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30 agosto 2026

Mulheres de Ceuta


A invasão de Ceuta e o seu posterior dia-a-dia estão a ser um laboratório, mostrando o que pode resultar de uma abertura descontrolada das fronteiras a uma população culturalmente diferente. Penso que, no que diz respeito a “politicas migratórias”, irá existir na Europa um antes e um depois destes acontecimentos.

Conheço relativamente bem o norte de África e, desculpem lá a franqueza e incorreção, mas não sou muito sensível àqueles cartazes de quem pede/exige vir para a Europa, para ter mais oportunidades. Com o devido respeito e reconhecimento pelos bons profissionais que conheci, a uma esmagadora maioria da população jovem, alguma até com formação superior, faltava-lhe atitude, compromisso e confiabilidade para assumirem responsabilidades profissionais. Mais importante do que deficiências de formação, que se resolvem com algum esforço, encontrei falta de vontade de se dedicarem seriamente aos desafios profissionais. Certo que viver num sistema em que o mérito não é necessariamente um critério de valorização não ajuda. Muitas vezes éramos obrigados a deslocar técnicos de Portugal, que devido à expatriação custavam muito mais, pela simples razão de que não se conseguia fazer trabalhar corretamente os locais.

Curiosamente a percentagem de mulheres com bom desempenho profissional era muitíssimo mais elevado do que a dos homens. Quando elas se apresentavam para trabalhar era porque o queriam fazer mesmo e encontrar realização e autonomia. Não procuravam emprego por pressão familiar ou social, muitas vezes estavam precisamente contrariando essa pressão.

Muito diferente me parece também ser o enquadramento de algumas mulheres que arriscaram a travessia para Ceuta, ato que lhes requereu uma enorme coragem. Ouvindo relatos, muitas buscam apenas segurança e tranquilidade contra situações de violência doméstica e ausência de respeito pelos direitos básicos. O ponto é o seguinte: ou ignoramos o que se passa do outro lado das fronteiras, evitando as tradições acusações de ingerência neocolonialista, ou nos preocupamos com a sorte dos seres humanos na sua universalidade.

Se entregadores de pizzas ao domicílio já devemos ter suficientes, as oportunidades deverão ser oferecidas a quem esteja pronto a assumir compromissos e procure valorização, com esforço. É mais difícil do que andar a correr pela rua e a gritar pela Europa, mas é isso que devem entender. Não é com condescendências paternalistas e prevalência de más consciências do passado colonialista, que já acabou há mais de 50 anos que, teremos bons resultados. Quanto às (muitas) mulheres, parece-me ser um caso diferente. A fragilidade e a injustiça são muito mais elevadas.

06 agosto 2026

A medida da imigração


Frequentemente discute-se a imigração em termos absolutos e redutores: é boa porque isto; é má porque aquilo. Como é óbvio, nem todos os emigrantes são iguais qualitativamente em potencial e cultura, nem todas as escalas são equivalentes.

Por estes dias, os acontecimentos de Ceuta vieram colocar em evidência a falta de consistência dessas abordagens simplistas. A chegada daquela quantidade de pessoas a um espaço como Ceuta em dois dias é obviamente incomportável; se fosse a toda a Espanha durante 10 anos, seria diferente. Onde está o limite?

O limite está certamente na capacidade de integração sem transfiguração social. Um quadro venezuelano irá integrar-se mais facilmente do que um jovem marroquino, que não fala espanhol, nem tem formação. Os países que se identificam como Estados têm uma identidade e costumes em que os seus cidadãos se reconhecem. Evoluem, certamente, mas essas mudanças não podem ser brutais, nem colocar em causa valores basilares da sociedade recetora, neste caso, principalmente, a liberdade, a tolerância e a igualdade de direitos, para lá de alguns códigos sociais básicos, que também definem o ecossistema social. Em Portugal é normal atravessar uma rua fora da passadeira, na Suíça não. Um suíço não apreciará ver imigrantes portugueses transporem para lá essas práticas (apenas um exemplo simples e pacífico).

Nas causas de Ceuta, acumulam-se vários fatores, catalisadores e responsabilidades dos dois lados da fronteira e não é objetivo aqui analisá-los.

Queria apenas realçar que a política do “venham todos”, somos bonzinhos e “recebemos todos, todos” estourou na cara de Pedro Sanchez e de quem o defende. Supostas boas intenções ingénuas ou demagógicas não são solução para nada. Veremos se aprenderam! Vai uma aposta?

11 junho 2026

Anticlerical e laicidade


Foi Miguel Unamuno quem me chamou a atenção para Guerra Junqueiro. Um espanhol? Quem diria! Nem tanto. Unamuno é uma das mais ibéricas figuras culturais da península e entre a Salamanca onde ele finou e Freixo de Espada à Cinta onde Junqueiro nasceu, a distância, geográfica e não só, é menor do que entre elas e a capital do respetivo reino.

Como o português, Unamuno foi um ativista da mudança desencantado pelo resultado das revoluções que advogaram, o espanhol por duas vezes.

Uma das obras de referência de Guerra Junqueiro é este “A Velhice do Padre Eterno”, muito, muitíssimo anticlerical. Pode-se argumentar que ele tem razão, em parte. Em parte, o clero, e especialmente naquela altura, era merecedor dos seus mimos, ironias e sarcasmos. Certamente outros clérigos haveria íntegros e bem-intencionados.

Uma diferença fundamental entre a igreja de há um século e meio e a atual é hoje ter muito menos poder, fora daquilo que é o âmbito fundamental da religião. Acredito que os esforços, em parte brutais e excessivos, de travão às fainas sociais das sotainas, isso proporcionaram. Haveria outras formas, mais justas? Não sei.

Uma coisa sei e com boa certeza. Há uma religião que está a precisar de algum tratamento de choque análogo.

E, como ironia, transcrevo um dos poemas do livro, objeto da ilustração de capa acima representada.

PARASITAS

No meio duma feira, uns poucos de palhaços

Andavam a mostrar, em cima dum jumento,

Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,

Aborto que lhes dava um grande rendimento.

 

Os magros histriões, hipócritas, devassos,

Exploravam assim a flor do sentimento,

E o monstro arregalava os grandes olhos baços,

Uns olhos sem calor e sem entendimento.

 

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos;

Deram esmola até mendigos quase nus.

E eu, ao ver esse quadro, apóstolos romanos,

 

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,

Que andais pelo universo, há mil e tantos anos,

Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

20 abril 2026

Y Viva España


Vejo nas notícias em Portugal que o nosso Presidente da República está em visita oficial a Espanha, encontrando-se com o Primeiro-Ministro e o Rei. É a sua primeira viagem oficial ao estrangeiro.

Vou espreitar os jornais “hermanos” que acompanho, El País e El Mundo, deste até tenho assinatura, e na página principal nem sinais de AJ Seguro. Resolvo fazer uma pesquisa à palavra “Portugal” e os resultados são os da imagem. Incrível! Dois dos principais media espanhóis ignoram absolutamente a visita (a menos que esteja tão escondido que não vi).

De uma forma geral, Portugal é notícia em Espanha em três situações.

  • a)       Quando aqui ocorre uma desgraça
  • b)       Quando aqui ocorre algo de embaraçoso/vergonhoso
  • c)       Quando lá ocorre algo de embaraçoso/vergonhoso, em Espanha, e eles resolvem autoflagelarem-se dizendo: Vejam que até Portugal consegue fazer melhor do que nós

Curioso… e representativo

01 fevereiro 2026

Adamuz, a “Glória” espanhola


O recente descarrilamento e posterior choque de dois comboios de alta velocidade, em Adamuz, próximo de Córdova, provocou 45 vítimas mortais.

Irrita-me a imediata gestão política da desgraça. Os putativos responsáveis tentam logo “sacudir a água do capote” e lançar “narrativas” de abrigo, A oposição aproveita para clamar contra uma suposta incompetência generalizada. As vítimas mereceriam mais respeito.

Parece que uma fissura numa soldadura do carril terá sido a causa. Existem comboios laboratório que circulam regularmente pela rede, procurando detetar falhas como estas. Em situações análogas de alta velocidade, por exemplo em França, a periodicidade das passagens será de duas por mês. No caso de Espanha, o comboio antigo, o “Séneca”, está avariado e o novo, o “Doctor Avril”, ainda não está homologado. O carril em causa esteve 58 dias sem ser auscultado.

Aqui há algum perfume semelhante ao da tragédia do elevador da Glória, em Lisboa. Uma falha estrutural que “não podia” acontecer, práticas de manutenção aligeiradas e uma enorme distância entre os decisores de topo e a realidade do terreno. Quando falo em distância, não me refiro à sequência de níveis hierárquicos. É pior do que isso. É existir gente politicamente nomeada, cujo único mérito é terem bons padrinhos e que borboletam entre variadas entidades e empresas públicas, sem saberem muito bem o que andam a fazer ou o que deveriam assumir. Quando um desastre “fatalmente” acontece, lá correm a afirmar “Eu não fiz nada!”. Precisamente…

Quanto à eficácia sas entidades competentes na reação aos estragos da tempestade Kristin, esperamos para ver.

22 janeiro 2026

Adamuz, a “Glória” espanhola


Há poucos dias um descarrilamento e posterior choque de dois comboios de alta velocidade, em Adamuz, próximo de Córdova provocou 43 a 45 vítimas mortais. Ainda é cedo para conclusões finais, mas faltar uma parte do carril, conforme fotografia acima, e marcas nas rodas do comboio descarrilado e noutros que por ali circularam previamente, parece apontar para um defeito de soldadura.

Avarias podem sempre acontecer e é cedo para conhecer toda a sequência de fatos que terá produzido a tragédia e apurar responsabilidades. Há, por isso, algo que me irrita que é a imediata “gestão política” da desgraça, por outras palavras, os putativos responsáveis a tentarem “sacudir a água do capote”, ou a procurarem fazer circular “narrativas” de abrigo.

A ver vamos como isto fica à chegada. A Espanha institucional não é muito famosa pela transparência na comunicação (lembram-se do “Prestige” na Galiza, onde os galegos viam a TV portuguesa para saber o que se passava?), mas os tempos são diferentes.

Aqui há algum perfume semelhante ao da tragédia do elevador da Glória, em Lisboa. Uma grande tragédia por uma falha estrutural que “não podia” acontecer e uma enorme distância entre os decisores de topo e os técnicos do terreno. Quando falo em distância, não me refiro a sequência de níveis hierárquicos, é pior do que isso. É existir gente política e/ou politicamente nomeada que não tem “ni puta idea” do que andam a fazer ou do que deveriam assumir e que, quando um desastre “fatalmente” acontece, a prioridade é correr para o abrigo. 

13 janeiro 2026

Opus

Certamente que haverá muita gente boa e bem-intencionada associada ao movimento Opus Dei.

Quem se quiser informar (e não pelo “Código da Vinci”) encontrará facilmente alguns detalhes que farão franzir sobrolhos. Uma organização elitista focada no poder, abusos de poder e o degradante tratamento das auxiliares, coerções e limitações das liberdades dos seus membros, mortificações corporais e outros sacrifícios físicos algo medievais, manipulações tocando gente demasiado jovem para ser embarcada nestes projetos, roturas familiares pouco cristãs, altos jogos de xadrez no Vaticano apadrinhados por João Paulo II. Enfim, muita coisa muito pouco enquadrável e abençoável pelos princípios cristãos, sendo que, se Cristo voltasse à Terra, talvez os tratasse pior do que fez aos vendilhões do Templo. E, mais uma vez, todos aqueles que participam e acreditam estar num campeonato pio e meritório, tentem informar-se (se puderem) e ser objetivos.

Sobre o pano de fundo do colapso do Banco Popular, este livro faz uma viagem detalhada sobre a história da organização, visitando muitos dos detalhes que em grande parte já se conheciam. O que me deixou muito surpreendido e mesmo chocado foi, particularmente relativamente aos EUA, a facilidade com que milhões e milhões podem ser oferecidos e circularem sem o público saber bem quem paga o quê e para quê. É conhecido que por lá os donativos para as campanhas eleitorais, por exemplo, atingem dimensões astronómicas, chocando um pouco tentar imaginar o que os doadores estão a (tentar) comprar que possa justificar tais valores.

Quanto à sua entrada e influência nos meios académicos, entre estes e os wokes, o Diabo pode estar à vontade para escolher…!

Voltando ao Opus, resta esperar que o Papa Leão XIV continue os passos do Papa Francisco, refreando os ímpetos e o poder da organização, caso contrário parece-me existir um risco de vermos uma mutação da religião, com José Maria Escriva a substituir Cristo como figura fundamental e este a deslizar para partilhar o fundo da cena com Abrão.

Em conclusão o que me repugna fortemente são organizações, esta e outras semelhantes, utilizarem boas causas como simples engodo para projetos de poder, atraindo e enganando gente bem-intencionada.

Se alguém discordar, diga… 

Sobre estas reflexões de há 20 anos, pouco mudou...

11 julho 2025

Saber ou não saber


Quando em 2017 Pedro Sanchez se lançou á reconquista do PSOE, efetuou um longo périplo pelo país, no seu automóvel, acompanhado por três figuras próximas: José Luis Ábalos, futuro todo-poderoso ministro do “Fomento”, Santos Cédran homem forte da organização do PSOE e Koldo Garcia, o motorista, e posteriormente assessor de Ábalos.

Para lá de partilharem essa volta à Espanha a promover Sanchez, essas três figuras estão a braços com a justiça, gravemente implicadas num enorme escândalo de corrupção e de outras más práticas, relacionadas com o partido e o governo. Pedro Sanchez diz angelicamente que nada sabia e que para o futuro será mais prudente na escolha dos seus colaboradores próximos.

Por cá temos um ex-primeiro ministro em tribunal e esperemos que o processo seja rápido porque de espetáculos asquerosos já estamos cheios. Está bem que ainda não foi jugado, porque o tem tentado impedir de todas as formas, mas quem cabritos vende e cabras não tem… Além de outras práticas pouco habituais a quem gasta transparentemente o que ganhou decentemente.

No caso português, o problema parece ser apenas com o líder, e todos os seus colaboradores próximos nada viram, nada sabiam. Um mundo de diferença, ou talvez não…

06 julho 2025

O que matou Diogo Jota?


Dentro do largo noticiário e “comentariado” sobre a morte dos dois irmãos, há algo que me parece ausente, que é a razão do acidente. Certamente que conhecer as causas não os traz de novo à vida, mas o “positivo” das tragédias é, depois de identificar as causas, evitar a sua repetição.

Ouvi falar em rebentamento de um pneu e tal poderia ter a consequência ocorrida, mas, que diabo, não estamos a falar de um camião de uma empresa de transportes em insolvência cujos camiões usam pneus poli, multi recauchutados. Um desportivo topo de gama de um proprietário financeiramente são pode rebentar assim um pneu sem nenhum “ajuda” externa?

Não sei, não conheço suficientemente de pneumáticos nem do histórico de manutenção do Lamborghini, mas uma coisa conheço bem, é a infame A52 naquele troço e respetivo pavimento. Este é extremamente irregular e pleno de remendos mal-amanhados, que a tornam muito desconfortável, no mínimo.

Que um carro levezinho a alta velocidade tenha levantado voo numa daquelas irregularidades é extremamente fácil e provável. Foi isso, não sei, mas, se foi, a onda de solidariedade podia enviar alguns fundos para o governo espanhol colocar um piso decente naquela autoestrada e assim evitar novas tragédias. E, saber que foi isso, seria um sinal a navegadores futuros.

15 janeiro 2024

O silêncio e o respeito


De há uns anos para cá a fase final da supertaça espanhola é disputada na Arábia Saudita, vá-se lá saber porquê…

No passado dia 10 jogou-se uma das meias-finais entre o Real Madrid e o Atlético de Madrid. Antes do início da partida estava programado um minuto de silencio, em homenagem ao grande futebolista alemão, Franz Beckenbauer, recentemente falecido.

Na prática não foi de todo um minuto de silêncio, dado que as bancadas resolveram assobiá-lo do princípio ao fim. Li, depois, tratar-se de uma questão cultural. Dizem que o silencio pelos mortos não é tradição na região. Pode não ser, mas…

Será tradição pelo menos dos convidados que estavam no relvado e, mesmo não o sendo dos “anfitriões”, o respeito pelas tradições dos outros, especialmente pelo luto alheio, é daquelas coisas que não devia ser necessário muito esforço para respeitar.

Há uns anos estive em Londres em novembro, durante as celebrações do armistício da I Grande Guerra. Com tantos milhares de pessoas na rua, assistir ao silencio absoluto daqueles dois minutos foi uma experiência impressionante. Certamente mesmo para quem não tenha vivido e sentido a guerra, para quem não tivesse o hábito de momento semelhante, não havia alternativa senão ficar imóvel e em… silêncio.

Diferenças culturais… eles compram tudo e não parecem aprender nada.

17 janeiro 2023

Em volta dos rios

Os rios nascem na foz. A definição de um rio começa no ponto onde ele acaba no mar. Daí para montante há uma sucessão de entroncamentos onde se decide qual é o troço do próprio rio e qual é o afluente. Por exemplo, na Régua é muito claro que o Douro é o curso que continua a “subir” para o Pinhão e as linhas de água que chegam da direita e da esquerda são dois afluentes, o Varosa e o Corgo.

Noutras situações pode ser menos óbvio, se deve predominar o curso com mais caudal ou que se projeta mais longe. É o caso do Pisuerga nas proximidades de Vallodolid, onde segundo dizem os locais é ele que traz a água e é o Douro quem leva a fama…

A belíssima imagem acima Robert Szucs é muito interessante e demonstra claramente que mais do que um curso de água, um rio é uma bacia. Se olharmos para o ponto mais afastado do Douro (amarelo) relativamente à foz, considerando ser por ali a nascente, que percentagem da água que chega ao Porto saiu daquele local? Muito pouca…

Se olharmos para o Guadalquivir (roxo) é talvez menos óbvia a definição do tal ponto simbolicamente original da nascente do rio.

Este mapa das bacias pode também ser cruzado com o mapa dos reinos ibéricos. É curiosa a boa correspondência entre a bacia do Ebro (vermelho) e os antigos reinos de Aragão e de Navarra. Não será certamente por acaso. Relativamente a Portugal pode encontrar-se a fronteira do Minho e do Guadiana e a limitação interior do Mondego (laranja) e do Soraia (laranja claro), mas o Douro e o Tejo são duas grandes bacias parcialmente atravessadas no território.

O mapa das bacias é um mapa topográfico. É o relevo que faz os caminhos da água, mas também as maiores ou menores dificuldades nas deslocações das gentes. A capilaridade é a mesma. Os rios tanto podem gerar bacias agregadoras como limites e fronteiras. Podem unir ou dividir, formal ou informalmente. Gosto de ler rios…


28 outubro 2022

Há, mas é verde


O anúncio do gasoduto “verde” entre Barcelona e Marselha é uma história mal contada e se foi calculada ainda não o vimos. Em primeiro lugar estamos sem saber porque foi abondando o projeto anterior Midcat, para transportar gás natural pelos Pirenéus, sendo certo que as interligações energéticas na Europa são necessárias e que muita água ainda irá passar por pontes e barragens antes de o gás natural ser banido, como muito bem comportadamente já fizemos com as nossas centrais de carvão.

Depois, fazer um investimento desta natureza para algo que ainda não existe em dimensão que se veja, nem em produção, nem em utilização…!? Alguém fez as contas? E qual o papel de Portugal neste negócio? O hidrogénio verde é feito simplesmente a partir da eletrólise da água usando eletricidade de origem renovável. Por alma de quem vamos fazer isso aqui e enviar o hidrogénio a milhares de quilómetros? Não temos excedente de renováveis e a França até tem eletricidade barata a partir do seu parque nuclear. Alguém fez as contas a que custo o gás chegaria ao destino? Será economicamente viável? Ou vamos fazer as contas depois de se gastar uma pipa de massa no gasoduto?

Ou será isto apenas uma forma “esperta” de fazer um investimento em infraestrutura de gás natural, pintado-o de verde, para poder ser mais facilmente aceite e financiado? De qualquer forma, Portugal, seja pelo singelo terminal de Sines, seja pelo hipotético parque de produção de hidrogénio verde, que não existe nem se sabe como nem quando existirá, não tem nada a ganhar com isto. Apenas uma excelente oportunidade para queimar dinheiro.

27 maio 2022

Os judeus não reconhecem a nação? (II)


Continuação de Acusar

Quando se fala em antissemitismo e perseguição aos judeus na Europa é impossível não referir a Alemanha nazi. Este “nazi” vem de nacional + socialista. Sendo óbvio que de socialista o partido de Hitler teve pouco, a associação das duas palavras é algo incoerente. Apesar do aspeto comum da prevalência do poder do Estado, o socialismo é internacionalista e Hitler nunca pretendeu ser um pai de todos os povos; a ideia era mais “Alemanha acima de tudo e todos”. 

Penso que o caráter “menos nacionalista” e até um pouco “supra nacionalista” dos judeus é uma das razões que os tornam inimigos de estimação, especialmente para poderes autoritários que buscam uma homogeneidade cultural e religiosa entre os seus súbditos. Uma das acusações recorrentes contra os judeus é precisamente a de fazerem parte de uma conspiração internacional... estando implícita a insinuação de não reconhecerem completamente as autoridades nacionais.

Há alguns séculos os judeus foram expulsos de Espanha quase em simultâneo com o processo de unificação de Castela e Aragão, pelos oportunamente designados Reis católicos. Curiosamente em Portugal, nação mais consolidada, o processo equivalente surgiu como uma imposição dos vizinhos ibéricos e não por uma necessidade sentida internamente.

Continua para Religião ópio ou ?

21 janeiro 2021

Coisas de Mouros e Mouras


Já por aqui referi as duas visões simplificadas da presença e herança muçulmana por estes lados. Um destes dias resolvi espreitar o que se diz sobre o tema em terras irmãs. Encontrei algumas semelhanças. Na forma como os reinos cristãos procuram uma afirmação hegemónica cultural menorizando essa herança nos atos e na narrativa histórica e também na forma como caçadores do exótico, hipnotizados pela diferença perdida vêm herança mesmo onde ela nunca existiu.

E encontrei duas Espanhas. Um na zona onde a permanência foi longa e após a reconquista persistiram comunidades muçulmanas. Comunidades não integradas e supostamente colaborantes com os piratas mouros do norte de África que saqueavam e capturavam escravos na costa levantina. O facto de Granada ter ficado muçulmana ainda dois séculos após a reconquista principal, contará bastante para a persistência dessas comunidades, a sua visibilidade e conflitualidade. Chegou a ser decretada em 1609 uma ordem de expulsão formal dos mouriscos de Espanha, que se encontravam principalmente no Sudeste, especialmente por Valencia e Aragão.

Depois, há a outra Espanha, onde os muçulmanos foram efetivamente mais uma passagem do que uma presença, especialmente na Galiza. Aí mouros e mouras são um elemento fantástico, não necessariamente de carne e osso. Vivem em poços, fontes, enterrados na terra e, mais do que pelas espadas e adagas, se receiam pelos encantamentos e fenómenos sobrenaturais. Coisas estranhas e inexplicáveis são candidatas a “coisas de mouros”, muitas vezes refletidas na toponímia.

Em Portugal encontra-se certamente o equivalente desta visão galega, mas muito menos a outra. Não sendo especialista, não me recordo de ver referencias a relatos de tensões e rebeliões envolvendo comunidades muçulmanas pós-reconquista, muito menos no século XVII. Porquê? Certamente o além do Tejo, onde a presença foi mais longa, teria uma dinâmica e importância (e demografia?) incomparavelmente menores do que a costa levantina e isso conte para alguma coisa… tema a seguir

01 dezembro 2020

De charanga y pandereta


Este título faz parte de um poema irónico e corrosivo sobre uma certa Espanha caricatural e retrógrada, escrito pelo andaluz António Machado (1875-1936). Encontrei-o num CD de Joan Manuel Serrat, de músicas feitas sobre textos do poeta, sendo a mais famosa a do “Caminante no hay camino, se hace camino al andar” e revi-o mais recentemente citado num livro sobre a Andaluzia, antes, durante e depois do domínio muçulmano: Andalousie, Vérités et Legendes, por Joseph Perez.

Lá como cá, esse período da história tende a ser visto de forma redutora, seja como um desvio pontual e rapidamente normalizado, seja como um período culturalmente rico que as armas castraram. Uma realidade que ultrapassa 5 séculos é naturalmente muito mais complexa e este livro veio-me parar às mãos no processo de mais aprender sobre o tema, mas esse não é o tema de hoje.

Sobre a imagem “típica” do flamengo, ciganos e touradas, da “charanga y pandereta”, diz J. Perez que sua popularidade cresce numa certa franja da população espanhola e muito fortemente na Andaluzia, como reação à tentativa de modernizar e de trazer ao país as luzes europeias, um efeito colateral das invasões napoleónicas do início de século XIX. Enquanto o pé direito carrega no acelerador, promovendo uma certa (a sua) ideia de evolução e modernidade, o esquerdo trava, reforçando a ligação ao passado e à especificidade local, contrariando o importado (para a imagem ser mais feliz, talvez os lados dos pedais devessem ser permutados).

É um processo relativamente comum de reação à mudança, especialmente presente em muitas comunidades expatriadas, que tanto se podem integrar, como amplificar o seu arreigo à identidade e cultura originais. Quanto mais me querem impingir hambúrgueres, mais aprecio a posta mirandesa. Menos ironicamente, podemos recordar como o Estado Novo utilizou e promoveu uma certa imagem da “cultura popular”, para bloquear o interesse e incentivar a falta do mesmo por coisas mais “modernas”…

As tradições tanto podem ser fonte de riqueza e raiz fecunda, como um lastro que atrasa a evolução. O empurrar a modernidade tanto pode ter como consequência um efetivo e positivo progresso como o enquistamento e um retrocesso nocivo. Nem o povo se educa e se desenvolve por decreto, por muitos iluminados que sejam/se julguem ser os legisladores, nem o congelamento em referências antigas tem futuro. Obviamente… ! E em nada ajuda a religião do fraturar, que tantos gostam de praticar…  quase um século depois, continuando a citar Machado, lá continuam e dificilmente reconciliáveis “las dos Españas”.


10 dezembro 2019

E o ambiente, pá ?



O ambiente está a passar de causa para religião e, como naquelas religiões onde muitos bons fiéis fazem trinta por uma linha durante a semana e depois se vão purificar na reza semanal, aqui também começamos a ver coisas parecidas.

Que dizer dos ativistas portugueses que se deslocam a Madrid para participar numa manifestação em defesa do ambiente? Que dizer do ator espanhol Javier Bardem que insulta o presidente da camara de Madrid por insensibilidade ambiental, quando ele próprio utiliza uma carripana (ver imagem) equipada com um motor de 5,4 litros e a gastar 17 litros aos 100? Tudo muito coerente, sem dúvida.

Agora descobriu-se que o transporte marítimo gera muito CO2. Sim e o terrestre e o aéreo também. Sim, há e haverá comércio mundial e deslocação de trabalho e de lazer… e de ativistas do ambiente, nem todos em sofisticados veleiros só ao alcance dos muito ricos. Sim, mas, como eu refletia aqui em 2006, fará sentido enviar maçãs da américa latina para a Europa por avião? Faz sentido que na minha zona de residência, fértil, não se encontre no supermercado local cebolas locais, nem sequer nacionais? Não, não faz, eu não compro e até já apresentei reclamação.

Há coisas que fazem sentido, outras não e estou certo de que não é de certeza com este nomadismo ativista e a participação em comícios excitados que a coisa lá vai. Temos muitos hábitos e comodidades que nos custará a abandonar, é certo, mas tem que ser por aí. Pela prática no dia a dia, de forma esclarecida e coerente, não por uma eventual boa consciência de ter ido a uma manif no domingo, mas pela frugalidade quotidiana.

07 agosto 2018

Bulas académicas


“Segundo relatou o próprio “X”, quando rebentou o escândalo, teria acordado pessoalmente com o responsável do curso umas condições vantajosas para obter o diploma. Não precisava de ir às aulas. Não precisaria de apresentar tese final. Teria equivalência inicial a 18 das 22 cadeiras do curso, correspondente a mais de 80% de toda a matéria e 2/3 dos créditos exigidos. As restantes 4 seriam aprovadas apresentando uns trabalhos que somaram apenas 95 folhas no total.”

Quem será este “X”? Um Relvas ou algum jotinha que se desenrascou para ter um canudo expresso? Não. Trata-se de Pablo Casado, recentemente eleito líder do PP espanhol. Não começa com o pé direito… “Contigo cresce Espanha”, está escrito no púlpito.

O relato do contexto deste percurso académico no Instituto de Direito Público da Universidade Rey Juan Carlos inclui outras anedotas deliciosas, como gente que teve direito a diploma, desconhecendo até estar inscrito no curso.

Pode-se traficar saber, esforço e mérito por estes arranjinhos, remunerados em numerário ou em espécie, a pronto ou a prazo? Pelo princípio, obviamente que não. Descredibiliza e desautoriza quem devia ter um comportamento eticamente exemplar.

Se numa empresa normal alguém for contratado apresentando habilitações falsificadas, o mais certo é ir para a rua no dia seguinte a isso ser descoberto. Os políticos são, de certa forma, contratados por nós e, como tal, passíveis de escrutínio e merecedores de intolerância face à falta de seriedade. Lá como cá, à esquerda, à direita … e vice-versa.


Fotografia EFE

18 junho 2018

Essa coisa do árabe


Por um lado, a utilização da palavra “árabe” é frequentemente imprecisa e, por outro lado, a evocação da “presença árabe” na Ibéria é muito fantasiada.

Arábia é a península entre o mar vermelho e o golfo pérsico. Tendo o Islão e o seu profeta aí nascido e a religião daí se expandido, generalizou-se uma equivalência forçada entre muçulmano e árabe. Os povos conquistados e colonizados sofreram uma enorme influência, mas isso não significou assimilação completa com anulação de especificidades e culturas, havendo também, evidentemente, diferenciações nas evoluções posteriores. Por esse princípio nós, e muitos mais, seriamos hoje simplesmente “romanos”.

A generalização é ajudada pelo facto de que para um muçulmano ser “árabe” é partilhar a etnia do seu profeta principal. Esta tendência é reforçada ainda pelo conceito da nação global e única, seja a histórica Umma (comunidade de todos os crentes), sejam os mais recentes projetos pan-arabizantes como o de Nasser, a partir do Egito. Por falar neste país, como explicar que um egípcio se assuma principalmente como “árabe”, quando a cultura e a história do seu país dão vinte a zero à das tribos nómadas vizinhas? O mesmo se pode dizer dos naturais do Mashrek (Levante) berço da civilização e até da escrita e do Magreb (Poente) muito mais próximos culturalmente da Europa do Sul do que dos nómadas do Hejaz (interior da tal península).

Do lado de cá, até os mais preocupados com o “outro”, apelando ao respeito pela sua identidade e cultura, não hesitam em correr toda a gente com a etiqueta de “árabe”, desde Casablanca até Damasco. Errado, muito errado. Uma generalização pouco esclarecida e desrespeitadora da diversidade cultural existente.

Sobre a presença na Ibéria dos “árabes”, cruzam-se dois romantismos. Há o dos invasores, usurpadores, que entraram por aqui à má-fila, sem terem direito para tal, obrigando a malta séria a refugiar-se num sótão, lá nas Astúrias, para depois heroicamente repor a normalidade.

O outro romantismo é o da nostalgia da herança perdida. Como se com a conquista dos castelos, todo o conhecimento que chegou e se criou naquele tempo tivesse sido embalado e viajado para fora da península, perdendo-se irremediavelmente essa herança exótica. A sério…?!

Duas visões grosseiramente simplificadas. Não foi assim tão simples, nem tão compartimentado, nem tão rápido. Tarik atravessou o estreito em 711 e a reconquista definitiva das principais cidades ocorreu nos 1240s, excluindo Granada que aguentou mais dois séculos. Fazendo as contas, são cerca de 530 anos. Recuando esse intervalo de tempo a partir de hoje, Vasco da Gama ainda não teria chegado à Índia. Esses séculos não foram sequer um período homogéneo, mas uma sequência de vários distintos: dependência dos Omíadas de Damasco, califado autónomo, taifas, califado Almorávida, de novo taifas e, por fim, o califado Almóada.

E se se falasse e estudasse isto, colocando no devido lugar a Arábia e os seus camelos?

11 outubro 2017

A Catalunha e os donos da razão



Independentemente da contabilidade de razões e erros de parte a parte, tomar decisões com o impacto das que foram tomadas recentemente na Catalunha, com base no que se passou a 1/10 é coisa de "donos da razão". São uma espécie para quem os “errados” têm apenas o ténue direito a existir e a calar, já que serão inimigos mal-intencionados ou, no melhor dos casos, mal-esclarecidos. Mesmo que exista uma maioria de “errados”, de opinião diferente, primará a visão de que estão “errados”.

Para os donos da razão, só há um caminho possível, o deles, o “certo”. O que se pise e destrua para lá chegar, é irrelevante, face ao grande desígnio final. Democracia e respeito pelas instituições valem enquanto servirem os objetivos; se se tornarem um obstáculo, será necessário tirá-los do caminho, como se faz a qualquer coisa que se atravesse na nossa frente.

Os donos da razão tornam-se muito perigosos quando chegam ao poder. Nesta Europa, com a subida dos extremismos, os partidos tradicionais começam a sucumbir à tentação de vender uma parte da alma ao diabo. Mesmo sendo parcial, essa transação envenena espíritos e destrói a cultura democrática e de respeito pelas minorias (já sem falar das maiorias). Que impere o bom senso e se guardem os valores de tolerância e os princípios garantes da liberdade que tanto prezamos. Senão, entraremos em tempos sombrios.

14 junho 2017

Aconteceu na Argélia


A Argélia é um país particular onde, por vezes, acontecem coisas um pouco difíceis de catalogar no vocabulário geral. Ficam assim conhecidas por “acontecimentos”. Há uma sequência de acontecimentos a começar em 1 de novembro de 1954 e acabar nos acordos da independência de Evian em 19 de março de 1962, embora algumas coisas ainda tivessem acontecido entre fações internas, depois da retirada dos franceses. Poder-se-ia ter chamado uma “guerra da independência”, mas tal não é consensual.

Mais recentemente ocorreu outra série, a começar em 11 de janeiro de 1991, com a suspensão do processo eleitoral que daria a vitória aos islamitas, e acabar, oficialmente, talvez na concórdia civil de setembro de 1999. No entanto, a agitação social começara antes, em meados da década de 80, e ainda hoje acontecem coisas. Poder-se-ia chamar “guerra civil”, mas foi muito mais e pior do que isso. Década negra é boa uma aproximação.

Na minha investigação do tema, onde há grandes histórias arrepiantes e também pequenas histórias mais felizes, passou-me agora este livro sobre a fuga do tenente Alili Messaoud. Em resumo, este piloto de helicópteros fugiu para não ter que disparar sobre o que não queria. Sozinho num helicóptero que supostamente precisa de um mínimo de 3 pessoas para voar, atravessou o Mediterrâneo entre a Argélia e as Baleares, a baixa altitude, quando o aparelho não estava sequer previsto para voar sobre água.

Aterrou no aeroporto de Ibiza, sem ser incomodado, depois de uma breve escala numa praia de Formentera, onde questionou um casal atónito de nudistas sobre a direção a tomar para o aeroporto, que não constava no seu mapa!

O livro em referência conta a história do tenente Alili Messaoud, antes e depois daquela loucura. Simples, mas vale a pena. Sobre os acontecimentos da tal década, fica a sugestão (e o conselho de não voar com eles para a Argélia…)

  • Qui a tué à Bentalha – Nesroulah Yous 
  • Chroniques des années de sang -Mohamed Samraoui 
  • La sale guerre - Habib Souaidia 
  • Dans les geôles de Nezzar - Lyes Laribi 

A escolher apenas um, o primeiro, de um habitante da aldeia massacrada, com o contexto dos anos anteriores e o relato minuto a minuto daquela noite bárbara de 22 para 23 de setembro de 1997. Uma nova circular da grande Argel, passa mesmo ao lado do bairro de Haí El Djilali, onde a atrocidade ocorreu. Impossível não ficar silencioso.