28 março 2026

E por vezes…


Não sou grande apreciador de estórias com largas centenas de páginas. Não necessariamente pelo tempo de leitura, mas porque, frequentemente, entram em registos do género “um rio e para cá do rio havia campos com flores assim, para lá do rio viam-se árvores com folhas assado”, “e havia uma casa com uma porta… e ao lado da porta janelas, e por cima das janelas um beiral…”. Muita descrição que, na minha opinião, pouco acrescenta à emoção e até muitas vezes com leituras datadas. Um eucalipto há cem anos seria visto de forma diferente de hoje…

Por isso, gosto bastante de contos, bem escritos. Um destes dias fui à procura de um livro de contos de um dos mais musicais escritores portugueses, David Mourão Ferreira. A antologia poética, representada acima, é um dos melhores livros de poesia que me passou pelas mãos. Quando numa simples página se vê escrito:

“Olhar de frente o Sol Assim se aprendem as letras iniciais da Solidão”

Entende-se que o senhor sabe usar a caneta, sem necessitar de muitos litros de tinta para o demonstrar. Sobre a musicalidade das palavras, sugiro o “E por vezes” pela Cristina Branco, ou ir um pouco mais longe à Amália.

Quando procurava então o livro de contos deste senhor, “Gaivotas em Terra”, não o encontrei na minha biblioteca. Tinha quase a certeza de o ter e até uma ténue recordação do aspeto da capa. Tê-lo-ei emprestado… ? Nada feito, obra não encontrada e encomendei nova edição, com papel rejuvenescido de algumas décadas. Os anos não lhe pesam e demonstram que não são necessários quilos de papel e litros de tinta para provocar fortes emoções. Especialmente os dois primeiros contos, “Tal e Qual” e “E Aos Costumes Disse Nada” são uma delícia de leitura. O segundo foi adaptado ao cinema por José Fonseca e Costa, como título de Sem Sombra de Pecado, com um elenco de luxo, incluindo Mário Viegas. A ver e a rever…

David Mourão Ferreira é sinónimo de sensibilidade e elegância (ponto final). 

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