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26 maio 2026

O filho bastardo

Brevemente veremos passar cem anos sobre a revolução de 28 de maio de 1926. No passado era celebrada como data fundadora do regime em vigor, para outros foi a hora zero de uma longa noite de trevas.

Além das considerações e ponderações emotivas, penso que vale a pena refletir um pouco no que foi esse dia e no porquê desse dia. O dia e o movimento em si têm algumas semelhanças com os da revolução seguinte de 25 de abril de 1974. Um movimento militar derruba facilmente um regime fragilizado, que não resiste, e recebe elevado apoio popular. Sim, religiões e profissões de fé à parte, o 28 de maio terá sido até mais consensual e com apoio popular mais amplo do que o 5 de outubro de 1910. Porquê? Porque a primeira República foi de uma incompetência, intolerância, violência e desorganização que uma mudança radical se impunha e era bem-vinda.

O 28 de maio foi um filho bastardo do 5 de outubro. Não se trata aqui de relativizar, desvalorizar ou menorizar tudo o que depois se passou. Apenas insistir que o caminho trilhado pelos primeiros republicanos levou direitinho o país para o que se seguiu. É importante procurar e assumir racionalmente as relações históricas causa-efeito sem romantismos irrealistas. Questão de evitar tristes repetições. 

 

04 maio 2026

Arcozelo 1974 : Padre Branco x Fortunas

A minha família nunca foi muito de sacristias. Em 1974 eu ia à missa apenas com a minha mãe, o meu pai passava. Uma boa parte da família alargada costumava assistir à de sábado, ao final da tarde, ficando assim o domingo livre para os picnics na Ria de Aveiro e outras saídas.

Após o 25 de Abril, ocorreu uma sessão de esclarecimento no campo de futebol da freguesia, secretariado pelo meu tio-avô, Adolfo Fortuna, que teve uma breve passagem pelo PS. O pároco da freguesia ouviu numa intervenção algo que não apreciou e pediu a palavra. Aparentemente o meu tio-avô terá registado a solicitação e informou o senhor padre de que iria falar quando chegasse a sua vez, após os anteriormente inscritos. O senhor padre ficou furibundo pela ausência de tratamento prioritário e foi-se embora.

No sábado seguinte, na tal missa do sábado, o pároco aproveitou a homilia para demonstrar a sua ira contra uns certos irmãos, supostamente “fascistas”.  Eu estava lá e recordo-me de, na fila da igreja imediatamente atrás de mim, o meu tio-avô Ilídio Fortuna resmungar a meia voz: Fascista, fascista… fascista é ele!  Na altura, a palavra “fascista” era um depreciativo de largo espetro.

Por canais que ignoro, o assunto chegou a uma rádio, que noticiou a particularidade dessa homilia na paróquia de Arcozelo, Vila Nova de Gaia, libertando grande polémica.

Na missa da manhã do domingo, o senhor Padre resolveu apresentar um “Agarrem-me, senão eu parto”. Anunciou que iria abandonar a paróquia e que agradecessem “a uma certa família”. Gerou-se imediatamente um enorme movimento beático de apoio, “O Padre é nosso, o Padre é nosso”, transformando a missa numa ruidosa manifestação de apoio ...

Como consequência, a família ficou zangada com o sacerdote e o mais interessante para mim foi termos deixado de ir à missa, nem sábado, nem domingo.

Apenas uma pequena história no meio dos inúmeros episódios curiosos que ocorreram no imediato da revolução. Posteriormente as relações acalmaram, como previsível, mas a história é também feita de pequenas histórias.

25 abril 2026

A janela que Abril abriu


Em 1974 um sistema triste, retrógrado e sufocante caiu de podre. Não foi preciso muito esforço para ele se desmoronar completamente e a revolução conseguir uma enorme adesão popular. Num meio bafiento e asfixiante foi uma janela que se abriu e dessa abertura esperava-se um desapertar do país para uma realidade mais aberta, livre, justa e próspera (e sem guerra). Havia objetivos largamente consensuais entre a maioria da população simples e claros.

Como expetável o caminho específico e os destinos concretos seriam menos consensuais. Para desempatar essas divergências existe um sistema que é o pior sistema com exceção de todos os outros: a democracia.

Apesar de alguns sustos e ameaças, o 25 de abril cumpriu as expetativas globais e se onde estamos não é o local que muitos ansiaram em 1974, paciência. A janela abriu, ficou aberta, o país foi e será aquilo que os portugueses quiserem. De pouco serve hoje proclamar nostalgias românticas do que não foi e poderia ter sido. Olhemos para a frente, será mais útil e mais construtivo.

22 abril 2026

A tua tortura é pior do que a minha


Por estes dias tem sido notícia e polémica a contabilidade dos presos políticos de antes e depois do 25 de abril. O debate é temperado com argumentos sobre como se integra na comparação a diferença na duração entre 48 anos e 2 anos e em que medida os antecedentes e respetiva tensão acumulada atenuam a importância do fenómeno. São ponderações e contabilidades pueris.

A principal diferença que vejo é que relativamente ao Estado Novo é praticamente consensual terem existido presos políticos, torturas e outras barbaridades, sendo raríssimas as vozes que as desvalorizam ou tentam apagar. Quanto ao pós 25 de Abril, as leituras são muito mais relativizadas. É indiscutível que em 1974-75 houve atropelos graves e sistemáticos ao Estado de Direito e aos Direitos Humanos, devidamente promovidas e validades por altas hierarquias em funções. Não foram esporádicas escaramuças em contexto de excitações revolucionárias. Começaram em setembro de 74, cinco bons meses depois da revolução e não se autoextinguiram por normalização dos seus protagonistas, mas por um contragolpe em novembro de 75.

O facto de terem existido é grave e as tentativas de branqueamento por quem gosta de hastear a bandeira da liberdade e da democracia são imposturas hipócritas. Aqueles que ainda guardam respeito e admiração por figuras como Otelo Saraiva de Carvalho e o seu projeto de encher o Campo Pequeno de contrarrevolucionários, podem manter as suas convicções, não serão presos. Agora, assumam que não são democratas nem defensores da liberdade. Os do outro lado são mais claros nas suas opções e intenções. Procurar comparar as conta-correntes de Salazar e de Otelo é de interesse secundário. O mais importante é assumir que existiram e não devem voltar a existir.

14 dezembro 2025

Vice-Rei do Norte


Especialmente nesta altura em que ficou na moda desenvolver novas narrativas sobre o que foi e o que não foi o 25 de novembro, nada melhor do que ler quem o viveu e dele foi protagonista, melhor do que escutar o “disse que disse” de quem repete o que ouviu dizer, na parte que encaixa na sua narrativa preferida.

Esta autobiografia de Pires Veloso, onde obviamente o 25 de novembro de 1975 tem uma quota importante é obrigatória para quem se quiser informar.

O cognome de Vice-Rei do Norte, não é especialmente do meu agrado. Depende de como for pronunciado, com alguma simpatia e respeito ou com sobranceria e algum toque de desdém. Para começar não estamos em contesto monárquico, depois Pires Veloso não foi vice de ninguém. Em Lisboa é que existiam uns candidatos a vice czares. Um vice-rei presume existir algures um rei e aquele ser um personagem que com alguma autonomia governa um território distante.

E em 1975 o Norte e a cidade de Porto foram diferentes de Lisboa, mas não na perspetiva de uma terra longínqua e destacada. Pires Veloso teve sempre um olhar sobre o Portugal inteiro. Este Norte e a cidade do Porto, hostis às forças extremistas (daí catalogados de reacionários e fascistas) é o mesmo que em 1832, durante a guerra civil foi um bastião firme na defesa do liberalismo contra o absolutismo. Os genes são os mesmos. Podem contra-argumentar que esquerda-direita; revolução- contrarrevolução não estão no mesmo alinhamento, mas sim… A bandeira hasteada no Porto nas duas situações foi a mesma: Li-ber-da-de !

Pires Veloso acabou por pagar a sua coragem e integridade, mas penso que a fazer de novo, igual faria, sem se condicionar pelos golpes baixos que a corte, reestabelecida e legitimada graças a, entre outras, à sua contribuição, não hesitou em lhe aplicar posteriormente.

Sobre o conteúdo específico do seu testemunho, uma surpresa para mim foi o lugar de Ramalho Eanes. Tendo pouco ou nada intervindo no dia 25 é espetacular e oportunisticamente catapultado à primeira linha, numa encenação programada e realizada pelo grande maestro Melo Antunes.

Agora vou especular. Aviso colocado, concretizo… O Prec estava exausto, Vasco Gonçalves encostado e as reações populares, a começar no Norte, apontavam a um beco sem saída para aquele caminho; o golpe PCP do 25/11 é travado pela conjugação das forças de Pires Veloso, Jaime Neves e Força Aérea, sob o arbitragem de Costa Gomes e aí… Melo Antunes, conhecido por moderado, mas não necessariamente um democrata pluralista vai colocar a coroa de louros em Eanes que, do mal o menos, permitirá a continuação da influência comunista dentro do que era possível. O mui democrático Conselho da Revolução aguentou-se até 1982.

Dá para entender a alergia que alguns democratas de gema desenvolveram por Ramalho Eanes, especialmente Sá Carneio e em certa medida também Mário Soares.

Se houvesse uma biografia completa e detalhada de Melo Antunes, certamente muita coisa se aprenderia e melhor se entenderia o que aconteceu no país nesta época.

04 novembro 2025

O terceiro trambolhão do projeto comunista


Certamente que existem boas pessoas e muito respeitáveis que acreditam na bondade do sistema comunista. Certamente que haverá outras que, mais do que ser “por”, serão basicamente “contra” o “sistema” estabelecido. Certo também que século e meio depois de Marx ter formulados os seus fundamentos e de diversas aplicações práticas em distintas latitudes, longitudes, meios e culturas, não há um único exemplo de sucesso em termos de prosperidade sustentada e de liberdade das populações. Não vale a pela aqui detalhar e especular relações de causa-efeito entre comunismo e totalitarismo e repressão… o facto é que nunca funcionou.

Portugal pós 25 de Abril foi um alvo para a implantação desse sistema e felizmente a tentativa fracassou. A primeiro escolho foi o resultado das eleições constituintes de 1976 onde, com 91% de participação, o PCP mais o seu satélite MDP/CDE ficaram nos 16%, abrindo caminho à primazia da legitimidade democrática face à chamada legitimidade revolucionária, obviamente não democrática. A vontade livremente expressa do povo apontou a um caminho diferente do que alguns “revolucionários” defendiam.

Em seguida veio o 25 de novembro onde os comunistas entenderam e registaram que aquela tentativa de golpe, falhada, tinha sido a última e que não havia condições para outras iniciativas de tentar “popularmente” deitar a mão ao poder, pela força.

O livro acima representado, muito objetivo e bem fundamentado acaba por evidenciar um terceiro fracasso do comunismo. De assinalar que o período analisado no livro é anterior à passagem do autor pelo ministério da agricultura onde teve intervenção decisiva no encerrar do processo.

Muito interessante no livro é o detalhe das táticas de tomada de poder dos comunistas nesses tempos de transição. Depois, apesar da aparente dicotomia entre malditos latifundiários e desgraçados camponeses, é a importância que largas franjas do sector agrícola nacional, mesmo dos pequenos, teve na contestação às expropriações e coletivização em curso.

Finalmente há a falência do sistema, que definha e vai colapsando à medida que os generosos e indiscriminados apoios públicos desaparecem. Passa a ser necessário produzir mesmo o suficiente para pagar o fim do mês, dificuldade acrescida quando há “trabalhadores” impostos porque o sindicato decidiu. É o terceiro marco da falência do comunismo, o económico. Sobre o resultado possível caso o país não tivesse encontrado energia e determinação para se libertar desse destino, temos o exemplo soviético do Holomodor e da grande fome. Ver aqui

Para acabar e baralhar as conclusões, creio que o único exemplo de coletivização bem-sucedida são … os Kibutizim israelitas.. mas, ok, são gente diferente e, ainda por cima, pouco apreciada pelos atuais defensores dessas teorias.

30 agosto 2025

Ser comunista (VI)

 6)       O nosso PCP

Durante o Estado Novo, o PCP foi uma das forças mais bem organizadas e ativa na oposição ao regime, embora seja pena que muitos dos arquivos da Pide relativos a esse tempo tenham desaparecido. Há quem diga que embarcaram para Moscovo…

Nessa época, qualquer opositor era etiquetado com o anátema de “comunista”, uma certa generalização, da mesma forma como em 1975 um não comunista era marcado como “fascista”.

Houve coragem de quem ousou ser opositor e isso é de reconhecer. No entanto, não foi o PCP quem fez a revolução de Abril e a sua ação posterior foi pouco democrática. Não é aqui local para concretizar todas as formas como os comunistas se tentaram apropriar do regime, mas o condicionarem os partidos políticos legitimados democraticamente, incluindo o cerco da Assembleia Constituinte, e o tentar prolongar o poder do MFA e do “Conselho da Revolução”, são bons e simples exemplos.

A chamada legitimidade revolucionária pode ser necessária e eficaz no dia da revolução, quando um vazio criado tem de ser preenchido por alguém e não há tempo nem condições para constituir e dar poder a novos órgãos com outra legitimidade, mas a dita, revolucionária, esvaziar-se-á em seguida, de dia para dia, e tentar mantê-la permanentemente chama-se apropriação.

Não faltam por esse mundo fora países onde a legitimidade revolucionária de quem combateu o colonizador continua a validar a sua presença no poder por décadas e gerações. Por norma não são casos de sucesso no que diz respeito à qualidade de vida dos seus cidadãos.

Felizmente Portugal teve a maturidade suficiente para deslegitimar esta “legitimidade revolucionária” com muito pouco drama e sangue e, apesar de todas as deficiências atuais do sistema e dos partidos, estamos muito melhor do que estaríamos se tivéssemos ficado exclusivamente nas mãos dos marxistas puros e duros.

Tudo isto para concluir que ser comunista em Portugal pode ser invocar os pergaminhos das lutas passadas contra a ditadura, mas a sua ação em 1975 preparava outra – “Olhe que sim, olhe que sim!”. Não, não é um partido defensor da liberdade.

Deixando o passado, hoje o PCP é um partido que não fez a prova de fogo de estar no poder democraticamente e não sabemos bem como se comportaria se disso tivesse oportunidade. Aplicaria a cartilha original de Marx, a prática de Estaline ou o sistema de Putin?

Começou aqui

Continua para conclusão aqui

25 abril 2025

51 e 50 anos


Que se pode dizer 51 anos depois, para lá de fazer evocações do tipo como é bela a Primavera, quando as andorinhas retornam aos ninhos? O 25 de Abril cumpriu muitas das expetativas e esperanças criadas e deixou outras por cumprir. Cada qual tem a liberdade de evocar o que acha que podia ter sido e acabou não ser… Ao fim e ao cabo, haverá sempre coisas por fazer e é de saudar ser possível haver pluralismos nessas buscas…

Hoje apetece-me evocar os 50 anos das eleições de 1975. Nunca se viu, e provavelmente nunca se verá, tamanha motivação e empenho cívico como nesta participação de 91,7% dos eleitores inscritos. Tanta gente que esperou em intermináveis filas e não quis desperdiçar a oportunidade de expressar a sua palavra sobre o futuro do país. Sobre o respeito que certas “forças” manifestaram sobre essa assembleia tão esmagadoramente democrática, a discussão é outra.

Aliás, não esqueço de, ao visitar o Museu do Aljube, ter lido na legenda da ilustração desse momento que “Os resultados desiludiram os que defendiam um processo revolucionário avançado”… povo retrógrado este!

Das minhas queixas sobre o que falta hoje neste país, X ou Y anos depois de uma data qualquer, o que falta mesmo é coragem. Coragem de apresentar e defender frontal e honestamente reflexões coerentes e sãs. Coragem para pensar livremente e assumir os riscos inerentes. Coragem para distinguir humildade de subserviência. Coragem para dizer em alta voz… “o rei vai nu” quando ele se apresenta andrajosamente. Coragem para assumir aquilo em que se acredita.

25 novembro 2024

Onde estavas no 25 de Novembro?


Nesta data não houve uma revolução nem um corte definitivo com a tutela do MFA e do Conselho da Revolução sobre a vida política nacional, mas um passo importante para a consolidação de uma coisa chamada democracia e o fim da chamada “legitimidade revolucionária” que tantas ditaduras neste mundo instaurou, quando os (alguns) que lutaram contra um opressor se arvoram em “legítimos” herdeiros e donos do poder…

Do PS incluído para a direita, todos os partidos apoiaram o movimento. À luz das eleições constituintes de abril de 75, cerca 72% do eleitorado. Nas presidências do ano seguinte, o comandante operacional do movimento, Ramalho Eanes, é eleito Presidente da República à primeira volta com 62% dos votos. Ao longo dos anos, a esquerda pró-soviética e a extrema-esquerda nunca foram muito mais longe do que isso; hoje até são bastante menos.

Porque haveria de haver agora polémica com a data? Basicamente porque o projeto de poder do PS, a partir de 2015, inventou um alinhamento de forças e supostos princípios comuns com uma ampla “esquerda”, onde se incluem órfãos de Estaline e admiradores de Maduros… O PS de 1976 e de Mário Soares sabia que o PCP e Cunhal não eram democráticos e, se o espírito democrático permitiu que o PC continuasse a existir e a ir a votos, era importante impedi-lo de concretizar um projeto totalitário (olhe que sim, olhe que sim…)

Portanto, o PS deverá clarificar e definir-se. Ou é democrata, defensor da liberdade e condena inequivocamente os apetites autoritários dos herdeiros de Cunhal, ou assume efetivamente que tem algo em comum com eles e que o alinhamento na esquerda geringonça é ideologicamente genuíno.

Ou, então, deveria dividir-se em dois… senão, parece-me que anda uma metade a enganar a outra. Viva a democracia!

Atualizado a 27/11 com cópia da publicação no Público

16 outubro 2024

Mudar de dono


Com 15 anos de diferença, 2 países tentam sair de uma guerra que, de uma forma ou de outra nunca conseguirão ganhar. Protagonistas, 2 generais.

Sendo o quadro institucional, reconhecimento e poder de De Gaulle na França de 1960 de nenhuma forma comparável com o de Spínola em Portugal em 1974, há alguns pontos em comum, sobretudo na forma como o processo encerrou.

Os movimentos de “libertação” exigiram e conseguiram o estatuto de interlocutores únicos, em seguida adotaram o princípio do “ganhamos, é nosso” e nos casos de haver mais do que uma força em jogo, entraram a seguir em guerra civil mais ou menos longa… Democracia, nem vê-la; pluralidade racial ou religiosa, excluídas.

Talvez que se França e Portugal tivessem tido o discernimento de entenderem os ventos da história a tempo e dirigido o processo noutra direção mais cedo, o desfecho poderia ter sido diferente, não sabemos.

O que sabemos é que, como me disseram noutra latitude e noutra língua, a independência foi “Cambiamos de manos”.

Os povos, em nome dos quais foram levantados os movimentos de “autodeterminação” não foram tidos nem achados e não tiveram a mínima palavra no pós-independência. Mudaram de dono, sendo os novos donos de outra raça ou de outra religião. No final não ficaram necessariamente a viver melhor…

25 abril 2024

50 anos…


50 anos, é muito tempo. O 25 de abril é hoje uma data consensual na importância que teve para o país e na enorme diferença entre o antes e o depois. Menos consensual será a forma como é vista por cada um.

Certamente que mais importante do que apenas celebrar ou lamentar o que foi ou não foi feito, será refletir sobre o que se pode aprender e hoje fazer. O 25 de abril não foi um bilhete de lotaria premiado, que, lamentavelmente, alguém se esqueceu de reclamar a totalidade do prémio e agora choramos o que se perdeu no caminho.

O regime caiu prontamente, de podre, e podemos questionar como conseguiu sobreviver tanto tempo e atingir tamanha decadência. Não foi a luta dos antifascistas, que correram riscos em maior ou menor intensidade, que o atirou ao chão. A sociedade civil na sua larga maioria, com maior ou menor desconforto, não teve força nem empenho suficientes para o pôr em questão.

A revolução teve na causa próxima uma reivindicação de carreira dos capitães e encontrou largo apoio numa população saturada por uma espada de Dâmocles sobre a cabeça dos seus filhos, de uma guerra de baixa intensidade, mas de longa duração, que o regime se mostrou incapaz de resolver.

Hoje, vivemos um certo sentimento de podridão nas instituições e não queremos vê-la resolvida por capitães nem conselhos de revolução, nem tão pouco por irrefletidos e irresponsáveis populistas, assumidos ou disfarçados,

Hoje o “25 de abril” de que necessitamos é da exigência dos cidadãos face às instituições, para evitar a degradação do regime. Não se trata com (apenas) festas e flores uma vez por ano, mas que se celebre o 1974, vale sempre a pena. 

06 dezembro 2023

Por outros dias

Por estes dias celebrou-se um aniversário da morte de Francisco Sá Carneiro. Pondo de lado a vergonhosa incapacidade das instituições em investigarem e apurarem a causa direta e a fundamental do atentado (ver aqui), pode ser um momento de reflexão sobre o legado e personalidade de uma figura ímpar e determinante numa fase critica da história do país. O livro acima representado é uma interessante e instrutiva visita à sua vida e àqueles tempos.

Na altura era atacado como potencial fascista, quando o seu combate era o de retirar a tutela dos militares sobre os partidos, extinguir o Conselho da Revolução, rever a Constituição, e o aí decretado “caminho para o socialismo", e permitir a reversão das nacionalizações brutais de 1975. Visto a esta distância, estava errado? Certamente muito mais anti ditatorial do que aqueles que disso o acusavam.

No ponto de vista pessoal a integridade e frontalidade como assumiu a sua vida pessoal e amorosa são ainda hoje motivo de admiração. O grande progressista Mário Soares não hesitou em lhe dar uma canelada quanto à sua incapacidade de “governar a sua família”. Posteriormente, como primeiro-ministro, recusou-se a fazer passar uma alteração legislativa que lhe resolveria o problema do seu divórcio pendente, para não ser simultaneamente decisor e beneficiário.

Não convém olhar para Sá Carneiro como um imaculado herói cuja morte prematura santifica. No entanto há no seu desprendimento, sinceridade, irreverencia e clareza de princípios um exemplo que é importante realçar sempre e especialmente nos tempos que correm. Recomendo o livro.

 

20 outubro 2022

Neo-histórias de criancinhas ao pequeno-almoço


No tempo da antiga senhora diabolizavam-se os comunistas, insinuando que eles até comeriam criancinhas ao pequeno-almoço. Seria mais eficaz e responsável invocar a realidade do Gulag em vez de absurdas ficções de bicho-papão. Na mesma altura, naturalmente, quem não alinhava com a “situação” era um perigoso comunista, potencial antropófago.

Depois da revolução de abril, todos os que não aderiam ao Processo Revolucionário em Curso foram carimbados como fascistas e reacionários e sem mais discussão. Recentemente esta catalogação evoluiu para neoliberal.

O descrédito dos partidos tradicionais e a popularidade das propostas radicais não começou hoje, mas cresce a cada eleição que passa, prenunciando uma degradação dos princípios que fizeram a prosperidade, justiça social e qualidade de vida neste nosso mundo.

Obviamente que simplesmente apregoar o risco do regresso do fascismo quando há crescimento da extrema-direita é absurdo, redutor e irresponsável. O fascismo é outra coisa e invocá-lo -lo como bicho papão, cuja repulsa seria suficiente para diabolizar e travar popularidades perigosas tem credibilidade idêntica à dos tais pequenos-almoços. Descredibiliza quem o anuncia e, sobretudo, evita um escrutínio sério das origens do problema, no qual esses anunciadores levianos têm muitas responsabilidade e contas a apresentar.


25 abril 2022

Por estes dias de abril


Por estes dias de abril, voltaremos a recordar uma data em que coletivamente e de uma forma muita ampla e consensual o país acreditou, abraçou e brindou a uma mudança. Por estes dias de abril, iremos voltar a ouvir um discurso sectário sobre os chamados valores de abril, por parte de quem deles costuma abusivamente se tentar apropriar.

Por estes dias há uma guerra brutal em curso na Europa, fruto de uma agressão sem a mínima justificação e alguns desses expropriadores de liberdade e democracia estão a demonstrar claramente os seus valores, o seu projeto de sociedade.

Por estes dias de abril, vamos, talvez, uma vez mais, e só seria necessário para os muito distraídos ou intelectualmente míopes, ver uma separação das águas. O verdadeiro espírito popular de abril é solidário, apoia inequivocamente o sofrimento do povo ucraniano, condena a brutalidade do regime russo, a sua invasão de um país soberano, assim como denuncia a falta de direitos e liberdade na própria Rússia. O resto são cantigas de enganar, para quem as quiser ouvir.

24 junho 2021

O camarada Vasco


Com o centenário do nascimento de Vasco Gonçalves, vejo algo surpreso o branquear da cor do Primeiro-Ministro do Verão quente, colocando em evidência os avanços sociais ocorridos nesse período, tais como o estabelecimento do salário mínimo, dos subsídios de férias e desemprego e da licença de parto.

Sendo isso verdade, pode-se questionar se ocorreu graças a ele em particular ou se teria acontecido dentro da dinâmica da época, independentemente do PM em funções. Pode-se também olhar para outras coisas que se passaram nessa altura, como as suas posições quanto à não liberdade sindical a as pressões sobre a comunicação social desalinhada.

Um bom exemplo, foi o jornal República fundado em 1911 por um distinto republicano, António José de Almeida. Foi oposição e sobreviveu ao Estado Novo, mas soçobrou naquele Verão quente de 1975. Não vou desenvolver aqui os detalhes do que se passou, eles estão facilmente acessíveis a quem quiser saber, apenas o significado.

O PCP, através dos seus ativistas, com a cobertura do governo Gonçalvista, calou um órgão de comunicação social incómodo. Não foi um ato isolado, a Renascença sofreu as mesmas pressões, o DN teve uma série de jornalistas saneados pelo futuro Nobel e muitos outros periódicos viram areia cair nas suas engrenagens.

O caso República levou à saída do PS do governo e teve repercussões internacionais, forçando mesmo outros PCs europeus a demarcarem-se do seu homólogo português. Tudo isto no tempo do camarada Vasco, que não era democrata, nem defendia os valores de Abril partilhados pela larga maioria do povo português.

30 abril 2021

País de brandos costumes

Em abril de 1995, regressava eu a Bruxelas, após passar a Páscoa em Portugal, e boa parte da viagem fi-la em conversa com um senhor sentado ao meu lado, que viajava em circunstâncias idênticas. Trabalhava numa instituição europeia, estudando e acompanhando questões de segurança. Comentava ser um tema muito interessante e que a larga maioria das pessoas não imaginava o que se passava e podia passar nesse campo. Acrescentava que, por exemplo, no verão não ia querer estar em Paris.

Em julho desse ano rebentaram as bombas no RER em Paris e fiquei abismado com a antevisão. Se soubesse o que sei hoje, sobre as disputas em curso na altura entre a França e a Argélia a propósito da extradição de refugiados do FIS, a minha surpresa teria sido menor.

O senhor chamava-se Martinho da Cruz e informaram-me depois estar destacado em Bruxelas, por proteção, já que tinha sido um dos principais magistrados do processo das FP-25 – “O homem que prendeu Otelo”.

Nunca tinha ouvido falar dele antes. Revi o seu nome no livro acima representado, que me surpreendeu (o prefácio podem dispensar). A minha memória da dimensão das ações (e crimes) das FP 25 era bastante inferior à realidade. As bombas, os assaltos e os assassinatos teriam sido umas coisas avulsas, cada uma apenas mais uma e não prenúncio de outras seguintes. Não me recordo de as ver noticiadas como um verdadeiro, sério e estruturado ataque ao estado de Direito. Eram coisas lamentáveis, que lamentavelmente não deveriam acontecer e que, enfim, acabariam em breve, mais dia menos dia.

O envolvimento de Otelo começou a ser ouvido com descrédito e seguiu-se a estupefação. A população em geral via alguma incompatibilidade entre o homem que tinha arquitetado a nossa liberdade e a liderança de um movimento criminoso, desrespeitador das liberdades fundamentais em pleno regime democrático consolidado. Será por isso que o poder político muito polemicamente os amnistiou quando havia evidencias que até um cego podia ver?

Este livro tem a virtude de documentar esta história de vários milhões roubados, de uma dúzia de inocentes assassinados e de um processo que foi politicamente encerrado, num país de brandos costumes. Um processo em que quem mais perdeu, para lá das vítimas diretas, foi quem investigou e quem confessou, colaborando com a investigação.

Na última página fica um amargo na boca. Pela forma como o assassinato do Diretor Geral das Prisões foi desconsiderado pelas altas instâncias da altura; pela facilidade, antes como hoje, com que se criam imbróglios processuais, quando fatos e provas não faltam; pelo branqueamento político covarde quando a justiça devia ser cega e o poder político corajoso e pelo olvido com que a história foi embrulhada.

Quanto às motivações para na década de 80 se desatar a matar “fascistas”, é tema para outra estória.

 

24 abril 2021

25 de Abril sempre


De há uns anos para cá, temos tido mais um “sempre” associado ao 25 de Abril. Sempre se arranja uma polémica com as comemorações e, se a deste ano é particularmente original e caricata, a IL não poder participar por respeito às indicações da DGS, o fundo é o sempre o mesmo. Há quem queira reescrever a história, apropriar-se da data e isso é triste.

Para lá das razões imediatas que colocaram os militares na rua e da diversidade de motivações e de projetos que poderia haver, o 25 de Abril foi o que foi devido a uma enorme adesão popular. E esse povo todo, que votou livremente um ano depois, não estava todo de todo alinhado com o que alguns agora chamam o (seu) espírito de abril. A larga maioria não estava alinhada com os que cercaram e tentaram condicionar a Constituinte, boicotar a democracia, e que agora se arvoram em defensores da mesma e fiéis testamentários do tal (seu) espírito de abril.

Mas o que devia estar na primeira linha nesta data, não deveriam ser quezílias. A data é grande demais para isso. O fundamental deveria ser a preservação da tal democracia e respetiva qualidade. Não faltam exemplos, todos os dias, de podridões e corrosões na mesma. Corrupção, incompetência, compadrios, arrogância. Se estes problemas não forem endereçados a sério, e não a fazer de conta como têm sido, vale de pouco fazer de conta e vir à rua com o cravo vermelho uma vez por ano.

09 dezembro 2020

Desclassificar Camarate

 

Recordo-me daquele dia de dezembro em que o país atónito e apreensivo recebia a notícia do acidente de Camarate. Na jovem democracia, nunca algo de semelhante tinha ocorrido. O facto em si e as potenciais consequências assustavam. Recordo-me dos julgamentos sumários populares: - Foi um acidente! – Foi atentado! – Foram os comunistas! – Foi a CIA!

As conclusões oficiais e imediatas foram pelo acidente. Durante anos, associar a palavra atentado a Camarate foi tabu e motivo de indignação e insulto contra qualquer temerário que as evocasse. Dez (10!) comissões parlamentares de inquérito foram apontando para o atentado e evidenciando a falta de vontade e de eficácia da investigação criminal. Falou-se da questão de um eventual tráfico de armas que condenou o Ministro da Defesa e, por arrasto, o Primeiro-ministro.

Podemos imaginar que, na altura, assumir o atentado teria tido consequências devastadoras na ainda frágil democracia. Podíamos? O que não podemos, de todo, é passados 40 anos continuar sem saber o que realmente se passou antes, no dia e depois. Ainda falta vontade?  A revelação de toda a trama ainda fere alguém com poder para a travar? 40 anos depois, é obrigatório saber.


E ainda: 

Recordo-me da longa transmissão televisa das cerimónias fúnebres, em véspera de eleições. Arriscando fazer futurologia no passado: Tudo isto ajudou ou prejudicou o resultado de Soares Carneiro? Eu acho que prejudicou e acabou por confirmar uma derrota já previsível. Estas situações fortalecem os fortes e enfraquecem os fracos.

Soares Carneiro, sem chama nem carisma, “pau de cabeleira” da AD ficou adicionalmente exposto na sua fraca figura. Quem não queria votar nele, não mudou de ideias; quem estava na dúvida, em maior dúvida terá ficado ao vê-lo desamparado, sem tutela.


12 novembro 2020

Triste podium


O livro de António Barreto, “Salazar, Cunhal e Soares” é um interessante retrato dos três políticos que mais marcaram o século XX português. Não havendo muitas dúvidas sobre a pertinência da escolha, uma análise do perfil e da obra dos mesmos acaba por ser bastante deprimente sobre as grandezas e pequenezas (mais estas…) da nossa história recente e a herança que nos deixaram.

Para começar, a longevidade do Sr de Santa Comba. Vamos apostar que, sem o desgaste da guerra colonial, o regime não tinha caído, pelo menos naquela altura, pelo menos daquela forma tão rotunda? A esperteza oportunista em que tudo é pequenino e as lideranças se querem autoritárias, avaras e patriarcais não se institui em credo nominativo. Não há neossalazaristas que se vejam, mas o povo revê-se e aceita com alguma facilidade um líder austero e ditador, que faz e desfaz as regras como entende, controlando a distribuição de uns (poucos) rebuçaditos aos meninos. Um severo ministro das finanças é uma instituição recorrente e a respeitar.

Cunhal, paradoxal. Um partido dos que mais se proclamavam ao serviço do povo e do país, tentou anular a democracia e colocou os interesses de uma potencia estrangeira acima dos interesses nacionais como nenhum outro. A famosa coerência que tantos louvaram tem outro nome: teimosia cega e incapacidade/ desonestidade, típicas do maior cego. Certamente que se o “processo” não tivesse abortado em 1975, Cunhal teria ficado para a história numa galeria bastante diferente. Muito interessante o relato de Jorge Miranda sobre os tempos conturbados “Da Revolução à Constituição - Memórias da Assembleia Constituinte”.

Soares: a empatia e o mérito de ter lutado por um regime muito mais próximo do desejado e acarinhado pela larga maioria do povo, que se queria ver num modelo progressista, mas em meridiano mais ocidental. Este enorme espaço da esquerda moderada foi liderado por Soares, aproveitando também o trabalho de Salazar, que conseguiu colocar indeléveis dúvidas no povo sobre a natureza dos pequenos-almoços comunistas e a real harmonia dos respetivos amanhãs. Para lá deste Soares lutador pela democracia, há brigas a mais na sua vida e realizações a menos, distinguindo-se mais na disputa pelo leme e muito menos na qualidade da navegação, uma vez ao comando. Quanto ao seu lado lunar, não se fica a olhar para Soares da mesma forma após ler “Contos Proibidos – Memórias de um PS desconhecido” de Rui Mateus.

E vão três.


13 outubro 2020

O dia em que o PS morreu


 

Após o 25 de Abril, o PS tornou-se rápida e claramente o maior partido português. Para lá da empatia e bonomia de Soares, havia um grande desejo de mudança, de progresso e de justiça social, mas em contexto ocidental. Sábia a escolha do povo. Era a vontade de uma coisa assim tipo Suécia, quando o outro partido, que na altura ainda não se chamava social-democrata, para muitos cheirava um pouco à antiga senhora.

Hoje, esse PS está morto e não é questão de lamentar a ausência dos fundadores, não foram santos e limpos como muitos imaginam. E ao executor darei um nome: Sócrates. Se não há virgindade antes do mesmo, a escala deste é outra e a sua herança assusta. Independentemente do resultado do processo que corre na justiça, ele está politicamente acabado, mas tanta trafulhice não é nem pode ter sido obra de um homem só, por mais poderoso que fosse. Houve Sócrates e houve companhia.

E à morte darei um momento. Quando António José Seguro foi saneado pela companhia.

E hoje podemos passar a certidão. As mudanças na Procuradoria Geral da República e no Tribunal de Contas, para lá de coisas de importância formal menor, como Vitor Escaria no gabinete do PM, atestam que a companhia está pujante e bem instalada. Atestam que o se o cancro até pode ter nascido com Sócrates, não morreu com o seu afastamento.

O PS, tal como muitos o viam em 1974, está definitivamente morto e ai, ai os populismos! São uma séria ameaça.

Imagem: versão impressa no Público de hoje.