09 março 2026

Adeus, Marcelo


Diz o povo que quem muito fala, pouco acerta e esta é uma frase que associei a Marcelo Rebelo de Sousa desde os seus tempos de comentador. As minhas expetativas para o seu desempenho como Presidente da República sempre foram baixas.

Agora, na saída, é curioso visitar a galeria de imagens do seu reinado. Há certamente uma vertente de contacto humano com toda a população e episódios de informalidade, que vão de o PR se querer colocar ao nível do cidadão comum a extremos desconcertantes. Uma grande popularidade e receções entusiastas, inclusive nos Palops.

Agora, e eu passo sempre rapidamente aos “agoras”, a vida não é apenas feita de sorrisos e selfies, pelo menos para quem aspira ou tem por missão ser mais de que figurão em redes sociais. Que guardamos na memória de uma intervenção de MRS profunda e notável? Certo que fez muitos discursos e neles passou mensagens “corretas”, mas…

Mas a imagem que fica é de um MRS mais preocupado com a sua promoção, imagem e correspondente popularidade do que com os verdadeiros interesses do país. Estarei a ser injusto? Talvez, mas da galeria de memórias do seu exercício, guardamos muitas memórias simplesmente visuais e muito pouco de projetos estruturais.

Para não fugir à tradição, a Marcelfie final com o governo é representativa e absurdamente caricata. Parece de uma reunião de antigos alunos que se juntam alegres e animados para a fotografia final do encontro. Muito riso, pouco siso e há momentos em que os sorrisos passam a ridículos. Sobre sorrisos, também me chocou uma visita a um cemitério militar português em França, com Macron e Costa, onde os dois portugueses caminham sorrindo contentinhos, sem o mínimo respeito pelo significado do chão que pisavam.

O que faltou mesmo nas galerias de imagens que vi foi a enigmática (marcelática) visita ao Beco do Chão Salgado em novembro de 2023. O processo e execução dos Távoras foi um episódio sinistro de abuso de poder e injustiça, abominável em várias dimensões. Abordar o assunto e o local sem ser claro e frontal é inaceitável. Enviar recados e insinuações diretas naquele local foi de uma ligeireza e irresponsabilidade institucionais brutais. Talvez a maior memória da falta de conteúdo (sério) que me fica deste senhor vaidoso, manipulador e… algo tonto.

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