31 março 2026

A China e eu - Terceiro ato


Pelos anos de 2018 e 2019 desloquei-me várias vezes à China, percorrendo uma dúzia de cidades, grandes fábricas, utilizando aviões, TGV’s e estradas.

De Sul a Norte, desde Hangzou até Jilin na Manchúria, já próximo da Coreia do Norte, uma nota para a eficiência. De uma forma geral, as coisas funcionavam bem e a horas. As fábricas, os hotéis, os restaurantes, os meios de transporte, funcionavam. A internet tecnologicamente sim, os conteúdos é que estavam limitados, nada de Facebook, Blogger, Youtube, Googles e outras impurezas.

Um sentimento de muita coisa nova. Até passei ao lado de uma central de carvão novinha em folha – poderíamos para lá ter despachado a do Pego, que não sendo nova, ainda tinha muitos anos de vida. Surpreendente também a quantidade de câmaras de vigilância aos cachos em cada poste, canto e esquina… além das outras vigilâncias, menos visíveis.

Por vezes tudo novo de mais. Entrar numa cidade por uma grande avenida, entre enormes edifícios, e sair pela mesma avenida, sem entender quando teríamos atravessado o centro da localidade. Outro aspeto curioso sobre as interações sociais. Para lá da camada de chineses habituados a contactos regulares com o exterior, com os restantes locais, era terrível. A questão não residia apenas na barreira linguística. Mesmo sem trocar uma palavra é possível comunicar e interagir com outros seres humanos. Ali não era fácil…

As minhas viagens não eram turísticas e apenas pude dar um salto ou dois a algumas curiosidades nos intervalos do programa. A Cidade (outrora) Proibida, em Pequim, o lago e os pagodes de Hangzhou e a cosmopolita Xangai. Com as devidas reservas pelas limitações do âmbito das viagens, não consegui encontrar a pujança e a herança cultural esperadas de um país outrora tão rico e evoluído… Como se o desenvolvimento evidente tivesse soterrado esses vestígios.

Parece que a chamada “Revolução Cultural” dos anos 60 ajudou bastante a esse apagamento e não só na dimensão material. Se há quem considere que a ditadura do Estado Novo moldou e condicionou as mentalidades por estas bandas, como José Gil gosta de afirmar, a repressão e o terror maoísta terão dado direito a amputações mentais e aniquilamentos culturais completos.   

Numa altura em Pequim, de uma janela do escritório onde estava, vi meia-dúzia de pessoas num cruzamento ao fundo e disse ironicamente ao nosso contacto chinês: “Olha, está uma manifestação a decorrer ali!”. Ele saltou da cadeira estupefacto para verificar. Se lhe tivesse dito que um Ovni tinha aterrado na cidade, a surpresa não seria provavelmente maior…

Durante o século XIX, muito debilitada e pobre, a China sofreu enormes humilhações às mãos do Japão e das potencias ocidentais. Certo que em parte devido a uma grande dificuldade em evoluir e jogar o jogo do poder como o mundo na altura jogava. A “reconquista” da unidade (esqueçamos Taiwan) foi uma grande façanha política e militar, inicialmente muito ajudada pela URSS e tirando partido da sofreguidão de poder e falta de escrúpulos de Mao. Mais tarde foi a vez dos EUA (Nixon e Kissinger) ajudarem. O crescimento da China era um contrapeso para diminuir a influência soviética no mundo.

Pode-se entender que persista um registo traumático desses tempos e uma hipersensibilidade quanto a tudo o que possa pôr em causa a unificação, soberania e riqueza conseguidas, mas…

O espartilho que o “partido” aplica aos seus cidadãos é sustentável? Quando as evoluções não ocorrem gradualmente, há o risco de chegarem mais tarde brutalmente. A China evolui materialmente, sim, mutuíssimo. Essa riqueza material chega para as expetativas dos seus cidadãos?

Uma coisa é certa, já deixei demonstrado que tenho dificuldade em conseguir entender e prever o que por lá se passa ou passará...



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