Não sou grande apreciador de estórias com largas centenas de
páginas. Não necessariamente pelo tempo de leitura, mas porque, frequentemente,
entram em registos do género “um rio e para cá do rio havia campos com flores
assim, para lá do rio viam-se árvores com folhas assado”, “e havia uma casa com
uma porta… e ao lado da porta janelas, e por cima das janelas um beiral…”. Muita
descrição que, na minha opinião, pouco acrescenta à emoção e até muitas vezes
com leituras datadas. Um eucalipto há cem anos seria visto de forma diferente
de hoje…
Por isso, gosto bastante de contos, bem escritos. Um destes
dias fui à procura de um livro de contos de um dos mais musicais escritores portugueses,
David Mourão Ferreira. A antologia poética, representada acima, é um dos
melhores livros de poesia que me passou pelas mãos. Quando numa simples página se
vê escrito:
“Olhar de frente o Sol Assim se aprendem as letras iniciais
da Solidão”
Entende-se que o senhor sabe usar a caneta, sem necessitar
de muitos litros de tinta para o demonstrar. Sobre a musicalidade das palavras,
sugiro o “E por vezes” pela Cristina Branco, ou ir um pouco mais longe à
Amália.
Quando procurava então o livro de contos deste senhor, “Gaivotas
em Terra”, não o encontrei na minha biblioteca. Tinha quase a certeza de o ter
e até uma ténue recordação do aspeto da capa. Tê-lo-ei emprestado… ? Nada feito,
obra não encontrada e encomendei nova edição, com papel rejuvenescido de
algumas décadas. Os anos não lhe pesam e demonstram que não são necessários
quilos de papel e litros de tinta para provocar fortes emoções. Especialmente
os dois primeiros contos, “Tal e Qual” e “E Aos Costumes Disse Nada” são uma delícia
de leitura. O segundo foi adaptado ao cinema por José Fonseca e Costa, como
título de Sem Sombra de Pecado, com um elenco de luxo, incluindo Mário Viegas.
A ver e a rever…
David Mourão Ferreira é sinónimo de sensibilidade e elegância (ponto final).

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