terá poderes. Não me interessa ouvir a repetição fácil dessas cassetes de boas intenções, que pouco acrescentam. Preferiria saber algo sobre pessoa, que livros leu, que filmes prefere e como percepcionou e interpreta acontecimentos históricos relevantes, enfim, a sua cultura, mas o caminho raramente entra por aí e para esse objetivo talvez se dispensassem os 28 duelos.


Atualizado a 29/11 incluindo cópia da publicação no Público.




01 novembro 2025

PS inseguro, positivo para Seguro


Assim como as criancinhas que são obrigadas a comer a sopa toda antes de poderem sair da mesa, a cúpula do PS também se viu obrigada a engolir a candidatura de AJ Seguro antes de poder avançar com a sua vida. Há algumas caretas e JL Carneiro até decretou tolerância de voto para quem se sentir especialmente agoniado com a ementa.

Não penso, no entanto, que tais hesitações no palácio do Rato sejam uma desvantagem para o candidato presidencial. No histórico PS haverá muita gente disponível para votar Seguro e que teria alguma rejeição se o visse apoiado entusiasta e convictamente por Augusto Santos Silva e outros mais dessa cepa. Ver essa fação a fazer caretas é fator positivo e credibilizador.

As autárquicas de Lisboa em que 2 + 2 deram 3 em vez de 5 ou sequer 4, provaram que a “Frente de esquerda” juntando PS e extrema-esquerda pré-eleitoralmente não tem coerência nem recolhe entusiasmos numa grande franja do eleitorado. Não é aí que o PS pode ir buscar "a força". Frentismo é uma especialidade dos comunistas, mas mais na base de domesticar e anular “aliados” do que alargar a base popular de apoio.

Em resumo, a candidatura de Seguro e o resultado que daí virá poderá provocar uma redefinição de forças e proporcionar uma regeneração do partido, já que internamente a partir da cúpula não parece viável. A democracia e o regime democrático agradeceriam. A ver vamos…

Atualizado a 5/11 com inclusão de recorte da publicação no Público.


20 outubro 2025

O PS desgeringonçou… ?


Dois fatos recentes poderão eventualmente prenunciar que o PS poderá estar em fase de desgeringonçar…

O primeiro é o resultado das autárquicas em Lisboa. A frente da chamada esquerda somou menos do que a soma das partes. De facto, para as eleições autárquicas não há geringonças pós-eleitorais. Têm que ser assumido antes e a ficção de um alinhamento largo de “esquerda” entre o PS e os radicais à sua esquerda provou, para muitos eleitores, ser isso mesmo, uma ficção. Resta uma curiosidade: se em 2015 a geringonça fosse anunciada antes das eleições, os resultados seriam idênticos?

O segundo facto é o apoio manifestado à candidatura presidencial de António José Seguro. Uma decisão naturalmente lógica, mas o tempo que demorou, as posições de certos cortesões do Rato e a ambiguidade da “flexibilidade” no apoio tolerado deixam muita expetativa. Foi um apoio decidido assim como quem arranca um dente e a ver vamos como o PS no seu fundo vai digerir este dilema. Quem se vai impor? O “partido invisível” dentro do PS que abomina Seguro ou um outro PS mais popular (perto do povo) e genuíno?

A bem do nosso regime democrático e do papel que o PS aí pode e deve desempenar é relevante o resultado. Eu cá tenho a minha preferência…

14 outubro 2025

O terceiro partido


Das 308 câmaras municipais, PS + PSD ganharam 264, cerca de 85%. Afinal o “bipartidarismo” não morreu? É diferente a dinâmica das autárquicas e mais complexa do que nas legislativas. Não há um candidato a líder de governo, há 308 candidatos a presidente de Câmara (sem falar aqui nas freguesias) e a eventual confiança ou rejeição que o líder de Lisboa provoca pode ser bem diferente da que o candidato local gera.

Duas curiosidades. Ricardo Leão em Loures foi quase um proscrito pela corte instalada no largo do Rato e limpou as eleições em Loures. Eduardo Teixeira, várias vezes candidato pelo PSD à câmara de Viana do Castelo e derrotado, não foi por aparecer em cartazes com André Ventura ao lado que convenceu mais os eleitores.

O que me parece também ser de assinalar é que a terceira força foram os “outros”, os independentes, apesar de não haver surpresas espetaculares ao nível de Rui Moreira quando ganhou pela primeira vez o Porto. Parece-me que uma grande parte destes “outros” são gente com carreira nos partidos que resolveram fazerem-se ao largo por conta própria. Não há verdadeiramente muita gente nova vinda da “sociedade civil” que se apresenta diretamente por conta e risco na política local. São os partidos a perderem a mão nas suas “tropas”, por boas ou más razões.

Os partidos estabelecidos há mais tempo têm um acervo de autarcas com notoriedade e provas dadas (melhores ou piores) que lhes dá mais resiliência e resistência à mudança, mas as lideranças partidárias tinham interesse em entender as causas profundas destas deserções e corrigir o que houver a corrigir enquanto houver tempo.

04 junho 2025

Foi assim tão mau?


Assisti ao discurso de apresentação da candidatura de Gouveia e Melo e, confesso, não o achei tão pobre e infeliz como o vejo a ser classificado nas tribunas dos comentaristas oficiais. Foi lato e excessivamente abrangente, tentando bater a todas as portas e a satisfazer todos os clientes? Sim, ao fim e ao cabo é suposto o PR ser presidente de todos os portugueses, mas não lhe encontrei contradições ou incompatibilidades. Comparando com as apresentações e discursos dos demais candidatos atuais e passados custa-me reconhecer nestes uma mensagem particularmente mais inspirada e focada.

Do que vi, preocupou-me mais a plateia, especialmente nas primeiras linhas. Essas sim eram muito pouco inspiradoras. Talvez que lá para trás houvesse gente dinâmica, arejada e potenciadores de mudança, mas os lugares da frente tinham um grande cheiro a mofo e a outros perfumes pouco agradáveis…

28 maio 2025

Mais um engodo




Quando em 2022 foi necessário substituir Marta Temido, muita gente do sector achava que Fernando Araújo daria um excelente ministro da saúde. Tranquilo na sua maioria absoluta, o PS preferiu um apparatchik, na figura de Manuel Piçarro.

Para as últimas legislativas, na necessidade de captar votos e mostrar “capacidade” de fazer algo diferente, Fernando Araújo foi nada menos do que o cabeça de lista pelo Porto, apresentado pelo PS como se tivesse recrutado o Max Verstappen do SNS…

Escassas semanas depois, o ás de trunfo da saúde decide surpreendentemente que será mais útil no S. João, hospital, do que em S. Bento, Parlamento, aparentemente na sequência de uma “reflexão”… Não podia ter refletido antes de se ter entusiasticamente envolvido na campanha eleitoral? Será que ao PS, com a redução do grupo parlamentar, lhe faltam lugares para apparatchicks?

Um deputado poderia e deveria ser mais do que figura de corpo presente e o Parlamento seria valorizado se por lá houvesse gente que sabe mesmo de alguma coisa e fez algo na vida, para lá de lutas e tricas partidárias.

Uma coisa é certa, estas deserções precoces de cabeças de lista prestigiantes, cheiram a básico engodo para pescar eleitorado e não ajudam nada a credibilizar quem as organiza e quem nelas participa.

Atualizado em 30/5 com a publicação entretanto saída no Público

20 maio 2025

Habituem-se…?

 

Nestas eleições vimos uma preocupante subida de um populismo irresponsável, cuja força, no entanto, não é a ideologia. Esta pouco é escrutinada e muitos preferem colocar simplesmente a etiqueta de “extrema-direita” (como antes se “lutava” colando etiquetas de “fascista” ou “neoliberal”…). Seria mais eficaz pôr a nu a sua inconsequência e falta de qualidade dos seus quadros do que infantilizar o eleitorado,

Quanto à queda do PS, não resisti em revisitar uma famosa entrevista de António Costa à revista Visão, regiamente instalado em cima da sua maioria absoluta em dezembro de 2022. Para lá de várias mensagens sobranceiras e arrogantes, Costa proclamava: Habituem-se vamos cá estar assim por quatro anos, independentemente de casos e casinhos que não interessam verdadeiramente ao “país real”. Ainda não passaram 3 anos sobre essa data e o país real mostrou não se habituar.

É evidente que o perfil do Pedro Nuno Santos não ajudou. Se o PS foi importante na fundação da nossa democracia, não o foi com lideranças deste perfil e nunca em irmandade com partidos de vocação totalitária.

O Chega tem/teve um eficiente papel destrutivo, mais por demérito dos outros, que se puseram a jeito, do que por mérito próprio. Papel eventualmente positivo, correspondente à responsabilidade que a sua nova dimensão exigiria, é difícil de o imaginar neste momento.

Estas eleições mostraram que o eleitorado não se habitua a tudo, em parte felizmente. Será o momento de os intervenientes responsáveis refletirem que é preciso mudar algo seriamente, senão serão mudados eles e o resultado, para o país real, pode não ser positivo.


16 maio 2025

Refletindo


Enquanto se pode…

 

Este texto corre o risco de ser um dos mais efémeros do blogue, uma vez que pelas 20h e picos do próximo domingo, a realidade real então conhecida poderá destruir todas as bases sobre as quais estas reflexões se desenvolveram.

Pelo que parece, o próximo Parlamento não deverá será muito diferente do que está de saída e isso não deixa de ser surpreendente…

Para começar, o mistério da manutenção da dimensão do Chega. Por muito que o discurso de André Ventura possa cativar descontentes, desta sessão legislativa que termina fica a irrelevância dos outros 49 outros deputados, a heterogeneidade, falta de qualidade e até de honestidade de alguns e de construtivo pouco ou nada. O Chega está a atingir uma fase em que ou consolida ou esvazia. Se se conseguir consolidar apesar de todos estes vazios, é preocupante.

Por outro lado, o PS de Pedro Nuno Santos não descola, pelo contrário, e enquanto tiver este líder deve ficar reduzido ao eleitorado enquistado. Quando o ouvimos falar, por muito que tente disfarçar, está lá o menino do Porsche e do papá rico, o “enfant terrible” que resolve o problema da divida pondo as pernas dos banqueiros alemães em tremeliques, o dos 3,2 mil milhões da TAP e do despedimento por whatsapp e aquele que decide mandar fazer aeroportos como quem manda vir uma sobremesa... Tudo isto não se lhe descola e até faz esquecer a polémica herança socrática-costista do partido. Protesta e avisa para os perigos dos outros, mas de um candidato a líder exige-se mais. 

Luís Montenegro deveria estar a pagar as trapalhadas com a sua empresa, especialmente a forma como (não) comunicou o que devia e como devia. Não é isto que acontece, talvez na perspectiva do mal menor, mas não é certamente o contexto ideal para liderar efetivamente o país.

Por último, os comunistas, tanto os ortodoxos como os burgueses, continuarão a cair, o que faz sentido. Por muitas bondosas e humanas que sejam as suas intenções teóricas, “toda a gente” sabe ou pode saber que as práticas propostas não funcionaram e nunca funcionarão.

A IL corresponde a uma proposta efetivamente diferente das correntes habituais, mas num país de funcionários e pensionistas, dificilmente subirá muito alto.

A ver o que o domingo nos conta… mas dava jeito que mudasse alguma coisa