Pelos anos de 2018 e 2019 desloquei-me várias vezes à China, percorrendo uma dúzia de cidades, grandes fábricas, utilizando aviões, TGV’s e estradas.
De Sul a Norte, desde Hangzou até Jilin na Manchúria, já
próximo da Coreia do Norte, uma nota para a eficiência. De uma forma geral, as
coisas funcionavam bem e a horas. As fábricas, os hotéis, os restaurantes, os
meios de transporte, funcionavam. A internet tecnologicamente sim, os conteúdos
é que estavam limitados, nada de Facebook, Blogger, Youtube, Googles e outras
impurezas.
Um sentimento de muita coisa nova. Até passei ao lado de uma
central de carvão novinha em folha – poderíamos para lá ter despachado a do
Pego, que não sendo nova, ainda tinha muitos anos de vida. Surpreendente também
a quantidade de câmaras de vigilância aos cachos em cada poste, canto e
esquina… além das outras vigilâncias, menos visíveis.
Por vezes tudo novo de mais. Entrar numa cidade por uma
grande avenida, entre enormes edifícios, e sair pela mesma avenida, sem
entender quando teríamos atravessado o centro da localidade. Outro aspeto
curioso sobre as interações sociais. Para lá da camada de chineses habituados a
contactos regulares com o exterior, com os restantes locais, era terrível. A
questão não residia apenas na barreira linguística. Mesmo sem trocar uma
palavra é possível comunicar e interagir com outros seres humanos. Ali não era
fácil…
As minhas viagens não eram turísticas e apenas pude dar um
salto ou dois a algumas curiosidades nos intervalos do programa. A Cidade (outrora)
Proibida, em Pequim, o lago e os pagodes de Hangzhou e a cosmopolita Xangai.
Com as devidas reservas pelas limitações do âmbito das viagens, não consegui
encontrar a pujança e a herança cultural esperadas de um país outrora tão rico
e evoluído… Como se o desenvolvimento evidente tivesse soterrado esses
vestígios.
Parece que a chamada “Revolução Cultural” dos anos 60 ajudou
bastante a esse apagamento e não só na dimensão material. Se há quem considere que
a ditadura do Estado Novo moldou e condicionou as mentalidades por estas bandas,
como José Gil gosta de afirmar, a repressão e o terror maoísta terão dado
direito a amputações mentais e aniquilamentos culturais completos.
Numa altura em Pequim, de uma janela do escritório onde
estava, vi meia-dúzia de pessoas num cruzamento ao fundo e disse ironicamente ao
nosso contacto chinês: “Olha, está uma manifestação a decorrer ali!”. Ele
saltou da cadeira estupefacto para verificar. Se lhe tivesse dito que um Ovni
tinha aterrado na cidade, a surpresa não seria provavelmente maior…
Durante o século XIX, muito debilitada e pobre, a China
sofreu enormes humilhações às mãos do Japão e das potencias ocidentais. Certo
que em parte devido a uma grande dificuldade em evoluir e jogar o jogo do poder
como o mundo na altura jogava. A “reconquista” da unidade (esqueçamos Taiwan)
foi uma grande façanha política e militar, inicialmente muito ajudada pela URSS
e tirando partido da sofreguidão de poder e falta de escrúpulos de Mao. Mais
tarde foi a vez dos EUA (Nixon e Kissinger) ajudarem. O crescimento da China
era um contrapeso para diminuir a influência soviética no mundo.
Pode-se entender que persista um registo traumático desses
tempos e uma hipersensibilidade quanto a tudo o que possa pôr em causa a
unificação, soberania e riqueza conseguidas, mas…
O espartilho que o “partido” aplica aos seus cidadãos é
sustentável? Quando as evoluções não ocorrem gradualmente, há o risco de chegarem
mais tarde brutalmente. A China evolui materialmente, sim, mutuíssimo. Essa
riqueza material chega para as expetativas dos seus cidadãos?
Uma coisa é certa, já deixei demonstrado que tenho dificuldade
em conseguir entender e prever o que por lá se passa ou passará...
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